Direito — Estado — Profecia.
Q uestões básicas de uma interpretação sócio-histórica
das leis vétero-testam entãrias.(*)
Frank Crüsemann
G ostaria de a p re se n ta r a lg u m a s observações e teses sobre as leis do A n tig o T estam ento, com as q u a is ve n h o m e o c u p a n d o já há a lg u n s anos. O d ire ito is ra e lita re p re se n ta , d e ^jjm la d o , um a fo n te de g ra n d e im p o rtâ n c ia para a q u e le s qu e estudam a h istó ria da so cie d a d e do a n tig o Israel, ou seja, as co ndiçõe s de v id a concretas d a q u e le s a q uem fo ra m d itos ou escritos, p e la p rim e ira vez, os te xto s bíblicos. Sem o c o n h e c i m e n to destas condiçõe s, as v e rd a d e s te o ló g ic a s destes textos seriam p á lid a s e abstratas. De o u tro la d o , as leis do A n tig o Testam ento são, sem d ú v id a , ta m b é m p a rte in te g ra n te destas m esm as co n d içõ e s sociais.
Três aspectos são, a m eu ve r, im p o rta n te s n u m a a b o rd a g e m des tas:
1) Para co n h e ce r q u a lq u e r so cie d a d e é de sum a im p o rtâ n c ia ver com o se re la c io n a m suas leis com a re a lid a d e . A té q u e p o n to as leis são v á lid a s e e fica ze s no d ia -a -d ia ?
2) Cada lei é um a g ra n d e z a a m b iv a le n te . Ela é sem pre, ao m es m o te m p o , expressão do p o d e r e crítica ao p o d e r. Q u e m d e té m o p o d e r dá o seu cun h o à le i, p e lo m enos à le i e fe tiv a m e n te p ra tic a d a . A o mes m o te m p o , no e n ta n to , as leis expressam o q u e d e v e ria ser e co n tê m , assim , esperança s e utopias. N o c o n flito e n tre as classes sociais, am bas as partes re co rre m ás leis — é c la ro q u e de m a n e ira d ife re n te .
3) Na B íblia, a le g is la ç ã o , a Torá, é e n te n d id a co m o d á d iv a de Deus ao p o vo qu e está no S inai. N o rm a lm e n te , no e n ta n to , — ta m b é m no A n tig o O rie n te — as leis são im p o siçã o do Estado ou do re i. Q u a n d o o
N ovo Testam ento a firm a qu e n e n h u m " i o t a " da le i d e ve ser o m itid o , e n tão ta m b é m e le vê na le i a m a n ife s ta ç ã o d a v o n ta d e d iv in a (M t 5.18ss). Os re su lta d o s da a n á lis e so c io ló g ic a das leis do A n tig o Testam ento são, em m u ito s aspectos, de sum a im p o rtâ n c ia p a ra as p e rg u n ta s e dis cussões a tu a is na Ig re ja e na so cie d a d e de m eu país e na Europa. Estou interessado em d e s c o b rir com o o p ro b le m a se a p re se n ta a q u i, em seu país.
Na tra d iç ã o p ro te sta n te da q u a l p ro v e n h o , o E vangelho é, por d e m ais vezes, e n te n d id o com o u m a g ra n d e z a a b s o lu ta m e n te oposta ò Lei. Há os q u e a firm a m q u e a Lei está te o lo g ic a m e n te ultrapassad a, a b o lid a . Isto, no e n ta n to , está em fla g ra n te c o n tra d iç ã o com as a firm a ç õ e s do N o vo Testam ento. T am bém não se p o d e a rg u m e n ta r q u e a Torá te n h a sido fo rm u la d a p a ra um a o u tra so cie d a d e , ou seja, p a ra Israel som ente. Isto te ria qu e v a le r, e n tã o , ta m b é m para as outras partes da B íblia com o, p .e x ., os pro fe ta s.
A Torá do A n tig o T estam ento nã o te m n a d a a ve r com " le - g a lis m o ", " m e re c im e n to da sa lva çã o por obras m e ritó ria s " ou coisa q u e o v a lh a . N a Torá está fo rm u la d a v o n ta d e e justiça d iv in a s p a ra todos os setores da v id a h u m a n a , ta m b é m , p .e x ., para a e c o n o m ia , o n d e — con fo rm e o p in iã o de m u ito s — Deus n ã o se d e v e ria m e te r. N ão há o u tro lu g a r o n d e a vo n ta d e d e Deus e steja fo rm u la d a de m a n e ira tã o unívoca com o na Torá. O S erm ão da M o n ta n h a não p o d e e não q u e r substituí-la. A m eu ve r, a Igreja nã o p o d e re n u n c ia r à Torá com o base d e sua a tu a çã o e é tica . E v e rd a d e q u e um a Ig re ja sem p ro fe ta s é um a Ig re ja m o rta . Mas um a Ig re ja sem a Torá é um a Ig re ja sem o rie n ta ç ã o . Ela não sa b e ria , p .e x ., q u a is p ro fe ta s o u v ir e q uais nã o . O m ais trá g ic o , no e n ta n to , é que um a Ig re ja sem o rie n ta ç ã o fa ta lm e n te se e n tre g a rá aos d ita m e s do Esta do e dos poderosos do m o m e n to , às leis de e c o n o m ia v ig e n te s e aos q u e d e la s a u fe re m os lucros. Sem a Torá, o E vangelh o corre o risco de to rn a r- se "c o n s o lo para o a lé m " e, assim, p e rd e r a sua fo rç a d e tra n s fo rm a ç ã o .
É c la ro qu e , com o todas as partes da B íb lia , ta m b é m a Torá p re c i sa ser, sem pre de n o v o , d e sco b e rta e in te rp re ta d a . Parte deste redesco- b rir é a busca p e lo se n tid o da Torá d e n tro da situação h istó rica e social na q u a l surgiu. G ostaria d e a p re se n ta r, h o je , dois aspectos desta in te rp re ta ção só cio -h istó rica . N u m a p rim e ira p a rte p e rg u n to p e lo lu g a r histó rico e social do C ó d ig o d a A lia n ç a . Na seg u n d a p a rte a b o rd o um a ca ra cte rísti ca n o tá v e l da Torá: C om o p o d e surgir, em Israel, um a co le çã o de leis sem a a u to rid a d e do Estado?
