A necessidade da garantia
pseudocientífica
(Série
pseudociências – Parte 8#)
A o l o n g o d a s é r i e d e e n s a i o s q u e f i z a c e r c a d a s pseudociências, expus que as pseudociências passam-se como ciência, embora não utilizem o método científico. Este processo está embasado na garantia social que a pseudociência tenta possuir quando põe-se como ciência (visto que na ciência, como postulei, sua garantia social é em decorrência de sua garantia metodológica).Este processo é extremamente vital para a manutenção da pseudociência: ela necessita usufruir de uma garantia social alheia, sem mesmo possuir uma garantia metodológica; o que acaba por se tornar possível instrumento de persuasão e com sua garantia social inócua (pois a garantia social deve ser apenas um reflexo perante a um grupo social de uma outra garantia, como a metodológica). Assim é compreensível o mecanismo da pseudociência quando esta tenta se passar por ciência, como uma mimese, para que seus adeptos possam e s t a m p a r u m a s u p o s t a g a r a n t i a d i t a e p a s s a d a c o m o “científica”, quando na verdade apenas é uma garantia social.
Carta Natal Astrológica
Bem, o que estou dizendo acima não é tão chocante se você já tiver lido o meu ensaio “A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#)“. É de certa forma, um resumo do que eu já disse anteriormente.
Mas por qual razão tocar neste assunto, novamente?
Bem, a razão por tocar neste assunto novamente é porque este assunto não é algo cujo contexto está além dos nossos dias, de nossos contatos imediatos.
A necessidade de garantia pela pseudociência é algo inerente ao seu funcionamento. Postulo isto pois, quando uma crença ou qualquer coisa humana que acabe por assumir a qualidade de “pseudociência”, atingindo seu foco – como já descrevi em outros ensaios, quando esta tenta se passar por ciência – ela acaba por requerer o status de científica utilizando-se de um v a l o r s o c i a l q u e a c i ê n c i a a d q u i r i u ( b e n é f i c a o u maleficamente), sem mesmo possuir uma garantia metodológica que funcione realmente ao operar um método científico.
Um caso muito patente foi o que aconteceu recentemente em Brasília. Policiais civis seguiram a pista dada por uma
vidente, que afirmava ter detalhes sobre um crime ocorrido por volta de um ano atrás na cidade.
A vidente demonstrou saber onde estava uma chave da residência das vítimas, parecendo mostrar pistas verdadeiras sobre o caso.
Agora uma das coisas que chamou a atenção acerca dos supostos métodos apresentados por ela, seria justamente a apresentação de um certificado, expedido por um curso de extensão ligado ao Nefp (Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais) da Universidade de Brasília. A apresentação do certificado foi dada como forma de garantir sua paranormalidade.
O Nefp é um conturbado núcleo que alega estudar fenômenos paranormais em quatro áreas (conscienciologia, terapias integrativas, ufologia e astrologia). Segundo o organizador da Nefp a vidente está extrapolando o valor do certificado, entretanto esta extrapolação parece ser uma necessidade para a sustentação da garantia pseudocientífica – a pseudociência precisa que sejam apresentados meios (os mais diversos, e o certificado é um deles) para que pareça algo que siga um estudo científico.
Óbvio que, analisando friamente a situação, podemos reparar que em parte o fato ocorre também pelo excessivo crédito que a sociedade dá à academia, gerando níveis de academicismo; o que contribui, de certa forma, para que pseudociências busquem estabelecer-se como algo científico até na academia.
Entretanto, não podemos negar que a academia e toda estrutura envolvida no processo de educação e desenvolvimento científico funciona; apesar que o academicismo ser algo crescente e contribuínte no processo do crédito excessivo à títulos e certificados, que por vezes podem ser vazios de significado. Notem que não estou dizendo que a ciência seja detentora da verdade, muito menos estou afirmando que não possam existir outros estudos. A ciência é uma das empreitadas humanas em
busca do que é real, cujo foco é bem estabelecido. Existem avanços tecnológicos associados ao seu desenvolvimento, por isso o seu sucesso em nossa contemporaneidade é em parte decorrência destes avanços. Outra parte é pela própria identificação e explicação dos fenômenos existentes.
Entretanto é possível, analisando de uma forma epistemológica, que outras coisas falem do que é real (seja a filosofia, a própria ciência e a religião), sim é possível; mas a questão da problemática levantada gira em torno do seguinte aspecto: cada uma destas empreitadas possui um foco de atuação específico, cuja atuação pode por vezes entrarem em intersecção, mas possuem focos distintos de funcionamento.
Por isso a pseudociência parece ser perigosa: é um tipo de empreitada humana que não se enquadra no processo metodológico da ciência, e nem sempre possui o mesmo foco de estudo (a natureza, o fenômeno, aquilo que nos aparece; ver este artigo e este outro), mas que quer se passar por ciência devido a forma que encaramos e geramos a garantia social: a pseudociência parece ser um estado usurpador de qualquer empreitada humana que não tenha estabelecida em si uma metodologia de estudo científico (que não esteja comprometida com esta metodologia), mas queira ser encarada como uma ciência.
Entrementes, não só o exagero cientificista está relacionado com o processo da manutenção da pseudociência. Também há o problema mesmo sem a variável do cientificista: ainda na mais modesta vitória e avanço científico (sem cientificismo) existe a satisfação que ela nos tenha gerado – satisfação tal que é natural. Notem, que agora estou a me referir ao processo normal, sem que o indivíduo suponha uma supremacia científica. Ainda assim, a pseudociência participa do processo usurpador do que pode ser científico, pois é vantajoso e atraente se passar por ciência, para poder dizer que participa de um procedimento que de certa forma funciona.
Resumindo a questão:
A pseudociência se passa por ciência, sem admitir seus 1.
métodos, mas querendo “surfar” em seu sucesso.
Este sucesso, pode ser consciente, sem o problema do 2.
cientificismo. Um sucesso saudável acerca do que foi descoberto e do que podemos descobrir através desta modalidade de falar sobre o mundo (ciência). Mesmo neste âmbito, a pseudociência quer se passar como ciência, pois quer participar deste processo de falar do mundo, mas não quer se adequar à forma da ciência falar sobre o mundo.
A pseudociência pode, ainda, fazer uso para si daqueles 3.
que possuem grau de cientificismo: é muito atraente passar-se como ciência, sem utilizar seus métodos, por que no cientificismo haveria uma abertura para o que é passado como ciência como algo exclusivo de verdade. Assim a pseudociência já conquistaria a idolatria de muitos.
No caso do crime acontecido em Brasília, fica patente como a apresentação de um certificado como uma forma de garantir a autenticidade de uma paranormalidade. Embora os organizadores do curso aleguem que o certificado não tenha este valor, é fato como o mesmo foi usado na desenfreada necessidade de garantia pseudocientífica.
Vamos refletir: mesmo não tendo este valor, como os organizadores do curso alegam, já é bastante alusivo uma pessoa apresentar um certificado para mostrar autoridade em um assunto a fim de usufruir de prestígio do mesmo.
Segundo o “Correio Braziliense“:
O escândalo envolvendo a paranormal Rosa Maria Jaques, acusada de fraudar as investigações do triplo assassinato da 113 Sul, pode trazer consequências para a Universidade de Brasília (UnB). Isso porque, uma das principais alegações de
Rosa Maria para certificar a sua capacidade de clarividência é o fato de ela possuir um certificado de instrutora (1) em um curso de paranormalidade promovido na instituição, bem c o m o d e j á t e r s i d o t e m a d e t e s e d e d o u t o r a d o n a universidade. Diante da situação, o Instituto de Física (IF) da UnB pediu ao Conselho Universitário (Consuni) a extinção do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (Nefp), responsável pelos cursos.
(In: Correio Braziliense, Envolvimento de paramornal em crime da 113 Sul põe em xeque núcleo da UnB).
