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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS, CONTÁBEIS, ECONÔMICAS E DA COMUNICAÇÃO - DACEC
CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – HABILITAÇÃO JORNALISMO
“YOUTUBE: A NOVA FACE DO JORNALISMO NA INTERNET”
RAFAEL DILL KESKE
Ijuí/RS 2017
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RAFAEL KESKE
“YOUTUBE: A NOVA FACE DO JORNALISMO NA
INTERNET”
Monografia apresentada ao Curso de Jornalismo da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo.
Orientador: Profª Vera Lucia Spacil Raddatz
Ijuí / RS 2017
3 RAFAEL DILL KESKE
YOUTUBE: A NOVA FACE DO JORNALISMO NA INTERNET
Monografia apresentada ao Curso de Jornalismo da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo.
Data de aprovação: ___/___/___
Banca Examinadora:
____________________________________
Profª Vera Lucia Spacil Raddatz (Orientadora)
____________________________________ Profª Lara Nasi (Banca)
4 RESUMO
Quando comparada com o rádio e a televisão, a Internet representa uma evolução repentina e progressiva nos métodos de comunicação de massa. Consagrada como a plataforma que mais inovou em menos tempo no mercado, a Web trouxe a globalização do acesso à informação. Isto causa alterações não apenas sobre a forma como se consomem as notícias, mas também, nas ferramentas de pesquisa e apuração jornalística. O trabalho tem por objetivo explicar os detalhes que compõem e diferenciam a rede mundial dos veículos tradicionais de comunicação, abordando os diferentes aspectos que impulsionam o jornalista a se adaptar e buscar novas formas de transmitir a informação. Para tal, são abordados os detalhes que compõem e diferenciam as formas de produção para meios tradicionais e para a rede mundial. A partir dos estudos sobre Cultura Participativa, de Jenkins (2006); Cultura da Interface, de Jhonson (1997); e pesquisas feitas por Burgess e Green (2009), é objeto de estudo desta monografia o papel do Youtube nessa nova Era da Informação e como a plataforma se insere no mercado da comunicação de massa. A comparação entre a TV e os canais mais populares da Internet leva à conclusão que é na própria informação e conteúdo que os veículos tradicionais ficam para trás.
Palavras-chave: Internet. Youtube. Jornalismo Digital. Ciberjornalismo.
5 ABSTRACT
When compared to radio and television, the Internet represents a sudden and progressive evolution in mass communication methods. Consecrated as the platform that most innovated in less time in the market, the Web brought the globalization of access to information. This caused changes not only in how news is consumed, but also in search tools and journalistic scrutiny. The paper aims to explain the details that make up and differentiate the global network of traditional communication vehicles, addressing the different aspects that motivate the journalist to adapt and seek new ways of transmitting information. To this end, the details that compose and differentiate the forms of production for traditional media and for the worldwide network are discussed. From the studies on Participatory Culture, by Jenkins (2006); Interface Culture, by Jhonson (1997); and researches by Burgess and Green (2009), is the subject of study of this monograph the role of Youtube in this new Information Age and how the platform is inserted in the market of mass communication. A comparison between a TV and the most popular channels on the Internet leads to the conclusion and is important information about the content and the files are legal.
Keywords: Internet. YouTube. Digital Journalism. Cyberjournalism. Participatory Culture. Liquid Modernity.
6 SUMÁRIO
1 - CONSIDERAÇÕES INICIAIS... 7
2 - COMUNICAÇÃO NO MUNDO DIGITAL ...10
2.1 – O que é comunicação...10 2.2 – Comunicação em rede...12 2.3 - Comunicação e informação...16 3 - JORNALISMO DIGITAL... 19 3.1 – O que é jornalismo...20 3.2 – O papel do jornalista...22
3.3 – Fake News e credibilidade...26
3.4 - Jornalismo na era das redes...28
4 - YOUTUBE COMO FERRAMENTA PARA O NOVO JORNALISTA...32
4.1 – Youtube: Linguagem e características...33
4.2 – Youtuber como formador de opinião...37
4.3 - Jornalismo no Youtube: tendências e perspectivas...41
5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS...46
7 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A Internet é a plataforma que mais inovou em menos tempo no mercado. Toda semana, uma nova ferramenta ou experimento online abre caminho para um mundo cada vez mais amplo. Com a globalização do acesso à informação, houve uma forte convergência entre as culturas de todas as áreas do conhecimento, sendo uma delas o próprio Jornalismo. Tal impacto veio a causar não só alterações na forma como se consome a informação, mas também em modelos de pesquisa e apuração jornalística.
Foi Negroponte (1995) quem descreveu, em seu livro A Vida Digital, que “a comunidade de usuários da Internet vai ocupar o centro da vida cotidiana”. Segundo ele, haveria mais gente se divertindo na rede do que assistindo às tradicionais emissoras de televisão. No entanto, cada veículo ou mídia tende a ser estudado conforme os mesmos padrões observados no seu antecessor.
Foi a difusão da televisão nas três décadas após a Segunda Guerra Mundial que, ainda conforme Castells (1999, p. 415), criou uma nova galáxia de comunicação. “Não que os outros meios de comunicação desaparecessem, mas foram reestruturados e reorganizados em um sistema cujo coração compunha-se de válvulas eletrônicas e cujo rosto atraente era uma tela de televisão”. Desta forma, a TV se tornou o modelo mais eficiente em comunicação de massa até meados de 1995, quando a Internet começou a ganhar espaço nos lares de pessoas comuns e pequenas empresas.
A partir disto, profissionais e amadores passaram a investir num conteúdo exclusivo para o meio digital, unindo imagem, som e texto numa única tela. Além disso, a forte interação com o público já se tornava marca registrada dessa nova mídia, criando um novo estilo de comunicação multidirecional, ao contrário do que estávamos acostumados com os veículos tradicionais, onde a informação era linear – de um para vários. Em um primeiro momento, contudo, se percebem enormes dificuldades quanto à manutenção técnica de suas páginas, bem como sobre o acesso do público comum aos softwares que suportassem esse novo modelo de transmissão.
É possível dizer que a Internet começou a passos pequenos, constituindo mercados de nicho, onde os internautas discutiam sobre suas áreas de interesse em
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fóruns específicos para cada assunto. Foi somente alguns anos mais tarde que, com a profissionalização dos técnicos e editores de código HTML, puderam ampliar o alcance através de layouts mais atrativos e eficientes. Assim, a Internet foi sendo considerada pelos estudiosos como o mais novo veículo de comunicação de massa para, em seguida, retornar ao seu aspecto segmentado.
Pinho (2003, p. 115) observa que “Na medida em que a Internet representa um mercado em evolução devido ao crescimento exponencial da rede mundial, os grandes grupos editoriais e de comunicação brasileiros também marcam sua presença no mundo virtual”. O serviço chama a atenção dos empresários tanto pelo fácil acesso quanto pelos baixos custos de produção e distribuição. No entanto, a prática mais comum adotada pelos profissionais da comunicação foi, por algum tempo, a chamada transposição de mídias. O método consiste em reaproveitar os conteúdos feitos para rádio e televisão e, simplesmente, realocá-los num espaço onde podem ser acessados de qualquer lugar no mundo.
Apesar das vantagens oferecidas pelo mercado da comunicação em rede, ainda são poucos os veículos que emplacaram neste novo formato. Isso acontece pois desconsideram as diferenças culturais entre o tradicional leitor, ouvinte ou telespectador, e os usuários que crescem e se adaptam à Internet e suas formas distintas de se consumir a informação no meio digital. Para atrair a atenção deste novo público, se torna necessário trabalhar com conteúdo exclusivo e desenvolvido especificamente para o consumidor online.