1 — O lugar histórico e social do Código da Aliança (Ex 20.22-
23.33).’
S a b id a m e n te o C ódigo d a A lia n ç a é a co le çã o de leis m ais a n tig a do A n tig o T estam ento. N e la a p a re c e m , p e la p rim e ira vez, as característi cas q u e d is tin g u e m as leis b íb lica s das leis do A n tig o O rie n te . No C ódigo da A lia n ç a e n co n tra m o s, la d o a la d o , d e te rm in a ç õ e s ju ríd ica s p ro p ria m e n te ditas, prescrições c u ltu ra is e re lig io s a s e e x ig ê n c ia s éticas e so ciais, ju n ta m e n te com as d e v id a s m o tiva çõ e s te o ló g ic a s e históricas. Na a tu a l e strutura p re d o m in a o P rim e iro M a n d a m e n to ; e le perpassa to d o o C ó d ig o (2 0 .2 3 ;2 2 .1 9 ;2 3 .13,24,32s). Este C ódigo re ú n e os m ais diversos m a te ria is e os a g ru p a de m a n e ira a fo rm a r um a n o va u n id a d e . Este a g ru p a m e n to de m a te ria is bem diversos é um a das características das leis bí blicas. Estes fo rm a m o qu e a p a rtir d o D e u te ro n ô m io passou a cham ar-se "T o rá " .
A p e rg u n ta p e la época do s u rg im e n to do C ó d ig o da A lia n ç a tem im p o rtâ n c ia d e cisiva p a ra a h istó ria da so cie d a d e e da te o lo g ia em Is ra e l. M u ita coisa d e p e n d e desta d a ta çã o . O C ó d ig o d a A lia n ç a pressu p õ e um a sociedad e a g rá ria , ou seja, a to m a d a da te rra , e é a n te rio r ao D e u te ro n ô m io . Entre to m a d a da te rra e D e u te ro n ô m io surge, p o rta n to , o C ó d ig o . A te n d ê n c ia da pesquisa no século 20 é de d a tá -lo na ép o ca do Israel p ré -e sta ta l. Esta posição, no e n ta n to , d e ve ser revista.
A b o rd o , em p rim e iro lu g a r, os " m is h p a tim " , ou seja, as leis ca- suísticas. A te m á tic a m ais sa lie n te desta p a rte do C ódigo da A lia n ç a é, sem d ú v id a , a questão do d ire ito dos escravos.
Ex 21.2-6 re g u la m e n ta os d ire ito s básicos do "e s c ra v o h e b r e u " ,2 em especial a sua lib e rta ç ã o , re s p e c tiv a m e n te , a passagem p a ra a escra v id ã o d e fin itiv a . Os vv. 7-11 tra ze m re g u la m e n ta ç õ e s s e m e lh a n te s sobre a " e s c ra v a ". O fa to de estas leis sobre escravos e escravas te re m sido co locadas no in íc io da série dos " m is h p a tim " m ostra a sua im p o rtâ n c ia . O te m a "e s c ra v o s " ta m b é m serve para e stru tu ra r a u n id a d e q u e tra ta das lesões c o rp o ra is (21.18-32). Por três vezes, d e lito s contra pessoas livres são seguidos po r casos a n á lo g o s com escravos. Os vv. 18s tra ta m do caso de um fe rim e n to de um a pessoa liv re , qu e não leva à m o rte in s ta n tâ n e a ;
1— Cf. ta m b é m F. C rüse m an n. Das B undesbuch — histo risch e r O rt und in s titu tio n e lle r H inter- g ru n d . In: V e tu s T e fta m e n tu m . S u p p le m + n ts . V o l. 40, 1988, p. 27-41.
2 — C f., po r ú ltim o , A. P hillips. The Laws o f S la ve ry in Exodus 21, 2-11. In: J o u rn a l fo r th » S tu d y o f
O ld T e s ta m o n t. V ol. 30, 1984, p. 51-66. Q u a n to a o te rm o , cf. a lite ra tu ra in d ic a d a p o r I. Car-
d e llin i. D ie b ib lís c h e n "S k la v e n "-G e s « tz e im Lich te d«s k « ils c h r iftl!c h « n S k la v # n r« c h t* . Bonn, 1981, p. 184, no ta 77, e p. 250, n o ta 39.
segue o caso de fe rim e n to s graves, in flig id o s a escravos, qu e p o d e m le var ò m o rte in s ta n tâ n e a ou, e n tã o , em dois ou três dias (V. 20s). Descon sid e ra n d o -se a inserção p o ste rio r da lei do ta liã o , ao caso da lesão da m u lh e r g rá v id a seguem casos de fe rim e n to s graves, m as n ã o fa ta is , em escravos. (v.22s,26s). F in a lm e n te , os casos de m orte causados por um to u ro (v .28-31) e n ce rra m com o caso da m orte do escravo e da escrava (v.32).
Na v e rd a d e , so m e n te são tra ta d a s em d e ta lh e as lesões físicas causadas a escravos. Os casos re fe re n te s a lesões causadas em pessoas livre s nã o são, a rig o r, leis, mas sentenças ju d ic ia is p a ra casos bem sin g u la re s e específicos e qu e servem , a g o ra , de p re ce d e n te s3. O bserve-se q u e , em v. 18s, são m e n c io n a d o s o m o tiv o ( " b r ig a " ) e a a rm a do crim e ( " p e d r a " e " p u n h o " ) . As conseqü ências das lesões são descritas com d e ta lh e s tã o precisos q u e parece tra ta r-se de um caso único. O m esm o o co rre nos vv.22s. O bserva-se, p .e x ., qu e o te xto fa la das crianças (p lu ra l!) q u e a m u lh e r g rá v id a a b o rto u . O m esm o, no e n ta n to , nã o o co rre na re g u la m e n ta ç ã o dos casos qu e conce rn e m a escravos. Todos estes casos — com ou sem co n se q ü ê n cia fa ta l — são tra ta d o s c la ra e g e n e ric a m e n te. P ortanto, a lé m de m a rca r o in íc io dos " m is h p a tim " , o d ire ito dos es cravos é o p rin c íp io e stru tu ra d o r de to d a a p rim e ira m e ta d e das leis ca- suísticas.
