Interciencia ISSN: 0378-1844 [email protected] Asociación Interciencia Venezuela
Pereira de Araujo, Helder Farias; Paiva de Lucena, Reinaldo Farias; da Silva Mourão, José Prenúncio de chuvas pelas aves na percepção de moradores de comunidades rurais no município de
Soledade-PB, Brasil
Interciencia, vol. 30, núm. 12, diciembre, 2005, pp. 764-769 Asociación Interciencia
Caracas, Venezuela
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PRENÚNCIO DE CHUVAS PELAS AVES NA PERCEPÇÃO
DE MORADORES DE COMUNIDADES RURAIS NO MUNICÍPIO
DE SOLEDADE-PB, BRASIL
Helder Farias Pereirade Araujo, Reinaldo Farias Paiva de Lucena e José da Silva Mourão
Introducçao
A Caatinga está localiza-da principalmente na região nordeste do Brasil, ocorren-do também no norte ocorren-do Es-tado de Minas Gerais. Esta região é caracterizada pelo clima semi-árido, com chu-vas irregulares. Apresenta d u a s e s t a ç õ e s n ã o m u i t o bem definidas: uma seca e
PALAVRAS CHAVES/ Aves / Caatinga / Etnoornitologia / Populações Locais / Semiótico / Recibido: 04/05/2005. Modificado: 13/10/2005. Aceito: 17/10/2005.
Helder Farias Pereirade Araujo. Mestre em Ciências Biológi-cas, Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Brasil. Ende-reço: Programa de Pós-Gradu-ação em Ciências Biológicas, Centro de Ciências Exatas e
da Natureza, Cidade Universi-tária, 58059-900, João Pessoa, Paraíba, Brasil. e-mail: [email protected]
Reinaldo Farias Paiva de Lucena. Mestre em Botânica, Universi-dade Federal Rural de
Pernam-buco (UFRPE). Brasil. Progra-ma de Pós-Graduação em Bo-tânica, Universidade Federal Rural de Pernambuco,Brasil. José da Silva Mourão. Doutor
em Ecologia e Recursos Natu-rais, Universidade Federal de outra chuvosa. A
irregulari-dade climática é um dos fa-tores que mais interferem na vida dos “sertanejos/va-queiros”, populações tradici-onais que se encontram dis-tribuídas desde o Agreste às regiões semi-áridas da caa-tinga, desenvolvendo, prin-cipalmente, atividades de s u b s i s t ê n c i a ( D i eg u e s e Arruda, 2001).
A cidade de Soledade está inserida na microrregião do Curimataú paraibano, nos domínios da Caatinga. Apre-senta uma baixa precipitação pluviométrica anual, em tor-no de 300mm³ e uma curta estação chuvosa com até 11 meses de seca (SEBRAE , 1998).
Nesse contexto, os morado-res de comunidades rurais de
Soledade adaptaram-se e aper-feiçoaram-se na observação de sinais como prováveis in-dicadores de estações chuvo-sas, assim se preparando ante-cipadamente para o início do cultivo de suas culturas ali-mentícias, como também na preparação e limpeza de tan-ques de pedra e outros com-partimentos com a finalidade de captação de água das
chu-São Carlos (UFSCar). Brasil.Professor da Universida-de Estadual da Paraíba. Brasil. e-mail: [email protected] RESUMO
Num contexto informacional (semiótico), este trabalho etnográfico registrou informações sobre as indicações aviárias para a previsão de chuva em três comunidades rurais no muni-cípio de Soledade, Paraíba, Nordeste do Brasil. Os dados bioló-gicos, ecológicos e etnoornitológicos foram coletados em campo através de entrevistas livres e abertas, formulários semi-estruturados, observação direta e turnê guiada na caatinga. Para verificar a fidedignidade das informações utilizamos um controle através de informações repetidas em situação sincrônica. Foram mencionadas pelos informantes 30 espécies de aves bioindicado-ras de chuva, as mais citadas foram anum-preto (Crotophaga ani), acauã (Herpetotheres cachinnans), sariema (Cariama
cristata) e fura-barreiro (Nystalus maculatus). Os sinais-chave com valor informacional mais evidentes, que os moradores ob-servam nas aves para o prenúncio de chuva, são as vocaliza-ções. Registraram-se outros sinais indicativos como postura dos ovos, nidificação, surgimento na região e reprodução. Há uma correlação significativa e positiva (r²= 0,259; p<0,01) entre a pluviosidade média e a freqüência de observações mensais das aves indicadoras de chuva. Foi constatado que esse conhecimen-to etnoorniconhecimen-tológico é bem distribuído na área, além de ser trans-mitido através das gerações, inter-socialmente (conhecimento circular) e adquirido com a experiência cotidiana (conhecimento horizontal).
