Folha de S.Paulo cria ranking de
universidades e atrai polêmica
INSTITUIÇÕES APONTADAS POR JORNAL COMO FAVORITAS DO MERCADO TIRARAM ZERO EM QUALIDADE DE ENSINO Por Carlos Orsi
O
jornal Folha de S.Paulo publicou, no início de setembro, um caderno especial com seu ranking de universidades brasileiras. Nele, a Universidade de São Paulo (USP) aparece em pri-meiro lugar. Universidades públicas ocupam as 12 primeiras posições, sendo quatro estaduais (USP, Unicamp, Unesp e Uerj) e as demais, federais. A Unicamp aparece em quinto lugar.Inspirada na metodologia de rankings interna-cionais de prestígio, e principalmente pelo trabalho da revista britânica Times Higher Education (THE), a escala elaborada pelo jornal se vale de uma série de critérios mensuráveis que, dotados de pesos es-pecíficos, acabam por compor a nota final de cada instituição ranqueada.
A Folha também criou um site onde o internauta pode, ainda que de modo limitado, manipular os pesos dados aos critérios individuais, elaboran-do rankings alternativos e, até certo ponto, personalizados.
Mas a forma como os crité-rios de qualidade usados para a definição do ranking foram
escolhidos e implementados atraiu críticas. De dentro da própria Folha, o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, membro do Conselho Editorial do jornal e professor emérito da Unicamp, criticou a es-colha de parâmetros que crescem em proporção ao tamanho físico da instituição. “Assim, uma universi-dade de qualiuniversi-dade mediana, se for muito maior que outra de boa qualidade, estará mais bem classifica-da que outra de boa qualiclassifica-dade. Qualquer programa de avaliação de universidade deveria identificar a grande universidade, não a universidade grande”, escreveu ele, em artigo publicado pelo diário.
A forma como foi apurado o critério de “mer-cado” – uma medida da reputação das universi-dades frente aos empregadores – também foi alvo de ataques. O físico Leandro Tessler, professor da Unicamp, instituição que ficou em 42º lugar nesse item, apontou a inconsistência entre o ranking par-cial elaborado com base nesse único indicador e as notas da categoria que pretendia medir a qualida-de qualida-de ensino: muitas das universidaqualida-des apontadas pela Folha como favoritas do mercado haviam tira-do nota zero no quesito de qualidade.
“A metodologia usada para medir a Avaliação do Mercado é de uma ingenuidade incompatível com sua pretensão de orientar políticas públicas. Foram entrevistados por tele-fone 1.212 responsáveis por recursos humanos em em-presas de diversas áreas. Fo-ram pesquisados 20 cursos. Cabe notar que a maior par-te dos cursos está presenpar-te prioritariamente nas univer-sidades privadas. A Unicamp não oferece graduação em pelo menos 8 desses cursos. Nada mais óbvio que não seja lembrada – aliás, assim como muitas das universidades públicas, que só detêm 25% da matrícula em graduação”, escreveu ele.
Apesar das críticas a alguns dos critérios usa-dos e à forma como parte desses critérios foi apu-rada, no entanto, a iniciativa do diário paulista foi, no geral, bem recebida. Diversos especialistas em educação superior já haviam se manifestado contra o fato de o Brasil, até a publicação da iniciativa do jornal, contar com apenas um ranking de universi-dades, o elaborado pelo MEC.
Especialistas
haviam se
manifestado contra
o fato de o Brasil,
até a iniciativa
do jornal, contar
com apenas um
ranking, o do MEC
Notas
WHICHUNI TEM INFORMAÇÕES DE 283 INSTITUIÇÕES, COMPREENDENDO MAIS DE 30 MIL CURSOS
Mulheres são maioria com
diploma universitário, mas homens
dominam mercado de trabalho
BRASILEIRAS SãO MAIORIA EM áREAS COMO EDUCAÇãO, SAúDE E DIREITO E MINORIA EM ENgENHARIA E CIêNCIA
E
nquanto, no Brasil, a publi-cação do primeiro ranking não-estatal de instituições de en-sino superior dá margem a polê-mica, no Reino Unido – terra da revista Times Higher Education, responsável por uma das mais tradicionais classificações inter-nacionais de universidades – en-tra online um serviço que permite fazer a comparação direta entre 283 instituições, compreenden-do mais de 30 mil cursos.O site, chamado WhichUni, é parte do grupo Which?, uma em-presa online que presta serviços de orientação ao consumidor, incluindo seções de teste e de avaliação de produtos, como ca-feteiras e barbeadores elétricos.