C oncluím os, pois, q u e os " m is h p a tim " som ente p o d e m te r surgido n u m a é p o ca em q u e Israel necessitava re g u la m e n ta r d iversas questões re fe re n te s a escravos. Os escravos ('a b a d im ) d e v ia m fo rm a r, p o rta n to , um a classe social c o n s id e rá v e l; e esta d ific ilm e n te e xistiu antes da época do R ein a d o 4.
As o co rrê n cia s do te rm o 'e b e d (escravo) nos livro s de Josué a 2 S am uel m ostram o se g u in te re su lta d o : O te rm o é quase q u e e x c lu s iv a m e n te usado co m o a u to d e s ig n a ç ã o — sinal de p o lid e z do qu e fa la — ou, e n tã o , para ressaltar, por p a rte de súditos ou tropas, a d e p e n d ê n c ia de um re i. S om ente em casos isolados o te rm o 'e b e d d e s ig n a , de fa to , um escravo, com o, p .e x ., nos d ire ito s do rei (1 Sm 8.16), no caso dos es cravos de G id e ã o (Jz 6.27) ou de Z ib a (2 Sm 9.1 Os). Encontram os, nesta
3 — C f., po r ú ltim o , R. W e stb ro o k. B ib lic a l a n d C u n e ifo rm Law Codes, in: R evue B ib liq u e . V o l. 92, 1985, p. 247-264; C .Locher. Die Ehre e in e r Frau in Israel. E xegetische und re c h ts v e rg le ic h e n d e S tudien zu D e u te ro n o m iu m 22, 13-21. In: O rb is B iblfcus e t O r ie n ta lis . V ol. 70, 1986, p. 90ss. 4 — Cf. C. S ch ä fe r-L ich te n b e rg e r. Stadt und E idgenossenschaft im A lte n T e stam ent. Eine A u s e in a n de rse tzu n g m it M a x W ebe rs S tudie ''D a s a n tik e J u d e n tu m ". In: B e ih e ft z u r Z e its c h rift fü r d ie
é p oca, isto sim , " c r ia d o s " (ne'arim). Estes, no e n ta n to , são pessoas livres qu e , por v o n ta d e p ró p ria , e n tra m n u m a re la çã o de serviço e de d e p e n d ê n c ia de um se n h o r5.
C o n fo rm e os textos do A n tig o Testam ento, não h á , antes do Rei n a d o , escravos no se n tid o do C ó d ig o da A lia n ç a , ou seja, em n ú m e ro su fic ie n te a fo rm a re m um a classe. M esm o q u e , cá e lá, houvesse p ris io n e i ros de g u e rra e e stra n g e iro s pudessem possuir escravos, estes não eram um e le m e n to típ ic o da so cie d a d e is ra e lita nem constituíam g ra v e p ro b le m a so cia l6. Este ta m b é m a in d a n ã o existiu no in ício do R einado em Is ra e l. C o n fo rm e os d ire ito s do rei (1 Sm 8.10ss), o n d e são m e n cio n a d o s 'a b a d im , o p ro b le m a m a io r, no in íc io do R einado, era que os isra e lita s li vres se to rn a m 'a b a d im do re i, ou seja, súdidos na m ãos do rei (v. 17). Nesta é poca, o c o n flito era e n tre o p o vo e o rei e nã o e n tre isra e lita s li vres e escravos d e n tro do p o vo . Este ú ltim o c o n flito torna-se re le v a n te d u ra n te a época do R einado, p .e x ., na histó ria de 2 Rs 4.1-7 (os filh o s de um a v iú v a são escravizados p elos credores), e, n a tu ra lm e n te , na p ro fe c ia a p a rtir de A m ós7. O re su lta d o do estudo de co n co rd â n cia c o n firm a , as sim , o q u e ta m b é m de o u tra s fo n te s e te xto s sabem os sobre o Israel pré- estatal e sobre sociedad es trib a is a n á lo g a s 8.
A lo c a liza çã o c ro n o ló g ic a dos " m is h p a tim " na épo ca do R einado é co rro b o ra d a por outras observações. As leis casuísticas pressupõem um a e c o n o m ia baseada no d in h e iro já bastante d e s e n v o lv id a . Questões jurídicas são re solvidas, m uitas vezes, através da e s tip u la ç ã o de in d e n i zações em " p r a ta " . A lé m disso, sabem os q u e as leis do A n tig o O rie n te — cu jo parentesco com as leis d o A n tig o T estam ento é in e g á v e l — su rg i
ram no â m b ito da corte real com suas escolas de escribas e juristas9. Tal
5 — H.-P. S tä h li . K n a b e — J ü n g lin g — K n e c h t. U n te rs u c h u n g e n zum B e g riff n ’r im A lte n T e sta m e n t. F ra n kfu rt, e tc., 1978, p. 179.
6 — V eja-se co m o , p .e x ., W. Thiel. D ie s o z ia le E n tw ic k lu n g Is ra e ls in v o rs ta a tlic h e r Z e it. 2 .ed. N e u k irc h e n , 1985, p. 156ss, ch e g a a a firm a r a e x is tê n c ia de escravos na ép oca p ré -estatal quase qu e e x c lu s iv a m e n te a p a rtir de te xto s do C ó d ig o da A lia n ç a .
7 — Q u a n to ò se m e lh a n ça da te r m in o lo g ia cf. E. Lipinski. Sale, Transfer a n d D e liv e ry in A n c ie n t T e rm in o lo g y . In: S c h rifte n z u r G e s c h ic h te u n d K u ltu r de s A lte n O rie n ts . V ol. 15, 1982, p. 173-
185; Idem . A rtig o m kr. In: T h e o lo g isch e s W ö rte rb u c h zu m A lte n T e s ta m e n t. V o l. 4, 1983, col. 70ss.
