• Nenhum resultado encontrado

A inteligência do mundo : sobre a cognição de processos globais em Octavio Ianni e Ulrich Beck

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A inteligência do mundo : sobre a cognição de processos globais em Octavio Ianni e Ulrich Beck"

Copied!
177
0
0

Texto

(1)

DANILO

ARNAUT

SARAIVA

A

INTELIGÊNCIA

DO

MUNDO:

SOBRE

A

COGNIÇÃO

DE

PROCESSOS

GLOBAIS

EM

OCTAVIO

IANNI

E

ULRICH

BECK

CAMPINAS

(2)
(3)

iii

UNIVERSIDADE

ESTADUAL

DE

CAMPINAS

INSTITUTO

DE

FILOSOFIA

E

CIÊNCIAS

HUMANAS

DANILO ARNAUT SARAIVA

A INTELIGÊNCIA DO MUNDO: SOBRE A COGNIÇÃO DE

PROCESSOS GLOBAIS EM OCTAVIO IANNI E ULRICH BECK

Orientador: Prof. Dr. Renato José Pinto Ortiz

Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas para a obtenção do título de Mestre em Sociologia.

Este exemplar corresponde à versão final da dissertação defendida pelo aluno Danilo Arnaut Saraiva sob a orientação do Prof. Dr. Renato José Pinto Ortiz.

CAMPINAS

(4)
(5)
(6)
(7)

vii RESUMO

Esta dissertação materializa um conjunto de reflexões a respeito dos trabalhos de Octavio Ianni e Ulrich Beck sobre os processos de globalização. Trata-se de uma sociologia dessas sociologias que objetiva investigar a própria cognoscibilidade desses processos através dos elementos que orientam a criação sociológica desses autores.

PALAVRAS-CHAVE: Globalização; Sociologia; Ulrich Beck; Octavio Ianni; Relações Internacionais

(8)
(9)

ix ABSTRACT

The Awareness of the World: On the cognizance of global processes within the thoughts of Octavio Ianni and Ulrich Beck

This dissertation is based on a set of analyses of the works of Octavio Ianni, and Ulrich Beck on the processes of globalization. It constitutes a sociology of these sociologies, which aims to investigate the very cognoscibility of these processes through the elements that have driven the author’s sociological creation.

KEYWORDS: Globalisation; Sociology; Ulrich Beck, Octavio Ianni, International Relations

(10)
(11)

xi SUMÁRIO

PARTE PRIMEIRA

1. Sobre os Estudos Globais: Observações preliminares [p. 3]

I. A Gestação: precursores de um debate [p. 5]

II. A Emergência [p. 10]

III. O Estabelecimento [p. 12]

2. Sociologia da Sociologia: notas sobre um percurso [p. 19]

I. A cognição de processos globais como objeto [p. 21] II. Sobre a construção da pesquisa [p. 24] III. Textos e contextos: a abordagem do corpus [p. 26] IV. Para a cognição de pensamentos: a leitura como atitude [p. 31] V. Sobre a escrita deste trabalho [p. 32] 3. O Emblema do Globo: Octavio Ianni e a Taquigrafia do Mundo [p. 35]

I. O Globalismo: novo palco da história [p. 37] II. A tentação metodológica [p. 42] III. A Sociedade Global: sociologia da Humanidade [p. 47] 4. Filhos do Mundo: Individualização, Cosmopolitização

e Modernidade em Ulrich Beck [p. 53]

I. Individualização: metodologia da (auto)biografia [p. 56] II. Cosmopolitização, cosmopolitismo:

interlúdio da globalização [p. 64] III. Modernização da Modernidade: raízes da globalidade,

caminhos da globalização [p. 69]

PARTE SEGUNDA

5. O lugar do Pensamento na Globalização [p. 75]

I. Enigmas do Globalismo, respostas à Globalidade [p. 79] 1. A expressão máxima do Capitalismo [p. 79]

(12)

xii

2. Economia política: globalismos do globalismo [p. 81] 3. O Estado-nação como um problema

sociológico renovado [p. 88]

II. A inteligência da Política: um recorte possível [p. 89] III. Violência, Terror e Vulnerabilidade [p. 93]

1. Quando a barbárie se institucionaliza:

o Estado como agente do terror [p. 94] 2. Inimigos do Estado, Inimigos do Mundo:

riscos perceptíveis e individualização da guerra [p. 99] IV. Desigualdades, (in)segurança e seguridade [p. 102] 1. Trabalho e produção da humanidade [p. 104] 2. Desigualdade e estratificação [p. 106] V. A Política (re)descoberta [p. 109] 1. As ilusões da Política mundial [p. 109] 2. A Política cosmopolita e reflexiva [p. 114] 3. Globalização e processo civilizatório [p. 117] 4. Politização, Despolitização e Repolitização:

Modernidade e Reencantamento do Mundo [p. 120] 6. Heranças e Horizontes: perspectivas de um debate [p. 125]

(In)conclusão [p. 126]

I. O problema da abrangência [p. 128] 1. Teoria sociológica ou diagnóstico social?:

Um raciocínio de entremeio [p. 131] II. A cortina das ilusões: globalização e senso (in)comum [p. 134]

1. O real e o efetivo [p. 136] 2. A univocidade do novo [p. 139] 3. A reinvenção da Sociedade [p. 139] III. Signos, significados e significantes [p. 145]

Referências [p. 149]

(13)

xiii

A Vânia, por me mostrar que o Amor é filho do Perdão; a Luiza, que me ensinou que o Amor é irmão do Carinho; a Almerinda, por me contar que o Amor, quando ainda

moço, caiu de amores pela Paciência e nunca mais conseguiu viver sem ela; a Sônia, que me segredou que o Amor tem três sobrenomes:

Força, Confiança e Admiração; a Tânia, por me mostrar que o Amor, sendo pai da Coragem, é uma decisão.

(14)
(15)

xv

Agradecimentos

Além daquelas às quais dedico este trabalho, gostaria de expressar meus agradecimentos à professora Leila da Costa Ferreira e ao professor Josué Pereira da Silva, pelos atenciosos comentários às minhas pesquisas, e em especial à primeira versão deste texto. Também gostaria de mencionar aqui (em ordem alfabética) os professores Álvaro de Vita, Fernando Lourenço, Frédéric Vandenberghe, Gilda F. Portugal Gouvêa, Helmuth Berking, Omar Thomaz, Pedro Peixoto Ferreira, Sérgio Cardoso e Silvio César Camargo, cujas sugestões e estímulos tanto contribuíram para o avanço dos meus trabalhos.

Quero recordar, com gratidão, também as professoras Britta Friedmann, Elisabeth Rosenberger, Maria Coracini, Martha Gibson, Norma Wucherpfenig, Sandra Ballweg, Salete Aquino, Viviane Veras e Yara Frateschi, que me ensinaram sobre escrita e comunicação. E o professor Milton Almeida (in memorian), pela lição de coerência e ousadia críticas.

Nessa linha, gostaria de dirigir um agradecimento especial ao meu professor e orientador Renato Ortiz, pelo constante encorajamento e pela palavra arguta que me ampararam de modo frutífero durante as minhas pesquisas, estimulando sempre a independência e a perspicácia intelectuais, imprescindíveis ao nosso ofício.

Também quero agradecer aos professores Octavio Ianni (in memorian) e Ulrich Beck. Embora só tenha podido conhecer pessoalmente este último, foram eles que me conduziram, cotidianamente, pelos caminhos e tropeços, horizontes e trilhas que compõem a aventura que é pensar o social.

