GRANDE DO SUL
CAMILA FRANKEN
A MOROSIDADE NO PROCESSO DE ADOÇÃO NO BRASIL
Santa Rosa (RS) 2018
CAMILA FRANKEN
A MOROSIDADE NO PROCESSO DE ADOÇÃO NO BRASIL
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TCC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DEJ- Departamento de Estudos Jurídicos.
Orientadora: MSc. Francieli Formentini
Santa Rosa (RS) 2018
Dedico este trabalho aos meus pais, por serem meu alicerce da vida e estarem sempre ao meu lado, me permitindo tornar esse sonho – de formação, realidade, também, ao meu namorado Marcel que sempre soube entender os meus contratempos no dia a dia devido à minha dedicação neste trabalho.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, agradeço aos meus queridos pais pelo suporte que sempre a mim foi dado, apoiando as diversas dificuldades que enfrentei durante toda essa caminhada da vida universitária.
Também, agradeço a minha orientadora Francieli pelo incentivo, suporte e paciência que me concedeste durante todo o processo do presente trabalho.
E, por fim, ao meu namorado Marcel e todas as pessoas que estiveram ao meu lado durante esta jornada.
“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis.”
LISTA DE ABREVIATURAS
CC – Código Civil Brasileiro
CF – Constituição Federal Brasileira de 1988
CIJRS – Coordenadoria da Infância e da Juventude do Rio Grande do Sul CONSIJ – Conselho de Supervisão da Infância e da Juventude
CNA – Cadastro Nacional de Adoção CNJ – Conselho Nacional de Justiça
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente JIJ – Juizado Especial da Infância e Juventude MP – Ministério Público
MPRS – Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul PR – Paraná
RS – Rio Grande do Sul SP – São Paulo
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Adoções feitas pelo CNA...47
Figura 2: Adoção no Brasil de acordo com dados estatísticos do CNA...53
Figura 3: Aplicativo Adoção (App)...63
Figura 4: Avanços do novo CNA...65
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Perfil das crianças/adolescentes conforme a raça...48 Tabela 2: Número de crianças/adolescentes que possuem irmãos e/ou doenças....50 Tabela 3: Total de crianças/adolescentes por Região do Brasil...51 Tabela 4: Total de pretendentes cadastrados e suas opções...51 Tabela 5: Total de pretendentes que desejam adotar crianças com ou sem irmãos...52
Tabela 6: Prazos máxima para permanência em programa de
acolhimento...54 Tabela 7: Total de pretendentes habilitados na Região Sul e o percentual por raça...56 Tabela 8: Total de crianças e adolescentes da Região Sul e o porcentual sobre cor/raça...58 Tabela 9: Lista de Crianças e Adolescentes Disponíveis para Adoção no RS...59 Tabela 10: Levantamento de crianças/adolescentes para adoção internacional...60
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1: Adoções feitas pelo Cadastro Nacional de Adoção...47 Gráfico 2: Porcentagem de crianças/adolescentes cadastradas conforme a raça....48 Gráfico 3: Cadastro de Crianças/Adolescentes disponível no Projeto do CIJRS...58 Gráfico 4: Levantamento de crianças/adolescentes JIJ/TJRS Adoção Internacional...61
O presente estudo analisa o processo de adoção no Brasil, compreendendo, especialmente, a situação atual das listagens dos processos de adoção no Rio Grande do Sul. A partir das considerações apontadas, percebe-se que a morosidade processual desencadeia na(s) família/casal/pretendente(s) um sentimento de frustração – relacionado intimamente com o tempo de espera e a expectativa de criação do núcleo familiar. Ainda, para além da perspectiva judicial, percebe-se a imposição de outras premissas que antecedem a adoção, elencadas pelos pretendentes a pais e/ou mães, tais como: cor, idade, sexo, parentesco, raça/etnia, tipo de deficiência, etc. Diante disso, verifica-se que as limitações burocratizam os processos e contribuem para a morosidade dos processos de adoção. Os objetivos da pesquisa foram alcançados, eis que calcados na compreensão e exposição dos entraves jurídico-sociais relacionados aos casos de adoção no país. Assim, o estudo apresenta gráficos, tabelas e figuras que fundamentam a realidade do CNA e demonstram a ineficácia do sistema atual. No que concerne aos dados, expõe-se que as comparações entre estatísticas embasam toda a construção do estudo e, neste sentido, desenham o cenário do cadastro de adoção nacional, apresentando, ao final, a causa da morosidade: o excesso no que condiz à caracterização do perfil das crianças, revelando a esmagadora aceitação de somente crianças até 5 anos e/ou sem irmãos. Na metodologia utilizou-se o método dedutivo, com técnica de pesquisa bibliográfica em documentos físicos e meios eletrônicos (internet).Outrossim, a relevância da temática consubstancia-se em vislumbrar as nuances do instituto da adoção e expor a necessidade de iniciativas voltadas para a desconstrução da burocratização das listas de perfil (por parte dos pretendentes aptos à adoção), bem como incentivar o desenvolvimento de campanhas que divulguem o real sentido da adoção “como um ato de amor”.
El presente estudio analiza el proceso de adopción en Brasil, comprendiendo, especialmente, la situación actual de las listas de los procesos de adopción en Rio Grande do Sul. A partir de las consideraciones apuntadas, se percibe que la morosidad procesal desencadenan en la (s) familia / pareja / pretendiente (s) un sentimiento de frustración - relacionado íntimamente con el tiempo de espera y la expectativa de creación del núcleo familiar. En el caso de las mujeres, la mayoría de las veces, el sexo, el parentesco, la raza/etnia, el tipo de discapacidad, la edad, el sexo, el parentesco, etc. Por lo tanto, se verifica que las limitaciones burocratizan los procesos y contribuyen a la morosidad de los procesos de adopción. Los objetivos de la investigación se alcanzaron, he aquí que calcados en la comprensión y exposición de los obstáculos jurídico-sociales relacionados a los casos de adopción en el país. Así, el estudio presenta gráficos, tablas y figuras que fundamentan la realidad del CNA y demuestran la ineficacia del sistema actual. En lo que concierne a los datos, se expone que las comparaciones entre estadísticas basan toda la construcción del estudio y, en este sentido, dibujan el escenario del registro de adopción nacional, presentando al final la causa de la morosidad: el exceso en lo que condice caracterización del perfil de los niños, revelando la aplastante aceptación de sólo niños hasta 5 años y/o sin hermanos. En la metodología se utilizó el método deductivo, con técnica de investigación bibliográfica en documentos físicos y medios electrónicos (internet). Además, la relevancia de la temática se consubstancia en vislumbrar los matices del instituto de la adopción y exponer la necesidad de iniciativas orientadas hacia la deconstrucción de la burocratización de las listas de perfil (por parte de los pretendientes aptos para la adopción), así como incentivar el desarrollo de campañas que divulguen el verdadero sentido de la adopción “como un acto de amor”.
INTRODUÇÃO ... 13 1 O PROCESSO DE ADOÇÃO NO BRASIL ... 16. 1.1 Trajetória da Adoção: bases introdutórias do contexto familiar, aspectos gerais e principiológicos da adoção ... 16Erro! Indicador não definido. 1.2 Preâmbulos legislativos no âmbito da adoção - do Código Civil de 1916 à contemporaneidade ... 26 1.3 O processo de adoção e as práticas inseridas pela Lei Nacional da Adoção ... 36 2 A MOROSIDADE DOS PROCESSOS DE ADOÇÃO NO BRASIL E A REALIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL... 45 2.1 A morosidade do processo de adoção: entraves e consequências ... 45Erro!
Indicador não definido.
