Origem: PRT 23ª Região
Assunto: Consulta – Delegação do ato de assistência e homologação de rescisões de contrato de trabalho (art. 477, §3º da CLT) para servidores.
EMENTA: Consulta. Delegação do ato de assistência e homologação de rescisões de contrato de trabalho (art. 477, §3º da CLT) para servidores. Função do Ministério Público. Incabível a delegação.
I – RELATÓRIO
Trata-se de consulta formulada pelos Procuradores do Trabalho Rodney Lucas Vieira de Souza e Priscila Maria Ribeiro, lotados na Procuradoria do Trabalho no Município de Água Boa, na qual indagam:
“a) é possível a delegação do ato de assistência e homologação de rescisões de contrato de trabalho, previsto no art. 477, §3º, da CLT, pelos membros do MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO a servidores previamente qualificados?
b) caso positiva a resposta, é possível a delegação por meio de ato do próprio membro lotado na unidade funcional do MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO ou é indispensável a delegação pelos Órgãos Superiores da Instituição?” (fls. 11-verso)
Informam, dentre outras questões, que por conta de problemas estruturais, os membros lotados na aludida unidade não podem manter o serviço de forma contínua, em virtude de compromissos funcionais que reclamam a presença dos membros fora da sede, ressaltando que a Procuradoria do Trabalho no Município de Água Boa atua em localidades distante a mais de 500 quilômetros
da sede, inclusive com Varas do Trabalho localizadas a mais de 400 quilômetros,
com ligação exclusivamente terrestre e em péssimo estado.
Destacam que as Promotorias de Justiça, a Defensoria Pública e os juízes de paz estão se recusando a prestar assistência às rescisões contratuais trabalhistas, conforme documentos anexados.
Alegam, com base na IN 15/2010, que a homologação é um ato de mera administração de interesses privados, plenamente vinculado, não havendo espaço para discricionariedade e o art. 93, XIV da Constituição Federal autoriza a delegação de atos de mero expediente aos servidores do judiciário, o que seria aplicável também ao Ministério Público, por conta da simetria constitucional existente entre as duas carreiras.
Aduzem que a possibilidade da delegação também estaria respaldada pela Lei 9.784/99, que rege o Procedimento Administrativo Federal, pois o aludido diploma legal afirma ser cabível a delegação quando houver conveniência, em razão de circunstâncias de índole técnica, social, econômica jurídica ou territorial, conforme previsto nos arts. 11 a 13 da citada lei.
Defendem que à homologação das rescisões não se insere nas atribuições típicas do Ministério Público, não estando protegida pelo princípio da independência funcional, sendo considerada uma atribuição atípica do órgão ministerial, exemplificando que o membro não poderia negar a homologação caso o empregado manifeste sua vontade em receber os valores, podendo apenas registrar a ressalva no Termo de Rescisão de Contrato de Trabalho, conforme a Instrução Normativa 15/2010 do MTE.
Apresentam exemplos de delegação e subdelegação no âmbito do Ministério Público da União, tais quais as Portarias PGR nº 246/2010 e Portaria DG-PGT nº 193/2000, para a prática de atos relativos à ordenação de despesas, celebração de contratos administrativos e até de atos normativos, o que
demonstraria que a delegação de atos de mera administração e sem caráter
decisório típico do Ministério Público é proveitosa para a sociedade, pois o membro pode se concentrar na atividade fim do órgão.
Ressaltam que o princípio da continuidade do serviço público seria mais bem observado, pois as homologações poderiam ser feitas mesmo quando o membro precisasse se ausentar em virtude de compromissos institucionais.
Afirmam que a Instrução Normativa 15/2010 do Ministério do Trabalho e Emprego autoriza a delegação da aludida atribuição aos servidores do MTE.
Por fim, ressaltam que a Recomendação nº 16 do CNMP, em seus arts. 5º, XXI e 7º, visando racionalizar a atuação ministerial, entendeu desnecessária a intervenção ministerial nas hipóteses de assistência à rescisão de contrato de trabalho.
É o relatório.
II – VOTO
Inicialmente, cumpre ressaltar que o relato trazido pelos Procuradores do Trabalho, Rodney Lucas Vieira de Souza e Priscila Maria Ribeiro, impressiona por demonstrar as dificuldades e deficiências estruturais, de membros e servidores, que vem passando a Procuradoria Regional do Trabalho da 23ª Região, especialmente a Procuradoria do Trabalho no Município de Água Boa.
