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gêneroDicionário Crítico de Ana Maria Colling

Losandro Antonio Tedeschi (Organizadores)

Prefácio Michelle Perrot

2a Edição

2019

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Gestão 2015-2019 Universidade Federal da Grande Dourados Reitora: Liane Maria Calarge Vice-Reitor: Marcio Eduardo de Barros Equipe EdUFGD Coordenação editorial: Rodrigo Garófallo Garcia Divisão de administração e finanças: Givaldo Ramos da Silva Filho Divisão de editoração: Cynara Almeida Amaral, Raquel Correia de Oliveira e Wanessa Gonçalves Silva e-mail: [email protected] A presente obra foi aprovada de acordo com a Resolução do Conselho Editorial n. 15/2017, de 17/11/2017.

Conselho editorial:

Rodrigo Garófallo Garcia Marcio Eduardo de Barros Fabiano Coelho Clandio Favarini Ruviaro Gicelma da Fonseca Chacarosqui Torchi Rogério Silva Pereira Eliane Souza de Carvalho

A revisão textual e a normalização bibliográfica deste livro são de responsabilidade de seus organizadores.

Projeto gráfico e capa: Marise Massen Frainer Impressão e acabamento: Gráfica Pallotti Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação das opiniões expressas neste livro, as

quais não são necessariamente as mesmas da UNESCO e não comprometem a organização.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP).

D546 Dicionário crítico de gênero / Ana Maria Colling, Losandro Antônio Tedeschi, org. ; prefácio [de] Michelle Perrot. – 2.ed. – Dourados, MS : Ed. Universidade Federal da Grande Dourados, 2019.

748 p.

Textos em português e espanhol

Disponível em pdf no catálogo da editora:

https://www.ufgd.edu.br/setor/editora/catalogo.

ISBN 978-85-8147-155-6 (versão impressa)

1. Papel sexual – Dicionários. 2. Sexismo – Dicionários. I. Colling, Ana Maria. II. Tedeschi, Losandro Antônio. III. Perrot, Michelle.

CDD 23. ed.- 305.303 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central – UFGD, em conformidade com a Res. n. 184 do

Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) Maria Isabel Soares Feitosa – CRB1-1571

©Todos os direitos reservados. Permitida a publicação parcial desde que citada a fonte.

Editora filiada à

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SUMÁRIO

Prefácio, 11 Agradecimentos, 15 Apresentação, 17

A

Aborto, 21

Acoso sexual (en el trabajo), 26 Adultério, 30

AIDS, 34 Alteridade, 39 Amor Cortês, 41 Anatomia, 46 Androginia, 49

Aprendizaje, infancia y género, 52 Aristóteles, 62

B

Beauvoir, Simone, 68 Beleza e gênero, 74

Bioreflexividade narrativa, 80

Bourdieu e a dominação masculina, 83 Bruxas/Feitiçaria, 87

Butler, Judith, 91

C

Capitalismo Gore, 96 Castração, 99 Cérebro, 104

Ciência, 109 Cinema, 112 Ciudadanía, 115 Clio, 120 Clitóris, 125

Condição Feminina, 130

Condorcet - Educação da mulher, 133 Conhecimento, 138

Corpo, 141 Culto Mariano, 144 Cultura Visual, 147

D

Daltro, Leolinda, 151

Derrida, Jacques (desconstrução, différance), 154

Desigualdade, 159 Diferença/Diferencia, 162 Direitos Humanos, 165

Direitos sexuais e reprodutivos, 173 Divórcio, 177

Docência e gênero, 181

E

Economia solidária, 188 Educação, 192

Educação Popular, 195

(8)

Entendido, 200

Epistemologia feminista, 203 Escravidão, 208

Escrita Feminina, 213 Esporte, 218

Essencialismo, 222 Estereótipos, 226 Etnia, 231 Eugenia, 236

F

Família, 240 Feminicídio, 245

Feminilidade/Feminino, 248 Feminismo-Feminismos, 251 Feminismo Negro, 255 Feminismo Pos/decolonial, 260 Filosofia da diferença, 267 Filosofia Feminista, 272 Flora Tristán, 276 Fotografia e gênero, 282 Foucault e as mulheres, 290

Freire e a condição das mulheres, 294 Freiras e religiosas – as mulheres consagradas, 299

Freud, Sigismund, 308 Friedan, Betty, 311

Fronteira e fronteiriços(as), 315

G

Galeno e Hipocrates, 323 Garçonne, 326

Gênero, 330

Gênero e Cinema, 333 Geografia Feminista, 339 Geração, 343

Gouges, Olympe de, 345 Gravidez, 347

H

Higienismo, 352 (Nova) História Cultural, 355

História das mentalidades, 360 História das mulheres, 367 História oral e as mulheres, 372 Historiografia e gênero, 379

Homoafetividade, uniões homoafetivas, 383 Homoerotismo, 388

Homofobia, heterossexismo, heterossexualidade compulsória, heteronormatividade, 390 Homossexualidade, 395 Honra, 400

Humor Feminista, 405

I

Identidade, 409 Imprensa Feminista, 413

(9)

Infância, 418

Inter/multiculturalidade;

inter/multiculturalismo, 423 Interseccionalidad, 427

J

Julia Lopes de Almeida, 434

L

La Barre, Poulain de – a educação da mulher, 439

Lacan, Jacques, 444 LGBT, 448 Lilith/Eva, 452

Literatura Feminina, 457 Loucura, 461

Lutz, Bertha, 466

M

Manuais de civilidade / comportamento, 471 Maria Lacerda de Moura, 476 Marianismo, 481

Marxismo, 485

Masculino/Masculinidade, 489 Maternidade, 495

Matriarcado, 500 Memória, 504 Menstruação, 508 Miedo, 510

Misoginia, 515 Montagem, 518

Movimentos Feministas, 522 Mujeres Árabes, 527 Mulher e Guerra, 532 Mulheres indígenas, mulheres ameríndias, 536

Mulheres Judias, 540 Mulheres Migrantes, 545 Mulheres surdas, 550

N

Natureza/naturalização, 554 Ninfomania, 558

Nísia Floresta, 561

O

ONU, 565

P

Palavras - Silêncio, 571 Paterfamilias, 573 Patriarcado, 578 Pecado Original, 582 Perrot, Michelle, 587 Pizan, Christine, 590

Platão e a natureza feminina, 596 Poder (Poder/Saber), 600 Políticas Feministas, 604

Poscolonialismo: Caribe Poscolonial, 608

(10)