2.2 Retrato dos processos de adoção no Estado do Rio Grande do Sul ... 56 2.3 Os desafios do processo de adoção: em busca da efetividade e de um modelo de adoção baseado no “elo do amor” ... 62 CONCLUSÃO ... 72 REFERÊNCIAS ... 75
INTRODUÇÃO
Camila Luz1 dá o pontapé inicial nessa história sobre adoção, revelando um
pouco da trajetória das crianças e dos adolescentes dos lares, ela transforma a sua versão da vida em poesia:
Se eu governasse o mundo Com tabuada todos nasceriam, Na escola lição é amor
alegria em todos existiria,
Em casa ou na rua educação é lei família de verdade todos teriam Nesse mundo palhaço seria rei. Os corações não seriam sós
era um mundo onde o sol nascia...
A adoção representa um dos recursos para garantir a sobrevivência e o desenvolvimento de crianças e adolescentes no Brasil. Partindo deste pressuposto, o presente estudo dedica-se em analisar o instituto da adoção, sua perspectiva histórica e as principais características que envolvem o ato de adotar.
Destarte, visando cumprir o objetivo da pesquisa, o estudo divide-se em duas seções, contendo, ainda, subdivisões no tocante às problemáticas inseridas no campo da adoção.
1 A perda precoce de seus pais e as dores de uma adoção não confirmada a mobilizaram para
encontrar seu talento na literatura. Hoje Camila se inspira em outros personagens para compor as rimas de sua história. (Instituto Fazendo História, 2013, p. 23).
Num primeiro momento, a pesquisa fundamenta a trajetória da adoção, revelando as bases introdutórias no mundo e, de modo especial, no Brasil. Neste contexto, observa-se a origem da adoção relacionado à questão da religiosidade e dos costumes. Na linha evolutiva, o estudo perpassa o âmbito legislativo e, insere a perspectiva histórica do Código Civil de 1916 e as nuances da “caridade”.
Adentrando na esfera familiar introduzida pelo Código Civil de 2002, revela o novo contexto das famílias brasileiras, os aspectos gerais e os princípios que envolvem a prática da adoção na contemporaneidade. Desconstruindo o modelo familiar dominante, o estudo busca contornar os detalhes mais específicos aos temas de Direito de Família.
Complementando a fundamentação teórica e legislativa, o estudo considera o que foi introduzido pela CF/88, pela Lei Nacional da Adoção (Lei nº 13.509/2017) e as demais modificações inseridas no texto do Estatuto da Criança e do Adolescente, para abordar, posteriormente, o retrato dos processos de adoção – no âmbito nacional e estadual.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reconhece como direito fundamental de toda criança e adolescente o direito à convivência familiar e comunitária – salienta, inclusive, a importância deste contexto, especialmente nos primeiros estágios de desenvolvimento humano. Ao encontro do exposto, a pesquisa abrange a normatividade inserida por intermédio da Lei Nacional da Adoção no ano de 2017.
De outra banda, destaca-se que a segunda seção contempla a análise da morosidade do processo de adoção. Aprecia-se, neste sentido, entraves e consequências a partir da Lei da Adoção e das modificações do ECA, bem como a realidade das listas de crianças/pretendentes para adoção.
Assim, a investigação compreende a análise das tradições familiares, dos costumes e dos aspectos rotineiros que envolvem a adoção, construídos pela sociedade durante anos, para então, expor as características que contribuem para a
qualificação do status de morosidade da adoção. Entretanto, salienta-se que muitas vezes os atos processuais são taxados de procrastinatórios e burocráticos, mas, revelam-se de suma importância para a proteção do adotando.
Além disso, o retrato dos processos de adoção no Brasil e no Estado do Rio Grande do Sul revelam a prática concebida pela sociedade, vista como a principal fundamentação para a morosidade, qual seja: o excesso de características nos perfis delineados pelos pretendentes aptos – e por isso a conta não fecha!.
Diante do que será abordado, a pesquisa encerra a fundamentação com o tópico condizente aos desafios do processo de adoção, traçando um paradigma acerca das situações da adoção no Rio Grande do Sul, salientando as iniciativas do TJRS e do CIJRS em busca da efetividade nos processos de adoção. Sobretudo, o estudo aprecia as campanhas desenvolvidas no Estado e destaca a imprescindibilidade de ampliar, inserir, divulgar e promover campanhas voltadas para alternativas sobre a adoção tardia e/ou a criação de um modelo de adoção baseado no “elo do amor.
No tocante à metodologia, o estudo utilizou o método dedutivo, com técnica de pesquisa bibliográfica em documentos físicos e meios eletrônicos (internet), bem como a análise de dados referentes à lista de adoção (de crianças/adolescentes e pretendentes aptos) nas plataformas digitais (sites) do Cadastro Nacional da Adoção e do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (Juizado da Infância e da Juventude).
1. O PROCESSO DE ADOÇÃO NO BRASIL
A adoção no Brasil passou ao longo dos anos por um processo “metamórfico”, justificado pelas alterações introduzidas pela contemporaneidade e, nesta perspectiva, pela amplitude em relação ao contexto familiar.
De acordo com Fernando Freire (2002), a adoção ocorre de diferentes formas e representações, frisa-se que atualmente, diante das nuances inseridas na contemporaneidade plural, a adoção pode ser compreendida como uma espécie de filiação estabelecida por lei.
No entanto, para chegar neste denominador conceitual, será empreendida a evolução histórica e jurídico-normativa, a partir de aspectos característicos e jurídicos oriundos do instituto da adoção e suas especificidades.
1.1 Trajetória da Adoção: bases introdutórias do contexto familiar, aspectos gerais e principiológicos da adoção
Inicialmente, aborda-se as nuances do contexto familiar. Considerando que a base de qualquer processo de adoção é a família – e suas particularidades, o estudo passa a conceitualização de tal instituto.
A etimologia da palavra versa que o termo família “entrou na nossa língua, no século XVI por via culta, através do latim 'familia', que significava «o conjunto dos escravos da casa; todas as pessoas ligadas a qualquer grande personalidade; casa de família».” (ISCTE, 2003, n/p.).
Nesta linha, a nomenclatura adotada designava os pais e a prole. Ao inserir no contexto a doutrina de Clóvis Beviláqua (1937 apud ALVES; LIMA, 2011), introduzida pela obra “Adoção e Direitos Fundamentais” de Renato Maia e Ricardo Alves de Lima (2011), compreende-se família como o complexo das normas que regulam a celebração do casamento, sua validade e os efeitos que dele resultam, as relações pessoais e econômicas da sociedade conjugal, a dissolução desta, as
relações entre pais e filhos, o vínculo do parentesco e os institutos complementares da tutela e curatela.
Definição que encontra-se desatualizada, tendo em vista a evolução das famílias brasileiras e suas pré determinações calcadas no gênero – como por exemplo, união estável e homoafetiva ou, aplicando a temática ora estudada, a adoção por casais homossexuais.
Para além do domínio patriarcal, Paulo Freire (2001, p. 211) sustenta que a família engloba uma construção sociocultural, tendo em vista que transforma-se conforme as influências do meio:
agregando elementos novos, que libera de outros e que altera no tempo e no espaço os seus modelos e atitudes, fatores que contribuem para o que se chama de definições de família. [...] São construídas dentro de contextos históricos específicos, que lhes dão características culturais especiais, de acordo com os valores, a cultura, a crença e os hábitos predominantes nesses contextos.
Dentre as transformações nucleares, surgem novos “tipos de família” a, estruturadas por vínculos e caracterizadas pelo formato dinâmico – qual seja: um sentimento que une as pessoas formadoras daquele grupo familiar.
