CAPITULO 1 – ORIGEM DA MOEDA E INTERMEDIAÇÃO FINANCEIRA 1.1 Atividade Econômica
Nesta unidade será valer-se-á de alguns conceitos macroeconômicos para analisar o fluxo circulatório da renda que uma nação gera e suas repercussões no mercado de capitais.
Identificação dos agentes econômicos
Os agentes econômicos são os responsáveis diretos pelas ações econômicas que desenvolvem no sistema e podem ser divididos em:
Famílias – engloba todos os tipos de unidades domésticas, unipessoais ou familiares, com ou sem laços de parentesco, empregados ou não, que formam o potencial de recursos para o processamento de atividades produtivas e os que recebam transferências pagas pela previdência social a outras entidades.
Empresas – são os agentes econômicos para os quais convergem os recursos da produção disponíveis. Reúnem-se as produtoras do setor primário (agricultura), secundário (indústria) e terciário (serviços).
Governo – é um agente coletivo que contrata diretamente o trabalho de unidades familiares e que adquire uma parcela da produção das empresas para proporcionar bens e serviços úteis a sociedade como um todo. Suas receitas resultam do sistema tributário.
Setor externo – envolve as transações econômicas entre unidades familiares, empresas, e governo do país com agentes de outros países.
Bens e Serviços
De capital – são os bens utilizados na fabricação de outros bens e serviços, mas não desgastam totalmente no processo produtivo. Ex. máquinas, estradas, etc.
De consumo – destinam-se à satisfação direta das necessidades humanas.
Dividem-se em Bens de consumo duráveis (automóvel, geladeira) e Bens de consumo não-duráveis (alimentação, roupas).
Intermediários – são os bens transformados ou agregados na produção de outros bens e são consumidos totalmente no processo produtivo, ou seja, necessitam transformar-se para se tornar bens de consumo. Ex. trigo, minério de ferro.
Fatores de produção
Trabalho – constitui-se de todas as pessoas disponíveis para trabalhar. É o principal fator de produção.
Terra – são os elementos naturais disponíveis, ou seja, incorporável às atividades econômicas.
Capital – compreende o conjunto das riquezas acumuladas pela sociedade (fábricas, edifícios, máquinas, escolas, hospitais) e é com elas que a população ativa se equipa para exercício das atividades de produção.
O fluxo circular de renda inicia-se com a participação dos agentes, famílias e empresas. Os primeiros detêm os fatores de produção que são utilizados pelas empresas por determinado preço. Posteriormente as famílias consomem os bens de consumo.
Em sociedades que possuem economia em equilíbrio a renda não é consumida integralmente, e essa parte que não é consumida chama-se poupança.
Poupança pode ser considera a parcela de renda não consumida. Tal parcela se dá em função dos seguintes fatores: capacidade de poupar dos agentes; desejo de poupar e oportunidade de poupar. Esta poupança pode ser aplicada em atividades produtivas através da realização de investimentos, ou seja, aplicação de recursos em algo lucrativo que aumenta seu estoque de riqueza.
A atividade econômica apresenta descompassos temporais em seus fluxos de recebimentos e pagamentos que geram aos sujeitos econômicos excessos de liquidez ou necessidade de liquidez a investir/financiar durante um período de tempo. Devido a isto é necessária a existência de alguns mecanismo que permita a transferência de recursos de unidades econômicas com superávit de liquidez a unidades econômicas com necessidade de liquidez.
Assim, tem-se que a existência de bens destinados à acumulação nos leva à necessidade da utilização dos intermediários financeiros, e com isso surgem os mercados financeiros.
Tem-se ainda que a necessidade da existência de bens públicos justifica a incorporação do governo ao fluxo. Pode-se complementar dizendo que quando numa economia a poupança domestica não é suficiente para financiar o investimento e o déficit público, através da intermediação financeira se importará poupança exterior para cobrir este descompasso.
Pode-se dividir o desenvolvimento da economia em três estágios:
1º - Economia de escambo 2º - Introdução da moeda 3º - Intermediação financeira
1º - Economia de escambo
O escambo é a troca direta, sem intervenção de um instrumento monetário.
Representa o estágio típico de economias com suas atividades econômicas voltadas para o consumo direto. Neste estágio tem-se como inconvenientes: custo para manter a acumulação em ativos reais; dificuldades de especialização e divisão do trabalho; perda de eficiência na alocação de recursos.
