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Francisco lglésias
B Como Renascem as Democracias -- B. Z.amoun/er/ 4.
Rouquié
e Constituinte e Democracia no Brasil Hoje -- O/versos Autores
e Os Democratas Autoritários -- ./oão .4/m/ho
B Municipalização dos Serviços de Saúde -- Suei fiando/#
Da:pari
e Para Entender o Plano Nacional de Reforma Agrária -- rosé Graziano da Silvo
e Era Uma Vez Uma Constituinte -- Joáb 4/m/'no
CONSTITUINTES E
CONSTITUIÇOES BRASILEIRAS
I' edição 1985 2a edição Colação Primeiros Passos
B O que é Constituinte --/14arZZlâ Gare/a e O que é Parlamentarismo -- /?uóen Ke/nerf
e O que é Participação Política -- Oa/mo de 4óreu Z)a/7a/z
e O que é Poder Legislativo -- /Ve/son Sa/dança 8 O que é Política -- \&o/fgang Z.eo/Usar Colação Tudo é História
e O Governo Goulart e o Golpe de 64 -- Ca/o /V. To/edo . O Governo Jânio Quadros --/b#arü U/cfor7b Benev/des e O Governo Juscelino Kubitschek -- /?/cardo /Waranhâo Coleção Primeiros Vôos
B Assembléia Constituinte -- A Legitimidade Recuperada Raymundo Faoro
Ci)pyrlp#r © Francisco lglésias Responsável editorial:
Lilia Moritz Schwarcz Cura.'
Gilberto Miadaira Revisão:
José W. S. Morais Lenilda Sobres
ÍNDICE
4presenfação
Em defesa dos direitos do homem
Império: Constituinte de 23 e Constituição de 24 República: Constituinte de 90 e Constituição de
Constituinte de 33 e Constituição de 34 Constituição de 37
Constituinte e Constituição de 46 Constituições de 67 e 69
Avaliação e prometo Indicações para leitura
9]
7 9 16 27 3851 6072 10287
Editora Brasilionse S.A
R. General Jardim. 160 01223 -- São Paulo -- SP Fine (01 1 ) 231 -1422
APRESENTAÇÃO
Encerrado o regime militar, cumpre repor a na- ção no rumo que é o seu e melhor a exprime. Como é comum quando a lei não é respeitada, a administra-
ção viu-se possuída de furor legiferante, multipli-
cando-se as determinações para resultado imediato.Daí a série interminável de leis, muitas destituídas de qualquer base, arbitrárias e até incoerentes. Chegou- se mesmo a fazer uma Constituição, ditada pelo go- verno a um Congresso submisso e de triste memória,
logo seguida de emenda que é outra peça e mais emendas, em um aranzel de equívocos e maus intui-
tos. Repor o país no campo do direito é imposição atual, quando se pretende uma outra fase na Histó-
ria,jâ
chamada a Nova República.Para que o poder obtenha a legitimidade per-
dida ao longo de vinte e um anos, urge a votação de lei básica que exprima o Brasil, às vésperas do pri- meiro centenário da República, do segundo centená- rio da Revolução Francesa e do terceiro milénio da8 Francisco lglésias
era cristã. O principal empenho do momento é a elei- ção de uma Constituinte, que traduza em todas as peculiaridades a nação e a época presente, de vertigi- noso ritmo de mudança aqui e no mundo. Nesse de- bate devem empenhar-se todos os grupos da socie-
dade, sem distinção. A convocação é geral.
O texto que ora se apresenta é mais um elemento para o debate. Professor de História, pretendo uma perspectiva das Constituintes e Constituições do país .
Por ela pode-se ter o entendimento da trajetória de
1822 a 1985. Quando se pensa em nova Constituinte, a ser convocada para o próximo ano, a fim de elabo-rar texto condizente com a nação e a época, é inte-
ressante ver como se tem colocado a questão ao longo dos anos. A abordagem é eminentemente a do estu- dioso de História, não do jurista. Dessa experiência de 162 anos talvez se possa extrair alguma coisa para o presente.
l
EM DEFESA DOS DIREITOS DO HOMEM
Se sempre houve preocupação com os direitos humanos, ela é fortalecida na Idade Moderna, sobre- tudo a contar do século XVII. Hâ um pensamento
político na Antiguidade e na Idade Média: naquela
hâ importantes pensadores, escrevendo sobre as ex- periências de organização ou formas ideais da ordem política. Para lembrar só as civilizações clássicas, as- sinarem-se as obras de Platão e Aristóteles. O mundo romano dá exemplos de vida administrativa, com uma contribuição fundamental para estruturar o Di-reito. As duas civilizações clássicas vão informar e inspirar a reflexão e a prática política até os dias
atuais. No esforço de humanismo e laicização, mais vivo a contar do século XVI, o homem passa a inte- ressam-se de modo absorvente por suas coisas, comose vê nas análises políticas de um Maquiavel, um
Hobbes, um Locke.r
t
10 Francisco lgtésias Constituintes e Constituições Brasileiras 11 A Inglaterra sobretudo dá contribuições defini-
tivas, como o pessimismo de Hobbes e a crença libe- ral: é a transposição do otimismo de Leibnitz relati- vamente à harmonia das esferas, fixada pela Astro- nomia, ciência de ponta de então, que se procura en- contrar também no relacionamento entre os homens, tal como nos corpos celestes. Locke pretende fixar uma filosofia liberal. Não podia deixar de ser a Ingla- terra o berço desse modo de ver: já no século Xlll, em 1215, em pleno feudalismo, a Magna Carta é im posta ao réi, na primeira sustentação de direitos. E um pacto entre João Sem Terra e seus vinte e cinco barões. O documento fixa princípios gerais, de modo
a poder subsistir. Consagra-se a legitimidade da re-
sistência ao arbítrio. Depois, hâ outras declarações, como a Pefífion ofRzg&ls, de 1628, com a proibição de impostos sem o voto do parlamento, defesa do in-divíduo contra a prisão. Conquista reforçada com o
,IZabeas-Carpas .4cf, de 1679. O .BI// o/ Rz'gáfs, de 1689, é avanço mais considerável, configurando a fi- sionomia da Inglaterra liberal.
Locke traduz aspirações da burguesia em as- censão, classe que conquistara vantagens económicas e pretende também posições políticas. E a época do capital comercial. A revolução inglesa de 1689 -- co- nhecida como revolução gloriosa -- consagra a vitó-
ria das idéias de Locke, seu ideólogo, realçando a
proeminência do Parlamento na vida nacional.E no pensamento de teóricos e nas praticas da Inglaterra que vão buscar inspiração os pensadores políticos da França no século XVlll, a começar por
Montesquieu, logo depois por Rousseau e outros. A revolução de 1789 é feita em grande parte pela pre- gação de seus princípios. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, votada pela Assembleia Nacional Constituinte em 26 de agosto de 1789, con- cisa e incisivamente, fha ''a liberdade, a proprie-
dade, a segurança e a resistência à opressão". Ela
constará da primeira Constituição francesa, de 1791.O poder passa à burguesia: já detentora de vantagens económicas, tem agora a direção política. A preten- são de ampliar esses privilégios às massas não é aten- dida: não chegara ainda a vez do proletariado, força então nascente. Impõe-se a filosofia política liberal, como a economia liberal.
Anterior ao movimento francês, verificara-se a
revolução americana, realizando a independência das colónias inglesas na América do Norte, em 1776, com a criação da República dos Estados Unidos. Se essas antigas colónias já tinham documentos afimiadores de direitos, a nova unidade faz a sua Constituição em 1787. Enquanto a vida política é assim alterada, con- sagrava-se também o racionalismojurídico, cujo mar- co é o pequeno livro Z)os de/iras e das pe/zas, de Ce- sare Beccaria, de 1764.
Tem-se aí, nessas doutrinações ou experiências, o principal do século XVIII. Um dos elementos defi- nitivos resultantes é a ideia de constitucionalização dos Estados. Da Fiança prolonga-se a outros países do continente e ao coitjunto de nações surgidas no mundo americano, com a emancipação das colónias espanholas e portuguesas. A Constituição consagra o
12 Francisco lgtésias Constituintes e Constituições Brasileiras 13 ideal de liberdade, confundindo-se uma e outro.
Configuram-se dois tipos de Constituição: as his- tóricas, como a inglesa e a norte-americana, fixadora de normas para problemas concretos, e, assim, com larga flexibilidade; outro tipo é o das teóricas, em consonância com o modelo francês de varias Consti- tuições, como a de 1791, outras do período mvolucio- nârio, ou a de 1814, já sob o signo restaurador. Tra- tam de normas fundadas na razão, frutos menos da experiência ou situações reais que de princípios mui- to gerais e abstratos. Prendem-se mais à razão que à analise de problemas objetivos.