Agradeço aos meus colegas e amigos Anna Mayr, Augusto Costa, Camila De Mario, Camila Ribeiro, Catarina Casimiro Trindade, Flávia Paniz, Gustavo Cardoso, João Gomes, Julia Abdalla, Julia Uzun, Juliana Closel Miraldi, Juliana Pinheiro Prado, Lucas Page Pereira, Meghie Rodrigues, Roberta Caroline, Samira

(16)

xvi

Feldman Marzochi, Tatiana Barbarini, Tobias Schmidt e Vítor Queiroz, pelo apoio, pela torcida, assim como pelas sugestões e auxílios durante a realização deste trabalho. Gostaria de lembrar também a atenciosa assistência dos funcionários dos setores administrativos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (e, mais amplamente, da Universidade Estadual de Campinas), da Biblioteca Octavio Ianni, da Biblioteca Florestan Fernandes, da Universitäts- und Landesbibliothek der TUDarmstadt, da Universitätsbibliothek Duisburg-Essen, e da Biblioteca Jurídica do Largo de São Francisco.

Finalmente, last but not least, gostaria de agradecer ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cujo apoio foi fundamental para a realização das pesquisas que deram origem a essa dissertação, bem como ao Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), por ter viabilizado minha estada na Universidade Duisburg-Essen, antes do início do Mestrado, e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por cobrir parte das despesas com participação em eventos acadêmicos fora do estado de São Paulo.

(17)

xvii

Books are not the world: they are about it.

Arjun Appadurai*

*

(18)
(19)

1

(20)
(21)

3

Capítulo I

Sobre os Estudos Globais

(22)

4

A espécie humana pode não sobreviver por tempo suficiente para que nós a estudemos como uma entidade complexa, mas essa dificilmente seria uma desculpa para abandonar um dos mais antigos temas da nossa vocação.

Wilbert E. Moore1

Uma reflexão a respeito da globalização faz pouco sentido se desvinculada dos diversos modos pelos quais o tema tem sido problematizado nas ciências sociais em nível mundial. Cabe notar, porém, que o debate sobre a globalização é assimétrico e pouco linear. Não dá voz a “todos” no mundo, mas, ao contrário, envolve disputas por poder e hegemonia. Assume formas e cores diferentes nos seus diversos epicentros, variando conforme as temporalidades e espacialidades em que se situam, e assumindo, até mesmo uma aparência isolada em alguns momentos e contextos. No entanto, assim como ocorre com os processos de globalização, o debate sobre eles também apresenta certas linhas de força2 que o atravessam; é como se houvesse um elo que, embora não una ideias e pensamentos, nem fenômenos e processos, faz com que se apresentem conectados. Por isso, é possível crer que a inteligência dos processos globais deva passar pela compreensão das relações hegemônicas entre esses epicentros, seus contornos e desenvolvimentos, numa situação de globalização.

Neste capítulo, ofereço ao leitor uma concisa apresentação de alguns dos contornos desse debate sobre a globalização no âmbito das ciências sociais. A intenção é evidenciar algumas de suas principais direções a fim de alicerçar o avanço posterior sobre as contribuições de Octavio Ianni e Ulrich Beck, que são o recorte da reflexão que se desenvolverá mais adiante no corpo da presente

1

Moore (1966: 482). Segue o original: “Mankind may not survive long enough for us to study it as a complex entity, but that is scarcely an excuse for abandoning one of the oldest themes of our calling”.

2

Retirei a expressão “linhas de força” dos escritos de Renato Ortiz sobre o tema (cf. ORTIZ, 2006, 2009).

(23)

5

dissertação. Nesse sentido, elaborei estas notas introdutórias da seguinte maneira. Primeiro, trato de alguns autores que podem ser considerados como precursores do debate. Creio que seja relevante levá-los em consideração uma vez que muitas de suas inquietações têm sido ainda problematizadas nos estudos mais recentes (I). Depois disso, trato da efetiva emergência, em meados dos anos 1990, do tema da globalização enquanto uma problemática reconhecidamente central nas ciências sociais. Nesta altura, optei por apresentar, particularmente, a confluência com o debate sobre a oposição modernidade e pós-modernidade, bem como a situação de emergência de um debate de proporções mundiais no contexto regional da América Latina (II). Com base nisso, convido o leitor a formular uma leitura de caráter abrangente a respeito das estratégias, caminhos e trilhas que vêm engendrando os diversos pensamentos sobre a globalização, o que conduzirá a uma análise mais específica sobre dois desses pensamentos que serão apresentados e discutidos nos capítulos posteriores (III).

I. A gestação: precursores de um debate

A problemática da globalização emerge nas Ciências Sociais há aproximadamente duas décadas e meia. Surge no final dos anos 1980, mas pode-se dizer que o debate pode-se adensa somente a partir da década de 1990. Há, no entanto, precursores. Os textos do americano Immanuel Wallerstein já versavam, desde a década de 1970, sobre um sistema-mundo (world-system), conceptualizado no âmbito de uma primazia do econômico, de uma divisão do trabalho singular e de múltiplos sistemas culturais. Wallerstein afirmava que o capitalismo deveria ser locado somente na forma de um sistema-mundo que corresponderia àquilo que se denominava economia-mundo (world-economy). Chegava mesmo a datar os processos – e, note-se, com base na história econômica europeia. Estaríamos, para ele, diante de algo que existia, como um

(24)

6

sistema europeu, desde aproximadamente 1450, e enquanto sistema global (global system), desde aproximadamente 1815 (WALLERSTEIN, 1979)3. Para o autor, “a economia mundial capitalista foi construída sobre uma divisão mundial do trabalho na qual várias zonas dessa economia […] assumiram diferentes papéis, desenvolveram diferentes estruturas de classe, usando, consequentemente, diferentes modos de controle do trabalho e se beneficiando de modo desigual” (WALLERSTEIN, 1974: 162). Também observava que essa perspectiva analítica implicaria uma tensão: a de que enquanto se poderia pensar a economia do ponto de vista de sistemas que se sucederiam em nível mundial, a ação política ocorreria dentro do quadro dos estados nacionais.

A peculiaridade da economia mundial capitalista está no fato de que as fronteiras das estruturas políticas e econômicas são diferentes. […] Enquanto as atividades sociais de um grupo são, no limite, determinadas pelo seu papel na economia-mundo, o objeto de sua atividade política (para assegurar ou transformar sua posição no sistema social) será primariamente dirigido ao estado do qual eles são um membro (“cidadão”) (WALLERSTEIN, 1979: 196, grifos do autor).

Nessa linha, contudo, o autor observa que “os estados não se desenvolvem e não podem ser entendidos de outro modo que não dentro do contexto de desenvolvimento do sistema mundial” (WALLERSTEIN, 1974: 67).

À guisa de Wallerstein, outro precursor da maior relevância foi o francês Fernand Braudel, que destaca-se por ter procurado compreender as origens das

3

É importante notar que Wallerstein, ao logo dos seus estudos sobre o tema nos anos 1970, deixa de usar os termos “economia mundial” e “sistema mundial”, passando a adotar “economia-mundo” e “sistema-mundo”. A mudança, aparentemente simples, parece denotar uma incorporação da ideia de mundo à de sistema: elas tornam-se, assim, noções imbricadas. Em sistema mundial, tem-se o “mundial” como atributo de “sistema”. Na próxima nota, citarei um trecho em que Fernand Braudel desenvolve a questão. Por “sistema-mundo”, denota-se um mundo sistêmico, no sentido de uma unidade organizada desse modo. O conjunto dessas partes (desses pequenos mundos) daria forma ao mundo. Trata-se, no fundo, de enfatizar ora o todo, ora a parte.

(25)

7

“economias-mundos”4 capitalistas, combinado um olhar simultaneamente histórico e geográfico.

Os nossos pontos de vista [o dele e o de Wallerstein (1974)] quanto ao essencial são idênticos, ainda que para Immanuel Wallerstein, não haja outra economia-mundo além da da Europa, fundada a partir do século XVI somente, enquanto que para mim, muito antes de ter sido conhecido pelo homem da Europa na sua totalidade, desde a Idade Média e mesmo desde a Antiguidade, o mundo já estava dividido em zonas econômicas mais ou menos centralizadas, mais ou menos coerentes, ou seja, em várias economias-mundos, que coexistem (BRAUDEL, 1985: 54, grifos do autor).

