FUNCIONÁRIO PúBLICO -
APOSENTADORIA COMPULS6RIA
-
LEI GERAL E LEI ESPECIAL
-
A Lei n.
o583,
de 9 de novembro de 1937, que
a3segu-rou vencimentos integrais aos funcionários aposentados
com-pulsõriamente
porlimite de idade
nãofoi revogada pelo
Es-tatuto baixado em 1939.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL União Federal 1I.,-8US Anibal Xavier Rodrigues
Recurso extraordinário (Embargos) n.O 15.579 - Relator: Sr. Ministro
LAFAYETl'E DE ANDRADA
ACÓlUJÃO
Vistos, examinados e discutidos êstes autos de recurso extraordinário número 15.579, do Distrito Federal, em que é embargante Aníbal Xavier Rodrigues e embargada a União Federal:
Acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, por maioria de vo-tos, receber os embargos, de acôrdo com as notas taquigráficas juntas aos au-tos. Custas da lei.
Rio, 24 de julho de 1950. - Laudo
tU Camargo, Presidente. - Antônio Car-lo, Lafa1lette de Andrada, Relator.
RELATÓRIO
o
Sr. MinÍBtro Lafa'llette de Andra-de. - Adoto o relatório de fls. 126, ten-do a acrescentar que a 1.a Turma, unâ-nimemente, conheceu e deu provimento ao recurso.Eis o voto do relator: Ler fls. 129.
Ao acórdão foram oferecidos embar-gos, visando o restabelecimento da de-cisão de Tribunal Federal de Recursos.
Argumenta o embargante:
"1.0 - P. Que a egrégia 1.a Turma dêste Supremo Tribunal F'ederal, pelo v. acórdão de fls. 132, no recurso ex-traordinário 15.579, houve por bem dar provimento, ao recurso extraordi-nário manüestado a fls. 109 a 111, pela embargada, para cassar os v. arestos de fls. 71 e 107, bem como a sentença de La instância, a fim de julgar a a~ão improcedente; mas,
2.0 - P. Preliminarmente, que o v. acórdão da 1.a Turma diverge, do acór-dão da 2.a Turma, indo de encontro ao decidido na apelação civel n. 8.440 (Cert. junta), devendo, pois ser rece-bido os presentes embargos na forma do art. 1.0 da Lei 623, de 19 de feverei-ro de 1949; ademais,
3.0 - P. Que a própria La Turma
no acórdão proferido na apelação civeI 8.621, julgou em desacôrdo com o acórdão ora embargado, tendo o emi-nente Relator sr. Ministro Barros Bar-reto proferido o seguinte voto:
" Nego provimento ao recurso, para confirmar a decisão da inferior instân-cia, por seus jurídicos fundamentos, que, aliás, estão em consonância com os acórdãos dêste egrégio Supremo Tri-bunal, insertos nos Diário, da Justiça em 7-10-41, pg. 2.409; de 2-12-41, pg. 2.8~; de 28-4-942, pg. 1.188; de 30-6-42, pg. 1721; de 14-8-43, página 3.311; de 23-12-43, pg. 5.019; de 15-2-44, pg. 986; de 7-3-44, pg. 1.309 e de 26-8-44, pg. 3.799. Não havia, pois, como deixar de assegurar ao ape-lado, aposentado compulsõriamente, ven-cimentos integrais de cargo federal, que ocupava em caráter efetivo, qualquer que fôsse o tempo de serviço público, ex-vi da lei n. 583, de 9-11-937 e do De-creto-lei n.O 13, de 14 de novembro do
mesmo ano. Eis que,
4.0 - P. Que na apelação cível 9.295, o Sr. Ministro Lafayette de Andrada vo-tou: .. Entretanto, ao tempo em que pas-sou a vigorar o Estatuto, ainda era
~-- 92 gente a Lei de Introdução ao Código Civil que só admitia uma lei geral revo-gando a especial, quando expressamente o declarasse e isso não fêz o Estatuto. Portanto, a lei que regulava a aposen-tadoria era a lei especial. Tendo o sr. Ministro Hahnemann Guimarães, profe-rido voto no mesmo sentido, bem como os Srs. Ministros Goulart de Oliveira e
Orosimbo Nonato.