As jovens Repúblicas e a monarquia da América Latina seguem a segunda orientação, responsável pe- las mudanças tão freqüentes em suas leis básicas. A instabilidade comum no continente explica a multi- plicidade de Constituições. O desrespeito à lei, bas- tante frequente nos novos países, é uma das causas de sua legislação ampla.
A fase insegura das metrópoles ibéricas tem de repercutir na América. A aventura de Napoleão afeta a península, com a ocupação do trono espanhol por um francês e a tentativa de subjugar Portugal. A co- roa portuguesa abandona o país, instalando-se, de
1808 a 1821, em terras do Brasil. Aqui, como em
outras áreas americanas, movimentos aproveitam as dificuldades da Metrópole para realizar a indepen- dência, como se dá de 1810 a 38, em episódios sobe- jamente conhecidos.Interessa-nos a trajetória do Brasil. O conceito vigente de democracia organiza as nações, constitu-
cionalizando-as e afirmando a classe mais dinâmica de então -- a burguesia. Esta realiza uma conquista, ampliando o número de participantes da vida pú- blica, antes restrita à nobreza, como consagra tam- bém o sistema representativo, quando havia o abso- lutismo dos reis, revestidos até de supostos direitos divinos. A democracia esta em marcha, com reivin- dicações crescentes e algumas vitórias. O quadro so- cial e político torna-se complexo, sobretudo devido a outra classe que surge, cresce e impõe-se, com a ur- banização e a tecnologia do industrialismo. Jâ não é mais a ordem do capital comercial, mas a do capital inêiustrial e financeiro. Acorram-se as lutas de clas- ses, fortalece-se um pensamento além do liberalismo
político e económico, com a estruturação e a cam:
panha do socialismo. Realidade do século XIX, será aguçada depois, com outra sociedade e novo ideário político.
Estes são bem mais complexos e configuram
uma revolução que exige cuidado, lucidez e coragempara ser devidamente entendida, assimilada e aten-
dida em seus reclamos. Os historiadores sabem e
mostram que o ritmo do processo evolutivo é indo- lente: das civilizações mais recuadas, jâ objeto de co- nhecimento, até o século XVlll, o ritmo é lento. Ain- da considerando os povos de realce na Antiguidade, do Oriente ou do Ocidente, das civilizações clássicas ou do judaísmo e cristianismo, passando pelos anos medievais até os anos dos quinhentos, com as gran- des descobertas e a expansão do comércio, renasci- mento artístico, reforma religiosa e crescente laiciza-14 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 15
ção, só no século XVlll o ritmo começa a ser alte- rado, com impulso cada vez mais vertiginoso. Este
decorre das novas formas do universo de produção e trabalho, timidamente anunciado com a energia dovapor, matriz da tecnologia do industrialismo. [)as
formas antigas ao vapor passam-se milénios, com aprimoramento tecnológico e social vagaroso. Logo o ritmo se altera: em poucos decénios chega-se à eletri- cidade, a outros elementos energéticos, até as formas atuais da força nuclear, da diversidade da organiza-ção social ou política, da criatividade intelectual,
científica e artística.O certo é que o pensamento social não tem cor- respondido ao processo, com o mesmo calor. Veja-se
o ordenamento jurídico da sociedade, defasado em
relação ao processo científico ou à mudança cultural ou às formas de comportamento. A resistência à mu- dança é bem mais sensível aqui que em outros cam-pos. Os códigos do Direito, com as leis e constitui-
ções, têm certo distanciamento da revolução social, mais complexa pela população crescente, pelo predo- mínio do urbano sobre o rural, maior nível de cons- ciência e sentido reivindicante, em desajuste do que é e do que deve ser. O Direito é mais ideal que real, pen- sando mais no que deve ser que no que é -- daí seu ca- râter conservador e até reacionârio. Em uma ordem profundamente alterada, perpetua-se ordenamento antigo, feito em função de realidade mais simples e muito menos dinâmica. Um dos grandes desafios de nosso tempo, neste fim de século, é ajustar os vários planos, para não serem tão nítidos os desencontros.As Constituições custam a ser alteradas: apesar
da profunda mudança social, pouco é consignado
nesses documentos. Mesmo no século atual, depois de movimentos socialistas vigorosos, muitos textos não retratam a nova ordem social, política e econó-
mica. Continuam exprimindo direitos individuais,
sem melhor entendimento da sociedade. Chega-se jâ à internacionalização dos direitos do homem. Fala-se na declaração dos direitos internacionais do homem.
Em 1941, Roosevelt falou das quatro liberdades fun- damentais -- liberdade de expressão, exercício reli- gioso, isenção das necessidades materiais e do temor.
Outros documentos os consignam, como se dará, de forma superior, na Declaração dos Direitos do Ho- mem das Nações Unidas, de 9 de dezembro de 1948.
Se jâ se pensa no assunto, de certo ainda se está longe do ideal a ser atingido, como se vê nas guerras que continuam, na prisão, na perseguição, na tortura, na morte, na fome, no desemprego, com a transgressão dos mais elementares direitos. Se é reconhecida a autodeterminação dos Estados, há dúvidas quanto ao que sejam seus negócios internos e externos, como
se viu com a Liga das Nações, após ]919, ou com a
Organização das Nações Unidas, após 1945.Nesse debate de cientistas políticos, o estudioso de História tem de ser ouvido. Se é exatamente sua matéria que pretende captar as diferentes temporali- dades, ele tem depoimento a dar, como o dos juris- tas, sociólogos e mais cientistas, associações, sindica- tos, partidos, representantes de todos os segmentos da sociedade. ' ;' : .
Constituintes e Constituiçõw Brasileiras 17 poleão na península, leva à Constituição de Cadiz, de 1812. Revogada em 1814, pelo absolutismo de volta, é restabelecida em 1820 por novo movimento liberal. O fato influirâ em Portugal, com o episódio revolucionário do Porto, ao qual Lisboa também ade- re. As Cortes reúnem-se em janeiro de 1821, com al- guns representantes brasileiros(vâdos eleitos não quiseram comparecer, porjustas suspeitas), logo for- çados a abandonar o país, uma vez que o movimento era mais recolonizador do Brasil que constituciona- lista. Não interessam agora as vicissitudes da política portuguesa. Sua Constituição só ficou pronta em 22 de setembro de 1822, quando o Brasil já se emanci- para. Lembre-se apenas que D. Jogo VI, ainda aqui, aprovou previamente a Constituição que se votava em Lisboa.
Criada a nação, impunha-se organiza-la. Uma
das preocupaçoes de D. Pedro 1, ainda regente, foi convocar em junho de 22 uma Constituinte. O povo precisava ter lei básica, como as nações civilizadas.Elegeram-se 100 representantes: Minas tinha a maior bancada, com 20 deputados; Balia e Pemambuco, 13; São Paulo, 9; Cearâ e Rio de Janeiro, 8; Alagoas
e Paraíba, 5; Maranhão, 4; Para e Rio Grande do Sul, 3; Golas e Cisplatha, 2; Piauí, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Mato Grosso e Santa Cata-
rina, 1. Entre eles, reconheciam-se 26 bacharéis e 22 magistrados, 19 padres e 7 militares, alguns funcio- nários públicos, médicos e outros vagamente desig-
nados de proprietários.
A Constituinte eleita começa os seus trabalhos
IMPÉRIO: CONSTITUINTE DE 23
E CONSTITUIÇÃO DE 24
A independência é o coroamento da luta contra a dominação portuguesa, que vem desde os primeiros tempos da colónia. Nela se consumiram milhares de índios e negros, brasileiros ou mesmo portugueses,
que aqui se identificavam com a terra que os acolhia.
Do século XVI ao início do XIX verificaram-se deze- nas de protestos, alguns armados, com boa articula- ção, com suas vítimas e mártires. Eles prepararam a independência, marcando-a com o sangue nativo. A vinda da Corte em 1808 altera o relacionatnento me- trópole-colónia, com o desfecho natural na indepen- dência em setembro de 1822.