Pós-Feminismo, 614 Prostituição, 617

Q

Queer, Teoría, 625

R

Relações de Gênero, 630

Relações Internacionais e Gênero, 634 Representação, 639

Resiliência, 643 Resistência, 647

Rousseau, Jean Jacques, 651 Rubin, Gayle, 654

S

Salud Feminina, 659 Scott, Joan, 662 Sexo/Sexismo, 666 Sexualidade, 669 Subjetividade, 672 Sufragismo/Sufragetes, 676

T

Teologia Feminista, 681 Teoria Crítica, 686 Teoría uterina/Parteras, 693 Trabalhadoras rurais, 699 Trabalho, 704

Trabalho feminino/profissões femininas , 708

Transgênero, 712

V

Violência de Gênero/Intolerância, 715 Virgem Maria, 718

Viuvez, viúvas, 724 Voto feminino, 731

W

Woolf, Virginia, 736 Wollstonecraft, Mary, 740 Índice de autores, 743

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PREFÁCIO

Ce Dictionnaire, superbement pensé, documenté, organisé, atteste de la vitalité et du développement des recherches sur les femmes et le genre dans le monde ibérique et latino-américain, dont le Brésil est un phare. Car c’est une initiative brésilienne dont il faut féliciter les coordinateurs, Ana Maria Colling et Losandro Antonio Tedeschi, tous deux enseignants-chercheurs à l’UFGD (Uni- versité fédérale de Grande Dourados, Matto Grosso do Sul), université engagée depuis de nombreuses années dans les programmes « Femmes/Genre », avec une perspective pluridisciplinaire très sensible dans le Dictionnaire, ouvert aux multiples facettes des sciences humaines.

Ils ont suscité, recueilli et ordonné une matière foisonnante autour de deux axes majeurs: les personnes qui, par leur écriture, leur pensée, leur action ont contribué au développement de ce champ; d’autre part, les notions qui le structurent. D’un côté, Simone de Beauvoir, Poulain de la Barre, Pierre Bourdieu, Judith Butler, Michel Foucault, ou Bertha Lutz. De l’autre, Aborto, Aids, Clitoris, Histeria, Homofobia, Lesbianismo, Pecado original… Les articles proposent des analyses approfondies autour du prisme du genre. Par exemple, la notice ( Marga- reth Rago) consacrée à Michel Foucault traite non pas de l’œuvre du philosophe, mais de son apport, parfois controversé, à l’histoire des femmes et à celle de la sexualité.

Ces données sont classées dans l’ordre alphabétique des entrées 156 au- teurs ont rédigé plus de 162 notices. Cela représente un confluent de recherches et d’écritures qui aboutit à ce fleuve, à cette somme unique, nécessaire, utile, qui a valeur de manifeste et suscite l’admiration.

Après le silence obscur du laboratoire, vient la synthèse en pleine lumière.

Voici, mis à la disposition du plus grand nombre, un demi – siècle de réflexions et de recherches sur l’histoire des femmes, les relations entre les sexes, leur différen- ce, les sexualités, le genre.Témoin des progrès accomplis, des découvertes qui ont changé nos conduites et peut-être nos vies par les chemins de liberté qu’ouvre la connaissance, ce Dictionnaire pionnier, original, désormais indispensable ins- trument de travail, fait le point de nos savoirs et nous incite à poursuivre.

Michelle Perrot

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Este dicionário, muito bem pensado, documentado, organizado, atesta a vitalidade e o desenvolvimento da pesquisa sobre mulheres e gênero no mundo ibero e latino-americano, do qual o Brasil é um farol. Esta iniciativa brasileira deve-se aos coordenadores, Ana Maria Colling e Losandro Antonio Tedeschi, professores da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados, Mato Gros- so do Sul ), universidade engajada há muitos anos em programas sobre “Mulhe- res/gênero”, numa perspectiva multidisciplinar visível no dicionário, aberta às múltiplas faces das ciências humanas.

Os organizadores criaram, coletaram e ordenaram um material abundan- te em torno de dois eixos principais: intelectuais que, através da sua escrita, seu pensamento e suas ações, contribuíram para o desenvolvimento deste campo; e os conceitos por eles analisados . Por um lado, Simone de Beauvoir, Poulain de la Barre, Pierre Bourdieu , Judith Butler, Michel Foucault, Bertha Lutz... Por outro, Aborto , Aids, Clitóris, Histeria, Homofobia, Lesbianismo, Pecado Original... Os textos oferecem análises aprofundadas sob o prisma de gênero. Por exemplo, o verbete (Margareth Rago) dedicado a Michel Foucault não trata somente da obra do filósofo, mas da sua contribuição, por vezes controversa, à história das mulheres e da sexualidade.

Os verbetes são classificados em ordem alfabética. 156 autores escreve- ram 162 verbetes. Isto representa uma confluência de pesquisa e escrita que ca- minha em sentido único, necessário, útil, que se manifesta em valor, provocando admiração.

Após o silêncio escuro do laboratório vem a síntese em plena luz. Eis aqui, disponível a todos, meio século de reflexão e pesquisa sobre a história das mulheres, as relações entre os sexos, sua diferença, as sexualidades, o gênero.

Testemunha dos progressos alcançados, das descobertas que mudaram nosso comportamento e talvez nossas vidas, pelos caminhos de liberdade que o co- nhecimento abre, este Dicionário, pioneiro, original, doravante ferramenta in- dispensável de trabalho, é um registro dos nossos saberes e um incentivo a continuar.

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Este diccionario, magnificamente pensado, documentado y organizado, muestra la vitalidad y el desarrollo de la investigación sobre mujeres y género en el mundo ibérico y latinoamericano, del cual Brasil es un faro. Esta iniciativa brasileña se debe a los coordinadores Ana Maria Colling y Losandro Antonio Tedeschi, profesores de la UFGD (Universidad Federal de Grande Dourados, Mato Grosso do Sul), universidad comprometida con programas sobre “Mu- jeres/Género”, desde una perspectiva multidisciplinaria, abierta a las múltiples caras de las ciencias humanas.

Los organizadores crearon, colectaron y ordenaron abundante material al rededor de dos ejes: los intelectuales que a través de su texto, su pensamiento y sus acciones contribuyeron para el desarrollo de ese campo; y, por otro, los conceptos por ellos analizados. Por un lado, Simone de Beauvoir, Poulain de la Barre, Pierre Bourdieu , Judith Butler, Michel Foucault, Bertha Lutz… Por otro, Aborto, SIDA, Clítoris, Histeria, Homofobia, Lesbianismo, Pecado Original…

Los textos ofrecen análisis profundos bajo el prisma de género. Por ejemplo, el verbete (Margareth Rago) dedicado a Michel Foucault no trata solamente de la obra del filósofo, pero su contribución, a veces controvertida, a la historia de las mujeres y de la sexualidad.