Ainda nos anos setenta, na Alemanha, Niklas Luhmann também esforçava-se por deesforçava-senhar os contornos daquilo que chamou, num artigo que data de 1971, a sociedade mundial ou global (Weltgesellschaft)5. Trata-se também de uma tentativa de compreensão sistêmica de fenômenos de maior amplitude. Há aqui,

4

O plural é economias-mundos (com “s” no fim do nome e também do atributo). A mesma observação feita a respeito de Wallerstein vale para Braudel, que justifica sua preferência da seguinte maneira: “por economia mundial entende-se a economia do mundo considerada em seu todo, o 'mercado de todo o universo', como já dizia Sismondi. Por economia-mundo, palavra que forjei a partir do vocabulário alemão Weltwirtschaft, entendo a economia de somente uma parte do nosso planeta, na medida em que essa porção forma um todo econômico, […] um mundo em si mesmo” (BRAUDEL, 1985: 53). O livro, embora publicado nos anos oitenta, corresponde à reprodução de conferências proferidas na Universidade John Hopkings, nos Estados Unidos, ainda em 1977. Quanto ao uso do termo, Braudel esclarece que essa foi uma opção sua ao construir sua formulação. Contudo, no conjunto do debate que se desenvolve mais tarde, sobre a globalização propriamente, creio que essa distinção tenda a ser borrada. O mundial (assim como o global) tende a tornar-se atributo inexorável. Por isso traduzo um Kompositum germânico da mesma natureza que é a Weltgesellschaft por “sociedade mundial” (assim como o farei, sobretudo a partir do quarto capítulo, com a “sociedade de risco mundial”, que entendo como um equivalente apropriado, em língua portuguesa, para Weltrisikogesellschaft).

5

O termo “global” parece ter sido sempre preferido pelo fato de o debate ter se iniciado majoritariamente entre os anglófonos, que usavam termos como “global studies”, “globalization (USA)/ globalisation (GB)”, “glocalisation” e “globality”. Na França, por exemplo, onde o debate anglo-americano sobre a globalização não causou tão grande impacto num primeiro momento, utiliza-se, ainda atualmente, quase que apenas o termo “mondialisation”, sem diferenciações claras de significado. Quanto à distinção proposta por Braudel (ver nota 4), traduzo por sociedade mundial (e não sociedade-mundo), porque não se trata de sistemas-mundo conectados, mas de uma sociedade sistêmica de âmbito mundial.

(26)

8

no entanto, uma dissonância em relação a Wallerstein e Braudel. O interesse de Luhmann está menos na economia, ou no lugar da sociedade mundial (Weltgesellchaft) na história, e mais na configuração de novos horizontes de mundo (Welthorizonte) e de tempo (Zeithorizonte). Pode-se dizer, nesse sentido, que Luhmann foi o grande pioneiro de uma sociologia da globalização. Sim, Luhmann esforçava-se por observar aquilo que seria, anos mais tarde, problematizado por cientistas sociais em diversas partes do globo: a sociologia já não podia mais precisar as fronteiras das sociedades humanas e, nessa medida, até mesmo o conceito de sociedade deveria ser questionado. Luhmann percebe que há um conhecimento cada vez maior sobre os outros seres humanos, bem como das possibilidades de interação. Isso aliado à observação de que o conhecimento científico, assim como transações comerciais e um tipo de opinião pública, teriam logrado alcançar uma dimensão planetária, configurando uma civilização em trânsito contínuo. Sobre esse aspecto, talvez o leitor se recorde dos escritos do canadense Herbert Marshall McLuhan (1962, 1964, 1968) que apresentava a célebre noção do mundo como uma aldeia global (global village), fundamentada no espraiamento das possibilidades de comunicação, forjadas com a informatização. Uma comparação talvez fosse possível, de certo modo, já que essas reflexões datam quase da mesma época. Mas ocorre que, para Luhmann, a

Weltgesellschaft não se constituiria através do fato de que cada vez mais pessoas,

não obstante a distância espacial, mantêm contatos presenciais elementares. Esse seria apenas um aspecto (até mesmo secundário) dos fatos. Para Luhmann, toda interação constituiria um “e assim por diante” [“Und so weiter”] de outros contatos dos interlocutores [Partner], envolvendo possibilidades que escapam às interdependências mundiais e que incluem também controle ou direção para essa interatividade [Interaktionssteuerung] (LUHMANN, 1975: 54)6.

6

Tendo em vista o caráter geral desta introdução, não caberia uma abordagem detida de nenhum desses autores. Alguns aspectos da sociologia luhmanniana da globalização serão retomados no sexto capítulo (no item 3 da segunda seção, em particular), mas vale notar que O. Thyssen

(27)

9

Pode-se dizer que Luhmann, Wallerstein e Braudel tenham sido, cada qual a seu modo, os grandes precursores do debate sobre a globalização nas ciências sociais. A título de nota, no entanto, vale observar que há textos ainda mais antigos, como o de Trygve Mathisen (1959), que já procurava identificar a existência de uma sociedade mundial (world society), entendida como capaz de abarcar o mundo todo em termos de organizações não-estatais, posta em oposição ao âmbito das organizações internacionais, que configurariam uma espécie de sociedade internacional (international society), na qual apenas atores estatais seriam representados. Outro texto pioneiro foi o de Wilbert Moore (1966), que talvez tenha sido o primeiro a publicar um ensaio sobre uma Sociologia de dimensão global. E, para concluir esse ponto, vale mencionar que, curiosamente, antes mesmo de Mathisen e Moore, ainda em 1941, o jovem Marshall Hodgson, interessado nas possibilidades histórico-metodológicas de um estudo das civilizações em um “contexto global”, escreveu uma carta na qual utiliza o termo

global num sentido muito próximo ao que lhe atribuímos contemporaneamente7

(HODGSON, 1993: xiii-xiv; REHBEIN & SCHWENGEL, 2008: 11). Como dito, não havia um ambiente acadêmico propício o suficiente para essa discussão. Não obstante, esses e outros trabalhos têm o mérito de anunciar os termos de um debate que ainda estava por vir.

dedicou um paper à temática (cf. THYSSEN, 2006), e também eu tive ocasião de escrever mais detalhadamente a respeito do caráter precursor dos trabalhos de Luhmann sobre a globalização (cf. ARNAUT, 2012b).

7

Segundo Edmund Burke III, quem organizou o livro para publicação, essa carta, que não fora publicada na época, teria sido um gérmen para um trabalho de Hodgson intitulado The unity of the

World History. Este, por sua vez, também nunca foi publicado. Na obra que cito (HOGDSON,

1993), a terceira parte corresponderia, segundo o organizador, aos três últimos capítulos daquele trabalho. Embora valha a pena mencionar a existência desses escritos, é importante perceber que sua publicação é póstuma, e efetuada muito depois da sua concepção. Desse modo, não podem ser vistos como textos que influenciaram o debate. Pode-se dizer, inclusive, que seu impacto foi, efetivamente, muito pequeno, tendo permanecido quase desconhecidos no período entre a morte do autor (1968) e a emergência dos estudos sobre a globalização no âmbito das ciências sociais.

(28)

10 II. A emergência

Após esses primeiros movimentos, já no fim dos anos 1980, o debate emerge e começa a tomar corpo e ganhar densidade. Curiosamente, esse percurso não se inicia nas Ciências Sociais, mas entre os administradores de empresas, assim como entre os homens e mulheres de negócio e de marketing, que faziam uma espécie de apologia ao mercado “livre”. A intenção, porém, era muito mais a de compreender o funcionamento de um mercado de âmbito mundial, do que propriamente a de perceber suas estruturas, processos e relações, o que corresponde a um interesse fundamentalmente ideológico, economicista. “Com exceção da perspectiva dos ecólogos, que, desde o início, foi mais abrangente, o tema [da globalização] era parte das preocupações do industrialismo contemporâneo, e vicejava entre aqueles que defendiam as estratégias das corporações transnacionais” (ORTIZ, 2006: 10).

