TÍTULO: AVALIAÇÃO DA PRESSÃO INTRAOCULAR EM CÃES SUBMETIDOS AO PNEUMOPERITÔNIO COM CO2
TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:
SUBÁREA: MEDICINA VETERINÁRIA SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE DE FRANCA INSTITUIÇÃO:
AUTOR(ES): MARINA ROCHA DOMICIANO AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): CRISTIANE DOS SANTOS HONSHO, DANIEL PAULINO JUNIOR, EWALDO DE MATTOS JUNIOR, PEDRO PAULO MAIA TEIXEIRA
ORIENTADOR(ES):
COLABORADOR(ES): KARLA MENEZES CARDOSO, LILIAN TOSHIKO NISHIMURA, THAIS NAKANE RIBEIRO
RESUMO
Diversas intervenções videolaparoscópicas requerem insuflação abdominal, a fim de facilitar o acesso a órgãos alvo que pode culminar com o aumento da pressão intraocular (PIO), a pressão arterial média (PAM) e a pressão parcial de oxigênio no sangue arterial. Com isso, objetivou-se avaliar a PIO de cães submetidos ao pneumoperitônio, isoladamente, sob uso de um protocolo anestésico. Oito beagles hígidos, machos ou fêmeas, dois anos de idade, pesando entre 13 e 18 kg foram induzidos à anestesia com propofol, mantidos com isoflurano e em decúbito dorsal em plano horizontal. A cavidade abdominal foi insuflada com CO2, à pressão de 10
mmHg. A PIO, as pressões arterial média (PAM), venosa central (PVC) e parcial de CO2 no sangue arterial (PaCO2), frequências cardíaca (FC) e respiratória (FR) foram
aferidas, nos momentos: antes da insuflação (TIS); cinco (T5DI); 30 (T30DI) e 60 (T60DI) minutos após a insuflação. Os dados foram submetidos à ANOVA one way, seguido pelo teste de Bonferroni para amostras múltiplas para comparação entre momentos. O nível de significância adotado foi de 5%. Não houve diferença na PIO entre os olhos direito e esquerdo e ao longo do tempo. A PAM, a PaCO2, a PVC, FC
e FR não diferiram entre os momentos. Concluiu-se que o pneumoperitônio de 10 mmHg não influenciou a PIO e demais variáveis cardiorrespiratórias em cães anestesiados com isoflurano.
INTRODUÇÃO
Em humanos, a perda da visão após cirurgias não-oculares é uma condição rara, porém relatada em intervenções de longa duração com o paciente mantido em decúbito ventral (TSAMPARLAKIS et al., 1980; AGHAH et al., 2011; MOLLOY, 2011; PINKNEY et al., 2012; NICKELS et al., 2014) ou lateral (MOLLOY, 2011), naqueles com doença cardiopulmonar pré-exitente, casos de excessiva de sangue, hipotensão ou hemodiluição, questões vasculares individuais entre outras, ou de modo geral, situações que influenciem a pressão pefusão no nervo óptico (TSAMPARLAKIS et al., 1980; AGHAH et al., 2011; MOLLOY, 2011; PINKNEY et al., 2012; NICKELS et al., 2014). Apesar dos relatos na literatura sobre o aumento da PIO, em cães (BROADWATER et al, 2008), equinos (KOMÁROMY et al., 2006) e coelhos (LENTSCHENER et al, 1998) sobre o aumento da pressão intraocular (PIO) devido ao pneumoperitônio, não se encontram dados na literatura a cerca da
utilização da videocirurgia em cães enfatizando tais alterações e a ocorrência de perda visual.
Honsho et al. (2013) verificaram que gatas após 15 a 30 minutos do estabelecimento do pneumoperitônio insuflação apresentaram um incremento da PIO, foram empregados neste estudo midazolam, meperidina e cetamina e ressaltaram que a influência anestésica foi um fator limitante na concretização dos dados. Com isso, decidiu-se com este estudo, avaliar o comportamento da PIO de cães submetidos ao pneumoperitônio, sob um protocolo único.