SUMMARY In an informational (semiotic) context, the present ethnographic work recorded information on avian indications for predicting rain at three rural communities in the municipality of Soledade, State of Paraíba, Northeast Brazil. The biological, ecological, and ethnoornithological data were collected in the field by applying free- and open-interviews, semi-structured questionnaires, direct observation, and guided tours in the caa-tinga. The reliability of the information obtained was explored by means of a control using synchronous repeated information. The informants reported 30 bird species as biodindicators of rain, being most commonly mentioned the smooth-billed ani (Crotophaga ani), laughing cachinnans (Herpetotheres
cachinnans), red-legged (Cariana cristata), and spot-backed puffbird (Nystalus maculatus). Vocalizations were recognized by local people as key signs with the highest informational value for predicting rain. Other signs used as indicators were laying of eggs, nesting, their emergence in the region, and reproduction. The mean rainfall correlated significantly and positively on the frequency of monthly observations of birds that indicate rain (r2= 0.259, p<0.01). It is concluded that this ethnoornithological
knowledge is widely distributed in the area. It is passed from generation to generation, being transmitted intersocially (circular knowledge), and through daily acquaintance (horizontal knowledge).
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vas (Bonifácio et al., 2002; Lucena et al., 2002).
O presente trabalho se pro-pôs a realizar uma análise etnoornitológica com os mora-dores de comunidades rurais de Soledade, no sentido de ob-ter informações sobre o pre-núncio de chuva a partir de si-nais avifaunísticos. A pertinên-cia deste estudo salienta-se pe-las afirmações de que existem vozes aviárias que dão nota peculiar a uma determinada paisagem e, que no meio rural brasileiro, a voz de muitas aves é considerada pelo povo como prenúncio de chuva (Marques, 1999; Sick, 2001). Área de Estudo
O município de Soledade está inserido na mesorregião do Agreste do Estado da Paraíba, Nordeste do Brasil (Figura 1). Possui área terri-torial de 634,9km2, precisa-mente localizada à 7º03'26''S e 36º21'46''O, com altitude de 521m acima do nível do mar. Está próxima às rodovias PB-176 e PB-177, sendo cortada pela rodovia federal BR-230, que dá acesso direto, rumo a oeste, à capital do Estado, João Pessoa (186,2km; SEBRAE, 1998).
As áreas escolhidas para o presente estudo foram às co-munidades rurais de Barroca, Bom Sucesso e Cachoeira, distando cerca de 18km da sede do município. Algumas das características dessas co-munidades foram adquiridas a partir das observações e infor-mações obtidas durante as vi-sitas ao local e entrevistas com os moradores.
Cariama cristata y Nystalus maculatus. Las vocalizaciones son las señales-clave más evidentes con valor informativo que los residen-tes reportan como señal de lluvia. Otras señales indicativas fueron la postura de huevos, instalación del nido, aparición en la región y reproducción. Hay una correlación significante y positiva (r²= 0,259; p<0,01) entre la pluviosidad media y la frecuencia de ob-servaciones mensuales de las aves indicadoras de lluvia. Se veri-ficó que el conocimiento etnoornitologico está bien distribuido en el área, además de ser transmitido a través de las generaciones, inter-socialmente (conocimiento circular) y adquirido con la expe-riencia diaria (conocimiento horizontal).
RESUMEN En un contexto informacional (semiótico) este trabajo etnográfico registró informaciones sobre las indicaciones de las aves para la previsión de lluvia en tres comunidades rurales en el distrito municipal de Soledade, Paraíba. Nordeste de Brasil. Los datos biológicos, ecológicos y etnoornitológicos fueron reunidos en el campo a través de entrevistas libres y abiertas, formularios semi-estructurados, observación directa y giras guiadas. Para ve-rificar la corrección de la información se usó un control a través de la información repetida en la situación síncrona. Los informan-tes mencionaron 30 especies de aves indicadores de lluvia, siendo las más frecuentes Crotophaga ani, Herpetotheres cachinnans,
A principal atividade regis-trada como fonte de renda na região é a agricultura de sub-sistência, principalmente com o cultivo de milho e feijão e, minoritariamente, algodão. Esse cultivo é preferencial-mente executado pelos ho-mens, ficando as mulheres responsáveis pelo trabalho do-méstico.
