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Uma Quaresma Com Santo Agostinho

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Academic year: 2021

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NOTA DO AUTOR

NOTA DO AUTOR

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à público como penitência minha naquela Quaresma. Assim permanecerão sendo.penitência minha naquela Quaresma. Assim permanecerão sendo.

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de 2016, deixarei os links para a leitura dessas colunas, se for a leitura dessas colunas, se for do seu interesse, caro leitor.do seu interesse, caro leitor.

Espero que essas meditações sejam de algum proveito.

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Uma Quaresma com Santo Agostinho

Uma Quaresma com Santo Agostinho

Santo Agostinho, levai-me à verdadeira conversão. Santo Agostinho, levai-me à verdadeira conversão.

1º dia da Quaresma 1º dia da Quaresma

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decidi me obrigar a publicar aqui algo da meditação decorrente da leitura, tpublicar aqui algo da meditação decorrente da leitura, todos os dias.odos os dias.

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conhecer, tem de antes buscar o que se pretende crer e conhecer.pretende crer e conhecer.

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encerra seu louvor e invocação e faço dela a minha também para toda a minha também para toda esta Quaresma:esta Quaresma:

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 perdoa aa teuteu servoservo osos alheios!alheios! Creio,Creio, ee porpor issoisso falo.falo. TuTu oo sabes,sabes, Senhor.Senhor. AcasoAcaso nãonão confesseiconfessei

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contigo, porque, se dás atenção às iniqüidades, Senhor, quem, Senhor, subsisti

contigo, porque, se dás atenção às iniqüidades, Senhor, quem, Senhor, subsistirá?" rá?" 

(trecho final do capítulo V)

(trecho final do capítulo V)

2º dia da Quaresma 2º dia da Quaresma

Meditação sobre os capítulos VI a

Meditação sobre os capítulos VI a XI, das Confissões, de Santo Agostinho.XI, das Confissões, de Santo Agostinho.

“DeDeixixaa qqueueeueufafalele,,ppororqqueueéé àà tutuaa mimiseseriricócórdrdiaiaququee fafalolo,, ee nnãoãoaaoo hhoomemem,m,qquuee dedemimimm esescacarnrnecece”e”,,

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Como é difícil imaginar isso... Agostinho não fala para nós, para homens. Seu leitor é O Leitor, A Misericórdia, o que impõe para nós a obrigação de nos colocar perante Ele também. Sem isso, o “deixa que eu fale” se torna apenas “modo de dizer” e não o que significa realmente, literalmente. Sem isso, não há como imaginar o que se passa aqui, o que se conta, do que se trata. Parecerá leitura de uma mistura engenhosa de “tratado de filosofia” com “autobiografia”. Ao inferno com isso, confissão não é essa confusão não.

************

Mas como me colocar no lugar de Agostinho, perante Ele? Agostinho era, bem, Santo Agostinho. E eu, que mal e mal O procuro sem ter certeza de ter encontrado e se acho que encontrei logo sinto que perdi, como se fosse as chaves do carro guardadas na bolsa da esposa? “Deixa que eu fale”... Deixa que eu fale porque é a Ti que procuro, ainda que como homem que, desconfio, no fundo está a escarnecer de tudo isso. É, esse Ti aí só pode ser A Misericórida mesmo.

*************

A primeira infância. De fato, nossa origem é uma história que nos contam, não uma memória  pessoal. Como é uma história a da origem de nossos pais, e dos pais deles, e dos pais dos pais deles,

até chegarmos na origem de todos os pais, de todas as coisas, da qual nada sabemos senão uma história também, seja a do Gênesis, seja a do big bang (sim, é história também). E o que isso significa? Que na origem jaz um mistério. Um mistério que, se permite ser nomeado de maneiras as mais diversas, sendo Deus a mais conhecida e comum, se apresenta para nós não como história, mas como presença real. O mistério que causa a origem não fica na origem, mas permanece. Basta parar  alguns instantes, calar por dentro e por fora, dar atenção ao que se apresenta para se constatar essa  presença, essa presença chamada vida animando o que, por exemplo, chamamos de árvore,

cachorro, montanha, mar, filho etc.

“Com efeito, és sumo, e não te mudas, nem caminha para ti o dia de hoje, apesar de caminhar por  ti, apesar de estarem em ti com certeza todas estas coisas, que não teriam caminho por onde passar   se não as contivesses. E porque teus anos não fenecem, teus anos são um perpétuo hoje. Oh!

Quantos dias nossos e de nossos pais já passaram por este teu hoje, e dele receberam sua duração, e de alguma maneira existiram, e quantos passarão ainda, e receberão seu modo, e seu ser? Mas tu és sempre o mesmo, e todas as coisas de amanhã e do futuro, e todas as coisas de ontem e do  passado, nesse hoje as fazes, nesse hoje as fizeste. Que importa que alguém não entenda essas coisas? Que este alguém se ria, e diga: que é isto? Que se ria assim, e que prefira encontrar-te sem indagação do que, indagando, não te encontrar.”

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(trecho do cap. VI)

*************

Primeira menção a nosso Senhor Jesus Cristo, no capítulo XI. Ainda bem, não gosto de ficar  falando em “mistério”, fico parecido com esses pseudos por aí que enchem a boca para falar em  paraíso, vida eterna, Deus etc., mas mal conseguem falar o nome de nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim mesmo, nos-so Se-nhor Je-sus Cris-to, tudo junto sem separar, nosso Senhor Jesus Cristo. *************

 Não lembrava Agostinho quase morrera quando criança. Continuo não entendendo o adiamento do seu batismo, nem ele entendeu, aliás, pois terminou o capítulo perguntando a Deus, suplicando, o  por que disso, por que lhe deixarem soltas as rédeas do pecado. Mas ele sabe que foi sua mãe quem  preferiu fosse assim, como se ela soubesse que ele só seria de Deus se, antes, fosse engolido pelos  pecados, que desde o berço já cometia.

 Não é à toa tanta gente se identifica com essa parte da história dele, e somente com esta, porque se converter, batizar, crismar etc., aí, bom, aí é melhor deixar para depois, adiar, para quando for mais tranquilo, mais favorável. Falo como um desses, é claro.

"Senhor, olha misericordiosamente para essas coisas, e livra-nos delas a nós que já te invocamos; mas livra também aos que ainda não te invocam, a fim de que te invoquem, e sejam igualmente libertados."

(trecho do cap. X)

3º dia da Quaresma

Meditação sobre os capítulos XII a XX, finalizando o Primeiro Livro das Confissões, de Santo Agostinho.

Fico imaginando Agostinho vivendo hoje em dia, "postando" o que confessou nesses capítulos, do quanto os primeiros estudos valeriam pelo aprender a ler, escrever e contar, mas não pelo estudo das “letras”, ou seja, Homero, Virgílio etc. Não, não tem “senão” aqui, ele foi bem claro, perguntando: “ se lhes perguntar o que seria mais prejudicial para a vida humana: esquecer o ler e o escrever, ou todas as ficções dos poetas, quem não vê o que logo responderia aquele que não estivesse de tudo esquecido de Ti?”

Até rio aqui, imaginando os volteios e saracuticos dos que idolatram a alta cultura tentando demonstrar que Agostinho não disse o que disse, assim como me deprime imaginar a alegria

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carnavalesca com que os que idolatram a ignorância sob a máscara da simplicidade dizendo: “Tá vendo? Não precisa! u-hu!”. Mas, na verdade, acho que quem entendeu o que Agostinho disse nem  perderá seu tempo brigando com ele ou se regozijando, ficará é matutando no quanto se está

esquecido de Ti, Senhor.

*************

O mais importante das confissões nesses capítulos, assim me parece, é o que vai no capítulo XV, quando Agostinho interpõe uma oração antes de terminar de falar dos estudos, suplicando “para que não desfaleça minha alma sob a tua lei”. Esse parar tudo que está fazendo e se dirigir a Deus,  pedindo força para continuar, é belo demais. Que tentações não deve ter sofrido ali, o temor de estar 

cometendo uma "heresia" ao falar mal dos estudos etc? Nas outras vezes em que li isso não me chamava a atenção, pelo contrário, irritava-me, porque interrompia a narrativa. O quanto estava, estou, esquecido de Ti, Senhor?

4º dia da Quaresma

Meditação sobre o Livro Segundo das Confissões, de Santo Agostinho.

Entra a adolescência e lá vem a avalanche dos imperativos da carne e os pecados correspondentes, luxúria à frente. Mas, em uma época como hoje, falar de luxúria atrai outro pecado, o da preguiça, no qual incorro.