8 — Sobre os fa to re s q u e le v a m à e s cra vid ã o c f., p. e x ., E. D. D om ar. The Causes o f S la ve ry o r Serf-d o m : A H ypothesis. In: J o u rn a l o f E conom ic H is to ry . V o l. 30, 1970, p. 18-32. A ch o m u ito estra n h o q u e N. K. G o ttw a ld , A s trib o s d e la h w e h . U m a s o c io lo g ia d a r e lig iã o d e Is ra e l lib e r to
1250-1050 a.C . P aulinas, 1986, n ã o a b o rd e este assunto. Ele lo c a liz a o C ó d ig o da A lia n ç a no
p e río d o p ré -e sta ta l (p. 73). M as a e x is tê n c ia de escravos não fa la con tra a sua tese da socied a d e ig u a litá ria ?
9 — cf., p .e x ., J. K lim a. L'a p p o rt des scribes m é so p o ta m ie n s ò la fo rm a tio n de la ju ris p ru d e n c e . In:
Fo lia O r ie n ta lia . V o l. 2 1 , 1 9 8 0 , p . 2 1 1 - 2 2 0 ; J. K r e c h e r . D a s R e c h ts le b e n u n d d i e A u f f a s s u n g
v o m R e c h t in B a b y lo n ie n . In : W . F ik e n t s c h e r e t a l. ( e d . ) E n tste h u n g u n d W a n d e l re c h tlic h e r
a m b ie n te d e v e m o s ta m b é m pressupor p a ra os " m is h p a tim " israelitas. E o m esm o so m e n te e x is tiu a p a rtir do R einado.
Q u e ro a b o rd a r b re v e m e n te ta m b é m as o u tra s partes, m ais a p o d í- ticas, do C ó d ig o d a A lia n ç a .
A í, a p a rte c e n tra l10, a das e x ig ê n c ia s sociais (22.17-23.9 = A l m e id a : 22.18-23.9), está e m o ld u ra d a p e la te m á tic a dos e stra n g e iro s (ge- rim )11: " N ã o a flig irá s o e s tra n g e iro nem o o p rim irá s , pois vós m esm os fostes e stra n g e iro s no E g ito " (22.20; 23.9). D entro desta m o ld u ra se e n c o n tra m as disposições le g a is sobre viú va s, ó rfã o s e pobres ju n ta m e n te com as d e te rm in a ç õ e s sobre juros, p e n h o re s e a titu d e s no trib u n a l. A c o m p o siçã o to d a a p a re n te m e n te vê na q uestão dos e stra n g e iro s em Is ra e l um a questão social ce n tra l. O risco de q u e se e x p lo re m as pessoas e c o n ô m ic a e ju rid ic a m e n te fra ca s (viú va s, ó rfã o s e in d ig e n te s ) e d e q u e se p e rv e rta o sistem a ju ríd ic o é m u ito m a io r q u a n d o as pessoas e n v o lv i das são estrangeira s.
Em q u e é p o ca os e stra n g e iro s se to rn a ra m p ro b le m a social a p o n to de h a v e r n ecessida de d e um a re g u la m e n ta ç ã o ? Os textos q u e fa la m do Israel p ré -e sta ta l quase n ã o m e n c io n a m o " g e r " (e s tra n g e iro )12: so m e n te 4 vezes nos livro s de Josué a 2 S am uel. Destas, três são bem ta r d ia s (Js 8.33,35; 20,9 ) 13» e a ú ltim a (2 Sm 1.13) fa la do filh o d e um " g e r " a m a le q u ita . A fo rm a v e rb a l (g u r) o co rre 7 vezes nestes liv ro s 14: Dã v iv e nos n a v io s (Jz 5.17), os b e e ro tita s em G u ita im (2 Sm 4.3), os e fra im ita s em B e n ja m im (Jz 19) e, p o r fim , os le v ita s em o u tra s trib o s (Jz 17; 19). Em n e n h u m destes textos os " g e r im " re p re se n ta m um p ro b le m a social. São, antes, v ia ja n te s de passagem p o r outras re g iõ e s. Os p ro fe ta s do século 8 ta m b é m a in d a não m e n c io n a m e stra n g e iro s co m o g ru p o , com o q u a l se s o lid a riz a m . Isto so m e n te vai o c o rre r em Je re m ia s e E zequiel. C orrespon d e n te m e n te som ente o D e u te ro n ô m io va i c o lo c a r um peso especial na
10 — Sobre a e s tru tu ra in te rn a d o C ó d ig o d a A lia n ç a cf. J. H albe . Das P riv ile g re c h t Ja h w e s Ex 34, 10-26. In: F o rs c h u n g « ! z u r R a lig io n un d L ite ra tu r d s i A lte n u n d T « s ta m « n t> . V o l. 114, 1975, em e sp e cia l p. 413ss.
11 — C f., a re sp e ito , F. C rüse m an n. F re m d e n lie b e un d Id e n titä ts s ic h e ru n g . Zum V e rstä n d n is de r "F re m d e n "-G e s e tz e im A lte n Testam ent. In: W o rt u n d D io n s t. V ol. 19, 1987, p. 11-24. 12 — Cf. C. S ch ä fe r-L ich te n b e rg e r, o p . e it. (n o ta 4), p. 311s.
13 — Js 8.30ss é in d u b ita v e lm e n te d e u te ro n o m is tic o , cf. M . N o th . Das Buch Josua. In: H an d b u ch
zu m A lto n T o s ta m o n t. V o l. 7, 2. e d ., 1953, p. 51ss. Sobre Js 20 e N m 35 c f., a g o ra , R. Rofé.