Naquele momento, as ciências sociais também ocupavam-se com as transformações da sociedade pós-industrial, mas de outro modo. O que estava em pauta era a oposição modernidade versus pós-modernidade. A padronização, característica da primeira, diante do pluralismo atribuído à segunda.

A ausência de uma reflexão sobre a globalização é preenchida, no entanto, por uma presença: a discussão sobre a pós-modernidade. […] Uma constatação se impõe: as duas tendências evoluíam em registros diferentes. Elas não se cruzavam. […] A temática da pós-modernidade possui uma dimensão filosófica abrindo-se para o horizonte da crítica da Razão, os impasses da liberdade, os limites do universalismo num mundo no qual o particular se redefine. […] Os textos sobre a globalização têm outro perfil, eles são de natureza mais sociológica do que propriamente filosófica. O que se deseja entender são os mecanismos da nova ordem mundial, como ela se estrutura, qual a melhor maneira de se inserir no seu interior (ORTIZ, 2009: 234-235).

(29)

11

Era importante “precisar que a condição pós-moderna não é a sociedade; que ela afeta, sem dúvida, setores de todas as sociedades; e que, sob este aspecto, ela não pode constituir o único objeto de uma análise antropológica ou histórica que leve em consideração a pluralidade e a diversidade do real” (AUGÉ, 1994: 40, grifo do autor). Trata-se, no fundo, não só de perceber que a afirmação das diferenças não é suficiente para a superação de totalidades, mas também de distinguir entre a esfera da normatividade, cara à filosofia e às artes, e um ponto de vista mais descritivo, característico das ciências sociais8.

Nesse contexto, pode-se dizer que as ciências sociais entraram efetivamente no debate sobre a globalização em meados dos anos 1990, quando (como coloca Ortiz) o tema ganha identidade – ainda que preferencialmente na Europa e nas Américas. Aliás, sobre esse ponto, o leitor deve notar que me refiro tanto aos Estados Unidos, quanto à América Latina. Sim, porque do ponto de vista das ciências sociais, a despeito das limitações existentes, o debate sobre a globalização não chega “atrasado” para os latino-americanos. Nessa linha, pode-se dizer que trabalhos como os de Renato Ortiz (1988, 1994), assim como os de Octavio Ianni (1992, 1995), Milton Santos (1994, 2000), ou Néstor Garcia Canclini (1990, 1999), problematizaram, desde muito cedo, os processos de globalização. Essa é uma observação invulgar, tendo em vista a história e a formação do pensamento social latino-americano, pautadas na dependência de (e também na busca por) um imaginário e um corpo histórico-conceitual modernos, que “ainda” não pertencem aos nossos “tristes trópicos” (para falar como Lévi-Strauss), ou então que “ainda” não se realizaram. Ora, a ideia da globalização carrega em si o pressuposto de um fenômeno que envolve a “todos” no mundo. É claro que isso não se dá de maneira uniforme: evidentemente, uns são mais globalizados ou globalizáveis que outros. No entanto, é perceptível que a globalização

8

(30)

12

se enraíza no solo no qual se nutre nossa experiência, independemente de sua localização regional. Ela pode então ser apreendida pelo pensamento, pois a defasagem temporal que existia anteriormente torna-se inexpressiva. A modernidade pressupunha uma temporalidade progressiva na qual a América Latina só encontraria lugar num momento futuro; a globalização implica a ideia de uma compressão do tempo, as diferentes partes do planeta são atravessadas pelo seu fluxo (ORTIZ, 2009: 233-234).

III. O estabelecimento

Nos anos 1990, a globalização entra para a agenda do dia em qualquer discussão, a partir dos mais diversos enfoques e perspectivas, por todo o mundo. Isso não deixa de ser um problema, de certo modo, à medida que também se cria a impressão de que “tudo está globalizado” – o que não se dá, de fato. Tanto de um ponto de vista empírico como de uma perspectiva teórica, esse tipo de observação (equivocada a meu entender) dá origem, por exemplo, a polêmicas a respeito de uma possível “homogeneização” do mundo, em particular nas esferas da cultura e do consumo. Recordo-me, em especial, da noção de “McDonaldização” do mundo, cujo maior representante é o americano George Ritzer. Trata-se de uma reformulação da teoria weberiana de uma racionalização e burocratização do ocidente que se estenderia para o mundo. A McDonaldização do mundo seria, assim, um processo pelo qual os princípios do restaurante

fast-food, os quais dominariam cada vez mais setores da sociedade americana,

alcançam o resto do planeta (RITZER, 1996). Colocada de outro modo, a ideia implica a projeção para o mundo da compreensão ritzeriana de um fenômeno que é nacional (quando não específico de determinados setores, ainda que majoritários ou representativos, da sociedade estadunidense).

Nesse conjunto de polêmicas também se insere uma inquietação frequente a respeito do futuro dos Estados-nação. A questão inicial era se o advento da

(31)

13

globalização significaria, mais cedo ou mais tarde, o fim dos Estados nacionais9, ou sua “expropriação”, para falar como Zigmund Bauman, que chegou a colocar o problema da seguinte maneira:

Tudo isso cerca o processo em curso de “definhamento” das nações-estados de uma aura de catástrofe natural. Suas causas não são plenamente compreendidas; ele não pode ser previsto com exatidão mesmo que as causas sejam conhecidas; e com certeza não pode ser evitado, mesmo que previsto. […] Esta nova e desconfortável percepção das “coisas fugindo do controle” é que foi articulada (com pouco benefício para a clareza intelectual) num conceito atualmente na moda: o de

globalização. O significado mais profundo transmitido pela ideia de

globalização é o do caráter indeterminado e de autopropulsão dos assuntos mundiais: a ausência de um centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete administrativo. A globalização é a “nova desordem mundial” de Jowitt com um outro nome (BAUMAN, 1998: 65-67, grifos do autor).

Nessa mesma linha, podem ser encontradas apostas no “fim da geografia”, e mesmo no “fim da história”, como formulada por Francis Fukuyama (1992)10.

9

A respeito do “fim” do estado nacional, convido o leitor a revisitar, entre outros, Kenichi Ohmae (1995). Com o desenrolar do debate, fica cada vez mais claro que os Estados-nação não estão “desaparecendo”, mas que se modificam com as transformações sociais. Essas transformações é que passam, então, a ser problematizadas. Analiso algumas das dimensões centrais do Estado-nação no atual contexto de globalização no quinto capítulo, a partir dos pensamentos de Octavio Ianni e Ulrich Beck sobre a Política na globalização.

10

A ideia de fim da história já tinha sido abordada por Hegel, na sua Fenomenologia, como uma metáfora controversa e alvo de grandes mal entendidos a respeito do que seria a existência da humanidade no seio de um Estado mundial por vir. Vale a pena, aqui, citar a observação de François Châtelet quanto à significação ontológica da fórmula fim da História. “Pode-se interpretá-la como extinção do tempo. […] Semelhante ontologia não tem o menor sentido na concepção hegeliana. O Ser (= Espírito), que é devir, não poderia ser suprimido. A humanidade continuará devindo; porém no seio do Estado mundial, ela não “evoluirá” mais, no sentido de que não criará mais nada de novo, estará em plena positividade e viverá numa sociedade integralmente transparente. O que será essa existência, é igualmente impossível imaginar” (CHÂTELET, 1968: 153).

