PUC-SP
Sydnei Roberto Kempa
Políticas de Currículo em Matinhos- PR: A Voz dos Professores
DOUTORAMENTO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO
PUC-SP
Sydnei Roberto Kempa
Políticas de Currículo em Matinhos-PR: A Voz dos Professores
DOUTORAMENTO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Educação:Currículo, sob orientação do prof. Doutor Antonio Chizzotti.
Banca Examinadora
...
...
...
...
Com amor e gratidão, dedico essa tese
A minha esposa, Cláudia, pelo companheirismo e compreensão ;
aos meus filhos, Derek e Lucas, presentes preciosos de Deus em meu jardim;
AGRADECIMENTOS
Ao Rei do universo, Deus de toda vida.
Ao professor Dr. Antonio Chizzotti, por sua serenidade e sabedoria demonstradas ao longo da caminhada.
À Faculdade Estadual de Filosofia Ciências e Letras de Paranaguá e ao Departamento de Educação, pelas condições necessárias para a realização do doutorado.
Morro num cantinho pequenino do universo
Feito de areia, de montanha e mar aberto
Perto de um riacho onde canta o bem-te-vi.
Os meus irmãozinhos são também pequenininhos,
São da cor da terra, brancos, negros marronzinhos,
Todos são morenos como a cor do açaí.
Pisca uma estrela toda apaixonada
Pela nossa Terra tão iluminada
Riso de uma lua, brilho de um mar azul.
Terra, minha linda Terra,
Vejo da janela arredondada como és bela,
Terra, leva-me prá passear.
Terra, minha linda Terra,
Quando cai a chuva cada gota te perfuma.
Terra, quero tanto te abraçar.
O presente estudo analisa as políticas de organização do currículo, no contexto da Secretaria de Educação do município de Matinhos-PR do ano de 2005 a 2009. Os estudos que envolvem o currículo são cada dia mais relevantes para compreender o fenômeno educacional que é multifacetado e está em contínuo movimento. O fio condutor deste trabalho é o movimento das contínuas mudanças de organização do currículo e suas implicações principalmente sobre os professores. A questão básica perseguida ao longo do trabalho é: Como os professores lidam com as contínuas mudanças de organização do currículo? Como fonte única de dados, e maiores implicados no processo de mudança do currículo, foram ouvidos os professores. Por meio de entrevista semiestruturada, dezesseis professores da rede municipal de educação de Matinhos-PR foram ouvidos. A matéria prima do estudo se constituiu das percepções multidimensionais traduzidas nos depoimentos desses professores. A preparação do material bruto para posterior análise se baseou na metodologia da Análise de Conteúdo de Bardin (1994). As construção das análises foram fundamentas na Pedagogia Crítica. Autores do campo do currículo, como Apple, Sacristan, Perez Gómez, Lima, Ball, Popkewitz forneceram os subsídios necessários para compreender como ocorrem muitas das mudanças no âmbito do currículo e como os professores sobrevivem a elas. Os resultados são constatações de como as políticas são implementadas e as conseqüências que produzem.
This study analyses the curriculum organization policies, in the context of the Education Department in the city of Matinhos, PR, from 2005 to 2009. The studies which are concerned to the curriculum are even more relevant to the understanding of the educational phenomenon, which has different aspects and is in constant evolution. The leitmotif of this work is the continuous change movement of the curriculum organization and its implications, mainly for the teachers. The basic question which guides this work is: “How do teachers cope with the continuous changes in the curriculum organization?” As a unique data source, and as the most involved professionals in the curriculum changing process, the teachers voices of sixteen teachers from the municipal education system have been listened to, through semi-structured interviews. The raw material of this study was constituted from the multidimensional perceptions emerged in the teachers’ testimonials. The preparation of the raw material for subsequent analysis was based on the Content Analysis by Bardin (1994). The construction of the analysis was based on the Critical Pedagogy. Authors involved with the curriculum field, as Apple, Sacristán, Perez Gómez, Lima, Ball, Popkewitz provided the data to understand how the most of the changings in the curriculum scope occur and how the teachers survive them. The results are the ascertainments of how the policies are implemented and the implications they produce.