Las entradas del diccionario son presentadas en orden alfabético. 156 au- tores escribieron 162 entradas. Eso representa una confluencia de investigaciones y escritos que resulta en ese rio, en ese montante único, necesario, útil, lo cual tiene un valor obvio y que provoca la admiración.

Después del silencio oscuro del laboratorio, viene la síntesis a plena luz.

Aquí esta, disponible a un gran numero de personas, la mitad de un siglo de reflexiones e investigaciones sobre la historia de las mujeres, las relaciones entre los sexos, sus diferencias, las sexualidades, el género. Testigo de los progresos realizados, de las descubiertas que cambiaron nuestro comportamiento, y quizás nuestras vidas, por los caminos de libertad que se abren del conocimiento, este Diccionario pionero, original, de aquí en adelante indispensable instrumento de trabajo, es un balance de nuestros saberes y un aliento a continuar.

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AGRADECIMENTOS

Realizar uma obra coletiva como este Dicionário Crítico de Gênero, que reúne escritoras e escritores de vários países, só foi possível pelo desprendimento destas intelectuais que vislumbraram neste trabalho a visibilidade e a consolida- ção de uma área extremamente profícua e necessária no mundo acadêmico. Nos- sa primeira intenção ao organizar este Dicionário Crítico de Gênero, que reúne intelectuais das mais diversas áreas do conhecimento, para além dos muros da História, é de que ele possa ser uma ferramenta útil de pesquisa e uma alavanca para outros projetos.

Portanto, os primeiros agradecimentos são para estas e estes amáveis co- legas sem o qual esta obra não seria possível. Em segundo lugar, à Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD, através de sua editora, pelo seu apoio nessa 2ª edição.

Um agradecimento especial à historiadora Michelle Perrot. Intelectual e feminista de imensa importância para quem trabalha com história das mulheres e das relações de gênero e profundamente comprometida com a democratização da História. Com gentileza, desprendimento e simpatia, prerrogativa das grandes, através de suas palavras, deu seu apoio, valorização e reconhecimento ao Dicio- nário Crítico de Gênero.

E por fim, ao público leitor, às autoras e autores, nosso carinho especial e agradecimento nessa 2ª edição.

Ana Maria Colling Losandro Antonio Tedeschi Organizadores

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APRESENTAÇÃO

O “Dicionário Crítico de Gênero” partiu do entendimento de que era ne- cessário reunir numa obra o conjunto de vocábulos de referencial crítico, assim como aqueles termos que permitem um tratamento problematizador do universo dos estudos de gênero, mulheres, masculinidades e sexualidades. A iniciativa foi possível pelo apoio da UFGD e da existência de um Laboratório de Estudos de Gênero, História e Interculturalidade (LEGHI), e da Cátedra/UNESCO – Di- versidade cultural, Gênero e Fronteiras alojados nesta universidade.

Agora em uma segunda edição, com a responsabilidade desta obra ter sido agraciada em 1º lugar com o prêmio nacional da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias) 2016, na categoria Ciências Humanas, a obra é revista e novos verbetes são incorporados.

Nestes tempos sombrios em que a categoria de análise de gênero é, em muitos espaços, especialmente política e religiosa, demonizada, escrever sobre esta temática revela-se um trabalho de responsabilidade social. Temos a certeza de que muitos e muitas que se arvoram em críticas, desconhecem seu verdadeiro sentido. Como combater, por exemplo, a violência contra a mulher e os homos- sexuais, chaga mundial, se não conhecermos a história do desprezo ao corpo feminino?

Joan Scott, uma das criadoras da categoria de análise “gênero”, na década de 80, através de seu paradigmático texto Gênero: uma categoria útil de análise histórica, proporcionou um novo universo linguístico-conceitual, transdisciplinar, amplian- do o debate epistemológico no conjunto da comunidade acadêmica. Scott, atenta ao movimento conservador que assola o Ocidente, e não somente o Brasil, rei- tera a importância do conceito gênero, transformado em uma questão política.

Como a categoria de análise de gênero pressupõe a incorporação de ou- tros tantos conceitos e de diversas autoras/es que historicamente auxiliaram as análises, a proposta deste dicionário é de se apresentar como uma obra plural, que tem a pretensão de visualizar as diferenças de interpretações.

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Michele Perrot, reconhecida historiadora francesa e coordenadora junta- mente com Georges Duby da já clássica obra em 5 volumes A História das Mu- lheres no Ocidente, enumera os três movimentos que contribuíram para a chegada das mulheres na História; não somente elas, mas todos os demais sujeitos sub- sumidos pelo discurso moderno. Perrot destaca como importantes: a crise dos grandes paradigmas como o positivismo e o marxismo; a explosão da História com a Nova História (história em migalhas); e a demanda social com o movi- mento feminista. (PERROT. Michele. As mulheres e os silêncios da História. Bauru/

SP, EDUSC, 2005).

O positivismo centrava sua análise na história política, privilegiando as fontes diplomáticas e militares, uma história de guerras e batalhas onde as mu- lheres não apareciam; o marxismo, referencial teórico marcante na historiografia ainda hoje, não deu importância para as contradições entre homens e mulheres ou para as questões femininas, porque as contradições de classe e os seus em- bates eram a questão de fundo. Segundo eles, as discussões sobre sexualidade, relações de poder entre homens e mulheres seriam resolvidas após a revolução.

A explosão dos conceitos como igualdade e liberdade trazida pela história das mulheres e das relações de gênero e poder permitiu uma releitura do passado, uma prestação de contas entre memória e história. A noção de gênero obrigou a repensar a visão androcêntrica e colonialista da historiografia e apontou possibi- lidades de novas explicações da sociedade e da história, que exigiu a consideração de todos os sujeitos implicados nela. Por este motivo, muitas/os historiadoras/os têm utilizado a categoria de gênero em suas análises, como metáfora de sujeitos invisibilizados pela história única.

As autoras e os autores dos verbetes apresentados neste dicionário fo- ram escolhidos por nós, organizadores, por serem intelectuais envolvidos com as questões de gênero e reconhecidos no meio acadêmico pelas suas produções nesta área. São intelectuais das mais variadas universidades brasileiras, latino-a- mericanas e europeias, de diversas áreas de pensamento alojadas no campo das Ciências Humanas e Sociais.

O dicionário não é bilíngue, mas editado em português e espanhol numa tentativa de respeito à escrita de cada um e cada uma, optando por publicar os verbetes no idioma de seus autores.