OBJETIVO
Verificar se o pneumoperitônio influencia a PIO, a PaCO2, a PAM, a PVC, a FR
e a FC de cães da raça beagle, submetidos aos pneumoperitonio com 10 mmHg de CO2.
METODOLOGIA
Foram utilizados oito cães, machos (n=4) e fêmeas (n=4), da raça beagle com 2 anos e 6 seis meses de idade, pesando entre 12 a 18 kg, endogâmicos, provenientes do canil experimental do Hospital Veterinário da Universidade de Franca, UNIFRAN/SP. A higidez dos mesmos foi comprovada por meio de exames físico e laboratorial.
Os animais foram induzidos à anestesia com propofol (10 mg/kg, IV), entubados conectados ao circuito anestésico e mantidos sob anestesia geral com isoflurano diluído em oxigênio à 100%, com fluxo de 200 mL/kg/min, em circuito anestésico com reinalação de gases. Mantendo-se todos os animais a ventilação espontânea e o decúbito dorsal, com o focinho apontado para o teto. Após preparo asséptico, cateter intravenoso n° 14, foi utilizado para transfixar pele e musculatura abdominal, sobre a cicatriz umbilical e conectado ao insuflador para instauração do pneumoperitônio com CO2 à 10mmHg.
A PAM foi aferida pelo método invasivo através da artéria tarsal. A PVC foi obtida utilizando-se cateter central 14G mediante acesso venoso na veia jugular direita até, o átrio direito, o qual é verificado por meio de uma coluna hídrica. Após o término, empregou-se a técnica asséptica para o manuseio do sistema. A FC foi avaliada por eletrocardiógrafo computadorizado, analisando o intervalo da onda R-R durante 1 minuto ajustado para leitura em derivação DII. A FR foi avaliada
contando-se os movimentos do gradil costal do ciclo respiratório durante um minuto. A PIO foi avaliada pela tonometria de aplanação, após a instilação de uma gota de colírio anestésico a base de proparacaína a 0,5%. O equipamento foi calibrado previamente ao começo da coleta dos dados conforme instruções do fabricante. Foram realizadas pelo menos três aferições, cujo registro foi considerado somente quando o erro informado pelo equipamento for menor que 5%.
Os parâmetros foram avaliados e registrados nos momentos: antes da insuflação abdominal (TIS) e aos 5 (T5DI), 30 (T30DI) e 60 (T60DI) minutos após a insuflação.
Ao término do procedimento, os animais recebem dipirona sódica (25 mg/kg, IM) em dose única e mantidos sob observação durante 48 horas para avaliar possíveis lesões decorrentes da inserção do cateter na cicatriz umbilical, no entanto
RESULTADOS
A tabela 1 sumariza os valores obtidos da PIO, PAM, PVC, FC, FR e PaCO2 nos momentos TIS, T5DI, T30DI e T60DI.
Tabela 1. Resultados (médias ± desvio padrão) da pressão intraocular (PIO, em mmHg), pressão arterial média (PAM, em mmHg), pressão arterial de dióxido de carbono (PaCO2,em mmHg), pressão venosa central (PVC, em cmH2O) frequências
cardíaca (FC, em bpm) e respiratória (ƒ, em mrm), de Beagles anestesiados com isoflurano, posicionados em decúbito dorsal, submetidos ao pneumoperitônio com 10 mmHg com CO2, em diferentes momentos.
PARÂMETO TIS T5DI T30DI T60DI
PIO 23,62±2,07 23,46±1,84 24,83±3,30 23,06±2,27 PAM 84,38±9,20 91,88±13,45 96,25±12,98 91,75±13,42 PVC 1,13±2,95 1,56±2,24 0,23±1,45 1,06±1,97 FC 131±11 132±12a 133±16a 130±12 Ƒ 12±2 17±4 20±7 17±3 PaCO2 41,71±5,64 44,28±6,737 43,36±6,76 43,84±5,63 p≥0,05.