(32)

14

São pensamentos que alardeiam, mas que contribuem pouco para a inteligência dos processos globais. Isso se dá, frequentemente, porque projetam uma realidade local sobre as diversidades planetárias: um Estado-nação forjado numa Europa ocidental, uma História como concebida por uma tradição também europeia, a homogeneização que se torna possível como resultado das formas de consumo vigentes nos Estados Unidos ou em parte dele. É verdade que esses processos podem ser identificados em outras partes do mundo, mas não com a mesma força ou intensidade. De um modo geral, a meu ver, teses desse tipo (fim do estado, fim da história, homogeneização etc.) vêm se desgastando, tendencialmente, no curso do debate nas Ciências Sociais, embora ainda permeiem um certo senso comum (mesmo nos meios acadêmicos): esbarram-se nas diversidades da humanidade; no futuro, que se torna presente; no passado, que nos permite especular e duvidar dos estardalhaços inerentes à ideia do “fim”. Como veremos mais adiante, a globalização pode também ser concebida (como ruptura ou como continuidade) sempre enquanto um prenúncio do futuro.

Tais mal-entendidos envolvem, no entanto, uma dimensão heurística que não se deve ignorar. Sim, pois com essas tentativas de descrição qualitativa transparecem as dificuldades para se compreender e explicar o fenômeno da globalização, assim como, por outro lado, são sinalizados novos caminhos ou possibilidades para a inteligência dos processos que a globalização envolve e engendra. As ciências sociais deparam-se com o novo e precisam construir ou reformular referências. Um sintoma dessas dificuldades é o caráter quase sempre metafórico (e, muitas vezes, impreciso ou fugidio) dessas tentativas de descrição. A linguagem metafórica nos permite uma aproximação mais livre do fenômeno à medida que dá nome ao que até então “não existia” para o intercâmbio do

como a de Fukuyama, que alcançou uma certa popularidade, num momento de crise e incertezas, publicando um curioso ensaio intitulado “The End of History?” (1989) e, mais tarde, um livro, The

End of History and the Last Man (1992). Entre as diversas críticas a essa perspectiva, vale a pena

(33)

15

pensamento científico. Entretanto, o uso de metáforas exige cautela. Há sempre o risco de que o pensamento se perca na obscuridade de suas significações.

Chama a atenção nesses textos a profusão de metáforas utilizadas para descrever as transformações deste final de século: “a primeira revolução mundial” (Alexander King), “terceira onda” (Alvin Toffler), “sociedade informática” (Adam Schaff), “sociedade amébica” (Kenichi Ohmae), “aldeia global” (McLuhan). Fala-se da passagem de uma economia de high volume para outra de high value (Robert Reich), e da existência de um universo habitado por “objetos móveis” (Jacques Attali) deslocando-se incessantemente de um lugar a outro do planeta. Por que esta recorrência no uso de metáforas? Elas revelam uma realidade emergente ainda fugidia ao horizonte das ciências sociais (ORTIZ, 1994: 14, grifos do autor).

Toda metáfora implica um conjunto de referências que não são, necessariamente, as mais adequadas sob outros pontos de vista, em outros epicentros de um debate de proporções mundiais. Por isso, muitas dessas metáforas e neologismos não vingaram, ou caíram no esquecimento, enquanto outros foram sendo ressignificados.

Pode-se discordar do conteúdo das análises do autor, e muitas delas são insuficientes, mas o fascínio da metáfora se deve à sua inteligência em captar um emaranhado de articulações que explicitam uma nova configuração social. Não obstante, toda metáfora é um relato figurado, o que se ganha em evidência perde-se em precisão conceitual. Ela possui a virtude de delimitar um contorno, mas uma vez apreendido, ao torná-lo visível, as sombras se projetam no seu interior. Há um tempo das metáforas e outro do conceito, pois é necessário passar da delimitação de um fenômeno para a análise de seus mecanismos. Nesse sentido, o artifício que esclarece num segundo momento aprisiona o pensamento (ORTIZ, 2006: 48).

Do ponto de vista sociológico, como dito, pode-se ver a globalização como um tema recente, denso, cujos fenômenos, processos, relações e estruturas

(34)

16

escapavam (e ainda escapam) à compreensão a partir do patrimônio teórico das ciências sociais. Uma vez reconhecida a existência da globalização, a grande dificuldade passa a ser a de qualificá-la: a globalização envolve, assim, um problema de explicação. Essa passa a ser, gradualmente a tônica do debate. O espanto inicial dá lugar a um crescente esforço no sentido de compreender e explicar fenômenos em perspectiva global. Assim, surgem incontáveis publicações, seminários e estudos envolvendo o tema, ainda que de modo preferencialmente indireto. Foram relativamente poucos os que enfrentaram o desafio de teorizar a globalização, procurando interpretar seus fenômenos, apontando fatos significativos para a inteligência de suas questões, propondo definições e conceitos de modo claro, integrativo e abrangente, constituindo referências para a inteligência da problemática da globalização11. Há, de certo, razões para isso. O tema da globalização, como quase tudo que diz respeito à nossa contemporaneidade, apresenta-se demasiado complexo, embriagando a percepção com uma profusão de imagens, ideias, processos, estruturas e relações, de modo que se torna cada vez mais difícil apreender, captar a realidade de uma maneira aguda e abrangente ao mesmo tempo. Além disso, o mundo é evidentemente grande e estudá-lo exige sempre, não só um recorte coerente e uma demarcação precisa desse objeto de estudo, como um conjunto de recursos que nem sempre estão à disposição dos pesquisadores. Por isso, a atitude mais frequente nas pesquisas que envolvem a problemática é alocar a globalização à

11

Neste capítulo introdutório, optei por uma abordagem mais sintética e qualitativa. Há, porém, vários trabalhos concebidos com o objetivo de elencar autores que se dedicaram ao tema da globalização e suas contribuições principais. Entre eles, recomendo um artigo de Berking (2008), que foi escrito para tornar-se um verbete de um manual de sociologia. Engel e Middell (2010) também é uma referência interessante, embora não haja um compromisso com os desdobramentos do debate nas ciências sociais nos moldes em que eu os apresento aqui. Outro trabalho bastante recomendável é o de Rehbein e Schwengel (2008), organizado a partir de alguns dos conceitos (ou metáforas) produzidos ao longo do debate. Por fim, ainda que mais antiga, outra referência importante seria Robertson e White (2003), que organizaram uma coletânea de três volumes com ensaios críticos de diversos estudiosos sobre questões ligadas à problemática da globalização.

(35)

17

posição de simples estratégia argumentativa, como uma espécie de abordagem enriquecedora que pode dar ares cosmopolitas a um objeto determinado12. Assim, encontramos inúmeras obras, versando sobre os mais diversos temas, nas quais a globalização aparece (geralmente nos últimos capítulos) como um fator que possivelmente ampliaria os desafios de uma outra questão, qualquer que seja, de interesse naquela dada obra. Aqui costuma estar o gancho para fechar o recorte analítico do estudo, indicando mais ou menos explicitamente que não haveria a intenção de “açambarcar o mundo”. Ora, uma parte significativa dessas atitudes poderia ser entendida como advinda da ausência de um arcabouço teórico mais consolidado, isto é, de um conjunto maior de estudos mais fundamentais, abrangentes ou propriamente globais, que fomentassem e orientassem o debate.

Osterhammel e Petersson (2007), buscando identificar os momentos decisivos de uma história da globalização, chegam a afirmar que os autores, de algum modo, parecem embaralhar referências quando se trata de abordar esse fenômeno que dá nome à nossa época. Eles têm razão, e é precisamente a essa lacuna que se dirige esta dissertação. No atual contexto de revisão de referências e formulação de novas categorias interpretativas, torna-se relevante o trabalho de revisão crítica dessas contribuições. Escolhi duas delas para compor a minha análise: a de Octavio Ianni e a de Ulrich Beck. A escolha foi pautada basicamente em três critérios. O primeiro deles foi, como é de se esperar, a qualidade e o refinamento teórico das obras. O segundo critério foi o impacto provocado por elas no debate. Embora de modo assimétrico, ambos os autores tornaram-se referências importantes para qualquer estudo sobre o tema. Por fim, um terceiro critério foi o de que fossem autores provenientes de contextos distintos, para que se pudesse evidenciar sua alteridade de modo analiticamente profícuo. Assim como a globalização pode ser entendida como uma situação histórico-social, os autores e seus trabalhos estão, de maneiras diversas, situados nessa globalidade.