Conceitua-se, assim, o principal objetivo deste trabalho: explicar os detalhes que compõem e diferenciam a rede mundial dos veículos tradicionais de comunicação, abordando os diferentes aspectos que impulsionam o jornalista a se adaptar e buscar novas formas de transmitir a informação. É objeto de estudo desta monografia o papel do Youtube como uma espécie de “televisão do futuro”, cuja popularidade e influência acabaram reformulando os modelos de criação e produção de conteúdo.
Começando pelos processos básicos da comunicação em rede, o primeiro capítulo explica as transformações enfrentadas de forma progressiva e constante no mundo digital. Através de conceitos apresentados por Wolton (2010) e Bauman (2001), entende-se o aspecto líquido da informação no século XXI, determinando uma maior rotatividade e menor vida útil das notícias na Internet. É com Rublescki
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(2011), Pinho (2003) e Dines (1997), que se explicam as principais vantagens e problemáticas da comunicação e interação via Web. Na sequência, o consenso popular de que uma nova mídia levaria à extinção da antiga é desmistificado nas obras de Ferrari (2004), Primo (2008), Recuero (2011), e Charadeau (2006). Concluindo a primeira parte, os desdobramentos impulsionados pela Era da Informação são comentados na visão de Castells (1999).
O segundo capítulo, por sua vez, passa a inserir o Jornalismo dentro do contexto digital. Em um primeiro momento, são discutidos os princípios e aspectos básicos da função jornalística. Voltando às teorias de Baumann (2001) em Modernidade Líquida, também é possível entender a banalização da informação na Internet e seus impactos na credibilidade do profissional da imprensa. O trabalho aborda, ainda, os novos parâmetros de pesquisa e linguagem adotados pela comunicação em rede. Em seguida, o fenômeno das Fake News é colocado em pauta, a fim de contextualizar a briga por influência entre a nova mídia e os veículos tradicionais. A segunda parte é concluída com a introdução de um novo modelo profissional: o ciberjornalista.
Já o terceiro e último capítulo trata do Youtube como ferramenta para comunicação de massa na Internet. Nas visões de Burgess e Green (2009), bem como de Jhonson (1997) em sua Cultura da Interface, exemplificam-se os aspectos que se agregam à popularidade da plataforma, influência que também é explicada no conceito de Jenkins (2006) sobre Cultura Participativa. Com base nos estudos de Dines (2007) e Queiroz (2015), é discutido o papel do youtuber como formador de opinião e potencial concorrente aos jornalistas tradicionais. Ao encerrar a terceira parte com Keen (2012), são debatidas as principais tendências e perspectivas quanto ao futuro da plataforma no mercado da comunicação.
O trabalho termina por constatar que o streaming em vídeo na Internet irá dominar o mercado audiovisual. A conclusão tem como base o potencial amplo e colaborativo do Youtube frente ao viés antigo e linear dos meios de comunicação tradicionais. Ao perderem audiência e monopólio sobre a informação, as emissoras de TV tradicionais acabam por migrar sua estratégia para o digital. O tempo mostra que, no entanto, a própria informação e conteúdo oferecidos pela televisão passam a ficar para trás.
10 2. COMUNICAÇÃO NO MUNDO DIGITAL
A Comunicação nunca esteve tão presente no nosso cotidiano quanto é hoje! Basta lembrarmos do tempo que passávamos desenvolvendo nossas tarefas comuns do dia a dia e, agora, quanto desse tempo passamos a, também, receber as informações por meio de televisores, aparelhos de rádio e da forma mais contemporânea: a Internet. Se antes era impossível manter um ambiente em harmonia sem o televisor ligado, hoje é difícil manter até uma simples conversa sem checar as horas no celular.
Neste capítulo, a proposta é contextualizar os processos básicos da comunicação, bem como as transformações nele enfrentadas quanto a forma de se transmitir as informações. Para isso, o trabalho aborda a nova característica líquida da informação, descrita nos conceitos de Wolton (2010) e Bauman (2000). Em seguida, liga-se o processo da comunicação à interação em rede, observando suas principais vantagens e problemáticas apontadas por Rublescki (2011), Pinho (2003) e Dines (1997).
Após definir a relação entre comunicação e rede, dismistificam-se os rumores vividos pela grande mídia tradicional em oposição à nova mídia. Nas palavras de Ferrari (2004), Primo (2008), Recuero (2011), e Charadeau (2006), demonstra-se como blogs e micromídia podem servir como uma fonte de informação e feedback muito promissora aos mais diversos tipos de comunicadores.
Num terceiro momento, o capítulo aborda a Era da Informação e seus desdobramentos, segundo Castells (1999), Pinho (2003), Wolton (2010), Primo (2008) e Rublescki (2011). Na busca por praticidade, o Jornalismo sofre com a concepção de um novo fenômeno: o jornalista de redação.
2.1 O que é comunicação
Inerente a todas as formas de vida inteligente, a comunicação é tanto o resultado quanto a razão de existência para uma consciência em contato com
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outras. Enquanto o filósofo matemático francês, René Descartes (1596-1650), propunha a célebre afirmação de que “Penso, logo, existo”; somente o compartilhamento deste pensamento é que o torna real para um pequeno ou grande número de pessoas. Dá-se a contraposição de que, caso o mantivesse para si, ninguém mais, além dele, reconheceria essa afirmativa como realidade. Determina-se, assim, uma nova forma de pensar a relação entre o homem e sua característica mais presente: a de se comunicar. Dentro deste contexto, Wolton explica as várias as razões pelas quais se dá o processo da comunicação:
A comunicação acontece por vários motivos, mas é possível distinguir três razões principais, frequentemente misturadas e hierarquizadas conforme as circunstâncias, que nos estimulam a querer entrar em contato com alguém. Primeiramente compartilhar. Cada um tenta se comunicar para compartilhar, trocar. É uma necessidade humana fundamental e incontornável. Viver é se comunicar e realizar trocas com os outros do modo mais frequente e atuetico possível (…) O ideal da comunicação está evidentemente ligado ao compartilhamento, aos sentimentos, ao amor (WOLTON, 2010; p. 17).
Em termos gerais, a comunicação remete ao ato de expressar alguma ideia, sentimento ou opinião, transmitindo-as a qualquer receptor suficientemente apto a compreendê-las. Algumas determinações podem até definir a comunicação como a própria mensagem. Outras avaliam-na como o intercâmbio de informações. Wolton (2010, p12) coloca fim à discussão ao dizer que “A Informação é a mensagem. A comunicação é a relação, que é muito mais complexa”.
Esta troca, por sua vez, interdepende de um grande número de detalhes que possam facilitar ou prejudicar a transmissão da mensagem. Assim, compõem-se os estudos sobre o processo comunicacional, procurando discernir entre temas mais técnicos, como a forma pela qual se dá a comunicação e – mais recentemente – os impactos de diferentes formas de comunicação em grandes massas.
Dentre os componentes principais da comunicação, se faz necessário o emissor; o receptor; a mensagem; o canal ou veículo; o meio; a resposta; bem como o ambiente no qual esta comunicação se realiza. Cada um destes elementos pode apresentar suas características próprias e íntimas que os diferem em relação aos impactos. É por isto que a comunicação – em âmbito jornalístico e pedagógico - se trabalha no sentido de torná-la cada vez mais neutra, a fim de que seja compreendida por um número maior de receptores.
Para que se tenha cada vez mais produtividade e coerência com o princípio básico da comunicação, que é o do compartilhamento, tornam-se necessários novos
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investimentos acerca da forma como essas informações são dirigidas ao seu público. Ao buscar maior proximidade e acesso do receptor às informações de interesse e utilidade pública, cabe ao emissor organizar e atualizar os meios e canais pelos quais a comunicação se dará. A partir disto, a relação entre o conteúdo da mensagem e sua capacidade de manter-se na memória coletiva também tornou-se cada vez mais dinâmica e abreviada.
