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Como se disse, a Constituição de 46 era bem

No documento MADAZNA Va.m - 460sro /rq% .le .}' 'P; (páginas 33-36)

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66 Francisco lglésiü:l [ituintes e Constituições Brasileiras 67 feita em suas linhas gerais, mantendo o sentido

libe-ral das duas outras feitas por Constituintes. O libera-lismo, porém, estava esgotado, com o processo evo-lutivo que revelou a sua inviabilidade: negado radi-calmente por uns (esquerda e direita), era-o parcial-mente por muitos que se diziam seus seguidores, mas tentavam adapta-lo às novas condições. E vários paí-ses chamados liberais adotaram medidas interven-cionistas, regulamentadoras, na prática da planifica-ção. Alegavam não alterar a estrutura, mas proceder tendo em vista o funcionamento.

Assim foi nas praticas britânicas, nas dos Esta-dos UniEsta-dos de Roosevelt e depois, nas nações nórdi-cas, criando um assistencialismo em geral tido como exemplar. Se a realidade o consagrou, não faltaram as teorizações justificadoras. Para citar duas de am-pla ressonância no Ocidente, inclusive no Brasil, lem-brem-se as obras de Harold Laski ou Karl Mannheim . Concedia-se alguma coisa para salvar o principal.

Era uma visão heterodoxa do liberalismo, para pro-var a possibilidade de planificação com liberdade. O liberalismo adaptava-se a novo quadro, sem negar a própria essência.

A flexibilidade de novas práticas quanto à orga-nização social e económica apresentava-se também quanto à política. O federalismo à maneira antiga é visto como sobrevivência do feudalismo. O avanço da tecnologia implicava outras formas. E fala-se então em federalismo cooperativo, em lugar do federalismo segregados. Com o aumento considerável da popula-ção e as enormes dimensões.dos investimentos ou dos

bens gerados é preciso outra noção de política. Uma

dado não é capaz de consumi-los. Tais obras, por'

rithy, em que um empreendimento gigantesco tem de dispor de recursos financeiros que um Estado não tem, mas o governo central pode ter; a energia for-necida é de tal vulto que dá para atender a varias uni-dades. No Brasil, seja o caso da Comissão do Vale do São Francisco, com as grandes obras realizadas do governo Dutra: nenhum Estado do Nordeste dispu-nha de capital para a hidrelétrica pedida, como ne-nhum poderia usar todo o potencial energético forne-cido por ela.

Impõe-se, pois, outra visão do federalismo, que reveja a forma clássica: ela tem de ser superada, pois as condições se alteram às vezes profundamente, de conformidade com os avanços da tecnologia. Se a ve-rificação jâ era mais que válida nas décadas de qua-renta e cinqüenta, imagine-se agora, quando o domí-nio do homem ultrapassa qualquer imaginação de hâ vinte anos, com a energia nuclear, a cibernética, a in-formática. São outras as noções de espaço e tempo,

todos os povos se comunicam, não hâ mais

isola-mento e tudo caminha para a unidade. Outras

for-mas de organização política e social se delineiam. Se não houver um desenvolvimento social e político

equi-68 Francisco lglési. Constituintes e Constituições Brasileiras 69 valente ao de outras ciências haverá uma defasagem

entre os conhecimentos, e esse desequilíbrio pode ge-rar uma guerra que talvez pura e simplesmente des-trua tudo. As novas armas podem provocar conflito com características nunca apresentadas em filmes de ficção científica. E o homem está ameaçado de ser destruído e o universo de novo vai adquirir a forma de nebulosa, como aquela da qual o mundo teria par-tido, segundo conhecida teoria cosmogânica. Releve-se a digressão teorizante, à primeira vista ociosa no presente estudo, mas com razão de ser, pois eviden-cia a mudança verificada na ordem política no mun-do com o qual o país mais se identifica.

O texto constitucional de 46 incorporou as con-quistas sociais do de 34 e as medidas da política po-pulista do estadonovismo. Em 34 jâ se tratava da or-dem económica e social (Título IV), a Justiça do Tra-balho, mas como corpo independente do Judiciário comum, como uma Justiça especial; de 37 a 45 a le-gislação relativa aumenta consideravelmente, pelo corporativismo da Carta; 46 representa um avanço, dando mais organicidade a essa Justiça, como parte do Judiciário (Secção VI, Cap. IV, Título 1). Ganha autonomia o Direito do Trabalho, mais reconhecido pelo novo texto.

A Constituição de 46 teve muitas emendas, bas-tante espaçadas: a Ho l é de dezembro de 1950; a

no 2 é de julho de 1956; a no 3 é de 1961. Emenda

importante é a Bo 4, de 2 de setembro de 1961, ins-tituindo o sistema parlamentarista. Foi feita para contornar grave crise, provocada pela intempestiva

renúncia de Janto Quadros, no dia 25 de agosto

--um dos momentos mais negativos e melancólicos da história recente. O renunciante desejou a crise, com o abandono do poder, quando o vice-presidente es-tava na China, e ciente de que haveria dificuldade para a sua posse, pelo veto militar ao nome de João Goulart. Entendimentos entre a liderança política e a

insubordinação militar levam à ideia de adoção do

parlamentarismo, pois esse regime diminuiria as prer-rogativas do chefe, enormes no regime presidencia-lista. Goulart fez estranha viagem de volta, chega ao Uruguai para reassumir, apoiado pelos defensores da legalidade e pelo seu Estado -- o Rio Grande do Sul --, em pé de guerra contra o intentado golpe. Tan-credo Neves é incumbido pelo grupo articulador da ideia de encontrar-se com o vice e convence-lo a acei-tar a fórmula proposta. Obtém êxito, a emenda é

vo-tada, Goulart volta e assume a presidência. Na ver-dade, apenas adiava-se o golpe para 64, pois os

da-dos reais do problema subsistem.

Imposição pela força, a nova autoridade admite-a, mas não a aceita e começa logo a trabalhar pela plenitude de seus direitos, de acordo com a lei pela qual normalmente se elegera. E uma experiência par-lamentarista de pouco significado, pois ninguém de fato a aprova. Os gabinetes se sucederam e poucos meses depois nova emenda -- a de no 6, de 23 de janeiro de 1963 -- restabelece o presidencialismo,

fruto de campanha popular e plebiscito em que a

quase totalidade da nação se pronuncia contra o

gol-pe de força. Outras emendas seriam ainda feitas,

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mas já sob o regime militar instituído pelo movimento de 31 de março de 64: emendas de número 7 a 21, até nova Carta, em 67, no gosto suspeito de legislar, que mais confunde que ordena, como é típico dos regimes

de arbítrio.

Mais intportantes que essas medidas são os Ates Institucionais, decretados como justificativas para o golpe contra a Constituição de 46. Eles armam o po-der para um exercício que se quer justificar, através de documentos casuístas que vão ser a norma a con-tar de abril de 1964 até 15 de março de 1985, quando de novo um presidente civil volta ao comando do go-vemo e anuncia a Nova República. Seu principal ar-tífice foi o mineiro Tancredo Neves, que empolgou a nação com sua prédica contra o autoritarismo e em defesa da legalidade, suspensa por longos anos, até a data inaugural de outra época, anunciada pelo presi-dente eleito.

Os Atos Institucionais consagram as iniciativas do poder, tentando legitimar o arbítrio, como se vê no preâmbulo do primeiro: ''A revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz não o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nação. A revolução vitoriosa -se investe no exercício do Poder

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