Segundo Maria Júlia Scicchitano Orsi (2003), os vínculos afetivos são os principais componentes do grupo e desencadeiam a construção de códigos basilares, considerando a esfera de referências e crenças que decorrem da cultura familiar própria. Assim, não há delimitação específica para apresentar o funcionamento do grupo familiar, o que existe, sobretudo, são os laços constituídos por intermédio de vínculos afetivos.
No sentido doutrinário, Luiz Carlos Osório (1996) expõe as formas classificatórias do contexto familiar, direcionadas no âmbito da constituição das famílias: 1) família nuclear (conjugal ou também conhecida como tradicional): constituída pelo tripé pai-mãe-filhos; 2) família extensa (consanguínea): composta por outros membros que tenham quaisquer laços de parentesco (avós, tios etc.); 3) família abrangente: inclui outras pessoas que não parentes, mas que coabitam na
mesma casa. Entretanto, o posicionamento moderno de Maria Berenice Dias e de Ivone Coelho (2008, p. 03) descontrói a rigidez acerca da classificação, ao destacar que as famílias contemporâneas
constituem-se em um núcleo evoluído a partir do desgastado modelo clássico, matrimonializado, patriarcal, hierarquizado, patrimonializado e heterossexual, centralizador de prole numerosa que conferia status ao casal. Neste seu remanescente, que opta por prole reduzida, os papéis se sobrepõem, se alternam, se confundem ou mesmo se invertem, com modelos também algo confusos, em que a autoridade parental se apresenta não raro diluída ou quase ausente. Com a constante dilatação das expectativas de vida, passa a ser multigeracional, fator que diversifica e dinamiza as relações entre os membros.
Corroborando as novas estruturações, Maria Berenice Dias (2015, p. 36) aduz que o legislador constituinte procede “ao alargamento do conceito de família e emprestou juridicidade ao relacionamento fora do casamento”. Neste contexto, afasta a arcaica
ideia de família o pressuposto do casamento, identificando como família também a união estável entre um homem e uma mulher. A família à margem do casamento passou a merecer tutela constitucional porque apresenta condições de sentimento, estabilidade e responsabilidade necessários ao desempenho das funções reconhecidamente familiares. Nesse redimensionamento passaram a integrar o conceito de entidade familiar as relações monoparentais: um pai com os seus filhos. Agora, para a configuração da família, deixou de se exigir necessariamente a existência de um par, o que, consequentemente, subtraiu de seu conceito a finalidade procriativa. (DIAS, 2015, p. 36).
Sobretudo, evidencia-se que “o direito das famílias instalou uma nova ordem jurídica para as famílias, atribuindo valor jurídico ao afeto.” (DIAS, 2011, p. 71). Para Santiago (2015, p. 23) as funções das famílias modificaram-se, tendo em vista a primordialidade dos valores existenciais no tocante à afetividade humana nas relações modernas: “a família marca a transição da função econômica, política, religiosa e procracional para essa nova função. Tal contexto se amolda ao fenômeno jurídico-social denominado de repersonalização das relações civis”.
Avançando a temática, Elaine Rodrigues e Sheila Rosin (2007, p. 115) sustentam que a família é o local onde se aprendem as noções fundamentais para a consecução de fins como a procriação, o cuidado com a saúde, a preservação da vida, a aquisição de conhecimentos e valorização de habilidades profissionais, bem
como aspectos de “aprendizagem da convivência familiar e social (amor, tolerância, solidariedade), transmissão, aperfeiçoamento e criação de normas sociais e culturais”.
Em relação às modificações condizentes ao conceito de família e às diversas formas de constituição na lógica atual, Soares (2010, p. 03) fundamenta que o “mundo contemporâneo requer a adequação do fenômeno de internacionalização de Direitos Humanos às normas de direito interno”. Corroborando o exposto, Madaleno (2013, p. 18) sustenta que a família moderna
perdeu sua função puramente econômica, de unidade produtiva e seguro contra a velhice, em que era necessário um grande número de integrantes, principalmente filhos, sob o comando de um chefe – o patriarca. Perdeu também seu costume eminentemente procracional, deveras influenciado pela Igreja, para adquirir o contorno da solidariedade, da cooperação e da comunhão de interesses de vida.
Neste diapasão, as relações de família são afetadas pelas transformações da globalização, abrindo espaço para as manifestações plurais de comportamento nas mais diversas formas de relações pessoais. Desta forma, há
novos temas como a igualdade de gênero, a democratização de uniões livres, a reconstrução do parâmetro parental, a socioafetividade, a inseminação artificial ou as uniões homoafetivas incrementam o debate que descamba, necessariamente, na concepção tradicional dos modelos familiares, passando a ser necessário que se repense os critérios de igualdade e de cidadania aplicáveis a estes e inúmeros outros casos. (SOARES, 2010, p. 03).
Na esfera familiar, o espaço para a formação da criança é determinante na evolução, e, deste modo, a interação com pessoas num ambiente saudável e acolhedor é uma das premissas básicas para a evolução. Assim, diversas afetividades instauradas no ambiente familiar produzem as condições favoráveis, e essenciais, para o decorrer do processo de criação e desenvolvimento pessoal. Silva (2012, p. 16) destaca que a
convivência familiar é fundamental para que a criança se adapte a vida em sociedade, seus valores e a sua solidez preparam as relações para as adversidades culturais e sociais, características do período de maturidade. A criança que é impedida de conviver em família desenvolve, entre muitos,
os aspectos egocêntricos. Esses aspectos favorecem o contato com o mundo das futilidades e das drogas e à desvalorização da vida.
Parafraseando Gonçalves (2012), observa-se que a determinação de família condiz com todas as pessoas que provêm de um organismo familiar e a ele conservam-se vinculadas durante a sua existência, mesmo que venham a constituir nova família posteriormente. Assim, norteia-se pela amplitude na compreensão do que é a família, sem taxatividades extremas, na qual
a família é uma realidade sociológica e constitui a base do Estado, o núcleo fundamental em que repousa toda a organização social. Em qualquer aspecto em que é considerada, aparece a família como uma instituição necessária e sagrada, que vai merecer a mais ampla proteção do Estado. A Constituição Federal e o Código Civil a ela se reportam e estabelecem a sua estrutura, sem, no entanto, defini-la, uma vez que não há identidade de conceitos tanto no direito como na sociologia. (GONÇALVES, 2012, p. 17). Acerca da normatividade, o Código Civil de 2002 atribuiu uma nova concepção ao Direito de Família, trazendo a compreensão da família, seguindo preceitos constitucionais e de caráter atualizado, estabelecendo patamares de igualdade entre os cônjuges e os companheiros – sobretudo, no aspecto tangente ao poder familiar - com igualdade de ambos os progenitores, estendendo o conceito de família ao alcance da pluralidade e abrangendo a união estável.
O casal (formalmente casado ou não) fundamenta sua união na relação conjugal e não propriamente na família. A noção de conjugalidade é compreendida aqui como relacionamento afetivo-sexual que prima pela qualidade da relação, que tem como fundamento a liberdade, a igualdade, a confiança, a intimidade e a comunicação emocional. (FÉRES-CARNEIRO, 2010, p. 13).
A doutrina de Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona Filho (2014, p. 129) embasa o conceito familiar, ao delimitar três características em especial, referindo-se aos aspectos que moldam o conceito básico de família:
a) Núcleo existencial composto por mais de uma pessoa: a ideia óbvia é que, para ser família, é requisito fundamental a presença de, no mínimo, duas pessoas;
b) Vínculo socioafetivo: é a afetividade que forma e justifica o vínculo entre os membros da família, constituindo-a.
c) Vocação para a realização pessoal de seus integrantes: seja qual for a intenção para a constituição de uma família (dos mais puros sentimentos de amor e paixão, passando pela emancipação e conveniência social, ou até mesmo ao extremo mesquinho dos interesses puramente econômicos),
formar uma família tem sempre a finalidade de concretizar as aspirações dos indivíduos, na perspectiva da função social.