Bauman explica os detalhes da mudança de linguagem que transformaram a informação num componente mais líquido, que se esvai com mais facilidade. Considerando a comunicação como um processo em constante movimento e adaptação, é possível perceber mudanças frequentes e significativas em curtos períodos de tempo. De certa forma, a palavra “revolução” acaba sendo banalizada frente a tantas transformações. Essa banalização é descrita nas diferenças entre aquilo que é sólido e fluído:
O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas "por um momento Em certo sentido, os sólidos suprimem o tempo; para os líquidos, ao contrário, o tempo é o que importa. Ao descrever os sólidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o tempo de fora seria um grave erro (BAUMAN, 2007, p. 7).
Dentro do contexto descrito por Bauman, entendemos como o próprio avanço das tecnologias pode, de um lado, beneficiar em questão de recursos e formas de alcançar o receptor; e de outro, prejudicar na forma como a informação fixa na memória coletiva e produz os resultados esperados por todo o processo comunicacional. Neste sentido, os estudiosos e teóricos passam a estudar novas maneiras de se produzir conteúdo, já considerando sua característica e aspectos líquidos frente a comunicação em rede.
2.2 Comunicação em rede
A Internet é a plataforma que mais inovou em menos tempo no mercado. Toda semana uma nova ferramenta ou experimento online é anunciado e abre
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caminho para um mundo de novas e igualmente amplas possibilidades. Com a globalização deste acesso, houve a convergência entre culturas de várias esferas do conhecimento, até então isoladas numa perspectiva de área e tema. Os próprios processos foram se atualizando e aprendendo a usufruir desta característica mais segmentada e interativa da comunicação em rede. Conforme Rublescki, o Brasil começa a trabalhar e entender este fenômeno mundial somente a partir dos anos 1990:
No Brasil, é a partir dos anos 1990 que o fenômeno mundial se amplia na sociedade, com a mudança do paradigma industrial para o informacional. Através das conexões em rede, a sociedade brasileira passa a conviver com uma nova rede técnica (o ciberespaço), com novas formas de organização social e de sociabilidades online, a cibercultura, (re) configurando as práticas comunicacionais contemporâneas (RUBLESCKI, 2011, p. 13).
Para Castells (1999, p. 82), “A criação e o desenvolvimento da Internet nas três últimas décadas do século XX foram consequência de uma fusão singular de estratégia militar, grande cooperação científica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural". A popularidade da Internet e da comunicação em rede se dá, em um primeiro momento, na diminuição de custos de produção e transmissão. Contudo, como ainda não haviam consultores ou comunicadores devidamente treinados em programação de softwares e sistemas, incluía-se a necessidade de novos estudos e investimentos em mão de obra especializada.
Enquanto programadores, comunicadores e produtores de conteúdo lutam contra a dificuldade técnica de se manter e divulgar na Internet; o público receptor também enfrenta alguns dos efeitos colaterais mais fortes no avanço constante das tecnologias. É o que explica Pinho:
O uso intensivo da tecnologia de ponta pode criar um indesejável efeito colateral: a restrição ou limitação da audiência do site. Quanto mais nova for a tecnologia implementada, menor será a base instalada de usuários. Além disso, a tecnologia de ponta sempre exige computadores mais poderosos, aplicativos especializados, velocidade de comunicação e novos hardwares (como sofisticadas placas de vídeo e de som), o que também limita significativamente a audiência (PINHO, 2003, p.150-151).
Dines (1997, p. 32) cita McLuhan ao lembrar que “cada nova tecnologia cria uma nova ambiência para o homem. E nesta nova ambiência, ele reprocessa as tecnologias anteriores, adaptando-as e recondicionando-as à nova situação”. Desta forma, subentende-se a ideia de que, mesmo tornando-se ultrapassada ou relativamente fraca frente às novas ferramentas, nenhuma mídia tende a se extinguir, mas reinventar-se.
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É possível comentar, dentro deste contexto, o grande mito do desaparecimento da mídia tradicional, como os jornais impressos e emissoras de rádio AM e FM. Sobre o último, a maior transição que presenciamos é a do analógico para o digital. Algo que, além de facilitar a transmissão, torna possível ouvir a qualquer emissora de qualquer lugar no mundo.
Com os jornais impressos, a comunicação na rede apenas incomoda em virtude da má utilização. Mesmo que, por um lado, a mídia impressa siga contando como prova até mesmo em inquéritos contra ex-presidentes, a informação é cada vez mais líquida, perdendo e ganhando valor em tempos muito curtos. Desta forma, trabalhando com grandes máquinas impressoras e gráficas, torna-se impossível manter o ritmo. Ainda é possível citar o tempo de saída da gráfica e entrega na casa do assinante. Todas estas desvantagens parecem pôr os jornais e revistas impressas em cheque.
No entanto, Dines (1997, p. 56-57) lembra que não houve um só caso de desaparecimento de um sistema de veículos desde a Bíblia impressa por Gutenberg, em 1442:
À medida em que aumenta a sofisticação da informação através do vídeo, mais se atemorizam aqueles que estão no outro campo, ou seja, no da comunicação impressa. Nos quase 600 anos desta era da informação multiplicada (a contagem é a partir da Bíblia impressa por Gutenberg, em 1442) ainda não houve nem um só caso de desaparecimento de um sistema de veículos. Sucede geralmente o contrário: o homem, na sua ânsia inovadora e sem dar-se conta de que caminha em círculos (cuja representação seria a trajetória pendular), copia-se permanentemente (DINES, 1997, p. 56-57).
Um dos pontos fracos da comunicação em rede, fora as questões técnicas de acesso a software e sistemas de programação, está na capacidade de retenção do receptor à informação que lhe é transmitida. A utilização simultânea de duas faculdades ou mais pode propiciar uma sensação de conforto e, ao mesmo tempo, prejudicar o grau de retenção que é alcançado na atenção a apenas um dos sentidos básicos, conforme explica Dines:
A utilização simultânea de duas faculdades, como a visão e audição, como ocorre nos veículos mistos (TV e cinema), tem mais atrativos, oferece conforto maior. Mas não significa que obtenha maior grau de retenção. Os veículos que se utilizam apenas de um sentido permitem retenção mais profunda, já que a outra dimensão é acrescentada na própria mente do leitor ou ouvinte, quando a imaginação compõe o quadro real (...) Quanto menos sentidos humanos envolvidos e quanto mais presente estiver nossa capacidade intelectual, melhor será a retenção e o aproveitamento da mensagem (DINES, 1997, p. 58-59).
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Ferrari (2004, p. 37-38) afirma que “Por mais de cinquenta anos, a TV tradicional reinou absoluta como sinônimo de mídia de massa. Os telespectadores consumiam passivamente os programas exibidos. Não havia troca”. Graças ao advento da Internet, milhões de usuários simultâneos, atraídos pela personalização do conteúdo, interatividade e dinamismo do noticiário online, já davam o indício de que os portais seriam a mais nova mídia de comunicação de massa.
Com o tempo, tanto a dificuldade de transmissão quanto a de acesso foram sendo transgredidas pela manutenção constante das tecnologias que lhes dão suporte. Para Rublescki:
A rápida disseminação dos sites colaborativos e das chamadas redes sociais (...) situam o Brasil como expoente mundial em tempo de navegação, na leitura diária de blogs e na atualização de páginas de redes sociais, onde, de cada dez internautas brasileiros, oito estão presentes (RUBLESCKI, 2011, p. 17-18).
