• Nenhum resultado encontrado

Os direitos humanos nos planos de ação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB):

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2022

Share "Os direitos humanos nos planos de ação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB):"

Copied!
14
0
0

Texto

(1)

Os direitos humanos nos planos de ação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): 1966-1986

Maurício de Aquino

Doutor em História e Sociedade pela UNESP Professor da Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP Trabalho vinculado ao Projeto de Pesquisa SECAPEE-UENP n. 4395 [email protected]

Resumo: Pode-se considerar que os direitos humanos se sustentam na premissa de que a dignidade da pessoa humana deve ser o eixo a partir do qual são estabelecidos os direitos e aplicadas as leis. Na Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), histórica instituição cristã, a adoção papal da gramática moderna dos direitos humanos deu-se formalmente por meio da encíclica Pacem in Terris, do papa João XXIII, em 1963, no décimo quinto aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Esse papa convocara em 1958 a mais importante assembleia da ICAR, denominada Concílio. Entre 1962 e 1965, essa assembleia, o Concílio Vaticano II, acolheu as proposições do papa João XXIII e de seu imediato sucessor, papa Paulo VI, acerca dos direitos humanos iniciando uma nova tendência de ação no cristianismo católico. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acolheu as decisões do Vaticano II e encaminhou planos de ação de modo a aplicar sua doutrina e orientações expressas em dezesseis documentos. No plano sociopolítico, a partir de 1964 o Brasil entrou no tempo da ditadura militar com um regime de governo violador de direitos humanos. É nesse contexto, de decisão de promoção dos direitos humanos pela ICAR e de atos violadores desses direitos pelo Estado Militar brasileiro, que a CNBB elaborou, entre 1966 e 1986, quatro planos de ação da instituição junto à sociedade brasileira. Esses planos constituem as fontes principais da análise que este trabalho realiza procurando compreender o discurso da CNBB acerca dos direitos humanos nesse período.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Conferência Nacional dos Bispos do Brasil;

Ditadura Militar brasileira.

Introdução

A partir dos anos 1960 os bispos da Igreja Católica Apostólica Romana, reunidos na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e impulsionados pelo papa João XIII e pelo Concílio Vaticano II por ele convocado, iniciaram o trabalho de planejamento das ações católicas em face da realidade atual. (cf. CNBB, 1979).

O primeiro deles, de caráter emergencial, foi elaborado e aprovado no ano de 1962 para atender expressa solicitação do próprio papa João XXIII. Reelaborado ao final

(2)

do Concílio Vaticano II, o plano emergencial deu origem ao primeiro Plano de Pastoral que vigorou por oito anos, de 1966 a 1974. Seguiram-se então os planos quadrienais de 1975-1978, 1979-1983, 1983-1986 situados no contexto histórico da Ditadura Militar brasileira, recorte temporal desta análise. (cf. CNBB, 1979).

A novidade desses planos de ação na Igreja Católica, instituição histórica com extenso lastro sociocultural no Brasil, não apenas com a consolidação de um regime autoritário militarista, mas também com uma inflexão na história da própria Igreja que inspirada pelas intuições e decisões conciliares promoveu maior aproximação da instituição com as questões religiosas, sociais, culturais, políticas e econômicas do tempo presente. No início de um dos principais documentos conciliares, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo de hoje, registra-se esse propósito de aproximação eclesial com as realidades dos homens e mulheres da atualidade:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para comunicar a todos.

Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história. (DOCUMENTOS, 1997, p. 539-540, n. 1).

A Gaudium et Spes refletia também a inspiração do papa João XXIII em sua encíclica Pacem in Terris, de 1963, sobre a paz, verdadeira declaração católica dos direitos humanos. A dignidade da pessoa humana à luz do Evangelho de Jesus Cristo tornou-se um dos princípios centrais da Igreja após o Concílio Vaticano II. A histórica capilaridade institucional católica no Brasil, a ativa participação dos bispos brasileiros nesse Concílio humanista, bem como a realidade autoritarista e desumanizadora do regime militar institucionalizado no Estado brasileiro entre 1964 e 1985 (cf. FICO, 2014), estão entre as razões para a defesa e promoção dos direitos humanos pela Igreja Católica no Brasil nesse período, não sem contrapontos internos e externos próprios de uma grande e milenar instituição.