De outra banda, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, em seu artigo XVI – 3 estabelece que a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a proteção da sociedade e do Estado. Sob o ângulo da afetividade, Tartuce (2015) expõe que as normas referentes a família hoje, podem ser designadas como normas de direito civil público, tendo em vista o conteúdo social e existencial da humanidade diante da normatização do Estado.
O contexto atual elenca as relações sociais e os efeitos jurídicos adotados a partir da concepção do “núcleo familiar”, bem como a jurisprudência e a doutrina moderna, reafirmando estas alterações histórico-culturais e estruturais.
Em vista disso, na contemporaneidade, a família moderna difere das formas antigas no que concerne às suas finalidades: composição e papel dos pais e dos filhos, ou seja, atribui-se à família os vínculos relacionados na constância familiar e no convívio:
A escola e outras instituições de educação, esportes e recreação preenchem atividades dos filhos, que eram de responsabilidade dos pais; os ofícios não mais são transmitidos de pai para filho dentro dos lares; a educação cabe ao Estado ou instituições privadas por ele supervisionadas; a religião não é mais ministrada em casa. Atualmente, o número de nascimento de filhos diminuiu, a mulher lança-se ao mercado de trabalho, modificando o papel da mulher, com sensíveis efeitos no meio familiar. Em grande parte das legislações existe a igualdade de direitos entre o marido e a mulher e a igualdade entre os filhos. Os conceitos sociais gerados pela nova posição social dos cônjuges, as pressões econômicas, a desatenção e o desgaste das religiões fazem aumentar o número de divórcios. Por outro lado, as uniões livres passam a ser aceitas pela sociedade e são regulamentadas. (GONÇALVES, 2012, p. 245)
Destarte, o Direito Civil observa “as relações das pessoas unidas pelo matrimônio, pela união estável, dos filhos e das relações destes com os pais, da proteção por meio da tutela e da proteção dos incapazes por meio da curatela” (GONÇALVES, 2012, p. 245). A contemporaneidade delineia este novo perfil familiar, despido das vestes arcaicas do patriarcado, do “assujeitamento da mulher” e das condições primícias de pacto entre casais do mesmo sexo.
Na medida em que a família deixa de ser encarada sob a ótica patrimonialista e como núcleo de reprodução, passa “a ser tratada como instrumento para o desenvolvimento da pessoa humana, realçados seus componentes mais próximos a sua condição humana, tem-se, sem dúvida, uma democratização familiar.” (RODRIGUES, 2011).
Vislumbrar este novo paradigma, calcado na realidade diante do convívio interpessoal, é disciplina inserida no texto Constitucional de 1988, que abrange além da normatividade e, neste sentido, contribui para uma reflexão mais aberta e igualitária no âmbito civil e patrimonialista do Direito de Família. Nesta linha, a família versa sobre a formação de um núcleo, composto
por pessoas dotadas de anseios, necessidades e sentimentos comuns, a família enquanto ninho deve ser compreendida como ponto de referência central do indivíduo na sociedade, uma espécie de aspiração à solidariedade e à segurança que dificilmente poderá ser substituída por qualquer outra forma de convivência social. Frustrar o direito personalíssimo à constituição de uma entidade familiar formal entre pessoas do mesmo sexo é atentar contra a dignidade da pessoa humana, consagrada na Constituição Federal. Considerar uma relação afetiva de duas pessoas do mesmo sexo como uma entidade familiar não vai transformar a concepção de família e tampouco vai estimular a prática homossexual, pois é certo que a orientação sexual de alguém não lhe retira direitos conferidos pelo garantismo constitucional. (RODRIGUES, 2011, n/p.).
Segundo Maria Berenice Dias (2017, p. 04), há filiação quando houver um vínculo de afetividade, sendo que “essa palavra está referida uma única vez no Código Civil, exatamente quando fala da proteção à pessoa dos filhos, ao dizer que a guarda deve ser deferida levando em conta a relação de afinidade e afetividade (artigo 1.584, parágrafo único do Código Civil)”.
Superando a teorização do contexto familiar, o estudo passa a análise dos aspectos condizentes ao instituto da adoção. A nomenclatura “adoção” deriva do latim adoptio e significa “tomar alguém como filho”.
O posicionamento de Granato (2003, p. 25-26) fundamenta a conceituação da adoção e seu status na esfera social, no sentido de que designa a “inserção num ambiente familiar, de forma definitiva e com aquisição de vínculo jurídico próprio da filiação, segundo as normas legais em vigor, de uma criança cujos pais morreram ou
são desconhecidos”, e ainda, “não sendo esse o caso, não podem ou não querem assumir o desempenho das suas funções parentais, ou são pela autoridade competente, considerados indignos para tal”.
Diferentemente do que foi consubstanciado em princípio pela cultura do patriarcado – isto é, quando o objetivo da adoção priorizava “dar” a oportunidade de ter filhos ao casal que não poderia tê-los de forma tradicional – dentre as inúmeras formas de relacionar-se, hoje a adoção destina-se à convivência familiar, no intuito de formar o elo entre pretendente e candidato à adoção (BORTOLATTO et al., 2016).
Analisa-se, ainda, alguns aspectos psicológicos que circundam uma espécie de insegurança no entorno da fantasia de poder adotar uma criança, e, ainda, no “saber” criar e/ou se o núcleo familiar será bem aceito pelo(a) adotado(a).
Neste ínterim, verifica-se que há uma certa insegurança relacionada à possibilidade de que o filho adotivo possa “trocar” os pais adotivos pelos biológicos, que fuja da residência, que não formem laços familiares e/ou de convivência ou, que haja dificuldade no tocante ao estabelecimento de limites e regras (MAUX; DUTRA, 2010).
Essa é uma abordagem que será tecida na próxima seção, pontuada neste momento, mas que empreende uma análise aprofundada no cotidiano familiar, tendo em vista a dimensão interligada aos sentimentos das famílias, pais e crianças/adolescentes, em relação à intimidade e convívio entre os adotados e adotantes.
No tocante à esfera garantidora, o princípio constitucional da proteção integral intensifica a responsabilidade do Estado em relação ao convívio familiar - a Constituição Federal de 1988 pressupõe no texto do artigo 227 que é dever do Estado assegurar a crianças e adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à convivência familiar.
Ampliando a visão do Direito de Família, os princípios da afetividade e da solidariedade estão correlacionados no sentido de alcançar as extensões humanísticas, na qual a solidariedade do núcleo familiar não é só patrimonial, mas também afetiva e psicológica.
Sublinha Calderón (2013) a relevância acerca do princípio da afetividade, tendo em vista que este possui uma dupla face, cuja compreensão auxilia na percepção do seu sentido.
A primeira delas é a face de dever jurídico, voltada para as pessoas que possuam algum vínculo de parentalidade ou de conjugalidade (aqui incluídas não só as relações matrimoniais, mas todas as uniões estáveis de alguma forma reconhecidas pelo sistema). Ainda, percebe-se que o princípio vincula tais pessoas às condutas recíprocas – representativas da afetividade e inerentes a tal relação (CALDERÓN, 2013).
Acerca do princípio da afetividade, Paulo Lôbo (2001) assinala que este, foi constitutivo para a evolução social da família, fazendo a análise do artigo 226 e 227 da Constituição Federal de 1988.