12

(36)

18

Essa é a atitude que adotei ao esforçar-me por compreender e interpretar os elementos basilares de suas teorias. Meu objetivo foi observar o desenho desses conceitos e concepções, percorrendo trilhas de pensamento e sensibilidade que parecem situar-se entre a visão de mundo e a visão do mundo, isto é, entre a representação da própria aldeia e a dos processos efetivamente globais.

Mas como se constrói uma reflexão dessa natureza? Esse é o tema do próximo capítulo, que visa, após essa concisa apresentação do debate sobre a problemática da globalização nas ciências sociais, introduzir o leitor à atitude intelectual que orienta a construção do presente trabalho.

(37)

19

Capítulo II

Sociologia da Sociologia

(38)

20

Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. [...] Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens. Os homens estão cá fora, estão na rua. A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava. Mas também a rua não cabe todos os homens. A rua é menor que o mundo. O mundo é grande.

Carlos Drummond de Andrade13

Após esse breve histórico da constituição dos processos de globalização como uma problemática para as ciências sociais, cabe uma introdução ao caráter intelectual do presente trabalho. O que se segue não corresponde a um conjunto de teorias, teses ou diagnósticos a respeito da globalização. De certo modo, aliás, seria até possível afirmar que a globalização, em si, nem mesmo constitui o objeto principal desta reflexão – e precisamente aqui mora a sua originalidade. Nessa linha, este capítulo divide-se em quatro etapas. Primeiro, trato da própria construção do objeto da pesquisa que deu origem a esta dissertação (I). Em seguida, cabe abordar também a construção da própria pesquisa (II). Com base nisso, procuro compartilhar algumas das dificuldades procedimentais no trato dos escritos trabalhados (III). Por fim, convido o leitor a refletir sobre a prática interpretativa de explicações sociológicas como as abordadas aqui (IV). Partindo do que é apresentado neste e no capítulo anterior, a última etapa desta exposição já pode corresponder a uma introdução à dissertação como um todo (V).

13

(39)

21

I. A cognição de processos globais como objeto

Já existem bons trabalhos sobre a história do debate a respeito da globalização, ou de caráter introdutório ao tema, sob diferentes abordagens14. Mas é curioso notar que as referências conceituais e bibliográficas, conquanto numerosas, variam relativamente pouco. É que, como dito15, há poucos trabalhos que de fato orientam o debate – e isso é evidente a tal ponto que parte dos comentadores são também autores! Assim, tendo em vista esse quadro, não me pareceu frutífera a ideia de elaborar um novo “panorama” do debate. Sendo um pesquisador jovem e ainda inexperiente, não poderia sequer aproximar-me do alcance intelectual daqueles comentadores, quanto menos pleitear o status de originalidade para um trabalho desse caráter. Afinal, em quase todos os casos, eles acompanharam de perto ou participaram ativamente da constituição da globalização como problemática sociológica. É claro que eu poderia reivindicar o álibi do afastamento no tempo, mas ainda assim talvez não fosse capaz de dissipar a nuvem babélica em que se transforma o debate quando, sobretudo a partir dos anos 1990, os pesquisadores se convencem do caráter efetivo dos processos globais e começam a esforçar-se para qualificá-los. Como veremos mais adiante, a confusão é tamanha que uma mesma palavra ou expressão pode ter significados bastante distintos16.

Diante dessa dificuldade, o que poderia ser feito? Ora, a própria “babelização” em que se insere o debate já poderia ser um recorte. Mas tratava-se de um tema muito amplo e que, para que se respeitasse o rigor de uma pesquisa detida, envolveria intermináveis análises comparativas, cuja propriedade seria

14

Entre eles, destacam-se Ortiz (2009), Robertson (2001), Berking (2008), Beck (1997), Ianni (1994), Rehbein e Schwengel (2008), Engel e Middell (2010), Martell (2010), Sassen (2007), Brock (2008), Santos (2002), Steger (2003), Kreff et. al. (2011).

15

Ver capítulo 1.

16

(40)

22

sempre alvo de questionamentos, já que envolveria complexas e, no limite, insolúveis dificuldades de tradução. Assim, embora o problema das palavras esteja sempre presente nos estudos sobre globalização (e seja tratado, no presente trabalho, em alguns de seus aspectos), ainda penso que ele não seja, em si, um tema de pesquisa palpável para uma dissertação de mestrado. O que denomino aqui, e muito livremente, “o problema das palavras” envolve, no entanto, uma questão basilar. Como ensinam alguns estudiosos da linguagem, nomear significa categorizar. Ou seja, quem dá nome a algo, materializa, em sons ou escrita, um pensamento. Assim, por exemplo, um livro qualquer poderá ser percebido por alguém como um “livro” à medida que essa pessoa tenha em mente categorias que lhe permitam, após captar a existência de um objeto determinado, compreendê-lo como um “livro”; nessa mesma linha, este poderá também ser enunciado como um “livro”, na medida em que o falante (ou escritor) disponha do termo “livro”, ou equivalente, em seu patrimônio lexical. De modo extremamente resumido, essa é uma das maneiras de se descrever aspectos relativos à cognoscibilidade do ente “livro”17.

Seguindo esse raciocínio, já é possível começar a compreender o olhar sociológico que norteia este trabalho. A globalização, sendo um fenômeno novo, precisava ser qualificada, nomeada, categorizada e, precisamente por isso, era necessário que houvesse empreendimentos no sentido de sua cognição. Esse é um ponto. Nomear a globalização, os processos globais e aspectos envolvidos significa tentar compreendê-los. Mas há um elemento do qual não se pôde ainda escapar: o fato de que o objeto dos estudos globais é, no limite, “o mundo”. E, como ninguém é capaz – ao menos em princípio – de conhecer “o mundo” e tudo

17

Essa abordagem da problemática da cognição de um ponto de vista linguístico é demasiado sucinta. Ela destina-se apenas a tornar mais palatável a apresentação do modo pelo qual a cognoscibilidade de processos globais pode ser trabalhada como um objeto da investigação sociológica. Referências clássicas sobre esse ponto são os trabalhos de Barthes (1965), Bourdieu (1982), Derrida (1996), Ducrot (1980), Orlandi (1990, 2007), Saussure (1916), entre outros.

(41)

23

que há nele, também a globalização, enquanto objeto de pesquisa, seria, a priori, uma implausibilidade.

Esse paradoxo que envolve o conhecimento de algo aparentemente insondável foi o que me motivou a realizar as pesquisas que deram origem à presente dissertação. Ora, malgrado uma impossibilidade manifesta que caracteriza a apreensão do fenômeno em sua real dimensão, saltava aos olhos o fato de que os investigadores que encabeçaram os estudos globais não eram neófitos entusiastas, mas pesquisadores do mais alto gabarito que, frequentemente, já tinham renome e mesmo uma obra18. Assim, eles conseguiam abordar a questão tendo em vista a força e o impacto das transformações e, com base no que conheciam, isto é, no patrimônio intelectual que haviam acumulado em décadas de estudo e pesquisa, puderam, cada qual a seu modo, explicar alguns dos aspectos da globalização, prever desdobramentos, qualificar o caráter das transformações envolvidas. Não diziam tudo, mas sempre diziam alguma coisa.