No caso do WhichUni, o
pe-dido de comparação entre uni-versidades oferece fichas com informações como o custo da anuidade, os principais meios de acesso abertos a novos estu-dantes, se os cursos são integrais ou de meio período, a capacida-de capacida-de retenção capacida-de alunos (por exemplo: em Oxford, 90% dos estudantes voltam para o período letivo seguinte ou se formam com o grau desejado, ou superior; já na Universidade do Oeste da Escócia, essa taxa é de 39%) e o destino da maioria dos formados – se pós-graduação, um empre-go ou se ficam desempregados.
O usuário também pode acessar fichas individualizadas de cada instituição, onde in-formações aparecem de modo
mais detalhado: além de infor-mar que o destino da maioria dos formandos de uma determi-nada universidade é o mercado de trabalho, a ficha diz ainda que tipo de emprego é mais comum entre os egressos – se saúde, en-genharia, profissões liberais etc. O serviço também se vale dos resultados da Pesquisa Nacional de Estudantes, que é realizada no Reino Unido desde 2005 para determinar o que os alunos pensam das instituições de ensino superior onde estão matriculados. O WhichUni ofe-rece a proporção de alunos que respondeu “sim” a perguntas como “os professores dão boas explicações” ou “o curso é inte-lectualmente estimulante”. (C.O.)
A
proporção de mulheres brasileiras com tí-tulos acadêmicos de nível superior é maior que a de homens – a parcela da popula-ção feminina adulta com diploma é de 12%, ante 10% da masculina – mas esse dado sofre uma inversão no mercado de trabalho. Quando seana-lisam as pessoas que atuam em funções de nível superior, 91% dos homens estão empregados, contra 81% das mulheres.
Os números fazem parte da mais recente edição do relatório Education at a glance, publicado pela OCDE (Organização para a Cooperação e o
Desen-volvimento Econômico). Embora o Brasil não seja membro da OCDE, formada majoritariamente por nações europeias, os dados do País foram incluí-dos no relatório para fins de comparação.
O descompasso brasileiro entre a proporção de mulheres formadas e de mulheres empregadas acompanha a tendência registrada, também, den-tro da OCDE. Em média, 32% das mulheres adul-tas dos países-membros têm nível superior, ante 29% dos homens, mas “as taxas de emprego das mulheres são menores que as dos homens, sem exceção, em todos os países” da organização.
A diferença média é de nove pontos porcen-tuais, mas há casos em que
ela supera os 20 pontos. O país que mais se aproxima da igualdade é a Noruega, com 91% dos homens adultos di-plomados empregados, ante 89% das mulheres. Países como Canadá, Japão, Nova Zelândia e EUA têm mais
mu-lheres com nível superior do que a média da OCDE, mas a presença dessas mulheres no mercado de trabalho fica abaixo da média da organização.
O relatório propõe medidas como um aumento da disponibilidade de serviços de creche ou subsí-dios para a educação infantil como um benefício à trabalhadora. “A remoção de barreiras que impe-dem a participação de mulheres altamente qualifi-cadas no mercado de trabalho poderia beneficiar o crescimento econômico”, diz o texto.
REndA
Dos países analisados pelo relatório, o Brasil ainda é, como apontado no trabalho divulgado ano passado, aquele onde o diploma universitário mais agrega renda: um brasileiro formado em curso su-perior pode esperar ganhar, em média, 2,5 vezes mais que um brasileiro que tenha apenas com-pletado o ensino médio, e quase três vezes mais que um cidadão sem ensino médio completo. Na OCDE, as taxas são de 1,6 (sobre ensino médio
completo) e 1,9.