O ideal constitucionalista era presente na Eu- ropa e no mundo americano no começo do. século XIX, por influência da revolução americana de 1776 e da revolução francesa de 1789. O processo político espanhol, tumultuado com as interferências de Na-
18 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 19 no dia 3 de maio de 1823. D. Pedro l faz a primeira
fala do trono, condena o
colonialismo português.É pouco feliz ao afirmar que ''com minha espada, defenderia a pátria, a nação e a Constituição, se fosse digna do Brasil e de mim''. Era uma Assembleia na maior parte gem experiência política. Nela figuravam pessoas de diversas condições, identificadas no pro-
pósito de construir uma nação. Exprimiam a elite,
unida à grande propriedade, trabalhada pelo escravo e com o mentido da lavoura exportadora. Antes ligada à Coroa portuguesa, liga-se agora à economia britâ- nica, em fase de expansão que Ihe dará quase o mo- nopólio da época.No começo parlamentar, em 23, o Brasil tinha mais de 4 milhões de habitantes. Pouco menos de um terço era constituído de escravos. O Estado já tem fisionomia não distante da que se firmara depois.
Conta com 19 unidades político-administrativas, com 225 núcleos urbanos em 1822 -- 213 vilas e 12 cida- des. Os limites do território estavam fixados. O em- penho português era eminentemente fiscal, pouco co- gitando do resto, em acanhada visão. O administra- dor agora tem de fazer bem mais -- deve construir uma nação, com o estímulo do processo produtivo, a representação do povo no governo, a justiça, a edu- cação, a saúde.
Ê difícil a articulação política. Havia o elemento reacionário, regenerador ou português; os exaltados ou nativistas; os moderados. Estes constituíam o maior número e tinham mais consistência, unidos ao regente e depois ao imperador. Os regeneradores per-
dem seguidamente expressão, enquanto os exaltados ou nativistas assistem ao seu aumento, ajudados pe- los erros de D. Pedro 1, começados com a intempes- tiva dissolução da Assembléia ainda em 23, em no- vembro, com poucos meses de funcionamento e sem chegar a seu objetivo -- a Constituição.
A Constituinte teve õs trabalhos comprometidos com as lutas entre os parlamentares e o imperador, sobretudo depois que os Andradas romperam com ele e passam a fazer-lhe obstinada luta. Formara-se comissão que logo encaminha prajeto para o docu-
mento: o principal redator fora Antânio Carlos, já experimentado politicamente, de presença marcante na revolução de 1817 e ex-deputado às Cortes de Lis- boa. Capacitava-se, pois, para a tarefa a ser reali-
zada. Submetida ao plenário, a proposta mal come-
çou a ser discutida. Excessivamente longa, com 272 artigos, só foi a debate até o artigo 24, quando os desencontros levaram D. Pedro a dissolver a Assem- bleia. Começou mal a história do Legislativo, como Ao decretar a medida, D. Pedro prometeu ao povo uma Constituição duplicadamente liberal. Para tanto, nomeou Conselho com seis ministros e quatro personalidades políticas. Entre elas, o baiano roséJoaquim Carneiro de Campos, futuro marquês de Caravelas. D. Pedro tinha leituras jurídicas, era co-
nhecedor de pensadores da corrente conservadora ou restauradora, como Gaetano Filangieri e Benjamin Constant, constitucionalistas bastante cultivados no Brasil.se ve
20 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 21 De posse do projeto, o governo usou forma sutil
para disfarçar a outorga. Enviou cópias às municipa- lidades, pedindo-lhes sugestões. Poucas atenderam.
IJma delas, a de ltu, a que mais colaborou, por in- fluência de Diogo Antânio Fejjó, antigo deputado às Cortes de Lisboa. Também as do Rio de Janeiro, Sal-
vador, Recite, Olinda. Era uma espécie de consulta
às bases, de modo que o documenta podia ser visto como aprovado pelo povo. O artifício tentava disfar-çar a violência cometida e comprometia o povo na
elaboração da lei. Sutileza do administrador, não foi capaz de tirar do documento assinado em 25 de mar;ço de 24 o seu caráter de Carta, de outorga, não de elaboração popular, como convinha.
A Constituição é documento inteligente, evidên- cia do alto preparo de seus autores. Exprimia o mais avançado na matéria, a ideologia liberal de então.
Traduz mais a influência européia continental que a norte-americana. Sua principal fonte é a carta de 1814, outorgada por Luas XVIII. Ultrapassado o ra-
dicalismo revolucionário, é a vez da Restauração na França. Outra fonte é a Constituição da Noruega. A
maior originalidade nativa é a consideração de qua- tro poderes: além dos três da fómiula clássica -- Exe- cutivo, Legislativo, Judiciário --, consigna um quar- to poder -- o Moderador. Há aí muito de Benjamin Constant. O novo poder é exercido pelo imperador e é visto como ''a chave de toda a organização polí- tica''. Dâ prerrogativas especiais à primeira figura, para harmonização dos outros poderes. Uma delas a de dissolver a Câmara, ante impasses criados. Tran-sição entre liberalismo e absolutismo, atesta nos au- tores competência e imaginação. Tem-se nesse poder um compromisso entre a tendência constitucionaliza- dora -- vitória do liberalismo -- e o apego a fórmulas do Antigo Regime. O Poder Moderador concilia as duas tendências.
Arma-se o país para enfrentar a tarefa de defesa da ordem, ou seja, dos interesses dos elementos mais representativos do corpo social. Atendo-se à econo- mia, eminentemente agrária, com base na produção de géneros agrícolas para consumo e exportação, po- der-se-ia deduzir que o grupo dominante fosse o do senhor de terras, latifundiário ou fazendeiro, com base no trabalho escravo. Certo, a propriedade é algo intocável. O jogo político, contudo, não é feito pelo latifundiário, diretamente, mas por seus agentes. E esses podem ser profissionais liberais, comerciantes.
O senhor de terras garante voto e apoio a quem não Ihe perturba os negócios. A Constituição não fala em escravos. Ora, é estranho dizer que é liberal e excluir
um
terçoda população. Contudo, é a
consciência possível no princípio do oitocentes.Demais, a Constituição consigna outros privilé- gios: o Senado é vitalício e o senador eleito em lista tríplice pelo povo, para a escolha imperial. Nem to- dos são elegíveis ou votantes: o sistema é indireto, a eleição em dois graus. Para votar e ser votado, o ci- dadão deve ter um mínimo de renda, sem a qual não participa do processo. Mesmo sem a exclusão do analfabeto, a nação em sua quase totalidade esta fora do jogo. Comparando-se a lei brasileira com outras,
22 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 23
tem-se que é avançada, liberal, exprime uma cons- ciência relativa de democracia. É a expressão dos in- teresses dominantes. Proclama a liberdade, mas diz que a religião católica é oficial. O direito à proprie- dade é assegurado na plenitude. Contra os entraves
do trabalho, declara-o livre, proibindo as corpora-
ções de ofício, como se fazia em toda a Europa, desde a Revolução. Curioso é proibir a corporação e manter
o trabalho escravo. Exprime privilégios dos latifun-
diários, que organizaram o Estado em função de
quanto queriam. Não se procurem contrastes entre interesses rurais e urbanos, se a classe dominante é a mesma. Nem entro letrados e fazendeiros, se deles é que saíam e saem os estudantes para fora, ou saem agora, em maior número, para as Escolas de l)preito de São Paulo e Olinda, criadas exatamente nesse pe-noso.