Quadro 01: Escolas de Ensino Fundamental dos Anos Iniciais... 3
Quadro 02: Quadro do perfil dos professores entrevistados... 65
Quadro 03: Quadro indicativo da formação dos entrevistados... 66
Quadro 04: Quadro indicativo do tempo de serviço na Secretaria de Educação dos entrevistados... 67
Quadro 05: Quadro indicativo do tempo de serviço dos entrevistados na unidade escolar atual... 68
Quadro 06: Quadro indicativo das funções exercidas pelos entrevistados... 69
Quadro 07: Quadro indicativo do gênero dos entrevistados... 70
Quadro 08: Quadro da primeira categorização... 77
Quadro 09: Quadro da segunda categorização... 78
Figura 01: A macro e micro localização de Matinhos-PR... 19 Figura 02: Barreira de Costão Rochoso no centro do Balneário de Matinhos... 23 Figura 03: Casa de pau-pique coberta de folhas de palmáceas... 24 Figura 04: O litoral paranaense no período de transição entre o uso para
balneário e atividades antecedentes... 25 Figura 05: Matinhos de hoje... 34 Figura 06: Processo de mudança predominantemente no período das
décadas de 1960 – 1970... 114 Figura 07: Processo de mudança predominantemente no período das
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 12
CAPÍTULO 1 DO “MATINHO” DO PASSADO À MATINHOS DO PRESENTE... 19
1.1 O PARANÁ COMEÇA NO LITORAL... 20
1.2 A OCUPAÇÃO DO LITORAL E MATINHOS... 28
1.3 MATINHOS HOJE... 34
1.4 O LÓCUS DA INVESTIGAÇÃO... 36
CAPÍTULO 2 A PESQUISA E O PESQUISADOR: UM MOVIMENTO CONTÍNUO... 42
2.1 ABORDAGEM PARA A CONSTRUÇÃO D INVESTIGAÇÃO... 43
2.2 TÉCNICA PARA COLETA DE DADOS... 47
2.3 TIPO DE ENTREVISTA... 49
2.4 ENTREVISTA UMA TRAMA COMPLEXA... 51
2.5 AMOSTRA: UMA QUESTÃO DE ABORDAGEM... 55
2.6 O DESAFIO DE SAIR A CAMPO... 59
2.7 O PERFIL DOS SUJEITOS... 64
2.8 INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS... 70
2.9 ANALISE DE CONTEÚDO... 73
2.10 A CONSTRUÇÃO DAS CATEGORIAS... 75
CAPÍTULO 3 CURRÍCULO, GLOBALIZAÇÃO, REFORMAS CURRICULARES E OS PROFESSORES... 80
3.1 O CURRÍCULO E A CONSOLIDAÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO CAPITALISTA... 82
3.2 GLOBALIZAÇÃO E EDUCAÇÃO... 85
3.3 GLOBALIZAÇÃO E REFORMAS EDUCACIONAIS... 89
3.4 O CURRÍCULO EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL.... 92
3.5 AS REFORMAS E OS PROFESSORES... 94
CAPÍTULO 4 AS POLÍTICAS CURRÍCULARES ENTRE 2005-2009 E A PRÁTICA PEDAGÓGICA DOS PROFESSORES DE MATINHOS-PR... 100
4.1 DESCONTINUIDADE... 100
4.1.1 Descontinuidade e o ajustamento... 103
4.1.2 A descontinuidade e a falta de adesão do professorado... 109
4.1.3 A descontinuidade e o desrespeito ao tempo de mudança do professor... 110
4.2 GESTÃO ... 118
4.2.1 Formas de organizar o currículo... 118
4.2.1.1 Organização do currículo até 2005... 120
4.2.2 As condições materiais para o exercício do currículo... 127
4.2.3 A falta de materiais básicos... 133
4.2.4 Custo e risco partilhados... 137
4.3 CURRÍCULO E O CONTEXTO... 145
4.3.1 O currículo de fora para dentro... 148
4.4 PROLETARIZAÇÃO... 153
4.4.1 A proletarização como condição da classe trabalhadora... 153
4.4.2 A proletarização como condição do trabalhador docente... 157
4.4.3 O diálogo com os professores de Matinhos... 160
4.4.4 Salários e condições de trabalho... 161
4.4.4.1 Baixos salários... 161
4.4.4.2 As precárias condições de trabalho... 164
4.4.4.3 Falta de aplicação do plano de carreira... 165
4.4.5 O controle do trabalho docente... 166
4.4.6 Falta de organização do professorado... 172
4.4.7 Feminização do magistério... 175
CONSIDERAÇÕES FINAIS... 177
REFERÊNCIAS... 180
APÊNDICE A – Roteiro do Questionário... 187
APÊNDICE B - Modelo do roteiro de entrevista... 188
APENDICE C - Modelo do quadro de categorização... 189
INTRODUÇÃO
Determinar o início de uma tese é sempre uma tarefa muito complexa. Não é possível situar, precisamente, o momento em que determinada ideia, ou proposição foi concebida, uma vez que é resultado de um movimento contínuo. Por isso, não posso afirmar que o projeto desta tese tenha sido concebido, em um determinado momento, possível de situá-lo, precisamente.
O possível é compreendê-lo em uma totalidade, em um movimento que extrapola o projeto da tese em si. Com isso, o projeto desta tese é uma síntese de uma história, que não começa no momento, em que as primeiras linhas foram escritas. Em outras palavras, é possível, nessa compreensão, afirmar que a história da tese começa com a do autor/pesquisador. Assim, não se pode separá-las, pois fazem parte de uma totalidade e, por assim dizer são parte uma da outra.
Por isso, é indispensável relatar, aqui, o processo de concepção da investigação, que também é um recorte da minha história. Não se trata de uma autobiografia, mas sim de ressaltar elementos e aspectos da minha história, que foram determinantes, no processo de concepção, e concretização deste trabalho de investigação.
Ingressei no ensino superior em junho de 1998, na Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí, instituição em que havia concluído meu curso de Pedagogia.
A IES, em que iniciei como professor , atendia alunos oriundos de muitos pequenos municípios do noroeste do Estado do Paraná e de alguns municípios da região do Pontal do Paranapanema do Estado de São Paulo.