Mais me interessou aqui a percepção de que Deus parece se calar quando fazemos do pecado um estado de vida. De fato, comigo pelo menos é assim, a sensação bem esta, de que Deus se calou, mas não foi embora. E quando notamos sua presença, normalmente no vazio que nos toma depois de pecar (seja lá qual for o pecado), ela costuma ser humilhante e somos tentados a fugir, ir mais longe, ficar distantes da sua misericórdia. Sim, filho pródigo etc. Por isso a pergunta certa quando nos damos conta da estupidez maior que é fugir depois de pecar, para continuar pecando, é a que Agostinho se faz: “onde estava eu?”.

Daí porque mais importante para ele não foi as trocentas agulhadas da luxúria, mas outro pecado que parece pouco ter a ver com isso, um único, e pequeno: o furto das pêras. Agostinho se serve deste pecado não pelo pouco valor das frutas, mas pelo que ele lhe revelou sobre a essência do  pecado e do pecador. Quando fugimos de Deus, fazemos do pecado um estado de vida, buscamos uma falsa liberdade e onipotência, ou seja, seguimos uma sombra que parece Deus. Eis o pecado do orgulho, da soberba, que “imita a altura”, que se constrói como um deus de si. Agostinho,

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voltando-se ao pecado do furto, enxergou a gratuidade do ato, a falta de causa por faltar finalidade. Por que, para que furtar as pêras, se ele não se deleitara com elas, tampouco no furto em si?

Há toda uma reflexão neste trecho a respeito da causa e finalidade do pecado e Agostinho descobre que, sozinho, não o teria cometido, mas que assim o fez pelo prazer da cumplicidade dos amigos que pecavam junto com ele. Antes, quanto à luxúria, ele havia percebido o mesmo:

“E, contudo, para não ser escarnecido, tornava-me mais viciado e, quando não houvesse cometido  pecado que me igualasse aos mais perdidos, fingia ter feito o que não cometera, para que não  parecesse mais abjeto quanto mais inocente, e tanto mais vil quanto mais casto.”

(trecho do capítulo III)

E aqui Agostinho me parece dizer quer a maior causa de pecado na adolescência, por não sabermos quem somos, para que e para quem somos, é o seguir a imagem e semelhança do grupo a que  pertencemos, daqueles que conosco caminham, muitas vezes tão cegos quanto. E aí pecamos diversas vezes, não por vontade própria de pecar, mas: “Só porque sentimos vergonha de não ser   sem-vergonha quando ouvimos: “Vamos! Façamos!”.

Talvez por isso seja neste livro segundo, quando fala da adolescência e da nossa necessidade de  pertencermos a algo ou alguém, que Agostinho revele a intenção de colocar suas confissões por 

escrito e publicá-las:

“ Mas, a quem conto eu estes fatos? Certamente, não a ti, meu Deus, mas em tua presença conto estas coisas aos da minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas páginas chegassem às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler, pensemos na profundeza do abismo de onde temos de clamar por ti? E que há de mais próximo a teus ouvidos que o coração contrito e a vida que procede da fé?”

(trecho do capítulo III)

Porque há aqui um convite e uma convocação. Sejamos dessa estirpe dos pecadores QUE CONFESSAM, dos que mergulham na profundeza do abismo para de lá só voltar pela mão de Deus, de tanto clamar por Ti, Senhor!, e não que de lá voltem por "vontade própria", o que os faz tão-somente mais soberbos do que antes. Por isso a ação de graças dada neste capítulo já não é apenas dele, mas nos leva em conta, seus leitores possíveis de todos os tempos e lugares, para que sejamos da “sua” turma.

“Aquele, pois, que, chamado por ti, seguiu tua voz e evitou todas estas coisas que lê de mim, e que eu recordo e confesso, não se ria de mim por haver sido curado pelo mesmo médico que o

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 preservou de cair enfermo, ou melhor, de que adoecesse tanto. Antes, esse deve amar-te tanto e ainda mais do que eu, porque o mesmo que me curou de tantas e tão graves enfermidades, esse mesmo o livrou de cair no pecado.”

(trecho do capítulo VII)

5º dia da Quaresma

Meditação sobre os capítulos I a VI, do Livro Terceiro das Confissões, de Santo Agostinho.

Agostinho está com 19 anos, em Cartago, para realizar seus estudos cujo objetivo era “as contendas do foro”. Seu pai morrera dois anos antes. Ali, afundara-se no pecado a ponto de se aborrecer dele.  Nascia o desejo de amar e ser amado, o que até ocorreu, mas não indo além do deleite corporal, o que significa, em consequência, ser fustigado pelas “varas de ferro ardente do ciúme, das suspeitas, dos temores, das iras e das contendas”.

A frustração, o tédio, a dor eram aparentemente apaziguadas pela paixão dos espetáculos, pela catarse emocional de ver em cena suas “misérias e de alimento para o fogo da minha paixão”. Agostinho se sentia “atacado de ronha (sarna) asquerosa”, comprazendo-se, superficialmente, com suas dores, sem de fato purificá-las, “como acontece aos que coçam a ferida com as unhas”, terminando “por provocar em mim mesmo um tumor abrasador, podridão e pus repelente”.

Os estudos pouco faziam para conter isso ou ajudá-lo, pois seu sucesso apenas alimentava sua vanglória. Até que seguindo o programa de leituras chegou a um livro de Cícero, chamado Hortênsio, no qual o autor faz uma exortação à filosofia. Aí se deu uma primeira “metanoia”, ou  princípio dela. Porque o livro o conquistou não pelo benefício que poderia tirar dele para seu ofício (limar o estilo pessoal), mas pelo que dizia, pelo amor à Sabedoria que passou a arder no coração de Agostinho. Ali se começava a endireitar a “espinha” de Agostinho, ele começava a se reerguer,  porque enfim encontrara um caminho verdadeiro, que o chamava à Sabedoria, à busca da verdade  pela verdade, não pelos benefícios que dela poderia auferir. E é isso que ele confessa aqui, que: “Só me deleitava naquelas palavras de exortação, o fato de me excitarem fortemente, inflamando-me a amar, a buscar, a conquistar, a reter e a abraçar não a esta ou àquela seita, senão à própria Sabedoria, onde quer que estivesse.”

Acho que sei bem do que ele está falando aqui, passei por algo semelhante quando me deparei com o livro “O Imbecil Coletivo”, de Olavo de Carvalho, em 1998. Eu “discordava” de diversas coisas no livro, mas havia nele um espelho tão nítido da realidade que eu vivera na faculdade e que eu via com meus próprios olhos no que se fazia na política, cultura etc, que era simplesmente impossível

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fugir da verdade, que me prendeu na leitura durante horas, sem conseguir parar. Dali por diante mudou tudo, a busca pela verdade só fez aumentar, tentando conquistar uma sinceridade e honestidade intelectual mínima o suficiente a me dar coragem para perseverar nesse caminho, apesar dos desvios inúmeros em que caí, dos quais só se retorna pela confissão mesmo, não tem  jeito.

E, tal como costuma acontecer nesses casos, Agostinho correu estudar a Sagrada Escritura, morada da Sabedoria, dando com a porta na cara, claro!, porque: “ Meu orgulho recusava sua simplicidade, e minha mente não lhe penetrava o íntimo”. Eu era pior, corri pra nada, menos ainda para a Bíblia. Tudo que lia era em busca de mim mesmo. Li caralhadas de livros e textos e apostilas e assisti e escutei aulas disso e daquilo, mas tudo buscando a mim mesmo, “my precious”.

 Não à toa levei mais de 10 anos pra sair do carrossel em que me enfiei, obrigando-me a reler quase tudo que já tinha lido, afinal, não tinha imaginação alguma para ir além das trevas da minha interioridade. Isso inclui o próprio Olavo de Carvalho, autor que seguramente mais li e acompanhei como aluno, com quem aprendi (aprendi mesmo) que só o exemplo arrasta, que é preciso ser de verdade para se dizer a verdade, senão, cairia em seduções como a do maniqueísmo, que Agostinho começa a falar aqui e desenvolverá nos próximos capítulos.

Agostinho fala do abraçar muitas seitas quando não se abraçou a Verdade. Seitas que nada mais são, no fim das contas, do que qualquer grupamento que diga: “Verdade! Verdade! - e, incessantemente,  falavam-me da verdade, que nunca existiu neles”, porque eram “homems que deliravam orgulhosos, demasiado carnais e loquazes”. Quantos não encontrei assim… Quanto tempo eu não fui assim…. Não que esteja na verdade e seja agora digno representante dela, Deus me livre de tamanha soberba. A diferença é que agora eu sei que não estou, que na descida “ até a profundidade do abismo, exaurido e devorado pela falta de verdade quando te buscava!” também “encontrei aquela mulher insolente e sem prudência - enigma de Salomão - que, sentada em uma cadeira à  porta de sua casa, diz aos que passam: encontrei aquela mulher insolente e sem prudência – 

enigma de Salomão – que, sentada em uma cadeira à porta de sua casa, diz aos que passam: Comei à vontade dos pães escondidos, e bebei da doçura da água roubada, a qual me seduziu por andar  eu vagando fora de mim, sob o império da vista carnal, ruminando em meu íntimo o que meus olhos haviam devorado.”