A Carta devia ser completada, como o foi, com
um Código Criminal, em 1830; um Código do Pro- cesso Criminal, em 1832; o Ato Adicional, em 1834;
leis de reforma do Ato e interpretação do Código do
Processo, em 1840 e 1841; o Código Comercial, em
1850. Se muito assunto importante seria objeto de lei, faltava um Código Civil, necessidade só atendida em 1916. A Constituição manteve-se por sessenta e cinco anos.A mais importante emenda foi o Ato Adicional, em 1834, como fruto da maré liberal que se fortalece
de 31 -- a abdicação, já resultado dela -- até 34,
para atender ao reclamo de descentralização, cons- tante de toda a época imperial. É que a lei de 24 eraeminentemente centralizadora, criava um complexo unitário. Foi amplo o debate entre a centralização e a descentralização, como se verificava jâ durante a Co- 16nia, alternando-se formas ora com uma ora com outra, para correção de naturais excessos. O Ato Adicional procurou dar regalias às Províncias; esta- belecendo, para tanto, as Assembleias. Habilmente, porém, manteve a presidência das unidades pelo go- verno geral, com divisão de rendas em que a parte maior e essencial ficava com o agente do centro, de
modo que as unidades não tinham recursos para
obras significativas.Se D. Pedro l outorgou uma carta em 1824, jâ a reforma de 34 é votada pela Câmara dos Deputados, sem a presença de senadores. Essa participação po-
pular dâ certa
legitimidadeao
documento básico, conferindo-lhe caráter de Constituição, em interpre- tação benévola.Como o período regencial é turbulento, a classe dominante teme pela sua sobrevivência. Cabanos no Para, balaios no Maranhão, sabinada na Bahia, far- rapos no Sul, todos são denunciados como separa- tistas; a organização dajustiça e da polícia pelo povo, como o Código do Processo admite, o ãabeas-corpus,
além de certa ação das Províncias, tudo alarma o
conservador. Algumas dessas manifestações assu- mem até traços libertârios: no protesto e na ocupação de terras, como nos cabanos e balaios, hâ marcas que lembram os rebeldes primitivos da análise de Eric Hobsbawn. O grande historiador saberia compreen- do-los. A classe dominante do país, no entanto, não24 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 25 compreendeu
o caráter popular dos
movimentos,bem traduzido até em seus nomes plebeus, pensando só na repressão violenta. À qual se entregou de modo decidido e com êxito.
Ganha então consistência o sentido conservador ou reacionârio -- então chamado Regressista --, na articulação do Partido Conservador, atuante e no po- der em 1838. E o Regresso, que faz a lei da reforma
do Ato Adicional em 40 e a de interpretação do Có-
digo em 41. Arma-se, assim, o poder de sólida base para exercitar-se plenamente -- base e garantia da relativa paz do Segundo Reinado, de 1840 a 1889.Interessante questão a ser colocada é a do sis- tema parlamentarista de governo. Frequentemente o período é assim caracterizado. Pode-se duvidar da afirmativa: o parlamentarismo não é estabelecido na Carta nem está em sua natureza. Houve certa prática de gabinete, não hâ dúvida, à maneira britânica, so-
bretudo no Segundo Reinado, mas pela fluidez do quadro institucional. O imperador não precisava
obedecer ao indicado pelo voto, podendo chamar aquem quisesse para formar gabinete. Consciente do caráter frágil do processo eleitoral, agiu de acordo com sua opinião, fazendo o revezamento dos parti-
dos. Ele não só reinava, mas governava de fato. O
elemento objetivo a favor do parlamentarismo é a criação do posto de presidente do Conselho de Mi- nistros, em 1847. Era o governo de gabinete. SÓ uma reforma constitucional podia estabelecer o parlamen- tarismo e ela não foi feita nem a pratica do regime foi integral. Seria o caso de dizer que houve um parla-
Rui Barbosa
Na discussão do anteproleto constituciona! de
1834, os desentendimentos
en.tre os par/amenfares
!evaram D. Pedra l a dissolver a
Assembléia Constituir te e prometer ao povo
uma Constituição dupíicadamente
Libera!.
Com a República, o governo provisório teve de dar ao país
n.ovo estatuto; seu autor, Rui Barbosa. era o então
ministro da Fazenda.
l
26 Francisco lgtésias mentarismo atípico, especial, ou, com mais rigor, umarremedo do sistema realizado em plenitude na In- glaterra -- país visto como exemplar na sua organi- zação.
O documento de 24, expressão da época, não
pode ser acusado de retrógrado, se estatura o consi- derado certo. No constitucionalismo do século, algu- mas conquistas sociais foram sendo consagradas e enriqueceram os capítulos de direitos nas leis de pou- cos Estados: na França em 1848, no México em 1857, por exemplo. Nas leis brasileiras do Império consig- naram-se as idéias possíveis, dado o sentido conser-vador da maioria dos políticos. O país ainda não
amadureceu para mais.REPUBLICA: CONSTITUINTE DE 90 E CONSTITUIÇÃO DE 91
A monarquia sofreu desgastes sérios, que termi=
nam pela imposição do regime republicano. A contar de 1870, com o fim da guerra do Paraguai, o militar passa a ter viva participação política, como não acon- tecia antes. Com messianismo e até petulância, como é comum no grupo, agrava as tensões com a Coroa. A campanha abolicionista culmina com a abolição total e sem pagamento aos senhores. Segmentos médios, maior população e mais vida urbana causam crises, como o distanciamento da Igreja em relação ao trono, de 1872-1875, ou os contínuos atritos entre governo e
Exército. Na verdade, o 15 de novembro de 1889 é
sobretudo um golpe militar, em que alguns oficiais se aproveitam de dificuldades políticas.
Há muito pregava-se a República, mas sem
maior vigor. Na década de setenta organiza-se o par- tido com esse fim, de liberais exaltados descrentes da D28 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 29 monarquia e jovens seduzidos pelo sistema comum
na América. Demais, a ordem era sempre acusada de centralismo, decorrente do sentido unitário do Im- pério. No fim dos anos oitenta, até o governo pensa na forma descentralizada, atendendo à reivindicação federalista, varias vezes defendida. Entretanto, só o
novo regime a fará.
Em 1890 o país contaria com 14333915 habi-
tantes. A sociedade é menos rígida, contando com setores médios expressivos. A economia tende à di- versificação: se a base incontestável é o café, gerador de riqueza e muitos problemas, a caminho da super- produção, há sinais vitalizadores da indústria, com superação do artesanato e da manufatura pela má- quina. O país integra-se mais na comunidade ameri- cana. A forma de govemo é vista, ingenuamente, como sinal de modernização, progresso. Na verdade, em 1890 o Brasil é bem diverso do que era em 1822.Outra ordem jurídica deve exprimir e orientar os no- vos tempos. Finda a escravidão, alteram-se as rela- ções de trabalho. Outra ordem jurídica deve traduzir e orientar Estado diverso -- o que deve fazer a Cons- tituinte em 1890.
Com a República, o govemo provisório, sob a
chefia de Deodoro da Fonseca, teve de dar ao país novo estatuto. Seu autor foi o jurista Rui Barbosa,ministro da Fazenda. No mesmo dia 15, o Decreto
Ro l instituiu o novo regime, com a forma de fede-ração. O decreto é engenhosamente redigido, de
modo a não criar atritos entre o poder central e o dosEstados. Fala na ''legítima soberania'' deles, mas
tem o cuidado de deixar a força pública com o go- verno da nação, não com o dos Estados. Decretos se- guintes definiam melhor as áreas e competências. Jâ a 3 de dezembro, cria-se grupo especial para o ante- proleto da Constituição: era de cinco membros, repu-
blicanos históricos: Saldanha Marinho, Américo Brasiliense, Rangel Pestana, Magalhães Castro e
Santos Werneck. O trabalho foi entregue dia 24 de maio. O texto foi discutido pelo ministério, com onatural realce de Rui Barbosa. Ele dará ao docu-
mento carâter federal e presidencialista. O governo provisório encampa o prometo, convocando a Consti- tuinte dia 22 de junho, com a eleição dia 15 de setem- bro. A Assembleia foi instalada dia 15 de novembro.Interessante lembrar o que era esse corpo de le- gisladores. Havia 205 deputados e 63 senadores. A
maior bancada, como em 1823, era a de Minas, com 37 representantes; São Paulo e Bahia tinham 22. A Constituição será assinada por 223 autoridades, com a falta de 45 nomes. A profissão de maior número é a dos advogados, seguidos pelos médicos e engenhei- ros. Havia 40 militares, dado explicável pela presen-
ça do grupo na deposição da monarquia. Gente de
todos os feitios aparecia: conservadores e liberais, exaltados, radicais, positivistas. Discutiu-se muito,mas o texto final esta próximo do prQjeto enviado
pelo governo. A questão básica é a do federalismo, com posições a favor do predomínio da União ou pre- domínio dos Estados, ou unionistas e federalistas. A corrente unionista, liderada por Rui Barbosa, foi a vitoriosa. Estava mais de acordo com a tradição do30 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 31 Império, marcado pelo sentido unitário.
Se o modelo é norte-americano, jâ foi observada pelos estudiosos a grande diferença entre o caso dos Estados Unidos e o brasileiro. Lá, o federalismo saiu de unidades bem marcadas -- as antigas colónias in-
glesas eram 13, com seus costumes, recursos, leis
próprias, que abdicam de muitas prerrogativas em favor do centro. No Brasil, dá-se o oposto: o Império unitário contava com províncias de limitados direi- .tos, haviaum
modelo eminentemente centralizador,ao qual as diferentes unidades se submetiam, às ve- zes violentadas no que tinham de característico, em país de dimensões continentais. Sempre se pensou em descentralização, idéia presente na Constituinte de 1823. Parte-se de um complexo unitário para a des- centralização, enquanto na República do Norte se partia da descentralização para a unidade, diferença que marca com profundidade os dois casos, distin- guindo-os a partir da origem.
