PUC-SP
José Guida Neto
Ulpiano e o estoicismo no direito romano
do principado
DOUTORADO EM DIREITO
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
José Guida Neto
Ulpiano e o estoicismo no direito romano
do principado
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP, como exigência parcial à obtenção do título de Doutor em Direito na Área de Filosofia do Direito e do Estado sob a orientação do Prof. Dr. Cláudio De Cicco
.
DOUTORADO EM DIREITO
Banca Examinadora
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__________________________
“A filosofia, hoje, não passa de um abuso
da palavra. É preciso retornar ao
sentimento de Sócrates e ao de Sêneca,
quando ao falar dos gramáticos, dos
geômatros e dos físicos, diziam: é
preciso ver se todos estes homens nos
ensinam a virtude ou não; se ensinam,
são filósofos.”
Abade Dinouart
“
O único meio de se descobrir o que é
filosofia é fazer filosofia
.”
Bertrand
Russell
“Sou um homem: nada do que é humano
me é estranho.”
Públio Terêncio Afro
“Preferia fatigar-me lendo o escrito
por outros a ter que escrever o que
os outros tem de ler [ . . .] Tenho que
confessar, no entanto, que, no
exercício de escrever para os
demais, tenho aprendido muitas
coisas que antes ignorava.”
AGRADECIMENTO
Agradeço ao meu orientador,
Professor Doutor Cláudio De Cicco,
homem de grande caráter e
extraordinária cultura, que, como
poucos, domina a arte de ser, ao
mesmo tempo, erudito e afável aos
mais simples. Meu muito obrigado
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho “in memoriam”
à Rosmer, minha mui amada mãe,
que em vida entregou-se a Deus
como um dom e, enquanto viveu, foi
para todos que a conheceram um
dom de Deus. Sou-lhe grato pelos
ensinamentos, incentivos e amor
incondicional que me dedicou.
Ao meu pai, Matheus, pelos
exemplos de dignidade e honra.
RESUMO
A presente tese busca demonstrar de que modo, durante o Principado (Alto-Império Romano - período clássico de 27 a.C. até 284 d.C), a filosofia estóica, absorvida pelos soberanos de Roma, influenciou o Direito Romano. Como fio condutor do trabalho usa-se a obra do jurisconsulto Ulpiano, em particular o título I do livro I do “Digesto” (do Imperador Justiniano I o Grande, Imperador Romano do Oriente) e seu livro de “Regras”. Faz-se um relato da história do Principado, antecedido dos motivos que culminaram com o fim da República e ensejaram esse gênero de monarquia romana. À história do período segue-se uma explanação do pensamento estóico com ênfase na última fase antiga de tal escola filosófica, justamente aquela que coincide com o Principado e representa o auge do pensamento filosófico latino. Posta a história do período, e, sobreposta a história da filosofia de então, procura-se demonstrar como o direito romano clássico absorveu tais ideais que são encontrados nos textos legais do jurisconsulto Ulpiano. Por fim, segue uma explanação de como a jus filosofia de Ulpiano foi transmitida graças à consolidação justinianeia do “Corpus Juris Civilis” e desse modo contribuindo com a formação da civilização ocidental e consequentemente tornando-se a base do Direito brasileiro.
Palavras-chaves: Estoicismo – Principado - Direito Romano Clássico – Direito
ABSTRACT
This thesis seeks to demonstrate how, in the Principate (High Roman Empire - the classic period from 27 BC to 284 AD), Stoic philosophy, absorbed by the sovereign of Rome, influenced the Roman law. As a guiding principle, we use the work of the jurist Ulpian in particular its “Liber Singularis Regularum” and the Title I of Book I from the “Digesta” of the Justinian I the Great, emperor of Easten Roman Empire. The history of the Principate is presented, preceded by the reasons that led to the end of the Republic, and gave rise this kind of Roman monarchy. After the presention of the history of the period, there is an explanation of Stoic thought, with emphasis on the last phase of this ancient school of philosophy, precisely the one that coincides with the Principate, and represents the pinnacle of Latin philosophical thought. Once the history of the period is presented together with the history of philosophy, then it is shown how classical Roman law absorbed these ideas that were found in legal texts of the jurist Ulpian. Completing the thesis, there is an explanation on how Ulpian’s philosophy of justice was transmitted by means of the consolidation of Emperor Justinian "Corpus Juris Civilis" , thereby contributing to the formation of the Western civilization and, consequently, becoming the basis of Brazilian law.
Key-words: Stoicism - Principate - Classical Roman Law - Natural Law - High
ULPIANO E O ESTOICISMO NO DIREITO
ROMANO DO PRINCIPADO
SUMÁRIO
Introdução
...12
1 – HISTÓRIA DE ROMA: DA TRADIÇÃO NACIONAL
REPUBLICANA AO UNIVERSALISMO ESTÓICO DA
MONARQUIA
... 18
1.1 – A República Romana
e sua tradicionalista visão de mundo.... 18
1.1.1 - O fim da realeza até a crise republicana do século II a.C.
... 19
1.1.2 - A Ditadura de Sila
... 23
1.1.3 - O Primeiro Triunvirato: Pompeu, Crasso e César
... 27 1.1.3.1 - Pompeu e Crasso chegam ao consulado
... 28 1.1.3.2 - O Apogeu de Pompeu
... 30 1.1.3.3 - A ascensão de Júlio César e o Triunvirato
... 32
1.1.4 - A ditadura de César ou o crepúsculo da tradição
... 37 1.1.4.1 - A Guerra Civil - Pompeu versus César
... 37 1.1.4.2 - César e Cleópatra
... 41 1.1.4.3 - Os idos de Março
... 45
1.2
-
O Principado Romano e a ascensão do estoicismo
imperial
... 52
1.2.1 - Otaviano - César e Augusto
1.2.1.1 - O Cesarismo
... 54 1.2.1.2 - Consequências do Magnicídio - Segundo Triunvirato
... 58 1.2.1.3 - Nova Guerra Civil - O Fim da República
... 62
1.2.1.4- Do Príncipe, o Primeiro Cidadão
... 64
1.2.2 - Os doze Césares
... 68 1.2.2.1 Dinastia Júlio-Claudiana
... 69 1.2.2.1.1 O Governo de Augusto
... 70 1.2.2.1.2 Os Sucessores de Augusto:
Tibério, Calígula, Cláudio e Nero
... 73 1.2.2.2 Dinastia Flaviana
... 78
1.2.3 - Os Bons Imperadores e o Século de Ouro do Império
... 80
1.2.4 - Dos Severos ao Dominato
... 86 1.2.4.1 - Dinastia dos Severos
... 87 1.2.4.2 - Crise do terceiro século
... 90
2 - Os Momentos da Filosofia Estóica
... 95
2.1 –
O estoicismo antigo (grego)
... 101
2.2 –
O estoicismo médio (greco-romano)
... 108
2.3 –
O novo estoicismo imperial (romano)
... 111
2.3.1 - O eclético Cícero
... 114
2.3.2 - Sêneca
... 126
2.3.3 - Epiteto
... 135
2.3.4 - Marco Aurélio
3 – A INFLUÊNCIA DO ESTOICISMO NO DIREITO ROMANO
CLÁSSICO INVESTIGADO NOS TEXTOS DO
JURISCONSLTO ULPIANO
... 144
3.1 –
A Jurisprudência Clássica
... 144
3.2
- Ulpiano
... 151
3.3
- O Direito Natural nos textos de Ulpiano
... 153
3.3.1 - Ulpiano e o direito brasileiro hodierno
... 165
3.4
- A divulgação do Pensamento Jusfilosófico de Ulpiano por
meio da consolidação justinianeia no “Corpus Juris
Civilis”.
... 167
CONCLUSÃO
... 173
REFERÊNCIAS
... 178
ANEXO:
Fragmentos das Regras de Ulpiano e seus equivalentes na
Legislação Civil Brasileira hodierna
INTRODUÇÃO
A influência da moral e da filosofia de uma época é indubitavelmente relevante para o aperfeiçoamento do Direito do mesmo período. Portanto, o que se procura investigar, na presente obra, é como a filosofia estóica adotada por grandes pensadores romanos na era clássica e em particular no Principado gerou modificações na sociedade romana e, em consequência disso, sobre o Direito Romano de então e a partir daí no Direito Ocidental.
Para conduzir o estudo, escolheu-se a obra do jurisconsulto Ulpiano, sobretudo pela relevância de seus textos ao conceituar o Direito e o Direito natural logo no título I do livro I um do Digesto do Imperador Justiniano (JUSTINIANO, 2002), e, também, pela praticidade de seu manuscrito “Regras” - Ulpiano Liber Singularis Regularum - (ULPIANO, 2002).
Hodiernamente, está em desuso relacionar a genialidade do Direito Romano de seu paralelo filosófico e da ética daquela sociedade. No entanto, não parece necessário que se faça tal dissociação e, por isso, serão aqui traçados seus paralelos.