DESENVOLVIMENTO
Várias alterações cardiovasculares e hemodinâmicas decorrem do pneumoperitônio e são influenciadas pela pressão de insuflação adotada (ISHIZAKI et al., 1993), da absorção intraperitoneal de CO2, pelo uso de ventilação controlada
ou espontânea (CARNEIRO et al., 2013), pelas condições anestésicas e cirúrgicas, inclusive da duração do procedimento e a posição corporal do paciente (O’LEARY et al., 1996; WALICK et al., 2007; AWAD et al., 2009; CARNEIRO et al., 2013). Em cães, cita-se o emprego da pressão de insuflação com CO2 entre 10 a 15 mmHg
(BRUN & BECK, 1999; BRUN et al., 2000). Dada a gama de variáveis que influenciam e se tornam conflitantes em estudos sobre videocirurgia envolvendo diferentes espécies, acredita-se que com a metodologia aplicada neste estudo, grande parte dessas influências tenham sido minimizadas, possibilitando comparar de forma pontual a influência do cefalodeclive na PIO em cães submetidos ao pneumoperitônio.
Com relação à avaliação da PIO, vários fatores também podem afetar sua avaliação, como a conformação cranial do paciente (GELATT & MACKAY, 1998; KLEIN et al., 2011), a idade (GELATT & MACKAY, 1998), o sexo e a raça (GELATT & MACKAY, 1998), o posicionamento tanto da cabeça como do corpo (BROADWATER et al., 2008), compressão sobre o pescoço ou jugulares (KLEIN et al., 2011), variação circadiana (GELATT et al., 1981; GELATT & MACKAY, 1998), tonômetro utilizado (GELATT & MACKAY, 1998), experiência do avaliador (GELATT & MACKAY, 1998; KLEIN et al., 2001). Dessa forma, a fim de se minimizarem tais fatores e obterem-se resultados mais fidedignos, com o menor número de animais, optou-se por utilizar cães da raça beagle (mesocefálicos), endogâmicos, igual número de machos e fêmeas, os quais participaram de ambos os tratamentos. Além disso, adotou-se o mesmo período para a realização de todo o estudo e a mesma equipe de profissionais experientes, bem como os mesmo equipamentos para aferição dos parâmetros.
Neste estudo, não foi verificada variação significativa da PIO, entre olhos direitos e esquerdos dentro dos grupos, de modo que se utilizou a média entre elas para realizar a análise ao longo do tempo.
Apesar de não haver diferença significativa ao longo do tempo, nas variáveis PIO e PAM, pode-se observar uma possível relação entre as duas variáveis, já
referida por Walick et al. (2007) e Awad et al. (2009), e não observada por O’Leary et al. (1996).
Estudos prévios (HVIDBERG; KESSING; FERNADEZ, 1981; AWAD et al., 2009) sugerem a ocorrência alterações significativas na PAM, PVC, PaCO2, FC e FR
após o pneumoperitônio o que não foi observado neste estudo. Por outro lado, nossos resultados corroboram com O’LEARY et al. (1996), que referiram que alterações hemodinâmicas significativas podem não ser verificadas em pacientes que não apresentam história de doença cardíaca, como os animais empregados neste estudo. Nesse sentido, os resultados do presente estudo ressaltam a segurança do estabelecimento de pneumoperitônio com CO2 a uma pressão de 10
mmHg, por até 60 minutos de procedimento em pacientes hígidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A inexistência de estudos com metodologia semelhante a este em cães e o grande número de variáveis que podem influenciar a PIO durante procedimentos videolaparoscópicos, devem servir de incentivo para que novos estudos sejam realizados. Ademais, a ausência de variação dos parâmetros avaliados levando-se em consideração os valores de referência para a espécie canina ressaltam a segurança da videocirurgia realizada com pneumoperitônio com CO2 em cães por
até uma hora de procedimento cirúrgico. Acredita-se que com esses resultados, pacientes portadores de condições que afetem a pressão intraocular possam se beneficiar de procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos auxiliados por vídeo. Todavia, novos estudos devem ser realizados para se verificar a segurança desses procedimentos nesses pacientes e confirmar essa hipótese.
FONTES CONSULTADAS
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