O sr. Ministro Edgar Costa ensinou que usando da fórmula genenca que empregou no art. 280 (do Estatuto), quis o legislador revogar as disposições incompatíveis. E as da Lei 583, de 1937, revigorado o seu art. 2.0 pelo
Decreto-Lei n.o 13 não são contrárias aos princlplOs em que se inspirou
°
mesmo Estatuto, que admitindo no art. 199, § 5.°, que leis posteriores poderiam permitir a aposentadoria de modo di-verso ao estatuído, evidentemente acei-tou exceções compatíveis ao seu espírito ou objeto; Porquanto,5.0 - P. Que no Govêrno do Presi-dente José Linhares pelo Decreto-Lei n.o 8.906, foi mais uma vez revigorado o art. ~'.O da Lei 583, o qual justifi-cando o decreto baseou-se no acórdão do S. T . F ., na apelação cível 8.621, o que prova bastante que a lei 583 não era insubsistente e mais uma vez que o Estatuto não havia revogado. Pelo que,
6.0 - P. Que o Estatuto dos funcio-nários Públicos não pode ser invocado senão como mero subsídio, pois há lei especial e expressa a obedecer. Assim como,
7.0 _ P. Que no recurso extraordiná-rio 7.882, em acórdão unânime da 1.& Turma, sendo Relator o laureado Mi-nistro Laudo Camargo foi decidido que os preceitos da lei federal n.O 583, de 1937, são aplicáveis a funcionários pú-blicos federais (Rev. For., voI. CXIII, pg. 409). E' de se frisar que o acórdão é de 31 de outubro de 1946. Conse-guintemente,
8.0 - P. Que o v. acórdão embar-gado afastou-se do decidido anterior-mente por êste Excelso Pretório que, tem entendido, consoante jurisprudên-cia iterativa que a lei n. 583, art. 2.0
,
as-segura vencimentos integrais aos fun-cionários públicos federais aposentados, por limite de idade. Nestes têrmos,
9.° - P. Que devem ser recebidos ês-tes embargos e afinal julgados prova-dos para o fim de, reformado o v. acórdão embargado, seja reconhecido ao embargante a aposentadoria com os vencimentos integrais, restaurando des-sa forma o decidido pelá Juízo da 1.a Instância e pelos arestos do Tribunal Federal de Recursos a fls. 71 e 107, como é de direito ede Justiça.
Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1950. - Olegário Pacheco da Rocha."
O dr. Procurador Geral opinou: .. Somos pela rejeição dos embargos de fls. 134/136, pelos doutos fundamen-tos do v. acórdão recorrido, que foi unânime, e de voto do eminente Rela-tor - Ministro Barros Barreto (fls. 1~'9/130) .
Distrito F'ederal, 8 de maio de 1950. - Plínio de Freita8 Travassos, Pro-curador Geral da República".
E' o relatório. Ao Sr. Ministro Re-visor.
VOTO
O Sr. Ministro Lafayette de Andrada (Relator) - Tenho entendido que o Estatuto dos Funcionários Públicos, lei geral que é, não pode revogar lei especial.
Realmente se a lei geral não se refere expressamente à anterior para revogá-la, todos os preceitos da anterior, ficam vigorantes. Claro que quando não in-compatíveis com a lei nova ou quando esta não regular inteiramente a ma-téria.
E' o caso dos autos. O embargante estava amparado pela lei n.O 583, que lhe garantiu a aposentadoria com
t0-dos os vencimentos e assim ao atingir a idade compulsória, teria de se afas-tar do serviço ativo com vencimentos integrais.
J á sustentamos que essas leis espe-ciais não foram alteradas pelo Estatu-to dos Funcionários.
E, Goulart de Oliveira acentuou: "O direito aos vencimentos integrais se
corporificou' de maneirá definitiva uma vez que constituída uma relação que resultou de atos consumados na vigên-cia da lei. Não se trata de dispositivos contraditórios nem incompatíveis. O texto do Estatuto rege os casos todos de aposentadoria, menos os daqueles para os quais foi criada oportunamente uma situação especial.
Uma é a regra, outra a exceção per-feitamente caracterizada (fls. 138).
Convém salientar que "a aposentado-ria por limite de idade nos têrmos de-batidos equivale a um verdadeiro reco-nhecimento de invalidez do servidor pú-blico, no serviço, dessarte se verüican-do, em primeiro, que semelhante inati-vo se torna inapto para prover sua sub-sistência à custa doutra atividade, e se-gundo, ainda daí decorrer que restrição contra o dito direito à subsistência apresenta injustiça fundamental" (fls. 26 v.)
Pelo exposto - coerente com os vo-tos anteriores - recebo os embargos para restaurar a decisão do Tribunal Federal de Recursos.
VOTO
o
Sr. Min'Ístro Ribeiro da Costa -Trata-se de aposentadoria compulsória, por implemento de idade, em que foi alcançado o ora embargante, conceden-do-se-Ihe, por contar apenas 21 anos de serviço público, proventos proporcio-nais a êsse tempo de serviço, nos têr-mos do disposto pelo art. 196, item 1.0, do Decreto-Lei n.o 1.713, de 28 de ou-tubro de 1939.Proposta ação, com fundamento na Lei n.o 583, de 9 de novembro de 1937, para o fim de gozar o autor dos bene-fícios de uma aposentadoria com ven-cimentos integrais, a partir da data do decreto que o aposentou, vingou a sen-tença de primeira instância, confirma-da, em grau de apelação pelo colendo Tribunal Federal de Recursos, no sen-tido de reconhecer o direito à integri-dade dos proventos do servidor público, aposentado compulsoriamente.