No ensaio “A Segunda Queda de Roma”1, Michel Lind aponta que, atualmente, o renome da civilização romana não tem o prestígio e a estima aos quais faz jus por causa de uma tendência preconceituosa iniciada por intelectuais pós Renascença, que preferiram enveredar por outra corrente, repudiando a herança dos romanos.
A reputação da civilização romana no mundo ocidental nunca esteve pior do que hoje. O legado cultural e político da República e do Império romanos foram extirpados da memória coletiva dos EUA e de outros países ocidentais em grau notável, não apenas por multiculturalistas críticos do cânone ocidental, mas também por supostos tradicionalistas que afirmavam defendê-lo (LIND, 2000, p. 06).
Apesar do interesse eclético que manifestavam pela tradição grega, além da egípcia e judaica, os humanistas da Renascença se preocupavam principalmente em reviver a cultura da Antiguidade romana. [...] Os estudiosos literários criaram o chamado “latim ciceroniano”, um dialeto artificial que empregava apenas palavras empregadas por Cícero. Sêneca inspirou a tragédia renascentista, e seus colegas romanos Plauto (254-184 a.C.) e Têrencio (195-159?
1
a.C.) serviram de modelos à comédia renascentista (LIND, 2000, p. 06).
Por tudo isso, não se pode ignorar o valor do ideal de Direito Natural dos filósofos estóicos do classicismo e tampouco se pode deixar de fazer uma ligação com a ideia de Direito Natural dos textos dos juristas romanos que lhes foram contemporâneos.
Um dos legados culturais mais significativos dos romanos para o mundo moderno é a noção de pietas, não no sentido de piedade, como vem traduzido freqüentemente para o português, mas no sentido de
um sentimento de obrigação para com aqueles a quem o homem está
ligado por natureza - pais, filhos e parentes. Ou seja, uma noção que
liga entre si os membros da comunidade familiar, unidos sob a égide da pátria potestas e projectada no pretérito pelo culto dos
antepassados. (NERY, 2008, p. 151-152).
O estoicismo, corrente filosófica predominante na Antigüidade Clássica durante mais de cinco séculos (300a.C. – 200 d. C.), não alcançou as alturas da filosofia de Platão e de Aristóteles, mas foi a ideologia do Império, a base do Direito Romano e a grande preparação para o Cristianismo. Exerceu forte influência nos Padres da Igreja (Santo Ambrósio adaptou o De Officiis de Cícero ao uso dos clérigos). O humanismo e o naturalismo estóicos ressurgiram na Reforma e no Renascimento e estão presentes em Montaigne, Pascal, na moral cartesiana, no monismo de Spinoza e no vitalismo de Leibniz. (POLETTI, texto digital).
Para os estóicos, a divindade que prescreve para a natureza seu comportamento é a própria natureza. Lei é a expressão do próprio ser. O fim do homem é viver conforme a natureza, comum e própria dos homens, vale dizer conforme a razão. A irracionalidade é banida tanto na natureza como na conduta humana. Nem acaso nem desordem. O processo cósmico é dotado de racionalidade. (POLETTI, texto digital).
Para que se possa avaliar a influência do estoicismo no Direito Romano da época do Principado, é imprescindível que se entendam os aspectos históricos desse período denominado clássico. Ora, à primeira vista, poderia parecer tarefa muito simples, no entanto, para analisar esta era e abordar os pontos de interesse, é preciso, antes de tudo, delimitar exatamente as datas de início e término dessa fase histórica.
Em conformidade com a maioria dos autores, será convencionado que o período clássico coincide com o Principado2 - também denominado Alto Império - e começa com a renúncia de Otávio ao seu lugar no triunvirato (com Lépido e Marco Antônio) e a sua proclamação como Augusto em 27 a.C., e termina com o Dominato3, quando da adoção do título de Dominus por Diocleciano, em 284 d.C.
No entanto, não basta delimitar o Período Clássico no tempo, é preciso abordar diferenças e peculiaridades que o tornaram, tão particular, vale lembrar que, a partir de Otávio Augusto, o Império Romano tornou-se uma autocracia disfarçada de diarquia4, pois se mantinha, ao menos aparentemente, a ideia de que o poder era dividido com o senado.
Como já se sublinhou, faz-se coro com a maioria dos doutrinadores e se considera o Período Clássico como o período que vai das mudanças políticas introduzidas por Augusto até Diocleciano. Destaca-se aqui o fato de que, para alguns autores, o final da era republicana também é considerado Clássico. Como consequência disso, poderia ser arguido o motivo de não se estender para o século II a.C. o foco deste estudo.
No tocante a essa reflexão, cumpre esclarecer que, mesmo após a conquista completa da Grécia pelos romanos com o saque de Corinto em 146 a.C. e a vitória definitiva sobre Cartago na terceira guerra púnica no mesmo ano, as instituições e as fontes do Direito da Roma Republicana diferem em muito daquelas do Alto-Império. A evolução do Direito Romano levada a cabo pelos imperadores teve reais e profundas consequências no Direito e, ademais,
2 Principado (do latim
Principatus, de princeps, principal, primeiro), regime político de diarquia
(senado/príncipe) adotado por Augusto e seus sucessores (27 a.C. até 284 d.C.), depois dos anos de anarquia militar que se verificou após a morte de Júlio César (CRETELLA, 2003, p.38).
3
Dominato (do latim dominus, senhor da casa - domus), período de monarquia absoluta implantada pelo imperador Diocleciano, depois dos anos de anarquia militar que se verificou após a morte de Alexandre Severo. Com o Dominato, é abandonada a diarquia (senado/príncipe) do Principado (Augusto e seus sucessores) (CRETELLA, 2003, p.46).
4
Diarquia (do gr. dúo 'dois' e archía 'governo'), forma de governo em que o poder é exercido simultaneamente por dois chefes de Estado. Termo cunhado pelo historiador alemão Theodor Mommsen (LELLO, 1954, p. 748).
o que se busca é a relação desses imperadores com o estoicismo da última fase antiga.
A influência estóica começa a se tornar significativa quando os príncipes, instruídos filosoficamente pelos estóicos, puderam exercer livremente o poder, já que vastas atribuições lhes haviam sido transferidas, afinal eram homens que receberam o título de “Augusto”5, cognome esse outrora reservado às coisas sacras(MEIRA, 1996, p.106). Com poder absoluto, esses príncipes transformaram as instituições políticas e legais dos romanos.
Nesse período, graças ao gênio criativo de juristas como Ulpiano, Gaio e Paulo (GIORDANI, 2000, p.91), criou-se o conceito de Direito Natural com base nos ensinamentos dos filósofos romanos que adotaram e adpataram o pensamento dos estóicos gregos.
Alguns doutrinadores pátrios como Moreira Alves, Silvio Meira e Curtis Giordani, não influenciados pela corrente anti-romana em voga, afirmam que a moral e o pensamento estóico durante o Principado (27.a.C/284 d.C. - final da República até o Dominato), influenciaram, de modo significativo, o Direito Romano da era clássica, principalmente no tocante à ideia do Jus Naturale (Direito Natural).
Essa influência parece algo que todos conhecem, mas que ninguém mais lembra onde está, e fala-se dela como algo fabuloso e mítico, que todos admiram, mas que ninguém vê.
Já é tempo de, mais uma vez, desvelar a visão de mundo dos estóicos romanos da era clássica6 e deixar claro até que ponto os filósofos gregos influenciaram seus pares romanos e até que ponto estes influenciaram os príncipes e os jurisconsultos e, por consequência, contribuíram para que o contexto legal sofresse alterações.
Vale lembrar, no entanto, que aquilo a que chamamos de moral estóica surgiu muito antes do Principado Romano, na Grécia, no século IV a. C., com Zenão de Cício, Cleantes e Crísipo, influenciando fortemente o mundo romano da era clássica.
5
Augusto (do latim augustus),que inspira veneração.
6
Podemos citar Cícero (n. 106 a.C., m. 43 a.C.), Séneca (n. 2 d.C., m.66 d.C.), Epiteto ( n. 50 d.C., m. 130 d.C. ) e o Imperador Marco Aurélio (n. 121 d.C., m. 181 d.C. – reinou de 161 a 180 d. C.), entre os célebres romanos fortemente influenciados pelos estóicos. Marco Aurélio enrijeceu a nova moral pagã, acrescentando a ela seu próprio ódio ao prazer (ARIÈS, 2000, p. 215-274).
Pode-se dizer que o estoicismo influenciou o Direito Clássico na mesma medida em que a patrística influiu no Direito Pós-clássico.
Estudar a influência do estoicismo no conceito do Direito Natural no período clássico, para melhor entendê-lo na atualidade, é o principal motivo da escolha do tema em questão. Afinal, nos primeiros séculos da nossa era, o estoicismo mudou o poder imperial, criando uma inevitável integração, ao mesmo tempo em que gerava concorrência, entre o pensamento filosófico e os princípios do direito.