(trecho do capitulo VI)

Agostinho cita aí Provérbios 9,17. O versículo seguinte, o 18, diz assim: “Contudo, eles nem imaginam que exatamente ali residem os espíritos dos condenados à morte, que os seus convidados

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estão todos nas regiões mais profundas.”

Quando paro para pensar a sério nisso, nesse tempo, ai de mim!, não imaginava mesmo estivesse condenado, convivendo com mortos faladores e velhas paralíticas. “ E tudo isso, meu Deus - a quem me confesso porque te compadeceste de mim quando ainda não te conhecia - tudo por buscar-te, não com a inteligência - com a qual quiseste que eu fosse superior aos animais - mas com os  sentidos da carne. E tu estavas dentro de mim, mais profundo do que o que em mim existe de mais

íntimo, e mais elevado do que o que em mim existe de mais alto.”

Agostinho que me perdoe fazer uso de poetas, que ele não parecia lá muito fã se serviam para desviar da verdade e do Cristo, mas aqui penso não fazer isso ao citar um dos meus poemas  preferidos, “Nosso Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade, cuja primeira parte expressa o que

agora sinto:

Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro. Onde te ocultas, precária síntese,  penhor de meu sono, luz

dormindo acesa na varanda?

Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me

a cidade dos homens completos. Calo-me, espero, decifro.

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São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

 perderam o sentido, apenas querem explodir.

6º dia da Quaresma

Meditação sobre os capítulos VII a XII, do Livro Terceiro das Confissões, de Santo Agostinho. Agostinho lidou aqui com alguns dos erros e zoeiras dos maniqueus, turma da qual fazia parte naquela época dos seus 19 anos. Mas o magistral é como ele consegue nos fazer desinteressar deles, não desperta nossa curiosidade sobre eles, mas a desperta, isso sim, pelo roteiro que expõe a quem queira escapar de erros e heresias semelhantes. Algo como as migalhas de pão de João e Maria para  poder voltar para casa, ou o novelo de lã de Ariadne com o qual Teseu conseguiu sair do labirinto

depois de matar o minotauro. É genial.

Começou expondo a natureza do mal: “ privação do bem, até chegar ao seu limite, o próprio nada.” Como é por aí que se começa, conhecendo o próprio nada, isso significa encontrar, na realidade, o  princípio de nossa existência, “que há em nós, pelo qual a Escritura nos chama de imagem e  semelhança de Deus”. Eis o propósito de toda confissão, aonde Agostinho quer nos levar com a sua,

a encontrarmos esse princípio.

Por isso ele disse que, sem isso, “ Não conhecia tampouco a verdadeira justiça interior, que não  julga pelo costume, mas pela lei retíssima do Deus onipotente. Por ela se hão de formar os costumes dos países conforme os mesmos países e tempos, e sendo a mesma em todas as partes e tempos, não varia de acordo com as latitudes e as épocas”.

Por “verdadeira justiça” aqui entendo também toda busca por conhecimento da verdade etc. Ou seja, sem conhecer e reconhecer o fundamento de toda lei, moral, costumes, todo estudo e busca de aparente sabedoria, sobre tudo e todos, será fatalmente um erro, motivo de “perdição”. Por isso Agostinho “implicava” com o estudo dos poetas etc., porque não via ali esse fundamento. Daí

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 porque, quando alguém está animadíssimo com estudos quaisquer e não tem esse fundamento, dificilmente entende se alguém chegasse e falasse: “Meu filho, vai se confessar antes, senão, ferrou.”

Por isso o bispo disse à mãe de Agostinho, Santa Mônica, que sofria horrores vendo o filho se  perder e gostaria que alguém fizesse algo: “ Deixe-o – disse – e unicamente ore por ele ao Senhor!  Ele mesmo, lendo os livros dos hereges, descobrirá o erro e reconhecerá sua grande impiedade”. Que tremenda fé! Mônica ainda insistiu, e inspiradíssimo o bispo disse a famosa profecia pela qual Mônica se santificaria: “Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que não é possível que  pereça o filho de tantas lágrimas.” E assim ela ficou, durante 9 longos anos.

Eu me enfiei numa perdição semelhante anos atrás e nem sei quantas novenas a São Judas Tadeu minha esposa rezou para me tirar de lá. Não, ela não é santa, tampouco eu chego às sandálias de Agostinho, tampouco durou muito mais de dois, três anos, esse mergulho no erro - não contabilizando os anos de convalescência, no qual ainda me encontro. Mas reconheci esse roteiro dado por Agostinho aqui, esse dar a meia-volta e retornar pelo caminho errado que se seguiu, confessando tudo, até chegar ao próprio nada, suplicando por encontrar o que a Escritura chama de imagem e semelhança de Deus.

7° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. I a VII, do Livro Quarto, das Confissões, de Santo Agostinho.

Dos 19 aos 28 anos, época de perdição, Agostinho foi “ seduzido e sedutor, enganado e enganador, conforme minhas muitas paixões (...), mostrando-me aqui soberbo, ali supersticioso, e em toda  parte vaidoso”. Acho primoroso isso: “mostrando-me aqui soberbo, ali supersticioso, e em toda  parte vaidoso”. A carapuça serviu, claro.

Porém, nem bem começou a confessar seus desvios como professor de retórica e a atração da astrologia, tudo isso é interrompido - na verdade, desapareceu - pela morte de um grande amigo íntimo que conhecia desde a infância. A morte o desnorteou, Agostinho não soube lidar, odiando todas as coisas e só encontrando conforto nas lágrimas.

É uma experiência para mim próxima demais, perdi meu pai há dois anos, e do que Agostinho confessa aqui nada me tocou mais do que o capítulo VI todo, que ele inicia com uma pergunta que me calou fundo: “ Mas para que falar dessas coisas, se agora não é tempo de investigar, mas de me confessar a ti?”.

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E é bem isso, com a morte próxima não é tempo de entender, embora entender seja tudo que queremos nessas horas. É tempo de confessar. Eu entendo isso, porque nada é comparável à morte  para nos devolver o senso da realidade da nossa miséria. É a mais oportuna de todas as épocas para

encontrar a Misericórdia. Como disse Agostinho:

“ Eu era miserável, como o é toda alma prisioneira do amor pelas coisas temporais; se sente despedaçar quando as perde, sentindo então sua miséria, que a torna miserável antes mesmo de as  perder. Assim é como eu era então e, chorando muito amargamente, descansava na amargura. E 

como era miserável! Contudo, mais que o amigo caríssimo, eu amava minha vida miserável,  porque embora desejasse mudá-la, não queria perdê-la como ao amigo, não sei se gostaria de  perdê-la por ele (...). Mas não sei que novo sentimento nascera em mim, muito contrário a este:  sentia pesado tédio de viver, e ao mesmo tempo tinha medo de morrer. Creio que quanto mais amava o amigo tanto mais odiava e temia a morte, como inimigo feroz que mo havia arrebatado;  pensava que ela acabaria de repente com todos os homens, como o fizera com ele. Este era meu

estado de espírito, pelo que me lembro.

 Meu Deus, eis aqui meu coração, eis seu conteúdo! Olha para o meu passado, porque sei, esperança minha, que me purificas da impureza desses afetos, atraindo para ti meus olhos, e libertando meus pés dos laços que me aprisionavam. Maravilhava-me de que sobrevivessem os outros mortais a seus amados se nunca houvessem de morrer; e mais me maravilhava ainda de que, morto ele, eu continuasse a viver, porque eu era outro ele. Bem disse um poeta quando chamou ao amigo “metade da sua alma”. E eu senti que minha alma e a sua não eram mais que uma em dois corpos, e por isso causava-me horror a vida, porque não queria viver pela metade; e ao mesmo tempo tinha muito medo de morrer, para que não morresse de todo aquele a quem eu tanto amara ”. Para que não morresse de todo aquele que eu tanto amara… Daí o apego à memória, tornada inteira saudade, do procurar o consolo das lágrimas, de não conseguir seguir adiante. Bem sei como é. E como ele disse no capítulo seguinte: “ E se minha alma deixava de chorar, logo pesava sobre mim o  grande fardo da desgraça. A ti, Senhor, deveria ser elevada, para ter cura. Eu o sabia, mas não o queria nem podia. Tanto mais que, ao pensar em ti, não tinha em mente algo sólido e firme, mas um  fantasma, o meu erro. Se nele tentava descansar minha alma, logo deslizava como quem pisa em  falso, e caía de novo sobre mim. Eu era para mim mesmo uma infeliz morada, na qual era ruim e da qual não podia sair. E para onde iria meu coração, fugindo de si mesmo? Para onde fugir de mim mesmo? Para onde não me seguiria?”