(3)

Concebendo os direitos humanos como conjunto de convicções e dispositivos sociopolíticos, culturais, religiosos e jurídicos que têm por eixo a dignidade da pessoa humana, neste trabalho pretende-se analisar o discurso sobre os direitos humanos nos planos de ação da CNBB durante o período histórico da Ditadura Militar brasileira relacionando-o com a linguagem da ação manifesta nos acontecimentos desse contexto.

Para Dalmo de Abreu Dallari (2004, p. 12):

A expressão direitos humanos é uma forma abreviada de mencionar os direitos fundamentais da pessoa humana. Esses direitos são considerados fundamentais porque sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da vida.

Na encíclica Pacem in Terris, o papa João XXIII (1963, n. 9-10) afirma que:

Em uma convivência humana bem constituída e eficiente, é fundamental o princípio de que cada ser humano é pessoa; isto é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por essa razão, possui em si mesmo direitos e deveres, que emanam direta e simultaneamente de sua própria natureza. Trata- se, por conseguinte, de direitos e deveres universais, invioláveis e inalienáveis.

E se contemplarmos a dignidade da pessoa humana à luz das verdades reveladas, não poderemos deixar de tê-la em estima incomparavelmente maior. Trata-se, com efeito, de pessoas remidas pelo Sangue de Cristo, as quais com a graça se tornaram filhas e amigas de Deus, herdeiras da glória eterna.

Ainda na Pacem in Terris, nota-se a ênfase e valorização da Declaração Universal dos Direitos Humanos na forma de homenagem visto que naquele ano de 1963 essa Declaração completava seu 15º aniversário:

Um ato de altíssima relevância efetuado pelas Nações Unidas foi a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada em assembleia geral, aos 10 de dezembro de 1948. No preâmbulo desta Declaração proclama-se, como ideal a ser demandado por todos os povos e por todas as nações, o efetivo reconhecimento e salvaguarda daqueles direitos e das respectivas liberdades.

Enfim, é a partir destas premissas, contextos e propósitos que se estrutura a sucinta análise expressa neste texto.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e seus quatro primeiros planos de ação: 1966-1986

(4)

A CNBB foi criada no dia 14 de outubro de 1952 durante encontro dos arcebispos metropolitanos do Brasil com o núncio apostólico dom Carlos Chiaro, no Palácio São Joaquim, na cidade do Rio de Janeiro. Foi seu primeiro presidente o arcebispo de São Paulo, cardeal dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Foi seu primeiro secretário-geral o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara. (cf. CANCIAN, 2011, p. 32; MATOS, 2003, p. 152).

A CNBB foi criada com a intenção de articular a ação do episcopado nacional em problemas de interesse comum a todas as dioceses brasileira e surge com o papel de representar institucionalmente o episcopado brasileiro (a Igreja Católica no Brasil) intermediando a relação das dioceses com a Santa Sé (Vaticano) e com as instâncias do Poder Público e da Sociedade Civil.

Após o Vaticano II, com a experiência sui generis de convivência cotidiana dos 204 bispos brasileiros na mesma casa (Domus Mariae), em Roma, durante os trabalhos do Concílio, a CNBB como que foi recriada: maior articulação entre os bispos;

reconhecimento de grupos episcopais tradicionalistas, conservadores e progressistas;

lastro institucional da CNBB com as seções regionais; e, principalmente, novas concepções teológico-políticas consubstanciadas em sua “Missão Pastoral e Evangelizadora”, com opção preferencial pelos pobres (Medellín, 1968). (cf. MATOS, 2003, p. 160; CANCIAN, 2011, p. 44).

A criação da CNBB em 1952 deu-se em contexto de ampliação e fortalecimento da Ação Católica, Ação Popular, entre outras ações de órgãos e movimentos católicos.

Também havia articulação da CNBB com o modelo de Estado Desenvolvimentista no Brasil dos anos 1950. A Igreja tinha serviços de interesse público subsidiados pelo Poder Público: principalmente, na educação (MEB) e comunicação (Rede Católica de Rádios).