O que se pretende com este estudo, é demonstrar como - no Período Clássico - o pensamento estóico afetou o poder imperial e como essa influência transformou o Direito e possibilitou a formulação do Direito Natural.
O objetivo desta pesquisa é analisar filosoficamente a origem da concepção de Jus Naturale por meio de textos filosóficos de Cícero, Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio e textos jurídicos de Ulpiano. Outra meta aqui buscada é a identificação do estoicismo com a naturalis ratio dos antigos, os direitos que compunham o Direito Natural e a sua relação com a moral e com a religião.
O estoicismo demonstra como os conceitos de liberdade e justiça são universais e devem estar em harmonia com a natureza. De acordo com as leis naturais, tais conceitos chegam a ser confundidos com justiça divina, pois são atemporais e existem desde sempre, dando a impressão de que foram criados antes da criação do mundo. Este trabalho contribui originalmente com a ciência jurídica brasileira, pois, ao buscar as raízes estóicas do Direito Natural entre os romanos, critica a sociedade moderna positivista, que se distanciou do objetivo primeiro do Direito, que é a busca pela justiça.
“Alguns jurisconsultos modernos creem que essa herança é muito pesada e gostariam de se livrar de seu jugo. Até hoje é – e ainda por muito
tempo será – impossível de se libertar” (IMBERT, 1976, p. 6 - grifos nossos).
1. HISTÓRIA DE ROMA: DA TRADIÇÃO NACIONAL
REPUBLICANA AO UNIVERSALISMO ESTÓICO DA
MONARQUIA
1.1. A República Romana
e sua tradicionalista visão de mundoA história da República Romana é longa, pois tal instituição teve quase cinco séculos de existência (509 a.C até 27 a.C) e, mesmo depois de 27 a.C, momento em que o governo romano, de fato, passou a ser monárquico, de direito, a República ainda seguiu existindo.
Entretanto, de uma maneira sintética, como nota introdutória, podemos brevemente resumir esses séculos como: um interregno entre dois tipos de monarquia - a Realeza e o Principado - nos quais a plebe e os patrícios viveram em ininterrupta tensão.
Plebe era uma turba não organizada que formava, em Roma, um mundo a parte. Eles habitavam o solo romano, sem integrarem a cidade. Tinham domicílio, mas não tinham pátria. A princípio, os plebeus não possuíam direitos políticos nem civis (ALVES,2007, p. 10).
O patriciado era formado por membros das gentes romanas que eram um agrupamento de famílias situado num território tendo um chefe
(pater, de pai em latim, daí patrícios). Os membros das gentes eram
chamados gentiles, tinham instituições e costumes próprios e julgavam descender de um antepassado, lendário e imemorial, do qual recebiam o nome gentilício, que, portanto era comum a todos os gentiles. Na realeza, somente os patrícios gozavam de todos os direitos civis e políticos (ALVES, 2007, p. 09).
Como o foco desta obra é o período da Monarquia Clássica, o Principado, inicia-se explicando o que foi a República, como surgiu e de que modo ensejou uma nova monarquia.
1.1.1. O fim da realeza até a crise republicana do século II a.C.
“Em 509 a.C., um grupo de aristocratas expulsou Tarquínio e pôs fim à monarquia. Em seu lugar, instituiu uma magistratura7 colegiada, na qual dois homens8 compartilhavam o poder supremo” (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p.22).
Roma teve os etruscos expulsos graças a uma aliança entre gregos, das colônias da Magna Grécia (Hespéria era o nome grego para as terras do oeste em particular a península itálica), e latinos. Tal movimento viabilizou a queda do último rei e a retirada do poderio estrangeiro.
Desta aliança resultou a derrota dos etruscos em Arícia, fato explorado pela aristocracia romana, que teria liderado, então, um movimento de libertação (GIORDANI, 2002, p 32). A partir disso, o poder romano expandiu-se além da cidade, com a conquista do Lácio e se estendeu pela península itálica.
Durante o período da primeira expansão no centro da Itália, formou-se, na sociedade romana, uma classe de pequenos proprietários que, ao longo de várias décadas, proporcionou uma base muito homogênea ao exército e ao Estado (BOVO, 2006a, p. 36).
A história de Roma durante os dois primeiros séculos da República é dominada pelo conflito entre patrícios e plebeus (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p.25). “Essa distinção de classes vinha da religião” (COULANGES, 2003, p. 222). “A plebe era formada por todos os que, ou por serem estrangeiros, ou por serem de famílias sem culto doméstico, ficavam à margem de um ordenamento jurídico baseado na religião dos lares ou antepassados” (DE CICCO, 2012, p.55). “Como não possuía as crenças sobre as quais estava embasado, esse direito lhe parecia não ter fundamento. Achava-o injusto e, desde então, tornou-se impossível que permanecesse em
7
Magistratura - Dignidade, função do magistrado (do latim magistratus, derivado de magister
"mestre"), que era investido de autoridade por exercer cargo público de poder (LELLO, 1954, p. 134). Os magistrados foram chamados pretores (prætores) em tempo de guerra (præ-itor,
aquele que vai à frente e guia o exército) e juízes (iudices) em tempo de paz (CANFORA, 2002, p.484). As características fundamentais das magistraturas republicanas são: a temporariedade, a colegialidade, gratuidade e a irresponsabilidade (ALVES, 2007, p. 09).
pé” (COULANGES, 2003, p. 282). “Proclamada a República, o elemento plebeu foi conquistando vantagens e prerrogativas” (LOBO, 2006, p. 32).
Nas Institutas do jurisconsulto Gaio, temos a seguinte definição: “Plebe, entretanto, difere do povo, porque a denominação povo abrange todos os cidadãos, incluídos também os patrícios, ao passo que a denominação plebe significa os demais cidadãos, com exclusão dos patrícios. (Gai. 1.2,3)” (GAIUS, 2004, p. 37).
O fato é que, desde a vitória e expulsão dos etruscos e a deposição do rei Tarquínio, o Soberbo, Roma nunca mais fora uma monarquia e, mesmo com as tensões entre a plebe e a aristocracia, a República estabeleceu-se e prosperou.
Foi durante a Roma republicana que toda península itálica foi conquistada e a hegemonia romana no mediterrâneo se firmou com a destruição de Cartago e conquista da Grécia.
Em pouco tempo, a República tinha deixado de ser um pequeno Estado para se transformar em uma potência mediterrânea e não conseguiu solucionar a crescente desigualdade social produzida por essas conquistas (LIBERATI, 2005, p.30).
Foi assim que surgiram os primeiros conflitos civis que ganharam corpo, desestabilizando a ordem social e paulatinamente estabelecendo as bases para uma inevitável e profunda transformação institucional.
Em 493 a.C., a plebe amotinada abandonou Roma, indo estabelecer-se no Monte Sagrado, tencionando vencer os nobres pela omissão. O cônsul9 Menêncio Agripa convenceu a plebe a regressar; e o Senado10
9
Cônsul - em Roma era o magistrado supremo. Tal magistratura foi estabelecida em 509 a.C por proposta de Lúcio Júnio Bruto (que foi o primeiro cônsul juntamente com Lúcio Tarquínio Colatino). O consulado era uma diarquia sempre exercido por dois cônsules, justamente por ter sido uma reação à monarquia (CANFORA, 2002, p. 484).
10
concedeu-lhe um tribuno ou juiz especial: o tribuno da plebe11. [...] Havia então como que duas cidades: a dos patrícios, com os cônsules e o Senado; e a dos plebeus, com o tribuno da plebe e os plebiscitos (DE CICCO, 2012, p.56).
Seguiu-se a luta da plebe para a obtenção de leis escritas, o que acabaria com a incerteza do Direito e daria mais segurança aos plebeus. O resultado desse movimento foi a Lei das XII Tábuas, elaborada em 450-449 a.C (ALVES, 2007, p. 16). A Lei das XII Tábuas, primeiro monumento positivado do Direito Romano, foi oriunda de uma revolução plebeia e, portanto, consequência de uma reação contra a ordem das coisas até então dominante. Essa codificação do direito representou uma ruptura com o passado desligando o direito da religião.
A natureza da lei e seu fundamento não são os mesmos que do período anterior. Antes, a lei era um decreto da religião; passava por uma revelação feita pelos deuses aos ancestrais, aos magistrados-sacerdotes. (COULANGES, 2003, p. 283).
Temos textualmente, na primeira estrofe da Tábua Décima Primeira, o seguinte fragmento: “Que a última vontade do povo tenha força de lei” (VIEIRA, 1994, p. 146).
Em 451 a.C., os patrícios entregaram a dez homens (decênviros) o encargo de fazer leis de equiparação entre patrícios e plebeus (DE CICCO, 2010, p.56). Os decênviros de Roma receberam o poder do povo (COULLANGES, 2003, p. 283). A igualdade civil foi alcançada pela Lei das XII tábuas (DE CICCO, 2012, p.56).