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que isso deu. Eu não fugi, fiquei onde estava, na infeliz morada de minha alma fantasmal, tornando-me um fardo aos que me amam. Mas, sem isso, jamais teria exorcizado o fantasma de Deus dentro de mim, para enfim ficar diante do nada que eu sempre fui. Amém.

8° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. VIII a XII, do Livro Quarto, das Confissões, de Santo Agostinho.

Confessar a dor e desorientação causada pela morte próxima levou Agostinho, era inevitável, a meditar a respeito. Copiar e colar vale mais do que qualquer paráfrase aqui:

“ Mas, por que me penetrara aquela dor tão profundamente, até o mais íntimo de meu ser, senão  porque derramei minha alma sobre a areia, amando a um mortal como se não o fora?” (cp. VIII)

“ Embora nem tudo envelheça, tudo perece. Logo, quando os seres nascem e se esforçam para existir, quanto mais depressa crescem para existir, tanto mais se apressam para deixar de existir.  Esta é a sua condição.” (cp. X)

“ Lento é o sentido da carne, por ser da carne, mas essa é a sua condição. É suficiente para o que  foi criado, mas não o é para reter o curso das coisas, do princípio que lhes foi fixado, até o fim que lhes foi designado, porque em teu Verbo, que as criou, ouvem estas palavras: “Daqui até ali”. (cp; X)

“Ó Deus das virtudes! Converte-nos e mostra-nos tua face, e seremos salvos! Porque, para onde quer que se volte a alma humana, onde quer que se estabeleça fora de ti, sempre encontrará dor  (...)”. (cp. X)

Mas Agostinho ainda não havia se convertido e o consolo do tempo “ pouco a pouco restituía-me a meus prazeres de outrora, a que ia cedendo minha dor. Substituíam-na não novas dores, mas  sementes de novas dores.” (cp. VIII)

Que dizer, diante dessa floresta de dores que nos cerca e se multiplica? Miserere!

“Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza.” (Sl 50, versículo 12)

Amém.

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Meditação sobre os caps. XIII a XVI, do Livro Quarto, das Confissões, de Santo Agostinho.

Embora Agostinho tenha experimentado a morte e, com isso, para onde quer que se voltasse sempre encontrasse dor, pouco a pouco ia se restituindo a seus prazeres de outrora, a que ia cedendo sua dor. “Substituíam-na não novas dores, mas sementes de novas dores”, disse no capítulo anterior. O final deste livro quarto guarda uma meditação sobre a Beleza, pois como entender que pudesse haver prazer nesse caminhar para o abismo da morte sem que houvesse algo que atraísse nas coisas? “Caminhava para o abismo, dizendo a meus amigos: “Será que amamos algo que não é belo? E  que é o belo? E que é a beleza? Que é que nos atrai e apega às coisas que amamos? Pois, com certeza, se nelas não houvesse certa graça e formosura, não nos atrairiam.” (cp. XIII)

“ Mas não atinava com a chave de tuas artes em tão grandes obras, ó Deus onipotente, único criador de maravilhas. Vagava minha alma pelas formas corpóreas, e definia o belo como o que agrada por si mesmo, e o conveniente como o que agrada por sua acomodação a outra coisa, e apoiava essa distinção com exemplos tomados dos corpos.” (cp. XV)

Mas se o Belo é algo que agrada por si, que relação teria com a Verdade e a Bondade?

“ Eis onde jaz enferma a alma que ainda não se apoiou na firmeza da Verdade. É levada e trazida, atirada e rechaçada, segundo os sopros das línguas que ventam dos peitos dos que opinam! E de tal modo a luz lhe é toldada, que não distingue a verdade, apesar de estar ela à nossa vista.” (cp. XIV)

Por isso, por considerar a beleza corpórea, “não podia ver nada semelhante na alma”, logo “julgava que tampouco seria possível ver minha alma”. Deus, então, que seria, senão corpo também?

“ Mas qual o fruto disso, se eu te concebia, Senhor meu Deus, ó Verdade, como um corpo luminoso e infinito, e eu como uma parcela desse corpo? Que rematada perversidade! Assim era eu; não me envergonho agora, meu Deus, de confessar tuas misericórdias para comigo, e de te invocar, já que não me envergonhei então de proferir ante os homens tais blasfêmias e de ladrar contra ti.” (cp. XVI)

E é por isso que aqui, ao lado dos seus primeiros livros escritos, referentes a essa investigação do Belo, Agostinho também trata dos seus estudos sobre a Verdade, falando das categorias de Aristóteles e das artes liberais, perguntando-se:

“ De que me aproveitava tudo isso, se até me prejudicava? Julgando que naqueles dez  predicamentos se achavam compreendidas, de modo absoluto, todas as coisas, esforçava-me por 

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compreender também a ti, meu Deus, Ser maravilhosamente simples e imutável, como se fosses  subordinado à tua grandeza e formosura, como se estas estivessem em ti como em seu sujeito, como  se fosses um corpo; tua grandeza e beleza são porém uma mesma coisa contigo, ao contrário dos corpos, que não são grandes ou belos por serem corpos, pois, embora fosses menores e menos belos, nem por isso deixariam de ser corpos.” (cp. XVI)

“ De que me aproveitava também ler e compreender por mim mesmo todos os livros que pude ter  nas mãos sobre as artes chamadas liberais, se eu era então escravo de minhas más inclinações? Comprazia-me em sua leitura, sem atinar de onde vinha quanto de verdadeiro e certo achava neles; eu estava de costas para a luz, e o rosto, para os objetos iluminados, e por isso

meus olhos, que os viam iluminados, não recebiam luz.” (cp. XVI)

Então, se a Beleza era apenas aparência vazia de Verdade, que sustentava o ser de Agostinho senão a Bondade divina?

“ Mas eu andava errante por meu orgulho e era arrastado por toda espécie de vento, embora em  segredo fosse governado por ti.” (cp. XIV)

10° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. I a VII, do Livro Quinto, das Confissões, de Santo Agostinho.

Agostinho chegou aos 29 anos de idade com sua adesão ao maniqueísmo por um fio. Repleto de dúvidas, nunca devidamente respondidas por quem deveria respondê-las, chegara o momento de, enfim, resolvê-las.

Depois de 9 anos, enfim conheceria o grande bispo maniqueu Fausto, o qual, segundo “Os demais adeptos, com os quais me encontrava casualmente, embaraçados com as objeções que eu lhes fazia, remetiam-me a ele que, à sua chegada, com uma simples entrevista resolveria facilmente todas aquelas dificuldades, e ainda outras maiores que me ocorressem, de maneira claríssima.” (cp. VI) Eis o relato de Agostinho sobre a primeira vez que viu Fausto:

“ Logo que chegou, pude notar que se tratava de um homem simpático, de fala cativante, e que expunha os temas comuns dos maniqueus, mas com muito mais agrado que eles. Mas, que interessava à minha sede este elegante copeiro de copos preciosos? Eu já tinha os ouvidos fartos daquelas teorias, e nem me pareciam melhores por serem expostas em melhor estilo, nem mais verdadeiras pela elegância de suas formas; nem eu considerava Fausto mais sábio por ter o rosto de mais graça e sua linguagem mais finura.” (cp. VI)

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Quando pôde lhe expor suas dúvidas, eis o ocorrido:

“Quando, enfim, o pude fazer, acompanhado de meus amigos, comecei a falar-lhe em ocasião e lugar oportunos para tais discussões, apresentando-lhe algumas objeções das que mais me  preocupavam. Vi então que se tratava de homem completamente ignorante das artes liberais, com

exceção da gramática, que conhecia de modo superficial .” (cp. VI) Mas Fausto estava longe de ser um impostor:

“ Mas, quando apresentei minhas dificuldades à sua consideração e crítica, com grande modéstia, não se atreveu a tomar sobre si tal encargo, pois certamente sabia que ignorava o assunto e não se envergonhava de confessá-lo. Não pertencia à classe de charlatães que me vi obrigado muitas vezes a suportar, que pretendiam ensinar-me tais coisas, mas não me diziam nada. Este, pelo menos, tinha coração, senão dirigido a ti, pelo menos não era incauto consigo mesmo. Não ignorava totalmente sua ignorância, razão pela qual não quis meter-se temerariamente em questões de onde não pudesse sair, ou de mui difícil retirada. Por isso mesmo cresceu aos meus olhos, por ser a modéstia de uma alma que se conhece muito mais bela que o saber que eu desejava; e em todas as questões mais difíceis e sutis o encontrei sempre com igual ânimo.” (cp. VII)

A partir dali Agostinho já não era mais maniqueu, embora continuasse ainda fazendo parte da seita  por um tempo: “ Foi assim que aquele Fausto, que havia sido para muitos laço de morte, começava

involuntária e inconscientemente a desfazer o laço que me enredara.” (cp. VII)

Fico tentando imaginar como era essa seita dos maniqueus. Quem nunca caiu em uma costuma considerar os que caíram como tolos, idiotas, “como puderam entrar nisso” etc. Desconfio seja  justamente esses tipos que dizem isso os que mais caem nessa, porque é óbvio que, uma vez desfeito o feitiço da seita, ficando evidente o seu erro, maluquice, maldade etc., é fácil perceber  essas mesmas coisas. Mas quando ela se criava, por óbvio, não parecia assim, pelo contrário.