Joshua 20: H is to ric a l-L ite ra ry C riticism illu s tra te d . In: J.H. T ig a u y (e d .) E m p iric a l M o d o ls f o r Bi
b lic a l C ritic is m . P h ila d e lp h ia , 1985, p. 131-147; id e m . The H isto ry o f th e C ities o f R efuge in Bi
b lic a l Law. In: S. Ja p h e t (e d .) S tu d io s in th a B ib lo 1986. S c rip ta H io ro s o ly m ita n a . V o l. 31. Je ru s a le m , 1986, p. 205-239.
questão dos e s tra n g e iro s 15. Pelo qu e sabem os da h istó ria e da a rq u e o lo g ia , os " g e r im " som ente se to rn a ra m p ro b le m a g ra v e q u a n d o os is ra e li tas do Reino do N o rte fu g ira m dos invasores assírios, em 722, e im ig ra ram em massa no R eino do Sul, J u d á 16.
Os p ro b le m a s sociais e éticos te m a tiz a d o s p e lo C ó d ig o da A lia n ç a a p a re c e m som ente a p a rtir do século 9 a .C ., em especial no século 8, q u a n d o ta m b é m os p ro fe ta s d e n u n c ia m a e x p lo ra ç ã o e c o n ô m ic a e a per versão do d ire ito de viúvas, ó rfã o s e pobres. É cla ro q u e as leis e os pro fe ta s re co rre m a norm as e v a lo re s existentes na época p ré -e sta ta l qu e , no e n ta n to , p a re ce te re m p e rd id o sua v a lid a d e e a u to rid a d e nos séculos 9 e 8. Por isto m esm o h o u ve necessidade d e fix a r estas n o rm a s p o r escri to.
A d e m a is , os p ro fe ta s não se a p ó ia m em leis escritas; isto seria de se esp e ra r se elas já existissem . Leis escritas são, na é p o ca dos pro fe ta s, in o va çõ e s recentes (cf. Os 8.12; Is 1 0 .Is).
C o n c lu in d o , p o d e m o s a firm a r q u e a m bas as partes do C ó d ig o da A lia n ç a s u rg ira m na é p o ca do R einado , antes do D e u te ro n ô m io ; os " m is h p a tim " p ro v a v e lm e n te o séc. 9, as e x ig ê n c ia s sociais dos ca p ítu lo s 22s p ro v a v e lm e n te no séc. 8.
2 — A provocação da Torâ: Lei sem Estado.
Para e n te n d e r a p ro vo ca çã o da Torá, convém le m b ra r os dados básicos da n a rra ç ã o b íb lic a : a Torá é tra n s m itid a por Deus ao p o vo de Is ra e l no m o n te S inai. N o D ecálogo , Deus fa la d ire ta m e n te ao po vo . Nas ou tra s leis e le fa la a tra vé s de M oisés, ta n to no m o n te Sinai q u a n to nas "e s te p e s de M o a b " , p o r ocasião d a "s e g u n d a le i" (D e u te ro n ô m io ). Este d a d o a p a re n te m e n te tã o n o rm a l e n a tu ra l, de fa to , nã o o é. Na h istó ria do d ire ito do A n tig o O rie n te , este d a d o é ú nico: o d ire ito , a le i vem de Deus e não d o Rei. Se, na épo ca d o R einado, se fo rm u la m leis, das q uais se a firm a qu e p ro v ê m de Deus, e n tã o estas leis ta m b é m contestam a q u i lo q u e é c o n s id e ra d o n o rm a l e co m u m , ou seja, q u e as leis são im postas p e lo Estado ou p e lo Rei. A fic ç ã o d e q u e o p o vo re ce b e a Torá de Deus através de M oisés no Sinai g a n h a , assim , peso te o ló g ic o e x tra o rd in á rio .
15 — Cf. Jr 7 .6 ; 14.8; 22 .3; Ez 14.7; 22 .7; 47.22s; Dt 1 0 .18s; 14.21,29; 16.11,14, etc.
16 — C f., a re s p e ito , M . Broshi. The E xpansion o f J e ru sa le m in th e Reigns o f H e ze kia h an d AAanas-seh. In: Is ra e l E x p lo ra tio n J o u rn a l. V o l. 24, 1974, p. 21-26; W. M e ie r. "F re m d lin g e , d ie aus Is ra el g e k o m m e n w a r e n .. . " Eine N o tiz in 2 C hron 30, 24s aus d e r Sicht d e r A u s g ra b u n g e n im jü dischen V ie rte l in d e r A ltsta d t in Jerusalem . In: B ib lisch e N o tiz e n . V ol. 15, 1981, p. 40-43.
O q u e isto s ig n ific a p o d e ser visto na m u ltip lic id a d e de setores da v id a h u m a n a a b a rca d o s p e la Torá. E v e rd a d e que a a d o ra ç ã o exclu siva de Javé (P rim e iro M a n d a m e n to ) d e te rm in a o to d o . M as ao seu lado te mos d e te rm in a ç õ e s bem específicas com o, p .e x ., a construção de um a l tar (Ex 20.24s) e a re g u la m e n ta ç ã o de sacrifícios; tem os sentenças ju d i ciais com o o caso do fe rim e n to da m u lh e r g rá v id a (21.22s) e, a in d a , e xo rta çõ e s éticas com o a e x ig ê n c ia de tra ta r bem os a n im a is (23.5). De g ra n d e peso são as leis e conôm icas. A o la d o das d e te rm in a ç õ e s q u e pro- te n d e m p ro te g e r os q u e estão em situação social e ju ríd ica p re c á ria (v iú vas, ó rfã o s, e stra n g e iro s), m erece m enção especial a p ro ib iç ã o de co brar juros: "S e em p re sta re s d in h e iro (p ra ta ) ao in d ig e n te qu e está em teu m e io (m e u p o vo ), nã o a g irá s com e le com o a g io ta , não to m a rá s juros d e le " (Ex 22.24). Em um acréscim o p o s te rio r, c o lo ca d o e n tre parênteses a c im a , os pobres são d e n o m in a d o s " m e u p o v o ". A p ro ib iç ã o de co b ra r juros não tem p a ra le lo s no A n tig o O rie n te . Esta p ro ib iç ã o é um a das m a io re s te n ta tiv a s de ro m p e r, através de um a le i de Deus, com as b rutais leis e co n ô m ica s da é p o ca p a ra , assim, a c a b a r com o processo de e n d iv i d a m e n to e e m p o b re c im e n to q u e to m a v a conta nos séculos 9 e 8 a.C. (cf. as d e n ú n c ia s p ro fé tica s d a época). Por este m o tiv o , esta p ro ib iç ã o é ta m bém a ssum ida p e lo D e u te ro n ô m io (23.20s) e p e lo C ódigo da S an tid a d e (Lv 25.36s).