O que Nefp?
No início do artigo eu disse que a Nefp é um “conturbado” núcleo de extensão. Vamos entender melhor porque o “conturbado”.
No site da Nefp encontramos:
O NEFP conduz pesquisas com respaldo científico e sempre preocupado com o impacto dos resultados na sociedade. (…) (In: http://www.nefp.unb.br/index.html; grifo meu).
Embora o núcleo afirme isto, o mesmo está enfrentando problemas junto ao Instituto de Física. Este último está pedindo a extinção do citado núcleo. Alegam que o que o Nefp está produzindo não é ciência e não se mantém de forma laica em seus estudos.
No site da Agência UnB temos a seguinte reportagem:
O Instituto de Física da Universidade de Brasília vai pedir ao Conselho Universitário a extinção do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (Nefp). A decisão do conselho do IF é do início de junho, mas ganhou reforço com a prisão da vidente Rosa Maria Jaques, há oito dias. Acusada de
envolvimento no assassinato do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral José Guilherme Villela, da mulher dele e da empregada da família, a clarividente usa como prova de seus poderes um certificado de instrutora de um curso de paranormalidade promovido pelo Nefp na UnB.
(…)
Apesar de não estar vinculado diretamente ao Instituto de Física, a existência do Nefp incomoda muitos físicos, além de professores e pesquisadores de outras áreas, desde que foi criado, há mais de 20 anos. Tanto que a decisão de formalizar o pedido no Conselho Universitário, instância máxima da UnB, foi tomada muito antes da prisão, no último dia 6 de junho, em reunião extraordinária do Conselho do Instituto de Física. De acordo com a ata da reunião, os 16 conselheiros decidiram que vão encaminhar o documento também à Reitoria e ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe).
(…)
O principal argumento dos físicos é o de que o Nefp não produz conhecimento científico. “O que eles fazem não é pesquisa séria, é propagação do esoterismo. Os trabalhos não obedecem a métodos científicos nem são laicos, premissa fundamental da ciência. É só analisar a produção para comprovar”, afirma o diretor do Instituto de Física, Geraldo Magela e Silva.O professor Álvaro Luiz Tronconi rebate. “É ciência sim. Usamos a metodologia científica para testar aquilo que está além dos sentidos. Em alguns casos, comprovamos. Em outros, não, como em qualquer pesquisa”, justifica.
(In: Agência UnB, Físicos pedem extinção de núcleo de estudos s o b r e p a r a n o r m a l i d a d e .
http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=3798)
necessidade de garantia como algo científico para se manter como uma suposta ciência. Isto fica patente nos exemplos mencionados: seja na tentativa de mostrar autoridade em uma área, como ocorreu com a vidente que está a ser acusada pela justiça, quanto no núcleo de estudos, que está a ser acusado pelo Instituto de Física da UnB como um núcleo que não está desenvolvendo ciência, embora se nomeie como tal.
Acho que é bom refletirmos sobre estes assuntos todos, pois isto é algo que acontece e precisamos ficar atentos.
Mais notícias sobre o caso Agência UnB.
Correio Braziliense. O Estadão
Arnaldo Vasconcellos
Mas o que são falácias mesmo?
É comum, para todos nós que utilizamos a internet, entrarmos em debates e discussões sobre os mais diversos assuntos. E é justamente quando entramos em algumas discussões é que podemos verificar o quão necessário é evitar as falácias. Sabemos que algumas discussões são sérias e outras descontraídas, com os mais diversos assuntos em voga (isso sem contar com as que são mal direcionadas); mas em todas elas faz-se necessário manter-nos atentos à coerência da argumentação (manter-nossa e dos manter-nossos interlocutores).E é provável que, vez ou outra encontremos problemas durante algumas discussões, como argumentos falaciosos, desde os mais simples até aqueles que beiram o ataque explícito.
Em uma discussão, que pretende ser coerente, é necessário evitar o que chamamos de falácias; evitar que venhamos sofrer com seu uso por parte de outrem ou que, ingenuamente, possamos usar contra o nosso interlocutor.
Mas o que é realmente uma falácia?
Vamos começar com o conceito de falácia, mas já adianto que este conceito necessitará depois de uma abordagem do conceito do que é lógica.
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A palavra falácia vem do latim fallace que quer dizer “enganoso”. Em termos claros e estritos, falácia é um argumento que não se sustenta logicamente, o que se distingue da mentira propriamente dita, como o trecho abaixo retirado do s i t e
(http://www2.uol.com.br/aprendiz/n_colunas/f_litto/index.htm): “Enquanto a mentira é uma informação falsa, uma falácia é um argumento falso, ou uma falha num argumento, ou ainda, um argumento mal direcionado ou conduzido. A origem da palavra “falaz” remete à idéia do deceptivo, do fraudulento, do ardiloso, do enganador, do quimérico. Para entender bem isso, é preciso lembrar que quando pessoas esclarecidas tentam convencer outras também esclarecidas a acreditar em suas afirmações, precisam usar argumentos, isto é, exemplos, evidências ou casos ilustrativos que confirmem a veracidade do enunciado. Como se vê, estamos falando de discursos, de enunciados, de declarações feitas com o fim de persuadir, levando alguém ou um grupo a acreditar numa coisa ou outra.“ ( F O N T E : L I T T O , F r i d r i c . I n :
http://www2.uol.com.br/aprendiz/n_colunas/f_litto/index.htm.)
Ou ainda mais resumidamente:
inconsistente ou inválido.“
( F O N T E : M a t t h e w , I n :
http://ateus.net/artigos/ceticismo/logica-e-falacias/.)
Apesar da falácia ser um tipo de argumento que não se baseia logicamente ela pode haver outra sustentação, como psicológica ou a emotiva.
E o que vem a ser um argumento inválido ou inconsistente logicamente? Ora, um argumento é composto, na lógica, por premissas e conclusões (relacionadas às premissas). E quando estão estruturados no formato:
Todo A é B Todo B é C __________
Logo, todo A é C
… a isso damos o nome de silogismo. Entretanto quase nunca conversamos assim (de sorte que seria um pouco monótono se conversássemos desta forma). Mas, quando escrevemos cotidianamente, podemos “traduzir” ou transformar o que foi dito em uma forma lógica aproximada (mesmo que não seja um silogismo propriamente dito). Como poderia ser o seguinte exemplo:
Ora Tobias, presumo que A é B. E sendo B igual a C, digo que é análogo assumir que A é C.
Tudo bem, o exemplo ainda não é tão cotidiano, mas eu poderia ainda dizer:
Fulano o teclado é uma unidade de entrada e, até onde eu sei, unidades de entrada são partes de um computador. Portanto sei
que, se for desta forma, o teclado é uma parte de computador! Ora, deste argumento podemos extraír justamente o silogismo supracitado. A lógica que estamos a verificar trabalha com a “FORMA” e não com o conteúdo do argumento, de tal feito que quando um argumento é estruturando podemos dizer se ele é válido ou inválido.
Ser válido é dizer que SE as premissas forem verdadeiras, elas SUSTENTAM a conclusão pela LÓGICA. Se digo que é inválido, s i g n i f i c a q u e n o a r g u m e n t o a s p r e m i s s a s n ã o d ã o sustentabilidade à conclusão. Vamos por partes:
Se “o teclado é uma unidade de entrada” for VERDADEIRO, “unidades de entrada serem partes de computador” também for VERDADEIRO, então a forma do argumento apresentado nos irá dar VALIDADE LÓGICA para que eu afirme “teclados são partes de computador”.
Isso significa que sendo as premissas verdadeiras, a conclusão será verdadeira. É a validade lógica do argumento que garante isto.
Assim, uma falácia é um argumento que não sustenta sua conclusão logicamente.
