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Fraude à Execução
Autores: Ricardo Riccó Scombatti; Wlademir Rodrigues Wolski.
1. INTRODUÇÃO
A fraude a execução teve sua origem nas ordenações Manuelinas, Afonsinas e Filipinas, sendo que foi muito utilizado no direito Romano. Atualmente o instituto da fraude à execução está diretamente ligado ao tema de responsabilidade patrimonial que é regido pelo sistema positivo no artigo 593 do Código de Processo Civil que, por seus princípios e normas, procura garantir o exercício do direito material, disponibilizando instrumentos hábeis à composição de conflitos de interesses.
A execução deve ser real, ou seja, incidir sobre os bens do executado e não sobre sua pessoa (art. 591 do CPC), diferente do que se deu nos primordios do direito Romano.
2. EVOLUÇÃO HISTÓRICA
A fraude a execução teve sua efetivação por meio de uma norma processual advinda do Regulamento nº 737, vinda das Ordenações do Reino: Manuelinas, Afonsinas e Filipinas, conhecido como Decreto Imperial 737 de novembro de 1850.
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São Paulo 2014
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Os fragmentos histórico-legais desse instituto nos levam a disposições específicas, presentes no Livro III, Título LXXXVI, das Ordenações Filipinas, quando era proibido, por exemplo, a alienação de bens de raiz (bens imoveis), durante a demanda judicial, com a expressão literal do § 14º (“Dos agravos e das sentenças definitivas”). Esse capítulo dispunha sobre uma espécie de hipoteca judiciária sobre os bens do condenado ao pagamento de soma pecuniária, ao prever que “... o que tiver bens de raiz, que não valham o contido na condenação, não os poderá alhear, durante a demanda, mas logo ficarão hipotecados por esse mesmo feito e por esta Ordenação para pagamento da condenação.”
Umas das situações prevista nas Ordenações era a hipótese de não se encontrar bens suficientes para garantir a execução – uma situação de eventual insolvência, como o instituto é conhecido atualmente. A Ordenação era rigorosa nesse sentido, aplicando dupla responsabilidade ao devedor, patrimonial e pessoal. José Sebastião de Oliveira complementa outros pontos que certamente soam como embriões do instituto sob análise:
a) Pessoa sujeita a uma ação real, ou pessoal: Livro III, Título XXXIX – ‘Do que transpassa em algum poderoso a causa, ou direito, que nela tem’. ‘Se algum tiver aução real, ou pessoal contra outro, e antes de demanda começada a ceder, ou transpassar em algum poderoso por razão de officio, perca toda a aução e direito que nella tiver.’
Esse tópico das Ordenações traz a origem do Inciso I, do artigo 593, do Código de Processo Civil. Talvez mais claro com leitura conjunta aos §§ 03º e 09º, do Livro IV, Título X.
d) Alienação ou cessão de cousas litigiosas: Livro IV, Título X, §§ 03º e 09º’ - ‘Das vendas e alheações, que se fazem de cousas litigiosas.’ ‘Cousa litigiosa he aquella, sobre que he movida litígio em juízo entre as partes.’ ‘§ 3º. Depois que a cousa for litigiosa per cada hum dos sobreditos modos, pendendo o litígio, antes que seja fundo per sentença deffinitiva, passada em cousa julgada, não a deve o réo vender, nem passar a outrem a ação movida sobre essa
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cousa: e fazendo-o a venda, ou escaimbo da cousa litigiosa será nenhuma e de nenhum vigor... ’, e a hipótese de sucessão alienatória, com execução direta contra o possuidor: ‘9º. E se depois de feita a venda, escaimbo, ou doação, o autor houver sentença contra o réo, que emalheou cousa litigiosa, per essa mesma sentença seja feita execução contra essa pessoa, a que for vendida, escaimbada, ou doada, em cujo poder a cousa for achada, sem ser mais chamado, nem citado, se foi o sabedor do litígio ao tempo, que a houve, ou teve razão de saber, como se disse no Livro Terceiro, no Título (86): das execuções, que se fazem geralmente, no parágrafo (16). E se esse condenado e não sendo delle sabedor, nem tendo razão de o saber, será citado para a execução, e ouvido com seu direito summariamente, sabida somente a verdade, sem outro processo.’ (OLIVEIRA, José Sebastião de. Fraude à execução: doutrina e jurisprudência. 2. ed. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 1988, p. 44/45).