Em 1988, Michele Perrot indagava: “é possível uma história de mulheres?”, porque tão longe quanto nosso olhar histórico alcança vê-se apenas a dominação

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masculina. Como então elas poderiam pensar sua história? Esta pergunta ainda nos desacomoda. A história das mulheres é uma história diferente, é uma nova história ou é uma outra história? Ainda achamos que incluir as mulheres no relato histórico não significa incluir a metade da humanidade, mas um ato que afeta a humanidade em seu conjunto? Como transformar a cultura que aprendeu como verdade a desqualificação do feminino?

Certamente muitos dicionários sobre as relações de gênero ainda serão editados, especialmente levando em consideração ser esta área temática ainda nova, prenhe de significações e estudos, mas, de nossa parte, nos consideramos felizes em poder contribuir, neste momento histórico, com este empreendimento que nos deu tanto prazer em organizar, especialmente por ser uma obra coletiva.

Ana Maria Colling Losandro Antônio Tedeschi Organizadores.

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Aborto

A prática de expelir do corpo hu- mano o resultado do encontro entre o óvulo e o espermatozoide é polêmica.

Trata-se de uma prática, ainda que secu- lar, dominada, em grande medida, pela moral cristã. É, no Brasil, criminalizada, um crime contra o feto.

No Brasil, o Código Penal de 1940, decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, nos Artigos 124, 125 e 126, a prática da interrupção da ges- tação é considerada crime quando pra- ticado por uma mulher gestante, a seu pedido e/ou sem o consentimento da gestante. Este Código Penal vigente, de 1940, permite o aborto nas situações de gravidez em que há risco de morte para a mulher e em caso de estupro.

Em 2012, o Supremo Tribunal Federal aprovou a terceira situação na qual o aborto não é considerado crime no país: quando o feto é anencéfalo/in- viável. Nestas situações de abortamen- to previstas é necessária a autorização da Justiça e a realização da interrupção da gravidez. Ainda, em caso de estupro comprovado é autorizado o abortamen- to.

Este é um campo minado, que, como afirma Danielle Ardaillon (1997), surge como situações-limite no cenário público, marcadas polêmicas e divergên- cias. Falar abertamente sobre aborto é enfrentar as políticas de controle sobre o corpo feminino. Esta política ao do-

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minar, determinar e disciplinarizar os corpos com úteros impõe a gravidez como realização e, ao contrário, a in- terrupção como a condenação moral e legal.

É neste terreno de lutas que se dá a produção de conhecimentos his- tóricos sobre as práticas de aborto. É, sem dúvida, uma escrita comprometida com a reflexão nos campos das éticas e das morais em sua díade com as lutas por conquistas de direitos humanos no que diz respeito a autonomia sobre o próprio corpo. Uma história que, no dizer da filosofa Jeanne Marie Gagne- bim (2006, p. 57), “consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro”.

Entretanto, os movimentos fe- ministas em prol dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, ao fazer frente a criminalização e a moralização da interrupção da gestação, defendem a livre decisão das mulheres sobre seu próprio corpo; e vão além, lutam pela descriminalização do aborto no Brasil e pela vida das mulheres que decidem pelo procedimento abortivo.

Em 2008, a antropóloga Debora Diniz (2008) publicou o livro “Aborto e saúde pública: 20 anos de pesquisas no Brasil” que sistematiza duas déca- das de publicações sobre o tema do aborto no Brasil. A autora objetivava

“por um lado, fortalecer a agenda na- cional de pesquisas sobre aborto, or- ganizando o conhecimento disperso, e, por outro, aproximar o debate políti- co da produção acadêmica brasileira.”

(DINIZ, 2008, p.5.). Por meio desta pesquisa, a autora recuperou “2.135 fontes em Língua Portuguesa, publica- das por autores, periódicos e editoras nacionais ou estrangeiros.” (DINIZ, 2008, p. 8). E realizou estudo de 398 fontes que apresentavam pesquisas empíricas sobre aborto.

Este importante levantamento demonstra, como conclui a antropó- loga Debora Diniz (2008), a relevância do tema aborto nas pesquisa realizadas no Brasil a partir da década de 1980, sendo “um forte indício da importân- cia do tema para a saúde pública no País. Grande parte das publicações é de ensaios, artigos de opinião e peças argumentativas. (...) Os estudos com evidências são quase todos relativos ao campo da Saúde Pública.” (DINIZ, 2008, p. 7).

“O aborto é uma questão de saúde pública.”, afirma DINIZ (2008, p. 7), para esta estudiosa, a solidez des- te entendimento implica em “enfrentar com seriedade esse fenômeno significa entendê-lo como uma questão de cui- dados em saúde e direitos humanos, e não como um ato de infração moral de mulheres levianas.” (DINIZ, 2008, p.

7).

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Com fontes de dados das inter- nações por abortamento no Serviço de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde estima-se que foram 1.054.242 abortos induzidos em 2005.

A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) realizada em 2010 mostra que uma em cada cindo mulheres, com quarenta anos de idade, havia realizado ao me- nos um aborto, utilizando como méto- do abortivo o Citotec. Já as mulheres com idade superior a quarentas anos afirmaram que recorram as clínicas clandestinas.

Entretanto, há estimativas alar- mantes sobre o número de aborto ilegais que vem à tona quase sempre quando há óbitos de mulheres em função de terem realizado aborto em clínicas clandestinas ou quando mulhe- res vítimas de estupro lutam por auto- rização para realização do procedimen- to autorizado pela Justiça Brasileira em Hospitais credenciados.

Apesar dos altos índices de abortamento, amplamente denuncia- do pelos movimentos feministas, e da urgência da efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, propalados pelo movimento feminis- ta dos anos 1990 por meio do slogan

“Nosso Corpo nos Pertence”, da re- volução dos contraceptivos orais nos anos 1960, com autorização e desauto- rização quanto aos cuidados reproduti- vos, “a concepção passou a ser discu- tida como uma questão de biomédica

e de política pública ligada ao plane- jamento familiar, enquanto o aborto permaneceu inscrito nos registros da criminalidade e da moral religiosa.”

(DINIZ, 2012, p. 315).