Primo (2008, p. 3) também destaca a preferência por espaços de debates em comentários, que “ocorrem não apenas com o blogueiro, mas também entre os comentaristas. Nesse sentido, insiste-se aqui que um blog com comentários é um processo de escrita coletiva”. Outros autores, como Recuero, por exemplo, defendem que:
Uma rede social, por si, já é uma metáfora estrutural. Quando focamos um determinado grupo como uma “rede” estamos analisando sua estrutura. De um lado, estão os nós (ou nodos). De outro, as arestas ou conexões. Enquanto os nós são geralmente representados pelos atores envolvidos e suas representações na internet (por exemplo, um blog pode representar um ator), as conexões são mais plurais em seu entendimento (RECUERO, 2011, p. 115-116).
Mesmo ganhando em preferência, a comunicação em rede ainda carecia de conteúdo. Eram, geralmente, debatidas as coisas que se via na TV ou rádio. A Internet passava a ganhar em popularidade e aproximação com o usuário, algo que, até então, era inconcebível para a tradicional comunicação linear. É nesse contexto que Wolton recorda o fato de que nenhum meio simplesmente desaparece:
É preciso também lembrar que a convergência técnica entre informação, telecomunicações e audiovisual não significa o fim das diferenças de identidade e de estilo. O suporte não é o conteúdo. Ou, então, o cinema teria desaparecido há 50 anos por causa da televisão. A relação de forças entre esses três gigantes ainda provocará fusões industriais, financeiras, tecnológicas, mas nem por isso todos os serviços e aplicações vão se misturar. Ao contrário. Quanto mais a tecnologia racionaliza e reúne voz, imagem, texto e som, mais as diferenças de ordem cultural dizem respeito à natureza da atividade, ou seja, ao que é mais importante. Esse será o combate do depois de amanhã. Hoje, a batalha técnica fascina com sua multiplicidade das aplicações. Amanhã, a disputa será pela diversificação dos conteúdos (WOLTON, 2010, p. 35-26).
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Quando se compreendem os benefícios da comunicação em rede, bem como o início iminente de uma nova Era da Informação, a Internet passa a se fortalecer tanto no setor comercial quanto no comunicacional. São evidentes as pressões da grande mídia em se adaptar à nova ferramenta. Ainda são escassos, por sua vez, os profissionais de comunicação especializados nesse novo meio.
2.3 Comunicação e informação
A evolução rápida e constante que culminou na invenção e proliferação da Internet no mercado representam, sem dúvida, um marco revolucionário na forma de se comunicar. Finalmente, une-se o útil ao agradável. Com a facilidade de um clique, os usuários de um mesmo canal podem trocar ideias, sugestões e comentários acerca do conteúdo que lhes é transmitido. Frente a este contexto, Castells faz uma comparação histórica:
Por volta do ano 7000 a.C. ocorreu um importante invento na Grécia: o alfabeto. Essa tecnologia conceitual (...) tornou possível o preenchimento da lacuna entre o discurso oral e o escrito, com isso separando o que é falado de quem fala (...) Uma transformação tecnológica de dimensões históricas similares está ocorrendo 2.700 anos depois, ou seja, a integração de vários modos de comunicação em uma rede interativa. Ou, em outras palavras, a formação de um hipertexto e uma metalinguagem que, pela primeira vez na história, integra no mesmo sistema as modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicação humana (CASTELLS, 1999, p. 413-414).
Não é a toa que chamamos o presente momento de Era da Informação! Desde os veículos de comunicação tradicionais até os novos, mais alternativos, a informação torna-se algo fácil e simples de ser compartilhado. Se, antigamente, apenas o comunicador tinha acesso aos meios de produção e divulgação da notícia, hoje, por outro lado, lidamos com a perspectiva de que cada um é seu próprio jornalista. Algo que, em determinados climas de repressão social e desconforto civil, também se torna cada vez mais evidente quanto à comunicação em rede, é o fato de que ninguém a controla, conforme lembra Pinho:
Nenhum governo, empresa ou instituição controla a rede mundial. Os padrões e as normas da Internet são organicamente estabelecidos pela comunidade. Cada organização instala e mantém a sua própria parte na rede, permitindo ainda que as informações enviadas por ela transitem pelas suas rotas isentas de qualquer custo (PINHO, 2003, p. 41).
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Finalmente, é Wolton quem fala sobre a crise do capitalismo, em outono de 2008, quando se aceleram as reflexões sobre a dimensão política das relações entre informação, tecnologia e comunicação:
Pela primeira vez na história mundial, as pessoas puderam acompanhar ao vivo a crise e as suas consequências. (…) A crise diz respeito também à informaçãoo financeira, nunca controlada, indissociável da internet que, mais uma vez, traz à tona a questão da regulamentação dessa ferramenta, caso se queira realmente fazer dela um instrumento de liberdade (WOLTON, 2010, p. 13-14).
Primo (2008, p. 5) destaca que, “Além de maximizar sobremaneira o número de fontes de informação, a cibercultura abre espaços de participação e livre expressão”. No entanto, ainda conforme Wolton (2010, p. 16), “A informação tornou-se abundante; a comunicação uma raridade. Produzir informações e a elas ter acesso não significa mais comunicar”.
Wolton (2010, p. 34) afirma que “Nas ditaduras, junto com rádio, televisão, jornais e telefone celular, a internet é na maioria das vezes uma ferramenta indispensável para a liberdade de informação e crítica da oposição”. Contudo, sobre a informação na era da comunicação em rede, Dines (1997, p. 56) relembra a crescente adaptação dos receptores à novas formas de se consumir as notícias. “Antigamente, quando algo acontecia, todos iam para a rua comprar jornais e saber o que houve. Hoje, quando algo ocorre, todos vão para dentro de casa ligar a TV”. Seguindo a lógica, apenas uma década depois, já consideramos a Internet como fonte número um de informação.
Enquanto crescem os veículos que apostam num conteúdo exclusivo para o meio digital - unindo imagem, som e texto numa única tela – crescem, também, as estratégias de venda a partir da nova ferramenta. A interação com o público já garante uma das marcas registradas dessa nova mídia, criando um novo estilo de comunicação multidirecional, ao contrário do que estávamos acostumados com os veículos tradicionais, onde a informação era linear – de um para vários. Contudo, para Primo, a grande mídia ainda pode se beneficiar com o uso dos blogs:
Com efeito, blogs não podem ser vistos como uma arma apontada para a grande mídia, pois eles próprios podem contribuir para seu fortalecimento. Debates em blogs sobre o novelas, por exemplo, acabam por divulgar ainda mais esses produtos massivos. A relação inversa também é verdadeira. Veículos de massa e de nicho hoje prestam atenção em blogs para se pautar. Não raro jornais e revistas citam blogs como fontes ou comentam temas que emergiram na blogosfera (PRIMO, 2008, p. 6).
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Segundo Rublescki (2011, p. 59), “Rapidamente, cresceu o número de blogs sendo usados como fontes de informação de relevância jornalística, fazendo com que eles passassem a, de alguma maneira, influenciar o jornalismo”. Com o seu devido tempo, os tradicionais veículos da grande mídia se veem obrigados, também, a acompanhar o ritmo do seu público alvo. Visto que, na era da comunicação em rede, a informação corre 24 horas por dia, aumentam as cargas de trabalho nas grandes redações. Este processo todo gerou um fenômeno que, conforme Dines, pode ser definido como aperfeiçoamento – acomodação:
O movimento aperfeiçoamento-acomodação dos processos de comunicação demonstra, antes de tudo, que eles são imperecíveis. Veículos não se extinguem como tal, transformam-se. O ser humano, tão volúvel no seu relacionamento com o instrumental do progresso, no caso da comunicação parece apegar-se. Isto é facilmente explicado porque a Comunicação faz parte da condição humana (DINES, 1997, p. 31).