A atribuição de tarefas e recursos acirrou os de- bates, sobretudo quanto à distribuição de rendas -- quais as da União e as dos estados. Venceu fórmula que atentava antes para o poder central que o das
unidades. Quanto ao direito de ter legislação pró-
pria, este não foi negado, mas não se admitiu que em matéria básica -- sistema legal, civil, criminal e co- mercial -- os Estados legislassem: venceu a tese dalegislação feita pelo Congresso Nacional. Como se
sabe, nos Estados Unidos há enormes diferenças nas leis de estado para estado -- lembrem-se os exemplos famosos referentes à escravidão, ao divórcio ou osepisódios da época da Lei Seca, proibitiva do álcool.
Ao lado do federalismo, outro tema fundamen- tal foi o do presidencialismo. Regime comum na Re- pública, foi o adotado, também à maneira dos Esta- dos Unidos. Se alguns representantes falaram em de- fesa do parlamentarismo, a maioria era presidencia- lista. E a forma adotada foi a de um Executivo de- sempenhado pelo presidente, eleito pelo voto direto por um período de quatro anos A lei não encerrou o debate entre os possíveis excessos da autoridade má-
xima: a ideia de
presidencialismoou
parlamenta- rismo continuou a ocupar as atenções, com livros e projetos em uma e outra direção. O texto feito pelo povo foi promulgado a 24 de fevereiro de 1891.Ê mais simples que o imperial, com 99 artigos ape- Sua pratica não foi simples. Logo no princípio, a renúncia de Deodoro criou problema sobre a posse do vice, Floriano Peixoto. Este foi investido, mas teve a posse questionada, julgando alguns que seria o caso
de nova eleição. As lutas, como a da Armada e a fe-
deralista, deram muito trabalho, custando a ser de- beladas. Outro assunto de discussões foi a interven- ção do governo central nos estados. Essa foi feita al-gumas vezes, apesar de difícil, quase sempre por
questões políticas, no uso de praticas incorretas por parte-de governos estaduais ou federal.Outro aspecto constitucional que dificultou mui- to, notadamente o económico, foi o da matéria refe- rente ao solo e subsolo. O Direito imperial consa- grava a forma da Co16nia, com a separação das duas nas
T
32 Francisco lglési Constituintes e Constituições Brasileiras 33=
coisas: o subsolo pertencia à nação. A substituição n do direito realengo pelo liberal criou enormes dificul-dades para a exploração. Legislar sobre minas tor- nou-se difícil, quase impossível: diversos proüetos de Código de minas foram apresentados ao Congresso, sem um acordo. Da luta participou ativamente Jogo Pandiá Calógeras, conhecedor da matéria, como en- genheiro de minas e representante mineiro. Sobre o assunto escreveu a obra .4s mina.s do .Brwfl e iua le- ga/açãó, em 3 volumes, publicada em 1904-1905, pa- recer apresentado à Câmara dos Deputados. De fato, era difícil legislar a respeito, por causa do artigo so- bre o subsolo.
O federalismo, tão desejado, foi em parte distor- cido. Já no governo de Campos Sales, acordos de cú-
pula, constantes na vida nacional, estabeleciam o
que o presidente chamou de ''política dos estados'' e é mais conhecido como ''política dos govemadores": o presidente da República entende-se com os dos esta- dos; a autoridade federal apoia as dos estados, no- meando os funcionários federais ante a indicação ou aprovação dos estados; estes apoiam o governo cen- tral, através do voto de suas bancadas no Senado e na Câmara. O resultado é a conciliação pelo alto, sem audiência do povo, fato comum na prática de então,
com leis eleitorais impróprias e com a fraude. Era
mínima a participação na vida pública, com a exclu- são do analfabeto e precariedade eleitoral.Nessa prática viciada, estabelecem-se graves di- ferenças entre as unidades federativas. Alguns esta-
dos se superpõem a outros. A disparidade provém
não só da população e da riqueza -- casos de Minas e São Paulo --, mas de outros fatores. Com essa estru- tura, há distorção do federalismo, pois as unidades são muito diferentes e recebem tratamento discrimi-
natório, em
crescente agravamentodas
disparida-des. Mais ainda: a legislação favorece algumas uni-
dades em detrimento de outras. Exemplifique-se com a política monetária, ou tarifas de importação. Dita- das pelo centro, algumas taxas favorecem a lavoura e o comércio do café; por causa dessa proteção hâ va- riações cambiais; o país todo paga pelo fato, enquan- to áreas reduzidas são beneficiadas por elas. O de- bate é acirrado: São Paulo diz que carrega o Nordes- te, enquanto este se queixa de ter vida dificultada por medidas favoráveis a São Paulo.As eleições com as praticas falsificadoras dão a presidência a paulistas e mineiros; as bancadas..ma-
ciças aprovam as fraudes, das quais são beneficiá-
rias, com a vitória avassaladora do situacionismo. A política é acusada das piores práticas, por todos re-conhecida, mas não se toma providência para a mu- dança. Havia o tabu de não permitir a reforma cons- titucional, reclamada por políticos e publicistas. O texto de 91 seria intangível. As principais figuras não a admitiam. Entretanto, a crítica e a denúncia eram constantes.
Elas atingem o máximo na década de vinte. Sur- ge então importante corrente constituída por milita- res de patente média. Ê o tenentismo, de enorme sig-
nificado. A guerra de 14, o surgimento da política
ideológica, com o comunismo na Rússia e a pregaçãoa
34 Francisco lglésias Cottstituintes e Constituições Brasileiras 35 do fascismo na ltália e na Alemanha, crises políticas
e económicas -- tudo contribui para sacudir a atmos- fera monja. Além da campanha contra a Constitui- ção por parte de políticos, havia os estudos de publi- cistas: caso de Alberto Torres, por exemplo, político e pregador doutrinário, em O proa/ema #acloPza/
brasa/erro e .4 orgazzizaçâo Bacio/za/, publicados em 1914. A temática seria retomada por seu seguidor Oliveira Vianna, que tanto insistiu na idéia, como se vê, entre muitos títulos, em O faca/Esmo da Cbnsfí- fuíçâo, de 1927.
E o ano de 22,
centenárioda
independência.Ano do movimento modernista, com a pregação da
necessidade renovadora; em que a disputa ideológica se acentua, com a criação do Partido Comunista e do Centro Dom Vital, presenças da esquerda e da di-reita. O liberalismo é visto como peça de museu, ne-
gado e renegado, não só no Brasil como no mundo.
Os militares aparecem no cenário com o episódio dos dezoito do forte de Copacabana, em 22; em 23 é a
luta no Rio Grande do Sul; em 24 é a revolução em
São Paulo. Dos remanescentes de uns e outros surge a coluna Prestes -- de 24 a 27 percorre o país, em milhares de quilómetros na pregação da necessidade de rever a ordem política. Abafada, prepara o cami- nho para o movimento de 30, em nova campanha su- cessória, com o choque das candidaturas de GetúlioVergas e Júlio Prestes. .Qs .tpnentesn figtlras-míticas -
criadas em parte pela imprensa, em grande número se compõem com os políticos que haviam combatido
e fortalecem a campanha. Se Vargas é dado como
vencido, a Aliança Liberal apela para ''o prélio das
armas'' e consegue vitória: Getúlio chega ao Rio de Janeiro e é aclamado chefe do Governo Provisório. Eo fim de uma época, da Primeira República.
A campanha de revisão constitucional, tão com- batida e obstada, conhece êxito no governo Bernar-
des. Por certo ele foi movido, entre outras razões, pelo desejo de intervir no Rio Grande do Sul, que
combatera seu nome e sua eleição. A propósito de alterar o texto básico, para facilitar o afastamento do borgismo, é feito o reyisionismo do qual resulta a Emenda Constitucional de 1926, a única da lei de1891. Era difícil qualquer alteração.
O senador Pinheiro Machado não a admitia.
Rui Barbosa preconizava emendas, defendendo suas teses, sobretudo na campanha do civilismo. Jurista, atém-se a aspectos formais, sem chegar a considera- ções mais profundas, de natureza política, socioló- gica ou económica. Sua famosa e lendária cultura não ultrapassava o Direito, não chegando a outras ciências sociais, de modo que não tinha muito sen- tido da realidade.