A igualdade civil abriu campo para outras reformas estruturais: em 367 a.C., Licínio Stolon propôs que um cônsul fosse plebeu, e, em 337 a.C, abriu-se para a plebe a porta de bronze do Senado (DE CICCO, 2012, p.57).
11
Por volta do século II a.C., o Direito de voto estava tão solidamente implantado entre os plebeus que Roma tinha um vigoroso sistema político (REID, 2004, p.24).
Ocorre, no entanto, que a organização política e militar do Estado Romano foi vítima do próprio sucesso, pois a nova prosperidade e poder geraram cisões e lutas internas introduzindo o caos, que culminou com o advento do Principado.
A aristocracia concentrava a riqueza, que era compartilhada por uma minoria. A maior parte das terras produtivas da península itálica era propriedade de algumas poucas famílias de nobres.
Tibério Graco, eleito tribuno da plebe, procurou ajudar os homens livres. Ressuscitou duas antigas leis que limitavam a quantidade de terra que poderia estar sob a posse de um único dono (VAN LOON, 2004, p.111). Valendo-se da imunidade de tribuno da plebe, Tibério Graco propôs a divisão de terras dos ricos a partir de quinhentas jeiras12, e o controle dos lotes pelo Estado (DE CICCO, 2012, p.55).
“A situação ameaçava acabar em completa anarquia, na dissolução interna e externa do Estado. O movimento político inclinava para o despotismo: o único ponto ainda duvidoso era saber quem seria o déspota” (MOMMSEN, 1962, p. 204).
No ano de 133 a.C., o tribuno da plebe Tibério Graco foi assassinado, junto a muitos de seus seguidores, após uma violenta reação do Senado (LIBERATI, 2005, p.30). Essa imolação, que se deu em pleno Fórum, foi o estopim definitivo para uma crise social sem precedentes.
Contornar tal crise tornou-se uma tarefa ingente, pois, devido à grandeza que o Estado Romano alcançara com as conquistas de outros povos, havia sempre preocupações vindas de suas colônias e nações subjugadas distraindo a atenção do Senado e impedindo uma solução rápida àquele estado de insatisfação que só aumentava e se arrastou desde então por décadas.
12
1.1.2
-
A ditadura de Sila
As tensões entre a plebe e a aristocracia cresceram, acentuando a sensação geral de ressentimento mútuo.
A morte de Tibério Graco, ao invés sepultar a liderança deste, teve o efeito contrário, pois, em menos de uma década, o seu irmão mais jovem, Caio Graco, continuou, com novo ânimo, a luta pelos desafortunados.
Eleito tribuno para o ano de 123 a.C., Caio fez passar uma lei que determinava a distribuição mensal de trigo ao povo da cidade, pela metade do preço do mercado (BURNS, 1959, p. 223).
No segundo ano do seu mandato, Caio Graco (que fora eleito tribuno em 123 a.C e reeleito sem oposição) tentou, entre outras iniciativas, estender a cidadania romana, a princípio, aos latinos e, mais tarde, a todos os habitantes da península itálica (JAGUARIBE, 2001, p. 375).
Tal ideia, mesmo não tendo sido aprovada pelo Senado, evidentemente agradou a plebe, mas gerou uma reação de seus opositores da aristocracia, que organizaram um massacre contra três mil seguidores do Graco menor.
O morticínio legalmente sancionado foi praticado pelo cônsul Opímio, com base num Senatus Consultum13 Ultimum14 do Senado (JAGUARIBE, 2001, p. 375).
Os conflitos estenderam-se e as tentativas de apaziguamento tornaram-se infrutíferas. O caos fora instalado e não se vislumbrava uma solução apropriada. Seguiram-se anos agitados por distúrbios sociopolíticos, não obstante a crescente riqueza e o desenvolvimento cultural e artístico. Na aurora do primeiro século a.C, a situação político social seguia precária.
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Senatos-consultos: senatus consultum est quod senatus jubet atque constituit (senato-consulto é aquilo que o senado manda e constitui...) (Gai. 1.2,4) (GAIUS, 2004, p. 38). Eram as decisões, resoluções e acordos do Senado romano que regulavam assuntos de direito público (ROLIM, 2000, p. 62). Na república, os senatos-consultos eram deliberações do Senado, dirigidas somente aos magistrados (MARKY, 1995, p. 18).
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SENATVSCONSVLTVM VLTIMVM: Trata-se de uma medida com a qual o Senado
Roma ia atravessar uma das mais terríveis crises da sua História: a revolta dos povos da península itálica, decepcionados com o assassinato do tribuno Drusso (91 a.C.), que lhes havia prometido o direito de cidadania (GIORDANI, 2002, p. 53).
O ressentimento contínuo dos habitantes da Itália, devido à sua situação de cidadãos de segunda classe, finalmente assumiu grande magnitude e caráter explosivo com a chamada Guerra Social (91-88 a.C.) (JAGUARIBE, 2001, p. 376).
Observa-se que essa revolta é muito mais uma guerra de secessão, isto é, uma luta pela separação e independência do domínio de Roma, do que propriamente uma coligação para vencer e eliminar a capital do Lácio. (GIORDANI, 2002, p 54).
Essa crise na península itálica ainda não fora resolvida quando uma assustadora ameaça externa apontou no horizonte. O poderoso rei do Ponto, Mitrídates VI, durante muito tempo já vinha espantando os romanos com a fabulosa ascensão de seu reino, e os ventos que sopraram do oeste traziam a certeza de dias nefastos.
Mitrídates, rei de um país localizado à beira do mar Negro e grego por parte de mãe, tinha a possibilidade de fundar um segundo império alexandrino (VAN LOON, 2004, p.111).
“Em contrapartida, Roma, atormentada por suas dissensões civis e atarefada com males mais prementes, negligenciou as questões da Ásia e deixou Mitrídates dar continuidade a suas vitórias ou respirar depois das suas derrotas” (MONTESQUIEU, 2002, p.59).
Mitrídates começou uma campanha pela dominação do mundo com o assassínio de todos os cidadãos romanos - homens, mulheres e crianças - que se encontravam na Ásia Menor (VAN LOON, 2004, p.112). Isso se deu em 88 a.C, com Roma ainda enfraquecida pela guerra social que se seguira à morte de Drusso.
Quem seria o comandante-chefe? “Sila”, disse o Senado, “pois é cônsul”. “Mário”, disse o povo, “pois foi cônsul cinco vezes e é defensor dos nossos direitos” (VAN LOON, 2004, p.112).
“A tarefa de conduzir o exército romano contra Mitrídates foi encomendada a um dos cônsules de 88 a.C., Sila. Era um homem pouco escrupuloso e dissoluto de uma antiga família patrícia” (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 63).
Sila encaminhou-se para o Oriente a fim de derrotar Mitrídates, e Mário fugiu para a África. Lá esperou até saber que Sila passara da Europa para a Ásia. Voltou então para a Itália, juntou em torno de si um bando heterogêneo de descontentes, marchou sobre Roma, entrou na cidade com seus bandoleiros profissionais, passou cinco dias e cinco noites chacinando seus inimigos do partido senatorial, fez-se eleger cônsul e logo em seguida morreu, cansado pelos excessos de sua última quinzena de vida (VAN LOON, 2004, p.112).
Mesmo com um exército fabuloso, Sila teve a sabedoria de não se desgastar num embate com Mitrídates, enquanto Mario avançava e tomava o poder em Roma, portanto, em 85 a.C, celebrou um generoso tratado de paz com o rei asiático.
Em 83 a.C., ele regressou à Itália onde se uniu a jovens oportunistas, como Crasso e Metelo Pio e, em particular, ao jovem Pompeu, que recrutou três legiões por iniciativa própria (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 63).
“Quase sem desejá-lo, Sila tornara-se o general mais famoso de seu tempo e o escudo da oligarquia. Novas e mais formidáveis crises seguiram a guerra de Mitrídates e a revolução de Cina: a estrela de Sina continuava a subir” (MOMMSEN, 1962, p. 204).
Inimigo de Sila, Lúcio Cornélio Cina, http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9culo_I_a.C.foi cônsul por quatro vezes de 87 a 84 a.C15.
Cina era partidário e aliado de Mario e tornou-se seu sucessor entre os populares depois da morte deste. Cornélia Cinila, filha de Cina, foi a segunda esposa de Júlio César, sobrinho da esposa de Mário (LELLO, 1954, p. 556)
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A oposição era desorganizada e mal dirigida (Cina foi assassinado num motim no ano de 84 a.C), e o apoio a Sila cresceu quando começou a ficar cada vez mais claro que ele iria ganhar (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 63).
Indicado em 82 a.C. para ditador16, por um prazo ilimitado, Sila tratou de exterminar seus opositores e de restaurar os poderes primitivos do Senado (BURNS, 1959, p. 224).