A partir daí, passamos a entrar na parte do processo que envolve a discussão sobre o jornalista e seu propósito profissional. Aos indícios de uma “acomodação” à forma líquida de se relacionar com a notícia, somado às influências da tecnologia nas relações trabalhistas, constituem-se novas análises acerca da credibilidade jornalística. Se, antes, estudávamos as formas de produção que prejudicavam a imparcialidade, hoje, abordamos o famoso retrocesso descrito pela expressão “jornalista de redação”.
19 3. JORNALISMO DIGITAL
É normal que, frente a uma nova e grande mudança, os mais velhos fiquem com medo de ficar para trás. No entanto, é a própria mudança que impulsiona o velho em direção ao novo. Assim também funcionam os jornais, revistas, emissoras de rádio e profissionais da grande mídia, que tiveram de partir de um ou dois tipos de plataforma para praticamente todas elas em uma só. Neste capítulo, destacam-se os princípios e aspectos básicos do Jornalismo, desde a teoria do espelho até a percepção e necessidade de estudos aprofundados acerca dos efeitos da comunicação de massa. Também é trabalhado, neste capítulo, como a comunicação na Internet viria a desestabilizar o jornalismo tradicional. Explica-se, a partir disto, a banalização da informação nas abordagens de Bauman (2000) sobre a nova característica líquida e fluída da notícia em rede.
Em um segundo momento, o capítulo comenta o papel do jornalista frente às novas tecnologias que agora o cercam. Destacam-se novos parâmetros de pesquisa e apuração a partir da rede, bem como os veículos especializados em trazer informação da Web para a própria Web. Sobre o desafio de se comunicar com uma nova linguagem, o trabalho também fala das ferramentas e qualidades da internet que podem facilitar a vida do jornalista, além das vantagens e desafios que o profissional precisa ter em mente antes de começar a investir no mercado digital.
Na sequência, a parte três do capítulo aborda um fenômeno que vem ganhando bastante força na Internet: as fake news. A partir deste conceito, são citadas as características e detalhes que identificam uma notícia falsa na rede, bem como sua finalidade e impacto na credibilidade e influência da mídia tradicional. Desta forma, é possível traçar alguns parâmetros aos quais o jornalista deve estar atento quando encontrar este tipo de conteúdo na Web.
A quarta parte deste capítulo demonstra como deve ser o perfil do jornalista produtor de conteúdos para o mercado digital, começando pelas suas características básicas e indo até o ambiente organizacional necessário para manter uma redação digital. Para isto, é preciso tratar da periodicidade na manutenção de um veículo em rede. Na sequência, abordam-se as diferenças entre a transposição de mídias e o jornalismo feito exclusivamente para a Web, bem como a necessidade de interação
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constante com o seu público alvo. Por último, o capítulo introduz um novo modelo de profissional da comunicação: o ciberjornalista.
3.1 – O que é jornalismo
Da coleta à divulgação, o Jornalismo compreende a apuração de fatos e testemunhos para posterior disseminação de informes que possam atingir a sociedade em algum grau. Mais do que isso, é resultado de um profundo estudo acerca dos processos em comunicação, a fim de satisfazer um grande público – normalmente denominado “massa” – em termos de conhecimento e informação. A atividade jornalística também é como um mediador entre a população e órgãos públicos, empresas, instituições ou entidades.
Até determinada época, o Jornalismo fora reconhecido como um “espelho do real". A teoria sustentava a ideia de que o relato do jornalista pudesse ser o mais próximo da realidade o possível, refletindo os fatos do cotidiano de maneira idêntica ao ocorrido. Contudo, aprofundando os estudos acerca do profissional da imprensa e seus critérios de produção, foi possível observar uma série de problemas e desencontros quanto à chamada Teoria do Espelho, desenvolvida a partir dos anos 1850, no contexto das profundas mudanças que se processavam na imprensa dos Estados Unidos (Pena, 2010).
Num primeiro elemento, o próprio jornalista impõe determinados pontos de vista sobre um determinado fato. Isto pode diferir conforme o conhecimento prévio do profissional, bem como de seus interesses e ideologias pessoais. Em outro aspecto, há um potencial direcionamento da notícia mediante o enquadramento ou viés tomado por cada jornalista. Também é possível citar, neste contexto, a linha editorial do próprio veículo, o que já determina parte da notícia mesmo antes que o profissional saia da redação.
Com efeito, a comunicação em rede acaba por desestabilizar o Jornalismo tradicional como fonte única de informação. Uma vez de fácil acesso e divulgação, a produção de conteúdo era feita de todos para todos, proporcionando uma interação como nunca antes vista. Segundo Rublescki (2011, p. 19-20), “Tem-se um meio estruturalmente descentralizado e de difícil controle sobre o conteúdo. As mídias
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digitais possibilitam uma comunicação interativa (um para o outro) e aberta, potencialmente de todos para todos”.
A comunicação informal e maior proximidade com o internauta ajudam a Internet a se consagrar como uma nova ferramenta de comunicação de massa. Tal novidade vem a desestruturar a imprensa convencional, que perde seu monopólio de influência como única fonte de informação. Desta forma, explica-se a transformação do jornalismo tradicional para o chamado jornalismo hegemônico, nas palavras de Rublescki:
Assim como o leitor, também as fontes, pilar central das estratégias de credibilidade do jornalismo hegemônico que se consolidou especialmente ao longo da segunda metade do século XX, são cada vez menos uma instância fixa e estável. Todos podem ser emissores, leitores e fontes, de acordo com o momento, com a visibilidade da mídia que utilizam, com a rede de seguidores que possuem. A capacidade de agendar temas e discussões se pluraliza. Para leitores e para jornalistas, já que toda informação tem uma origem em algum lugar e não necessariamente do testemunho ocular do repórter. O jornalista e as fontes viram leitores da blogosfera e utilizadores das mídias sociais (RUBLESCKI, 2011, p. 18).
A expressão, conforme Rublescki (2011, p17), “se articula com um eventual declínio do Jornalismo como instituição mediadora, a exemplo de outras tantas instituições como Estado, Igreja, escola ou mesmo família”. Contudo, ainda se apresenta gradual a expansão das práticas sociais inseridas no cenário do Jornalismo Líquido. Para a autora:
Tal processo tem como fator de base a tecnologia: a queda progressiva do custo dos computadores e a conexão banda larga, a multiplicação de pontos de acesso (lan houses, cibercafés), a popularização estrondosa da fotografia digital e dos celulares, que tornam possível captar fotos e registrar vídeos a partir de uma tecnologia portátil e pessoal. Pela primeira vez na história dos meios de comunicação, os leitores e as fontes, desde que conectados em rede, têm realmente a mesma possibilidade de ser também emissores com grande visibilidade (RUBLESCKI, 2011, p. 41).
A modernidade sólida foi, para Bauman, um período de controle e dominação. É com o fim da crença no projeto moderno e ampliação dos meios de comunicação que emerge uma nova modernidade, a modernidade liquida. Mocellin (2007, p. 105), sugere que “Se a modernidade sólida foi uma tentativa de controle racional do mundo, a modernidade líquida é o mundo em descontrole”.
Em outras análises, como a de Rublescki (2011, p. 27), “No mundo sólido dos Estados-nações toda diferença era vista com desconfiança, ao passo que, no mundo líquido, a diferença torna-se exigência: todos devem ser atores individuais”. A autora lembra, contudo, que essa liberdade é relativa na medida em que a identidade
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individual torna-se mutável e passageira. Ou seja, o objeto de consumo se torna elemento na construção do próprio self.