Em minha experiência como professor, ouvia muitos relatos dos alunos do curso de Pedagogia sobre as práticas que ocorriam, nas escolas, de seus municípios. Tais relatos traziam, para o âmbito da sala de aula, a realidade de muitos daqueles alunos, mas também situações que deixavam a todos, com um sentimento de incapacidade de intervir na realidade.
profissionais nomeados, geralmente, eram do meio educacional e, de alguma forma estavam sendo “compensados” com a nomeação, normalmente em função do apoio dado à campanha eleitoral do candidato vencedor à função de prefeito e de vereadores.
Mas, um caso deixou-me perplexo e indignado. Um aluno relatou, em sala de aula, que a coordenadora que havia sido nomeada, em sua escola era sobrinha do prefeito e não era educadora, ou seja, não tinha formação para atuar como orientadora. Tratava-se de um sujeito fora da escola que não tinha nenhuma experiência, ou formação para ali atuar.
Esse relato me inquietou muito. Cheguei a me sentir desconfortável, pois ensinava como as “coisas” deveriam ser e, no entanto, a realidade de grande parte dos meus alunos era conviver com situações como as que relatei.
Foi aí que começou a nascer um interesse em investigar as políticas educacionais, no contexto municipal (chegar a essa síntese foi um processo longo). Pois eu pensava: se pudesse de alguma forma trazer esses fatos à luz e compreendê-los poderia contribuir para sua mudança. Mas, como não tinha tempo para fazer a investigação, nem as condições de trabalho adequadas a minimizar a inquietação, fiquei só na intenção.
No ano de 2004 fui removido da FAFIPA1 para FAFIPAR2, no litoral do Estado do Paraná. Percebi que os relatos dos acadêmicos do litoral eram muito semelhantes aos dos acadêmicos do noroeste do Estado. Havia uma semelhança nas práticas que ocorriam no contexto da Secretaria da Educação dos municípios do noroeste e do litoral do Estado do Paraná. Isso reforçou meu interesse por uma investigação que abordasse esse fenômeno.
Em 2005, a FAFIPAR iniciou uma extensão do curso de Pedagogia, na cidade de Matinhos e eu passei a atuar também como professor nessa extensão. A partir das discussões, dos anseios e dos embates, trazidos pelos alunos para a aula de Didática, a temática da pesquisa foi se cristalizando e sendo transformada em um projeto de pesquisa.
Estava ocorrendo uma mudança de currículo na Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Matinhos, nesse tempo. Como professor, fui me aproximando desse processo de mudança do currículo, pelo fato de que um número grande de
1 Faculdade Estadual de Filosofia Ciências e Letras de Paranavaí-PR. 2
acadêmicos do curso de Pedagogia da extensão eram professores da rede municipal de educação.
Assim, convivia, constantemente, nas aulas de Didática, com as inquietações trazidas pelos alunos-professores. A sala, por vezes se dividia em posições contrárias às mudanças na organização do currículo.
A polêmica estava centrada na decisão da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte de Matinhos ter aptado por adotar, no ano de 2005, um programa de organização curricular diferente. A nova organização era resultado de um convênio com um determinado Sistema educacional o qual, a partir de agora denominaremos pela sigla AZ3, que naquele momento passou a fornecer além do material didático, um programa de capacitação (diga-se treinamento) dos professores, para o uso do material e implementação do novo projeto pedagógico.
Foram inúmeras as vezes em que fui inquirido pelos alunos sobre minha posição acerca do processo, que se iniciara na rede municipal de educação. Sem ter uma posição definida, mas com alguns pressupostos, que não eram suficientes para fundamentar um juízo de valor, sempre estimulei os alunos-professores a ficarem atentos a tudo que acontecia e assim, perceberem, paulatinamente, se o processo que se instalara poderia trazer os benefícios, propalados pelos gestores aos destinatários de todas as mudanças – os alunos.
As constantes inquietações dos alunos-professores também me inquietaram a ponto de transformá-las em uma intenção de pesquisa e posteriormente, no projeto de investigação, que deu origem a esta tese. Ao fazer isso, surpreendi-me, na medida em que me propus a conhecer melhor o fenômeno. Constatei que Matinhos não era um caso isolado em optar por uma organização de currículo representada por um programa vindo de fora. Inúmeros sistemas e redes4 municipais, espalhados pelo Brasil, estavam adotando soluções semelhantes.
Eu estava convivendo muito de perto com os sujeitos que estavam, no epicentro da mudança – os professores. Por isso, inspirado por meus alunos, em 2006, elaborei um projeto que tinha como problemática investigar as práticas
3 A denominação AZ será utilizada a partir de agora para indicar o convênio instalado a partir de 2005 na Secretaria de Educação de Matinhos. No capítulo primeiro deste trabalho iremos apresentar mais detalhadamente o referido convênio..
clientelistas que norteavam as políticas públicas da Educação, no âmbito dos municípios.
Depois de um longo amadurecimento, tendo ingressado no doutorado na PUC/SP, o projeto foi sofrendo pequenas alterações. Das práticas clientelistas, nas Secretarias de Educação, passou para a organização do currículo, mas sem perder o foco, nas políticas de Educação, no contexto municipal.
Com as aulas de Seminário de Pesquisa, os encontros de orientação com a participação dos colegas e as conversas com o orientador prof. Dr. Antonio Chizzotti, o projeto de pesquisa foi sendo lapidado, pouco a pouco.
Assim sendo, minhas inquietações que gravitavam no âmbito das Políticas Públicas da educação, na esfera municipal, agregaram mais um ingrediente que acabara definindo mais precisamente a problemática da investigação – a organização do currículo.