Entrementes, sabemos que nem todas as nossas conversas se baseiam na lógica e que se formos estudar estritamente sobre a lógica, saberemos que existem diversos tipos. Portanto o uso da lógica para evitar falácia não é um instrumento cabal da verdade, mas é MUITO IMPORTANTE. Sim, é possível estruturar um argumento lógico, válido, mas que sua conclusão não seja verdadeira. Acompanhe o exemplo abaixo, que é válido, mas sua conclusão não é verdadeira:
A lua é um satélite com cerca de 1/4 do tamanho da Terra. Io deve possuir 1/4 do tamanho de Júpiter.
Deste argumento podemos extraír a forma:
O satélite da Terra (Lua) possui 1/4 de tamanho do planeta em que orbita. E satélites devem possuir 1/4 do tamanho do planeta em que orbitam.
Io é um satélite que orbita Júpiter __________
Logo, Io possui 1/4 de tamanho de Júpiter
Entretanto, opa! Este argumento apesar de válido não está correto. Pois a premissa que determina o tamanho dos satélites é FALSA.
Veja bem, e este é o ponto cerne, um argumento estruturado logicamente, válido, pode ser uma ferramenta para podermos descobrir coisas. Porque? Simples, voltando ao exemplo do computador: se sei que as premissas (a respeito do exemplo das partes dos computadores) estão corretas, a conclusão será verdadeira. No exemplo do satélite, vemos que nem todo argumento válido é verdadeiro, mas se eu conheço a veracidade das premissas, isso permite saber sobre a veracidade da conclusão.
Apesar de não existir uma única lógica, e nem ela ser sinônimo de verdade, podemos usar como instrumental da descoberta, justamente pela coerência que damos entre a conclusão e as premissas. E é isto que tentei mostrar nos exemplos acima. Ela pode nos permitir um arcabouço de descoberta científica (e talvez, julgo eu, de justificação) mais coerente.
No site já mencionado encontramos, explicado magistralmente a respeito da lógica, no seguinte trecho (com adaptações):
“Há muitos tipos de lógica, como a difusa e a construtiva; e l a s p o s s u e m d i f e r e n t e s r e g r a s , v a n t a g e n s e desvantagens.(…).“
A seguir, no mesmo artigo o autor diz:
“Vale fazer alguns comentários sobre o que a lógica não é. Primeiro: a lógica não é uma lei absoluta que governa o universo. Muitas pessoas, no passado, concluíram que se algo era logicamente impossível (dada a ciência da época), então seria literalmente impossível. Acreditava-se também que a geometria euclidiana era uma lei universal; afinal, era logicamente consistente. Mas sabemos que tais regras geométricas não são universais.
Segundo: a lógica não é um conjunto de regras que governa o comportamento humano. Pessoas podem possuir objetivos logicamente conflitantes. Por exemplo:
John quer falar com quem está no encargo. A pessoa no encargo é Steve.
Logo, John quer falar com Steve.
Infelizmente, pode ser que John também deseje, por outros motivos, evitar contato com Steve, tornando seu objetivo conflitante. Isso significa que a resposta lógica nem sempre é viável.
Este documento apenas explica como utilizar a lógica; decidir se ela é a ferramenta correta para a situação fica por conta de cada um. Há outros métodos para comunicação, discussão e debate.“
( F O N T E : M a t t h e w , I n :
http://ateus.net/artigos/ceticismo/logica-e-falacias/. Com adaptações.)
E as falácias são justamente argumentos, tipificados, em que não possuem validade lógica. Elas não se sustentam logicamente e possuem outros meios não lógicos para se sustentarem (muitas vezes psicológica). Sendo assim, falácias são modelos de argumentos que não se sustentam logicamente, mas que procuram
algum tipo de persuasão retórica.
Mas por qual motivo devo evitar falácias em meu argumento e identificá-las no argumento contrário? Pois bem, vejamos que você está conversando com fulano sobre a existência de extra-terrestres. Você é a favor e fulano não. A conversa pode ser bastante informal, mas talvez vocês tenham o desejo mútuo que esta conversa seja racional e que possam chegar a pontos sobre a verdade a respeito da existência, ou não, de seres extra-terrenos. Talvez vocês não queiram esgotar o assunto, mas queiram, ser racionalmente coerentes e explicitar o porque defendem tais posições.
Por se tratar de uma discussão que não quer levar a emoção ou o psicológico do seu interlocutor, pois você não quer persuadi-lo, apenas para convencê-lo, e sim mostrar o porque está defendendo esta posição, racionalmente, é bem provável que vocês dois vão evitar o uso de falácias.
As falácias não se sustentam logicamente (como já dito), e uma discussão que visa justamente não ser apelativa à emoção ou ao psicológico deve estar estruturada a ponto de ser coerente e não utilizar falácias, visto que estas são mais instrumentos persuasivos e retóricos do que da busca pelo que realmente é verdade. Entendam que estou a referir-me ao fato da tentativa de convencer, pelo simples fato de convencer.
Claro, uma possoa mal intencionada também pode tentar convencer por meio da lógica, mas se pudermos ser atentos às suas premissas, podemos evitar enganos.
Mas o que é persuasão?
A persuasão retórica é justamente a arte, técnica ou efeito de convencer alguém a um discurso, mesmo que este não corresponda ao que é real. Em ano de eleição, devemos ter muitos cuidados, pois sabemos que existem muitos políticos que nos querem convencer, mesmo naquilo que não é verdade; pois isso é muito conveniente para estes.
Voltemos ao exemplo de você e fulano. Vamos supor que você não tem mais base para explicar o porque é que devem existir seres extra-terrenos (resultando em sua opinião), daí você diz:
a) “como ainda não provaram que eles não existem, então eles devem existir”; ou
b) “eu sou mais forte, se você disser que eles não existem, eu te mato”; ou, ainda, vamos supor que fulano responda:
c) “como ainda não provaram que eles existem, então eles não devem existir”; ou
d’) “sabemos que Cicrano de Magalhães é um grande perito em aviação e o mesmo diz que não existem ETs, então não deve existir ET!”.
Repare que tanto os exemplos ‘a’ e ‘b’ que você teria falado, o u o s ‘ c ’ e ‘ d ’ q u e f u l a n o a f i r m o u , n ã o s e b a s e i a m coerentemente numa lógica. No caso de ‘a’, quanto no ‘c’, são apelos para a ignorância do interlocutor. Eles “apelam” para persuadir. São falácias.
Notem que muitas falácias possuem nome com “apelo à x” ou no latim “ad x”, pois realmente é um apelo para outras formas de se fazer acreditar, que não sejam o discurso lógico.
Então, se tem a pretenção ser coerentemente lógico é necessário evitar falácias. É neste ponto que reside a necessidade de se saber evitar as falácias, tanto suas, quanto de outras pessoas.
No exemplo ‘b’ há um apelo à força. Você quer convencer alguém, senão irá bater ou fazer coisa pior. Isto nunca será um instrumento da verdade, apenas da persuasão opressiva.
No caso de ‘d’ dito pelo fulano, temos um apelo à autoridade. Também não é garantia que fulano esteja certo, só porque alguma autoridade em algum campo disse algo, este último também poderia se enganar.
Podemos, então, nos perguntar se: a falácia é cometida apenas ingenuamente? não, ela pode ser tanto acidental, quanto proposital. Quando elas são usadas sistematicamente de forma proposital chamamos um argumento de sofismático, ou seja com sofismas – remetendo a tradição dos sofistas, que segundo a visão de Platão, eram pessoas que pregavam a relativização dos conceitos e que não estavam interessados na verdade subsistente (revisando a história, vemos que Platão teria exagerado em sua condenação aos sofistas, mas de certa forma eles pregavam a relativização e isso era contrária ao que o platonismo busca, a grosso modo, uma verdade única que seja estudável. Podemos discutir em outro artigo a contribuição dos sofistas, que, fora do crivo platônico, podemos verificar). Em suma, devido aos ensinamentos de “como argumentar” dados pelos sofistas, o termo sofismático ganhou esta conotação que apresentei acima.