Por isso, conhecer o maniqueísmo pela exposição dos seus erros, das suas maldades, não pelo que levou Agostinho a cair no erro, é não compreender a experiência pela qual ele passou. Tenho dificuldade, ao menos até aqui, para imaginar essa experiência, mas não aquela que o levou a sair  fora da seita. A experiência da sensação constante de perceber algo errado, mas de só você enxergar  e não conseguir expressar ou resolver, nem ter com quem falar, com quem contar. A experiência de suportar essa tensão por anos, solitário, sem amortecer por completo sua intuição, sua capacidade de “ver com seus próprios olhos”, ou seja, sem ter a inteligência completamente embotada.

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falsa Verdade, restando apenas a Bondade de Deus a lhe conduzir na vida, eis aqui essa Bondade encarnada nesta impossibilidade de aceitar a mentira, a falsidade e o erro, ainda que isso fosse lhe tornar a vida aparentemente melhor e mais fácil, ainda que a Verdade não lhe fosse revelada.

Acontecia, portanto, quase exatamente como aquele Bispo falara à sua mãe, que um dia o próprio Agostinho se daria conta do erro dos maniqueus e de lá sairia. Quase, porque não era bem o próprio Agostinho quem se dava conta.

11° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. VIII a XIV, do Livro Quinto, das Confissões, de Santo Agostinho.

Com a desilusão com os maniqueus, Agostinho decidiu ir a Roma. Esses últimos capítulos deste livro quinto, até aqui, foram os melhores para enxergar a “divina comédia” na vida de Agostinho. Mesmo a molecagem com sua mãe, fugindo para Roma e acrescentando ainda mais sofrimento à  pobre Mônica, pode ser vista à luz do “final feliz” que aqui se anuncia sem se mostrar.

É engraçado, por exemplo, ler suas críticas aos alunos de Cartago, crente que em Roma seriam melhores e aí, quando chega lá, constatar que não eram, sendo apenas diferentes nos seus vícios, mas continuando, todos, sendo brasileiros, se é que me entendem.

Ainda em Roma ocorreram as últimas batalhas interiores contra o erro maniqueísta, para nós hoje tão, digamos, “bobo”. Por isso, encantou-me o modo como ele, de certa forma, encerra esse assunto, dizendo: “Sem dúvida agora teus fiéis irão sorrir, branda e amorosamente, se lerem essas minhas confissões; mas eu, realmente, era assim.” (cp. X)

Frustrado também em Roma, decidiu tentar melhor sorte em Milão, onde conheceu o Bispo Ambrósio, o futuro Santo Ambrósio, a quem: “ A ele era eu conduzido por ti sem o saber, a fim de que ele me conduzisse a ti conscientemente”. (cp. XIII)

Aqui começava a nova batalha de Agostinho, da sua conversão ao catolicismo, a qual, por óbvio,  parecia ter de se dar pela via intelectual: “ Assim, se de um lado a fé católica não me parecia

vencida, contudo ainda não me parecia vencedora” (cp. XIV)

Como são lentos os caminhos da nossa razão, se comparados aos do coração. Porque, embora dissesse isso, na prática Agostinho resolveu “tornar-se catecúmeno na Igreja Católica, que me havia sido recomendada por meus pais, até que alguma claridade certa viesse dirigir meus passos. (cp. XIV)

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12° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. I a V, do Livro Sexto, das Confissões, de Santo Agostinho.

E lá foi dona Mônica a Milão, atrás de Agostinho. É impressionante a determinação dela e o quanto seu exemplo foi absolutamente decisivo na conversão do filho. Não teria havido Santo Agostinho se antes não houvesse Santa Mônica.

Ela encontrou o filho “ senão na posse da verdade, já afastado do erro. E como estava certa de que me concederias o que faltava – pois lhe havias prometido a graça total – respondeu-me, com muita calma e com o coração cheio de confiança, que esperava em Cristo que, antes de sair desta vida, me havia de ver católico fiel.” (cp. I)

Agostinho já não era maniqueu, mas sua aproximação ao catolicismo se dava mergulhando num mar de dúvidas, algo tão crítico que se considerava um “ filho que duvidava de tudo, e julgava impossível achar o caminho da vida.” (cp. II)

Eis o fruto do maniqueísmo. No capítulo V, deste livro sexto, encontramos algo que nos ajuda a compreender melhor o maniqueísmo, por permitir uma comparação com um erro análogo atual, o dos cientificistas que, tanto quanto os maniqueus: “desprezavam a fé, e prometiam, com temerária arrogância, a ciência, para depois nos obrigarem a acreditar em uma infinidade de fábulas completamente absurdas, impossíveis de demonstrar .” (cp. V)

O problema maior de Agostinho era, então, que: “ Na oração, eu ainda não implorava o teu socorro, mas meu espírito achava-se ocupado em investigar e inquieto por discutir .” (cp. III)

Portanto, a falsa oposição entre fé e ciência, ou fé e razão, tão familiar para nós, era a verdadeira razão para o sofrimento de Agostinho:

“ Abstinha-se meu coração de aderir a qualquer doutrina, temendo cair em um precipício; mas esta  suspensão matava-me muito mais, porque queria estar tão certo das coisas que não via como o estava de que sete e três são dez. Eu não estava tão louco para pensar que a inteligência alcançaria tal evidência. Mas, assim como entendia isso, queria entender igualmente as outras verdades, quer fossem materiais, que não tinha presentes a meus sentidos, quer espirituais, nas quais não sabia pensar senão de modo material.

 É verdade que poderia sarar pela crença, e assim, purificado pela fé o olhar de meu espírito,  pudesse dirigir-se de algum modo à tua verdade, sempre imutável e indefectível. Mas, como sói acontecer a quem caiu nas mãos de um médico ruim, e que depois receia as mãos de um bom,

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assim me sucedia quanto à saúde de minha alma que, não podendo sarar senão pela fé, recusava-se a sarar por temor de crer, novamente, em falsidades. Minha alma resistia às tuas mãos, ó meu  Deus, que preparaste o remédio da fé, e o derramaste sobre as enfermidades da terra, dando-lhe

tanta autoridade e eficácia.” cp. IV)

Hoje em dia é comum se acreditar que a crença, a fé, equivaleria a uma desistência da razão, a um “salto no escuro”. Tolice. Basta trocar de “objeto” e perceber que se vive muito mais com base na fé e na crença do que na razão tal como essa gente a entende. Por exemplo, quem garante você não morrerá agora, neste exato instante? Ninguém, você vive na fé de que isso não acontecerá. Ou seja, a fé é “inevitável”, racionalmente falando. E é pela razão que Agostinho vai dissolvendo o seu temor da fé:

“ Depois, com suavidade e misericórdia, começaste, Senhor, a cuidar e à preparar aos poucos o meu coração, e foi aceitando tudo o que eu acreditava sem o ter visto, e a cuja realização não  presenciara. Tantos fatos da história dos povos, tantas notícias sobre lugares e cidades que não vira, tudo o que aceitava acreditando em amigos, em médicos e em outras pessoas que, se não as acreditássemos, não poderíamos dar um passo na vida. E, sobretudo, que fé inabalável eu tinha em  ser filho de meus pais, coisa que não poderia saber sem prestar fé no que ouvia. Então me convenceste de que os dignos de censura não são os que acreditam em teus livros, cuja autoridade estabeleceste entre quase todos os povos, mas o que não crêem neles. E eu não devia dar ouvidos ao que talvez me dissessem: “Como sabes que esses livros foram dados aos homens pelo Espírito de Deus, único e verdadeiro?” Ora, era precisamente isto o que eu devia crer, porque nenhuma objeção caluniosa ou agressiva, das que eu havia lido nos escritos contraditórios dos filósofos, nunca conseguiram arrancar-me a certeza de tua existência, embora ignorasse o que eras, e a certeza de que o governo das coisas humanas está em tuas mãos.” (cp. V)

13° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. VI a X, do Livro Sexto, das Confissões, de Santo Agostinho.

 Nestes capítulos Agostinho nos apresenta Alípio, seu grande amigo e discípulo. A passagem que mais me lembro do livro está aqui. Alípio amava morbidamente o circo. Por influência de Agostinho se emendou, não mais querendo saber dessas coisas, até que se viu levado por amigos a assistir um espetáculo de gladiadores.