A constituição do currículo como campo concedeu a ele o lugar que já lhe cabia na Educação, mas ainda não reconhecido. Por isso, estudar currículo na atualidade é de extrema relevância. Sacristán (2000, p. 15) destaca o papel do currículo, na escolarização, e ao mesmo tempo ressalta a sua complexidade ao afirmar que
[...] o currículo supõe a concretização dos fins sociais e culturais, de socialização, que se atribui à educação escolarizada, ou de ajuda ao desenvolvimento, de estímulo e cenário do mesmo reflexo de um modelo educativo determinado, pelo que necessariamente tem de ser um tema controvertido e ideológico, de difícil concretização num modelo ou proposição simples
Esse cenário de investigação corresponde ao que a teoria de currículo, produzida no final do século XX, valida como relevante para o campo.
Nesse sentido, a afirmação de Sacristán (2000, p.21) corrobora com o que tenho argumentado até aqui. Esse autor afirma
[...] entender o currículo num sistema educativo requer prestar atenção às práticas políticas e administrativas que se expressam em seu desenvolvimento, às condições estruturais, organizativas, materiais, dotação de professorado, à bagagem de idéias e significado que lhe dão forma e que o modelam em sucessivos passos de transformação,
Portanto, estava localizado o foco da investigação, e o aspecto seguinte a ser definido era precisar o problema, ou a problemática da pesquisa. Os professores seriam ouvidos, pois eles são os atores e principais executores das políticas de currículo.
Assim sendo, “entender o currículo num sistema educativo requer” ouvir os professores sobre como eles lidam com a mudança de organização do currículo. Ou seja, seus anseios, seus dilemas e como convivem, no contexto dessas mudanças que se sucedem a cada alteração de gestor público e que vão se somando em um curto espaço de tempo.
Ficou assim formalizado o problema da investigação: Como os professores do Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte do município de Matinhos lidam com as constantes mudanças de organização do currículo?
Para se aproximar mais profundamente desse fenômeno era necessário estabelecer objetivos que orientassem as passagens no decurso de toda a investigação. Desse modo, ficaram estabelecidos os seguintes objetivos:
GERAL
ESPECÍFICOS
1. Coletar junto aos professores, diretores e professores-coordenadores da Educação Fundamental da Secretaria de Educação e Cultura do município de Matinhos informações sobre as condições, em que ocorrem as mudanças de organização curricular.
2. Levantar a produção teórica sobre políticas de currículo, na atualidade. 3. Analisar as políticas curriculares da Secretaria Municipal de Educação
e Cultura de Matinhos entre 2005 a 2009.
Desse modo, esta tese foi elaborada em quatro capítulos, que objetivam descrever desde a concepção do projeto, o percurso da investigação até os resultados a que as aproximações indicaram.
O primeiro capítulo, denominado “do ‟matinho‟ do passado ao „matinhos‟ do presente”, intenta fazer uma passagem histórica do litoral do Estado do Paraná ou seja, sua ocupação inicial (com seu desdobramentos). O percurso desse capítulo obedece a um movimento que parte da região litorânea até o território que, hoje, constitui o município de Matinhos e sua gente até aproximar-se dos sujeitos da investigação.
Já o segundo capítulo, tem uma dinâmica muito própria. Ele trata das definições metodológicas, das opções pelos instrumentos de coleta de dados, análise desses dados e critério de seleção dos sujeitos.
O terceiro capítulo estabelece uma revisão, da importância do currículo e as atuais tendências das políticas, que referencia o currículo no contexto da globalização neoliberal.
O quarto e último capítulo é constituído pela análise dos dados. As políticas de currículo do município de Matinhos para o Ensino Fundamental vão sendo desvelada pelo discurso/fala dos professores. Esses dados são analisados à luz das teorias do currículo de autores da Pedagogia Crítica. A análise dos dados tem como objetivo compreender as políticas de currículo e as implicações produzidas na prática do professor.
município de Matinhos têm alguma similaridade com as políticas que estão em curso em outros municípios? Quais as contribuições que os resultados desta pesquisa podem oferecer para as políticas de currículo? Quais os enfrentamentos necessários que a pesquisa aponta? Quais os percursos a serem continuados apontados a partir desta pesquisa?
CAPÍTULO 1
DO “MATINHO” DO PASSADO AO “MATINHOS” DO PRESENTE
Segundo Bigarella (1999, p.22):
Entre Caiobá e o Pontal do Sul, a praia arenosa é interrompida, por algumas dezenas de metros, por costão rochoso de altura insignificante. Nesse local, quem viajava de Paranaguá a Guaratuba pela orla marinha era obrigado a deixar a praia e atravessar um trecho de restinga de pouco mais de 100 metros, para então retornar à praia até chegar a Caiobá.
Esse trecho de mata baixa (mata de restinga, rica em epífitas) era conhecido como Matinho (sem o “s”).
Figura 01: A macro e micro localização de Matinhos-PR
1.1 O PARANÁ COMEÇA NO LITORAL
No começo do século XVI – época do descobrimento do Brasil – os índios carijós ocupavam, praticamente, toda a costa sul brasileira, do Rio Grande do Sul à barra da Cananéia – divisa entre os Estados do Paraná e São Paulo. Esses mesmos índios eram encontrados, em grande número, às margens da baía de Paranaguá – berço da colonização do território, atualmente denominado Estado do Paraná.