O v. acórdão embargado, provendo ao recurso extraordinário manüestado pela União, houve por bem manter o ato do Poder Executivo, decidindo ser aplicável a norma do Estatuto dos Funcionários Públicos, lei vigente ao tempo em que fôra aposentado o ora embargante.
Verüico, entretanto, a total procedên-cia dos embargos à vista do assunto ju-riSprudencial em que se fundam.
Assim, no julgamento da apelação cí-vel n.o 8.440, apelante Políbio Afonso Alves - apelada a União Federal, deci-diu-se em sentido oposto ao v. acórdão embargado, pela concessão da aposenta-doria compulsória com direito à integra-lidade dos vencimentos.
Considerou-se que o direito estabeleci-do pela Lei n.o 583, de 1937, estatuinestabeleci-do sôbre a percepção de proventos integrais nos casos de aposentadoria compulsória, se corporificara de maneira definitiva, constituindo uma relação que resultou de atos consumados na vigência da Lei. E assim porque, efetivamente, o texto do Estatuto dos Funcionários rege os casos de aposentadoria, em sentido genérico, não abrangendo as hipóteses para as quais foi criada oportunamente uma si-tuação especial. Aqui a exceção, ali a re-gra, perfeitamente caracterizadas.
Sintetizando seu lúcido entendimento, disse o eminente sr. Ministro Goulart de Oliveira: "A disposição geral não revoga a especial, desde que não se referiu ex-pressamente a seu assunto, alterando-a explícita ou impllcitamente" (fls. 138). Está demonstrado, através do debate a que o caso deu ensanchas, que o legis-lador deu tratamento especial, de ex-ceção à situação jurídica do embargan-te, não apenas no texto da Carta de 1934, mas, posteriormente ao Estatuto dos Funcionários, em leis posteriores, consagrando o direito à integralidade dos proventos por aposentadoria com-pulsória.
Reconsidero, data venia, o voto que proferi na Turma, recebendo os em-bargos para restaurar a decisão do Tri-bunal Federal de Recursos.
PEDIDO DE VISTA
o
Sr. Ministro Luiz GallotN Sr. Presidente, peço vista dos autos.DECISÃO
Como consta da ata, a decisão foi a seguinte: Adiado, por ter pedido vista o Exmo. Sr. Ministro Luiz GalIotti, de-pois de votarem os Exmos. Srs. Minis-tros Relator e Revisor, que receberam os embargos.
VOTO
o
Sr. Ministro Luiz Gallotti - A lei n.O 583, de 9-11-1937, concedeu aosfun-cionários aposentados por limite de idade vencimentos integrais, qualquer que fôsse o seu tempo de serviço.
Foi derrogado, porém, pelo Estatuto (Decreto-lei n.o 1.713, de 28 de outubro de 1939), que, no art. 198, § 3.0, dis-pôs:
.. O funcionário será aposentado com-pulsõriamente, quando atingir a idade de 68 anos e o provento da aposenta-doria será proporcional ao tempo de serviço" .
Em 1946, o Decreto-Lei n.o 8.906 re-vigorou a lei n.O 583, de 1937.
Não se pode, por conseguinte, a meu ver, falar no caso em lei especial e lei geral.
As três leis tinham o mesmo objeto: regular os vencimentos da aposentado-ria compulsóaposentado-ria dos funcionários fede-rais, por limite de idade.
Enquanto a primeira e a terceira de-ram vencimentos integrais, a segunda só os concedia proporcionais ao tempo de serviço.
Aconteceu que o embargante foi apo-sentado na vigência da segunda lei, em 1944, e esta lhe foi aplicada.
Ora, sempre entendi e muitas vêzes assim decidiu o Supremo Tribunal, que a aposentadoria se disciplina pela lei vigente ao tempo de sua decretação.
O embargante, pois, havia de ter a sua regulada pelo Estatuto, vigente em 1944, e não pela lei de 1937 ou pela lei de 1946.
91
-Será um tratamento injusto, em con-fronto com o dispensado aos aposenta-dos na vigência das outras duas leis. Mas a injustiça será do legislador. E o Judiciário não pode corrigir a lei injusta mas apenas a inconstitucional, pois, como disse Holmes; não lhe é dado substituir pelas' suas as concepções de justiça do legislador. Só êste, a meu ver, poderia ter feito a correção, mandando rever, quando em 1946 revigorou a lei de 1937, as aposentadorias decretadas na vigência do Estatuto. Mas isso não fêz.