Conquanto a recorrência da prática do aborto, as discussões sobre aborto no Brasil surgiram dentro do movimento feminista em meio às re- sistências à ditadura civil-militar. Nes- te contexto brasileiro, segundo Leila Barsted (1992, p. 107), “tanto as ques- tões do feminismo, quanto a questão específica do aborto eram, ainda, temas considerados transplantados de outros contextos sociais.”, especificamente das sociedades capitalistas modernas e desenvolvidas do hemisfério norte, onde o feminismo tinha o direito ao aborto como “reconhecimento do di- reito à autonomia individual e como contestação ao poder do Estado em le- gislar sobre questões da intimidade do indivíduo.” (BARSTED 1992, p. 107)

Para Leila Barsted (1992), é de forma tímida que a questão do aborto, enquanto tema político, surgem publi- camente no Brasil dentro da agenda política do feminismo. Nos anos 1970, em que pesem “as contradições do movimento na definição de uma iden- tidade” (BARSTED, 1992, p. 110) o Centro da Mulher Brasileira, em 1978, e “lançou um manifesto reivindicando espaço para os temas-tabu, dentre eles as questões da sexualidade e do abor- to.” (BARSTED, 1992, p. 110)

(24)

Apesar desta reinvindicação, para Joana Maria Pedro (2003, p. 254),

“no Brasil, contudo, o movimento fe- minista não teve participação direta na liberação dos contraceptivos para o uso. A ditadura militar, iniciada em 1964, impediu qualquer manifestação popular, assim como reuniões, asso- ciações, debates”. Entretanto, segundo Pedro, jornais e revistas noticiaram e divulgaram o contraceptivo ENOVID, pílula anticoncepcional cujo comércio teve início no Brasil em 1962, após ter sido aprovado em 1960 Estados Uni- dos pelo FDA — Food and Drug Ad- ministration, atrelado à alarmes sobre superpopulação na América Latina.

(PEDRO, 2003)

Nos anos 1980, com a demo- cratização política do Brasil, o Movi- mento Feminista, assumi publicamente a questão do aborto. Sendo objeto de estudos, publicações e mobilizações das organizações feministas. No iní- cio dos anos 1990 “dentre as ações do movimento de mulheres pelo direito ao aborto destacam-se as pressões so- bre as diversas câmaras municipais, em particular nas capitais dos estados, para fazer incluir, nas leis orgânicas dos mu- nicípios, o direito ao atendimento nos serviços públicos de saúde, nos casos de aborto previstos em lei.” (BARS- TED, 1992, p. 125).

Diante de histórias sobre a prá- tica do aborto, atualmente, contadas e registradas em documentários como a

produção “O Fim do Silêncio” (2008), dirigido por Thereza Jessouroun, cria- se fissuras no mutismo em torno da prática. No Documentário “O Fim do Silêncio”, publicação da Editora Fiocruz, ao longo de cinquenta e dois minutos mulheres, de diferentes idades e moradoras de diversos estados bra- sileiros contam como, quando e por que decidiram interromper a gravidez.

São palavras, quase que confessadas à câmera e a pesquisadora/produtora do documentário. São palavras que desve- lam cortinas de silêncio sobre o corpo da mulher; são palavras de coragem de verdades de mulheres que apesar dos estigmas decidiram falar, contar, narrar e questionar os controles sobre o cor- po feminino.

Ousaram negar-se enquanto corpo reprodutor, ação tida como pe- cado e subversão aos olhos da moral religiosa; crime aos olhos cegos do Código Penal Brasileiro, e de enfren- tamento para os movimentos feminis- tas em prol das descriminalização do aborto.

Para Leila Barsted (1992, p.

104), o direito ao aborto “se constitui na expressão mais radical da liberdade do cidadão perante o Estado.” Apesar do “manto de silêncio e tabu”, na Mar- cha Mundial das Mulheres, em 2013, cartazes afirmavam: “Eu aborto, tu abortas, somos todas Clandestinas”, em clara postura de contestação aos silêncios em torno do aborto e ruptu-

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ra com a moral que pedagogiza a ver- gonha, o medo, a culpa, o silêncio e a morte para as mulheres que decidem sobre seu corpo na contramão das in- gerências do Código Penal Brasileiro e da moral vigentes.

Ademais, no 5° Encontro Fe- minista Latino-Americano e Cariben- ho, realizado no ano de 1999, em Juan Dolio, na República Dominicana ins- tituiu-se o 28 de setembro como dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto. Somen- te em dois países latino-americanos e caribenhos: Cuba e Uruguai, o aborto foi legalizado. Ainda, a Cidade do Mé- xico legalizou o aborto em 2007, mas no restante do México, o aborto é cri- me.

Para Debora Diniz, “O tema do aborto se cruza com o com o do planejamento reprodutivo, mas prin- cipalmente com ideais sociais sobre a maternidade e o feminino. Mas, di- ferentemente de outras mudanças no campo reprodutivo, como as tecnolo- gias reprodutivas ou a pílula do dia se- guinte, o aborto se mantém escondido sob um manto de silêncio e tabu” (DI- NIZ, 2012, p. 323.).

Os estudos e as lutas dos mo- vimentos feministas sobre aborto no Brasil são fissuras no “pesado silên- cio sobre o corpo da mulher” (PE- RROT, 2003, p. 18). São escritas que evidenciam as experiências de mulhe- res. Mostram como se deu e se dão os

rasgos nos corpos femininos frente à biopolítica patriarcal. Enfrentam como foi e tem sido as lutas incessantes pelo domínio do próprio corpo e pelas vi- das das mulheres, que não se querem nem pecadoras, nem criminosas, nem clandestinas nem mortas no Brasil; se querem vivas e donas de si.

Paula Faustino Sampaio Referências e sugestões de leitura

ARDAILLON, Danielle. Cidadania de corpo inteiro:

discursos sobre o aborto em número e gênero. São Paulo, 1997. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade de São Paulo.

BASTED, Leila. Legalização e descriminalização do abor- to no Brasil: 10 anos de luta feminista. Revista Estudos Feministas. Rio de Janeiro,v.0, n.2, p. 104-130, 1992.

DINIZ, Debora. Aborto e Saúde Pública no Brasil. Ca- dernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 9, p.

1992-1993, set. 2007.

______. Três Gerações de Mulheres. In: PINSKY, Carla Bassanezi.; PEDRO, Joana Maria. (Orgs.) Nova História das Mulheres. São Paulo: Contexto, 2012. p.331-332.

GAGNEBIN. Jean Marie. Lembrar, escrever, esquecer.

São Paulo: Ed. 34, 2006.

PEDRO, Joana Maria (Org.) Práticas proibidas: práticas costumeiras de aborto e infanticídio no século XX. Flo- rianópolis: Cidade Futura, 2003.

______. A experiência com contraceptivos no Brasil:

uma questão de geração. Revista Brasileira de História.

São Paulo, v. 23, nº 45, p. 239-260 – 2003.

PERROT, Michelle. Os silêncios do corpo da mulher. In:

MATOS, Maria Izilda Santos de.; SOIHET, Rachel. São Paulo: Editora UNESP, 2003. p.13-41.