Os carijós eram considerados índios mais tratáveis, mas nem por isso os portugueses deixaram de se aventurar, em terra firme, na Paranaguá de hoje, sem antes passar um longo tempo em uma das ilhas da baía de Paranaguá, denominada ilha da Cotinga.
Gabriel Soares de Souza, em 1587, menciona que os índios carijós, como domésticos, se alimentavam de peixes, de caça e de mandioca, que cultivavam. Suas casas eram bem consistentes e fechadas, devido ao frio da região. O historiador Vieira dos Santos (1922) referiu-se aos carijós como índios que por serem afáveis foram os primeiros a se transformarem em escravos pelos vicentistas (BIGARELLA, 1999).
Com relação à chegada dos portugueses ao litoral do Paraná, registros históricos indicam que tenha sido, em 1545, com o estabelecimento de colonos portugueses, na Ilha do Superagui, e entre 1550 e 1560 na ilha da Cotinga. Quando esses primeiros portugueses superaram o temor dos índios carijós, após vários contatos incursaram em direção ao continente estabelecendo o povoado de Paranaguá.
O litoral do Paraná começou a ser colonizado efetivamente, pelos portugueses, a partir de Paranaguá pelo fato de ter sido encontrado ouro nas cercanias da Baía de Paranaguá, isso foi em meados do século XVII. Esse fato estimulou a ocupação e o povoamento por meio de arraiais, vilas e freguesias.
Existem registros históricos de que a região ao sul de Paranaguá até o território que hoje pertence a Matinhos, constituía-se em sesmarias pertencentes a Amaro de Miranda Coutinho. Segundo Oliveira (2005, p. 2):
Amaro de Miranda Coutinho recebeu uma sesmaria ao sul de Paranaguá aos 6/11/1718. Localizada na paragem do Curral, de dimensão de 1x2 léguas (cerca de 70 quilômetros quadrados), Arquivo Nacional do Rio de Janeiro (Livro 23, folha 104, códice 77) [...] Amaro de Miranda Coutinho recebeu em 16/9/1743 uma segunda sesmaria no litoral paranaense localizada no Olho d‟agua, com
dimensão de uma légua quadrada.
A família Miranda Coutinho possuiu por muito tempo as terras do litoral sul paranaense. O genearca Amaro Miranda Coutinho, português do Porto, casado com Maria de Barros, natural de Paranaguá, constituiu tradicional família do litoral paranaense (OLIVEIRA, 2005)
A sede da fazenda da segunda sesmaria, recebida por Amaro de Miranda Coutinho, ficava na localidade Olho d‟água, hoje, denominada de Caiobá (o balneário mais elitizado do Paraná). Essa localidade foi vendida por Miguel de Miranda Coutinho – filho de Amaro de Miranda Coutinho – ao seu filho Joaquim Miranda Coutinho, no dia 20 de maio de 1787. As terras eram denominadas de “Caiová”.Segundo Mafra (1952, p.113)
A 20 de maio de 1787, o Capitão-Mor Miguel de Miranda Coutinho e sua mulher Izabel da Silva fazem venda a seu filho Joaquim de Miranda Coutinho pelo preço de 25$000 reis, das terras de suas propriedades situadas na Barra do rio Guaratuba, denominadas
“Caiová”, cujas terras principiam no cume do morro da estrada que
vem para a “Esprainha” correndo à mesma para a parte do norte em a paragem chamado de Matinho.
Miranda; vindo a se casar com Joaquim da Rocha e Silva, náufrago que se estabeleceu, na região. Joaquim da Rocha era português do distrito de Paranha. Eles tiveram seis filhos (cinco mulheres e um homem) que se casaram e habitaram na região de “Caiová” (BARTHELMESS 2000; OLIVEIRA, 2005).
Porém, a região de Matinhos começa a ser povoada, efetivamente, com o estabelecimento do povoado de Guaratuba. Em 5 de dezembro de 1765, o então governador da Capitania de São Paulo – Luis Antonio de Sousa Botelho Mourão – determinou a reunião de quinhentos casais para colonizar a região. Esses casais foram alocados cada um em um pedaço de terra, da região da Barra do Saí (divisa com o Estado de Santa Catarina) até o que é, hoje, o Balneário de Praia de Leste (MAFRA, 1952).
No entanto, a colonização que deu origem a Matinhos começou em meados do século XIX. A região foi, na verdade, efetivamente “descoberta” só em 1820, pelo francês Augustin de Saint-Hilaire. Ele era um estudioso, observador e crítico dos costumes brasileiros e fez grandes estudos da flora brasileira, percorrendo a região, nesse período. Saint-Hilaire pecorreu mais de doze mil quilômetros em lombo de mula, a pé ou em pirogas5 indígenas. Sua passagem pelo litoral paranaense teve grande importância para a região e para os estudos científicos (BIGARELLA, 1999).
Há registro de que no ano de 1846 o povoado de Guaratuba tinha 176 eleitores, sendo 56 na vila e 25 no quarteirão de Caiobá, incluindo aí os habitantes da atual Matinhos.