A p ro ib iç ã o da c o b ra n ça de juros é, ta m b é m , um bom e x e m p lo p a ra m ostrar q u ã o desastroso fo i a Ig re ja , p e lo m enos na Europa, te r a b d ic a d o da Torá. Para M a rtin Lutero a in d a estava c la ro qu e esta p ro ib iç ã o era m a n ife s ta ç ã o in e q u ív o c a da v o n ta d e d iv in a , ta n to q u a n to o " N ã o m a ta rá s ": "T o d o s a q u e le s q u e cobram 5, 6 ou m ais por cento sobre o d i n h e iro q u e e m p re sta m são a g io ta s ... São servos id ó la tra s da a v a re z a e do M a m m o n , e n ã o p o d e m ser salvos a não ser q u e fa ça m p e n itê n c ia " 17. Se a Ig re ja não tivesse la rg a d o m ão da Torá, o c a p ita lis m o não se te ria d e s e n v o lv id o assim co m o fe z. E — o q u e é m ais im p o rta n te — as Igrejas cristãs ta m b é m não v e ria m n e le a c ritic a m e n te a fo rm a e c o n ô m ic a san c io n a d a por Deus. O m esm o p o d e ria ser d ito sobre o p e rd ã o re g u la r das d ív id a s no ano sabático.
Um corpo de leis com ta n ta v a rie d a d e de assuntos é a lg o ú nico no A n tig o O rie n te , o n d e te m a s tão diversos não e ra m m isturados. " N a M e- so p o tâ m ia o d ire ito é a lg o e s trita m e n te p ro fa n o ... Há um a in c o n fu n d ív e l separação e n tre leis p ro fa n a s e leis re lig io sa s: " d in u " (le i ju ríd ic a ), " k ib
-17 — A n d ie P fa rrh e rre n , w id e r de n W u ch e r zu p re d ig e n . V e rm a h n u n g (1540). In: D . M a r tin L u th e rs
s u " (le i m o ra l ou é tic a ) e " p a r s u " (le i re lig io s a ou cú ltic a ) nunca a p a re cem la d o a la d o num só d o c u m e n to 18. C oleções de leis m e sopotâm ica s n ã o co n tê m , p. e x ., e x ig ê n c ia s m orais ou éticas com o as qu e se e n co n tra m nas sentenças sapiencia is. A m istura de tra d içõ e s le g a is tão d iv e r sas, na Torá, no e n ta n to , não é sinal de q u e Israel era um p o vo p rim itiv o qu e a in d a não sabia d ife re n c ia r e n tre um a coisa e o u tra . Pois Israel co n h e c ia as tra d iç õ e s do A n tig o O rie n te e ta m b é m as a d o to u , com o mos tram os " m is h p a tim " do C ódigo da A lia n ç a . Se não é d e s c o n h e cim e n to , d e ve ser decisão te o ló g ic a . A p re d o m in â n c ia do P rim eiro M a n d a m e n to em todas as coleções de leis da Torá não é um acaso. O n d e há um só Deus, todos os setores da v id a tê m , a u to m a tic a m e n te , a ve r com e le . Há um a co rre sp o n d ê n cia e n tre o Deus único e a d iv e rs id a d e de conteúdos na Torá. Se, p. e x ., a v o n ta d e de Deus n ã o m ais valesse p a ra o cam po da e c o n o m ia , e n tã o ta m b é m estaria em jo g o a v a lid a d e do P rim e iro M a n d a m e n to .
A a u to rid a d e por trás da lei in flu e n c ia o c o n te ú d o da m esm a. Não é a lg o n o rm a l q u e as leis p ro vê m d e Deus. No A n tig o O rie n te as leis e ra m e n te n d id a s com o p ro v e n ie n te s do Rei, com o o m ostra a p a rte fin a l do C ó d ig o de H a m u ra b i: "Estas são as justas sentenças qu e H a m u ra b i, o rei co m p e te n te , e sta b e le ce u para p ro m o v e r costum es estáveis e um bom g o v e rn o " (C ódigo de H a m u ra b i, XLVII 2-8). N ão im p o rta q u e o rei a ja em c o n c o rd â n cia com os deuses; as leis, a q u i, não são re v e la ç ã o d iv in a , mas estatutos reais, com o se pod e n o ta r no fa to de o re i, sem pre de n o vo, d e n o m in a r a co le çã o de leis, não sem pre te n sã o , de " m in h a e s te ia ". T am bém na G ré cia e em Roma se crê qu e as leis e, s o b re tu d o , sua c o d ifi cação sejam o b ra h u m a n a . Para os juristas m odernos, um a lei qu e não seja lei do Estado é p ra tic a m e n te in c o n c e b ív e l. Israel, no e n ta n to , a firm a qu e a sua le i fo i d a d a antes da e x istê n cia do Estado e, por isso, está a c i m a de q u a lq u e r Estado.