PITANGUY, Jacqueline. O Movimento Nacional e In- ternacional de Saúde e Direitos Reprodutivos In:GIF- FIN, Karen (Org.) Questões da saúde reprodutiva. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1999.

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Acoso sexual (en el trabajo)

Inicialmente la lucha contra el acoso sexual laboral se configuraba de manera casi exclusiva como una con- culcación de la dignidad humana. Se entiende la misma como el marco en el que se desarrollan el resto de derechos fundamentales entre los que destacan el derecho a la intimidad, la integridad física, la integridad psíquica, la igual- dad y la libertad. Dicho planteamiento inicial ha sido completado hasta encu- adrarse claramente en el ámbito de la discriminación por razón de sexo, en el ámbito de las violencias contra las mu- jeres como vulneración de los derechos humanos. Ello es importante porque cuando se habla de violencia de género no siempre se relacionan con la discri- minación por razón de sexo como me- dio generador-sustentador. Ni tampo- co se establece una relación directa con lo que es una escandalosa vulneración de los derechos humanos. Por tanto, en demasiadas ocasiones, se las recluyen en departamentos estancos, que lo que provocan es el enquistamiento de las mismas al no emprenderse las necesa- rias intervenciones correctoras de ca- rácter integral. Esta evolución a la que me refiero no es casual, ya que anda pareja al hecho de ponerle nombre, así como a su visibilización como grave

problema social mundial por parte del movimiento feminista y sindical.

Desde el momento en el que las feministas de la Universidad de Cornell en EEUU llamaron, allá por los seten- ta, a esta violencia sexual harassment (1), hasta la actualidad se han elabora- do gran número de instrumentos jurí- dicos, además del protomarco anterior;

que han ido conformando su concep- to, así como su necesaria prevención.

En el caso español la configu- ración del acoso sexual laboral ha ido evolucionando desde sus inicios en el período franquista hasta la actualidad.

Su configuración inicial estaba atrave- sada de la moral imperante de la época.

Es decir, tanto en la denominaciones empleadas como en las descripciones de las mismas (enfatizándose claramen- te la resistencia ante tales conductas) se observa como el bien jurídico protegi- do fundamental no era la libertad7 se- xual sino más bien la moral imperante, la honestidad y la decencia. Esto llevó a una cosificación ideológica del cuerpo de las mujeres mediante la cual se con- vierten en las garantes culturales, las portadoras de valores superiores, pero no en las sujetas afectadas en primera instancia por tales deleznables conduc- tas. Conforme ha ido avanzando la de- mocracia y se ha ido incorporando a la misma una perspectiva feminista y, por ende, de derechos humanos, tales cir- cunstancias se han ido corrigiendo. El acoso sexual es un ilícito cuyas notas

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características fundamentales son que ataca de manera directa al principio de igualdad entre mujeres y hombres.

Es además discriminatorio por razón de sexo Art. 14 C.E (2); pero también es un ilícito de carácter pluriofensivo, ya que afecta a otros bienes jurídicos protegidos como la integridad física o moral (Art. 15CE), la intimidad perso- nal (Art. 18CE), la libertad sexual, el derecho a la salud y la seguridad (Art.

43CE) y el derecho al trabajo (Art.

35CE).

Recientemente en el estado es- pañol se ha realizado un paso más en el camino de la prevención del acoso sexual laboral mediante la aprobaci- ón de la Ley Orgánica para la Igual- dad Efectiva de Mujeres y Hombres de 2007 (LOIEMH) (3). Una ley que tiene como objetivo fundamental ha- cer real la igualdad de género en todos los ámbitos que conforman la socie- dad española. Desde dicho marco la LOIEMH se ha convertido en el refe- rente fundamental para la caracteriza- ción del acoso sexual (en el trabajo) en el Estado español. Se define en el Art.

7.1 sin perjuicio de lo establecido en el Código Penal, a los efectos de esta Ley constituye acoso sexual cualquier com- portamiento, verbal o físico, de natu- raleza sexual que tenga el propósito o produzca el efecto de atentar contra la dignidad de una persona, en particular cuando se crea un entorno intimidato- rio, degradante u ofensivo. En dicho

artículo también se ha procedido a in- cluir el acoso como chantaje sexual, el condicionamiento de un derecho o de una expectativa de derecho a la acep- tación de una situación constitutiva de acoso sexual o de acoso por razón de sexo se considerará también acto de discriminación por razón de sexo (Art.

7.4). A su vez, se ha señalado que el mismo es discriminatorio por razón de sexo (Art. 7.3). Reforzándose de mane- ra fehaciente la defensa ante el acoso sexual en el trabajo mediante el Art.

9 LOIEMH relativo a la indemnidad frente a represalias.

Además en relación directa con todo lo indicado hasta ahora, se ha de hacer mención a la Recomendación 92/131/CEE de la Comisión, de 27 de noviembre de 1991, relativa a la pro- tección de la dignidad de la mujer y del hombre en el trabajo con su anexo re- lativo al Código práctico encaminado a combatir el acoso sexual en el tra- bajo(4) el mismo señala que está cla- ro que para millones de mujeres de la Comunidad Europea, el acoso sexual es una parte desagradable e inevitab- le de su vida laboral. Además existen una serie de grupos que se ven espe- cialmente afectados por el acoso sexual en el trabajo: las mujeres divorciadas o separadas, las mujeres jóvenes y las que se incorporan por primera vez al mer- cado de trabajo, las que tienen contra- tos laborales precarios o irregulares, las mujeres que desempeñan trabajos no

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pletos en el imaginario social. Por lo cual se puede afirmar que en todos los grupos está presente que son supuesta- mente víctimas más fáciles, porque van a tener menos mecanismos de defensa.

Ello nos permite apreciar claramente cómo las conductas de acoso sexual tienen un fuerte componente de poder mal empleado. Pero no es un poder único, es decir, de un superior, de un mando, sino que es un poder respal- dado socialmente a través del sexismo social, el cual se filtra en las empresas, porque quienes las forman también son integrantes de las sociedades.