Os deslocamentos de carga de Paranaguá até o povoado de Guaratuba ocorriam de forma mista. Até o Pontal do Sul utilizavam-se canoas, daí até Caiobá eram carroças que percorriam o caminho pela praia. De Caiobá até Guaratuba utilizavam-se barcos que iam até o porto do povoado. A movimentação de mercadorias e pessoas contribuiu, paulatinamente, para o povoamento da orla marítima, desde o século XVIII. Para se deslocar de Paranaguá até o povoado de Guaratuba levava-se cerca de dois dias.
Desses deslocamentos pela praia é que se originou o nome de “Matinhos”. O percurso de Praia de Leste a Matinhos, pela praia, era subitamente interrompido por uma barreira de costão rochoso (figura 02), que impedia a passagem. Daí, ser necessário o desvio pela restinga, para depois retornar à praia até chegar a Caiobá.
O desvio pela restinga – mato rasteiro – chamado de matinho deu origem à localidade, que ficou conhecida como “matinho” e que só posteriormente veio a se chamar Matinhos.
Figura 02: Barreira de Costão Rochoso no centro do Balneário de Matinhos
Foto: arquivo do autor
Desse modo, o povoamento de Matinhos foi muito decorrente da movimentação de pessoas e das mercadorias entre Paranaguá e Guaratuba. Os viajantes tinham que, necessariamente, passar por “matinho” e Caiobá, e a travessia da baía de Guaratuba nem sempre era realizada, no mesmo dia, em função das condições do tempo e das marés. Assim, os viajantes tinham que obrigatoriamente, pousar, em Matinhos. Mafra (1952) relata que quem desejava se deslocar de Guaratuba até Paranaguá tinha que, previamente, contratar uma carroça, em Matinhos, ou Caiobá. No dia combinado, se as condições ajudassem para travessia da baía por meio de canoa até Caiobá, partia-se em direção a Pontal, onde se pernoitava, e no dia seguinte o viajante seguia de barco até Paranaguá (BIGARELLA, 1999).
adaptando às condições da região e ao isolamento pelo esquecimento dos governos.
Na primeira metade do século XX, o caboclo da região era sociável, alegre e expansivo em seu ambiente natural. Suas festas eram animadas por violeiros que cantavam músicas simples e ingênuas. Suas habitações eram primitivas (figura 03), com cobertura de folhas de palmeiras e paredes de taquara, que eram trançadas com folhas de palmeiras; algumas eram até feitas de tábuas.
Figura 03: Casa de pau-a-pique coberta de folhas de palmáceas – Matinhos, no início da década de 1930.
Fonte: BIGARELLA (1999, p. 45)
Esses caboclos pescadores não viviam só da pesca. Eles caçavam e coletavam frutos da terra como palmito, raízes e brotos. Também cultivavam banana, mandioca, milho e feijão, na mata adentro, apesar de o solo muito pobre da região. No entanto, sua produção era de subsistência, desvinculada dos processos capitalistas. (BIGARELLA, 1999).
litoral estava escasseando. Segundo Bigarrella (1999), esses pescadores profissionais chegaram a Matinhos há cerca de uma década antes dos banhistas.
Os primeiros colonizadores foram os portugueses e italianos, que fundaram colônias agrícolas, em localidades do município, onde até os dias de hoje vivem seus descendentes. Já no ano de 1932, descendentes brasileiros de alemães vão se estabelecer em Matinhos e em Caiobá (balneário ao sul de Matinhos).
Em meados da década de 30 do século XX, um fator determinante, para a ocupação do recém-criado balneário de Matinhos, por brasileiros e alguns estrangeiros, particularmente, alemães, foi em função da construção da Estrada do Mar (a atual PR 407). Ainda que, inicialmente, tenha ela ligado Paranaguá até Praia de Leste (ponto mediano da planície de Praia de Leste), essa propiciou a ligação até Matinhos e Caiobá via praia (figura 04).
Figura 04: O litoral paranaense no período de transição entre o uso para balneário e atividades antedecentes.
Segundo Sampaio (2006), o possível fator de desenvolvimento do Balneário de Caiobá e Matinhos sobre o balneário da Praia de Leste (fundado em 1928) tenha sido sua proximidade com a serra da Prata – braço da serra do mar e único ponto, em que o complexo da serra do mar se aproxima da orla, no litoral paranaense – e por isso sua beleza paisagística se destacasse e facilitasse o fornecimento de água potável das nascentes da serra.
Assim, a abertura da Estrada do Mar, no ano de 1926, proporcionou a ligação entre Paranaguá até a Praia de Leste, não mais por barcos, mas por terra. A construção da referida estrada também favoreceu o desenvolvimento de vilas balneárias, ao longo do caminho. No entanto, essa estrada trouxe um grande prejuízo ao patrimônio cultural. Para resolver os problemas de tráfego, o DER utilizou dezenas de sambaquis para corrigir as condições das estradas de areia. Segundo Bigarella (1999, p. 97), “Os administradores foram insensíveis e incapazes de compreender a importância do culto dos valores da cultura pré-histórica de uma nação”.
A partir daí, começaram a chegar os primeiros banhistas. Nessa época, os banhistas, na sua maioria provenientes de Curitiba, chegarem até Balneário de Matinhos por meio das “diligências”6 que, posteriormente, foram substituídas pela “lotação”7.