O relatório nota que o ganho de renda se man-tém a despeito do aumento no número de pessoas qualificadas por ensino superior: “A tendência dos dados (...) sugere que a demanda por indivíduos com educação terciária acompanhou o aumento da oferta na maioria dos países”.
Embora a formação superior aumente a renda em ambos os sexos, os homens ganham mais com cada nível educacional alcançado: a renda de um brasileiro com diploma universitário pode ser até 2,7 vezes superior à de um que só tenha ensino médio, e 3,2 vezes maior que a de um homem sem diploma colegial, mas a mulher ganha 2,6 a mais que uma com ensino médio, e 3,1 a mais que uma mulher sem esse grau de instrução.
As mulheres também de-moram mais para atingir seu potencial máximo de renda: a faixa etária mais bem remu-nerada, para as detentoras de diploma, é a de 55 a 64 anos. No caso dos homens, a renda é maior en-tre 25 e 34 anos, declinando depois, a partir dos 55. A pior situação, no Brasil, é a da mulher sem ensino médio: sua renda é 47% da obtida por uma mulher com diploma colegial (no caso dos homens, 53%).
No geral, a mulher brasileira com nível supe-rior ganha, em média, apenas 61% do que ganha um homem com o mesmo nível de instrução. Na média da OCDE, a renda da mulher com nível superior é 72% da do homem. Os países mais próximos da igualdade são Reino Unido (82%) e Espanha (89%).
EscOlhA dE cARREiRA
No Brasil, 40% dos meninos e 50% das me-ninas de 15 anos esperam ter uma carreira no campo da ciência ou da engenharia, de acordo com o relatório da OCDE. Na média dos países da organização, as taxas são de 33% em ambos os sexos. A discrepância é maior na área de
saú-No Brasil, em 2010,
63% de todos os
títulos acadêmicos
de nível superior
foram concedidos a
mulheres
Notas
respectivamente.
No Brasil, em 2010, 63% de todos os títulos acadêmicos de nível superior foram concedidos a mulheres. Elas são maioria – representando de 52% a 77% do total de títulos – nas áreas de Edu-cação; Humanidades e Artes; Saúde; Ciências So-ciais, Direito e Administração; e Serviços. Tornam-se minoria, no entanto, nos Tornam-setores de Engenharia, Manufatura e Construção (28%); Ciência (38%); e Agricultura (41%).
ExpEctAtivA E quAlidAdE dE vidA
O relatório também apresenta uma estimativa da expectativa de vida, aos 30 anos, das pessoas a
pode esperar viver 53 anos além dos 30, enquanto que alguém com apenas ensino médio tem uma expectativa de 50 anos além dos 30 e uma pessoa sem o colegial pode esperar mais 47 anos.
O efeito é mais pronunciado entre as mulhe-res: elas ganham quase 55 anos além dos 30 ao completar o ensino superior; 53 ao completar o médio e 50, caso cheguem aos 30 anos sem ter feito curso de nível médio.
Ter feito curso superior também aumenta a participação política, com 86% dos adultos com nível universitário sendo eleitores na OCDE, ante 78% dos cidadãos com ensino médio e 71% dos sem nível colegial. (C.O.)
Modelo brasileiro de universidade
pública pode ser insustentável,
diz especialista
PARA PHILIP ALTBACH, DO BOSTON COLLEgE, SISTEMA DE FINANCIAMENTO ESTATAL E ENSINO gRATUITO SOFRE PRESSãO CRESCENTE
O
modelo brasileiro de edu-cação superior pública, no qual o Estado arca com todas as despesas e os estudantes nada pagam, poderá se mostrar insustentável no cenário que se desenha para o setor no século 21, advertiu Philip Altbach, di-retor do Center for Internatio-nal Higher Education e editor da publicação especializadaInternational Higher Education
(IHE), ambos do Boston College (EUA). “Em minha opinião, ins-tituições como a Unicamp são, aparentemente, insustentáveis
no longo prazo”, disse ele. Altbach falou sobre os prin-cipais desafios da educação su-perior no século XXI na 1ª Escola Zeferino Vaz de Educação Supe-rior, realizada pela Unicamp em julho. Ele fez o comentário sobre o modelo brasileiro ao discorrer
sobre o desafio trazido pela ten-dência de privatização das uni-versidades públicas em várias partes do mundo, incluindo os EUA. “Não se vê muito disso no Brasil, hoje, mas talvez esteja no futuro de vocês”, declarou.