Finalmente es importante re- marcar que el acoso sexual en el tra- bajo es una cuestión de poder mal entendido según el cual se reduce a la otra mediante la dominación. En dicho proceso de dominación se entreme- zclan justificaciones vinculadas a las creencias de inferioridad (por tanto, de desvalor) de lo supuestamente fe- menino respecto a lo supuestamente masculino (con valor o sobrevalor), así como se legitima el control masculi- no como lo hegemónico y verdadero dentro del orden social impuesto. Ade- más dichas justificaciones en el ámbito laboral (aunque no sólo en el mismo) se entremezclan con justificaciones de carácter clasista en las que, de nuevo, la jerarquía es normalizada como úni- ca forma de organización y de enten- dimiento de las relaciones humanas y, por supuesto, del poder y control.

tradicionales, las mujeres incapacitadas físicamente, las lesbianas y las mujeres de minorías raciales corren un riesgo desproporcionado. Los homosexuales y los hombres jóvenes también son vulnerables al acoso. Con relación a ta- les grupos se observa que el mismo se ejerce contra personas que en el ima- ginario social no tienen poder, básica- mente las mujeres en general, así como se agrava en los casos que las mujeres están “solas”, entendiendo por muje- res “solas” a aquellas que no tienen un hombre protector al lado. También se agrava en el caso de las mujeres que en- tran en el mercado laboral o están en sectores muy masculinizados, es decir, se ejerce contra aquellas que rompen la norma, salen de su ámbito privado o aspiran a ejercer una profesión que en el imaginario social no es de muje- res. De nuevo se agrava en el caso de las personas que no siguen la hetero- normatividad, o sea, va contra aquellas personas que se permiten el lujo de vi- sibilizar su orientación sexual no hete- rosexual. También se agrava en el caso de las mujeres diversas funcionalmente o pertenecientes a alguna minoría. En estos casos la mayor exposición a di- chas conductas viene dado por la so- breacumulación vulnerable, es decir, al hecho de ser mujeres se suma otra cau- sa más. En cuanto a las mujeres y los hombres jóvenes, la razón es la misma, en mi opinión, ya que no tienen poder.

Unas por ser mujeres y jóvenes y otros porque todavía no son hombres com-

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Además dichas estructuras son generadoras de violencia; porque son injustas, ya que siempre consideran a alguien como no-ser completo. En tal incumplitud están todas las mujeres;

pero también todos aquellos hombres que no se incluyen en dicha única su- puesta masculinidad hegemónica o que no pertenecen a la clase superior de la jerarquía establecida. A su vez, tales es- tructuras necesitan de la violencia para poderse imponer, para poder sobrevi- vir al influjo de los derechos humanos como nueva justificación ideológica contra todo tipo de justificaciones discriminatorias de muchos siglos, de milenios, así como se requiere la vio- lencia también contra la aspiración de alcanzar la ciudadanía plena en todos los ámbitos. También en el ámbito la- boral, por qué no.

Ciertamente tales vulneracio- nes de derechos en el ámbito laboral se presentan tanto para hombres como para mujeres, ya que como comen- ta Tárraga Poveda (5) todavía hoy no se tiene muy clara la diferencia entre trabajador y siervo. Es decir, entre un hombre libre y otro que no lo es. Pero si la condición de siervo es terrible, a la condición de sierva se le une la condi- ción de sierva sexual, lo cual es central en cuanto al acoso sexual en el traba- jo, ya que la misma no tiene libertad al entendérsela como un ser inferior e incompleto. Como un objeto al servi- cio de, como una intrusa que ha osado

transgredir aquello que también definía el refrán, a la mujer en su casa nada le pasa. En definitiva, el acoso sexual en el trabajo es una terrible forma de vio- lencia sexual contra las mujeres por el simple hecho de serlo; pero la misma se ha venido sustentando en el sexismo como manera normalizada de organi- zación y relación humana, por lo que se requieren normas y medidas espe- cificas contra el acoso sexual en el tra- bajo a todos los niveles políticos; pero también se requiere que la prevención del mismo se vincule con la erradicaci- ón de tales visiones jerárquicas y dico- tómicas de lo que se supone somos las mujeres y los hombres, de lo que se su- pone que es un trabajador y una traba- jadora, de la eliminación de todo tipo de discriminaciones e injusticias socia- les, económicas, culturales, políticas, etc. tanto dentro de la empresa como fuera. En definitiva del respeto a los derechos humanos. En cuanto al mal ejercicio del poder que se está comen- tando. Añadir que el mismo se presenta tanto en el acoso de intercambio como en el acoso ambiental. Porque el mis- mo también tiene un componente de abuso de autoridad, de mando, porque para crear ese ambiente intimidatorio, degradado, violento se requiere poder.

No siempre el poder ha de ser formal, sino también el mismo puede ser in- formal, ¿qué mayor poder de carácter estructural, sistemático, simbólico, etc.

que el propio orden patriarcal?

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Pero entonces, ¿el poder siem- pre es malo?, considero que no. Por- que el poder puede ser ejercido con carácter transformador. De hecho, la evolución que han tenido los derechos humanos desde su primera promulga- ción, así como la evolución jurídico-ju- dicial del acoso sexual son un ejemplo de empleo del poder para el cambio.

Tales planteamientos además han de ir acompañados de políticas de igualdad en todos los ámbitos que conforman nuestras sociedades. La ciudadanía ple- na se construye en todos, ellos y ellas.

Maria Ángeles Bustamante Ruano Referencias y indicaciones

de lectura

ALEMANY GÓMEZ, A., LUC, V., MOZO GONZÁ- LEZ, C., El acoso sexual en los lugares de trabajo, Insti- tuto de la Mujer- Serie Estudios, nº 70, Madrid, 2001, Pág. 14.

CONSTITUCIÓN ESPAÑOLA DE 1978. BOE nú- mero 311 de 29/12/1978, páginas 29313 a 29424 (112 Págs.) English version:http://www.boe.es/aeboe/consul- tas/enlaces/documentos/ConstitucionINGLES.pdf LEY ORGÁNICA PARA LA IGUALDAD EFECTI- VA DE MUJERES Y HOMBRES. BOE número 71 de 23/3/2007, páginas 12611 a 12645 (35 Págs.). English version: http://www.empleo.gob.es/es/igualdad/Docu- mentos/LEY_ORGANICA_3_2007.pdf

RECOMENDACIÓN 92/131/CEE DE LA COMISI- ÓN, DE 27 DE NOVIEMBRE DE 1991, RELATIVA A LA PROTECCIÓN DE LA DIGNIDAD DE LA MU- JER Y DEL HOMBRE EN EL TRABAJO CON SU ANEXO RELATIVO AL CÓDIGO PRÁCTICO EN- CAMINADO A COMBATIR EL ACOSO SEXUAL EN EL TRABAJO.http://europa.eu/legislation_summa- ries/employment_and_social_policy/equality_between_

men_and_women/c10917b_es.htm

TÁRRAGA POVEDA, J., “Trabajador o siervo. (O, defi- nitivamente, sobre la vigencia de los derechos fundamen- tales en la relación de trabajo)”, Aranzadi Social num.

16/2003, 200, Pág. 1.