A população flutuante de Matinhos, na década de 30, durante a temporada de verão chegava a aproximadamente a 200 pessoas. O Balneário de Caiobá, o mais procurado, no ano de 1941, contava com mais de 20 casas de veraneio, mesmo sendo o acesso ao balneário possível somente pela praia.
Os banhistas, em sua maioria curitibanos de origem alemã, construíram suas casas no balneário de Matinhos –predominantemente, de madeira – e no balneário de Caiobá – predominantemente, de alvenaria. Desde seus primórdios, já estavam se construindo as diferenças de ocupação de cada um dos balneários., fato que, no futuro, concretizou-se com a elitização do espaço de Caiobá – o metro quadrado mais caro do litoral paranaense – e com a popularização do balneário de Matinhos, ainda que ambos pertençam ao mesmo município (Matinhos).
6 Diligências eram caminhões com bancos em que os passageiros se acomodavam. Era protegido por um toldo para dias de muito vento e chuva.
7
A maioria dos banhistas era de origem germânica e, por isso, de pele muito branca. Por terem essas características eram chamados pelos caboclos de “bicho -de-goiaba”.
Os banhistas dos primórdios do balneário de Matinhos frequentavam a praia, predominantemente, na temporada de inverno. A explicação disso pode ser a presença da malária, naquela época, na região, principalmente, no período do verão, ou ,talvez, em função do rigoroso inverno curitibano. E por isso, nas férias de julho, os banhistas vinham aproveitar o clima mais temperado do litoral. Até nos dias de hoje é muito comum observar os curitibanos visitarem o litoral, no período do inverno, e mesmo com as condições da água muito fria, tomavam banhos de mar.
Em janeiro de 1933, foi criada em Curitiba e com sede na mesma cidade, a Sociedade Anônima Cia Melhoramentos de Matinhos. Sua principal finalidade era resolver o abastecimento de água e iluminação elétrica, na localidade de Matinhos, sede do distrito de “Cayubá”, pertencente na época ao Município de Guaratuba.
A Companhia de Melhoramentos de Matinhos, em contrapartida, tinha o direito, com duração de 20 anos, de explorar as atividades referentes ao turismo (abastecimento de água, iluminação elétrica, esgoto domiciliar, limpeza sanitária, serviços de hotelaria e outros ramos correlatos) nos balneários de Matinhos e Caiobá. Alguns dos sócios dessa Companhia tinham adquirido terras, na região, e outros tinham interesse no negócio; a maioria deles era constituída de curitibanos.
A referida companhia não conseguiu concretizar seus propósitos. Tanto que as condições nos balneários de Matinhos e Caiobá, na década 1936-1937, não passavam de uns poucos hotéis e pensões, 68 casas em Matinhos e ,um pouco mais de 20 em Caiobá. Ao se observar a conjuntura das décadas que se sucederam, é possível compreender as dificuldades que se aportaram. O início do Balneário ocorreu em meio aos efeitos da quebra da Bolsa de Nova York (1929), o que, no contexto brasileiro, catalisou o fim da República Velha, os conflitos constitucionalistas (1932-1934), o Estado Novo, em 1937 e, logo em seguida a deflagração da II Grande Guerra Mundial (SAMPAIO, 2006; BIGARELLA, 1999).
Somente, na década de 1940, que essa questão foi superada com as obras do DNOS – Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que constituiu um conjunto de canais de drenagem, contribuindo para a erradicação da malária (SAMPAIO, 2006).
Quando o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial, no ano de 1942, o litoral foi considerado área de segurança nacional, e os alemães e italianos, que residiam na região, incluindo Matinhos, tiveram que deixá-la.
Na década de 1950, particularmente no Paraná, houve um grande crescimento demográfico, o que dará um novo fôlego para a ocupação balneária do litoral. A população do Estado quase dobrou entre as décadas de 1940 e 1950. A produção agrícola, do interior do Estado, foi responsável pelo grande crescimento do Estado e a necessidade de escoamento da produção gerou a construção de novas estradas até ao porto de Paranaguá. Esse fenômeno facultou a outras populações o acesso ao litoral para fins balneários. A partir daí, grandes movimentos de ocupação ocorreram, em todo o litoral, e potencializaram os já existentes como é o caso de Matinhos e Caiobá.
Portanto, a instalação do balneário de Matinhos – a partir da segunda metade da década de 20 do século XX - causou alterações profundas no meio ambiente. Já nessa época, quando foram instalados os primeiros loteamentos, as características primitivas das praias foram alteradas: cursos d‟agua e áreas de mangues foram aterrados, grandes conjuntos de dunas de contenção também foram removidos, assim como os conjuntos granilíticos.
A seguir, apresentaremos algumas questões sobre a ocupação do território e suas implicações.
1.2 A OCUPAÇÃO DO LITORAL E DE MATINHOS
da miscigenação dos carijós com os colonizadores portugueses, - mas daqueles que ali foram se estabelecendo e adquirindo grandes proporções de terras e aproveitando-se até, da ingenuidade do caboclo local.