2º - Introdução da moeda
Em um primeiro momento poderíamos entender moeda como um conjunto de notas e moedas que se encontram circulando na economia em poder público. Entretanto tal definição não contempla as diversas formas que circulam na economia, demandando assim a compreensão de conceitos que envolvem moeda.
Moeda pode ser conceituada como um conjunto de ativos financeiros de uma economia que os agentes utilizam em suas transações. Possui característica
diferenciada já que a mesma não produz nada, não é bem de consumo e tão pouco bem de investimento.
As moedas podem ser agrupadas em três tipos:
Moedas metálicas - emitidas pelo Banco Central, constituem pequena parcela da oferta monetária e visam facilitar as operações de pequeno valor e/ou com unidade monetária fracionária (troco).
Pape-moeda – também emitido pelo Banco Central, representa parcela significa da quantidade de dinheiro em poder do público.
Moeda escritural – representada pelos depósitos a vista (depósitos em conta corrente) nos bancos comerciais (é a moeda contábil, escriturada nos bancos comerciais).
A moeda é vista como um bem de uso comum em todo o tipo de transação que permite a participação de operação de troca, na qual se realiza compra ou venda simultânea de mercadorias, em operações separadas de intercâmbio, trazendo vários benefícios, entre eles:
Aumento do grau de especialização;
Redução no tempo gasto nas trocas;
Eliminação da necessidade de dupla coincidência de desejos.
Na economia a moeda cumpre quatro papéis importantes:
1. Meio de pagamento: é a capacidade que a moeda tem de diminuir dívidas em última instância, ou seja, é um ativo financeiro de liquidez imediata;
2. Reserva de valor: ser um repositório de poder de compra sobre o tempo, ou seja, processo de poupar o poder de compra da hora que a renda é recebida até a hora que a renda é gasta;
3. Unidade-padrão de conta: fornecer uma unidade de conta, ou seja, criar mediação de valor na economia;
4. Intermediária de trocas entre agentes: meio ou instrumento de troca geralmente aceito pelos agentes econômicos na concretização de suas transações.
Oferta de Moeda
A moeda pode ser classificada de acordo com várias definições. Ao classificar-se o total de moedas de um país, tornam-se necessárias definições de medidas de oferta de moeda; a essa oferta chama-se agregados monetários ou meio de pagamento, que são definidos como estoque de moeda disponível para uso da coletividade (setor privado e não bancário) a qualquer momento e que podem ou não incluir as quase-moedas. Visa, com este conceito, medir a liquidez, ou seja, as necessidades do setor produtivo privado (excluindo-se os bancos), para satisfazer a suas transações de bens e serviços.
Podem ser considerados agregados monetários de maio relevância conceitual:
Meio circulante – moeda em espécie (papel-moeda impresso e moedas metálicas cunhadas);
Papel-moeda emitido – é o total de papel-moeda legal existente, autorizado pelo Banco Central;
Papel-moeda em circulação – engloba todas as espécies emitidas do meio circulante;
Depósitos a vista no sistema bancário – também chamado de moeda escritural, possui significativa relevância pois tem alto poder de expansão;
Base monetária – consiste na soma de duas parcelas: o papel-moeda emitido e as reservas voluntárias e compulsórias;
Oferta monetária – em sentido restrito: totalização dos ativos monetários mantidos pelo público (papel-moeda e depósitos a vista); em sentido amplo:
saldos totalizados de todos os ativos financeiros, monetários e quase monetários.
O primeiro conceito de moeda, com o qual trabalhar-se-á é o mais restrito, composto por dois elementos: moeda manual (moedas metálicas e notas em poder do público) e moeda escritural (depósitos a vista em instituições financeiras), este é o conceito de M1. Abaixo os demais conceitos de moedas:
M1 = Moeda Manual (moedas metálicas e notas em poder do público)+
Moeda Escritural (depósitos a vista);
M2 = M1 + títulos públicos (federal, estadual e municipal) M3 = M2 + Poupança
M4 = M3 + Depósitos a prazo + Letras de câmbio + Letras hipotecárias M5 = M4 + Capacidade aquisitiva dos cartões de crédito
Oferta de Moeda pelos bancos comerciais – efeito multiplicador
Os bancos comerciais também podem aumentar a oferta de moeda (meios de pagamento) com a multiplicação da moeda escritural ou depósito a vista. Tal capacidade de multiplicar moeda dos bancos resulta da possibilidade de manutenção de valores inferiores em espécie do total dos depósitos a vista recebidos dos clientes. Isso ocorre devido a não utilização total dos recursos de forma simultânea por parte dos clientes e do resultado do fluxo de entrada e saída desses mesmos recursos. Por exemplo, a cada R$100,00 de depósito a vista os bancos precisam deixar em caixa apenas de 3 a 5% de encaixe técnico, sendo que o restante ele pode realizar empréstimos.