Veremos a seguir, portanto, os tipos de falácias mais comuns (vale lembrar que um argumento falacioso por vezes pode parecer participar de mais de uma falácia descrita; vale lembrar também que não é consenso a quantidade de tipos de falácias. Além disso o nome pode variar entre autores da área):
“(Alguns dos nomes usados estão em latim, com a tradução ao lado.)
Argumentum ad antiquitatem (Argumento de antiguidade ou tradição):
Afirmar que algo é verdadeiro ou bom porque é antigo ou “sempre foi assim”.
Ex: “Se o meu avô diz que Garrincha foi melhor que Pelé, deve ser verdade.”
Em vez de o argumentador provar a falsidade do enunciado, ele ataca a pessoa que fez o enunciado.[1] [2]
Ex: “Se foi um burguês quem disse isso, certamente é engodo”. Argumentum ad ignorantiam (Argumento da Ignorância): Ocorre quando algo é considerado verdadeiro simplesmente porque não foi provado que é falso (ou provar que algo é falso por não haver provas de que seja verdade). Note que é diferente do princípio científico de se considerar falso até que seja provado que é verdadeiro.
Ex: “Existe vida em outro planeta, pois nunca provaram o contrário”
Non sequitur (Não segue):
Tipo de falácia na qual a conclusão não se sustenta nas
premissas. Há uma violação da coerência textual.
Ex: “Que nome complicado tem este futebolista. Deve jogar muita bola!”
Argumentum ad Baculum (Apelo à Força):
Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor a conclusão.
Ex: “Acredite no que eu digo; não se esqueça de quem é que paga o seu salário”
Argumentum ad populum (Apelo ao Povo):
É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas.
Ex: “A maioria das pessoas acredita em alienígenas, portanto eles existem.”
possui um tecido de melhor qualidade.”
Argumentum ad Verecundiam (Apelo à autoridade) ou Magister Dixit (Meu mestre disse):
Argumentação baseada no apelo a alguma autoridade reconhecida para comprovar a premissa.
Ex: “Se Aristóteles disse isto, então é verdade.” Dicto Simpliciter‘ (Regra geral):
Ocorre quando uma regra geral é aplicada a um caso particular onde a regra não deveria ser aplicada.
Ex: “Se você matou alguém, deve ir para a cadeia.” (não se aplica a certos casos de profissionais de segurança)
Generalização Apressada (Falsa indução):
É o oposto do Dicto Simpliciter. Ocorre quando uma regra específica é atribuída ao caso genérico.
Ex: “Minha namorada me traiu. Logo, as mulheres tendem à traição.”
Falácia de Composição (Tomar o todo pela parte):
É o fato de concluir que uma propriedade das partes deve ser aplicada ao todo.
Ex: “Todas as peças deste caminhão são leves; logo, o caminhão é leve.”
Falácia da Divisão (Tomar a parte pelo todo):
Oposto da falácia de composição. Supõe que uma propriedade do todo é aplicada a cada parte.
Ex: 1) “Você deve ser rico, pois estuda em um colégio de ricos.”
2) “A ONU afirmou que o Brasil é um país com muita violência e injustiça; logo, a ONU chamou-nos a todos nós brasileiros de violentos e injustos”.
Falácia do homem de palha:
Consiste em criar idéias reprováveis ou fracas, atribuindo-as à posição oposta.
Ex: “Deveríamos abolir todas as armas do mundo. Só assim haveria paz verdadeira.” Ou ainda, “Meu adversário, por ser de um partido de esquerda, é a favor do comunismo radical, e quer retirar todas as suas posses, além de ocupar as suas casas com pessoas que você não conhece.”
Cum hoc ergo propter hoc (Falsa causa):
Afirma que apenas porque dois eventos ocorreram juntos eles estão relacionados.
Ex: “O Guarani vai ganhar o jogo de hoje porque hoje é quinta-feira e até agora ele ganhou em todas as quintas-feiras em que jogou.”
Post hoc ergo propter hoc :
Consiste em dizer que, pelo simples fato de um evento ter ocorrido logo após o outro, eles têm uma relação de causa e efeito. Também conhecida como “Correlação não implica causa”. (Correlation does not imply causation).
Ex: “O Japão rendeu-se logo após a utilização das bombas atômicas por parte dos EUA. Portanto, a paz foi alcançada devido à utilização das armas nucleares.”
Petitio Principii (Petição de Princípio):
Ocorre quando as premissas são tão questionáveis quanto a conclusão alcançada.
foi justo condená-lo à morte.” Circulus in Demonstrando :
Ocorre quando alguém assume como premissa a conclusão a que se quer chegar.
Ex: “Sabemos que Joãozinho diz a verdade pois muitas pessoas dizem isso. E sabemos que Joãozinho diz a verdade pois nós o conhecemos.”
Falácia da Pressuposição :
Consiste na inclusão de uma pressuposição que não foi previamente esclarecida como verdadeira, ou seja, na falta de uma premissa.
Ex: “Você já parou de bater na sua esposa?”
Ignoratio Elenchi (Conclusão sofismática):
Ou “Falácia da Conclusão Irrelevante”. Consiste em utilizar argumentos que podem ser válidos para chegar a uma conclusão que não tem relação alguma com os argumentos utilizados.
Ex: “Os astronautas do Projeto Apollo eram bem preparados, todos eram excelentes aviadores e tinham boa formação acadêmica e intelectual, além de apresentar boas condições físicas. Logo, foi um processo natural os EUA ganharem a corrida espacial contra a União Soviética pois o povo americano é superior ao povo russo.”
Anfibologia ou Ambigüidade:
Ocorre quando as premissas usadas no argumento são ambíguas devido à má elaboração sintática.
Ex: “Venceu o Brasil a Argentina.”
“Ele levou o pai ao médico em seu carro.” Acentuação :
É uma forma de falácia devido à mudança de significado pela
entonação. O significado é mudado dependendo da ênfase das palavras.
Ex: compare: “Não devemos falar MAL dos nossos amigos.” com: “Não devemos falar mal dos nossos AMIGOS“.
Acidente:
Quando considera-se essencial o que é apenas acidental.
Ex: “A maior parte dos políticos são corruptos. Então a política é corrupta.”
Falácias tipo “A” baseado em “B” (Outro tipo de Conclusão Sofismática) :
Ocorrem dois fatos. São colocados como similares por serem derivados ou similares a um terceiro fato.
Ex:
“O Islamismo é baseado na fé.” 1.
“O Cristianismo é baseado na fé.” 2.
“Logo o islamismo é similar ao cristianismo.” 3.
Falácia da afirmação do consequente :
Esta falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional que não está nem do Modus ponens (afirmação do antecedente) nem no Modus Tollens (negação do conseqüente). A sua forma categórica é:
Se A então B. B
Então A.
Ex: “Se há carros então há poluição. Há poluição. Logo, há carros.”
Esta falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional que não está nem do Modus ponens (afirmação do antecedente) nem no Modus Tollens (negação do consequente). A sua forma categórica é:
Se A então B. Não A
Então não B.
Ex: “Se há carros então há poluição. Não há carros. Logo, não há poluição.”
Falsa dicotomia (bifurcação):
Também conhecida como “falácia do branco e preto”. Ocorre quando alguém apresenta uma situação com apenas duas alternativas, quando de fato outras alternativas existem ou podem existir.
Ex: “Se você não está a favor de mim então está contra mim.” Argumentum ad Crumenam :
Esta falácia é a de acreditar que dinheiro é fator de estar correto. Aqueles mais ricos são os que provavelmente estão certos.
Ex: “O Barão é um homem vivido e conhece como as coisas funcionam. Se ele diz que é bom, há de ser.”