Adultério

Do latim adulteriu, burlar, men- tir, trair, engabelar, dar volta, corrom- per, que viola a fidelidade conjugal;

prevaricação, união destoante e relação à margem do Sacramento matrimonial.

Diante de uma pluralidade de sentidos, significados e conceitos o adultério e suas práticas desenham e traçam iti- nerários instigantes sobre a história da intimidade e a condição humana. No tocante as relações matrimoniais, adul- tério nomeia o/a cônjuge que manteve relações sexuais com um/a terceiro/a fora do casamento, ferindo o contrato de união civil e/ou religiosa. Em quase todas as sociedades, o adultério é con- siderado uma grave violação dos deve- res da conjugalidade, regidos por leis e códigos de união conjugal consentidos nos costumes culturais e aprovados pelo Estado.

O Direito Romano criou a no- ção de fidelidade conjugal e estabele- ceu penalidades nas áreas civil e penal, e o ofendido podia fazer justiça com as próprias mãos, matando a esposa adúl- tera, pois considerava o adultério crime contra a autoridade do pater-familias.

No período medieval, a igreja cristã fez sacralizar o casamento, dogma que

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confinou o erotismo e a sexualidade voltada a reprodução. Na tradição re- ligiosa católica, o adultério era um ata- que ao direito masculino sobre o corpo feminino e destruidor do amor conju- gal. Era, nos escritos dos Apóstolos, um pecado também do homem: “Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.” (Mateus 5:28). Desde seu início, o cristianismo não admitiu o divórcio nem a infidelidade conjugal. Tomás de Aquino (século XIII) na Summa The- ologica sustentou que dentre os vícios mais pecaminosos está o adultério, ou fornicação fora do matrimônio: a luxú- ria era o pior dos pecados. Na lógica tomística, a mulher é a fonte do mal, sedutora e pecadora por excelência, recebendo como castigo as dores da gestação e do parto, e submeter-se ao marido. No Islamismo, a punição para o adultério pode ser o apedrejamento, abandono à própria sorte, mutilação do corpo, escárnio público e até mes- mo a morte. Embora o Alcorão defina também o adúltero masculino, recai sobre a mulher o crime de honra. No Judaísmo, a prática do adultério era condenada e vista como uma ameaça à integridade moral do indivíduo e à pre- servação de Israel como uma “nação sagrada”: “Não cometerás adultério”, e “Não cobiçarás a mulher do próxi- mo.” (Decálogos). Outras religiões têm suas normas e controle, como vemos no filme A Letra Escarlate, sociedade

puritana, onde Hester é condenada a viver separada da sociedade por ter co- metido o pecado de adultério.

No Brasil quinhentista, como na América espanhola, os discursos sobre a honra feminina advertia as mulheres casadas para esquivarem-se da prática do adultério. Nas páginas de “Cons- tituições primeiras do arcebispado da Bahia alertava-se as mulheres casadas sobre a prevaricação. “É muito grave, e prejudicial à República o crime do adultério contra a fé do matrimônio, e é proibido por Direito canônico, civil e natural, e assim os que o cometem são dignos de exemplar castigo”. De acordo com a legislação portuguesa vigente no Brasil Colônia (1500-1822), pelas Ordenações Filipinas (1603), o adultério era considerado como falta grave para ambos os cônjuges e tam- bém motivo de separação perpétua pela norma eclesiástica, e preconizava a morte da mulher adultera. “E toda mulher, que fizer adultério a seu ma- rido, morra por isso”. No século XVII o padre Manuel Bernardes chamava atenção das mulheres sobre os galan- teios masculinos, “nada responda, nem ainda para se mostrar irada” e na au- sência prolongada do esposo evitar ir igreja “porque por miséria humana, e instigação diabólica, pode suceder, que indo a buscar indulgências, traga pe- cados”; e para se distrair, aconselha o padre, “Leiam e meditem exemplos de matronas castas, que antes escolherem

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perder a vida, que violar a fé conjugal”.

(SILVA, 1984, p. 192-4). No sudeste do Brasil colonial na tentativa de manter a honra feminina intacta era costume das famílias mais abastadas recolher aos conventos da região mulheres conside- radas mais “afoitas. Poder-se-ia dizer que na sociedade colonial honra, virtu- de, honestidade eram preceitos funda- mentais para a mulher e que a prática do adultério constituía-se como falta grave e sujeitas as punições severas.

No século XVIII e XIX os dis- cursos moralistas visavam inibir a mu- lher adúltera. Segundo Vainfas “a lei do adultério o cerne da condenação ao concubinato e, neste sentindo, parece mais preocupada com as uniões feitas à margem da autoridade eclesiástica”, ou um pecado diante das leis de Deus e uma ofensa à honra feminina. Por isso [...] as mulheres casadas devem ser for- tes, discretas e prudentes: dentro em suas casas, zelosas; fora delas, recata- das; e em todas as ocasiões, exempla- res; [...]. (VAINFAS, 1986, p. 41-8).

O Código Civil Napoleôni- co (1804), vigente em toda a Europa, aplicado também no Brasil, obrigava a mulher casada a residir no domicílio do marido e a prestar-lhe obediência.

Conforme este Código, o homem po- dia solicitar o divórcio sempre que a mulher praticasse adultério, mas a ela cabia a solicitação se o adultério tivesse sido praticado “com escândalo públi- co”. No Brasil imperial as mulheres

estavam permanentemente sobre ri- goroso controle diante dos discursos morais inoculados na teia da sociedade colonial, onde a prática do adultério as castigava com severidade. Em algumas regiões do Brasil matava-se em nome da honra: no norte do Brasil, nos se- ringais do Amazonas, o adultério fe- minino custava à vida da mulher. No extremo sul, em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) era prá- tica de uma parcela da população, atra- vés da imprensa, chamar atenção dos maridos modernos diante dos namori- cos de suas esposas.

A literatura, por sua vez, pro- duziu imaginários e subjetividades no tocante ao adultério. Lúcio de Men- donça, em 1882, publica o romance

“O marido da adúltera”, onde narra os infortúnios do marido traído e a desen- voltura da adultera nos salões do Brasil imperial. Na Rússia de Tolstói, “Ana Karênina”, não encontra alternativa a não ser o suicídio diante do seu adulté- rio. E diante da moralidade portuguesa do século XIX, Eça de Queirós, em 1875 no romance “O Primo Basílio”, relata o adultério de Luísa consumida moralmente nos seus jogos de preva- ricação. No século XX, Raymond Ra- diguet contempla a sociedade francesa com o romance “Le Diable au corps”

onde os personagens para sobrevive- rem em adultério dependem cada vez mais do alongamento da guerra. No romance medieval “Tristão e Isolda”, para viverem em adultério afrontam

Referências

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