Participa da criação da SUDENE em 1959 apoiando o Estado no desenvolvimento da região nordeste do país. Há intervenção nessa região diante da desigualdade desta com o sudeste e sul do país em prodigiosa industrialização. Dá-se por meio de um planejamento sistemático, típico do desenvolvimentismo. Na prática, ação que se coloca contra os interesses dos latifundiários.

(5)

Ad intra, no interior da Igreja, há o Plano de Emergência (plano de ação para o período 1962-1965) e o Concílio Vaticano II (1962-1965). Este a partir de dois princípios fundamentais: (1) ressourcement (retorno às fontes cristãs) e (2) aggiornamento (atualização eclesial aos novos tempos) para a renovação da ação da Igreja no mundo contemporâneo.

No Brasil acontecem as Marchas da Família (1964), com pregação anticomunista do padre Patrick Peyton, irlandês radicado nos EUA, fenômeno de pregador no rádio e na TV, mobilizando no início de 1964 os atos do “Rosário pela Família” e das “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”, que com o apoio do governador de S. Paulo, Adhemar de Barros, mobilizou 300 mil pessoas em 19 de março de 1964; e, após o golpe de estado, de 31 de março de 1964, com o apoio do governador do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, mobilizou 2 milhões de pessoas em 02 de abril de 1964. Ambas contaram com apoio de organizações patronais. (cf. DELGADO, PASSOS, 2012, p. 109-115; GOMES, 2014, p. 41-42).

No ato do Golpe de Estado no Brasil em 31 de março de 1964, a liderança da Igreja, os bispos e arcebispos, não estavam no país, estavam em Roma, participando do Concílio Vaticano II, e receberam informações positivas e negativas sobre o ato: ação militar contra o comunismo acompanhada de perseguição a meios de comunicação (fechamento imediato em abril do jornal operário católico Brasil Urgente – frei Carlos Josaphat), e invasão do convento dominicano em Belo Horizonte. (cf. GOMES, 2014, p.

41-42).

No último mês do Concílio Vaticano II aconteceu o chamado Pacto das Catacumbas (16 nov. 1965): 40 padres conciliares, sendo 8 do Brasil, celebraram a Eucaristia nas Catacumbas de Domitila e assumiram o compromisso de viver a experiência de uma Igreja servidora dos pobres. Depois mais clérigos se comprometeram com esse Pacto das Catacumbas, muitos deles partícipes da Conferência de Medellín de 1968.

A seguir apresentam-se, em ordem cronológica, as principais informações do Plano de Emergência e dos quatro primeiros planos de ação da CNBB:

(6)

■ PLANO DE EMERGÊNCIA (PE) – 1962-1965. Aprovado 5ª Assembleia Geral Ordinária da CNBB, de 2 a 5 de abril de 1962. Publicado em 25 de setembro de 1962. Em 1962, era presidente, o cardeal dom Jaime de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro. Era secretário-geral, dom Hélder Câmara, bispo auxiliar do Rio de Janeiro.

■ PLANO DE PASTORAL DE CONJUNTO (PPC) – 1966-1970/1971-1974.

Aprovado na 7ª Assembleia Geral Extraordinária da CNBB, de 11 a 17 de outubro de 1965 em Roma. Os objetivos e as seis grandes linhas de trabalho foram confirmados também para o período posterior, estendendo-se até 1974 (8 anos).

Em 1966, era presidente o cardeal dom Agnelo Rossi, Arcebispo de S. Paulo. Era secretário-geral, dom José Gonçalves da Costa, bispo auxiliar da Arquidiocese do RJ.

■ DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL – 1975-1978. Aprovadas na 14ª Assembleia Geral da CNBB, de 19 a 27 de novembro de 1974, em Itaici, Indaiatuba-SP. Em 1974, era presidente o cardeal dom Aloísio Lorsheider, Arcebispo de Fortaleza. Era secretário-geral dom José Ivo Lorsheiter, bispo de Santa Maria-RS.

■ DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL – 1979-1982. Aprovadas na 17ª Assembleia Geral da CNBB, de 18 a 27 de abril de 1979 em Itaici, Indaiatuba-SP. Em 1979, era presidente dom José Ivo Lorsheiter, bispo de Santa Maria-RS. Era secretário-geral dom Luciano Mendes de Almeida, então bispo auxiliar de São Paulo.

■ DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL – 1983-1986. Aprovadas na 21ª Assembleia Geral da CNBB, de 06 a 15 de abril de 1983 em Itaici, Indaiatuba-SP. Em 1983, era presidente dom José Ivo Lorsheiter, bispo de Santa Maria-RS. Era secretário-geral dom Luciano Mendes de Almeida, bispo auxiliar de São Paulo.

Os direitos humanos nos planos de ação da CNBB: 1966-1986

(7)

Observam-se alguns acontecimentos e processos que permitem referenciar e contextualizar sucintamente esse período de elaboração dos planos de ação da CNBB e da construção dos direitos humanos nestes textos.

Em 1967 foi publicada a encíclica Populorum Progressio, do papa Paulo VI, sobre o desenvolvimento integral dos Povos, com ênfase no Terceiro Mundo. Em julho de 1968, foi apresentado o texto “A ideologia da Segurança Nacional à luz da Doutrina Social da Igreja”, de dom Cândido Padim. Comparava a ideologia da Segurança Nacional na Constituição de 1967 com as últimas três encíclicas. Tensão pública com o Estado Militar uma vez que depreciava e denunciava a supressão de direitos imposta na Constituição de 1967. (cf. DELGADO, PASSOS, 2012, p. 125).

Também em 1968 aconteceu a Conferência de Medellín (Agosto de 1968) e foi outorgado o ATO INSTITUCIONAL Nº 5 (dez. 1968). Em 1969, foi criada a Comissão Brasileira Justiça e Paz no âmbito da CNBB que estimulou a criação regional de Comissões de Justiça e Paz.

Em 1969, Madre Maurina Borges da Silveira, dirigente de um orfanato em Ribeirão Preto, foi presa, torturada e seviciada, sob acusação de pertencer a uma organização guerrilheira de esquerda denominada Frente Armada de Libertação Nacional (FALN). Dom Paulo Evaristo Arns intercedeu e Madre Maurina foi liberta e se exilou.

Em 1969, um grupo de freis dominicanos foi preso sob acusação de ligações com a organização guerrilheira denominada Aliança Libertadora Nacional (ALN). Todos foram torturados. Frei Tito (cujas sequelas da tortura levaram-no a uma dor psicológica que resultou em suicídio no ano de 1974); Frei Betto (que descreveu esse acontecimento no livro Batismo de Sangue); Frei Ives Lespaubin (tornou-se sociólogo profissional; deixou o estado clerical); Frei Fernando Brito; Frei Giorgio Callegari; Frei Roberto Romano (tornou-se filósofo profissional; deixou o estado clerical). (cf. CANCIAN, 2011, p. 56- 57).

Em 1970, há palestra de dom Hélder Câmara em Paris, no mês de maio, na qual denuncia ao mundo as torturas da Ditadura Militar sob o governo do general-presidente Emílio Garrastazu Médici. Neste mesmo ano, o arcebispo de Diamantina, dom Gerado de Proença Sigaud teria dado palestra para o Estado Maior e denunciado pessoas

(8)

consideradas ‘subversivas’ no interior da Igreja. Ainda em 1970 foram iniciados os trabalhos da Comissão Bipartite (1970-1974) que consistiu em encontros secretos para buscar resolver os conflitos entre a Igreja e o Estado. Representavam a Igreja os arcebispos do Rio de Janeiro (dom Eugênio Sales) e de São Paulo (dom Paulo Arns). O general Antônio Muricy representava o Governo Médici.

Em 1971, houve a Instalação da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e publicação do documento “A Justiça no Mundo” (1971), do Sínodo dos Bispos convocado pelo papa Paulo VI. Em 10 de outubro de 1971 publica-se a Carta Pastoral

“Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, fundamentada no Documento de Medellín e no Documento Esquema A Justiça no Mundo (Sínodo dos Bispos, 1971), de dom Pedro Casaldáliga, recém-nomeado por Paulo VI bispo da Prelazia de S. Félix do Araguaia no noroeste do Mato Grosso. (cf.

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 2011).

Em 1972 foi criado o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e dom Paulo Evaristo Arns lançou o projeto Operação Periferia: uma ação evangelizadora com base em ações concretas para atender problemas mais urgentes da população carente, articulada com as paróquias locais e as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).