Acho genial a descrição de Agostinho do que aconteceu. Alípio, crente que havia vencido o vício, achou-se o fodão: “ Mesmo que arrasteis para lá meu corpo, e o retenhais ali, podereis por acaso

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obrigar minha alma e meus olhos a contemplar tais espetáculos? Estarei ali como ausente, e assim triunfarei deles e de vós”. (cp. VIII)

Resultado? Depois de uns gritos da torcida não se aguentou e: “Contemplou o espetáculo, gritou, apaixonou-se, e foi contaminado de louco ardor, que o estimulava a voltar, não só com os que o haviam levado, mas à sua frente, e arrastando a outros.” (cp. VIII)

De que adianta baixar decretos sobre seus vícios, conquistar “à força” algumas virtudes, se tenta-se fazer isso por conta própria? A luta contra os vícios é sempre perdida assim. Somente pela entrega confiante na misericórdia divina é que se pode vencê-los, não porque sejam exterminados, mas  porque se adquire a prudência de vigiar as tentações, delas fugir e, caso nelas se caia, não perder 

muito tempo se refestelando no pecado, mas logo levantar, confessar e seguir adiante.

Por isso Agostinho completou assim seu relato sobre essa passagem de Alípio: “ Mas tu te dignaste, Senhor, livrá-lo deste estado com mão forte e misericordiosa, ensinando-o a não confiar em si, mas em ti, embora isto acontecesse muito tempo depois.”

E aqui me parece haver uma lição muito importante. Porque assim como se pode, por soberba,  baixar decretos acreditando nunca mais cair nos mesmos erros, também pela mesma soberba se  pode tentar levantar rapidamente do pecado tornado vício. Em ambos casos, a soberba só levará a novas quedas, ainda piores. O tempo da conversão, da cura, pode demorar muito mais do que se imagina e se espera. Não é à toa que se chama “via purgativa” o primeiro caminho a ser tomado com a conversão. Mônica já esperava há mais de 9 anos pela conversão de Agostinho. Agostinho sofria há anos com suas dúvidas terríveis.

Por isso Agostinho disse, em capítulos anteriores, que: “ Na oração, eu ainda não implorava o teu  socorro, mas meu espírito achava-se ocupado em investigar e inquieto por discutir .”

 Não é fácil aprender isso, a implorar o socorro de Deus, sempre e antes de tudo. Até para aprender  isso é preciso implorar, sempre e antes de tudo, o socorro de Deus.

14° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. XI a XVI, do Livro Sexto, das Confissões, de Santo Agostinho.

Agostinho chega aos 30 anos dividido entre Deus e o mundo. De todos os bens mundanos, o mais difícil dele se ver privado era o “das carícias da mulher”. Creio não haver pecado mais comum e familiar do que este, hoje em dia. Por onde quer que se vá nossa conscupiscência não apenas é aguilhoada, como satisfazê-la se tornou a norma. Por essa norma Agostinho também vivia.

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Agostinho tinha sua mulher, já de anos, com quem tinha um filho, Adeodato, então com 12. Entretanto, com ela não poderia se casar - não se explica as razões para o impedimento -, razão pela qual decidiu por outra, pelo que entendi escolhida por sua mãe. Tornada amante, aquela que “partilhava o leito” aceitou o fim do relacionamento, voltando para a África, prometendo jamais conhecer outro homem e deixando Adeodato com Agostinho.

 Naquela época, a idade núbil era a partir dos 12 anos. A escolhida para o casamento tinha 10, então, ainda levaria 2 anos para isso se concretizar. Quem disse Agostinho aguentou esperar?

“ Mas eu, desgraçado, fui incapaz de imitar aquela mulher. Estava impaciente pelo prazo de dois anos que deveria transcorrer até receber por esposa aquela que pedira em casamento – e porque eu não era amante do matrimonio, mas escravo da sensualidade – procurei pois outra mulher, não como esposa, mas para alimentar e manter íntegra ou agravada a doença da minha alma, sob a tutela do meu hábito, até que contraísse matrimonio.” (cp. XV)

Agostinho confessa que não tinha interesse no matrimônio pelo que tem de belo e honesto, mas apenas para saciar sua incansável concupiscência. Triste miséria humana. Como se curar, então? “ Não pensava ainda no remédio de tua misericórdia, que cura esta enfermidade, porque nunca o havia experimentado. Julgava que a continência fosse obra de nossa própria força, que eu pensava não ter. Eu era bastante néscio para ignorar que ninguém, como está escrito, é casto sem que tu lhes dê a força. Essa força certamente ma darias se eu ferisse teus ouvidos com os gemidos de minha alma, e com fé firme lançasse em ti meus cuidados.” (cp. XI)

Repete-se, portanto, o que ele vinha dizendo por todo este livro sexto, que “ Na oração, eu ainda não implorava o teu socorro”. Logo, “nada havia que me fizesse sair do profundo abismo dos  prazeres carnais, a não ser o medo da morte e de teu juízo futuro, que jamais saiu do meu peito, através das várias doutrinas que segui.” Mas esse medo ainda não era forte o suficiente, o pecado vencia.

Contudo, voltando o olhar a esse época, por causa destas confissões, Agostinho conseguiu enxergar  o quanto, na verdade, o que parecia ser um “acordo” com sua conscupiscência serviria também para Deus curá-lo. São cenas dos próximos capítulos, mas desde já é preciso fazer:

“ Louvor e glória a ti, ó fonte das misericórdias! Eu me tornava cada vez mais miserável, e tu te aproximavas cada vez mais de mim. Já estava junto de mim tua destra, para me arrancar do lodo dos meus vícios, e me purificar, e eu não o sabia.” (cp. XVI)

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15° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. I a VII, do Livro Sétimo, das Confissões, de Santo Agostinho.

Se no Livro Sexto Agostinho confessou que precisava suplicar o socorro de Deus, mas assim não fazia, ocupando-se em investigar Deus, neste sétimo trata dessa investigação, começando pela idéia que fazia de Deus.

Ele já não incorria no erro maniqueu de imaginá-lo com forma humana, mas “imaginava-te como um Ser imenso, penetrando por todas as partes, através dos espaços infinitos, toda a massa do mundo, alastrando-se sem limites na imensidão, de sorte que a terra, o céu e todas as coisas te continham, e tudo isso tinha em ti seu limite, sem que te limitasses em parte alguma. ” (cp. I)

Mas como imaginar um ser assim? Não há como fazê-lo sem uma base corporal, apelando a analogias imperfeitas que forneçam imagens aproximativas, como, por exemplo: “como a massa do ar – deste ar que está sobre a terra – não impede a passagem da luz do sol, não o impede de a atravessar, de a penetrar sem romper ou cortar, antes enchendo-a totalmente, assim eu pensava que não somente a substância do céu, do ar e do mar, mas também a da terra se deixava atravessar  e penetrar por ti em todas as suas partes, grandes e pequenas, que receberiam tua presença, que, com secreta inspiração, governa interior e exteriormente tudo o que criaste.” (cp.I)

O porém aí é que uma imagem assim parece dizer que quanto maior o corpo, mais Deus estaria ali  presente, e quanto menor o corpo, menos Deus estaria ali, o que seria absurdo afirmar, afinal, um elefante não contém “mais” Deus do que uma formiga. Deus está em tudo e por toda parte, Ele esta inteiro sempre, sem se deixar conter onde está. Ou seja, ainda que já não confundisse Deus com uma forma humana, Agostinho ainda dependia de uma base corporal para imaginá-Lo.

Assim, descarnando Deus dessas imagens, vem a idéia de um ser incorruptível, inalterável, absolutamente imutável e inabarcável, criador de todas as coisas.

“Todavia, faltava-me ainda uma explicação, a solução do problema da causa do mal.” (cp.III) Começou, então, sua investigação sobre o mal:

“ Esforçava-me por compreender a tese que ouvira professar, de que o livre-arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal, e de teu reto juízo é a causa do mal que padecemos. Mas era incapaz de entendê-lo com clareza.” (cp. III)

Sucede-se, então, um furacão de perguntas:

“ Mas de novo refletia: “Quem me criou? Não foi o bom Deus, que não só é bom, mas a própria bondade? De onde, então, me vem essa vontade de querer o mal e de não querer o bem? Seria

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talvez para que eu sofra as penas merecidas? Quem depositou em mim, e semeou minha alma esta  semente de amargura, sendo eu totalmente obra de meu dulcíssimo Deus? Se foi o demônio que me criou, de onde procede ele? E se este, de anjo bom se fez demônio, por decisão de sua vontade  perversa, de onde lhe veio essa vontade má que o transformou em diabo, tendo ele sido criado anjo  por um Criador boníssimo?” (cp. III)

“Onde está pois o mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo? Qual é a sua raiz e sua  semente? E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que atormenta e espicaça  sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é certo que não há razão para temer.  Portanto, ou o mal que tememos existe, ou o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal   se Deus, que é bom, fez boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo, criou  sem dúvida bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de que se serviu  para a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização, deixou nela algo que não

converteu em bem?” (cp. V)

“ E por que isto? Acaso, sendo onipotente, não podia mudá-la, transformá-la toda, para que não restasse nela semente do mal? Enfim, por que se utilizou dessa matéria para criar? Por que sua onipotência não a aniquilou totalmente? Poderia ela existir contra sua vontade? E, se é eterna, por  que deixou-a existir por tanto tempo no infinito do passado, resolvendo tão tarde servir-se dela  para fazer alguma coisa? Ou, já que quis fazer de súbito alguma coisa, sendo onipotente, não  poderia suprimir a matéria, ficando ele só, bem total verdadeiro, sumo e infinito? E, se não era conveniente que, sendo bom, não criasse nem produzisse bem algum, por que não destruiu e aniquilou essa matéria má, criando outra que fosse boa e com a qual plasmar toda a criação?  Porque ele não seria onipotente se não pudesse criar algum bem sem a ajuda dessa matéria que

não havia criado.” (cp. V)

E você aí, crente que todo crente não ousa fazer essas perguntas sobre Deus, o mal etc., dando tudo  por resolvido pela fé. Sabe de nada, inocente. Durma com o barulho dessas dúvidas hoje.

16° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. VIII a XIV, do Livro Sétimo, das Confissões, de Santo Agostinho.

O problema de Agostinho com a causa do Mal derivava, primeiro, do erro de considerar o Mal uma substância tanto quanto o Bem, o famoso “dualismo maniqueísta”. Abandonando esse erro, retornou à substância única, ao Deus onipotente, incorruptível, inalterável, absolutamente imutável e inabarcável, criador de todas as coisas, levado a isso pela leitura dos neoplatônicos.

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“Vi pois, e foi para mim evidente, que tu eras o autor de todos os bens, e que não há em absoluto  substância alguma que não tenha sido criada por ti. (...) De onde se segue que, enquanto as coisas existem, elas são boas. Portanto, tudo o que existe é bom; e o mal, cuja origem eu procurava, não é uma substância, porque se o fosse seria um bem.” (cp. XII)

Logo, o Mal é uma privação do Bem, um Bem que se corrompeu.

“ E assim, se algo for privado de todo o bem, deixará totalmente de existir. E se algo subsistisse sem  já poder ser corrompido, seria ainda melhor, porque permaneceria incorruptível. E haverá maior 

absurdo do que afirmar que uma coisa se torna melhor pela perda de todo o bem? Logo, ser   privado de todo o bem é o nada absoluto.” (cp. XII)

Mas não foi propriamente pela filosofia que Agostinho compreendeu essas coisas. Por essas leituras e meditações Deus o conduziu para dentro dele, Agostinho, ao mais profundo do seu coração, onde encontrou não o Nada, mas “algo que existe”, o próprio Bem, ou seja, o próprio Deus. Essa descoberta de Deus é relatada em uma das mais belas passagens de suas Confissões:

“ Entrei, e vi com os olhos da alma, acima desses mesmos olhos, acima de minha inteligência, a luz imutável; não esta vulgar e visível a todos os olhos de carne, nem outra do mesmo gênero, embora maior. Era muito mais clara e enchendo com sua força todo o espaço. Não, não era esta luz, mas uma luz diferente de todas estas. Ela não estava sobre meu espírito como o azeite sobre a água, como o céu sobre a terra, mas estava acima de mim porque me criou; eu lhe era inferior por ter   sido criado por ela. Quem conhece a verdade conhece a luz, e quem a conhece, conhece a

eternidade. O amor a conhece!

Ó eterna verdade, amor verdadeiro, amada eternidade! Tu és meu Deus. Por ti suspiro dia e noite. Quando te conheci pela primeira vez, ergueste-me para me fazer ver que havia algo para ser visto, mas que eu ainda era incapaz de ver. E deslumbraste a fraqueza de minha vista com o fulgor do teu brilho, e eu estremeci de amor e temor. Pareceu-me estar longe de ti numa região desconhecida, como se ouvira tua voz do alto: “Sou o pão dos fortes; cresce, e comer-me-ás. Não me transformarás em ti, como fazes com o alimento da tua carne, mas tu serás mudado em mim”.

 E conheci então que “castigaste o homem por causa de sua iniqüidade”, e “que secaste minha alma como uma teia de aranha”, e eu disse: Porventura não existe a verdade, por não ser difusa  pelos espaços finitos e infinitos? E tu me gritaste de longe: Na verdade, Eu sou o que sou. E eu ouvi como se ouve no coração, sem deixar motivo para dúvidas; antes, mais facilmente duvidaria de minha vida que da existência da verdade, que se manifesta à inteligência pelas coisas da criação.” (cp. X)

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Amém.

17° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. XV a XXI, do Livro Sétimo, das Confissões, de Santo Agostinho.

A descoberta da presença de Deus trouxe a Agostinho um novo dilema, o de não conseguir   permanecer Nele:

“ Admirava-me de já te amar, e não a um fantasma em teu lugar, mas não era estável no gozo de meu Deus. Era arrebatado a ti por tua beleza, e logo afastado de ti pelo meu peso, que me  precipitava sobre a terra a gemer. Meu peso eram os hábitos carnais. Mas tua lembrança me acompanhava. Nem absolutamente duvidava da existência de um ser a quem eu devia me unir, embora não estivesse apto para esta união, porque o corpo, que se corrompe, sobrecarrega a alma, e a morada terrena oprime o espírito carregado de cuidados.” (cp. XVII)

Eis o fundamento concreto de todo drama moral digno do nome. Deus chama, convida, arrebata, mas não obriga a vir nem a ficar. E aí temos o peso da carne, do mundo, a manipulação sedutora e sugestiva do demônio a nos afastar, romper etc.:

“ Indaguei o que era a iniqüidade, e não achei substância, mas a perversão de uma vontade que se afasta da suprema substância, de ti, meu Deus – e se inclina para as coisas baixas, e que derrama  suas entranhas, e se intumesce exteriormente.” (cp. XVI)

Parece, então, que o livre arbítrio, a vontade no fim das contas, é a rainha e soberana aqui, podendo,  por força própria, caminhar e permanecer em Deus. Mas, não, não é assim que funciona. A vontade, sozinha, nada pode fazer, logo incorre nos mesmos erros: “(...) minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o desejo do  perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer .” (cp. XVII)

Somente uma vontade humilde suplicando o socorro de Deus é capaz de encontrar o caminho para Ele. E qual é esse caminho, senão Jesus Cristo?

“ Buscava um meio que me desse força necessária para gozar de ti, e não a encontrei enquanto não me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que está sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos, que chama e diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (cp. XVIII)

“ Não tendo humildade, eu não possuía Jesus, o Deus da humildade, e não atinava o que nos  poderia ensinar sua fraqueza. Porque teu Verbo, verdade eterna, dominando as criaturas mais

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 sublimes da tua criação, levanta a si as que se lhe sujeitam e, nas partes inferiores, construiu para  si, com o nosso lodo, uma humilde morada. Assim faz para humilhar e arrancar de si mesmos

aqueles que deseja sujeitar e atrair, curando-lhes a soberba e alimentando-lhes o amor, para que, confiando em si, não se afastem para mais longe. Pelo contrário, que se humilhem, vendo a seus  pés a humildade de um Deus que também se vestiu de nossa túnica de carne, e cansados, se  prostrem diante dela para que, ao se levantar, os exalte.” (cp. XVIII)

Mas Agostinho ainda estava longe disso:

“Tinha certeza de todas estas verdades, mas me achava ainda demasiado fraco para gozar de ti. Tagarelava muito, como se fora competente nisso, mas se não procurasse o caminho da verdade em Cristo, nosso Salvador, não seria perito, mas perituro. Já começava a querer parecer sábio, cheio de meu castigo, e não chorava, mas orgulhava-me com a ciência. Onde estava aquela caridade erigida sobre o alicerce da humildade, que é Cristo Jesus? Ou talvez me a ensinariam aqueles livros? Creio que quiseste que com eles me encontrasse antes de meditar nas tuas Escrituras, para que fixassem em minha memória os afetos que nela experimentei. Depois, quando encontrasse em teus livros a paz do coração, sarada com tuas mãos as feridas de minha alma, pudesse discernir e  perceber a diferença entre presunção e humildade, entre os que vêem para onde se deve ir, e não vêem por onde se vai, nem o caminho que conduz à pátria bem-aventurada, não só para contemplá-la, mas também para habitá-la.