Controle de oferta de moeda pelo Banco Central – Instrumentos de política monetária
O controle da oferta de moeda é realizada pelo Banco Central através dos seguintes instrumentos:
Controle das emissões
O Banco Central controla, por força de lei, o volume de moeda manual da economia, cabendo a ele as determinações das necessidades de novas emissões.
Compulsório ou reservas obrigatórias
A taxa de reservas compulsórias é um instrumento de alta eficácia para controlar o processo de multiplicação da moeda escritural. É uma conta corrente mantida pelos bancos no Banco Central que tem que ser mantida de acordo com o volume de negociações realizadas.
Open market (mercado aberto)
São compras e vendas de títulos do governo pelo Banco Central. O Banco Central coloca títulos no mercado através de leilões, dos quais participam as
instituições financeiras dealers de mercado. Os dealers são as instituições mais atuantes no mercado e são também chamado de market makers.
Redesconto
O Banco Central realiza empréstimos, conhecidos por empréstimos de assistência a liquidez, que visa equilibrar necessidades de caixa de instituições financeiras ocasionadas por um aumento significativo na demanda de recursos pelos depositantes. A taxa de juros cobrada pelo Banco Central nessas operações é chamada de taxa de redesconto.
3º - Intermediação financeira
Defini-se intermediação financeira como uma atividade que tem a finalidade de viabilizar o atendimento das necessidades financeiras de curto, médio e longo prazos, manifestadas pelos agentes econômicos carentes de recursos, aplicando ao mesmo tempo o excedente monetário dos agentes superavitários, com mínimo de riscos.
As pré-condições para a existência da intermediação financeira são:
Superação do escambo;
Existência de moeda Excedente financeiro;
Bases institucionais para o funcionamento do mercado de intermediação financeira;
Existência de agentes econômicos dispostos a trocar ativos monetários por ativos financeiros, dados os riscos e ganhos reais possíveis.
Para que haja intermediação financeira, além das precondições já citadas, é necessário que também ocorra:
Casamento entre captação/aplicação Capital próprio.
A intermediação financeira justifica-se pelas imperfeições apresentadas pelo mercado que provocam a superioridade dos custos associados ao investimento direto de valores quando comparados ais custos de intermediação. Estas
imperfeições, amplamente tratadas na literatura econômica, são basicamente os custos de transação gerados pela mediação e a transformação de ativos, e a existência de informação assimétrica.
A transferência de recursos entre os agentes superavitários e deficitários é viabilizada pela transformação de títulos primários (emitidos diretamente pelos tomadores iniciais) em títulos secundários (emitidos por terceiros), tornando-os atrativos para os poupadores e aumentando sua liquidez.
Os intermediários financeiros interpretam papel importante na transformação dos ativos financeiros, que tem uma forma pouco desejável para o grande público, em outro tipo de ativos que esteja mais adequado com as necessidades dos investidores. Essas transformações implicam algumas funções econômicas:
Redução do risco mediante a diversificação – economias de escala na gestão de carteiras de ativos, que por sua vez tem três razões principais:
o Indivisibilidade – nem todos os ativos estão disponíveis em todo o tipo de valor nominal.
o Economias de gestão.
o Economia de transações.
Adequação às necessidades de emprestadores e tomadores Gestão de mecanismos de pagamentos.
A atuação dos intermediários financeiros traz diversos benefícios aos sistema econômico:
Devido ao elevado grau de especialização e sofisticação, os intermediários financeiros podem oferecer produtos e serviços mais adequados para uma clientela diferenciada;
Ao conectar-se com vários ofertantes e tomadores de recursos, os intermediários financeiros podem aumentar a agilidade e reduzir custo através da escala em que trabalha, diferentemente dos agentes econômicos que operam isolado;
Ao manejar um grande fluxo de informações sobre tomadores e ofertadores, os intermediários podem evitar a alocação de recursos de forma improdutiva, o que leva a perda desses para a economia;
Os intermediários financeiros promovem a liquidez do mercado à medida que viabilizam o fluxo de negociação com ativos financeiros.