Em 1973, 25º ano da Declaração Universal dos DDHH, foram publicados 3 documentos de referência: “Eu ouvi os clamores do meu povo” (endossado por 18 bispos e superiores religiosos do Nordeste, 6/5 do total); “Marginalização de um povo: grito das Igrejas” (assinado por 6 bispos do Centro-Oeste, 6/5 do total); “Y Juca Pirama – o índio aquele que deve morrer” (assinado 6 bispos e 6 missionários da região amazônica, 12 de 25 do total). (cf. MATOS, 2003, p. 207-220).

Em 22 de junho de 1975, foi criada a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em favor dos direitos dos camponeses. E em 31 de outubro desse mesmo ano, aconteceu culto ecumênico na praça da Sé em S. Paulo: dom Paulo Arns preside culto ecumênico, com o pastor presbiteriano Jayme Wright e o rabino Henry Sobel, em memória de Vladimir Herzog, assassinado no dia 25 daquele mês após ser torturado nas instalações do DOI- CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) em São Paulo. O órgão repressor quis simular suicídio.

(9)

Em 22 de setembro de 1976 aconteceu o sequestro de dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, que denunciava a violação de direitos humanos pela ditadura militar, foi sequestrado, seviciado e deixado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Seu veículo, um fusca, foi incinerado diante da sede nacional da CNBB, no bairro da Glória.

Em 17 de fevereiro de 1977 foi publicado o documento da CNBB “Exigências cristãs de uma ordem política”. Por ocasião do 25º aniversário de fundação da CNBB, durante a 15ª Assembleia Geral em Itaici, bairro de Indaiatuba no interior do estado de São Paulo. Fez-se nesse documento leitura crítica da atual situação política do país à luz da Doutrina Social da Igreja com explícita posição do episcopado pela redemocratização do Brasil.

Após o Conclave de outubro de 1978 que elegeu o papa João Paulo II e a Conferência de Puebla, no ano de 1979, bem como com a Lei da Anistia, de 28 de agosto de 1979, e o retorno do Pluripartidarismo, Lei Federal n° 6.767, de 20 de dezembro de 1979, na qual a ARENA (Aliança Renovadora Nacional, partido do governo militar) se transformou em PDS (Partido Democrático Social) e do MDB (Movimento Democrático Brasileiro, “oposição” ao governo militar) vieram PMDB, PDT, PTB, PP, PT, sendo que o partido dos militares manteve-se coeso enquanto a oposição se dividiu em 5 partidos dando sobrevida e poder de barganha aos membros da ex-Arena, houve então fracionamento da oposição política que gerou divisões internas da Igreja e grupos moderados e conservadores do episcopado brasileiro argumentaram que a Igreja não precisa mais se deter tanto na análise e intervenção social com a abertura política em curso. Em 1985, a Arquidiocese de São Paulo (2011) publicou o livro Brasil: Nunca Mais que ecoa em seu título o principal do projeto de mesmo título da Comissão Justiça e Paz com provas retiradas dos próprios sistemas de repressão e violação de direitos humanos do Estado militar.

Especificamente quanto aos direitos humanos nos planos de ação da CNBB, pode-se observar o seguinte:

(10)

PLANO DE PASTORAL DE CONJUNTO (PPC) – 1966-1970/1971-1974.

Aprovado na 7ª Assembleia Geral Extraordinária da CNBB, de 11 a 17 de outubro de 1965 em Roma. Os objetivos e as seis grandes linhas de trabalho foram confirmados também para o período posterior, estendendo-se até 1974 (8 anos).

Em 1966, era presidente o cardeal dom Agnelo Rossi, Arcebispo de S. Paulo. Era secretário-geral, dom José Gonçalves da Costa, bispo auxiliar da Arquidiocese do RJ.

A Linha de Trabalho número 6, deste PPC, intitula-se “Promover a melhor inserção do Povo de Deus, como fermento em um mundo segundo os desígnios de Deus”. O texto explicita que a Igreja “deseja vivamente poder desenvolver-se sob qualquer regime que respeite os direitos fundamentais da pessoa e da família, as exigências do bem comum e a liberdade da sua missão”. (CNBB, 2004, p. 60, grifo nosso).