Sila criou leis muito apropriadas para eliminar a causa dos distúrbios que se tinham visto: elas aumentaram a autoridade do Senado, moderavam o poder do povo e regulamentavam o dos tribunos (MONTESQUIEU, 2002, p.81). Até o veto senatorial sobre os atos da assembleia foi restabelecido, ao mesmo tempo em que se restringia fortemente a autoridade dos tribunos (BURNS, 1959, p. 224).
“Depois de três anos de ditadura, Sila resolveu mudar a pompa do poder pelos prazeres dos sentidos e se retirou para uma vida de luxo e despreocupações em sua propriedade da Campânia” (BURNS, 1959, p. 224).
“O capricho que o fez abandonar a ditadura pareceu devolver vida à República; todavia, na exaltação de seus sucessos, ele fez coisas que puseram Roma na impossibilidade de conservar sua liberdade” (MONTESQUIEU, 2002, p.81).
“Governou Roma por quatro anos e depois morreu tranquilo em sua cama, tendo passado os últimos anos de sua vida plantando pacificamente os seus repolhos” (VAN LOON, 2004, p.112).
A ditadura de Sila fez Roma experimentar o governo despótico, e sua morte incentivou jovens ambiciosos aventureiros a almejar seu posto e acalentar a esperança de se tornarem monarcas. Os dias da República
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Ditador: do latim dictador - o que dita a lei, era na república romana um magistrado extraordinário, detentor de plenos poderes, exercendo autoridade absoluta (imperium)
durante no máximo seis meses. Tal cargo era preenchido somente em condições excepcionais durante graves crises políticas, militares ou econômicas. Era escolhido por um dos cônsules em exercício durante a noite e, em seguida, aprovado pelo senado, que emitia
um senatus consultum para autorizar a nomeação. Tal título, instituído em 501 a.C., era
Romana estavam contados e o caminho para o que viria a ser o Principado já estava aberto e pavimentado.
1.1.3 - O Primeiro Triunvirato: Pompeu, Crasso e César
O vácuo de poder gerado com a morte de Sila e o fim de sua ditadura permitiram que seus partidários mais jovens tomassem posições vantajosas no jogo político da República decadente. Esses novos líderes abraçaram a causa do povo, aproveitando, oportunamente, o abandono das reformas implantadas pelo falecido ditador.
“Roma tornara-se um lugar perigoso - à intriga política e corrupção somaram-se assassinatos e a fúria do povo. Começou-se a temer o surgimento de um ditador, embora não se soubesse de onde ele viria” (ROBERTS, 2001, p. 222).
Muitos eram aqueles que se projetaram no novo cenário do jogo pelo poder. Entre eles estavam Marco Lépido, Quinto Sertório, Metelo Pio, Catilina e os que mais se destacaram Crasso, que era o homem mais rico de Roma, Pompeu e Júlio César, o mais jovem dentre eles e o que superou a todos
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“Devendo a República necessariamente perecer, a questão já não era senão saber como e por quem ela seria abatida” (MONTESQUIEU, 2002, p.81). Crasso, Pompeu e Júlio César foram aqueles que, por virtudes diversas, tiveram maior sucesso nessa empreitada. Por um tempo, uniram forças, somando seus recursos e habilidades, estabelecendo alianças, mas essas alianças foram desgastadas pela ambição individual de cada um deles, fazendo com que se tornassem rivais
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escrupuloso na maneira de obter lucros. Fora o homem mais rico dos romanos e, por isso, tornara-se uma potência política (MOMMSEN, 1962, p. 212).
Uma coisa é certa que tinham em comum: os três eram igual e absolutamente ambiciosos. Trabalharam sinergeticamente por certo tempo para conseguir controlar o governo, mas concorriam na busca do apoio da plebe, fazendo promessas extravagantes na tentativa de aniquilarem-se reciprocamente.
Os vinte anos seguintes (79-59 a.C.) representaram, na história da República Romana, a última fase de crise antes do surgimento de César (JAGUARIBE, 2001, p. 380).
1.1.3.1 Pompeu e Crasso chegam ao consulado
Pompeu e Crasso, que eram mais velhos, mais ricos e influentes que César, oportunamente aproveitavam graves distúrbios para se projetarem. Naqueles anos, duas graves tentativas de rebelião permitiram que ambos tivessem sucessos militares e, juntos, fossem eleitos cônsules.
A primeira aconteceu na Espanha, onde os lusitanos se revoltaram encabeçados por Quinto Sertório (BOVO, 2006b, p. 13). Pompeu, rico, ambicioso, talentoso, corajoso, mas também inescrupuloso, obtém um comando na Espanha onde Sertório, antigo partidário de Mário, sustenta uma revolta contra Roma (GIORDANI, 2002, p. 54). Pompeu aproveitou as desavenças surgidas entre os rebeldes e se viu favorecido pelo assassinato de Sertório às mãos de Perpena, outro chefe dos rebeldes (BOVO, 2006b, p. 13). Então, Pompeu concluiu a guerra com rapidez e regressou com suas tropas para a Itália (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 66).
A segunda rebelião (guerra servil) foi encabeçada por um grupo de escravos que treinavam na escola de gladiadores de Cápua, aos quais em pouco tempo se uniram milhares de escravos fugitivos (BOVO, 2006b, p. 13).
que chegou a ter noventa mil homens, com o qual assolou a Itália meridional, derrotando várias legiões e abrindo caminho para a Gália Cisalpina, onde esperava dispersar seus seguidores, que, no entanto, preferiram continuar saqueando a Itália. Espártaco forçou seu caminho de volta para o Sul, planejando invadir a Sicília. (JAGUARIBE, 2001, p. 380).
Os revoltosos, guiados por Espártaco, durante mais de dois anos, venceram os exércitos romanos e saquearam a Itália, até que o comando das operações recaiu em Crasso (BOVO, 2006b, p. 14).
Crasso foi limitando o campo de ação dos rebeldes e conseguiu derrotá-los em Apúlia (BOVO, 2006b, p. 14). No ano de 71 a.C., Crasso, comandando um grande exército de dez legiões, derrotou Espártaco duas vezes, deixando que Pompeu, que retornava da Espanha, aniquilasse os remanescentes da sua força (JAGUARIBE, 2001, p. 380). Os remanescentes dos revoltosos tentaram alcançar os Alpes a fim de fugir das legiões, mas tiveram a pouca sorte de encontrar o exército de Pompeu que regressava da Espanha (GIORDANI, 2002, p. 55).
Espártaco foi morto na batalha e aproximadamente 6.000 dos seus companheiros foram crucificados ao longo da via Apia (BOVO, 2006b, p. 14), por uma extensão de cerca de 150 quilômetros (REID, 2004, p. 25).
O bando de rebeldes foi exterminado e o vaidoso Pompeu aproveitou a oportunidade para diminuir o mérito da vitória de Crasso, seu rival, atribuindo a si a aniquilação definitiva da perigosa revolta (GIORDANI, 2002, p. 55).
“A República foi capaz, internamente, de superar a mais séria das suas rebeliões de escravos, conhecida como terceira Guerra dos Escravos” (JAGUARIBE, 2001, p. 380). Crasso celebrou a vitória, instalando 10 mil mesas de banquete no Foro, nas quais os cidadãos de Roma puderam comer de graça durante dias (REID, 2004, p. 25).
1.1.3.2 O Apogeu de Pompeu
Pompeu tornou-se a figura mais destacada da República. Sua aliança com Crasso para compartilhar o consulado fez de sua eleição um mero trâmite (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 66).
Após a derrota de Espártaco, o problema da pirataria tornou-se mais agudo; os piratas levaram a cabo uma série de ataques na costa Italiana, saqueando vilas e sequestrando viajantes na Via Apia (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).
Findo o consulado, Pompeu recebeu a missão de combater os piratas que constituíam uma verdadeira potência com suas muitas centenas de navios de guerra, inúmeras bases de operações e arsenais (GIORDANI, 2002, p. 55). Quando o fornecimento de trigo à cidade começou a escassear, a opinião pública solicitou que se tomassem medidas17; em consequência, em 67 a.C., deu-se a Pompeu um comando especial sobre os piratas (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).
Em poucos meses, Pompeu extirpou a pirataria do Mediterrâneo e aniquilou esses bandidos que impediam o livre comércio e ameaçavam a prosperidade de Roma. O sucesso de Pompeu contra esses ladrões do mar, somado com a bem-sucedida campanha na Espanha contra Sertório e sua vitória nos Alpes contra os seguidores de Espártaco fez sua popularidade subir. O povo comparava-o a Alexander Magno e passou a vê-lo como o paladino infalível que defenderia a pátria de qualquer perigo. Portanto, quando o inoportuno Mitrídates voltou a incomodar assolando a paz na República, naturalmente Pompeu fora o escolhido para lutar.
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É dessa ocasião a imortal frase atribuída a Pompeu: “Navegar é preciso, viver não é preciso”
(NAVIGARE NECESSE EST, VIVERE NON EST NECESSE). Sua origem está em A Vida de
Pompeu (50,2), de Plutarco. Pompeu, que precisava levar a Roma o trigo colhido nas
Com isso, Pompeu põe-se em marcha para o Oriente, como outrora fizera Sila, na esperança de novas vitórias e, provavelmente, vislumbrando a ditadura.