Ainda como curiosidades da evolução histórica da fraude a execução, temos no Direito Romano, o devedor respondia por suas dívidas com o seu próprio corpo.
Com efeito, ultrapassado o tempus iudicati, ou seja, trinta dias após o vencimento da dívida, o credor poderia lançar mão sobre o devedor, segundo um procedimento denominado de manus iniectio, mediante autorização do praetor romano.
Assim, o credor apregoava em praça a existência da dívida e do devedor, para que um terceiro, o vindex, pudesse resgatá-lo, pagando a dívida. Após três sucessivas tentativas de quitação da dívida sem sucesso, era permitido ao credor tomar o devedor como seu escravo, podendo vendê-lo nesta condição, ou, até mesmo, tirar-lhe a vida.
Esta espécie de responsabilidade pessoal, no sentido de a dívida poder ser satisfeita com o próprio corpo e vida do devedor foi se alterando paulatinamente. A consolidação, no processo romano, da transformação da execução pessoal em real, ocorreu com o surgimento e a difusão do Cristianismo, e tendo como marco a criação da Lex Poetelia, no ano 326 D.C.
Lex Poetelia Papiria: O devedor passou a ser responsabilizado por suas obrigações exclusivamente com seu patrimônio.
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3. CONCEITO
Ensina Enrico Tulio Liebmam que na fraude de execução "a intenção fraudulenta
está in re ipsa; e a ordem jurídica não pode permitir que, enquanto pende o processo, o réu altere a sua posição patrimonial dificultando a realização da função jurisdicional". Na
fraude de execução "a intenção fraudulenta está in re ipsa; e a ordem jurídica não pode permitir que, enquanto pende o processo, o réu altere a sua posição patrimonial dificultando a realização da função jurisdicional".
CAHALI, Yussef Said:
A fraude de execução é a alienação ou oneração de bens que seriam utilizados para pagar uma obrigação pecuniária, que já vem sendo objeto de discussão judicial. Tem natureza processual, com regulamentação no Código de Processo Civil, arts. 593 e 615-A, §3º, e implica ineficácia do negócio jurídico, relativamente ao credor, o que poderá ser declarado, até mesmo de oficio, no curso do processo de execução.
O instituto visa completar a garantia que o patrimônio do devedor exerce em relação às suas dívidas.
4. FRAUDE À EXECUÇÃO
A fraude de execução, dispodto no artigo 593 do Código de Processo Civil, “...a alienação ou oneração de bens: I) quando sobre eles pender ação fundada em direito real; II) quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência; III) nos demais casos expressos em lei”.
O legislador visou proteger os credores contra atos fraudatórios praticados por devedores, tornando ineficaz o negócio jurídico, impossibilitar o adimplemento da obrigação. A fraude à execução ocorre no curso de ação judicial, não necessariamente na ação de execução ou na fase de cumprimento de sentença.
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Com objetivo de evitar a frustração da eficácia judicial, ou seja, do resultado útil do processo, a retiraria da sentença judicial a sua eficácia, configurando ato atentatório à dignidade da justiça.
A alienação de bens em qualquer dessas hipóteses é ineficaz (relativa, parcial e originária) em relação ao autor da ação, ou seja, a venda do bem não poderá ser-lhe oposta, e o bem continuará respondendo pela dívida.
Importante frisar que não ocorrerá nulidade e sim ineficácia da venda, uma vez que se fundada no inciso I do artigo 593 do CPC, o credor se tornará dono do direito real em discussão.
Se a demanda for julgada improcedente, extinta, conforme artigo 267 do código de processo, sem julgamento de mérito, ou qualquer outro modo em que for extinta resolvendo a lide sem a necessidade de tocar no bem alienado.
Na hipótese anterior não há que se falar em fraude à execução, continuando válida a alienação, o que não impede a propositura de uma ação pauliana ou revocatória posteriormente caso subsista fraude contra credores.
No caso do inciso I, trata-se da possibilidade de propositura de ação reivindicatória ou outra ação fundada em direito real. Neste caso, caracteriza-se a fraude à execução mesmo que o devedor tenha outros bens livres e desembaraçados, de maior valor, independentemente de insolvência de direito ou de fato.