Considerando a temática abordada, verifica-se que, se todos os filhos são iguais, independentemente de sua origem, digna-se ressaltar que através dos princípios inseridos pelo texto da Constituição Federal de 1988 afasta-se qualquer interesse ou valor que não seja o da comunhão de amor ou do interesse afetivo - como fundamento principal da relação entre pai e filho. Neste sentido,
se a Constituição abandonou o casamento como único tipo de família juridicamente tutelada, é porque abdicou dos valores que justificavam a norma de exclusão, passando a privilegiar o fundamento comum a todas as entidades, ou seja, a afetividade, necessário para realização pessoal de seus integrantes. O advento do divórcio direto (ou a livre dissolução na união estável) demonstrou que apenas a afetividade, e não a lei mantém unidas essas entidades familiares. (LÔBO, 2001, p. 06)
Ao encontro do exposto, sublinha-se o posicionamento de Hironaka (1999): “a verdade jurídica cedeu vez à imperiosa passagem e instalação da verdade da vida”. Neste ínterim, articula-se que a verdade da vida está a desnudar aos olhos de todos,
homens ou mulheres, jovens ou velhos, conservadores ou arrojados, a mais esplêndida de todas as verdades: neste tempo em que até o milênio muda, muda a família, muda o seu cerne fundamental, muda a razão de sua constituição, existência e sobrevida, mudam as pessoas que a compõem, pessoas estas que passam a ter a coragem de admitir que se casam principalmente por amor, pelo amor e enquanto houver amor (HIRONAKA, 1999).
Para o autor, só a família assim constituída – independente da diversidade de sua gênese – pode ser mesmo aquele remanso de paz, ternura e respeito, lugar em que haverá, mais que em qualquer outro, para todos e para cada um de seus componentes, a enorme chance da realização de seus projetos de felicidade.
De modo complementar, Maria Berenice Dias (2001) salienta que não se trata aqui de mera isonomia formal, tendo em vista que a esfera do Direito de Família não empreende somente na igualdade perante a lei, mas opera-se na igualdade em direitos e obrigações nas relações familiares – sem distinção de gênero na formação do núcleo/constituição da família.
Visualizando o âmbito da adoção diante do que foi delineado, em questão de princípios da afetividade e solidariedade, e ainda, na igualdade das relações independentemente do modo de constituição do núcleo familiar, nota-se que esta prática não foi amplamente adotada na contemporaneidade, pois ainda está coberta de preconceitos e estigmas. Maux e Dutra (2010) compreendem que a história da adoção tem um percurso extenso no Brasil, eis que permanente enraizada desde a época da colonização.
Dentre os resquícios da época, aborda-se que o instituto foi motivado por intermédio da intenção da caridade, ação na qual a burguesia prestava este tipo de “assistência” aos mais pobres – época dos “filhos de criação”:
Era comum haver no interior da casa das pessoas abastadas filhos de terceiros, chamados ‘filhos de criação’. A situação deste no interior da família não era formalizada, servindo sua permanência como oportunidade de se possuir mão-de-obra gratuita (PAIVA, 2004) e, ao mesmo tempo, prestar auxílio aos mais necessitados, conforme pregava a Igreja. Portanto,
foi através da possibilidade de trabalhadores baratos e da caridade cristã, que a prática da adoção foi construída no país. Já se percebe, então, que não havia um interesse genuíno de cuidado pela criança necessitada ou abandonada. Este ‘filho’ ocupava um lugar diferenciado, sendo também singular a maneira como era tratado, sempre de forma distinta, comumente inferior, aos filhos biológicos. Seria algo semelhante a dormir junto com os demais membros da família e não no espaço reservado aos empregados, contudo, não possuir um quarto ou uma cama próprios. Tal herança cultural contribuiu significativamente para que, até os dias de hoje, esta forma de filiação seja impregnada por mitos e preconceitos. (MAUX; DUTRA, 2010, p. 359).
Em relação ao que foi abordado, o estudo demonstra a evolução no que concerne ao âmbito social e jurídico, eis que prioriza os sentimentos das crianças/adolescentes, (trans)formando o status da obrigatoriedade moral da sociedade com o instituto da adoção na composição de um novo Direito de Família, que passa a ser analisado do ponto de vista da afetividade, do amor, do convívio, da ética, da valorização da pessoa e da sua dignidade, do solidarismo social e da isonomia constitucional (TARTUCE, 2011).
1.2 Preâmbulos legislativos no âmbito da adoção - do Código Civil de 1916 à contemporaneidade
Dando continuidade ao estudo, identifica-se que a família transcende a qualquer conceito e/ou definição, considerando que as novas bases e formas sustentam esta dogmática, despida de preceitos históricos e patriarcais.
Segundo Gonçalves (2012, p. 245) a unidade familiar, vista pelo aspecto jurídico-social “não é pautada exclusivamente pelo casamento. Nesse quadro, novos conceitos estão a incitar o legislador e o jurista com premissas diversas das do início do século passado, quando da promulgação do CC de 1916, o que, decerto, ainda acarretará modificações na estrutura [...]”.
Numa perspectiva histórica, percebe-se que a adoção é prática comum desde os primórdios da humanidade:
Passagens bíblicas já relatavam vários casos de adoção, entre eles o de Moisés, escolhido por Deus para libertar o povo hebreu. Aproximadamente no ano de 1250 a.c., o Faraó determinou que todos os meninos israelitas que nascessem deveriam ser mortos. Às meninas, no entanto, era dado o
direito à vida (Ex 1.15,16, 22). Diante deste cenário, a mãe de um pequeno hebreu decidiu colocá-lo dentro de um cesto e deixá-lo à beira do rio Nilo, esperando que se salvasse. Térmulus, filha do Faraó que ordenou a matança, encontrou o cesto quando se banhava nas águas do rio, recolheu-o e decidiu criar recolheu-o bebê crecolheu-omrecolheu-o seu próprirecolheu-o filhrecolheu-o. O meninrecolheu-o ganhrecolheu-ou recolheu-o nrecolheu-ome de Moisés, ou Moschê, ‘o filho das águas’ (Ex 2.5-9). Foi desta forma que Moisés viveu anos como membro da corte, status adquirido através da adoção, o que facilitou sua missão de retirar os escravos hebreus do Egito rumo à Terra Prometida. (SILVA, 2009, p. 14).
Vieira (1994) expõe que na antiguidade a adoção teve acolhimento nos chamados código de Urnamu (2050 a.c), código de Eshnunna (século XIX a.c) e no código de Hamurabi (1728 a.c).
Destarte, o código de Hamurabi é considerado o primeiro texto jurídico da civilização que ditava as regras relativas à adoção na Babilônia. Os artigos elencados de 185 a 193 deste Código referem-se exclusivamente à regulamentação da adoção. Em princípio, a normativa revela que a preocupação era a de garantir a indissolubilidade das adoções ou, em casos aparentemente malsucedidos, determinar sua anulação.
O artigo 185 dispunha que se um homem adotasse uma criança e desse o seu nome a ela como filho, criando-o, este filho crescido não poderia ser reclamado por outrem. Tal regimento era considerado de caráter irrevogável, eis que o filho adotivo tinha os mesmos direitos hereditários do filho biológico (VIEIRA, 1994).
No viés histórico, apura-se que somente a partir do Código Napoleônico o instituto da adoção ingressou nas legislações modernas, Silva Filho (1997) destaca a influência dos Códigos romeno (1864), italiano (1865) e espanhol (1889).
Ao exemplo do que foi desenvolvido, no século XIX inicia-se um processo de visualização, no qual o filho adotivo configura como sujeito para a sociedade, excluindo a figura do objeto subordinado à vontade daqueles que detém a sua guarda – a questão de pertencimento dos adotantes para com os adotados, e vice e versa, direciona-se à capacidade do homem.
