LESÕES DO SISTEMA LOCOMOTOR NO BALLET CLÁSSICO
Bárbara de Oliveira Brito Siebra1Lívia Parente de Alencar Alves2 Lara Izidório Cruz Pinheiro3 Francisco Targínio Menezes Feitosa4 José Marcílio Nicodemos Cruz5 RESUMO: As exigências corporais durante a prática do ballet clássico submetem o sistema musculoesquelético a esforços que não correspondem à realidade anatômica, sobrecarregando o organismo e gerando lesões. Buscou-se fazer resgate literário para identificar os principais agravos que acometem os bailarinos. Esse trabalho apresenta que as lesões na dança são de alta incidência, acometendo principalmente os membros inferiores – sendo as mais comuns: calos, bolhas, tendinites, entorses e hálux valgos – e podem ser provocadas por fatores intrínsecos e extrínsecos (piso, calçado, idade, hereditariedade). Ressalta-se a necessidade de orientação médica quanto ao melhor momento de iniciar o aprendizado do ballet, uso de pontas e exercícios complementares para ajudar no fortalecimento das estruturas. Conhecer as principais lesões e o que as provoca é essencial para que o profissional da saúde possa escolher a melhor abordagem ao tratá-las.
Palavras-chave: anatomia dos pés; anatomia e dança; ballet; lesões no ballet clássico
INTRODUÇÃO
A dança é considerada uma das manifestações culturais mais antigas do ser humano, que utiliza o corpo e seus movimentos para se expressar artisticamente. Os praticantes da dança estão sempre à procura da perfeição técnica, do melhor desempenho. Durante essa busca, muitas vezes o sistema musculoesquelético é submetido a esforços que não correspondem à realidade anatômica ou fisiológica, o que sobrecarrega o organismo, podendo causar incômodos e lesões (SIMÕES, 2010).
O ballet clássico é tradicionalmente lembrado como o maior representante da dança profissional por conta de suas exigências corporais: “Os movimentos do balé requerem desempenho com perfeição técnica, envolvendo posições articulares extremas e esforços musculares que podem exceder as amplitudes normais de movimento, gerando assim, elevado estresse mecânico nos ossos e tecidos moles” (PICON; FRANCHI apud MEEREIS et al, 2009). Assim, é sabido que o ballet é responsável por provocar “modificações anatômicas, biomecânicas, morfológicas e físicas que podem desestabilizar o equilíbrio funcional dos praticantes ao longo dos anos de prática, gerando assim alterações posturais compensatórias” (MEEREIS et al, 2009).
1 Monitora de Iniciação à Docência em Anatomia Humana, Universidade Federal do Ceará, Barbalha,
Ceará. e-mail: [email protected]
2 Monitora de Iniciação à Docência em Anatomia Humana, Universidade Federal do Ceará, Barbalha,
Ceará. e-mail: [email protected]
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Monitora de Iniciação à Docência em Anatomia Humana, Universidade Federal do Ceará, Barbalha, Ceará. e-mail: [email protected]
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Monitor de Iniciação à Docência em Anatomia Humana, Universidade Federal do Ceará, Barbalha, Ceará. e-mail: [email protected]
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Professor Efetivo Auxiliar de Anatomia e Radiologia, Universidade Federal do Ceará, Barbalha, Ceará. e-mail: [email protected]
Embora essas lesões e alterações posturais sejam de interesse médico e demais áreas da saúde, a literatura a respeito do tema é escassa, como ressalta Simões (2010): “poucas pesquisas têm sido publicadas sobre a relação entre dança e lesão no bailarino, o que tem conduzido ao desconhecimento dos cuidados necessários a serem tomados durante a prática dessa modalidade”. Contudo, nota-se que, nas duas últimas décadas, tem ganhado notoriedade.
Isso se deve ao fato de que a medicina tem ficado cada vez mais especializada, demandando de seus profissionais conhecimentos mais específicos. Grego (1999) afirma que “somente a partir do final da década de 70 os bailarinos começaram a procurar especialistas em medicina desportiva e ortopedistas. No passado, eles eram forçados a cuidar de si próprios, porque os médicos não estavam familiarizados com as exigências físicas a que se submetiam os bailarinos”.