3.2 – O papel do jornalista
Conforme Wolton (2010, p. 71-72) “A vitória da informação ao longo de dois séculos teria sido impossível sem os jornalistas”. Para este autor, a própria existência do profissional já é indicativo ou garantia de liberdade de informação. Se, antes, os jornalistas eram os “guardiões e os heróis dessa vituria frágil da liberdade de informação”, agora, enfrentam uma realidade onde todo mundo é seu próprio jornalista, buscando e compartilhando notícias em seu próprio nível de alcance. Contudo, enquanto a informação corre solta pela rede, a presença do profissional da imprensa se faz ainda mais necessária. Quanto mais informação se tiver, “mais haverá a necessidade de jornalistas para selecionar, hierarquizar, verificar, comentar, legitimar, eliminar e criticar” (WOLTON, 2010, p. 71-72). Sobre o contexto onde a descentralização do ciberespaço acaba por desarticular o modelo clássico de comunicação, Machado (2003, p. 4) comenta que “o exercício do jornalismo nas redes telemáticas depende do estabelecimento de critérios capazes de garantir a confiabilidade do sistema de apuração dentro de um entorno com as especificidades do mundo digital”.
A partir disto, determinam-se novos parâmetros de pesquisa e apuração dos dados, passando a funcionar o modelo de pesquisa da Teoria Fundamentada. De acordo com Recuero (2011, p. 83), “a ideia central da Teoria Fundamentada é, justamente, aquela em que a teoria deve emergir dos dados, a partir de sua sistemática observação, comparação, classificação e análise de similaridades e dissimilaridades”. Desta forma, prevê uma inversão no método tradicional de pesquisa, onde o pesquisador deve ir a campo livre de suas pré-noções – ou seja, sem informações prévias e interpretações pessoais sobre a pauta que irá acompanhar. Agora, a Teoria se embasa nos elementos de pesquisa já presentes no ciberespaço, oferecendo uma série de vantagens e também limitações à apuração do jornalista.
Em teoria, os profissionais deveriam fazer uso da pesquisa em rede para ampliarem seus conhecimentos antes de acompanharem uma pauta. Na prática, por
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outro lado, a informação e conteúdo disponíveis na Internet tornam-se a própria notícia. Isto termina por evidenciar um aumento nas cargas de trabalho e produção que, por consequência, acabaram pressionando o jornalista a prezar por mais quantidade e menos por qualidade.
Segundo Pinho, a pesquisa jornalística na rede mundial é feita com quatro propósitos gerais:
O primeiro é a busca de informação, que pode incluir documentos, dados, fotografias, áudio e vídeo. O segundo objetivo consiste em procurar e localizar pessoas especializadas em temas ou em assuntos que estejam sendo cobertos pelo repórter. O terceiro é o de checar determinadas informações usando recursos de referência on-line. O quarto objetivo estabelecido é o de analisar determinada informação, em especial dados (cf. Ward, 2002: 68-9). A Web não deve servir sempre como um substituto para documentos, contatos telefônicos e entrevistas pessoais, já que seus principais propósitos são ajudar o jornalista a obter os documentos, a encontrar fontes autorizadas e a levantar o contexto dos fatos e acontecimentos a serem cobertos. Informação em quantidade não significa necessariamente informação de qualidade (PINHO, 2003, p. 98-99).
No entanto, ainda que as várias ferramentas e possibilidades da comunicação em rede possam beneficiar a atividade jornalística, torna-se necessário lembrar de que a mídia não é uma variável independente na indução de comportamentos. Conforme menciona Castells (1999, p. 421), “Suas mensagens, explícitas ou subliminares, são trabalhadas, processadas por indivíduos localizados em contextos sociais específicos, dessa forma, modificando o efeito pretendido pela mensagem”.
Quando a notícia é feita sem a presença dos jornalistas no local, a redação do jornal digital preenche o papel de um centro de gravidade para onde converge o fluxo de matérias que são enviadas por outros profissionais, colaboradores e usuários do sistema – os populares releases. Considerando que, no modelo eletrônico, os fatos são substituídos pela necessidade de uma frase de busca que defina o problema procurado, Machado explica a problemática desta metodologia invertida em pesquisa e apuração:
O jornalismo nas redes promove uma inversão no processo tradicional de produção de notícias porque o repórter antes de sair em perseguição de uma personalidade qualquer para recolher uma declaração sobre um determinado fato deve empreender um levantamento dos dados necessários para elaborar a notícia ou reportagem. Enquanto no jornalismo convencional, muitas vezes, a notícia consiste na própria declaração, o jornalismo nas redes possibilita que a declaração seja um dos elementos que reforça a credibilidade da notícia, quando permite aos envolvidos o direito de expressar comentários sobre o caso (MACHADO, 2003, p. 8).
É por isso que, considerando a Internet como veículo de informação livre, autores como Nilson Lage acreditam que a notícia não terá vida longa em jornais,
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perdendo terreno para a mídia eletrônica. Já de acordo com Ferrari (2004, p. 55) “Sua sobrevivência, aí, depende do grau de controle político e do desenvolvimento da mídia eletrônica, que é mais veloz, eficiente e não gasta papel. Mas, a notícia escrita sobreviverá em veículos especializados, ainda que chegue ao consumidor por via eletrônica, projetada em terminais de vídeo”.
Com o desenvolvimento e popularização do digital nas grandes redações e até mesmo nas residências mais comuns, a qualificação para este mercado já não é apenas um diferencial, mas uma necessidade. Ainda que a informação líquida precise da atenção e apuração técnica de um profissional, este não consegue se ver livre de adaptar-se às novas ferramentas e aprender a utilizá-las. Para além das já mencionadas: velocidade e nenhum gasto de papel, Pinho cita outras características da comunicação digital:
A internet é uma ferramenta de comunicação bastante distinta dos meios de comunicação tradicionais – televisão, rádio, cinema, jornal e revista. Cada um dos aspectos críticos que diferenciam a rede mundial dessas mídias – não-linearidade, fisiologia, instantaneidade, dirigibilidade, qualificação, custos de produção e de veiculação, interatividade, pessoalidade, acessibilidade e receptor ativo – deve ser mais bem conhecido e corretamente considerado para o uso adequado da Internet como instrumento de informação (PINHO, 2003, p. 49-55).
O papel, por exemplo, é uma ferramenta linear. Por isto é lido do canto superior esquerdo, palavra por palavra. Não faria o menor sentido ler um impresso de outra maneira. Na Internet, o hipertexto permite que o usuário se movimente sem sequência predeterminada, mas saltando entre os vários dados que necessita ou que lhe chamem a atenção.
A tela de um computador também afeta a visão humana de formas diferentes. Com o papel em mãos, o leitor naturalmente afasta ou aproxima o documento dos seus olhos a fim de enxergar melhor. Já no computador, uma vez fixado a uma mesa, a visão força os olhos a se ajustarem ao tamanho e tipo de letra que está sendo visualizado. É por isso que, na Internet, as pessoas tendem a ler mais vagarosamente.
A instantaneidade da rede também permite que uma notícia ou mídia seja divulgada apenas instantes depois do ocorrido. Atualmente, muitos veículos digitais e figuras públicas acabam ofuscando a audiência da imprensa tradicional com transmissões de eventos ao vivo do Youtube ou Facebook. A liquidez faz com que uma personalidade possa ganhar fama nacional por um único vídeo viral na Internet.
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Contudo, os quinze minutos de fama também passam cada vez mais rápido. Além de proporcionar um conteúdo muito mais diversificado, isso também cria uma gama infinita de possibilidades e novos mercados. É por isso que o jornalista precisa aprofundar seu conteúdo e focar num público cada vez mais segmentado, a fim de alcançar melhores resultados do que se tentasse apenas repetir o que já foi feito por outro em outra região ou país – e os internautas sempre encontram a referência.