A comunidade de Barroca apresenta-se, essencialmente, como propriedades rurais, conseqüentemente com suas residências distantes umas das outras, comparando com as outras duas comunidades. Sua extensão é relativamente gran-de para o local, a ponto gran-de os moradores caracterizá-la em duas partes, Barroca de cima e Barroca de baixo.
A comunidade de Cachoei-ra está localizada nas terCachoei-ras pertencentes à Dona Genuína (moradora entrevistada), que doou os espaços onde foram construídas as demais residên-cias. Essa comunidade apre-senta-se como um aglomerado de casas, além de possuir uma escola e um campo de futebol (Lucena, 2002).
Em Bom Sucesso existe uma divisão física bem carac-terística, verificando uma área
com propriedades rurais afas-tadas e um aglomerado de ca-sas evidenciando um aspecto de vila. Apresenta uma esco-la, posto telefônico, bar, cam-po de futebol e cemitério. Este é usado pelos moradores das comunidades circunvizi-nhas, visto que é o único ce-mitério da região.
Metodologia
As comunidades alvo desta pesquisa foram escolhidas devi-do às semelhança de hábitos e facilidade de acesso, como também pelo desenvolvimento de práticas agrícolas tradicio-nais (Lima et. al., 2000). A pri-meira fase da pesquisa ocorreu em setembro 2001, com a rea-lização de “surveys” para defi-nição e escolha dos informan-tes. Os dados etnoornitológicos necessários para este estudo fo-ram coletados de maio a se-tembro 2002. Foram utilizadas entrevistas livres e abertas, for-mulários semi-estruturados, ob-servações direta e turnê guiada (Bernard, 1988; Montenegro, 2001; Viertler, 2002; Albuquer-que e Lucena, 2004).
Foram entrevistados 62 in-formantes (40 homens e 22 mulheres) nas três
comunida-des, totalizando 100% das re-sidências habitadas, variando as idades desde crianças com 11 anos até idosos com 85 anos. Nas entrevistas preser-vou-se o diálogo informal a partir do formulário semi-estruturado, assim, incorpo-rando de maneira discreta as perguntas específicas referen-tes às aves indicadoras de chuva. Para testar a fidedigni-dade das informações, aplico-se o formulário a todos os entrevistados das três comuni-dades, com o intuito de con-frontar e constatar a validade dos resultados, o que remete à técnica da informação repe-tida em situação sincrônica. Nos correntes diálogos regis-traram-se algumas frases es-pecíficas que foram caracteri-zadas como “memes”, as quais formaram partes de in-formações contextualizadas. Memes é um termo cunhado por Dawkins em 1976 com o sentido de representar a uni-dade básica da transmissão cultural ou da imitação; Dennet em 1998 referenciou o termo como menores ele-mentos que se replicam com confiabilidade e fecundidade numa transmissão cultural (Marques, 1999).
Nas turnês guiadas realiza-das com alguns moradores (5 informantes-chave) foi possí-vel observar, de maneira visu-al ou sonora, uma variedade de aves, bioindicadoras ou não. Para as espécies que não foram registradas, mas ainda assim, citadas como bioindi-cadoras, procurou-se obter suas características com os entrevistados, que possibilita-ram enquadrá-las no táxon Família. Os nomes vernacula-res são os citados pelos mora-dores e a ordenação taxonô-mica está baseada no Comitê Brasileiro de Registros Orni-tológicos (CBRO, 2005). Análise dos Dados
Para verificar a ocorrência de uma corelação entre a fre-qüência das observações dos sinais aviários para o prenún-cio das chuvas, mensurada pela freqüência de observado-res ao mês, com a pluviosida-de média da região, utilizou-se a Correlação de Pearson, através do software Statistica 4.0. Os dados foram transfor-mados proporcionalmente uti-lizando a raiz quadrada, com a finalidade de atingir suas normalidades e homocedasti-cidades.
Com o intuito de comparar o conhecimento sobre a ocor-rência de aves indicadoras en-tre as comunidades, utilizou-se a ANOVA não-paramétrica, teste de Kruskal-Wallis, apli-cada às freqüências de citação das espécies em cada comuni-dade.
