DIREITO INTERNACIONAL
Parte I – Direito Internacional Público
Prof. Dr. Marcus Maurer de Salles
19/04/2013
O Indivíduo e os Tribunais Internacionais:
O Sistema Interamericano de Direitos Humanos
e o Tribunal Penal Internacional
Plano de aula
1ª PARTE
• O Individuo como sujeito de direito internacional
– Sujeito de direitos – Sujeito de obrigações
• Os Tribunais de Direitos Humanos
– Corte Europeia – Corte Africana – Corte Interamericana • Os Tribunais de Guerra – Nuremberg – Extremo Oriente – Ex-Iugoslávia – Ruanda 2ª PARTE
• Tribunal Penal Internacional
– O Estatuto – A Composição – As Competências – Os Procedimentos • Casos do TPI – Iugoslávia (2002) – Congo (2004) – Darfur (2005) – Líbia (2011)
O indivíduo e o direito internacional
• Hans Kelsen – o destinatário final das normas é
sempre o indivíduo, inclusive quando o atinge
através de organizações ou grupos
• O sujeito primário de qualquer direito é o indivíduo.
Todo direito é regulamentação da conduta humana.
• O indivíduo é o objeto do direito internacional
público, sendo que os Estados atuam como órgãos
(máximos de representatividade do indivíduo) para
que o direito internacional se aplique ao indivíduo.
• Fontes: Teoria Geral do Direito e do Estado (1944) e
O indivíduo e o direito internacional
• Já que agora a comunidade (mais estreita ou mais larga) propagada sem exceção entre os povos da Terra foi tão longe que a infração do direito em um lugar da Terra é sentido em todos, não é assim a idéia de um direito cosmopolita nenhum modo de representação fantasioso e extravagante do direito, mas um complemento necessário do código não escrito tanto do direito das gentes para um direito público em geral e, assim, para a paz perpétua, da qual pode-se aprazer encontrar-se na aproximação contínua somente sob essa condição.
• Fonte: Emmanuel Kant – À paz perpétua (1795)
Indivíduo: sujeito de direitos e deveres
•
Sistema de direitos: regionais
– Polo ativo – peticionando para tribunais internacionais ou recebendo proteção diplomática do Estado
(substituição processual)
• Sistema europeu • Sistema interamericano • Sistema africano
•
Sistema de deveres: universais
– Polo passivo – sendo internacionalmente
responsabilizado por atos cometidos contra o DIP
Indivíduo: sujeito de direitos e deveres
• Limitações da capacidade dos indivíduos:
– não podem celebrar tratados,
– enviar ou receber delegações diplomáticas,
– ou declarar guerra, entre outras competências
que são próprias dos sujeitos estatais ou análogos.
Sistema europeu
• Corte Europeia de Direitos Humanos
– Sede: Estrasburgo (França – Alsácia) – 44 juízes
– Os indivíduos podem propor ações, contudo deve-se esgotar as fontes internas dos Estados.
• 1950 – Convenção Europeia para a proteção dos
direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais
– entrou em vigor em 1953 – Criou a CEDH
• http://www.echr.coe.int/echr/
Sistema europeu
• Acesso direto:
– Quando uma queixa esteja relacionada com ameaça ao direito à vida;
– Quando os recursos internos estão indisponíveis
– Quando estes recursos internos, apesar de indisponíveis, são ineficazes. • Partes: – Estados – Indivíduos – ONGs – Grupo de particulares
– (Prefeituras e governos provinciais não possuem legitimidade ativa)
Sistema africano
• Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos
– Protocolo constitutivo – 1998 (vigor 2004) – Carta Africana de Direitos Humanos (2006)
– Anteriormente, eram realizadas pela Comissão de Direitos Humanos e dos Povos (1981), sem força obrigatória
• Para que uma reclamação de indivíduo seja aceita, o Estado deve ter declarado tal condição.
• As ONGs ainda não podem solicitar opiniões consultivas.