Conhecer as principais lesões que podem ocorrer durante a prática do ballet, bem como os esforços que provocam tais injúrias, é muito importante para que o profissional da saúde possa orientar uma prática mais segura e também oferecer um tratamento mais eficaz. Outro fator relevante é que as lesões em bailarinos profissionais são desencadeadas lentamente, tendo caráter crônico (BATISTA, 2010), e por isso necessita de longo tempo de acompanhamento médico.
Este trabalho é uma pesquisa bibliográfica em que se propõe apresentar um quadro geral, segundo a literatura consultada, das principais lesões encontradas em praticantes do ballet clássico e suas relações com os movimentos antianatômicos que a dança impera.
MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo consiste em uma pesquisa bibliográfica não sistemática do tipo exploratória e qualitativa.
Foram usados como fonte de pesquisa os bancos de dados eletrônicos: Scientific
Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS e
Google Scholar. A pesquisa foi delimitada no período de 2009 a 2013. Utilizou-se como critério da busca os descritores: anatomia dos pés, anatomia e dança, ballet e lesões no
ballet clássico. Foram considerados de relevância para esta revisão os artigos
disponibilizados na íntegra e que correlacionavam as lesões nos bailarinos clássicos com as posições antianatômicas exigidas pela dança em questão.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em todos os artigos analisados, o ballet clássico foi caracterizado como “uma dança que utiliza posições extremas, como rotação externa dos quadris e flexão plantar de tornozelos e pés, as quais sobrecarregam músculos, ligamentos e tendões” (FIGUEIRÊDO, 2012). Quando essas estruturas – muitas vezes posicionadas em posições antianatômicas – são solicitadas ao máximo, a atividade física perde seu caráter benéfico e passa a atuar como agente patológico sobre o aparelho locomotor (BATISTA, 2010).
Conservar a postura ereta consiste num desafio natural para o corpo humano, visto que este precisa vencer a ação da gravidade e manter-se equilibrado na pequena base de sustentação fornecida pelos pés, responsáveis por absorver pressões e distribuir as forças de reação (THIESEN; SUMIYA, 2011).
Logo, a prática do ballet acaba por predispor a ocorrência de lesões especialmente nos membros inferiores (SIMÕES, 2010), o que é reafirmado por
Figueirêdo (2012): “entre 17 a 95% de lesões ocorridas com os praticantes do ballet, 34 a 54% destas lesões ocorrem nas regiões dos pés”.
No entanto, injúrias à coluna vertebral são referidas por MEEREIS et al (2009), que aponta hiperlordose, a inclinação lateral do tronco e a hipercifose cervical como as alterações posturais mais recorrentes, sendo a hiperlordose a mais incidente.
No trabalho O ballet clássico e as implicações anatômicas e biomecânicas de
sua prática para os pés e tornozelos, Simões (2010) relata que bolhas nos pés, entorses
de tornozelo, calos nos pés, tendinites, hálux valgos, sesamoidites, fratura no tornozelo e luxação nos pés foram os agravos referidos pelas bailarinas entrevistadas, sendo bolhas nos pés, entorses de tornozelo, calos nos pés, tendinites e hálux valgos (joanetes) os mais comuns. Quanto a respeito de como surgiram as lesões, três causas foram apontadas: exercícios realizados na ponta, treinamento excessivo e a realização de passos específicos.
Os resultados obtidos estão de acordo com o estudo pioneiro de Grego (1999), que verificou que a “maior parte dos agravos ocorre no plano tegumentar, sendo mais frequentes os calos e as bolhas. No plano musculoligamentar, as distensões são as mais comuns, seguidas das contusões e entorses. No osteoarticular a frequência mais elevada foi de joanete”.
A formação do hálux valgo pode ocorrer devido à instabilidade provocada pela pressão do peso no músculo adutor do hálux durante a posição em ponta (RUFINO, 2011). Já as lesões crônicas, como a fratura por stress no tornozelo e tendinites, são causadas pelo alto número de repetições exigido para aperfeiçoamento da performance (MONTEIRO; GREGO apud SIMÕES, 2010).