Esse substrato de aparentes paradoxos parecia apontar para uma dimensão ainda não investigada pelas ciências sociais: a própria cognoscibilidade de processos globais. Do ponto de vista sociológico, isso significa superar o tom histórico-narrativo da maioria dos bons trabalhos de balanço do debate (algo como: o autor X combateu a ideia do autor Y, que haveria supostamente compreendido mal um dado fenômeno, mas logo após Z propôs uma solução que se mostrou mais adequada etc.). Uma abordagem como essa exige um conhecimento bastante detalhado de nuances do próprio debate que dificilmente seria adquirido no tempo de um mestrado e, dessarte, dificilmente eu poderia rivalizar com as narrativas dos pesquisadores experientes. Por outro lado, um recorte baseado na própria cognoscibilidade dos processos globais permitiria

18

(42)

24

escapar à forma enciclopédica de certos trabalhos, interessados mais em elencar as contribuições, teorias, conceitos, diagnósticos etc., e menos em situá-los no conjunto de reflexões produzidas. Contribuições dessa natureza têm, é claro, utilidade introdutória, mas padecem de enorme superficialidade e de alguma falta de “espírito”. O objetivo deveria ser distinto. Tratava-se de tentar recuar às condições de possibilidade de elaboração dos trabalhos que, em conjunto, estavam fundando um novo campo, cuja identidade tem sido cada vez mais estavelmente afirmada: a Sociologia da Globalização. Sim, a ideia de investigar as possibilidades de cognição da chamada globalidade permitiria, e permitiu, situar a reflexão no campo do que se poderia chamar de Sociologia da Sociologia, ou Sociologia do próprio conhecimento sociológico.

Estudar o que denomino cognoscibilidade de processos globais significa fundamentalmente perscrutar os elementos que orientam a inteligência dos fenômenos globais e a criação sociológica ali envolvida.

E como isso poderia ser feito? Essa é uma questão que ainda persiste: a realização desse trabalho envolveu algumas tentativas de aplicação metodológica malogradas, mas houve aquelas que surtiram algum efeito. Voltemos os olhos por alguns momentos a esse modus operandi da investigação.

II. Sobre a construção da pesquisa

Um objeto como a cognoscibilidade de processos globais deve, certamente, envolver o exame de tentativas de cognição, bem como da criação sociológica que elas suscitam. Na impossibilidade de estudar todos os trabalhos produzidos com esse propósito, coube operar um recorte metodológico. Como dito, parecia imprescindível escolher autores que tivessem, por um lado, ao menos tentado elaborar teorias da globalização e, por outro, influenciado e marcado o debate

(43)

25

sobre a globalização a partir de uma visão integrativa. Nesse sentido, selecionei dois deles – Octavio Ianni e Ulrich Beck. É claro que o fato de serem dois implica o dobro do trabalho e dificuldades multiplicadas, mas esse recorte permite estabelecer, por outro lado, uma certa “alteridade” que representa, de um ponto de vista metodológico, a possibilidade de acompanhar trilhas distintas de pensamento e sensibilidade de maneira a estabelecer contrapontos. O termo “contraponto”, aliás, é fundamental aqui. Primeiro, enquanto um pesquisador situado em um certo ponto dessa globalidade (em local, campo intelectual e realidade social específicos), seria ingênuo pensar que eu poderia posicionar-me de maneira equânime em relação a cada autor. Além do mais, coerente com a própria construção deste objeto de estudo, deve-se considerar que cada autor se vale de suas próprias categorias, pontos de vista e recursos de imaginação. (Como veremos, mesmo quando as referências parecem ser as mesmas, os caminhos tomados podem ser muito díspares). Em suma, o trabalho com dois autores permitiu manter à vista o fato de que a cognição de fenômenos sociais, e particularmente os planetários, envolve escolhas em meio a uma gama de elementos que possibilitam a inteligência de aspectos desses fenômenos.

Escolhidos os dois autores, pareceu adequado recortar ainda mais o escopo da pesquisa e delimitar um corpus. Este foi composto inicialmente de onze textos19. A intenção não era enclausurar a reflexão nessas referências, mas, antes, delimitar um material de trabalho condizente com o tempo e os recursos disponíveis. Além do mais, a própria construção do objeto de pesquisa afastava qualquer tentativa de compreender “a obra” de um autor, bem como todas as limitações metodológicas que uma iniciativa desse tipo implicaria. Acreditando que jamais seria possível compreender “um autor” ou “sua obra”, contentei-me, como dito, em investigar pistas sobre certos elementos que orientavam, em cada um dos

19

Ianni (1992, 1994, 1996, 2000, 2004) e Beck (1986, 1997, 2002, 2004, 2008, 2010) eram os escritos que constavam no projeto de pesquisa.

(44)

26

casos, a cognição de processos globais, através dos textos produzidos a esse respeito.

III. Textos e contextos: a abordagem do corpus

Antes mesmo de construir o objeto de pesquisa de modo satisfatório, a própria análise desses textos a partir de um enfoque como esse representou um desafio. É que a simples leitura atenta, fichamentos, tomada de notas, entre outras operações práticas da rotina de pesquisa aprendidas nas cadeiras dos cursos de ciências sociais não se mostravam suficientes. O problema que se apresentava era de natureza modal, era preciso encontrar um modo profícuo de proceder na investigação. Note-se que não se tratava de questionar a maneira pela qual se deveria ler (à moda dos manuais de pesquisa científica), mas sim de como pensar! Era preciso compor um horizonte de ideias que orientassem a construção do

corpus e permitissem uma certa atitude de leitura, uma maneira profícua de

enfrentar os escritos e escrever sobre eles.

Pode-se dizer que haja pelo menos duas maneiras predominantes de se trabalhar textos como os enfrentados aqui. Grosso modo, elas podem ser identificadas, no decorrer das últimas décadas, pelos seguintes rótulos: abordagem “textual”, de um lado, e, de outro, abordagem “contextual”.

O que se denomina abordagem textual indicaria, como o próprio nome diz, um enfoque preferencialmente restrito a textos. Parte-se da ideia de que um determinado escrito comportaria um pensamento, em sentido amplo, e, dessarte, busca-se compreender a sua lógica interna20. Martial Gueroult (1979) chega a

20

Essa atitude pode ser encontrada nos trabalhos de importantes autores das ciências sociais, especialmente entre aqueles que trabalham com teoria social. Entretanto, esse tipo de atitude parece mais presente em textos filosóficos. No Brasil, há escritos introdutórios a esse olhar rigoroso sobre o texto, em busca de sua lógica interna e, em um sentido particular, sistêmica, são

(45)

27

afirmar, por exemplo, que a obra filosófica – isto é, um texto filosófico – seria um monumento que abarca ideias de um autor (no caso, de um filósofo), instituindo, assim, uma realidade. Por um lado, é possível questionar se textos expressariam de fato e necessariamente pensamentos dotados de coerência. Talvez até haja escritos, especialmente entre os de natureza filosófica, em que seja possível encontrar um sistema interno inteira e rigorosamente coeso e coerente. Não cabe aqui a investigação dessa hipótese. Deve-se considerar, porém, que no caso dos trabalhos de Ianni e Beck, em particular, e também das demais sociologias da globalização, em geral, tal abordagem me parece infrutífera: dificilmente se poderia sustentar que haja, aqui, sistemas dedutivos de causalidades e efeitos, tampouco demonstrações argumentativas suficientemente detalhadas para que se pudesse proceder uma investigação orientada pela suposição de que em algum momento “tudo faria sentido”. Não, os pensamentos desses autores sobre a globalização encontram-se ligados ao curso da história e, como veremos, travam uma luta discreta, mas contínua, com os limites de sua própria percepção. No fundo, tudo está em suspenso, e as sociologias da globalização são também sociologias da mudança.