Entretanto, melhor examinando a questão, constata-se que não é possível a realização da delegação objeto da presente consulta.
Assim dispõe a CLT sobre o tema:
Art. 477, (...)
§ 3º - Quando não existir na localidade nenhum dos órgãos previstos neste artigo, a assistência será prestada pelo representante do Ministério Público ou, onde houver, pelo Defensor Público e, na falta ou impedimento dêste, pelo Juiz de Paz.
(...)(destaquei)
O dispositivo é bastante claro ao atribuir ao representante do Ministério Público a função de homologação das rescisões contratuais, quando ausentes na localidade o sindicato da categoria ou o Ministério do Trabalho e Emprego.
O Conselho Superior do Ministério Público do Trabalho, no processo nº 08130.004433/2008, reconheceu que o aludido parágrafo foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988. Destaco excerto do voto relator, proferido pelo à época Conselheiro Jeferson Luiz Pereira Coelho:
“Com a devida vênia dos que pensam em sentido contrário, tenho assim que a assistência para a rescisão trabalhista pode ser enquadrada nas funções ministeriais previstas na Constituição, concluindo pela sua adequação ao novo regime constitucional.
Ao lhe atribuir a missão institucional correspondente à defesa dos interesses sociais indisponíveis, o legislador constitucional, representando a soberania da vontade popular, depositou no Ministério Público a confiança de que se caracterizaria como o guardião dos chamados direitos sociais.
Dentre esses direitos sociais se insere o direito ao trabalho, passando-se pelas condições de trabalho, observância do cumprimento dos direitos e deveres trabalhistas e, ao final, pleito de eventual reparação das condições não cumpridas”
Sendo uma função atribuída pela lei ao Ministério Público, seu exercício no âmbito da instituição somente pode ser realizado pelos seus membros, não se mostrando cabível a delegação, por mais nobres que sejam as razões que ensejaram a consulta. A Constituição é clara:
Art. 129 (...)
§ 2º As funções do Ministério Público só podem ser exercidas por integrantes da carreira, que deverão residir na comarca da respectiva lotação, salvo autorização do chefe da instituição.
(...)(grifei)
Especialmente após a promulgação da Constituição de 1988, o Ministério Público recebeu diversas funções para defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
Antigamente, as funções ministeriais eram exercidas por pessoas estranhas aos seus quadros, citando-se como exemplo a figura do Promotor “ad hoc” e o adjunto de curador de casamento.
Na atualidade, a Constituição de 1988, conforme visto no dispositivo acima citado, dispôs que as atribuições do Ministério Público são exercidas exclusivamente pelos integrantes da carreira, ou seja, proibiu taxativamente o exercício por outras pessoas. Ademais, quando a Magna Carta abre exceções a esta regra, elas vêm expressas, como é o caso do art. 93, XIV, que autoriza a prática de atos de mero expediente pelos servidores judiciários.
Sendo silente a Constituição acerca da possibilidade da delegação suscitada, e trazendo ela própria as exceções à regra geral, não é cabível uma interpretação extensiva para abranger a hipótese ora em análise
Ademais, segundo Emerson Garcia (
in
Ministério Público: Organização, Atribuições e Regime Jurídico):“violado o preceito constitucional, ter-se-á a nulidade absoluta do ato, o que é derivação direta da absoluta incapacidade do agente de ocasião”
Nesse mesmo sentido dispõe a Lei nº 8.625/93 (Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, que dispõe sobre normas gerais para a organização do Ministério Público dos Estados):
Art. 25 (...)
Parágrafo único. É vedado o exercício das funções do Ministério Público a pessoas a ele estranhas, sob pena de nulidade do ato praticado.
Dessa maneira, constata-se que, por ser uma função do Ministério Público, não é possível a delegação da atribuição de homologar rescisões de contrato de trabalho trazidas pelo art. 477, §3º da CLT para servidores.
III – CONCLUSÃO
Pelo exposto, conheço da presente consulta e voto pelo não cabimento da delegação do ato de assistência e homologação das rescisões do contrato de trabalho, previsto no artigo 477, §3º, da CLT, pelos membros do Ministério Público do Trabalho, a servidores previamente qualificados, restando prejudicado o segundo questionamento formulado.
Brasília, 12 de dezembro de 2011.
Heloisa Maria Moraes Rego Pires Membro da CCR - Relatora