A questão da privatização liga-se a outro dos desafios men-cionados por Altbach, o do fi-nanciamento das instituições de educação superior frente à pres-são pela massificação do setor. Ele diagnosticou uma mudança na perspectiva que as socieda-des têm em relação à educação
Para Altbach,
eleição não é a
melhor forma
de escolher o
reitor de uma
universidade
superior – que estaria deixando de ser vista como um “bem pú-blico”, isto é, algo que beneficia a sociedade como um todo e, por-tanto, faz jus a um forte investi-mento público, e passando a ser encarada como um “bem priva-do”, algo que beneficia princi-palmente o detentor do diploma. Se a educação de terceiro grau é agora vista como um benefício particular concedido ao estudante, o forte investi-mento público no setor passa a ser questionado, ainda mais num cenário de contração econômica global, que vai afe-tar a capacidade dos países de sustentar seus sistemas de educação superior.
Dadas estas condições, Altbach destacou, como ou-tro desafio, a sustentabilidade da pesquisa básica, que não gera tecnologia ou patentes de imediato. “Como a pesquisa bá-sica vai sobreviver nesta era de parceiras com a indústria e de pressão, em muitos países, por mais pesquisa aplicada? Mas precisamos da pesquisa bási-ca, porque é dela que surgem as novidades. Este é um desafio significativo”.
GOvERnAnçA
Altbach também citou o de-safio da profissionalização da governança. Ele afirmou que a eleição não é a melhor forma de escolher o reitor de uma univer-sidade. “Eleger reitores, direto-res, chefes de departamento é
uma má ideia”, afirmou.
“Universidades são, hoje, organizações complexas, com grandes orçamentos. Elas me-recem uma administração pro-fissional. Merecem liderança.” Segundo Altbach, o sistema de eleição não traz liderança, visão estratégica e continuidade admi-nistrativa.
A falta de profissionaliza-ção dos níveis intermediários da administração universitária, acrescentou, muitas vezes aca-ba impedindo que a visão estra-tégica da alta administração seja executada.
MAssificAçãO
“O fato central da educação superior global, no fim do sé-culo 20 e início do sésé-culo 21, é a massificação, o aumento das matrículas e do acesso em todo o mundo”, declarou ele. “Isto é inevitável e não pode ser impedi-do”, afirmou ainda.
Ele lembrou que muitos paí-ses desenvolvidos já atingiram o pleno acesso à educação
supe-rior, com cerca de 80% da popu-lação da faixa etária adequada com acesso a faculdades e uni-versidades. “No mundo rico, há pouco espaço para expansão”, disse.
Já no mundo em desenvol-vimento, ainda há muito espaço para crescimento: dentro de 25 anos, disse, China e Índia
res-ponderão por mais de 60% de todas as matrículas em edu-cação superior do mundo, e não apenas por conta de suas grandes populações, mas tam-bém porque as taxas de aces-so atuais são muito baixas: na Índia, a parcela da população da faixa etária adequada com acesso à educação superior é de 10% e, na China, de 25%.
“Existem enormes pres-sões, vindas tanto da elite quanto da base da sociedade, sobre a maioria dos sistemas de educação superior”, ponde-rou. “Ao mesmo tempo em que os sistemas têm de lidar com a pressão pela massificação do acesso, na base, também há uma tremenda pressão pela ex-pansão da educação superior de classe mundial, que é uma questão das elites”.
O editor do IHE disse ainda que a massificação traz o desa-fio de qualificar e recompensar adequadamente os professores. “Precisamos de sistemas mais flexíveis, que permitam atrair pessoas de talento e remune-rá-las como merecem. Este é mais um desafio.” (C.O.)