 Porém, se me tivesse instruído em tuas sagradas letras, e em sua intimidade tivesse experimentado na doçura, para depois conhecer os livros dos platônicos, talvez eles me arrancassem dos sólidos  fundamentos da piedade; ou, se eu tivesse persistido nos sentimentos salutares nelas hauridos,

talvez julgasse que só por esses livros se poderia chegar ao mesmo proveito espiritual.” (cp. XX) Chamado, então, às Escrituras, foi conduzido, sobretudo, pelas cartas do Apóstolo Paulo, começando a discernir e compreender a senda da humildade:

“Que fará esse homem infeliz? Quem o livrará deste corpo de morte, senão tua graça, por Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem tu geraste co-eterno e criaste no princípio de teus caminhos, ele, em quem o príncipe deste mundo não achou nada que merecesse a morte, e a quem, contudo, matou? Com o que foi anulada a sentença que havia contra nós?

 Nada disso dizem os livros platônicos. Nem têm naquelas páginas esse sentimento de piedade, as lágrimas da confissão, esse teu sacrifício, a alma abatida, esse coração contrito e humilhado, nem a salvação de teu povo, nem a cidade prometida, nem o penhor do Espírito Santo, nem o cálice de nossa redenção.

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 Nos livros platônicos ninguém canta: “Minha alma não estará sujeita a Deus? Porque dele  procede minha salvação, pois é meu Deus e meu amparo, do qual não mais me apartarei.

 Ninguém ali ouve o convite: Vinde a mim os que sofreis. Desdenham teus ensinamentos, porque és manso e humilde de coração. Porque escondeste estas coisas dos sábios e doutos, e as revelaste aos  pequeninos.” (cp. XXI)

A conversão estava em pleno curso, realmente. Agostinho ia derrubando seus ídolos, em especial sua própria inteligência, deixando-se guiar, humildemente, pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“ Esses pensamentos penetravam-me as entranhas de modo maravilhoso, quando eu lia o menor de teus apóstolos. Considerava tuas obras e enchia-me de assombro.” (cp. XXI)

18° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. I a V, do Livro Oitavo, das Confissões, de Santo Agostinho.

Agostinho inicia seu livro oitavo reconhecendo haver nele como que duas vontades em conflito. Uma vontade carnal, velha conhecida, e uma nova, espiritual, de servir a Deus sem interesse, alegrando-se Nele. A antiga era mais forte, acorrentando-o a si mesmo. Com uma acuidade  psicológica impressionante, Agostinho descreve o processo dessa auto-escravidão:

“ Da vontade perversa nasce a paixão, e desta satisfeita procede o hábito, e do hábito não contrariado provém a necessidade, e com estes anéis enlaçados entre si – por isso lhes chamei corrente – me mantinha preso em dura servidão.” (cp. V)

Por isso, toda intenção e movimento no caminho de Deus era vacilante, Agostinho hesitava, dividido e paralisado. Para piorar, sabia não ter mais desculpas ou justificativas a apresentar para não se enfrentar:

“ Eu já não tinha aquela desculpa, com a qual persuadia-me de que, se ainda não desprezava o mundo para te servir, era porque não tinha visão clara da verdade, uma vez que agora já a conhecia de modo indiscutível. Mas, ainda apegado à terra, recusava-me a combater em tuas  fileiras, e temia ver-me livre dos meus laços, quando devia temer estar por eles atado.” (cp. V)

“ Já não tinha o que responder quando me dizias: “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te há de iluminar”. E quando por todos os meios me mostrava a verdade do que dizias, e de que eu estava convencido, não tinha absolutamente nada para responder, senão umas  palavras preguiçosas e sonolentas: Um momento... Depois... Um pouquinho mais… Mas este

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 pouquinho não tinha fim, e este momento se ia prolongando.” (cp. V

Era hora, então, de menos falação e mais ação. Agostinho há tempos sabia o que precisava fazer: suplicar o socorro de Deus, abraçando-se em Jesus Cristo para, por sua graça, começar a vencer a si mesmo. Se não conseguia, era preciso, antes de tudo, ter a humildade de reconhecer que precisava de ajuda. E assim fez, com ela vindo:

“ Então me inspiraste a idéia – que me pareceu excelente – de me dirigir a Simpliciano, que eu tinha como um de teus bons servidores, em quem brilhava tua graça. Sobre ele ouvira também que desde sua juventude te consagrava devotamente sua vida, e como já encanecia, achei que em tão longa vida, dedicada ao estudo de teus caminhos, teria acumulado grande experiência e instrução; e de fato assim era. Por isso queria confiar-lhe minhas inquietações, para que me apontasse o modo de vida mais idôneo de alguém, com minhas disposições interiores, seguir teu caminho.” (cp. I)

São Simpliciano, então presbítero da Igreja de Roma, fora quem instruíra Santo Ambrósio nas Sagradas Escrituras e nos Santos Padres. Escutando Agostinho, decidiu lhe contar a história da conversão de Vitorino, grande retórico romano a quem, inclusive, dedicaram uma estátua no foro de Trajano. Eis o efeito do relato:

“ Mal teu servo Simpliciano me contou a conversão de Vitorino, ardi no desejo de imitá-lo; aliás, era esta a finalidade da narração de Simpliciano. Depois acrescentou que nos tempos do imperador Juliano, uma lei proibia aos cristãos ensinar literatura e oratória, e Vitorino, dócil à lei,  preferiu abandonar a escola de palradores a abandonar teu Verbo, que torna eloqüentes as línguas

dos meninos. Não só me pareceu corajoso como afortunado, por ter encontrado ocasião de se consagrar por ti.” (cp. V)

Se fomos criados à imagem e semelhança, é por imitação que temos de aprender a ser quem devemos ser. A história de Vitorino dava a Agostinho um espelho próximo no qual não apenas  podia reconhecer sua caminhada até ali, mas, principalmente, os próximos capítulos a serem

vividos: a ocasião a ser dada por Deus, com a coragem correspondente que dele se exigiria.

19° Dia da Quaresma

Meditação sobre os caps. VI a IX, do Livro Oitavo, das Confissões, de Santo Agostinho.

Como visto ontem, se a história de Vitorino, contada por São Simpliciano, servia de espelho à de Agostinho, então, logo viria nova ocasião dada por Deus para Agostinho, enfim, se converter. Ei-la:

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Sem saber por que motivo, nem o que queria dele, Agostinho recebeu a visita - ele e Alípio - de Ponticiano, um compatriota da África, cristão devoto. Ponticiano então contou como companheiros seus, encontrando um exemplar do manuscrito da Vida de Santo Antão, escrita por Santo Antanásio, decidiram, naquele mesmo instante, dedicar sua vida inteira a Deus. Enquanto ele narrava, Agostinho se comparava, invejando a coragem dos jovens e odiando sua hesitação, não conseguindo desviar o olhar de sua iniquidade, obrigando-se a se ver “ indigno, disforme, sórdido, manchado e ulceroso”, enchendo-se de horror por si mesmo:

“ Assim me roía interiormente, devorado por enorme e terrível vergonha, enquanto Ponticiano contava aquilo tudo. Finda a conversa, e resolvida a questão a que viera, Ponticiano voltou para  sua casa, e eu para dentro de mim. Que coisas não disse contra mim? Com que açoite de palavras não flagelei minha alma, para obrigá-la a me seguir em meus esforços para te alcançar! Ela resistia, recusava-se, sem se desculpar. Todos os argumentos já estavam esgotados e refutados.  Nada lhe restava, senão uma angústia muda: tinha medo, como da morte, de ser tolhida à corrente

do vício, onde se corrompia mortalmente.” (cp. VII)

Iniciou-se, enfim, a luta espiritual que o levaria à mesma atitude daqueles jovens. Padeceu um sofrimento tremendo, que vale padecer junto aqui:

“ Então, em meio àquela luta interior que eu travava violentamente contra mim mesmo no recesso do meu coração, perturbado no rosto e no espírito, volto-me para Alípio exclamando: “Que tanto nos aflige? O que significa isto que ouviste? Levantam-se os ignorantes e arrebatam o céu, e nós, com todo nosso saber insensato, nos revolvemos na carne e no sangue! Acaso temos vergonha de  segui-los porque se nos adiantaram, e não temos vergonha de não os seguir?”

 Foi mais ou menos o que eu lhe disse, e dele me afastei sob forte emoção. Alípio me olhava atônito em silêncio. Eu não falava como de costume, e muito mais que as palavras, minha fronte, minhas  faces, meus olhos, minha cor e o tom de minha voz denunciavam meu estado de espírito.

 Nossa casa tinha um pequeno jardim, que usávamos, assim como o restante da casa, que nosso hóspede não habitava. Para ali me levara a tormenta de meu coração, onde ninguém pudesse interferir no ardente combate que eu travava comigo mesmo, até que se resolvesse o assunto conforme Tu sabias e eu ignorava. Mas eu delirava para reencontrar a razão, e morria para reviver; conhecia meu mal, mas desconhecia o bem que depois haveria de sobrevir.

 Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio seguiu-me passo a passo; mas, apesar de sua presença, eu não estava menos só. E como haveria ele de me deixar naquele estado? Sentamo-nos o mais longe  possível da casa. Eu tremia pela violenta indignação, me enraivecia por não poder seguir teu

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