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL – 1975-1978. Aprovadas na 14ª Assembleia Geral da CNBB, de 19 a 27 de novembro de 1974, em Itaici, Indaiatuba-SP. Em 1974, era presidente o cardeal dom Aloísio Lorsheider, Arcebispo de Fortaleza. Era secretário-geral dom José Ivo Lorsheiter, bispo de Santa Maria-RS.

É o primeiro Plano a receber o título de Diretrizes. Em 1975, após os acontecimentos e processos socioculturais e eclesiásticos de 1966 a 1974, este plano traz explicitamente a defesa e promoção dos direitos humanos. Mantém-se a Linha 06 agora como Presença no Mundo e o título “Promover a ação profética do Povo de Deus e a consciência de sua responsabilidade, como fermento de libertação do mundo, segundo os desígnios de Deus”. O texto é claro e direto:

As medidas tomadas no campo social esbarram com problemas estruturais e quase sempre contornam as situações conflitivas. Uma minoria privilegiada usufrui, no momento, das melhorias que, hipoteticamente, poderão, a longo prazo, também atingir a maioria, que por enquanto continua à margem daquele esforço.

As verdadeiras mudanças exigem tomada de posição, serena e objetiva, encarando como desafios à missão evangelizadora da Igreja problemas, tais como:

- a frequente violação dos direitos humanos fundamentais;

- a ordem institucional vigente;

(11)

- a marginalização do povo em relação ao processo decisório;

- a não participação das elites sindicais, estudantis e pensantes na elaboração de possíveis opções diferentes do modelo de desenvolvimento nacional;

- a censura ou auto-censura junto aos meios de comunicação social;

- a inquietante ausência de participação do mundo operário nos benefícios da riqueza nacional;

- a angústia da situação dos posseiros em regiões de colonização agrária recente e o mundo rural em geral. (CNBB, 1975, p. 36, grifo nosso).

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL – 1979-1982. Aprovadas na 17ª Assembleia Geral da CNBB, de 18 a 27 de abril de 1979 em Itaici, Indaiatuba-SP. Em 1979, era presidente dom José Ivo Lorsheiter, bispo de Santa Maria-RS. Era secretário-geral dom Luciano Mendes de Almeida, então bispo auxiliar de São Paulo.

Percebe-se o aprofundamento da relação entre evangelização e promoção dos direitos humanos e justiça social, por exemplo, quando se aborda a ação social da Igreja:

O setor “Ação Social” tem como objetivo aprofundar a consciência das responsabilidades da Igreja no campo social e promover a realização de atividades que visem:

- a promoção da justiça social e a defesa dos direitos humanos;

- a promoção das pessoas e classes marginalizadas através de instrumentos que permitam sua organização e participação ativa na sociedade e reconhecimento de sua dignidade e direitos. (CNBB, 1979, p. 22, n. 99, grifo nosso).

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL – 1983-1986. Aprovadas na 21ª Assembleia Geral da CNBB, de 06 a 15 de abril de 1983 em Itaici, Indaiatuba-SP. Em 1983, era presidente dom José Ivo Lorsheiter, bispo de Santa Maria-RS. Era secretário-geral dom Luciano Mendes de Almeida, bispo auxiliar de São Paulo.

Já no contexto sociopolítico brasileiro de redemocratização, mas ainda sob o governo de um general, o texto das Diretrizes de 1983 clarifica o vínculo entre cristianismo católico e justiça social na criação de uma sociedade fraterna que salvaguarde os direitos humanos fundamentais. Lê-se no documento:

(12)

Importar querer e buscar a realização de uma sociedade justa e por isso mesmo fraterna. Não se completa a tarefa dos cristãos, enquanto não derem a sua contribuição específica para construir uma sociedade segundo as aspirações mais profundas dos homens de boa vontade e segundo o desígnio salvífico de Deus. Tal sociedade deve ter algumas características e dimensões importantes, como:

a) União e solidariedade de todos e para com todos. [...]

b) Defesa da dignidade e dos direitos humanos. Colocando o homem no centro de todas as realizações históricas, tal sociedade propõe-se a defesa corajosa da dignidade humana, da liberdade religiosa e o respeito aos demais direitos fundamentais. “A Igreja, fundada por Cristo, indica ao homem de hoje o caminho a seguir para construir a cidade terrena, prelúdio – embora não isento de antinomias e contradições – da cidade celeste. A Igreja indica o modo de construir a sociedade em função do homem, no respeito ao homem”.