Em Batista (2010), 90% das bailarinas entrevistadas responderam que as dores que sentem estão relacionadas à prática da dança e se localizam principalmente nos joelhos, na região lombar, tornozelos, ombros e pernas. Na mesma pesquisa, somente 20% das entrevistadas disseram ser acompanhadas por algum tipo profissional da saúde, sendo que 80% não possuem nenhum tipo de acompanhamento.
Artioli et. al. (2010) fez um estudo sobre a tendinopatia dos fibulares que coloca o ballet como um dos esportes em que mais acontece essa afecção, descrita como uma entorse de tornozelo crônica com presença de células inflamatórias mínimas e a prevalência do processo degenerativo. O acometimento dos músculos fibulares – longo e curto – se dá porque eles são responsáveis (em conjunto com o flexor longo do hálux e os flexores dos dedos) por segurar o tornozelo em flexão plantar na posição de 3/4 de ponta (RUFINO, 2011).
Nenhum dos trabalhos consultados conseguiu relacionar o fator idade com o aparecimento de lesões, embora Bertoni (apud SIMÕES, 2010) destaque que a faixa etária ideal para o início do aprendizado do ballet clássico seja entre 8 e 9 anos, uma vez que “o início da prática prematura pode desenvolver diversas alterações corporais na criança, pois existem posturas, movimentos, passos na dança que se contrapõem a anatomia e biomecânica humana”. Por exemplo, os pés que sempre estão em rotação externa (en dehors).
A idade para começar a prática do ballet é de grande importância porque as epífises de crescimento, geralmente, não estão solidificadas e o crescimento ósseo ainda ocorrerá por alguns anos (SIMÕES, 2010), podendo ser prejudicado em casos de lesões graves.
Segundo Simões (2010), é sabido que os exercícios realizados sobre a ponta dos pés constituem um trabalho muito estressante e que exige treinamento gradual da bailarina como um todo, não sendo apenas uma evolução técnica, mas também uma adaptação do corpo a uma nova forma de equilíbrio, com fortalecimento ósseo,
tendíneo, ligamentar e muscular. Contudo, praticantes do ballet clássico, erroneamente, privilegiam a flexibilidade e negligenciam o trabalho de força e de outros componentes do condicionamento, o que pode facilitar a ocorrência de lesões irreparáveis e falta de motivação para a dança.
E Batista (2010) também ressalta que “a presença de quadros álgicos pode interferir de maneira negativa no desempenho desses profissionais, pois dependem do bom funcionamento de seus corpos para realizar suas atividades laborais”. Nota-se que a baixa procura por acompanhamento médico entre esses dançarinos é um dado paradoxal que leva ao questionamento de por que, mesmo sentindo dores, os bailarinos não procuram atendimento na área da saúde. Seria a crença de que os profissionais da saúde não estão aptos a atendê-los por desconhecer suas necessidades enquanto praticantes da dança?
Outro ponto importante a ser observado é o fato de que não são apenas os fatores intrínsecos à dança que influenciam no aparecimento de lesões, mas também os extrínsecos, como hereditariedade, ambiente, condições socioeconômicas, fatores emocionais (FIGUEIRÊDO, 2012), bem como calçados, piso e temperatura inadequados (SIMÕES, 2010).
O tradicionalismo presente no ballet clássico impede que muitas modificações sejam feitas na sapatilha de ponta, calçado que colabora sobremaneira para surgimento das lesões (FIGUEIRÊDO, 2012). Simões (2010) explica que as sapatilhas de ponta foram introduzidas no ballet clássico no século XVIII e, desde então, pouco evoluíram no sentido de oferecer conforto e diminuir as agressões aos pés das bailarinas.
Além do calçado, um piso inapropriado constitui um fator de risco porque o
impacto no solo depois de um salto pode sobrecarregar as articulações dos joelhos e tornozelos. O piso deve ser flexível para que a prática do ballet seja segura. Segundo Guerra (apud Simões, 2010), “o que se encontra na maioria das escolas de dança está muito aquém do desejado, pela falta de infraestrutura adequada para salas de aula, e até mesmo pelo despreparo de muitos profissionais que atuam no mercado da dança”. CONCLUSÕES
Os principais agravos encontrados ou relatados por bailarinos clássicos são: calo macio, calo duro, bolha, hálux valgos, hálux rígido, entorses no tornozelo, fratura de estresse no tornozelo, sesamoidite, bursite no tornozelo e joelhos, neuroma de Morton, tendinites (nas regiões do pé, tornozelo, joelhos e quadril), laceração do menisco, luxação e subluxação do tornozelo e da patela, contusões, lesão ligamentar, abrasão, quadril estalante, artrite degenerativa no quadril, lombalgia, espondilolistese degenerativa, espondilólise e radiculopatia lombar (dor no isquiático) (SIMÕES, 2010).