Sobre a qualificação necessária para adaptar-se à nova linguagem, o jornalista precisa saber que a Internet apresenta um público jovem e qualificado, com níveis altos de escolaridade, elevado poder aquisitivo e perfis ocupacionais em que predominam as posições de empresário, executivo e autônomo. Dados registrados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2015 – levantamento anual feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)1demonstram que em 2015, o acesso já era realidade para 79,8% dos
estudantes e 51,7% dos que não estudam. Alunos da rede privada (97,3%) acessaram mais internet do que os da rede pública (73,7%). Considerando a população de 10 anos ou mais de idade por grupos etários, observa-se que as pessoas de 15 a 17 anos de idade e de 18 ou 19 anos de idade apresentaram os maiores percentuais de usuários de Internet no Brasil (82,0% e 82,9%, respectivamente). Pessoas que trabalham em educação, saúde e serviços sociais foram as que mais usaram a Internet: 87,1% contra quem trabalha no serviço agrícola, com 16,8%. A conclusão é que, quanto maior for o rendimento, maior é a utilização da ferramenta: 92,1% das pessoas que ganham mais de dez salários mínimos acessaram a internet contra 32,7% das pessoas sem rendimento ou que ganham até um quarto do salário mínimo. Por tais características, nunca se deve subestimar o poder e influência da Internet como importante formadora de opinião.
Em mais uma vantagem da comunicação via Internet estão os baixos custos de produção e veiculação, que nem mesmo se comparam aos da mídia impressa, televisiva ou radiofônica. Depois dos primeiros investimentos em hardware e software, isto é, nas condições técnicas de aparelhagem à disposição do jornalista, publicar a informação na World Wide Web gera gastos totalmente irrisórios. Em contrapartida, trata-se de um mercado mais complexo para se lucrar com a informação – dada a sua característica líquida. Pinho (2003) explica a diferença ao
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dizer que “a Web é uma mídia pull, que deve puxar o interesse e a atenção do internauta, enquanto a TV e o rádio são mídias push, nas quais a mensagem é empurrada diretamente para o telespectador ou ouvinte, sem que ele a tenha solicitado”.
Ainda segundo Pinho (2003, p. 102), as formas e critérios de indexação nos mecanismos de busca podem facilitar a visibilidade de um site ou notícia na Internet. Isso “pode depender, entre outras medidas, da correta indexação do conteúdo e das páginas (...) seguindo três medidas sugeridas por Araújo (2000, p. 37) para aumentar a possibilidade de o site ser encontrado mais facilmente numa busca” São elas: Título; Relevância e Tags”.
3.3 – Fake news e credibilidade
Com a liberdade de expressão e praticidade oferecidas pela Internet, a comunicação em rede acaba descentralizando a cultura da informação, afetando severamente o monopólio e credibilidade dos veículos tradicionais. Até então, toda notícia era veiculada de um para todos, sem direito a comentários ou feedback. A mensagem era transmitida sob um determinado viés – definido pelo editor – e também era compreendida dentro do enquadramento previamente escolhido. Não havia opção de pausar, avançar ou repetir a informação.
Uma vez na Web, o internauta é quem escolhe de que forma irá consumir a notícia. O leitor define sua mídia favorita e passa a criar vínculos de ligação com as fontes e canais de preferência. O agrupamento de contatos interessados em receber conteúdo é feito diretamente no site onde o material é consumido, seja por meio de inscrição, cadastro ou mailing list – isto é, um banco de dados onde você insere o seu e-mail a fim de sempre receber o que é divulgado no canal.
A partir de então, a informação começa a ser transmitida de todos para todos. Cada leitor se torna, também, o seu próprio jornalista. Considerando isto, é fácil supor como o vazamento de dados e notícias polêmicas na Internet pode diminuir a influência e, ainda, afetar a credibilidade dos veículos da imprensa convencional. Os “furos de reportagem” são divulgados quase instantaneamente, sem a antiga preocupação com uma apuração mais detalhada. Agora, o foco está na velocidade em que se chega ao receptor. Essa inversão de valores contribui com uma série de falhas básicas e que ainda são cometidas por alguns jornalistas. Exemplos disso são
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a cópia, na íntegra, de texto e imagem produzidos por terceiros; a atenção voltada à chamada e não ao conteúdo em si, deixando a notícia vaga e aberta a interpretações; ou até mesmo a repetição de informações falsas e boatos, os populares “hoaxes” ou “fake news”.
Identificar uma notícia falsa é relativamente simples. Contudo, devido à facilidade em se compartilhar na rede, a matéria ganha espaço em repercussão. Quando muito se fala sobre uma informação, mais verídica ela parece ser. Um fenômeno a ser observado, principalmente, nas redes sociais, é o hábito de ler apenas os títulos. Com a praticidade da Internet e a liquidez da informação na Web, muitos não se interessam em abrir uma nova página ou ler o conteúdo na íntegra. Ao repercutir ou comentar um artigo sem confirmar a veracidade do mesmo, os internautas acabam por reforçar as notícias falsas. Além de tirar o foco sobre determinadas pautas, os boatos também comprometem o trabalho de assessorias e instituições que, hoje, precisam monitorar constantemente quando seu nome é mencionado na rede.
Para constatar a veracidade da notícia, o primeiro passo é identificar sua fonte. Basta pesquisar nos demais veículos de grande circulação. Se a informação for verdadeira, ela tende a ser repetida pelas mídias oficiais. Geralmente, os veículos que produzem “fake news” ainda usam nomes parecidos ou quase idênticos aos veículos tradicionais. Erros de português ou formatação também são comuns quando uma notícia é falsa. Quando o título chama muita atenção para si, procure ler o conteúdo completo. Muitas vezes, o restante da matéria nada tem a ver com o que é dito na chamada. Por fim, a maioria das informações falsas que se propagam na Internet possuem apenas um ou dois parágrafos, sem nem mesmo identificar as fontes e dados com precisão.
A transmissão ao vivo pela Internet começou a ganhar foça em 2013, após as mobilizações populares contra o aumento da passagem de ônibus em várias capitais do país. Quase que paralelamente, grupos políticos da oposição também começaram a focar nas redes sociais como principal ferramenta de campanha. É neste contexto que se destacam páginas apartidárias ou de esquerda como a Quebrando o Tabu 2e Mídia Ninja3, responsáveis por trazer informação com
credibilidade e que, até então, costumava ser ignorada ou mal contada pela
2 https://www.facebook.com/quebrandootabu/?ref=br_rs 3 https://www.facebook.com/MidiaNINJA/
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imprensa tradicional. Ao dependerem de uma concessão pública intermediada pelo Governo, veículos como o rádio e a TV foram vistos como a principal arma da Direita, sendo taxados pela sociedade civil como manipuladores e tendenciosos.
O fenômeno que envolve a disseminação de boatos e informações falsas na rede acabou por reforçar a antiga ideia de que só se pode confiar naquilo que é dito pelo jornal ou na TV, mantendo o serviço tradicional como fonte primária de informação segura. O fenômeno acaba por, também, reconciliar a importância do jornalista na produção de notícias com maior aprofundamento. A principal diferença entre o internauta comum e o profissional da imprensa está nos critérios de pesquisa e apuração. O comunicador, por sua vez, é capacitado com o papel de filtrar as informações que recebe, considerando valores técnicos e éticos para uma divulgação séria e de qualidade.