Argumentum ad Lazarum :
Oposto ao “ad Crumenam”. Esta é a falácia de assumir que apenas porque alguém é mais pobre, então é mais virtuoso e verdadeiro.
Ex: “Joãozinho é pobre e deve ter sofrido muito na vida. Se ele diz que isso é uma cilada, eu acredito.”
Argumentum ad Nauseam :
que quanto mais se diz algo, mais correto está.
Ex: “Se Joãozinho diz tanto que sua ex-namorada é uma mentirosa, então ela é.”
Plurium Interrogationum :
Ocorre quando se exige uma resposta simples a uma questão complexa.
Ex: “O que faremos com esse criminoso? Matar ou prender?” Red Herring :
Falácia cometida quando material irrelevante é introduzido no assunto discutido para desviar a atenção e chegar a uma conclusão diferente.
Ex: “Será que o palhaço é o assassino? No ano passado um palhaço matou uma criança.”
Retificação :
Ocorre quando um conceito abstrato é tratado como coisa concreta.
Ex: “A tristeza de Joãozinho é a culpada por tudo.” Tu quoque (Você Também):
Falácia do “mas você também”. Ocorre quando uma ação se torna aceitável pois outra pessoa também a cometeu.[3]
Ex:
“Você está sendo abusivo.” 1.
“E daí? Você também está.” 2.
Inversão do Ônus da Prova :
Quando o argumentador transfere ao seu opositor a responsabilidade de comprovar o argumento contrário,
eximindo-se de provar a base do seu argumento.
Ex: “A Fada-do-Dente existe, pois ninguém nunca conseguiu provar que ela não existe.” “
(FONTE: FALÁCIA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2010. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Fal%C3%A1cia&oldid =21382642>. Acesso em: 20 ago. 2010. Com adaptações.)
Também temos os seguinte sites com exemplo de falácias:
Argumentos falaciosos : um compêndio para evitar compra de gatos por lebre.
Guia das falácias de Stephen Downes E, onde posso encontrar falácias?
Falácias podem ser encontradas em discussões, em conversas no dia-a-dia, nos discursos políticos e em comerciais de TV.
Como não se sustentam pela via lógica e apelam desde para o emotivo ao psicológico, são usados comumentes como instrumentos persuasivos. É comum encontrarmos na TV. Algumas propagandas usam abertamente falácias, para que o consumidor sinta-se garantido em adquirir e usar algum produto. Podemos encontrar como “x entre y profissionais apontam kzy como o melhor, use você também”. Mas na publicidade este não é o único tipo que podemos encontrar. Existem em diversos tipos de anúncios, das mais variadas formas.
E, sinceramente, é bom sabermos identificar isto em vários âmbitos. Lógico que se um marketeiro usar uma falácia em determinado produto e você identificar, não podemos julgar o produto pela infeliz escolha do publicitário. Mas podemos ser críticos e saber quando há jogo de persuasão envolvido no assunto.
Platão
Para ler mais sobre os assuntos, visite os links abaixo:
Argumentos falaciosos: um pequeno compêndio para evitar 1.
a compra de gatos por lebres Wikipedia – Falácias
2.
Lógica & Falácias 3.
O que distingue uma falácia de um paradoxo? 4.
Guia de falácias lógicas de Stephen Downes: 5.
No site da STR
No criticanarede.com
Também mantenho um curso à distância sobre lógica aristotélica – o tema sobre falácias é abordado no curso. Para matricular-se no curso acesmatricular-se http://cursos.networkcore.eti.br/.
Espero ter ajudado a entender melhor o que são as falácias. Arnaldo Vasconcellos
Sobre
a
eticidade
do
transgênico
Com freqüência (a trema caiu), ao ir fazer compras no mensais no mercado, tenho notado que o oléo de soja vendido normalmente vem sido subnstituído por aqueles fabricados a partir de grãos de soja transgênica – que pode ser identificado pelo ícone de transgênico.
Í c o n e d e a l i m e n t o produzido com vegetal transgênico
Sempre que for comprar um produto e quiser saber se ele é produzido com transgênicos, basta verificar se tem o ícone (mostrado ao lado). A empresa é obrigada a divulgar no rótulo caso no produto tenha mais de 1% de alimento transgênico em sua composição.
Mas o que é um transgênico? Na wikipédia encontramos a seguinte definição:
Transgênicos (português brasileiro) ou transgénicos (português europeu) são
organismos que, mediante técnicas de engenharia genética, contêm materiais genéticos de outros organismos. A geração de
transgênicos visa organismos com características novas ou melhoradas relativamente ao organismo original. Resultados na área de transgenia já são alcançados desde a década de 1970, na qual foi desenvolvida a técnica do DNA recombinante.
A manipulação genética recombina características de um ou mais organismos de uma forma que provavelmente não aconteceria na natureza. Por exemplo, podem ser combinados os DNAs de organismos que não se cruzariam por métodos naturais. (TRANSGÊNICOS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: W i k i m e d i a F o u n d a t i o n , 2 0 1 0 . D i s p o n í v e l e m : <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Transg%C3%AAnicos& oldid=20480084>. Acesso em: 4 jun. 2010.)
Mas o que a técnica, aplicada pode proporcionar de perigo? Ora, a aplicação desta técnica dentro do setor alimentício é um dos pontos mais visados, que podem proporcionar perigo ambiental (mas não é o único).
Imaginem que uma empresa, a fim comercial de aumentar a produtividade, ou ainda com a intenção de manter safras mais resistentes a agrotóxicos (ou ainda mais resistentes a insetos) utilize da tecnologia de transgenia para produzir alimentos. No link que apontamos anteriormente explica as três principais polêmicas, no qual vou reproduzir sintéticamente a seguir.
Um dos problemas mais discutidos é a polinização cruzada, no qual a espécie transgênica pode reproduzir com espécies não-transgênicas. Assim é possível que o gene inserido artificialmente, via transgenia, possa prevalecer sobre o genoma não transgênico. Isto é problemático, pois uma espécie não transgênica poderia absorver o gene inserido, o que poderia levar a uma diminuição da espécie não-transgênica. Por este motivo, existem estudos que visam estabelecer valores mínimos de distância entre plantações transgênicas e as não-transgênicas.
Outra polêmica gira em torno da possibilidade de culturas transgênicas gerarem efeitos tóxicos na saúde humana. E outra afirma sobre a possibilidade de alergias causadas por alimentos transgênicos. Apesar das polêmicas, estudos ainda estão ocorrendo (e seus efeitos reais ainda não foram concluídos), entretanto a possibilidade de que estes alimentos sejam maléficos assusta, e deve ser encarada com muita seriedade.
Embora alguns defensores da aplicação desta técnica à alimentação, digam que ela pode ajudar a aumentar a produção de alimentos e diminuir a fome no mundo; outros rebatem a afirmação, dizendo que na verdade a má distribuição de alimentos é que gera o problema da fome e não necessariamente a sua produção – assim, para estes, não valeria correr o risco de usar tal técnica, visto o desconhecimento de seus efeitos em nossa saúde.
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Outro problema relacionado aos transgênicos é absorção dos genes dos alimentos que comemos por bactérias de nossa flora intestinal. Poderíamos imaginar diversos problemas ligados a este possível efeito – bactérias com genes nunca imaginados estarem naquele determinado genoma; em outras palavras, um possível estrago.