Havia uma perspectiva de vida pós-morte, ligada ainda às necessidades terrenas de abrigo e alimento, representadas então pelo túmulo e pelos sacrifícios. Ora, àquele que não tivesse filhos restava o abandono após a
morte, um abandono eterno. Que o pai cuide de ter descendentes, ou ficará condenado à fome e ao abandono, era um mandamento religioso implícito e inescapável. (MAIA; LIMA, 2011, p. 273).
Concernente à evolução, anteriormente ao Código Civil de 1916, a sistemática da adoção dava-se por intermédio de escritura pública, seguida de Registro civil. Com a promulgação do Código Civil de 1916 (Lei nº 3071/1916), a questão configura o status de fato jurídico. Isso posto,
em termos legais admitiu-se a adoção, reforçando a finalidade de dar filhos aos casais que não os podiam ter, desconsiderando os interesses do adotado. Neste Código, o filho adotivo não rompia o vínculo com sua família biológica, podendo, inclusive, permanecer com o nome originário, bem como com os direitos e deveres alimentícios face aos pais biológicos. A adoção era revogável e não era vista como um modo comum de constituir família. De acordo com o art. 368, somente podiam adotar os maiores de cinquenta anos e ao menos dezoito anos mais velhos que o adotado, sem prole legítima ou legitimada, o que dificultava em muito a efetivação da adoção (GRANATO, 2003, apud SILVA, 2009, p. 20).
A lição de Maia e Lima (2011) sustenta a importância do Código Civil de 1916, eis que Clóvis Beviláqua (autor do projeto), inovou no aspecto familiar, quando manteve o instituto e sua função, convicto de que teria uma importante função social.
Destarte, os autores trazem à baila o ensinamento de Beviláquia (1954 apud LIMA; MAIA, 2011, p. 270), sustentando a relevância da normativa ao apresentar que a adoção não trata simplesmente “de encontrar um continuador da família; nem, por outro lado, nós devemos arrecear de que pela adoção se possam perfilhar adulterinos e incestuosos. Se somente para esse fim servisse a adoção, já seria de alta valia o seu préstimo”. Ainda, salientam que tal perspectiva configura
a ação benéfica, social e individualmente falando, que a adoção pode exercer, na sua fase atual. Dando filhos a quem os não tem pela natureza, desenvolve sentimentos afetivos do mais puro quilate, e aumenta, na sociedade, o capital de afeto e de bondade, necessário ao seu aperfeiçoamento moral; chamando para o aconchego da família e para as doçuras do bem estar filhos privados de arrimo ou de meios idôneos, aproveita e dirige capacidades que, de outro modo, corriam o risco de se perder, em prejuízo dos indivíduos e do grupo social, a que pertencem. (MAIA; LIMA, apud BEVILÁQUIA, 1954, p. 270).
Assim, tal Código apresenta-se como um marco para a legislação brasileira, tendo em vista “que aglutinou leis, contribuindo de forma relevante para a adoção porque, conforme Weber (2006), a referência a este tema aparecia de forma
escassa nos textos jurídicos anteriores”. Verifica-se que a legislação anterior preceituava a adoção, permitindo-a
apenas para os casais sem filhos, poderia ser revogada e o adotando não perdia o vínculo com a família biológica. Em 1957 (Lei 3.133/57) aconteceram algumas modificações interessantes em relação a adoção. As pessoas que já possuíam filhos poderiam adotar, mas, nestes casos, o filho adotivo não teria direito a herança. A partir da legislação de 1965 (Lei 4.655), além das pessoas casadas, as viúvas e os desquitados também passaram a ter direito de adotar. Ou seja, há pouco mais de 40 anos somente casais poderiam vir a ter filhos adotivos. (MAUX; DUTRA, 2010, p. 360).
Seguindo o panorama evolutivo, ocorreu um pequeno avanço em 1957 com a promulgação da Lei nº 3.133/57, que altera o Código Civil à época e trata da adoção
trazendo modificações importantes, como: redução da idade mínima para adotar de 50 para 30 anos; diminuição do limite mínimo da diferença de idade entre adotantes e adotados de 18 para 16 anos; e, vinculação do adotado à família do adotante, recebendo assim o nome do adotante. Contudo, permanecia a vinculação pelo parentesco do adotado com a família biológica e a possibilidade do rompimento da adoção. Além disso, em se tratando de sucessão hereditária, o adotante tinha direito a apenas metade do quinhão a que tinham direito os filhos biológicos. (SILVA, 2009, p. 20).
Nesta seara, pontua-se que a Lei nº 4.655 de 1965 trouxe como mudança significativa para o instituto da adoção a chamada legitimação adotiva, caracterizada “pela possibilidade de o filho por adoção ter praticamente os mesmos direitos legais do filho biológico (com exceção dos direitos sucessórios) e, automaticamente, interromper os vínculos com a família biológica, o que significava a irrevogabilidade do ato de adotar.” (MAUX; DUTRA, 2010, p. 360).
No entanto, Maux e Dutra (2010, p. 360) salientam que “a adoção somente seria irrevogável nos casos envolvendo crianças abandonadas até os seus 7 anos de idade ou aquelas cuja identidade dos pais era desconhecida”. Jaqueline Araújo da Silva (2009, p. 19) enfrenta a dogmática acerca das percepções e demais vivências no âmbito da adoção, contribuindo, pontualmente, ao destacar que a normativa inserida pela Lei nº 17.943-A, no ano de 1927, retrata quando “foi editado o primeiro Código de Menores do Brasil e da América Latina, que em pouco contribuiu para o aumento das adoções, pois somente deu ênfase à institucionalização como forma de proteção à criança”.
Fundamenta, ainda, que o Código de Menores concebeu a categoria “menor” para tratar especificamente dos menores abandonados e delinquentes.
Acerca dos avanços, Granato (2003) aponta a Lei nº 4.665/65, que teve como modelo a legislação francesa, considerando que a normativa introduz a legitimação adotiva. Quando da adoção, a normativa exigia a comprovação de matrimônio durante a constância de 5 (cinco) anos, acompanhada, ainda, por um laudo médico – a fim de comprovar a esterilidade do casal naquele período.
Cumprindo tais exigências, o status de filho era deferido ao adotado, considerando que havia previamente a liberação para a modificação de nome e/ou prenome. Na adoção legítima, o adotado adquiria quase todos os direitos do filho biológico, salvo na ocorrência de sucessão quando concorresse com o filho legítimo, quando cumprisse a exigência de um período de guarda e adoção de 3 (três) anos antes – posteriormente a este período, a legitimação era deferida e possuía caráter irrevogável, legalizando, portanto, o rompimento com a família biológica.
Descortinando as nuances da adoção, Silva (2009, p. 20) menciona que na época o instituto passou a ser visto “como um atendimento preventivo à população de crianças excluídas socialmente. Com base no discurso de que a família é o melhor lugar para o desenvolvimento físico e psicológico de uma criança, diversos especialistas buscavam na família candidata à adoção a mais próxima daquela tida como modelo ideal”.
Dentre as exigências impostas, a autora revela que a família designada como adotante “deveria possuir algumas características invariáveis, como patriarcalismo, heterossexualidade e monogamia, modelo que, no decorrer da história, já vinha se configurando como hegemônico.” (SILVA, 2009, p. 20).
Com o intuito de reconfigurar o instituto da adoção, surge no ano de 1979 a edição do Código de Menores, com o advento da Lei nº 6.697/79, cuja finalidade concentrava-se na assistência, proteção e vigilância ao “menor” sem família. Tal normativa introduz a divisão entre a Adoção Simples e a Adoção Plena. Ao encontro do exposto, evidencia-se que a primeira trazia a necessidade de autorização judicial
e a específica possibilidade de adoção somente em casos nos quais os menores encontravam-se em situação irregular – como abandono ou delinquência.