3.4 – Jornalismo na era das redes
Ao começar a falar sobre Jornalismo Digital, primeiro é necessário definir o perfil esperado de um produtor de conteúdos para a Web. De acordo com Ferrari (2004, p. 40-41), “Para companhias com origem na empresa jornalística, fica bem mais fácil transportar o conteúdo para a Web, já que todas as etapas percorridas pela notícia até o momento final – quando é publicada – são conhecidas pelos jornalistas”. É concebida, nas redações, a atividade da transposição de mídias, ou seja, daqueles que traduzem as notícias da linguagem impressa para a Web. Estes são classificados como jornalistas on-line. O jornalismo digital, por sua vez, “compreende todos os noticiários, sites e produtos que nasceram diretamente na Web”. Ainda conforme Ferrari:
Quem é capaz de mexer em várias mídias ao mesmo tempo e, além disso, escreve corretamente e em português culto, tem grandes chances de tornar-se um ciberjornalista. Para quem cresceu com a interface gráfica do Windows, fez tarefa escolar escutando música no fone de ouvido ao mesmo tempo em que “zapeava” a TV sem som, ser ciber não é difícil. A dificuldade está em você conseguir saltar de surfador para repórter e depois editor. Não basta ser multitarefa e esperto com a tecnologia presente na Web: é preciso ter background cultural para conseguir contextualizar a informação e empacotá-la de um jeito diferente a cada necessidade editorial (FERRARI, 2004, p. 42).
Entre os principais instrumentos agora disponíveis pela rede mundial, os novos e ampliados recursos facilitam o desempenho de inúmeras atividades e
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funções jornalísticas. Para o comunicador, a Internet serve como uma via de mão dupla, onde o jornalista pode tanto informar como buscar por mais informação. É o que diz Pinho, ao destacar:
A comunicação rápida e ágil entre jornalista, fonte e leitor; a busca de ideias que possam se transformar em notícia; a ajuda ao repórter para encontrar fontes autorizadas e levantar o contexto dos fatos e acontecimentos a serem cobertos; o monitoramento da discussão de diversos assuntos em áreas específicas; o acesso a arquivos em todo o mundo para a busca de documentos que auxiliem o jornalista no levantamento de informações prévias sobre o assunto de uma matéria pautada pelo editor; e a consulta a grandes bases de dados e bibliotecas que são repositórios de vasta gama de informações (PINHO, 2003, p. 9-10).
As primeiras versões eletrônicas dos principais jornais nacionais começaram a aparecer na Web em 1995, a partir de uma iniciativa do Jornal do Brasil. Para Mielniczuk (2003, p. 45), “O que era chamado então de jornal online na web não passava da transposição de uma ou duas das principais matérias de algumas editorias. Este palco material era atualizado a cada duas horas, de acordo com o fechamento das edições do impresso”.
A periodicidade na manutenção destes sítios se torna um enorme obstáculo nas redações que, atentas ao produto final impresso, acabam por deixar a transposição de notícias na Internet em segundo plano. Para Rublescki (2011, p. 38), “a interação com o leitor era embrionária: menu de navegação, e-mail, fóruns e enquetes. O foco ainda era muito mais institucional do que comercial”. A estratégia, segundo a autora, é colocar seu material na rede e cobrar pelo acesso à informação, da mesma forma que cobravam pelos jornais impressos. Hoje, muitos jornais e revistas ainda oferecem apenas um chamariz para seus canais tradicionais, enquanto outros, já focados no mercado digital, usam a rede para disponibilizar conteúdos exclusivos aos assinantes.
Dines (1997, p. 37) lembra que “Nenhum veículo emite permanentemente. Mesmo que possamos ter estações de rádio transmitindo 24 horas por dia, o ser humano tem o seu ciclo de interrupções para repouso, alimentação e trabalho”. Na Internet, por outro lado, torna-se impossível aplicar a mesma lógica dos horários comerciais e padrões de trabalho. Seja em um portal de notícias ou em uma fanpage na sua rede social, o público online não atende às mesmas restrições de tempo. É preciso estabelecer uma periodicidade personalizada quanto ao propósito de cada empresa, sendo a velocidade de resposta uma das características mais valorizadas por esse novo mercado.
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Ferrari (2004, p. 75) lembra que “Não basta ter uma boa reportagem na mão para achar que ela fará sucesso na home page, é preciso saber onde publicar e em que horário”. Para tal, é preciso organizar um sistema de navegação consistente e funcional, que permita ao usuário saber onde está e para onde ir. Para esta autora, “Nada na internet é aleatório ou desprovido de intenção – ao menos não deveria ser. Precisamos saber exatamente o porquê de determinado canal ou seção estar disposto naquele espaço geográfico da tela (2004, p. 75)”. ‘Conteúdo’, segundo a autora, tornou-se a palavra da moda nos tempos da proliferação de sites:
E não foi à toa: é em busca de conteúdo – mais até mesmo do que de serviços – que as pessoas acessam a maioria dos sites. Os elementos que compõem o conteúdo on-line vão muito além dos tradicionalmente utilizados na cobertura impressa – textos, fotos e gráficos. Pode-se adicionar sequência de vídeo, áudio e ilustrações animadas. Até mesmo o texto deixou de ser definitivo – um e-mail com comentários sobre determinada matéria pode trazer novas informações ou um novo ponto de vista, tornando-se, assim, parte da cobertura jornalística. E acessar um conteúdo não é necessariamente a leitura de uma notícia, já que engloba textos que trafegam pelas salas de bate-papo, mensagens enviadas nos fóruns, resenhas de livros, discos e colunas (FERRARI, 2004, p. 39).
Para pesquisadoras como Ferrari (2004, p. 45), o fazer jornalismo digital não pode ser definido apenas como um trabalho de produzir ou colocar reportagens na internet. “É preciso pensar na enquete (pesquisa de opinião com o leitor); no tema do chat, o bate-papo digital; nos vídeos e áudios; e reunir o maior número possível de assuntos e serviços correlatos à reportagem”. Na Comunicação em Rede, a interatividade é Lei! Portanto, torna-se sempre necessária a produção de conteúdo que chame a atenção do leitor, sendo importante que ele se sinta no controle de como e em que ordem irá consumir cada informação. Ferrari complementa:
A Web permite ao usuário decidir em que ordem quer ler ou apenas visitar um site. Isso deve, segundo Lanson, obrigar os jornalistas a encontrar outras formas de contar histórias na Internet, diferentes dos grandes blocos de textos. Já é possível encontrar matérias divididas em diversas notas, com clipes de áudio e vídeo, gráficos e mapas na Web (...) Já no caso de histórias longas, pode-se optar por um “índice”. O que exigiria que as matérias fossem escritas como capítulos, com blocos curtos de textos e talvez até separadas por quebras no próprio design da página. Cada capítulo deveria começar com um gancho e terminar deixando o leitor curioso sobre outros temas de um mesmo assunto, que seriam abordados em notas subsequentes (FERRARI, 2004, p. 76).
O Jornalismo Digital diferencia-se do jornalismo praticado nos meios de comunicação tradicionais. Segundo Pinho (2003, p. 58) é preciso “considerar e explorar a seu favor cada uma das características que diferenciam a rede mundial
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desses veículos”. As principais mudanças, a partir de agora, estão no modelo de apuração e tratamento dos dados, além das relações articuladas com os usuários.
Outros nomes, como Machado (2003, p. 9), também defendem que, na era das redes, com a diversidade de fontes encontradas e muitas delas de livre acesso, “nada que não seja a falta de compreensão da modificação porque passa o jornalismo nas sociedades contemporâneas justifica a transcrição total dos conteúdos comprados das agências de notícias, divulgados com um dia de antecipação pelas próprias agências”.
Veículos cem por cento digitais já não são tão raros na sociedade contemporânea. Ainda conforme Ferrari (2004, p. 41), estes são obrigados a ter todos os departamentos de uma redação: fotografia, editorias, produção net (similar à produção gráfica), financeiro, arte, entre outros. Eles “têm a resposabilidade de assegurar a sobrevivência sem o respaldo do “produto mãe”. Com essa concepção, a autora define um novo terreno, que é chamado no mundo acadêmico de ciberjornalismo. Este, por sua vez, refere-se às atividades de criar e manter um blog, mediar chats, escrever em fóruns, e toda tarefa que envolva criação de textos para os produtos do meio.