Data venia dos eminentes Srs. Minis-tros Relator e Revisor, mantenho o voto que proferi na Turma, rejeito os em-bargos.
VOTO
o
Sr. Ministro Hahnemann Guima-rães - Sr. Presidente, apesar das pon-derosas considerações tecidas pelo emi-nente Ministro Lu!s Gallotti, continuo fiel à jurisprudência adotada pela Se-gunda Turma dêste Tribunal, de acôrdo com a qual a Lei número 583, de 1937, sobreviveu à promulgação do Decreto-lei n.o 1.713, de 28 de outu-bro de 1937 - Estatuto dos Funcioná-rios Públicos. Com efeito, a Lei n.o 563, de 1937, prevê caso especial de aposen-tadoria; constitui lei especial, regula-dora da aposentadoria pelo implemento de idade. ~sse caso especial não foi previsto pelo Estatuto, donde ser pos-sível a sobrevivência da lei especial ao lado da lei geral. Acompanho, pois, o voto dos eminentes Ministros Relator e Revisor, recebendo os embargos.VOTO
o
Sr. Ministro Edgar Costa - Sr. Presidente, rejeito os embargos, acom-panho o voto do eminente Ministro Luis Gallotti.VOTO
o
Sr. Ministro Orosimbo Nonato -Sr. Presidente, o eminente Ministro Hahnemann Guimarães expôs excelen-temente, razões com as quais estou de inteiro acôrdo. Recebo os embargos.95
-YOTO
o
Sr. Ministro Aníbal Freire - Sr.Presidente, desde que o Estatuto dos Funcionários Públicos disciplinou com-pletamente a matéria, deixou de pre-valecer a lei n.o 583, de 1937. Rejeito os embargos.
VOTO
O Sr. Ministro Barros Barreto - Sr.
Presidente, desprezo os embargos, rei-terando o voto que proferi na Turma e que foi vencedor.
VOTO
O Sr. Ministro José Linhares - Sr.
Presidente, recebo os embargos.
DECISÃO
Como consta da ata, a decisão foi a seguinte: Foram recebidos os embargos, contra os votos dos Srs. Ministros Luiz Gallotti, Edgar Costa, Anibal Freire e Barros Barreto.
Impedido o Exmo. Sr. Ministro Ro-cha Lagôa.
FUNCIONÁRIO PúBLICO -
APOSENTADORIA
-
A
aposentadoria, por tempo
de
serviço
é
sempre
'Vo-luntária.
Interpretação
do
art.
191
da
Constituição.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Impetrantes: Antônio Bráulio Ribeiro de Mendonça Filho e outros Mandado de segurança n.o 1.243 - Relator: Sr. Ministro
HAHNEMANN GUIMARÃES
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos êstes autos de recurso ordinário n.o 1.243, de São Paulo, em causa de mandado de segurança em que são recorrentes
An-tonio Bráulio Ribeiro de Mendonça Fi-lho e outros, sendo recorrido o Gover-nador do Estado, acordam, unânimes, os Ministros do Supremo Tribunal Fe-deral dar provimento ao recurso, con-forme as notas juntas.
Rio de Janeiro, 14 de junho de 1950. - LaudQ de Camargo, Presidente. Hahnemann Guimarães, Relator.
RELATÓRIO
O Sr. Ministro Hahnemann
Guima-rães - Os Drs. Antônio Bráulio Ribeiro de Mendonça Filho, Venâncio Ayres, Alberto Quartim de Moraes e Francis-co de Assis Carvalho FranFrancis-co requere-ram ao Tribunal de Justiça mandado de segurança, em defesa de seu direito
liquido e certo de serem mantidos nos cargos que ocupam, de delegados de
p0-licia, enquanto não se tornarem inváli-dos, ou não atingirem a idade de 70 anos, nem requererem, êles mesmos, vo-luntàriamente, sua aposentadoria. A Constituição estadual, nas suas "Dia-posiçpes Gerais", art. 147, contrariando o que ela mesma diz em suas disposi-ções especiais sôbre funcionários pú-blicos, determinou que haverá "aposen-tadoria compulsória, com vencimentos integrais, ao atingir o interessado 35 anos de serviço público". Esta deter-minação é manifestamente contrária aos arts. 18 e 191, com os parágrafos, da Constituição federal. O Poder Legisla-tivo do Estado adotou, na lei n.o 199, de 1.0 de dezembro de 1948, a dispo-sição do citado art. 147, e o Governador do Estado, nos têrmos do art. 27, I, combinado com os arts. 30, I, 32, e 50 da lei n.o 199, aposentou compulsôria-mente os requerentes só pelo fato de já terem 35 anos de serviço público.