Os dados pluviométricos da região foram fornecidos pelo Laboratório de Meteorologia, Recursos Hídricos de Sensoriamento Remoto da Paraíba (LMRHS-UFCG). Resultados e Discussão As aves que prenunciam chuva
“Tem um bocado que avisa, quase tudo, mas o que nós te-mos fé é negócio de fura-barreiro, o anum, a rolinha quando estão cantando” (Ben-to, informante da comunidade Cachoeira).
Dentre vários sinais observa-dos pelos camponeses nordesti-nos como indicadores de esta-ções chuvosas, os aves ofere-cem uma grande contribuição a partir de seus comportamentos e suas vocalizações (Maga-lhães, 1952; Cascudo, 1970;
Marques, 1999). Em Soledade não é diferente, das 139 espéci-es de avespéci-es citadas nas entrevis-tas, foram verificadas 30 espé-cies que pressagiam o inverno (Tabela I).
Algumas destas são reco-nhecidas como bioindicadores
de chuva em outras regiões brasileiras, como registra Ma-galhães (1952), que cita aves indicadoras em suas entrevis-tas realizadas em estados nor-destinos, tais como anum-pre-to (C. ani), rolinhas (Colum-bidae), galo-de-campina (P. TABELA I
ESPÉCIES DE AVES QUE PRESSAGIAM CHUVA SEGUNDO OS MORADORES DE COMUNIDADES RURAIS E FREQÜÊNCIA DE CITAÇÃO EM SOLEDADE –PB
Nome do táxon Nome citado Freqüência
de citação (%) Tinamidae
Nothura maculosa (Temminck, 1815) Corduniz 1,7
Anatidae
Dendrocygna viduata (Linnaeus, 1766) Marreca 0,9
Espécie não identificada Pato-d’água 0,9
Podicipedidae
Espécie não identificada Mergulhão 0,9
Falconidae
Herpetotheres cachinnans (Linnaeus, 1758) Acauã ou Cauã 14,8
Cariamidae
Cariama cristata (Linnaeus, 1766) Sariema, Seriema ou Siriema 14,8
Charadriidae
Vanellus chilensis (Molina, 1782) Tetéu 6,0
Columbidae
Colubina sp Rolinha 2,6
Colubina minuta (Linnaeus, 1766) Rolinha-cambute 0,9
Patagioenas picazuro (Temminck, 1813) Asa-branca 1,4
Zenaida auriculata (Des Murs, 1847) Ribaçã, Arribaçã ou Avoante 0,9
Leptotila verreauxi (Bonaparte, 1855) e/ou
L. rufaxila (Richard & Bernard, 1972) Juriti, juruti 0,9
Psittacidae
Amazona aestiva (Linnaeus, 1758) Papagaio 0,9
Espécie não identificada Curica 0,9
Cuculidae
Crotophaga ani (Gmelin, 1788) Anum-preto 18
Guira guira (Gmelin, 1788) Anum-branco 1,8
Strigidae
Espécie não identificada Coruja 0,9
Nyctibiidae
Nyctibius griseus (Gmelin, 1789) Mãe-da-lua 2,0
Trochilidae
Espécie não identificada Beija-flor 0,9
Bucconidae
Nystalus maculatus (Gmelin, 1788) Fura-barreiro 9,5
Tyrannidae
Fluvicola nengeta (Linnaeus, 1766) Lavandeira 2,5
Corvidae
Cyanocorax cyanopogon (Wied, 1821) Canção ou cançã 0,9
Turdidae
Turdus rufiventris (Viellot, 1818) Sabiá 3,5
Thraupidae
Espécie não identificada Sanhaço 0,9
Emberezidae
Zonotrichia capensis (Statius Muller, 1776) Salta-caminho 1,8
Volantina jacarina (Linnaeus, 1766) Negotiziu, Tiziu ou Moleque 0,9
Paroaria dominicana (Linnaeus, 1758) Galo-de-campina 3,5
Caedinalidae
Cyanocompsa brissonii (Lichtenstein, 1823) Azulão 0,9
Icteridae
Icterus cayanensis (Linnaeus, 1766) Xexéu ou xexéu-de-bananeira 0,9
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dominicana), acauã (H. ca-chinnans) e tetéu (V. chilen-sis). Marques (1999) também evidenciou várias aves utiliza-das no Nordeste brasileiro como indicadoras de chuva; dentre elas o autor cita serie-ma (C. cristata), acauã (H. cachinnans), corduniz (N. maculosa), anum-preto (C. ani), mãe-da-lua (N. griseus), sabiá (T. rufiventris), galo-de-campina (P. dominicana), arribaçã (Z. auriculata), tetéu (V. chilensis) e fura-barreiro (N. maculatus). Esta última espécie também foi registrada por Medeiros Neto et al. (1997) na mesma região de Soledade; além disso, este au-tor constatou que a predação desta espécie pelos caçadores da região é mínima.