• http://www.african-court.org/en/
Sistema interamericano
– Declaração Americana de Direitos e Deveres do
Homem – 1948
– Convenção Interamericana de Direitos Humanos -
1969 - Pacto de San José da Costa Rica
• Em vigor desde 1978• Ratificado pelo Brasil em 1992
– Sistema interamericano
• Comissão Interamericana de Direitos Humanos • Corte Interamericana de Direitos Humanos
Sistema interamericano
• Comissão Interamericana de Direitos Humanos
– Órgão consultivo da OEA que tem como principal função promover o respeito e a defesa dos direitos humanos. • Competência consultiva
– Interpretação de dispositivos de Direitos Humanos – Decisão em forma de parecer (não-obrigatório) – Efetua
recomendações aos Estados • Composição : 7 membros • Mandato: 4 anos
• Partes: Indivíduos, grupos de indivíduos, ONGs
Sistema interamericano
• Corte Interamericana de Direitos Humanos
– Órgão jurisdicional da OEA que tem como principal função analisar e julgar casos submetidos a ela pelos Estados-membros e pela Comissão de matéria de violação de direitos humanos.
• Competência contenciosa
– Julgamento de acusação de violação de Direitos Humanos
– Somente a Comissão e os Estados partes podem propor o caso à Corte – Decisão obrigatória nos planos internacional e nacional
– Valor de título executivo judicial
• Requisitos
– Esgotamento das vias judiciais nacionais – Comprovação de omissão estatal
Sistema interamericano
• 1. CASO MARIA DA PENHA
– 1983 – Duas tentativas de homicídio
– 1998 – Denuncia à Comissão IDH
– 2001 – Responsabilização do Brasil
– 2002 – Prisão do marido
– 2006 – Criação da lei Maria da Penha
– 2008 – Pagamento da indenização de R$60.000,00
Sistema interamericano
• Lei Maria da Penha – 11.340/06
– Objetivo de punir com mais rigidez os agressores de mulheres. – Altera o Código Penal brasileiro.
– Cria políticas públicas para mulheres. • Políticas públicas
– Prevenção de violência – Proteção em caso de violência – Assistência a mulher e família – Atendimento policial • Código Penal
– Agravante genérica
– Lesão corporal - Aumento da pena de um para três anos. – Proibição de substituição por penas alternativas.
Sistema interamericano
2. CASO XIMENES LOPES
• Em 1º de outubro de 1999, Albertina Ximenes internou seu filho, Damião Ximenes Lopes, portador de transtorno mental, na Casa de Repouso Guararapes - a única clínica psiquiátrica da região de Sobral.
• Três dias mais tarde, no dia 4 de outubro, Albertina retornou à clínica para visitá-lo, mas foi informada por um funcionário que Damião "não estaria em condições de receber visitas", estava morto nu amarrado ao pé da cama.
• Diante das circunstâncias, os familiares de Damião decidiram levar seu corpo para necropsia na capital, Fortaleza, uma vez que o legista do IML de Sobral também ocupava o cargo de diretor da clínica onde Damião havia falecido.
• O IML da capital, apesar de todas as evidências de violência sofrida por Damião, atestou "morte real de causa indeterminada".
Sistema interamericano
• Caso na OEA:
• A denúncia foi apresentada em 22 de novembro de 1999. Em 9 de outubro de 2002, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) acatou a denúncia e passou a processar o caso.
• O Brasil alegou em sua defesa a implementação de políticas de redução de leitos e fiscalização dos serviços destinados às pessoas portadoras de transtorno mental realizados pela coordenação nacional do programa de saúde mental do Ministério da Saúde.
• Em outubro de 2003, a CIDH concluiu que o Estado brasileiro era
responsável por violar os direitos à integridade pessoal, à vida, à proteção judicial e às garantias judiciais, consagrados nos artigos 5, 4, 8 e 25, respectivamente da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Em 2004 o caso passou a ser processado pela Corte Interamericana.
Sistema interamericano
Repercussões no Brasil
• Condenação brasileira
• Essa é a primeira vez que a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA decide um caso sobre o Brasil. A Corte Interamericana declara em sua sentença que o Brasil violou sua obrigação geral de respeitar e garantir os direitos
humanos; violou o direito à integridade pessoal de Damião e de sua família; e violou os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial a que têm direito seus familiares. Como medida de reparação à família de Damião Ximenes, a Corte condenou o Brasil a indenizá-los.
