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Ciênc. saúde coletiva vol.18 número10

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Academic year: 2018

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L Pesquisas em saúde mental: o desafio de pesquisar mudanças e inovações em um campo demarcado por questões ético-políticas

No campo da Saúde Coletiva brasileira, a área de saúde mental tem se destacado pelas rupturas éticas que produziu no cenário das formulações políticas e pelas marcantes mudanças e inovações das práticas assistenciais. Novas configurações de redes de serviços, novas formas de organização dos cuidados clínicos e de reabilitação psicossocial têm produzido, também no campo da pesquisa, novas indagações e desafios metodológicos e de cunho ético-político.

O acúmulo dos estudos advindos da área de políticas, planejamento e gestão já legitimados, como os das pesquisas avaliativas e participativas, ganha novas nuances e desafios ao ser realizado em parceria com usuários de saúde mental. Como não defender a relevância da participação dos próprios

interessa-dos (stakeholders) num campo que produziu antes de sua Reforma estigma e exclusão? Como não

reconhecer que é o próprio ato de convocá-los a pesquisar junto com os investigadores o que introduz uma salutar tensão e desestabilização no campo metodológico e procedimental das pesquisas? A dimen-são de intervenção que toda e qualquer pesquisa acarreta é também revelada nesses desenhos, pondo de relevo os entraves e desafios que a Reforma Psiquiátrica ainda tem de enfrentar: burocratização, medica-lização, manutenção do estigma, etc.

A tradição dos estudos etnográficos, como as entrevistas em primeira pessoa e os estudos sobre a experiência de adoecimento também se veem grandemente modificados ao serem realizados junto a usuários da saúde mental. Acessa-se a formas de sofrimento com sérias dificuldades de serem expressos em palavras. O uso das palavras reaviva as dores do viver dessas pessoas. As interfaces se multiplicam então pela necessidade de se sustentar um compromisso ético-político com os que sofrem. A pesquisa não pode ser mais isolada da intervenção clínica, cuidados delicados e respeitosos devem ser tecidos para o bom andamento das investigações. Parcerias entre investigadores e serviços fazem-se imprescindíveis nessa hora, demandando novos cuidados à gestão da pesquisa em si. Nesse movimento, as estratégias de aculturação também devem ser cuidadosamente modificadas muitas vezes: criar instrumentos para tornar estranho o conhecido (no caso de pesquisadores advindos dos próprios serviços), buscar formas de revelar o que não tinha ainda sido nomeado em termos de temores ou defesas, aberturas ao inédito e utilização criteriosa do diário de campo, por exemplo, para não perder um rico material empírico que não poderia ser coletado de outra maneira. O ofício do etnógrafo vê-se assim modificado, tensionado, porém sempre fiel ao seu ensejo de conhecer aquilo que nos resulta estrangeiro.

A formação de novos pesquisadores nesse contexto toma o caráter de trabalho de cogestão, faz-se participativo também. Divisão de tarefas, escrita coletiva, correções a muitas mãos. Criação entre

mui-tos, e nunca obediência cega aos mais experientes. Um aprendizado que se produz também pela e na

prática do pesquisar. Na esperança de fertilizar, de se multiplicar, de se espalhar...

Neste número da Revista Ciência e Saúde Coletiva são apresentados trabalhos de vários grupos de

pesquisa brasileiros que se vêm articulando, nos últimos quatro anos, por meio de uma aliança de

pesquisa, com grupos do Canadá através da ARUC (Alliance Internationale de recherche unniversités et

communautés) e financiamento do CRCSH e do IDRC do Canadá. Trabalhos de parceiros canadenses, em larga sintonia com os nacionais, estão também presentes, dando mostra da internacionalização do campo. Além da equipe da ARUC, outros pesquisadores brasileiros, com tradição de pesquisa de muita proximidade temática ou metodológica, contribuíram para deixar nossa Revista mais interessante.

Boa leitura!

Referências

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