Um governo sempre em estado de sítio, como era o de Bernardes, precisava de mais garantia. Em 25 é apresentado o projeto de revisão. Continha 76 emendas: por conveniência, foram retiradas 43. Reti- radas depois mais 26, ficou reduzido a sete. A trami- tação foi custosa. Aprovadas cinco emendas, foram sancionadas em 1926, incorporando-se ao texto cons-
titucional. Entre elas, a mais importante tratara da
intervenção nos Estados. Assim, a autoridade do pre-
#
36 Francisco lglésias =es e Constituições Brasileiras vidente cresce muito, é fortalecida.
Também importante é a definição da competên- cia federal para legislar sobre o trabalho. A questão, crescente nos primeiros anos do século, era sempre mal colocada, pelos patrões ou operários. Estes ten- diam ao radicalismo, decorrência da pregação anar- quista, enquanto aqueles, por insensibilidade, ti-
nham intransigência na defesa da ordem como es-
tava. Ora, essa legislação avançara na Europa, en-
quanto permanecia emperrada aqui. O Tratado de Versalhes, de 1919, do qual o Brasil era signatário, recomendava atenções especiais ao problema. Ber- nardes, conservador, tomou providências excessiva- mente tímidas. O que a reforma alterou foi pouco.Demais, não teve eficácia, pois quatro anos depois a Constituição perde validade pelo movimento de 30.
Então é que a questão operária passa a ser de fato considerada.
Outro objeto de emenda foi relativo ao ãabeas-
corpzzi, que é mais reduzido ainda, diminuindo a
força do Judiciário e fortalecendo o Executivo. Cui- dou-se da imigração, com alguns limites à entrada de estrangeiros. A mineração, dependente do direito de propriedade do solo e subsolo, teve certo encaminha-mento, limitando-se a garantia do proprietário do
solo. O principal da emenda, no entanto, é que au- mentou mais ainda os poderes do presidente, levando um observador da vida nacional durante 25 anos -- cônsul e adido comercial da legação britânica Emest Hambloch -- a escrever curioso livro editado em 1936, que Ihe valeu muitos dissabores, sob o suges-tivo título de .leis Males6' fàe Presfdenf of.Brazf/. De
fato, o presidencialismo atingiria aqui uma forma
exacerbada.O documento de 1891 vivera quase quarenta anos, bem menos do que a Carta imperial de 1824.
Constituintes e Constituições Brasileiras
êxito, como na Hungria, Polânia, Ãustria, Rumânia, em Portugal, na segunda metade dos anos trinta na Espanha. Era a chamada maré direitista, que se.se- gue à paz de 1919, com repercussões na América La- tina. A ideologia liberal é dada como relíquia histó- rica, sem mais perspectivas. Mesmo um economista inglês como Keynes, sem compromissos com a direita ou com a esquerda, pede escrever em 1926 obra com
título 7'he elzd of /aissez /abre. Os Estados Unidos têm o impacto do governo Roosevelt e seu programa do .Nêw Z)ea/. O imperialismo inglês conhece os pri- meiros abalos, e, habilmente conduzido, faz diverso relacionamento com as colónias. A Europa, até então proeminente, vê novas forças que aos poucos quase a abafam -- os Estados l.Jnidos e a União Soviética, confirmando certo declínio ante a ascensão dos Esta- dos periféricos --, o que será realidade viva depois de 1945. A guerra anterior, em 1918, encerra uma fase da História, coroando o século XIX e dando início ao atual, marcado por outros traços.
O Brasil não podia ficar imune a tais transfor-
mações. A disputa ideológica é viva desde o começo dos anos vinte. A direita é de atuação crescente, com a Ação Integralistá, criada em 32, aglutinando conser-vadores radicais, setores da Igreja e das Forças Ar-
madas. O movimento de 30 é justamente visto como ponto de referência no processo, inaugurando a Se- cunda República. Washington Luas tem de afastar-seda presidência e uma Junta ocupa o poder durante alguns dias, passando-a a Getúlio Vargas em 3 de
outubro.CONSTITUINTE DE 33 E CONSTITUIÇÃO DE 34
O crescente desgaste da política republicana le- vava a críticas, censuras e protestos até armados. De- mais, entre 1889 e 1930 o quadro mundial se modifi-
cará. A Primeira Guerra alterou o panorama: a re-
volução de 17 na Rússia estabelecia o primeiro go- verno comunista, a Alemanha sofria pesada derrota, conduzida à crise económica, financeira, social. Or-ganiza-se com a República de teimar, com uma
Constituição que é o eco de outro Direito e das mu- danças sociais e económicas, em rara experiência de- mocrática no país, abafada pelo nacional-socialismoque impõe o nazismo. A ltália já é fascista desde 1922, em nova experiência política, com a singulari- dade do autoritarismo apelando para as massas (nota que distingue o fascismo dos movimentos reacioná- rios anteriores).
Mais movimentos se verificam, com diferente
40 Francisco lglésias pintes e Constituições Brasileiras Organiza-se o Governo Provisório, pelo Decreto
Bo 19.398, espécie de lei básica até a assinatura da Constituição em 34. Redigido por Leva Carneiro, tem pape! equivalente ao Decreto Ho l da República, re- digido por Rui Barbosa. Desaparece o Legislativo, não são reconhecidas autoridades de outros poderes.
Se o mais não é dissolvido ou negado, a prática dis- cricionária atum com as naturais deformações. O go- verno garante a propriedade, reconhece os compro- missos externos. Getúlio é firme na condução da vida pública, prenunciando o rumo que logo adotará. No- meia para os estados gente de sua confiança. Cria o Ministério do Trabalho, pasta decisiva na sua carrei- ra. O excesso de personalismo leva-o a ter pouca con-
sideração pelo que não contribua para aumento de sua autoridade.
Reclamava-se a constitucionalização por uma Assembléia livremente eleita. Ela tardava, é motivo de queixas e críticas. Getúlio tem nos tenentes a base do apoio, em um programa de pregação radical con- tra a velha ordem oligárquica. Daí o protesto dos po- líticos, sempre temerosos de tendências revolucioná- rias, para eles visíveis no Clube 3 de Outubro. O pre- sidente tem má vontade quanto à recondução à or- dem normal, mas prepara um código eleitoral novo, compreendendo mulheres e maiores de 18 anos, bem como o voto secreto. Tem de convocar a eleição de Constituinte, dia 14 de maio de 1932, fixando-se para 3 de maio seguinte -- prazo que pareceu excessivo.
Seria ainda adia:lo para o fim do ano, por causa do movimento pau;.esta. O mesmo decreto estabeleceu
Comissão Especial para o anteprojeto da Consti-
tuição.O jogo é perturbado pela revolução de São Paulo em 32, que se chamou constitucionalista. São Paulo era o estado de mais queixas da ditadura, pela no- meação de sucessivos interventores não apoiados pe- los paulistas. O movimento resultou de ressentimen- tos regionais e do real desinteresse do presidente pela normalização política. Visto hoje como contestador da pretensa revolução, de carâter saudosista, seria o protesto das velhas oligarquias desalojadas do poder sobretudo por jovens oficiais, setores ascendentes da sociedade contra o tradicionalismo. O episódio é ex- plicável pelas ambigüidades do governo.
O certo é que diante dele Getúlio não pede mais
recuar e trata de compor-se com os políticos. Seu
parceiro predileto de dialogo até aí eram os tenentes;deixa-os aos poucos e passa para os políticos, a cujo grupo, afinal, pertencia, com eles atuando como de- putado, ministro, presidente do Rio Grande do Sul.
Abandonou os jovens oficiais, mas deles recolheu a bandeira de reivindicações, que fará suas, principal-
mente a contar de 37, realizando-as. Afinal, não ul- trapassam o nacionalismo moderado e a obtenção de direitos sociaisjâ consagrados em outros centros e s6 emperrados aqui por certa cegueira conservadora ou liberal.