Mitrídates, que fora, por muito tempo, para Roma, a principal ameaça estrangeira, é sumariamente derrotado por Pompeu, que o expulsou do Ponto, ocasião em que o célebre monarca, que fugira para a Crimeia, suicidou-se por envenenamento.
As campanhas orientais do general romano foram um total êxito, entretanto o mantiveram afastado de Roma por longos anos, pois, tendo vencido no Ponto, Pompeu seguiu em novos embates por todo oriente próximo.
Pompeu restabeleceu a autoridade de Roma sobre a Síria, destruiu Jerusalém, vagou pela Ásia ocidental procurando revidar o mito de Alexandre Magno e, por fim (no ano 62 a.C), voltou a Roma (VAN LOON, 2004, p.112).
Pompeu permaneceu no Oriente por mais de quatro anos. Nesse tempo, levou a cabo um curto empreendimento bélico contra Mitrídates; conquistou toda a Anatólia e avançou pelo sul até Jerusalém, conquistando-a no ano de 63 a.C. Anexou a Síria, ampliou a fronteira da Cilícia, uniu o Ponto e a Bitínia e rodeou as novas províncias de um escudo protetor constituído por reinos vassalos tributários de Roma (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).
“Em 61 a.C, Pompeu celebra, em Roma, um triunfo18 sobre o mundo inteiro (de orbe terrarum), pois, no dizer de Cícero, ele estendeu o império de Roma até os limites do mundo (orbis terrarum terminis)” (GIORDANI, 2002, p. 55). No final da campanha, Pompeu tinha conseguido aumentar as rendas públicas em 70%. Apoderou-se de um valioso butim (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68). Ele trouxera doze navios cheios de reis, príncipes e generais derrotados, todos obrigados a marchar na procissão triunfal desse popularíssimo romano que presenteou sua cidade com uma vultosa soma em espólios de guerra (VAN LOON, 2004, p.112). As campanhas
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rendem 56 milhões de denários ao fisco e 110 milhões a seu bolso, aos soldados e a seus amigos (BERNET, 2003, p. 59).
No entanto, enquanto Pompeu estivera fora da cidade, Crasso teve mais liberdade para articular politicamente com o apoio do jovem Júlio César, que aproveitou essa oportunidade para preparar estratégias para a sua futura ascensão ao poder.
1.1.3.3 A ascensão de Júlio César e o Triunvirato
Na obra de Montesquieu Considerações sobre as causas da grandeza dos Romanos e de sua decadência, quando o autor compara Pompeu e César, afirma que ambos são igualmente ambiciosos e acrescenta que: “[...] exceto pelo fato de que um não sabia chegar a seus objetivos tão diretamente quanto o outro, ofuscaram, por seu mérito, suas façanhas e suas virtudes, todos os outros cidadãos” (MONTESQUIEU, 2002, p.81). Definitivamente, é impossível discordar do autor, pois Júlio César, jovem e sem recursos financeiros, em pouco tempo irá dividir o poder com Pompeu e Crasso, pois soube aproveitar a ausência do primeiro para influenciar o segundo.
O apogeu da carreira de Pompeu coincide com o aparecimento de César no primeiro plano do cenário político (GIORDANI, 2002, p. 56). Ele viria a se tornar um dos mais ilustres homens de guerra da antiguidade, sempre confiante na sua própria fortuna, pois pretendia ser descendente da deusa Vênus19, por Enéas o herói troiano, e, do deus Marte20, por Rômulo co-fundador e primeiro rei de Roma, (LELLO, p. 525).
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Júlio César pretendia ser descendente do herói troiano Enéias filho da deusa Vênus. Enéias, sobrevivente da guerra de Tróia, teria aportado na Itália e seus descendentes fundariam Roma. Tanto Virgílio na Eneida (Æneis), quanto Tito Lívio na História de Roma (Ab Urbe
Condita Libri) atestam a origem divina de Enéias. Em Virgílio: “Entretanto o piedoso Enéias
[...] avança brandindo na mão duas lanças de largo ferro. Vênus, sua mãe, a ele se apresentou saindo do bosque, [...] (VIRGÍLIO MARÃO, 1994, P. 25); e em Lívio: [...] seu chefe era Enéias, filho de Anquises e de Vênus, que fugiram de sua pátria incendiada e procuravam um local para se estabelecerem e fundar uma cidade [...] (LÍVIO, 1989, v. 1, p. 22).
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A atmosfera política de Roma durante esses anos foi dominada pela lembrança do ausente Pompeu, pelo temor do que pudesse fazer em seu regresso e pela memória de Sila (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).
Naqueles anos, a carência financeira aumentara e, com ela, o descontentamento, gerando uma teia de intrigas na qual os concorrentes do afastado Pompeu ganhavam espaço. Entre os rivais de Pompeu, o mais importante era evidentemente Crasso, que, secundado por Júlio César, propunha leis que favoreciam a plebe.
César, que já se caracterizava por seu senso político, autodomínio, audácia, ambição e inteligência, fizera, até então, uma carreira política de segundo plano (GIORDANI, 2002, p. 56). Em contrapartida, gozava de grande prestígio junto às classes militares, por suas notáveis campanhas na Espanha, onde vencera Viriato, célebre líder dos habitantes de Portucale (DE CICCO, 2012, p. 59), quando fora questor21 na comitiva do pretor22 Caio Antístio Véter, em 69 a.C. (CANFORA, 2002, p. 456).
Crasso, apoiado e induzido pelo jovem Júlio César, propôs a criação de um tribunato que adquirisse terras na Itália e nas províncias para o assentamento de pobres e de veteranos das campanhas de Pompeu (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68). Mesmo tal lei não tendo sido aprovada, cada vez mais César se torna popular e influente, inquietando o Senado.
As atividades de Crasso e César despertavam profundas suspeitas nos círculos conservadores; por isso, eram frequentes os rumores de quanto Tito Lívio na História de Roma (Ab Urbe Condita Libri) atestam a filiação de Rômulo; Em Virgílio: “Lá, durante três vezes cem anos, reinará a raça de Heitor, até que Ília, rainha e sacerdotisa, fecundada por Marte, der à luz os gêmeos. Depois Rômulo, orgulhoso com a fulva pele da loba, sua ama, receberá a nação e construirá os muros de Marte, e dará seu nome aos romanos (VIRGÍLIO MARÃO, 1994, P. 25); e em Lívio: “Vítima de violação a vestal deu à luz dois gêmeos e, fosse por boa-fé, fosse para enobrecer sua falta atribuindo-a a um deus, responsabilizou Marte como autor daquela paternidade suspeita” (LÍVIO, 1989, v. 1, p. 25).
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QUÆSTOR - durante o período real, os quæstores eram encarregados de algumas causas
criminais. Em 509 a.C, os quæstores tornaram-se magistrados públicos e foram ainda encarregdos da administração do tesouro (CANFORA, 2002, p. 491).
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PRÆSTOR - nos primeiros tempos da república, o pretor era o cônsul em armas. A partir de
367, ele passou a ser um magistrado encarregado de exercer em Roma exclusivamente a jurisdição civil (prætor urbanus); a esse pretor veio juntar-se, em 241 a.C., o prætor
peregrinus, encarregado dos litígios junto aos estrangeiros ou entre estrangeiros e cidadãos
conspirações e ameaças à ordem pública (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).
César tinha o apoio financeiro de Crasso, que o custeava saldando suas dívidas na esperança de encontrar nele um aliado forte que seria agradecido o suficiente para devolver tais favores quando Pompeu regressasse.
César também não perdia tempo. A essa altura, ainda com dinheiro de Crasso, já se fizera eleger edil curul23, uma espécie de “decorador-mor” da Prefeitura. Essa função incluía também a organização de jogos públicos: corridas de cavalos, brigas de gladiadores, lutas com feras. A plebe romana comparecia em peso, entusiasmava-se com os espetáculos. E César dava-lhes circo à vontade, sempre tomando o cuidado de esclarecer que era ele o financiador. Tamanha foi sua generosidade, que em pouco tempo era devedor de uma cifra astronômica. Mas os jogos não absorviam todo o tempo de César. Enquanto Pompeu esteve fora, o “favorito da plebe” e seu financiador Crasso tramaram vários golpes de Estado em diversas alianças com setores radicais (MONDADORI, 1970, p.98).
Em 63 a.C, César é eleito pontífice máximo24 (CANFORA, 2002, p.456). O cargo não oferecia poder algum, apenas prestígio (MONDADORI, 1970, p.98).
Finalmente, Pompeu volta para Roma. Ao regressar e celebrar seus triunfos, acreditava ter alcançado uma situação de conforto no jogo político, tornando-se fácil controlar o Senado, mas se desiludiu, pois, mesmo tendo trazido enormes riquezas para Roma, uma facção de senadores conservadores, liderados por Lúculo e Catão, foram reticentes em atender seus pedidos e de prover terras aos seus soldados veteranos das recentes campanhas militares.
