Enurese Noturna
Nocturnal Enuresis
Trabalho realizado pela Unidade de Nefrolo- gia do Instituto da Criança "Prof. Pedro de Alcántara" do Hospital das Clínicas da FMUSP e pela Divisão de Pediatria do Hos- pital Universitário da USP.
* Assistente da Unidade de Nefrologia
** Neuropediatria do HU.
***Professor Associado do Departamento de Pediatria da FMUSP e chefe da Unidade de Nefrologia.
Vera H. Koch * Jesse M. Navarro **
Yassuhiko Okay ***
Definição
Define-se enurese como a elimi- nação involuntaria de urina pela criança em idade na qual o contro- le vesical já deveria estar presente.
Este limite de idade é, na verdade, arbitrário e decorre do fato de con- siderar-se que após 3 anos de ida- de a maioria das crianças com de- senvolvimento neuropsicomotor adequado deve apresentar contro- le vesical diurno. O controle mic- cional noturno estabelece-se, em geral, antes dos 6 anos de idade.
A enurese pode ser exclusivamen- te noturna ou diurna e noturna.
Denomina-se enurese primária a perda urinaria noturna em pacien- tes que nunca chegaram a apresen- tar controle vesical prévio por pe- ríodo prolongado. A enurese secun-
dária é caracterizada por recidiva da perda urinaria involuntária, após período de controle miccional de pelo menos 6 meses 57 .
Epidemiología
A prevalência de enurese notur- na é muito variável em diferentes populações. Esta variabilidade é pro- vavelmente, devida às diferentes expectativas e condutas sociais de cada grupo populacional e às defi- nições diferentes do problema, enunciadas pelos diversos autores (Tabela 1).
A enurese é, em geral, mais co- mum em meninos até os 11 anos de idade. Depois, a diferença de prevalência entre ambos os sexos não é mais significativa 36 . A preva- lência de enurese noturna diminui com a idade e a taxa anual de cura espontânea é de 14% entre 5 e 9 anos de idade, e de 16% para aque- les entre 10 e 18 anos de idade 8 . Aos 15 anos de idade, apenas l a 2% dos adolescentes apresentam
enurese noturna 18 . Trata-se de um problema gerador de ansiedade pa- ra a criança e sua família n mas acre- dita-se que, em média, apenas 30%
dos casos chegam a procurar trata- mento médico 39 .
A enurese noturna parece ser mais freqüente em populações de baixa renda e em famílias numero- sas 39 em crianças institucionalizadas, com treinamento esfincteriano ina- dequado e em primogênitos 12 . Apro- ximadamente 15 a 20% das crian- ças com enurese noturna apresen- tam, também, enurese diurna, por- centagem esta que cai rapidamen- te após os 5 anos de idade 9 .
A distribuição de crianças com
perda involuntária de urina, segun-
do a faixa etária, foi investigada
em um estudo longitudinal de 1265
crianças, acompanhadas periodica-
mente em nível ambulatorial 16 . Veri-
ficou-se que, após os 5 anos de ida-
de, 50 a 60% das crianças com per-
da urinaria noturna não tinham ain-
da adquirido controle esfincteria-
no adequado e as demais apresenta-
vam enurese secundária. A par- tir de 8 anos de idade, 3-3% ain- da eram enuréticas primárias, mas a prevalência global de enu- rese noturna para esta idade era de 7.4% devido aos casos de enurese recidivante ou secundá- ria.
O mesmo estudo mostrou, em adição, vários fatores preditivos de atraso no desenvolvimento de controle esfincteriano vesical: histó- ria familiar de enurese, ritmo len- to de desenvolvimento neuropsico- motor e número elevado de horas de sono durante o primeiro ano de vida.
Etiología
A enurese noturna, primária ou secundária, deve ser encarada, pre- ferencialmente, como um sintoma e não como uma doença. Em geral, não há uma origem única e comum do problema para todos os pacien- tes. Ao contrário, a enurese pode resultar de múltiplas causas, conco- mitantemente. O importante é salien- tar que o paciente com enurese no- turna isolada, raramente apresenta base anatômica, neurológica ou psi- quiátrica passível de tratamen-
to