A comissão para o prQJeto constitucional era de civis e militares, que haviam atuado em 30, com os nomes de Afrânio de Meio Franco, o presidente, An- tânio Carlos, Jogo Mangabeira, Assim Brasil, Carlos
l
42Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras 43
Maximiliano, Prudente de Moraes Filho, Oswaldo Aranha, Agenor de Roure, Artur Ribeiro, José Amé- rico de Almeida, Oliveira Vianna, Temístocles Caval- canti, general Goes Monteiro, depois Castro Nunes e Carneiro da Cunha. Foi pouco alterada durante as 51 sessões que realizou. A comissão partia do texto de 91, procurando considerar o que o novo Direito cria- va, perante diversa ordem social e económica, além de outras Constituições, entre as quais se distinguiam a alemã de 1919 e a espanhola de 1931.
A Comissão optou pela Câmara única, acabando cóm o Senado e instituindo um Conselho Supremo,
bastante estranho na composição (lembrava o prometo
de Constituição de Alberto Torres, em seu livro ,4 erga/zlzação nacfona/, de 1914, quase extravagante) .
Tratou da representação classista, cara a Getúlio,
mas a idéia não foi aprovada. Discutiu-se se .o presi- dente devia ser eleito direta ou indiretamente, op-tando-se pela forma indireta. A comissão foi feliz
quanto ao mandato de segurança. Depois, tratou de matérias que antes não interessavam aos legisladores e são agora importantes pelas mudanças sociais e económicas. Sugeriu o Conselho de Segurança Na- cional e a Justiça Eleitoral. Ampliou-se o capítulo das garantias e direitos, com o trato de problemas como os da família, educação, saúde. Ficou como o prometo do ltamarati.A Constituinte reúne-se dia 15 de novembro de 1933. Contava com a originalidade de ter 40 depu- tados classistas, além dos 214 eleitos pela forma co-
mum. Eram: empregados, 18; empregadores, 17;
profissões liberais, 3; funcionários públicos, 2. A nova forma é um dos sinais do reconhecimento de
outra ordem social e económica, como o é também a inclusão de capítulos ou artigos sobre o assunto, di- reitos dos trabalhadores, assistência social, garantias antes negadas -- o proletariado era fragílimo em 1891, sem organização e consciência --, ou a inclu- são dos Conselhos Técnicos, reconhecimento da ne- cessidade de racionalização do Estado. A novidade não passou sem contestação, que via aí a marca do corporativismo defendido e praticado pelo fascismo;
outros, mais agudamente, viam a ingerência do Exe- cutivo no Legislativo, o governo querendo fazer-se
mais representado, com a manipulação das eleições
no setor classista, mais fácil quç na eleição geral. O Ministério do Trabalho fora uma das primeiras cria- ções do Governo Provisório, ainda em 30; destaque- se também a lei de sindicalização, de 19 de março de 1931. O novo Código Eleitoral, de 24 de fevereiro de 1932, consigna a representação classista, para horror dos políticos tradicionais e alegria dos tenentes e ra- dicais do Clube 3 de outubro.Vê-se aí uma espécie de bancada profissional,
ao lado de bancada política. Contra ela se insurgiram forças da velha ordem. A eleição desses deputados é feita depois da geral, em julho de 1933. SÓ os sindi- catos organizados e reconhecidos pelo Ministério do Trabalho teriam direito a voto. Crescem então, para poder participar do processo. Fere-se o debate so- bre unidade ou pluralidade sindical.- Empenham-se nele sobretudo Alceu Amoroso Lama, escritor e lí-44 Francisco lglésias Constituintes e Constituições Brasileiras der católico, favorável à pluralidade (tese também
dos empresários paulistas), e Oliveira Vianna, soció- logo, assessor de Getúlio, um dos responsáveis pela legislação trabalhista, favorável à unidade. A dele- gação classista será feita sobretudo pelo agenda- mento de Antunes Maciel e Salgado Filho, ministros da Justiça e do Trabalho.
A eleição da bancada dos empregados é de 20 de
julho, a dos empregadores de 25. Até 20 de junho,
havia 346 sindicatos profissionais dos empregados:62 do Distrito Federal, 48 do Rio Grande do Sul, 47 do Rio de Janeiro, 44 de São Paulo. Estranhável a distribuição, uma vez que São Paulo era o estado de mais indústria. Acontece, contudo, que outras áreas foram mais trabalhadas com esse fim: lembre-se que o Norte e o Nordeste, com estados frágeis economica- mente, eram mais ligados ao tenentismo, daí terem
mais presença. Outro dado estranho é que dos 346
reconhecidos, indústria e afins contavam com 152.enquanto comércio e transportes têm 180 e a agricul- tura apenas três. Além das disparidades entre os se- tores, lembre-se que na indústria o principal ramo é o têxtil, com 29 unidades, enquanto a construção tem 32 e a de alimentos, 37.
A bancada de mais atuação será a dos emprega- dores. Alguns dos trabalhadores eleitos serão coop- tados pelos empregadores ou outros, poucos fazendo oposição firme ao governo. Empenham-se, sobre- tudo, pela manutenção das conquistas feitas, assis- tencialistas ou previdenciárias. Nenhuma de suas fi-
guras se distinguiu, de modo que não ficou um só
nome a proJetar-se nem mesmo na época. A corrente mais organizada e organizadora -- a dos comunistas -- estava na clandestinidade. Não havia consciência lúcida por parte dos excluídos e proletariado em ge- ral, sem falar no recrutamento, quase sempre de gen- te mais dada à conciliação ou mesmo à manipulação.
Na escolha dos deputados empregadores, havia, reconhecidos pelo ministério, 74 delegados-eleitores:
27 do Distrito Federal, 20 de São Paulo, ll de Mi-
nas, 9 do Rio Grande do Sul, 5 do Rio de Janeiro, l do Paranâ e l de Sergipe. O resultado foi: ll de
indústria e afins, 4 do comércio e transporte e 2 da agricultura. Por unidade da Federação, 6 do Distrito Federal, 4 de São Paulo, 3 de Minas e Rio Grande do Sul e l de Pernambuco -- bem diversa da bancada dos empregados, como setor de produção e área geo- gráfica. Figuravam aí nomes conhecidos e que serão notabilizados depois, como Roberto Simonsen, Ho- râcio Laser, Alexandre Siciliano, Mário de Andrade Ramos, Euvaldo Lodo(os três primeiros de São Paulo e os outros dois do Distrito Federal e Minas). Provi- nham de sindicatos formados com vistas à Consti- tuinte; entre eles, sete engenheiros, dois médicos, um químico e dois advogados. Era a relevância conce-dida à técnica ou ao tecnicismo, em detrimento do
bacharel clássico.
Atuaram sobretudo na colocação do problema da importância do governo na vida económica, em defesa do intervencionismo, tese ainda longe da una- nimidade. Empenhavam-se pelo federalismo, alguns deles de modo veemente, ligados que eram à política
46 Francisco lglésiw Constituintes e Constituições Brasileiras 47 dominante em seus estados -- caso dos paulistas, os
mais atuantes, formando com os demais deputados de São Paulo. Getúliopretendia, com a representaçãQ classista, estabelecer certo equilíbrio com a represen- tação política, dominada por Minas e São Paulo. O
artifício nem sempre deu certo, pois os eleitos, se
eram delegados de suas áreas profissionais, também o eram das áreas geográficas, como é óbvio. Os em- pregadores empenharam-se na defesa da ação do Es- tado e da racionalização de suas atividades. Pode-se ver na atuação que tiveram o primeiro momento doque se dará durante o Estado Novo, sobretudo em
44, com a célebre controvérsia sobre o desenvolvi- mento económico, em que se distinguirão, na defesa, Roberto Simonsen, no lado liberal, Eugênio Gudin.Na Constituinte, os
empregadores chegaram mesmo a posições radicais: Alexandre Siciliano é pe- la nacionalização das riquezas do solo e subsolo (que conduzirá aos Códigos de Minas e Aguas, velha aspi- ração obstada por dispositivos da Constituição de 91e agora possível). Outra proposta extremada é a de
Mârio de Andrade Ramos, sobre nacionalização das companhias de seguro, ou a de Roberto Simonsen, sobre nacionalização de bancos de depósito. Aceita ainda a bancada empregadora a legislação social de carâter previdenciário ou tendo em vista a racionali- zação da produção (superava-se a ideia de previdên-cia como simples assistencialismo ou favor, cari-
dade). Chegava-se à defesa de tal legislação entregue
às unidades, não ao governo federal, pela necessi-
dade de ter em conta as características regionais.Como se vê, a novidade classista deu o que falar e alguns resultados. A matéria já foi estudada e me- rece ainda atenções, para aprofundamento. Entre os textos que enriquecem a historiografia do assunto, distingue-se o de Ângela Mana de Castra Games -- ''A representação de classes na Constituinte de 34'', no livro por ela coordenado Regiona/limo e centra/í- zaçãopo/íf/ca, ampla e meritória pesquisa do CPDOC editada em 1980, que foi em parte a fonte aqui usada para estudo desse aspecto importante e ainda pouco conhecido.