O segundo modelo preceituava a criação de laços com os adotantes e o “esquecimento” da família biológica para crianças com até 7 (sete) anos, ou seja, havia a imposição de um novo registro de nascimento. A possibilidade de um “novo” registro também cabia para os adotados antes da criação desta lei, desde que acima de 7 (sete) anos e até 18 (dezoito) anos de idade e na constância da guarda legal.
Neste ínterim, Cunha (2011) sustenta o paradigma histórico, no sentido de que a evolução veio a lume em 1979, quando o ordenamento jurídico brasileiro promulga a Lei 6.697 – denominada Código de Menores. A partir desta normativa, observa-se um significativo avanço no tocante à proteção da criança e do adolescente e, por consequência, no tratamento dado pela legislação pátria à adoção – tendo em vista que concentrou a finalidade da adoção na proteção integral do menor sem família.
O Código de Menores introduziu a adoção plena, suprimindo, dessa maneira, a legitimação adotiva da Lei 4.655/65, todavia manteve a adoção regulamentada pelo CC/16, ou seja, a chamada adoção tradicional (simples). Sobretudo, Maria Helena Diniz (2010, p. 524) preceitua que o instituto da adoção plena ressalta
a espécie de adoção pela qual o menor adotado passava a ser irrevogavelmente, para todos os efeitos legais, filho dos adotantes, desligando-se de qualquer vínculo com os pais de sangue e parentes, salvo os impedimentos matrimoniais. Essa modalidade tinha por fim: atender o desejo que um casal tinha de trazer ao seio da família um menor que se encontrasse em determinadas situações estabelecidas em lei, como filho e proteger a infância desvalida, possibilitando que o menor abandonado ou órfão tivesse uma família organizada e estável.
Tal distinção teve fim com a promulgação da Constituição Federal de 1988, mas este é um assunto que será abordado adiante. Pontualmente, destaca-se que a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 a lei passou a tratar de maneira igualitária todos os filhos, havidos ou não na constância do casamento, ou aqueles filiados por meio da adoção. Segundo Silva (2009, p. 21), somente
com a Constituição da República Federativa do Brasil, os direitos dos filhos biológicos e adotivos foram igualados, tal como descrito no art. 227, § 6º da Constituição: ‘Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação’. Tal disposição não deixa dúvidas a respeito de como a adoção equiparou filhos legítimos e adotados, inclusive com relação aos direitos sucessórios, permitindo romper com preconceitos milenares.
Todas as inovações inseridas no âmbito do Direito Civil traduzem o que é exposto no Direito de Família contemporâneo. Neste patamar, Flávio Tartuce (2015) sustenta que o Direito Civil-Constitucional apresenta-se como um novo caminho metodológico, eis que procura analisar os institutos de Direito Privado a partir da Constituição Federal de 1988 e, diferentemente do que vinha sendo traçado no aspecto jurídico, estuda os institutos do Direito Privado previstos na Constituição e vai além, quando interpreta a normatividade constitucional sob o prisma do Direito Civil e vice e versa.
Diante disso, o autor fundamenta que o exercício de forma igualitária é regido pelo artigo 1.634 do Código Civil, no sentido de que consagra as atribuições no âmbito familiar. Logo, o artigo 1.634 do Código Civil Brasileiro preceitua, in verbis, a competência de ambos os pais ou em qualquer que seja a sua situação conjugal, do pleno exercício do poder familiar, que consiste em, quanto aos filhos (Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014):
I - dirigir-lhes a criação e a educação; (Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
II - exercer a guarda unilateral ou compartilhada nos termos do art. 1.584; (Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
III - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem; (Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
IV - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para viajarem ao exterior; (Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
V - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para mudarem sua residência permanente para outro Município;(Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
VI - nomear-lhes tutor por testamento ou documento autêntico, se o outro dos pais não lhe sobreviver, ou o sobrevivo não puder exercer o poder familiar; (Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
VII - representá-los judicial e extrajudicialmente até os 16 (dezesseis) anos, nos atos da vida civil, e assisti-los, após essa idade, nos atos em que forem partes, suprindo-lhes o consentimento;(Redação dada pela Lei nº 13.058, de 2014)
VIII - reclamá-los de quem ilegalmente os detenha; (Incluído pela Lei nº 13.058, de 2014)
IX - exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição. (Incluído pela Lei nº 13.058, de 2014). (BRASIL, Código Civil – Lei nº 10.406/2002).
De caráter inovador, o artigo 227, §5º e 6º, disciplina que os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, isto é: são proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação, tornando-se, portanto irrevogável. No contexto, as regras contidas no código civilista, atinentes à adoção, estabelecem larga diferenciação entre filhos naturais e adotados (CUNHA, 2011).
Complementando a esfera das normatividades pós Constituição Federal, expõe-se que no Brasil a adoção é regulamentada pelo Código Civil (BRASIL, Lei nº. 10.406/2002) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (BRASIL, Lei nº. 8.069/1990), pela Lei Nacional de Adoção (BRASIL, Lei nº 12.010/2009), pela Lei nº 13.509/2017, normativas que estabelecem os princípios de necessidade básica de que todo ser humano. Logo, fundamenta-se que o ECA
foi criado para regulamentar as normas constitucionais, com o objetivo de assegurar e proteger a criança e o adolescente. O Estatuto eliminou as espécies de adoção (simples e plena), que foram unificadas em uma só. O referido Estatuto regulamenta a adoção, que agora é aplicada a todos os menores de 18 anos em qualquer situação, sem levar em conta a sua situação irregular, como previa o revogado Código de Menores. (BRAUNER; ALDROVANDI, 2010, p. 12).
Sobretudo, a doutrina de Silva (2009, p. 11) salienta a finalidade primordial das leis em “priorizar os interesses da criança e do adolescente, observando os anseios dos requerentes à adoção”. Desta forma, a Constituição Federal é alicerce para assegurar os direitos das crianças, dos adolescentes e jovens, legitimada em consonância com os preceitos e normativas do CC e do ECA, sustentando o que é definido por lei:
que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (SILVA, 2009, p. 21).
Considerando que nem sempre a convivência saudável para o bem estar da criança/adolescente transcorre junto à família biológica, verifica-se a necessidade do Estado em “intervir” no contexto, sob a forma da destituição do poder familiar, para então efetivar a garantia dos direitos que foram conferidos constitucionalmente.
No âmbito legislativo, a Lei nº 8.069 de 1990 (conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente) dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. O artigo 7º do ECA versa que a criança e/ou adolescente tem direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência (Lei nº 8.069).
Na contemporaneidade, o embasamento jurídico utilizado principalmente em casos de adoção é o Estatuto da Criança e do Adolescente, tendo em vista
que aboliu a adoção simples, ampliando os benefícios da adoção plena a todos os menores de 18 anos de idade, garantindo a permanência irrevogável no seio da família adotivo, sob a condição de filho, assegurando-lhes os mesmos direitos dos filhos biológicos, rompendo os vínculos de parentesco com a família de origem. Ademais, estende o direito de adotar à todas as pessoas maiores de 18 anos de idade, independente do seu estado civil ou de suas condições de fertilidade. (MAUX; DUTRA, 2010, p. 360).
Nesta linha, assevera-se que o processo de adoção no Brasil envolve regramento próprio no âmbito jurídico, eis que um dos pré-requisitos ao interessado(a), com idade igual ou superior a 18 anos, é o encaminhamento processual mediante à Vara da Infância e Juventude.