Ainda nesta mesma linha de problemas, poderia-se destacar o que lí outro dia no blog Biologia do Envolvimento. Lá o autor cita o fenômeno em que uma planta parasita pode absorver genes da planta hospedeira. E a questão é, se a planta parasita roubar o gene inserido no hospedeiro. Nas palavras do autor:
Agora imaginem se uma planta parasita dessa rouba justamente o gene de resistência a herbicidas. Vai virar um super parasita que não morre com herbicida. É primordial agora saber o quanto essas transferências são frequentes. (Bouth, Eduardo. In: Biologia do Envolvimento – Se plantar
t r a n s g ê n i c o s o g e n e f i c a a l i ? ; d i s p o n í v e l e m
http://biologiadoenvolvimento.blogspot.com/2010/05/se-plantar -transgenicos-o-gene-fica-ali.html)
Com base nos preceitos acima apresentados, podemos ver que o tema dos transgênicos é extremamente importante e complexa, além de não acabada – e cheias de polêmicas, seja de prós ou contras à tecnologia mencionada.
Justamente de olho na polêmica, resolvi verificar a posição da ONG Greenpeace, sobre os transgênicos. Não precisei nem entrar em contato com os mesmos, no próprio site já tem bem explicado.
A introdução de transgênicos na natureza expõe nossa biodiversidade a sérios riscos, como a perda ou alteração do patrimônio genético de nossas plantas e sementes e o aumento dramático no uso de agrotóxicos. Além disso, ela torna a agricultura e os agricultores reféns de poucas empresas que detêm a tecnologia, e põe em risco a saúde de agricultores e consumidores. O Greenpeace defende um modelo de agricultura baseado na biodiversidade agrícola e que não se utilize de produtos tóxicos, por entender que só assim teremos a g r i c u l t u r a p a r a s e m p r e . (http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/Transgenic os/, acessado em 2 de junho).
E a seguir, na mesma página podemos ler:
Os transgênicos, ou organismos geneticamente modificados, são produtos de cruzamentos que jamais aconteceriam na natureza, como, por exemplo, arroz com bactéria.Por meio de um ramo de pesquisa relativamente novo (a engenharia genética), fabricantes de agroquímicos criam sementes resistentes a seus próprios agrotóxicos, ou mesmo sementes que produzem plantas inseticidas. As empresas ganham com isso, mas nós pagamos um preço alto: riscos à nossa saúde e ao ambiente onde vivemos.
O modelo agrícola baseado na utilização de sementes transgênicas é a trilha de um caminho insustentável. O aumento dramático no uso de agroquímicos decorrentes do plantio de transgênicos é exemplo de prática que coloca em cheque o futuro dos nossos solos e de nossa biodiversidade agrícola.
Diante da crise climática em que vivemos, a preservação da biodiversidade funciona como um seguro, uma garantia de que teremos opções viáveis de produção de alimentos no futuro e estaremos prontos para os efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura,
Nesse cenário, os transgênicos representam um duplo risco. Primeiro por serem resistentes a agrotóxicos, ou possuírem propriedades inseticidas, o uso contínuo de sementes transgênicas leva à resistência de ervas daninhas e insetos, o que por sua vez leva o agricultor a aumentar a dose de agrotóxicos ano a ano. Não por acaso o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos em 2008 – depois de cerca de dez anos de plantio de transgênicos – sendo mais da metade deles destinados à soja, primeira lavoura transgênica a ser inserida no País.
Além disso, o uso de transgênicos representa um alto risco de perda de biodiversidade, tanto pelo aumento no uso de agroquímicos (que tem efeitos sobre a vida no solo e ao redor das lavouras), quanto pela contaminação de sementes naturais por transgênicas (…) [Grifos meus].
E finalmente remata:
Soluções
– Proibição de aprovações de novas culturas transgênicas, em especial aquelas que são a base da alimentação de nossa
população.
– Rotulagem dos produtos transgênicos, para atender plenamente a um direito do consumidor de saber o que está comprando.
– Fiscalização e cuidado na cadeia para que não haja contaminação.
Aqui fica portanto a visão da ONG Greenpeace, para apreciação, como um dos lados da moeda, nesta polêmica.
A fim de garantir um debate entre os dois lados desta moeda, resolvi verificar no site de alguma empresa que produz alimento transgênico a sua argumentação e posição em relação a produção de alimentos baseados em técnicas de transgenia. Visitei o site da Soya, óleo de soja, produzida pela Bunge a partir de gãos de soja transgênica (ver link). Não encontrei nenhuma informação. Por este motivo enviei uma mensagem (no dia 2 de junho), através do formulário presente no próprio site (ver neste link) a seguinte mensagem:
Srs,
estou escrevendo um artigo sobre alimentos transgênicos, como o óleo de soja. Gostaria de extraír qual seria a posição da bunge a respeito da produção de alimentos com base em vegetais transgênicos (visto que a bunge possui óleo de soja com soja transgênica).
O a r t i g o s e r á p u b l i c a d o n o b l o g
http://arnaldo.networkcore.eti.br
Aguardo respostas, Arnaldo.
Infelizmente ainda não obtive nenhuma resposta [1]. Tentarei outro contato e atualizarei este artigo assim que obtiver,
pois o meu objetivo é expor as duas partes para que possamos entender a argumentação de ambos.
Desta feita, com as devidas apresentações acima sobre o tema, pergunto-me a aplicação da técnica de transgenia é ética?
Como adoto a posição (já exposta em outros artigos) de não crer que o conhecimento da técnica em si seja ético ou anti-ético, ou ainda sem a polarização de boa ou ruim, pretendo analisar se a aplicação desta técnica em alimentação é ou não ética; visto que outras aplicações ainda não vislumbradas, ou que ainda serão inventadas deverão ter discussões éticas isoladas e únicas. Por exemplo: se alguém inventar (e aplicar) uma arma biológica atravez desta técnica, já será uma aplicação anti-ética por excelência, a meu ver.
Agora a produção de alimentos, com a mesma, é ou não ética? Visto os problemas possíveis de biossegurança, já apresentados neste artigo, além de outros problemas de cunho social (como a possibilidade da imposição do consumo de produtos transgênicos a uma classe mais pobre, devido ao seu custo mais baixo que outro produto não transgênico; como ocorre já com os óleos de soja) somos tentados a pensar a coisa como uma aplicação não muito ética.
Por outro lado, quando exposto o argumento de produção de alimentos que cheguem a pessoas mais carentes – apesar de, como já citado, ser um argumento refutável -, nos tenciona a pensar numa possibilidade de produzir alimento transgênico de forma ética. E qual seria esta possibilidade? Devemos nos questionar seriamente quanto a isto.
Ora, analisando todos estes aspectos, penso que produzir alimentos sem ainda estudos conclusivos a respeito das polêmicas desta técnica não é lá muito ético; pois envolve diversas possibilidades de perigos biológicos. Entretanto a produção de alimentos, tão logo as polêmicas sejam resolvidas, seria éticamente plausível. Mas neste ponto reside a questão:
até quando teremos estes problemas resolvidos? Por se tratarem de pesquisas científicas podem durar anos para que tenhamos uma base sólida de conhecimento para as polêmicas estejam científicamente resolvidas (e esta demora não é ruim).
Lógico que existem muitas empresas que têm times de especialistas trabalhando em seus produtos, não só produzindo, mas também pesquisando o seu nível de segurança. Isto é na verdade o básico que pode ser feito, mas não encerra, neste ponto, uma solução. A produção deve estar não somente na pesquisa de times de cientistas particulares a buscar um nível seguro e nem somente na aceitação dos níveis de segurança de plantio normatizados pelo país do cultivo; mas sim no diálogo entre toda a comunidade científica (e além dela) sobre as soluções (sejam paliativas ou não) das normatizações e a solução definitiva de cada ponto polemizado, para que venhamos conhecer melhor se a técnica pode oferecer risco ou não a nós e ao meio ambiente.
Antes disto parece-me que uma produção desenfreada de alimentos com esta técnica não cumpre com um papel social e sim comercial. Mas devemos estar aberto para o diálogo, para que possamos averiguar, em todos estes anos que virão, os riscos reais e qual o nível de segurança da produção de alimentos com este tipo de técnica.