• Impunidade
• Até hoje, o governo brasileiro ainda não cumpriu o pagamento indenizatório à família, cerca de R$ 500 mil
Casos atuais
• Lei da Anistia
– Anulação da Anistia / Condena mortes e torturas
da Guerrilha do Araguaia
• Usina Belo Monte
– Licenciamento é considerada violador dos direitos
indígenas
Conclusões parciais
• Indivíduo enquanto sujeito de direito
internacional
• Sujeito de direitos x direito de obrigações
• Sistema interamericano de direitos humanos
• Diferenças entre a Comissão e a Corte
• Relevância dos casos envolvendo o Brasil
Próxima aula
• Os Tribunais de Guerra – Nuremberg – Extremo Oriente – Ex-Iugoslávia – Ruanda• O Tribunal Penal Internacional – O Estatuto – A Composição – As Competências – Os Procedimentos • Casos do TPI – Iugoslávia (2002) – Congo (2004) – Darfur (2005) – Líbia (2011)
Os Tribunais de Guerra
Histórico dos Tribunais no pós-guerra
•
OS TRIBUNAIS DA 2ª GUERRA MUNDIAL
– Tribunal Militar Internacional para Nuremberg
– Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente
•
OS TRIBUNAIS AD HOC DAS NAÇÕES UNIDAS
– Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia – Tribunal Penal Internacional para Ruanda
2ª Guerra Mundial
Tribunal Militar Internacional para
Nuremberg
Tratado de Londres • 8 de agosto de 1945 Signatários • Estados Unidos • União Soviética • Grã-Bretanha • França Crimes puníveis• Crimes contra a paz (Execução de guerra em violação a tratados) • Crimes de guerra (Violação dos costumes de guerra)
Nuremberg
Procedimento de natureza mista
• Utiliza-se de instrumentos do direito anglo-saxão e
romano-germânico.
Penas
• - Pena de morte
• - Pena perpétua
• - Penas por tempo determinado
Tribunal Militar Internacional para
Nuremberg
Réus
• - 24 acusados
• - 6 organizações (Partido Nazista, SS, AS, Estado-maior, Gestapo, Serviços de segurança)
Veredictos
• - 12 condenações à morte por forca • - 9 prisões perpétuas ou temporárias • - 3 absolvições
• - Partido, SS e Gestapo são declaradas organizações criminosas.
Encerramento das atividades
2ª Guerra Mundial no Extremo Oriente
Guerra Sino-Japonesa
• Invasão da Manchuria
• Invasão da China
• Ataque a Pearl Harbor
Aliados do Eixo
• Alemanha
• Itália
• Japão
Tribunal Militar Internacional para o
Extremo Oriente
Tratado de Tóquio • 2 de janeiro de 1946 Signatários • - Estados Unidos • - China • - Grã-Bretanha • - União Soviética • - França • - Austrália • - Canadá • - Nova Zelândia • - Índia • - Países Baixos • - FilipinasExtremo Oriente
Estatutos similares
• Os Tribunais de Nuremberg e Tóquio tem substância e forma muito parecidas, prevendo os mesmos crimes, procedimentos e penas.