Consoante dados fornecidos pela plataforma digital do Senado Federal Brasileiro, observa-se que, depois de colhidas as informações e os dados do pretendente, o juiz analisa o pedido e verifica se foram atendidos os pré-requisitos legais, para, posteriormente, observar-se o seguinte procedimento:
os candidatos serão convocados para entrevistas e, se aprovados, passam a integrar o cadastro nacional, que obedece à ordem cronológica de classificação. Um pretendente pode adotar uma criança ou adolescente em qualquer parte do Brasil por meio da inscrição única. Quando a criança ou adolescente está apto à adoção, o casal inscrito no cadastro de interessados é convocado. O prazo razoável para o processo de adoção de
uma criança é de um ano, caso os pais biológicos concordem com a adoção. Se o processo for contencioso, pode levar anos. (BRASIL, 2017) Para João Seabra Diniz (2010, p. 67) a adoção envolve a inserção do menor/adolescente num ambiente familiar, cumprindo assim “de forma definitiva e com aquisição de vínculo jurídico próprio da filiação, segundo as normas legais em vigor, de uma criança cujos pais morreram ou são desconhecidos [...]”. Ainda, complementa-se que, a finalidade da adoção é a de “cumprir plenamente às reais necessidades da criança, proporcionando-lhe uma família, onde ela se sinta acolhida, protegida, segura e amada” (DINIZ, 2010, p. 67).
Neste âmbito, Maria Berenice Dias (2017, p. 1) atenta para a obrigatoriedade e o dever em cumprir a exigência que o Estatuto da Criança e do Adolescente, cujo artigo 50 determina “que a autoridade judiciária mantenha em cada comarca ou foro regional um duplo registro: um de crianças e adolescentes em condições de serem adotadas e outro de candidatos à adoção”.
Oportuno ressaltar que a Lei Nacional da Adoção foi “criada” no intuito de dar celeridade aos procedimentos de adoção, reduzindo assim a espera por parte dos candidatos a adotados e, em decorrência desta sistemática, diminuindo o “tempo da passagem” das crianças e/ou adolescentes nos abrigos.
Neste diapasão, Maia e Lima (2011, p. 277) indicam que “a adoção se presta à consecução do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Trata-se, na verdade, de um princípio além dos princípios, uma vez que informa a todos eles e a todas as regras”. Na perspectiva abordada no presente estudo, evidencia-se que as crianças e adolescentes são os destinatários deste princípio, e, portanto, todo o tratamento sobrepõe o caráter da dignidade.
Logo, “no que tange às crianças que crescem e se desenvolvem num ambiente familiar inadequado, ou àquelas que se encontram nos abrigos, deverá o Estado zelar para que sua situação seja regularizada”. (MAIA; LIMA, 2011, p. 277).
Complementando o exposto, aponta-se que até o ano de 2009 a adoção era regulada pelo Código Civil Brasileiro de 2002, nos artigos 1.618 ao 1.629,
juntamente com a normatividade do ECA. Posteriormente, as bases jurídicas consubstanciadas estão na Lei n° 12.010, de 03 de agosto de 2009 – a denominada Lei Nacional da Adoção.
1.3 O processo de adoção e as práticas inseridas pela Lei Nacional da Adoção
A Lei Nacional de Adoção (Lei nº 13.509/2017) foi elaborada com o objetivo de desburocratizar o processo de adoção, calcada no viés da segurança e da agilidade na esfera jurídica, e, sobretudo, com o objetivo de legislar em consonância com os princípios esculpidos pela Constituição Federal de 1988.
De acordo com Brauner e Aldrovandi (2010), essa legislação altera o texto do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/1990), revogando, também, a maioria dos artigos que versam sobre a adoção no Código Civil de 2002:
Art. 1o Esta Lei dispõe sobre o aperfeiçoamento da sistemática prevista
para garantia do direito à convivência familiar a todas as crianças e adolescentes, na forma prevista pela Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990,
Estatuto da Criança e do Adolescente.
§ 1o A intervenção estatal, em observância ao disposto no caput do art. 226
da Constituição Federal, será prioritariamente voltada à orientação, apoio e promoção social da família natural, junto à qual a criança e o adolescente devem permanecer, ressalvada absoluta impossibilidade, demonstrada por decisão judicial fundamentada.
§ 2o Na impossibilidade de permanência na família natural, a criança e o
adolescente serão colocados sob adoção, tutela ou guarda, observadas as regras e princípios contidos na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, e na Constituição Federal. (BRASIL, Lei nº 12.010/2009).
Na esfera das garantias, a normativa inserida pelo ECA introduz situações no que diz respeito ao acolhimento familiar e à equiparação do núcleo familiar:
Art. 92. As entidades que desenvolvam programas de acolhimento familiar ou institucional deverão adotar os seguintes princípios: (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009)
I - preservação dos vínculos familiares;
I - preservação dos vínculos familiares e promoção da reintegração familiar; (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009)
II - integração em família substituta, quando esgotados os recursos de manutenção na família natural ou extensa; (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência
II - integração em família substituta, quando esgotados os recursos de manutenção na família de origem;
IV - desenvolvimento de atividades em regime de co-educação; V - não desmembramento de grupos de irmãos;
VI - evitar, sempre que possível, a transferência para outras entidades de crianças e adolescentes abrigados;
VII - participação na vida da comunidade local; VIII - preparação gradativa para o desligamento;
IX - participação de pessoas da comunidade no processo educativo.
Parágrafo único. O dirigente de entidade de abrigo e equiparado ao guardião, para todos os efeitos de direito.
Complementando o exposto, verifica-se que com as alterações introduzidas pela Lei Nacional da Adoção expressões foram modificadas e “modernizadas”, inseridas de acordo com as nomenclaturas do contexto atual – eis que inapropriadas para a época, considerando a pluralidade das famílias, por exemplo:
o vetusto ‘pátrio poder’ dá lugar à expressão ‘poder familiar’ em consonância com o texto constitucional. Além disso, houve a adequação da lei à terminologia adotada pelo Código Civil de 2002, assim, o termo ‘concubinato’ foi substituído por ‘união estável’. O texto foi atualizado ainda para incluir a possibilidade de ‘guarda compartilhada’, no caso de adoção por pessoas divorciadas, separadas ou ex-companheiros (art. 42, §6º, ECA). (BRAUNER; ALDROVANDI, 2010, p. 13).
Nesta linha, tais modificações “atualizaram” o texto para designar a amplitude das relações no âmbito familiar e, assim, adequaram os parâmetros quanto a redução na idade para adotar, ou seja, diminuiu de 30 anos para 21 anos independente do estado civil, desde que observe a prerrogativa de 16 anos de diferença entre o(s) adotado(s) e adotante(s) e a impossibilidade no caso de parentesco ascendente, avô ou avó, ou irmão(s).
Nas palavras de Granatto (2010, p. 71), verifica-se que o objetivo do ECA “é a proteção integral da criança e do adolescente, incluindo todos os menores de dezoito anos”. Essa dogmática sustenta que a adoção
promove a integração da criança ou do adolescente na família do adotante igualando sua situação a do filho natural, deste modo, “não mais se fala em adoção simples e adoção plena, e sim, numa única adoção que visa criar laços de paternidade e filiação entre adotante e adotado, inclusive desligando-o completamente de sua família biológica. (GRANATTO, 2010, p. 71).
Silva (2009) disserta acerca do término da dicotomia Adoção Simples-Adoção Plena, orientando que prevalece a adoção sem qualificativo, tanto para as crianças e adolescentes de 0 a 18 anos de idade, quanto para os menores-adultos (pessoa