Contudo, por outro lado, uma certa atitude “textualista” pode revelar-se profícua à medida que orienta a pesquisa, conferindo-lhe um foco mais restrito: a materialidade dos textos. Como mencionado, um autor como Gueroult ensina que, de alguma maneira, uma obra pode ser vista como um monumento que cria, ela própria, uma realidade e a institui. É claro que uma afirmação desse tipo pode parecer abstrusa para um sociólogo. Afinal, é próprio do raciocínio sociológico o

certamente. Cabe lembrar, aqui, os de Victor Golschmidt (1963) e Martial Gueroult (1953, 1979), embora haja outros. Não há espaço para tratar dos trabalhos desses autores aqui, pois eles estão situados num debate histórico sobre a legitimação disciplinar história da filosofia; importa, porém, observar seu interesse na compreensão da lógica interna dos pensamentos que estariam materializados nos textos.

(46)

28

embasamento na realidade efetiva21. No entanto, a despeito de seus propósitos e conclusões, cabe observar que ela diz algo sobre a natureza dos escritos abordados nesta dissertação. Ora, diante de um objeto cujo efetivo alcance não é

dado à percepção humana, qualquer abordagem intelectual a seu respeito incorre, por princípio, em um certo grau de criação e instituição da realidade22. Nesse sentido particular, é possível compreender a escrita sociológica como um exercício de registro de realidades (de “taquigrafar a máquina do mundo”, diria Octavio Ianni). Mas atenção: isso não significa que o registro se confunda com “a” realidade. Ele pode ser visto como um espectro da realidade – algo como o conhecido tipo puro ou ideal (reiner Typus ou Idealtypus) de Max Weber – através do qual é possível compreender (verstehen) suas conformações e movimentos, enfatizando algumas de suas características eletivamente23. No caso dos estudos sobre globalização em particular, é como se o raciocínio sociológico alçasse voo, desprendendo-se por vezes da solidez dos processos sociais rigorosamente observados, a fim de alcançar uma visão mais ampla e integrativa.

Com efeito, tendo em vista os processos globais como objeto, uma amplidão como essa é evidentemente inalcançável no peu à peu da investigação empírica. No entanto, perguntar-se-á o leitor, seria possível enquadrar os trabalhos de Ianni e Beck (e, mais genericamente, os trabalhos sociológicos sobre globalização) num horizonte estritamente teórico-normativo? Para examinar essa questão, é preciso voltar aos textos com um olhar diferente, baseado na seguinte questão: qual o papel dos contextos nesses trabalhos?

21

Sobre a diferenciação entre realidade efetiva e especular, ver capítulo 6, seção II, item 1.

22

Retornarei à problemática da realidade no sexto capítulo, seção II, item 1.

23

Refiro-me aos célebres princípios metodológicos (Methodische Grundlagen) da sociologia compreensiva weberiana. Conferir, em especial, Weber (1922, T. 1, I, §1, I, 6).

(47)

29

Um olhar sociológico sobre um pensamento sociológico não pode desconsiderar que tanto um quanto outro partem de determinadas condições. Pode-se dizer que eles se tornaram o que são por meio de escolhas entre outras possibilidades. E é razoável afirmar que tais características advenham de dinâmicas e ocorrências existentes nos lugares ou campos em que tais pensamentos foram mentados – o mesmo valendo para os olhares, isto é, as compreensões que se possam projetar sobre eles. Esse conjunto de elementos corresponde ao que se denomina contexto (ou cotexto): eles marcam a produção textual e persistem nela. Dito de modo mais enfático, os elementos contextuais vigem e operam nos próprios pensamentos e, além disso, interferem também na sua percepção e compreensão por parte de terceiros. E o que isso significa para os nossos propósitos? Ocorre que uma ideia como essa permite-nos suspeitar, já num plano conceitual, da existência de uma certa dissintonia entre pensamentos provenientes de diferentes contextos. De fato, como veremos nos capítulos seguintes, a observação dos processos de globalização se dá, em Ianni e Beck, de modos distintos e, malgrado haja referências semelhantes em diversos momentos (Marx, Weber, debates americanos etc.), a distância situacional interfere na cognição do fenômeno. Sim, os contextos parecem às vezes os mesmos, ganham nomes parecidos, exemplos em comum, alusões aos mesmos epicentros do debate, mas isso não quer dizer que coincidam. Os contextos interceptam a cognição, nutrindo-a de maneiras específicas.

Esse raciocínio parece razoavelmente compreensível de um ponto de vista conceitual. Porém, como isso se dá na prática do trabalho com textos?

Contextos podem disfarçar-se por detrás das palavras. Sim, as palavras que esclarecem, registram, conferem precisão, delimitam, expressam, são as mesmas palavras que ludibriam a percepção, interferindo na cognoscibilidade dos fenômenos e das ideias sobre eles. É assim que um mesmo vocábulo pode denotar processos, estruturas ou relações categoricamente distintos. Um caso

(48)

30

exemplar de mal-entendidos dessa natureza é a significação do vocábulo “globalismo” – como veremos, ele denota, para Beck, uma ideologia e, para Ianni, um processo24. É claro que investigações a respeito das causas desses mal-entendidos, bem como sobre a problemática da tradução numa situação de globalização não podem ser adequadamente discutidas aqui. Importa, não obstante, chamar a atenção para uma certa babelização em que frequentemente os estudos globais se encontram imersos, precisamente por apresentarem uma tendência à sobrevalorização do horizonte (ainda não inteiramente efetivo) do mundo como “um só mundo”, acompanhada da desatenção às especificidades histórico-sociais dos contextos que se materializam nas diversas línguas e linguagens, através das quais realizam-se as tentativas de comunicação25.

Uma vez observadas algumas das questões que envolvem a abordagem de textos como os investigados aqui, o tipo de realidade mental que podem instaurar, sua relação com os contextos em que se inserem e os pensamentos que os originam, e também no que tange àqueles pensamentos empenhados em compreendê-los, é possível dar um passo adiante e buscar refletir sobre o que fazer com os frutos do trabalho conduzido paralelamente a essas reflexões.

24

Ver capítulos 3 e 5, em especial.

25

Creio que não valha a pena recuperar aqui os meandros dos trabalhos sobre a chamada “virada contextualista”. Ao leitor que por ela se interesse, recomendo os trabalhos de Skinner (1978, 2002) e Pocock (2009), ligados à conhecida Escola de Cambridge de filosofia da linguagem. Também relevantes são os aportes de Luhmann sobre a formação sistêmica de campos por comunicação dadas em contextos específicos – ver, entre outros, Luhmann (1997). Por fim, cabe recordar um debate dos estudiosos de tradução, em que se questiona, como formulou Derrida (1999), “o que é uma tradução relevante”. Nessa linha, Derrida (1996, 1999) observou que traduções são um problema de leitura, isto é, da (in)capacidade por parte do tradutor de compreender, o mais próximo possível, e malgrado distâncias contextuais de linguagem, aquilo que está sendo efetivamente enunciado.

Referências

Documentos relacionados

Neste trabalho iremos discutir a importância do Planejamento Estratégico no processo de gestão com vistas à eficácia empresarial, bem como apresentar um modelo de elaboração

O período de redemocratização foi consolidado com a edição da Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988, instrumento jurídico democrático que restaura a

Also due to the political relevance of the problem of repressing misguided employment relationships, during the centre-left Prodi Government (2006-2008) and the

novo medicamento, tendo como base para escolha as necessidades de cada segmento do mercado farmacêutico; e c) licenciamento do produto, o processo mais demorado

A mitomicina apenas pode ser diluída em água para preparações injectáveis, soro fisiológico ou solução de dextrose a 20%.. Não deve ser associada a nenhum

A série de tabelas a seguir mostra como os atributos gênero-estado conjugal e cor- origem dos chefes de domicílio variavam de acordo com o tamanho das posses de

Neste estudo foram estipulados os seguintes objec- tivos: (a) identifi car as dimensões do desenvolvimento vocacional (convicção vocacional, cooperação vocacio- nal,

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das