Esses homens e seus aliados decidiram frustrar os desejos de Pompeu por longo tempo; ao fazê-lo, provocaram inconscientemente sua própria ruína e a destruição da República (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69).
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Os ÆDILES CURALES eram membros do patriciado cujas funções eram exercidas na
vigilância dos mercados, em atividades de política urbana, na cura annonæ (abastecimento da cidade de Roma), na preparação dos jogos, no cuidado dos arquivos (CANFORA, 2002, p.484).
24
Pompeu, dito Magno, que era comparado a Alexandre Magno, não se conformou com tamanha afronta e tratou de providenciar apoio para a sua causa. Deste modo, os senadores inadvertidamente acabaram por empurrar Pompeu em direção à mais improvável das alianças, ou seja, para César e Crasso.
César, que também tinha problemas com o Senado, tornara-se uma figura eminente e popular nos anos em que Pompeu estava na Ásia, e por ser aliado de Crasso, e patrocinado por este, incluiu-o no pacto que celebrou com aquele.
A aliança de Pompeu com César é consolidada com o casamento do primeiro com Julia, filha do segundo, e, mais tarde, reforçada pela inclusão de Crasso, para formar informalmente o primeiro triunvirato (JAGUARIBE, 2001, p. 382).
A combinação de recursos e da influência dos três homens foi muito efetiva. César conseguiu a desejada nomeação para cônsul em 59 a.C, assim como, pela Lei Agrária, a distribuição de terras aos veteranos de Pompeu (JAGUARIBE, 2001, p. 382).
Ao findar seu consulado, César obtém o governo da Gália Cisalpina e da Ilíria por cinco anos. (GIORDANI, 2002, p.57). Em 56 a.C., César convidou Crasso e Pompeu a se encontrarem em Luca (Gália Cisalpina) para renovar sua aliança (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69).
Pompeu e Crasso são eleitos cônsules (55 a.C) e os poderes de César, na Gália, são prolongados (GIORDANI, 2002, p.57). Depois da morte súbita de Metelo Celer, que recebera o governo da Gália Transalpina, deu a César a oportunidade de acrescentar aquela província à sua jurisdição, graças ao patrocínio de Pompeu no Senado (JAGUARIBE, 2001, p. 382).
Ao deixarem seus cargos, os dois primeiros triúnviros recebem os governos provinciais da Espanha e da Síria. Crasso parte, então, para o Oriente; César permanece na Gália e Pompeu faz-se representar na Espanha (GIORDANI, 2002, p.57).
Nomeado governador das Gálias pelos senadores, César partiu a fim de pacificar a região” (DE CICCO, 2012, p. 59). César dedicava seus talentos a uma série de brilhantes incursões contra os gauleses, adicionando ao Estado romano os territórios que hoje pertencem à Bélgica e à França (BURNS, 1959, p. 224).
Plantou, então, uma sólida ponte de madeira sobre o Reno e invadiu as terras dos selvagens Teutões. Por fim, construiu uma frota e chegou à hoje denominada Grã-Bretanha (VAN LOON, 2004, p. 113).
Após uma árdua campanha, em que mostrou seu admirável senso militar, César subjugou os revoltosos e escreveu De Bello Gallico, comentário das guerras que manteve contra os gauleses (DE CICCO, 2012, p. 59). César era tão competente no manejo das palavras quanto no comando das legiões, transformou em uma arte a composição de seus despachos militares (REID, 2004, p. 28).
Entretanto, alguns acontecimentos vêm pôr fim ao triunvirato (GIORDANI, 2002, p.57). A renovada aliança logo começa a dar sinais de fraqueza (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69). A morte de Júlia, filha de César e esposa de Pompeu, contribui para o arrefecimento das relações entre os dois políticos (GIORDANI, 2002, p.57).
Um ano depois, o triunvirato deixou de existir pela derrota e morte de Crasso na batalha de Carras, que pôs um ponto final à sua temerária tentativa de invadir o império parto (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69). A morte de Crasso em mãos dos partos, na batalha de Carras, agudizou a rivalidade entre César e Pompeu (BOVO, 2006b, p. 14).
1.1.4 - A Ditadura de César ou o Crepúsculo da Tradição
Com o fim do primeiro triunvirato, a estrela de César aumenta seu brilho ao ponto de ele chegar, depois de derrotar Pompeu, ao poder isolado, à ditadura perpétua. Sua ascensão, suas aspirações monárquicas, seu romance com Cleópatra VII farani do Egito, sua popularidade com a plebe e a maneira como morreu foram, como se procura demonstrar a seguir, a pá de cal que sepultou a República Romana.
Poucos homens viram a flexibilidade de caráter submetida a maiores provas do que César, o único gênio criador que Roma produziu, o último que apareceu no mundo antigo e que, naturalmente, trilhou o sulco por ele mesmo aberto até desaparecer seu astro luminoso. Saído de uma das mais antigas famílias do Lácio que fazia sua origem remontar até os heróis da Ilíada e aos reis de Roma, e até a Vênus Afrodite (MOMMSEN, 1962, p. 294).
César foi um homem de Estado, desde a mocidade, no sentido mais profundo da palavra e com o objetivo mais elevado que um homem pudesse propor-se: a regeneração política, militar, intelectual e moral de uma nação em decadência, e do povo helênico, perante o seu, e ainda mais em declínio (MOMMSEN, 1962, p. 297).
A personalidade e as atividades de César, desde sua nomeação como cônsul em 59 a.C, e em especial desde a travessia do Rubicão, simbolicamente importante (Alea jacta est), no ano 49 a.C., preencheram os últimos anos da República e provocaram em Roma uma mudança institucional e política irrevogável, criando as condições que levariam ao consulado de Augusto (JAGUARIBE, 2001, p. 380).
César alcança a ditadura depois que morre Crasso, mas não sem antes enfrentar o outro ex-triunviro Pompeu, dito Magno.
1.1.4.1 - A Guerra Civil - Pompeu versus César
Com a morte de Crasso frente aos partos na batalha de Carrés (53 a.C.) e com a dissolução do triunvirato, começa a disputa entre César, fortalecido por suas vitórias e apoio popular, e Pompeu, que nessa época se aproximara do grupo senatorial, que tinha entre seus representantes mais ilustres Cícero e Catão. (BOVO,2006b, p. 14).
Pompeu, que recebera o governo da Espanha, continuava em Roma, pois se havia feito representar alhures, enquanto César seguia além dos Alpes, governando as Gálias e administrando as novas terras conquistadas dos celtas. Pompeu resolveu que era oportuno aproveitar a ausência do rival e tomar o poder.
O poder pessoal de Pompeu, chamado já em 54 a.C., por Cícero, princeps, só encontra um obstáculo sério: César (GIORDANI, 2002, p. 57). A intenção que tinha Pompeu de romper com César era provavelmente tão antiga em seu embrião quanto a aliança dos próprios ditadores; mas a natureza dissimulada de Pompeu deixara-a amadurecer até então (MOMMSEN, 1962, p. 262).
Então, Pompeu aliou-se com o Senado, que o nomeou Primeiro Cônsul (49 a.C.). Tal cargo tornava-o superior a César, que governava as Gálias. Proibiu-o de voltar a Roma, onde temia que o povo desse a César a coroa real (DE CICCO, 2012, p. 60). Pompeu conseguiu que o Senado lhe desse poderes extraordinários, enquanto a situação política de César se tornou cada vez mais precária (BOVO, 2006b, p. 14).
César foi declarado inimigo do Estado e Pompeu conspirou com a facção senatorial para despojá-lo de todo o poder político. Disso resultou uma luta de morte entre os dois (BURNS, 1959, p. 224).
Vendo que toda tentativa de pacto com Pompeu e o Senado era inútil, César decidiu atravessar o rio Rubicão, fronteira entre a Gália Cisalpina e a Itália, e marchar para Roma (49 a.C) (BOVO, 2006b, p. 14). “Ele não tinha absolutamente nenhuma autoridade para trazer tropas além da fronteira, o significado de sua ação era claro. Ele comprometeu-se à guerra civil.” (BOATWRIGHT, 2004, p. 246)25. Ao atravessar para a margem Italiana, teria
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dito a famosa frase “O dado está lançado” (ALEA IACTA EST)26 e, com esse ato, iniciou a guerra civil que sepultaria a República.
Tal atitude arriscada e inesperada de César surpreendeu a todos e pegou seus inimigos desprevinidos. Confusos e inseguros, Pompeu e muitos dos senadores preferiram fugir a enfrentar César de imediato, com ilusória expectativa de que, ganhando tempo, poderiam estruturar um contra-ataque.