O credor pode requerer o registro da citação na matrícula do imóvel, e caso seja feito, a presunção de fraude será absoluta, não podendo o comprador do imóvel alegar desconhecimento da ação que está em curso.
A esse respeito foi editada a sumula 375 do STJ:
"O reconhecimento da fraude de execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente ".
O disposto do inciso II torna a alienação ineficaz, ou seja, a gravação do bem em garantia, que ao final levará o bem à penhora e à venda judicial como forma de satisfazer os créditos dos autores da ação judicial, deixando o devedor em estado de insolvência.
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Neste caso, basta a existência de ação em curso que seja capaz de reduzi-lo à insolvência, sendo desnecessário o registro de citação ou da penhora ou que o adquirente saiba do estado de insolvência do alienante.
Quanto ao inciso III, que remete aos demais casos previstos em lei, os casos são: a) Aquisição de bem com penhora já registrada em cartório mobiliário, prevista no artigo 240 da Lei nº 6.015/73. Neste caso, se o devedor pagar todas suas dívidas a aquisição não sofrerá qualquer interferência e continuará válida, do contrário aqui a presunção de fraude é absoluta e o bem será perdido para o credor.
b)No que toca à matéria de “penhora, seqüestro e arresto” não se faz necessária a ação pauliana, uma vez que o artigo 592, V, do Código de Processo Civil, expressamente coloca esses bens à disposição da execução, seja com quem estiverem, dispondo da seguinte maneira:
"art. 592. Ficam sujeitos à execução os bens:
(...) V - alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução”.
Essa é, em apertada síntese, uma breve exposição sobre a fraude à execução.
5. ALTERAÇÕES NO NOVO CPC
A distribuição dinâmica das provas, acolhida no artigo 380, parágrafo 1º do Projeto, prevê que o ônus da prova deve recair sobre quem tiver melhores condições de produzi-la, conforme cada caso. E, na imensa maioria das situações, é o terceiro adquirente quem reúne melhores condições para provar que agiu de boa-fé, e não o credor, que tem a maior dificuldade em provar a má-fé do terceiro adquirente. Prova maior desse fato é que não houve reconhecimento da fraude de execução em nenhum dos 21 acórdãos que deram origem à Súmula 375.
Desconsideração da Personalidade Jurídica no Projeto da Câmara, no artigo 137, prevê que a alienação ou oneração de bens após o acolhimento do pedido de
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desconsideração da personalidade jurídica, havida em fraude de execução, será considerada ineficaz.
Diferentemente do parágrafo 3º do artigo 808, deixa expressa a possibilidade de ser reconhecida fraude a partir da citação da própria sociedade cuja personalidade se pretende desconsiderar.
6. CONCLUSÃO
A fraude à execução é um importante instituto do processo civil, visto que, garante o resultado prático do processo, contudo, sozinho, não é o suficiente para transpor todos os obstáculos colocados pelos devedores de má-fé que fazem de tudo para frustrar seus direitos.
A fraude à execução, é a melhor saída para que o credor garanta a satisfação de seus direitos, uma vez que pede menos requisitos para sua caracterização.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Araken de. Comentários ao Código de Processo Civil. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003. Volume VI.
CAHALI, Yussef Said. Fraude contra credores. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1989.
CLEMENTE, Fabiano Kingeski. O marco inicial da fraude à execução: um aspecto polêmico–: <http://www3.pucrs.br/pucrs/files/uni/poa/direito/graduacao/tcc/tcc2/trabalhos2007_1/fabiano_kingeski.p df>. Artigo disponivel e acessado em 17/10/2014 as 13h11.
DINAMARCO, Cândido Rangel. Execução Civil. 8ª Ed. São Paulo: Malheiros, 2001.
GOLDSCHMIDT, James. Derecho procesal civil. Tradução espanhola de Leonardo Prieto-Castro Ferrándiz. Barcelona: Editorial Labor, 1936.
LIEBMAN, Enrico Tulio. Processo de execução. 4ª Ed. São Paulo: Saraiva, 1980.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. 46ª Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011. Volume II.
OLIVEIRA, José Sebastião de. Fraude à execução: doutrina e jurisprudência. 2. ed. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 1988, p. 44.