“O anum-preto é o profeta do agricultor... ah o fura-barreiro é outro profeta” (Zeca, informante da comuni-dade de Bom Sucesso). Evi-tando a ambigüidade e o mis-ticismo da palavra ‘profeta’ ou de termos como ‘animais proféticos’, pode-se utilizar a tipologia funcional, de um correspondente “ético” a uma categoria “êmica”, para as aves que experimentam trans-mutação zoossemiótica no meio rural brasileiro (Mar-ques, 1999, 2002). Assim pode-se enquadrar as aves fornecidas pelos informantes das comunidades estudadas como ornitoáugures meteó-ricos (grego ornithos: ave + augure: sacerdote romano que tirava presságios de canto e do vôo das aves; adivinho, vaticinador, agoureiro) (Bue-no, 1984; Marques, 1998, 1999), augurar: predizer, au-gúrio: presságio (Ferreira, 1993) / meteórico: dependente do estado atmosférico (Bueno, 1984)). Marques (1999) con-ceitua ornitoáugures meteóri-cos como “aves cujas vocali-zações atribui-se o poder de prenunciar eventos relaciona-dos com o tempo e clima”. Neste trabalho, o termo orni-toáugures meteóricos foi utili-zado sem restringi-lo apenas às vocalizações, mas atribuin-do-lhe também qualquer com-portamento que transmitia a mensagem proposta, já que a
sua origem morfológica não especifica somente as vozes aviárias.
Como pode ser visto na Ta-bela I, algumas aves recebe-ram mais destaque na sua função bioindicadora. Anum-preto (C. ani), acauã (H. cachinnans), siriema (C. cristata) e fura-barreiro (N. maculatus) foram as espécies mais citadas.
Dmítriv (1984), citado por Marques (1999), afirma que “15 a 20% dos prognósticos fornecidos pelos serviços meteorológicos que utilizam métodos convencionais na China resultam errôneos, en-quanto que os prognósticos fornecidos pelo comportamen-to de um peixe, cujo nome vernáculo é ‘nemaquilo’, há muito tempo usado pelos camponeses chineses, falhari-am em apenas 3% dos casos”. Nas comunidades de Barro-ca, Cachoeira e Bom Sucesso existe uma observação diversi-ficada quanto o uso dos recur-sos naturais para fins meteoro-lógicos. Lucena (2002) regis-trou 19 espécies de plantas que prenunciam chuva. Araujo et al. (2002) também registra-ram algumas dessas plantas e Lucena et al. (2002) evidenci-aram mamíferos, répteis, anfí-bios e insetos com função bioindicadora de chuva. Como as aves avisam quando vai chover?
“Quando está perto do in-verno eles cantam, é cantan-do...” (Zé de Beiga, informan-te da comunidade Cachoeira). Os sinais-chave mais evi-dentes com valor informacio-nal que os moradores obser-vam nas aves para o prenún-cio de chuva são as vocaliza-ções. Segundo Marques (1999), elas abrangem várias categorias experimentais de percepção no cotidiano do “sertanejo/vaqueiro”; algumas das categorias de vocalizações obtidas neste trabalho podem ser evidenciadas no trabalho de Marques (1999) e Zenaide (1989).
Embora em menor número, foi registrado outros sinais-chave além de vocalizações,
com o mesmo valor meteóri-co-específico informacional. O fura-barreiro (N. maculatus) indica chuva através do seu “canto grosso”. Além disso, conforme relata Bento (infor-mante da comunidade Cacho-eira): “quando está perto de chover eles furam a barreira bem alto”. Segundo os infor-mantes, a altura de construção do refúgio do fura-barreiro também prenuncia a seca: “se ela furar baixo aí o ano é seco; se ela furar mais alto, é por causa que vai passar a chuva”. Ainda com relação à mesma ave, Zeca, da comuni-dade Bom Sucesso, faz o se-guinte comentário: “o fura-barreiro é outro profeta do agricultor, ele cava a barreira do lado contrário da chuva, se cavar do lado que vem a chu-va, não tem inverno”. (Inver-no (Inver-no sentido de tempo chu-voso). Magalhães (1952), Amorozo (1996) e Marques (1999) também registram aves com comportamentos, além de vocalizações, utilizados pe-las populações locais como sinais indicadores de chuva.