S em pre se supôs q u e partes da Torá tivessem sido estatutos do re i; mas o A n tig o Testam ento n a d a d iz a lé m de de um a b re ve m e n çã o da d i visão de desp o jo s po r p a rte d e Davi (1 Sm 30.25). É v e rd a d e q u e d e ve m o s pressupor a e x is tê n c ia de leis reais acerca de im postos e tra b a lh o s fo rç a dos. Talvez a té os " m is h p a tim " do C ó d ig o da A lia n ç a , nas q u a is Deus a p a re c e em te rc e ira pessoa, te n h a m sido e n te n d id o s com o d e te rm in a ções do re i. M as isto ta m b é m já é tu d o . Tanto fo rm a q u a n to c o n te ú d o do restante das leis d o C ó d ig o da A lia n ç a e, s o b re tu d o , do D e u te ro n ô m io
18 — S. Paul. S tudies in the Book o f the C o ve n a n t in th e Light o f C u n e ifo rm a n d B ib lica l Law. In: Ve-
nos d e sa u to riza m a d iz e r q u e as leis do A n tig o Testam ento sejam leis de um rei. As fo n te s n a d a d ize m co m o fo i possível s u rg ir um a le g is la ç ã o ao la d o de e, p a rc ia lm e n te , co n tra o re i. C onsegu im o s, no e n ta n to , v is lu m brar a lg u m a s p o ssib ilid a d e s. Duas destas m e p a re ce m im p o rta n te s; a) os pressupostos sociais e b) a q uestão da v in c u la ç ã o das leis a um a in s titu i ção.
In icie m o s com a o rg a n iz a ç ã o j u d i c i a l . No a n tig o Israel, com o no A n tig o O rie n te , h a v ia três tip o s de fo ro s jurídicos: os trib u n a is do re i, do te m p lo e dos anciãos. Nos a rre d o re s de Israel p re d o m in a v a a ju risd içã o do rei (a corte re a l). Em Israel era d ife re n te . E v e rd a d e q u e , em Israel, a ju risd içã o dos g ra n d e s te m p lo s estatais, com im p o rta n te s in stitu içõ e s co m o o o rd á lio , o ju ra m e n to e o a silo , d e p e n d ia p ro v a v e lm e n te do p a lá c io re a l. M u ito s indícios, no e n ta n to , a p o n ta m p a ra o fa to de qu e os trib u n a is a u tô n o m o s dos cid a d ã o s livre s aos " p o r tõ e s " das diversas lo c a lid a d e s nunca fo ra m to ta lm e n te su b m e tid o s ao c o n tro le estatal.T exto s com o Rute 4, as a dm oestaçõ es de co m o a g e n te d e v e c o m p o rta r-se no trib u n a l (Ex 23.1ss) e as d e n ú n cia s p ro fé tic a s de qu e todo o Israel é responsável p e la co rru p çã o do d ire ito co m p ro v a m esta re la tiv a a u to n o m ia da ju risd içã o aos portões. Cada is ra e lita liv re qu e tin h a p ro p rie d a d e p o d ia p a rtic ip a r a tiv a m e n te das a tiv id a d e s forenses de sua lo c a lid a d e 20. In fe liz m e n te nã o sabem os a té q u e p o n to o p o d e r do re i p o d ia in flu e n c ia r esta o rg a n i zação ju d ic iá ria . Ela p ro v a v e lm e n te tin h a m a io r in flu ê n c ia do q u e os te x tos re v e la m . Em to d o caso, a im p o rtâ n c ia d a ju risd içã o dos a n ciã o s no e x ílio e p ó s -e x ílio so m e n te é co m p re e n síve l se e x istia , na é p o ca do Rei n a d o , um a ju ris d iç ã o a u tô n o m a do po vo . A co n vicçã o de q u e to d a s as leis fa z e m p a rte de um a só Torá está v in c u la d a , h is to ric a m e n te , com este trib u n a l a u tô n o m o d e a g ric u lto re s livres. E isto tem im p o rtâ n c ia te o ló g i ca.
Nos textos le g a is, o ê x o d o e a to m a d a da te rra são im p o rta n te s pressupostos para a Torá e a sua v a lid a d e 21. M u ito s trechos do D eutero- n ô m io in ic ia m com a frase: "Q u a n d o e n tra re s na te rra q u e Javé, teu Deus, te d e r . . . " A Torá d irig e -s e , p o rta n to , a pessoas livres, n ã o m ais su b m e tid a s a tra b a lh o s fo rç a d o s com o no Egito, e, a lé m disso, a israelitas qu e to m a ra m posse d a te rra , ou seja, p ro p rie tá rio s de te rra (isto v a le , p e lo m enos, p a ra o C ó d ig o da A lia n ç a e o D e u te ro n ô m io , q u e são da ép o ca
19 — A re s p e ito c f., a g o ra , H. N ie h r. R echtsprechung in Israel, in: S tu ttg a rte r B ib e l-S tu d ie n . V ol. 130, 1987.
20 — A lé m de H. N ie h r (n o ta 19) cf. ta m b é m L. K öhler. Die h e b rä isch e R e chtsgem e inde . In: Idem .
D e r h e b rä is c h e M e n s c h . T ü b in g e n , 1953, p. 141-171.
21 — C f., a re s p e ito , F. C rüse m an n. B e w a h ru n g de r F re ih e it. Das th e m a des D ekalo gs in s o z ia lg e s c h ich tlich e r P erspektive. In: K a is e r T ra k ta te . V o l. 78, 1983.
do R einado ). Este p o vo liv re re ce b e a in c u m b ê n c ia não só d e o rg a n iz a r seu p ró p rio sistem a ju d ic iá rio (p .e x . Dt 16.18), mas ta m b é m , com o livres p ro p rie tá rio s de te rra , a de co lo ca r em p rá tica tu d o o qu e nos textos se e x ig e : d ire ito e justiça, a o rg a n iz a ç ã o do Estado e a m a n e ira d e com o c o n d u z ir um a g u e rra . Com isto, lhes é d a d a a re s p o n s a b ilid a d e sobre a v id a e a m orte. Portanto, a a firm a ç ã o de q u e , em Israel, o d ire ito é d ire i to d iv in o sem pre s ig n ific a , ta m b é m , qu e o d ire ito está nas m ãos do povo. P erguntem os, a g o ra , p e la in s titu iç ã o em Israel q u e p o d e ria te r co le c io n a d o estas leis. De o u tra fo rm a : Q uem , na ép o ca do R einado, p o d ia fa la r em n o m e d e Deus ou de M oisés? Sabem os qu e em sociedad es pré- estatais as leis são fru to da tra d iç ã o e, p o rta n to , não necessitam d e um a instância le g itim a d o ra . Assim , ta m b é m , fo i em Israel. A q uestão d a a u to rid a d e le g itim a d o ra surge, no e n ta n to , o m ais ta rd a r, p o r ocasião d a f i xação de n o rm a s le g a is por escrito. Em n o m e de q u e m são p ro fe rid a s? No A n tig o O rie n te , é o re i; na G ré cia , um le g is la d o r e s p e c ia lm e n te in cu m b id o . M as q u e m p o d ia fa la r em n o m e de Deus e de M oisés?