Enfim, não termino aqui, neste artigo, sobre toda a eticidade da produção de alimentos transgênicos. Entrementes, creio que é necessário mais estudos acerca de seus níveis de biossegurança, além de buscar outros meios de produção que não ofereçam tantos possíveis riscos ao pesarmos na balança.
Arnaldo Vasconcellos Notas
[1] – A Bunge respondeu meu email, nesta segunda, embora a resposta não tenha sido satisfatória, pois não respondeu a questão central. De qualquer forma esperarei a resposta da
área responsável, conforme email abaixo (caso necessário for, entrarei em contato novamente).
Ainda não coloquei no corpo do texto a atualização conforme o prometido, por falta de tempo; por este motivo lanço esta nota.
Abaixo está a resposta enviada pela bunge. Prezado Arnaldo,
Recebemos seu e-mail e informamos que sua mensagem já foi encaminhada à área responsável.
Agradecemos seu contato com a Bunge Alimentos e informamos que os óleos da empresa não podem ser considerados transgênicos pois contem menos de 1% de soja transgênica e nem sempre e utilizado esta espécie de soja transgênica permanecemos à disposição para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos.
Nos contate sempre que desejar. Um abraço. UPDATE 22.08.11 Um exemplo de óleo não transgênico comercializ ado
Recentemente comprei um óleo de soja que não é transgênico e que exibe isto em seu rótulo. Se trata do óleo de soja “Leve”.
Uma breve pesquisa da internet mostrou-me que a empresa por trás do óleo (Imcopa) tem aumentado a produção de óleo não-transgênico. A empresa é sediada no Paraná e tem como alvo o nicho de mercado que não quer consumir alimentos transgênicos.
M a i s i n f o r m a ç õ e s e m
http://www.agrosoft.org.br/agropag/102180.htm.
Arnaldo Vasconcellos
Vida “artificial” e suas
possibilidades éticas
Neste dia último dia 21, nos noticiários do mundo correu o anúncio do desenvolvimento de uma célula sintética. Logo um alvorosso sobre o impacto do desenvolvimento desta experiência surgiu: alguns noticiaram como o surgimento de vida artificial, outros já rebateram que não é necessariamente a criação de vida artificial e sim criação de uma molécula sintética (no caso o DNA) com efeitos fenotípicos na célula hospedeira (ver este link e este).
Tão logo a experiência foi divulgada as primeiras repercussões das possibilidades éticas começaram a surgir. O Vaticano se pronunciou e apresentou preocupação com estas mesmas possibilidades (ver link). Entretanto as possibilidades éticas vislumbradas pelo clero está mais relacionada com o impacto religioso que isso pode causar, e a interpretação logo perpassa o tom comum do “brincar de Deus”, pois além do viés ético há o viés teológico envolvido na interpretação do mesmo.
Como já comentamos em outros artigos neste blog (ver link), o desenvolvimento científico não é necessariamente algo bom ou ruim, por si mesmos, mas a sua aplicação é que pode ser determinada dentro de um esquema polarizado, entre bem e mal, por exemplo.
O desenvolvimento de uma célula ‘sintética’, salva todas as discussões tecnicas relativas à biologia, envolvidas neste experimento (se é vida artificial ou não, se é uso de vida com moléculas sintetizadas), não é por si mesma boa ou má. A sua a p l i c a ç ã o – s e s e r ã o p r o d u z i d a s a r m a s b i o l ó g i c a s poderosíssimas, ou se bactérias que possibilitarão o desenvolvimento de remédios – é sim aplicação que podem ter análises, de uma forma ou de outra, polarizadas.
Analisar as possibilidades éticas de experiências como estas não é algo sem importância. Todo ato humano, inclusive as pesquisas científicas, são sujeitas a liberarem novas possibilidades, sejam construtivas ou destrutivas. Confortantes ou alarmantes. E de toda forma são fascinantes. A filosofia ética é então uma ferramenta muito útil, p r i n c i p a l m e n t e n u m m u n d o e m q u e m u i t o s e f a l a d a s possibilidades e ao mesmo tempo a reflexão sobre as mesmas começa-se a caducar, a viciar-se em certas opiniões idiossincráticas ou cosmovisões pop.
Para que um feito de tamanha importância seja usada como artefato de discursos religiosos, ou ainda de discursos tecnocráticos é um passo. Passo menor ainda é que a irracionalidade nos faça a pender a pensamentos viciosos de teorias conspiratórias ou congêneres. Interpretações fora do escopo da pesquisa original, bem como interpretações tendenciosas são quase que esperadas (como possíveis interpretações ampliadas e forçadas a favor de um design inteligente ou ainda uma interpretação como se fosse prova cabal de inexistência divina [1]); no entanto é necessário refletir sobre as possibilidades éticas deste e de outros
ramos da ciência, respeitando o escopo do estudo das mesmas. Não que questões como estas últimas (fora do escopo da experiência) devam ser evitadas (elas são possíveis e abrem um novo leque no pensar de algumas de nossas inquietudes, no entanto não são a única instância reflexiva), mas que estes tipos devam ser claramente identificado como possíbilidades de
interpretação e não como necessariamente significados
prepoderantes dos procedimentos técnicos – mas este é outro ponto, que não irei abordar neste artigo [2].
O que quero realmente abordar aqui é em relação aos efeitos de aplicações que girem em torno destas técnicas. Refletir sobre tais efeitos de forma consciente e respeitando todas as possibilidades éticas envolvidas, sem a necessidade de cairmos em deturpações do real efeito da técnica envolvida (ver este link).
Lógico que não precisa ser filósofo para discutir as possibilidades éticas de tais experimentos; mas parece-me tão claro quanto é precioso, e tão fundamental, é o ramo da ética (e o sub-ramo da bioética). Verificar e pensar sobre as condutas e suas relevâncias para com o outro é muito importante, mesmo que para a criação de normas que norteiam as próprias experiências, ou mesmo para refletirmos sobre o futuro e o presente de um mundo que nos cerca, com as prováveis aplicações que surgirão (e até mesmo das possíveis interpretações) a partir desta e de outras técnicas já existentes (seja a clonagem, os transgênicos etc).
Arnaldo Vasconcellos
Notas
[1] – Não falei isto a esmo. A indagação foi trazida da seguinte forma no G1, já citado, e que representa formas de algumas pessoas a reagirem com a notícia:
O Vaticano demonstrou preocupação de que os cientistas desejem “brincar de Deus”. O dilema é: as bactérias
sintéticas são prova definitiva de que a vida não precisa de uma força especial ou, pelo contrário, darão fôlego aos simpatizantes do Design Inteligente? Afinal de contas, o trabalho em questão pode ser também chamado de “ciência da criação 1.0”.
Representa aqui formas de pensar de algumas pessoas, frente ao estardalhaço jornalístico.
[2] – O que eu quis dizer basicamente neste trecho é que existem muitas discussões fora do escopo da pesquisa que ambicionam ser interpretações cabais sobre o desdobramento que estas experiências podem oferecer (interpretações religiosas, filosóficas ou ainda mesmo ideológicas). O que deve ficar claro é que são desdobramentos a partir de pontos específicos. Eu citei isto porque não é incomum o uso indevido de casos c o m o e s t e s e m c e r t o s a r g u m e n t o s q u e n e c e s s i t a m d e interpretações da experiência (ou técnica) fora do escopo científico da mesma para tentar comprovar o próprio argumento (que por vezes pode até ser pseudocientífico). Mas este não é o foco deste artigo.
Já a reflexão ética, embora seja um desdobramento a respeito das mesmas experiências, é algo relacionado com as possibilidades de suas aplicações em relação às nossas condutas.