(CNBB, 1983, p. 16, grifo nosso).

Considerações finais

Partindo do que foi exposto ao longo deste texto, bem como das potencialidades das fontes arroladas, pode-se considerar ao final que a Igreja Católica Apostólica Romana foi a principal instituição a se contrapor aos desmandos autoritaristas e às violações dos direitos humanos empregados pelos donos do poder do Estado brasileiro sob o controle de generais-presidentes entre os anos de 1964 e 1985.

Esse posicionamento da Igreja Católica se revela no discurso específico que a instituição elaborou em seus planos de ação pastoral nesse período. De fato, ao observar os quatro planos vigentes nessa época percebe-se a construção e o desenvolvimento de uma concepção católica dos direitos humanos em interação com a Declaração Universal dos Direitos Humanos: inicialmente, em 1966, ainda bastante incipiente e abstrata, até 1983, quando se observa uma concepção consolidada e encarnada na ação social da Igreja.

Uma concepção católica dos direitos humanos que partindo da verdade revelada em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro ser humano, defende e promove a totalidade da dignidade da pessoa humana, passando a vincular a construção do Reino de Deus com a construção de uma sociedade fraterna e socialmente justa na qual a vida humana possa se desenvolver plenamente.

(13)

Referências

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: Nunca Mais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

[Publicado originalmente em 1985].

CANCIAN, Renato. Igreja Católica e Ditadura Militar no Brasil. São Paulo:

Claridade, 2011.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, 1999-2003. Documento 61 da CNBB.

1999.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil: 1983/1986. Documento 28 da CNBB. 1983.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil: 1979/1982. Documento 15 da CNBB. 1979.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil: 1975/1978. Documento 4 da CNBB. 1975.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Plano de Pastoral de Conjunto: 1966-1970. Republicado como Documento 77 da CNBB. Brasília: CNBB, 2004.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. 2.ed. São Paulo: Moderna, 2004.

DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; PASSOS, Mauro. Catolicismo: direitos sociais e direitos humanos (1960-1970). In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (org.). O Brasil Republicano. O tempo da ditadura. Regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Livro 4. 5.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012, p. 93-132.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. São Paulo: Paulus, 1997.

FICO, Carlos. O golpe de 1964: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.

GOMES, Paulo César. Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira. Rio de Janeiro: São Paulo: Record, 2014.

MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História: 500 anos de presença da Igreja Católica no Brasil. Tomo 3: Período Republicano e Atualidade. São Paulo: Paulinas, 2003.

(14)

+ + +A.M.D.G.+ + +

Referências

Documentos relacionados

Si tener conciencia de la posición propia en la historia no sólo como un individuo, sino como parte de un grupo en el contexto de un sistema social, hace a la conciencia

SEÇÃO 6: MEDIDAS DE CONTROLE PARA DERRAMAMENTO OU VAZAMENTO 6.1 Precauções pessoais, equipamento de proteção e procedimentos de emergência. 6.1.1 Para o pessoal que não

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, A Igreja Católica diante do pluralismo religioso no Brasil – I (Estudo n. 62), São Paulo, Paulinas, 1991.. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS

Com base na análise do modelo, esta pesquisa contribui ao apresentar um novo modelo integrador para a avaliação e percepção dos riscos em Born globals,

No estudo foram analisados prontuários de cães com Ceratoconjuntivite Seca e Blefarites atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina entre os anos de 2008

Pensar na mobilização de referenciais estrangeiros para a organização do campo da educação pública na província mineira, subjacente aos projetos de civilidade, progresso

A narrativa endeusa as mulheres, ressaltando o poder feminino, o papel que possuem na reprodução, e na formação da humanidade, através de capítulos que paralelamente recontam as

Se você atender uma chamada de conferência em um ponto terminal EC500 e fazer uma ponte para a conferência a partir do Avaya Equinox ™ , não será possível retornar apenas para