Réus
• - Imperador Hiroto poupado • - 28 acusados
• - 2 com morte natural • - 1 com doença mental Veredictos
• - 7 condenações à morte por forca
• - 18 condenações perpétuas e temporárias • - Várias libertações
Conclusões sobre os Tribunais da 2ª
Guerra
• Justiça dos vencedores
• Tribunais de dupla natureza: jurídica e política
• Resposta ao Holocausto e ao expansionismo
nipônico
Iugoslávia
Conselho de Segurança
• Monopólio do uso da força na nova ordem jurídica internacional
Resolução 827/93
• Conselho de Segurança cria um órgão subsidiário com base no capítulo VII da Carta da ONU
1991 a 1999
• - 800 mil mortos
• - 3 milhões de deslocados
Iugoslávia
Crimes puníveis
• - Violações aos costumes de guerra • - Genocídio
• - Crimes contra a humanidade Acusações
• - 94 pessoas
Acompanhamento dos julgamentos
• http://www.icty.org/
Tribunal Penal Internacional para Ruanda
Resolução 955/94
• Conselho de Segurança cria um órgão subsidiário com base no capítulo VII da Carta da ONU
Abril e julho de 1994
• Cerca de 1 milhão de mortos Crimes puníveis
• - Violações aos costumes de guerra • - Genocídio
Genocídio em Ruanda
Tribunal Penal Internacional para Ruanda
Acusações
• 48 pessoas
Veredictos
• - 4 prisões perpétuas
• - 1 prisão temporária (por tempo determinado)
• - 38 prisões provisórias (com libertação posterior)
Tribunal Penal Internacional
TPI - Constituição
• Antecedentes
– Convenção para a prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, 1948
– 4 Convenções de Genebra sobre o Direito Humanitário, 1949 - e 2 Protocolos adicionais, 1977
– Convenção sobre a imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes de Lesa Humanidade, 1968 – Princípios de Cooperação Internacional para a
Identificação, Detenção, Extradição e Castigo dos Culpáveis de Crimes de Guerra ou de Crimes de Lesa Humanidade, 1973
TPI - Constituição
• Estatuto de Roma – julho 1998
• Entrou em vigor – julho 2002 (após 60 dias da data
de depósito do 60º instrumento de ratificação)
• 1ª instituição global permanente de justiça penal
internacional
• Conclusão: a instituição de tribunais internacionais é
conseqüência da tendência jurisdicional do DIP
contemporâneo
TPI - Constituição
• Personalidade jurídica
• Aprovado por 120 Estados
– 7 votos contra (China, EUA, Iêmen, Iraque, Israel, Líbia, Quatar)
– 21 abstenções
*EUA assinaram em 2000 e em 2002 comunicaram que não ratificariam
• Brasil: participou da elaboração CF/88
• Assinou em 2000 e ratificou em 2002
TPI - Estrutura orgânica
• Sede: Haia
• Composição:
– Presidência – administração da Corte
– Seção de Recursos, Seção de Julgamentos em Primeira Instância e Seção de Instrução
– Gabinete do Promotor /Procurador – órgão autônomo – Secretaria – assuntos não judiciais da administração
do Tribunal
• 18 juízes
– Brasileira: Sylvia Steiner – Mandato de 9 anos
TPI - Competências
• Jurisdição não é estrangeira, mas sim
internacional
• Competência subsidiária me relação às
jurisdições nacionais de seus Estados-partes:
princípio da complementaridade
• Caráter permanente e independente
• Não admite reservas
TPI - Competências
• Crimes imprescritíveis:
– Crimes de genocídio
– Crimes contra a humanidade
– Crimes de guerra
– Crimes de agressão
TPI – Responsabilidade individual
• Julgar pessoas físicas e não Estados
• Cometer, instigar, contribuir para ou ordenar
prática de crime
• Grande conquista da humanidade
• Não se pode alegar a excludente de ilicitude:
estrito cumprimento do dever legal
TPI - Relação com a CF/88
• Extradição x Entrega de nacionais
• Prisão Perpétua x Pena de 30 anos
• Imunidades e prerrogativas de foro
TPI – Marco na história
• Criminalização da guerra
• Tribunal permanente
• Responsabilidade individual – indivíduos
enquanto sujeitos de direitos e deveres de DIP
• Não há previsão legal de pena de morte
TPI - Situations and cases
• 18 casos
– 6 casos contra Congo
– 1 caso contra Rep. Central da África – 1 caso contra Uganda
– 5 contra Sudão – 2 contra o Quênia – 1 contra a Líbia
– 2 contra a Costa do Marfim
• 8 situações
– Uganda – Congo – Sudão
– Rep. Central da África – Quênia – Líbia – Costa do Marfim – Mali • http://www.icc-cpi.int/EN_Menus/ICC/Pages/default.aspx