Vida "artificial" e suas
possibilidades éticas
Neste dia último dia 21, nos noticiários do mundo correu o anúncio do desenvolvimento de uma célula sintética. Logo um
alvorosso sobre o impacto do desenvolvimento desta experiência surgiu: alguns noticiaram como o surgimento de vida artificial, outros já rebateram que não é necessariamente a criação de vida artificial e sim criação de uma molécula sintética (no caso o DNA) com efeitos fenotípicos na célula hospedeira (ver este link e este).
Tão logo a experiência foi divulgada as primeiras repercussões das possibilidades éticas começaram a surgir. O Vaticano se pronunciou e apresentou preocupação com estas mesmas possibilidades (ver link). Entretanto as possibilidades éticas vislumbradas pelo clero está mais relacionada com o impacto religioso que isso pode causar, e a interpretação logo perpassa o tom comum do “brincar de Deus”, pois além do viés ético há o viés teológico envolvido na interpretação do mesmo.
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Como já comentamos em outros artigos neste blog (ver link), o desenvolvimento científico não é necessariamente algo bom ou ruim, por si mesmos, mas a sua aplicação é que pode ser determinada dentro de um esquema polarizado, entre bem e mal, por exemplo.
O desenvolvimento de uma célula ‘sintética’, salva todas as discussões tecnicas relativas à biologia, envolvidas neste experimento (se é vida artificial ou não, se é uso de vida com moléculas sintetizadas), não é por si mesma boa ou má. A sua a p l i c a ç ã o – s e s e r ã o p r o d u z i d a s a r m a s b i o l ó g i c a s poderosíssimas, ou se bactérias que possibilitarão o desenvolvimento de remédios – é sim aplicação que podem ter análises, de uma forma ou de outra, polarizadas.
Analisar as possibilidades éticas de experiências como estas não é algo sem importância. Todo ato humano, inclusive as pesquisas científicas, são sujeitas a liberarem novas possibilidades, sejam construtivas ou destrutivas. Confortantes ou alarmantes. E de toda forma são fascinantes.
A filosofia ética é então uma ferramenta muito útil, p r i n c i p a l m e n t e n u m m u n d o e m q u e m u i t o s e f a l a d a s possibilidades e ao mesmo tempo a reflexão sobre as mesmas começa-se a caducar, a viciar-se em certas opiniões idiossincráticas ou cosmovisões pop.
Para que um feito de tamanha importância seja usada como artefato de discursos religiosos, ou ainda de discursos tecnocráticos é um passo. Passo menor ainda é que a irracionalidade nos faça a pender a pensamentos viciosos de teorias conspiratórias ou congêneres. Interpretações fora do escopo da pesquisa original, bem como interpretações tendenciosas são quase que esperadas (como possíveis interpretações ampliadas e forçadas a favor de um design inteligente ou ainda uma interpretação como se fosse prova cabal de inexistência divina [1]); no entanto é necessário refletir sobre as possibilidades éticas deste e de outros ramos da ciência, respeitando o escopo do estudo das mesmas. Não que questões como estas últimas (fora do escopo da experiência) devam ser evitadas (elas são possíveis e abrem um novo leque no pensar de algumas de nossas inquietudes, no entanto não são a única instância reflexiva), mas que estes tipos devam ser claramente identificado como possíbilidades de
interpretação e não como necessariamente significados
prepoderantes dos procedimentos técnicos – mas este é outro ponto, que não irei abordar neste artigo [2].
O que quero realmente abordar aqui é em relação aos efeitos de aplicações que girem em torno destas técnicas. Refletir sobre tais efeitos de forma consciente e respeitando todas as possibilidades éticas envolvidas, sem a necessidade de cairmos em deturpações do real efeito da técnica envolvida (ver este link).
Lógico que não precisa ser filósofo para discutir as possibilidades éticas de tais experimentos; mas parece-me tão claro quanto é precioso, e tão fundamental, é o ramo da ética (e o sub-ramo da bioética). Verificar e pensar sobre as
condutas e suas relevâncias para com o outro é muito importante, mesmo que para a criação de normas que norteiam as próprias experiências, ou mesmo para refletirmos sobre o futuro e o presente de um mundo que nos cerca, com as prováveis aplicações que surgirão (e até mesmo das possíveis interpretações) a partir desta e de outras técnicas já existentes (seja a clonagem, os transgênicos etc).
Arnaldo Vasconcellos
Notas
[1] – Não falei isto a esmo. A indagação foi trazida da seguinte forma no G1, já citado, e que representa formas de algumas pessoas a reagirem com a notícia:
O Vaticano demonstrou preocupação de que os cientistas desejem “brincar de Deus”. O dilema é: as bactérias sintéticas são prova definitiva de que a vida não precisa de uma força especial ou, pelo contrário, darão fôlego aos simpatizantes do Design Inteligente? Afinal de contas, o trabalho em questão pode ser também chamado de “ciência da criação 1.0”.
Representa aqui formas de pensar de algumas pessoas, frente ao estardalhaço jornalístico.
[2] – O que eu quis dizer basicamente neste trecho é que existem muitas discussões fora do escopo da pesquisa que ambicionam ser interpretações cabais sobre o desdobramento que estas experiências podem oferecer (interpretações religiosas, filosóficas ou ainda mesmo ideológicas). O que deve ficar claro é que são desdobramentos a partir de pontos específicos. Eu citei isto porque não é incomum o uso indevido de casos c o m o e s t e s e m c e r t o s a r g u m e n t o s q u e n e c e s s i t a m d e interpretações da experiência (ou técnica) fora do escopo científico da mesma para tentar comprovar o próprio argumento (que por vezes pode até ser pseudocientífico). Mas este não é
o foco deste artigo.
Já a reflexão ética, embora seja um desdobramento a respeito das mesmas experiências, é algo relacionado com as possibilidades de suas aplicações em relação às nossas condutas.
O que é então o criacionismo?
A Criação de Adão - Afresco de Michelangelo Buonarroti -Capela Sistina
Este artigo é uma resposta ao: “o que o criacionismo não é?” (1).
Durante conversas com um colega, foi feita a sugestão que eu fizesse uma leitura do referido artigo de Michelson. A leitura serviria como uma permuta de análise de artigos.
O artigo O que o criacionismo não é, escrito por Michelson Borges, estabelece que no ano de Darwin (2009) a teoria da evolução estaria sofrendo ataques, alguns bem fundamentados e outros não. Embora não exponha largamente no artigo quais seriam todas as supostas críticas bem fundamentadas ao evolucionismo – o foco do artigo não é falar sobre
evolucionismo, mas sobre o que o criacionismo não pode ser considerado. O autor diz o seguinte:
Todos sairiam ganhando se se deixassem de lado motivações ideológicas e fossem verificados – sob o melhor rigor científico – os fatos e em que aspectos eles favorecem esse ou aquele modelo. (Borges, M. In: o que o criacionismo não é?)
Concordando com suas palavras acerca da suspensão dos valores ideológicos, efetuando uma espécie de suspensão aos meus valores creditados tentarei ser o mais analítico possível quanto ao artigo e alguns comentários acerca do mesmo.
O autor do artigo, logo deixa claro qual será sua abordagem. Irá mostrar o que, supostamente, o criacionismo não é:
Por isso, é necessário desfazer alguns mal entendidos repetidos por gente que adora uma boa polêmica. Eis alguns deles: (idem)
O autor, portanto inicia suas explicações, clareando melhor acerca do que não é criacionismo, sob sua visão.
Coloco que é sob sua visão pois lendo com cuidado notei que certas explicações não são totalmente eficazes para salvar o criacionismo como teoria plenamente científica. De um âmbito geral o artigo é bem escrito, tem um espírito que não me parece enganatório, pois parece esclarecer sobre o criacionismo, mas efetivamente está envolto numa visão de mundo determinado.
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O autor lista alguns mal entendidos sobre o criacionismo (segundo o mesmo) e esclarece sobre cada um. O primeiro deles é o que diz que o “criacionismo é anticientífico”. Acompanhe