O mesmo temor que Aníbal levara a Roma, depois da batalha de Canas, César disseminou ao atravessar o Rubicão. Pompeu, desnorteado, não viu, nos primeiros momentos da guerra, outro partido a tomar senão o que resta nos casos desesperados: soube apenas ceder e fugir; saiu de Roma, ali deixando o tesouro público; não conseguiu retardar o vencedor em lugar nenhum; abandonou uma parte de suas tropas, a Itália inteira, e cruzou o mar (MONTESQUIEU, 2002, p.86).
Pompeu fugiu para o Oriente, na esperança de organizar um exército suficiente para retomar o domínio da Itália (BURNS, 1959, p. 224), enquanto César, em toda parte que passava, era recebido como “amigo do povo” (VAN LOON, 2004, p.114). Os soldados recusaram-se a deter César na sua marcha triunfal em direção a Roma, então Pompeu fugiu para a Grécia com vários senadores (DE CICCO, 2012, p. 60).
Pompeu preferiu não enfrentar e, em hábil retirada, cruzou o Adriático e começou a mobilizar suas forças nos Balcãs. Assim, César se apoderou com rapidez de toda a Itália, entrou em Roma e se assenhorou do tesouro. Levou então a cabo uma rápida incursão à Espanha, onde derrotou as forças de Pompeu antes de regressar à Itália, onde foi nomeado ditador (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 66).
César tinha tudo o que lhe era necessário: um poder político ilimitado e um exército de uma solidez inabalável (MOMMSEN, 1962, p. 267). De volta a Roma, designado ditador e eleito cônsul para o ano de 48 a.C., visou imediatamente à busca dos meios para o embate definitivo com Pompeu (CANFORA, 2002, p. 213).
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ALEA IACTA EST- O dado está lançado. Essa frase é muito célebre, sendo citada com
frequência - inclusive em suas traduções nas várias línguas europeias - para dizer que, numa situação de grave perigo, já se tomou a decisão sobre o que fazer e não é mais possível voltar atrás. Segundo Suetônio (Vida de César), ela foi realmente pronunciada por Júlio César em 10/11 de janeiro de 49 a.C., no momento em que atravessou o Rubicão, rio da Romanha que marcava as fronteiras da Itália e que, portanto, nenhum comandante poderia atravessar armado sem se tornar, automaticamente, inimigo de Roma: esse ato foi indicado como início da guerra civil contra Pompeu. Essa frase é, na realidade, a tradução de uma expressão proverbial grega, atribuída a César por Plutarco (Vida de César; Vida de Pompeu,
“No final de 49 a.C., partiu para o Oriente e finalmente se encontrou com Pompeu. A batalha decisiva se deu no verão de 48 a.C. na Farsália (ao norte da Grécia), onde César conseguiu a vitória” (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 66).
Nessa ocasião, o comando de César foi decisivo para a vitória, ou seja, ferir a elegante elite dos soldados de Pompeu diretamente no rosto para desfigurá-los27. Em Alexandre e César, de Plutarco28, encontramos a seguinte narração do episódio:
Quando a infantaria dos dois exércitos estava empenhada numa luta bastante encarniçada, a cavalaria da ala esquerda de Pompeu avançou altivamente, estendendo seus esquadrões para envolver a ala direita de César; mas, antes que tivesse tempo de atacar, as seis cortes que César colocara atrás de sua ala correram contra a cavalaria inimiga; e, em vez de atirar de longe seus dardos, conforme o costume, e de ferir a golpe de espada as pernas e as coxas dos inimigos, os soldados alvejavam os olhos, golpeiam os rostos, segundo as instruções recebidas de César. César julgara bem ao pensar que esses cavaleiros, noviços na guerra e pouco acostumados com as feridas, jovens que eram, ostentando sua beleza e a flor da mocidade, ficariam impressionados especialmente com essa espécie de golpes e não sustentariam por muito tempo um ataque no qual se achavam expostos ao perigo fatal e à deformação futura. Foi o que aconteceu: aqueles moços não aturaram os golpes dos dardos atirados para cima; e, não ousando arrostar os ferros que brilhavam tão perto de seus olhos, viraram o rosto e cobriram a cabeça para se preservarem. Romperam, afinal, suas próprias fileiras, fugiram vergonhosamente e foram a causa da perda de todo o exército, pois os soldados de César, vitoriosos, envolveram a infantaria e, carregando-a pelas costas, destroçaram-na (PLUTARCO, 1958, p. 158)
Pompeu, vencido, buscou refúgio no Egito, na corte do muito jovem Ptolomeu XIII (BOVO, 2006b, p. 14). Pompeu atravessou o Mediterrâneo e fugiu para o Egito. Quando lá aterrou, foi assassinado por ordem do jovem rei Ptolomeu (VAN LOON, 2004, p.112).
César chegou pouco tempo depois, recebendo a notícia da morte de seu rival (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 66). Quando desembarcou, César não sabia o que havia acontecido com Pompeu. Ao atracar no porto, foi
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“Miles nocere in facie!” - Soldado, fere no rosto! - tinha gritado Cezar aos seus veteranos,
vendo os brilhantes cavalheiros do exército de Pompeu. Esses jovens patrícios, espantados, puseram-se em fuga para não serem desfigurados pelas lanças dos legionários, e Cezar ficou senhor do campo de batalha (CAMPOS, 1889, p. 35).
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aclamado pelos habitantes de Alexandria, que lhe mostraram a cabeça de Pompeu (BENCHLEY, 2007, p. 33).
César ficou chocado com a vilania dos egípcios, pois traíram Pompeu, que era aliado deles durante anos e, por isso mesmo, lá buscara abrigo em um momento de dificuldade. Ademais, César, mesmo sendo rival de Pompeu, fora outrora seu amigo e parente (Pompeu enviuvara da filha de César) e não desejava uma morte desonrosa para o antigo companheiro. Por isso, fez com que Pompeu tivesse um funeral romano com toda dignidade.
Depois de garantir que Pompeu fosse sepultado dignamente, César entrou como um rei em Alexandria e instalou-se no palácio real. O Egito que César encontrou estava dividido entre dois irmãos governantes (BENCHLEY, 2007, p. 33). Os irmãos eram Ptolomeu XIII, a mando de quem Pompeu fora traiçoeiramente executado, e a jovem Cleópatra VII.
César, com todo o seu poder, pretendia permanecer neutro no conflito civil, mas acabou envolvendo-se. Já conhecendo a índole traiçoeira do faraó, César apoiou a causa da irmã dele, de quem tornara-se amante. Tal patrocínio foi decisivo a favor dela e, como veremos a seguir, também direcionou a vida dele nos seus últimos e gloriosos anos.
1.1.4.2 Cesar e Cleópatra
A notoriedade de Cleópatra e seu lugar na história universal, provavelmente, jamais teriam sido alcançados caso César não estivesse em Alexandria do Egito naquele momento, em que ela, então exilada, organizava um exército com a intenção de depor seu irmão faraó.
Ptolomeu banira a irmã da pátria e obrigara-a a procurar refúgio na Síria, de onde fez preparativos para voltar ao reino paterno (MOMMSEN, 1962, p. 285).
guerra civil egípcia, modificando o rumo da história e precipitando o fim da República Romana.
A chegada de Júlio César a Alexandria foi precedida por sua reputação não só de guerreiro conquistador, mas também de refinado amante com uma série de aventuras amorosas na sua existência (BENCHLEY, 2007, p. 35). O homem que se mudou para o palácio real, a casa dos dois jovens Ptolomeus, tinha cinquenta e poucos anos. O conquistador de metade do mundo, o maior soldado desde Alexandre (BRADFORD, 2002, p. 79) era considerado descendente dos deuses, em especial Vênus, a deusa do amor (BENCHLEY, 2007, p. 35).
Suetônio29, em A vida dos doze Césares, demonstra a fama de César como um dos mais notórios sedutores de Roma e transcreve os versos que seus soldados cantavam sobre ele:
Romanos, guardai vossas mulheres: nós conduzimos o calvo adúltero. (SUETÔNIO, 2002, p. 58). 30
No entanto, com todos os atributos, César, quando conhecera Cleópatra, era um senhor calvo, enquanto a princesa estava no auge de sua juventude, sendo, portanto, cabível que o conquistador tenha sido conquistado, tendo se apaixonado por ela.
É muito provável que Cleópatra tenha contado com a vulnerabilidade de César e aliado isso ao uso calculado de seus consideráveis atrativos femininos (BENCHLEY, 2007, p. 35).
“Quanto à guerra de Alexandria, dizem alguns que seu amor por Cleópatra, e não uma necessidade real, foi o que determinou a empresa, tão vergonhosa para sua reputação, como perigosa para sua pessoa” (PLUTARCO, 1958, p. 161).
Na opinião da maioria dos primeiros historiadores, foi a fascinação de César por Cleópatra que o levou a colocar o pescoço num nó corrediço, e fez com que colocasse a vida em perigo bem no momento
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Caio Suetônio Tranquilo (69/141 d.C) foi um escritor e historiador escritor latino que viveu na corte do imperador Adriano. (LELLO, 1954, p. 952).
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