Na Tabela II estão eviden-ciados todos os ornitoáugures meteóricos citados nas entre-vistas e os respectivos sinais indicativos.
Sabedoria dos passarinhos... Verificam-se períodos em que a freqüência das obserções dos sinais-chave com va-lor informacional para o iní-cio das chuvas, atribuídos pe-los informantes, variam. Em dezembro, por exemplo, cerca de oito moradores começam a observar os sinais aviários e nos primeiros meses do ano seguinte esse número aumen-ta. Na Figura 2 tem-se a cor-relação entre essa freqüência de observações dos sinais avi-ários e a pluviosidade média da região. A correlação foi positiva e altamente significa-tiva com r²= 0,2598 e p<0,01. É nesse período que, de acordo com os entrevistados, ocorre o cruzamento e a pos-tura das aves citadas como bi-oindicadoras e da maioria das aves da região: “é tempo deles se cruzarem e eles põem” (Dona Nega, informante da comunidade Bom Sucesso); “na época do inverno tem pos-tura” (Arnaldo, comunidade Bom Sucesso); “andam em ca-sais e depois aparecem filho-tes, ai você vê muitos” (Sivu-ca, comunidade Barroca);” se acasalam nesse período” (Zé Rodrigues, comunidade Barro-ca); “tem o cruzamento do pe-TABELA II
ORNITOÁUGURES METEÓRICOS CITADOS PELOS INFORMANTES DE COMUNIDADES RURAIS DE SOLEDADE-PB E SEUS RESPECTIVOS SINAIS
INDICATIVOS DE CHUVA
Sinal indicativo de chuva Ornitoáugures meteóricos Acauã, anum-branco, anum-preto, azulão, cancão, codorniz, coruja, Vocalizações: Canto, choro, fura-barreiro, galo-de-campina, assobio, grito, piado. juriti, lavandeira, mãe-da-lua,
rolinha, sabiá, salta-caminho, siriema, tetéu.
Asa-branca, concriz, Reprodução e postura galo-de-campina,
rolinha cambute. Altura e aspecto do vôo Beija-flor, nego-tiziu,
e salto salta-caminho, sanhaçu.
Instalação do ninho Curica, papagaio, lavandeira, rolinha.
Surgimento na região Lavandeira, marreca, mergulhão, pato-d’água, ribaçã.
Instalação de um buraco de Fura-barreiro refúgio nas barreiras dos rios Xexéu-de-bananeira e barragens
ríodo de chuva,... são sabidos, porque se não matam os filhos de fome” (Antônio de Izidio, informante da comunidade Barroca).
A literatura registra que os cantos das aves, vocalizações mais longas e mais complexas, são diferentes dos seus chama-dos, e tais cantos, na maioria das espécies, são executados pelos indivíduos maduros se-xualmente, e só durante a es-tação reprodutiva (Sick, 2001; Pough et al., 2003).
Sabe-se que os sistemas de acasalamento dos vertebrados refletem a distribuição de ali-mentos e os locais de repro-dução (Pough et al, 2003). Com isso pode-se deduzir que a maioria dos informantes tem esse conhecimento adqui-rido ou confirmado por meio de observações. Como cita, respectivamente, Zé de Bega e Bento, informantes da co-munidade Cachoeira: “É quando tá pertim assim de chover, que eles canta assim, é pá mode eles ter os cruza-mento deles”. “Eles casa no inverno, e é o mesmo canto da indicação de chuva”.
Sick (2001) comenta que os fatores climáticos em geral, sobretudo a umidade atmosfé-rica, exercem influência no sentido de incentivar a ativi-dade reprodutora das aves, in-fluenciando conseqüentemente na atividade sonora.