Voltando à Constituinte: Antânio Carlos foi es- colhido presidente. A comissão para o prometo era de 26 membros -- um de cada unidade federativa, os do Distrito Federal e do Acre .e quatro classistas. A pre-
sidência coube a Carlos Maximiliano, que partici-
para do projeto remetido pelo governo. Os fluminen- ses Leva Carneiro e Raul Femandes eram o vice-pre- sidente e o relator geral. O líder da Assembleia foi o ministro Oswaldo Aranha (participava como minis-
tro) e depois Madeiros Neto. O projeto oficial foi a
base das discussões.
O centralismo do governo, já existente em 91, é
acentuado pela emenda de 26, como se viu. O novo prometo é ainda mais centralizador. No plenário, mui- to discutido, saiu atenuado. O debate garante a re- presentatividade dos estados pela população, sem ad- mitir limites. O Conselho Supremo sugerido no pro- jeto não vinga, prevalecendo o bicameralismo, man- tido o Senado. Após longa discussão, subsiste a elei- ção direta do presidente da República. A-Assembleia48 Franctsco lglésiu$
Constituintes e Constituições Brasileiras 49 admite casamento indissolúvel e religioso, de acordo
com a Liga Eleitoral Católica, empenhada nesses
princípios. Mais novidade há no referente à ordem .económica e social, resultado do processo dos últimosdecénios no mundo e no país, com a indústria e o
crescimento urbano. O trabalhador é objeto de maio- res atenções pela primeira vez. Também são tratados novos problemas, como família, educação, funcio- nalismo, segurança nacional, justiça eleitoral. A dis- cussão exigiu algum tempo, até a assinatura do docu- mental no dia 16 dejulho de 1934.
O novo texto é bastante inovador relativamente ao de 91. Ê bem mais minucioso, como se vê em sim.
pies confronto: a Constituição de 91 tinha 91 artigos,
enquanto a de 34 tem 187. Feita de modo severo,
reflete as novas correntes do Direito -- obras de ju-ristas e Constituições que se seguem ao fim da Pri-
meira Guerra, ecos da política ideológica em cresci-mento. No Brasil foi intensa a influência fascista,
como se vê de modo exaltado nos integralistas. Mes- mo políticos pretensamente inovadores e represen- tantes da forma tradicional não ficam imunes a certa sedução da direita; o mesmo se observa nos publicis- tas, em período de muitas edições de natureza histo-riográfica, sociológica, jurídica, política. Em país
sem sólida tradição intelectual, com a mistura e em- baralhamento de idéias de pouca clareza ou mesmo equivocadas, o pensamento costuma ser fluido e até contraditório.
Vive-se outro tempo: sindicatos e associações profissionais são reconhecidos (art. 120), assegurada
a completa autonomia dos sindicatos. A lei garante o salário mínimo, trabalho não superior a oito horas, proibição de trabalho a menores de 14 anos, repouso hebdomadârio, férias anuais e outros direitos, antes não reconhecidos.
O sentido inovador da administração esta pre- sente nos recomendados Conselhos Técnicos, de atuação junto aos ministérios e ao Legislativo -- ob- jeto de uma seção no Capítulo VI, sobre os órgãos de cooperação nas atividades governamentais. Reflete- se aí a ânsia de aprimorar os serviços públicos, com as praticas administrativas decorrentes de nova so- ciedade e de ciências sociais renovadoras, impondo a racionalização. Surgem as novas escolas, como a de
Filosofia e a de Ciências Económicas, com outra
mentalidade e mais dilatados horizontes. Tal desejo de superar a velha rotina começa no Brasil nos anos trinta, acentuando-se no Estado Novo e em crescente
desenvolvimento até nossos dias.
Outro assunto é a Segurança Nacional, objeto
de cuidados especiais nos debates e no documento, que logo deixa de referir-se à guerra para ser eminen- temente política repressora, como se dâ no ano se- guinte em decorrência do movimento comunista frus- trado e do reconhecimento do autoritarismo. A acen- tuação do assunto segurança nacional será ainda for- talecida com o Decreto legislativo Bo 6, de 18 de de- zembro de 1935. Os artigos 75 é 78, sobre estado desítio, devem considerar as emendas 1, 2 e 3. A mais
perigosaé a primeira: ''A Câmara
dos Deputados, com a colaboração do Senado federal, poderá auto-50 Francisco lglési rezar o presidente da República a declarar a comoção intestina grave, com finalidades subversivas das ins- tituições políticas e sociais, equiparada ao estado de guerra, em qualquer parte do território nacional..."
Perigosa e mal redigida. As duas outras emendas tra- tam das penas aos militares ou. funcionários públicos pela''participação de movimento subversivo das ins- tituições políticas e sociais". Nova linguagem co- meça, ingênua, primária, ameaçadora, de uso cres- cente e sempre suspeita.
O Congresso, por falta de percepção da reali- dade social, vota medidas repressivas e toma outras atitudes, por manobras de Getúlio, presidente eleito de acordo com a nova lei. Mais objetivo e sagaz que os parlamentares, explora o perigo vermelho por causa da intentona comunista (é assim sempre cha- mada), em 35, animado também com certeza pelo clima internacional favorável à aventura reacionária e pelo crescimento da Ação Integralista. O golpe de direita que leva ao Estado Novo esta a caminho e os Políticos ditos liberais nada percebem. A Constitui- ção de 34 viverá pouco mais de três anos.
CONSTITUIÇÃO DE 37
A trajetória do Brasil na década de trinta ins- creve-se bem na do mundo ocidental. Se a Europa vi- veu e vive a experiência do fascismo, que obtém ter- reno e vitórias no após-guerra, em decorrência de ressentimentos, crises económicas e financeiras, de- semprego, temor do comunismo e derrocada da idéia liberal, a América não fica alheia ao surto e tem seus
arremedos com movimentos antiHberais, uso da tea- tralidade na política, como também da violência e do terror. Sua maior expressão no Brasil foi a Ação Inte- gralista, que cresce de 32 a 37. 1.Jm presidente fasci- nado pelo poder e disposto a conserva-lo a qualquer custo manobra Congresso tímido, obtendo aprovação para quanto precisa. Explora a pregação esquerdista da Aliança Nacional Libertadora e a aventura comu- nista em 35, a desenvoltura direitista, animando-a, sem recuar ante a mentira, com a falsificação do Plano Cohen -- subversão para implantar o comu-
52 Francisco lglésiaa CoKstjtuintes e Constituições Brasileiras 53 nismo --, nascido das antecâmaras militares, sempre
prontas a servir com o espantalho da subversão. Leis e medidas acauteladoras da suposta ordem se suce- dem, com Tribunais de exceção, aberrações da nor- majurí dica .
Como o mandato de Getúlio termina em 38, pro- jeta-se a campanha sucessória, com duas candida- turas -- a apresentada pelo oficialismo, com José
Américo de Almeida, e a dita de oposição, com Ar-
mando de Sales Oliveira. Og integralistas também entram em cena, com a do chefe Plínio Salgado. A trama é bem articulada pelo presidente, com vistas a seu objetivo continuísta. E vem o golpe de 10 de no- vembro de 37. Articulado pelo Catete, com apoio de seus ministros e governadores, de políticos e quartéis,parte ponderâvel das Forças Armadas e da Igreja, o
golpe tem pálidos protestos e coloca a nação entre muitas outras que negam a representação do povo em instituições tidas como obsoletas, no ritmo dos governos autoritários.Uma Constituição é outorgada, instituindo o Es- tado Novo -- nome do regime português que vem da chamada Revolução Nacional de 1926, passa pela chegada ao poder de Salazar e é de vez estabelecido
pela República Unitária e Corporativa em 33. A
nova carta brasileira é feita pelo ministro Francisco Campos, político mineiro de conhecido corte reacio- nário. À maneira de alguns textos europeus, corpora- tivistas, com Executivo e un} pretenso Legislativo, anuncia uma nova ordem, de acordo com certos prin- cípios vigentes no mundo direitista, nunca submeti-Gertí/fo Vergas
A Constituição de 37 -- conhecida como ''polaca'', dadas suas semelhanças com a aditada pelos fascistas poloneses
-- institui o Estado Novo.