Essas lesões decorrem de fatores intrínsecos à dança – como os movimentos de grande amplitude e de alta complexidade, exigindo posicionamentos extremos e antianatômicos, sobrecarregando o sistema musculoesquelético – e extrínsecos – piso e sapatilhas inadequadas, hereditariedade, fatores socioeconômicos e emocionais.
Traumas sucedidos durante a prática da dança podem provocar danos irreparáveis ou dores que impeçam a performance da maneira esperada, constituindo um desânimo para o exercício do ballet.
Estranha-se que, mesmo com a alta incidência de lesões entre bailarinos profissionais, a procura por atendimento médico é bastante reduzida, reafirmando a crença de que os profissionais da saúde talvez não estejam suficientemente informados acerca desses tipos de agravos nem sobre a melhor conduta para que o tratamento não interfira ou prejudique a prática da dança.
Percebe-se também a necessidade de orientação médica quanto ao melhor momento de iniciar o aprendizado do ballet, uso de pontas e exercícios complementares para ajudar no fortalecimento das estruturas.
Para tanto, é de fundamental importância que sejam desenvolvidas mais pesquisas na área, relacionando as lesões com os movimentos exigidos na dança, bem como uma investigação de como melhorar fatores extrínsecos para amenizar a incidência das injúrias.
Profissionais da área da saúde devem procurar adquirir – além dos conhecimentos anatômicos e fisiológicos apreendidos em sala de aula – mais informações sobre tipos específicos de lesões, mantendo-se atualizados e, assim, aprimorarem suas práticas.
REFERÊNCIAS
ARTIOLI, D. P.; GUALBERTO, H. D.; FREITAS, D. G.; BERTOLINI, G. R. F. Tendinopatia dos fibulares. Rev Bras Clin Med. São Paulo, 2010. Disponível em: http://files.bvs.br/upload/S/1679-1010/2010/v8n6/a1604. Acesso em: 15 ago 2013. BATISTA, C. G.; MARTINS, E. O. A prevalência de dor em bailarinas clássicas. J Health Sci Inst. 2010. Disponível em: http://bit.ly/19HgWfQ. Acesso em: 15 ago 2013. FIGUEIRÊDO, Lígia Carvalho de. Avaliação estática do arco longitudinal medial plantar em bailarinas clássicas em Teresina – PI dos 12 aos 17 anos. São José dos Campos, 2012. Disponível em: http://bit.ly/16ENrPf. Acesso em: 17 ago 2013.
GREGO, Lia Geraldo et al . Lesões na dança: estudo transversal híbrido em academias da cidade de Bauru-SP. Rev Bras Med Esporte. Niterói, 1999. Disponível em: http://bit.ly/1bnk6sp. Acesso em: 20 ago 2013.
MEEREIS, E. C. W. et al. A postura corporal e o balé clássico: uma revisão. EFDeportes Revista Digital. Buenos Aires, 2009. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd139/a-postura-corporal-e-o-bale-classico.htm. Acesso em: 17 ago 2013.
RUFINO, R. M. L. Estudo anatómico do equilíbrio em pontas no ballet. Lisboa, 2011. Disponível em: http://bit.ly/1azrqjy. Acesso em: 14 ago 2013.
SIMÕES, R. D.; ANJOS, A. F. P. O ballet clássico e as implicações anatômicas e biomecânicas de sua prática para os pés e tornozelos. Conexões. Campinas, 2010. Disponível em: http://fefnet178.fef.unicamp.br/ojs/index.php/fef/article/view/498/347. Acesso em: 13 ago 2013.
THIESEN, T.; SUMIYA, A. Equilíbrio e arco plantar no balé clássico. ConScientiae Saúde. 2011. Disponível em: http://bit.ly/19vhKq5. Acesso em: 20 ago 2013.