O número de espécies de aves evidenciadas como ornitoáugures meteóricos, pe-los informantes, foi alto. Como existe também uma di-versidade de sinais observa-dos, sugere-se uma investiga-ção mais acurada quanto à re-lação da época de exibição desses sinais com o período chuvoso, sobretudo para aque-las espécies que obtiveram maior freqüência de citação. O Conhecimento e as Comunidades
As características das aves (tamanho, cor, alimentação, composição do ninho, número de ovos por ninho, tamanho e cor dos ovos) foram também relatadas pelos entrevistados, o que, juntamente com as
obser-Fig. 2: Relação entre a freqüência da observação dos sinais-chave com valor informacional para a chegada das chuvas e a média pluviométrica no município de Soledade, Paraíba, Nordeste do Brasil, durante 5 anos (1998-2002), fornecida pelo Laboratório de Meteorologia, Recursos Hídricos e Sensoriamento Remoto da Paraíba (LMRHS-UFCG). vações de algumas espécies nas
turnês guiadas, possibilitaram as identificações científicas.
A freqüência das informa-ções sobre a existência de aves bioindicadoras de chuva encontra-se registrada na Fi-gura 3, mostrando que 80,65% dos entrevistados apresentaram um certo conhe-cimento sobre esses ornitoáu-gures meteóricos.
Não houve variação signifi-cativa quanto à freqüência de espécies citadas como ornito-áugures meteóricos entre as comunidades (Figura 4). Tal fato revela que esse conheci-mento é bem distribuído nas comunidades estudadas.
O conhecimento de ornito-áugures meteóricos demons-trado pelos moradores das comunidades de Soledade se-gue os caminhos percorridos na herança cultural (Nordi et al., 2001). Existe conheci-mento acumulado pelas expe-riências transmitidas pelos antepassados, o que foi a maioria: “O pai que me ensi-nou, no tempo dele já tinha essa idéia” (Bento, comuni-dade Cachoeira); o conheci-mento acumulado durante o contato social dentro do gru-po: “O povo diz se...” (Zilda, comunidade Cachoeira); e a própria observação acurada que cada um faz das varia-ções dos ciclos naturais: “... e constatei com experiência própria” (Armando e Antônio de Izidio, informantes da co-munidade Barroca).
CONCLUSÃO
Existe uma grande riqueza avefaunística na região de Soledade, sendo evidenciadas pelos informantes 139 espéci-es de avespéci-es. Despéci-essas, 30 são observadas pelos moradores das comunidades de Barroca, Cachoeira e Bom Sucesso como bioindicadores de chu-va. Esses moradores demons-tram um grande conhecimento sobre os sinais-chave, vocali-zações e outros comportamen-tos, relacionados ao presságio de chuva. Este conhecimento é transmitido de geração em geração e socialmente entre esses moradores.
Fig. 3: Freqüência do número de entrevistados quanto às suas informa-ções sobre os ornitoáugures meteóricos em comunidades rurais de Soledade, Brasil.
Figura 4. Comparação entre a freqüência de citação de ornitoáugure meteórico entre as comunidades rurais de Soledade. A: Barroca; B: Cachoeira; C: Bom Sucesso.
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Pode-se concluir, sabendo que comumente as aves têm mais de um tipo de canto, que os informantes observam o comportamento reprodutivo na formação dos casais de aves e atribuem, a tal, uma característica bioindicadora de “tempo bom”.
Os conhecimentos etnoorni-tológicos demonstrados nas três comunidades asseme-lham-se bastante, a ponto de poder-se afirmar que essa cognição é comum e contínua na região.
AGRADECIMENTOS Aos moradores das comuni-dades de Barrocas, Bom Su-cesso e Cachoeira por terem se prontificado a participarem desta pesquisa. Ao Laborató-rio de Meteorologia, recursos Hídricos de Sensoriamento Remoto da Paraíba, da Uni-versidade Federal de Campina Grande (UFCG) por os dados pluviométricos do município de Soledade. A Edlourdes Pontes de Medeiros por parti-cipar da coleta de dados no campo. Em memória: Genival Delfino de Almeida e Inácio Ramos (comunidade Barro-cas).
REFERÊNCIAS Albuquerque UP, Lucena RFP
(2004) Métodos e técnicas para coleta de dados. Em Al-buquerque UP, Lucena RFP (Orgs.) Métodos e Técnicas na
Pesquisa Etnobotânica. Editora
UPEEA/LivroRápido. Olinda, Brasil. pp.37-62
Amorozo MCM (1996) Um
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