A ú nica in stâ n cia , na épo ca do R einado , qu e tin h a esta c o m p e tê n cia parece te r sido o su p re m o trib u n a l de Je ru sa lé m . Dt 17.8ss d e te rm in a q u e um caso q u e , no trib u n a l "a o s p o rtõ e s " da lo c a lid a d e , fo r m u ito d ifí cil ou, e n tã o , a n o rm a l seja le v a d o ao lu g a r c e n tra l de c u lto . Lá o caso se rá d e c id id o p e lo sacerdote ou ju iz e repassado à in stâ n cia in fe rio r qu e , por sua vez, d e ve ater-se a esta decisão "s e m te d e svia re s p a ra a d ire ita ou para a e s q u e rd a " (v. 12). O D e u te ro n ô m io co n h e ce , p o rta n to , um a in s titu iç ã o p o s te rio r a M oisés com a m esm a a u to rid a d e d e M oisés, a de d e c id ir sobre casos ju ríd ico s novos ou questões omissas. A te rm in o lo g ia usada nos v v. 1 2s d escreve, em outros textos, sem pre a a u to rid a d e de M oisés22.
Esta sup re m a co rte de justiça em Jerusalém fo i, c o n fo rm e 2 C rô n i cas 19, in stitu íd a p e lo rei Josafá, no século 9 a .C 23. Ela é com posta de sacerdotes e le ig o s; h a v ia um responsáve l por assuntos de Javé, o u tro , por assuntos do re i. Casos om issos d e v ia m ser tra ta d o s p o r esta corte.
22 — Cf. Dt 5.3 2; 28.14 e ta m b é m Dt 13.6, 17.7; 19.13,19; 21.21; 22.22s; 24.7.
23 — A re s p e ito c f., em e s p e c ia l, G. C. m a ch o lz. Zur G e sch ich te d e r J u s tiz o rg a n is a tio n in Ju d a . In:
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A c e ita n d o o c o n se lh o de seu sogro, M oisés in sta la , c o n fo rm e Ex 18, juizes q u e o a ju d a m em seus ju lg a m e n to s, se e stive r co rre ta a h ip ó te se de q u e , com este te x to , se p re te n d e le g itim a r um a o rg a n iz a ç ã o ju ríd i ca no â m b ito m ilita r24» cabe p e rg u n ta r q u e m é q u e , em Judá, assum e as ta re fa s rese rva d a s a M oisés, ou seja, d e c id ir sobre os casos d ifíc e is a tra vés d e co n su lta a Deus e in s tru ir o povo (vv. 19s,22). M oisés te m , a q u i, a m esm a fu n ç ã o q u e os textos a n te rio re s a trib u e m à sup re m a corte de jus tiça em Jerusalém .
E bem p ro v á v e l q u e esta in stâ n cia ju ríd ic a m a io r te n h a sido con c e b id a co m o in s titu iç ã o do rei e ta m b é m te n h a , in ic ia lm e n te , fu n c io n a do com o ta l. A p e sa r d e não term os provas, há indícios de q u e textos co m o os " m is h p a tim " d o C ó d ig o da A lia n ç a s u rg ira m nesta corte, em a n a lo g ia a có d ig o s le g a is d o A n tig o O rie n te , com o o b ra de juristas re a is.M a s a co m p o siçã o deste su p re m o trib u n a l é d ife re n te do usual: sacerdotes, le v ita s e ch e fe s de fa m ília . A presença de sacerdotes e le ig o s nesta su p re m a co rte p o d e ria e x p lic a r a m istura de tra d iç õ e s c ú ltic o -re lig io s a s e ju ríd ica s q u e ca ra cte riza a Torá. Estas duas fo rça s — os s a c e rd o te s /le v i tas, cujas tra d içõ e s e consultas a Javé n ã o d e p e n d ia m do re i, e os re p re sentantes dos isra e lita s livre s e in d e p e n d e n te s q u e , p .e x ., estão po r trás d o m o v im e n to d e u te ro n ô m ic o — são a a u to rid a d e q u e p o d ia , na épo ca do R einado , fo rm u la r a le i de Deus em n o m e de M oisés. Elas assum em , assim , a a u to rid a d e de M oisés. Esta su p re m a corte parece te r sido o lu g a r in s titu c io n a l m ais p ro v á v e l do su rg im e n to da Torá.
A le i d e Deus, antes e a c im a de q u a lq u e r Estado — esta é a cons ta n te p ro vo ca çã o d a Torá e, s o b re tu d o , do seu co n te ú d o . A Torá é fo rm u la d a d u ra n te a é p o ca do R einado in d e p e n d e n te m e n te do rei e, p a rc ia l m e n te , a té co n tra o re i. Desta m a n e ira , e la p ô d e ser o fu n d a m e n to te o ló g ico q u e fe z com q u e os isra e lita s sobrevivessem sob po d e re s e s tra n g e i ros, no e x ílio . O d ire ito e a justiça d e v e m ve r na Torá, ta m b é m h o je , um p a râ m e tro . Pois a Torá a in d a é expressão da v o n ta d e d iv in a . O Evange lho so m e n te p o d e rá d e s e n v o lv e r a sua fo rç a lib e rta d o ra q u a n d o e stive r la d e a d o p e la Torá. T e rm in o c ita n d o Lc 16.31: "S e n ã o o u v e m a M oisés e aos p ro fe ta s, tão pou co se d e ix a rã o p e rs u a d ir a in d a q u e ressuscite a l g u é m d e n tre os m o rto s ."