Pierri (2006) classifica o uso do litoral paranense, na atualidade, em quatro tipos: O primeiro seria o uso portuário, no litoral norte, que compreende as cidades de Paranaguá e Antonina, que possuem portos estaduais e são responsáveis pelo escoamento da produção de grãos – soja e farelo – da sua área de influência. O porto de Paranaguá é o maior porto graneleiro da América Latina. O segundo tipo seria o uso para conservação da natureza. O litoral do Paraná tem grande riqueza natural e, hoje, se constitui como a maior área contínua preservada da Floresta Pluvial Atlântica (Mata Atlântica). Haja visto que 82% da área litorânea paranaense é voltada para conservação, constituída de Unidades de Conservação (UCs) estaduais e federais, sendo as maiores a APA8 de Guaraqueçaba e APA de Guaratuba. O terceiro tipo seria, o uso pesqueiro. Os sete municípios que constituem o litoral paranaense contam com uma população de 4.277 pescadores cadastrados, segundo SEAP (2005). E o quarto tipo seria o uso turístico (balneário e navegação
de recreação), com grande predominância dos municípios localizados na Planície de
Praia de Leste (centro sul do litoral) e Planície do Saí (extremo sul do litoral), compreendida pelos municípios de Pontal do Paraná, Matinhos, Guaratuba, Ilha do Mel (Paranaguá).
Segundo a autora Pierri (2006, p.152), o uso balneário acarreta dois grandes processos que envolvem populações diferentes e que acontecem, em diferentes ritmos, e até certo ponto, em diferentes espaços.
Por um lado, a influência dos turistas, sejam aqueles que constroem suas segundas residências, impulsionando a urbanização mais próxima ao mar e de melhor qualidade, como aqueles que visitam o litoral sem possuir casa própria. Por outro lado, a influência permanente de pessoas que vêm de outras regiões para estabelecer sua moradia no litoral, com as expectativas de melhorar sua renda e qualidade de vida, em grande parte pessoas de baixa renda, buscando novas oportunidades. Eles ocupam espaços menos valorizados, regular ou irregularmente e impulsionam a urbanização mais precária, sofrendo dia após dia as carências presentes de infra-estrutura e serviços.
8
Segundo Sampaio (2006, p 170), a ocupação do espaço do litoral paranaense como uso turístico (balneário) a partir do século XX obedece a dois interesses básicos
Primeiro, o interesse do estabelecimento junto às praias, do que tem sido derivado a apropriação de suas orlas (o que não ocorria por outros usos), e segundo, a sazonalidade, do que decorrem a presença concentrada em certos períodos – nas vilegiaturas, notadamente, mas também nos feriados e finais de semana – e o vazio na maior parte do tempo, o que produz por sua vez, a ociosidade de sua base construída – habitações, comércio, serviços e infra-estruturas técnicas e sociais – nessas ausências, e, particularmente em países e regiões subdesenvolvidas, a sobre carga e a incapacidade de atendimentos nos picos de freqüência, com conseqüências especialmente graves para o meio ambiente.
A ocupação para uso balneário pode ser constatada pelos números levantados pela Secretaria de Estado do Turismo (Setu) em 2006. Entre os anos de 2000 a 2006 a média nas temporadas foi de 1.518.826 turistas, sendo que 25% desse total afluem para o município de Matinhos.
A predominância desses turistas continua sendo de Curitiba, com cerca de 52.8%. Grande parte desses turistas possui casa própria, no litoral. Os demais são de outras regiões do Estado.
A maior procura pela ocupação do litoral, para finalidade balneária, foi dos espaços onde se localizavam as praias mais abrigadas, em que morros e bancos de areia amortecem a energia das ondas. Desses espaços, destacam-se Caiobá e Matinhos, Guaratuba e Pontal do Sul. Os demais espaços com “mar aberto” foram sendo também ocupados, ao longo do tempo
Segundo Sampaio (2006, p.175), o modelo de ocupação do espaço obedece a um
No caso do município de Matinhos, é possível constatar esse modelo de ocupação, ainda que em alguns locais mais próximos à sede do município e na região de Caiobá terem adentrado ao continente. Ao longo de seus 25 quilômetros de praias, Matinhos possui 32 balneários9, muitos com concentração de habitação distante uma das outras. Por isso, muitos dos balneários carecem de infraestrutura.
Os loteamentos, sempre de iniciativa privada, objetivando oportunidade de lucro, foram explorados sem qualquer forma de infraestrutura mínima, apenas com abertura de arruamento, sem pavimentação, água e esgoto. Os próprios arruamentos nem sempre têm continuidade, dependendo sempre do tamanho de cada gleba loteada e do aproveitamento da frente para o mar (SAMPAIO, 2006).
No final dos anos 1970, começam a se visualizar as consequências de uma ocupação desordenada, durante as décadas anteriores, e que tendia a se agravar em função da grande expansão que se avizinhava. Matinhos enfrentava um sério problema de erosão costeira, decorrente de construção de vias e passeios sobre a praia, expulsão de colônia de pescadores e impedimento do curso natural de pequenos rios para o oceano.
No balneário de Caiobá, o problema de edificações altas provoca sombra na praia, durante várias horas do dia, além de alterarem a paisagem e a dinâmica marinha, quando instaladas em áreas afetadas pela erosão, além de gerarem ilhas de calor devido à ausência de ventilação.
A poluição dos rios e da orla por esgotos e lixo doméstico também passou a ser consequência da ocupação desordenada do espaço. Essa ocupação desordenada é resultado da ganância e da ausência do Estado, na regulamentação do uso adequado do espaço. Segundo Sampaio (2006, p.176)
A ocupação desordenada do solo, particularmente, já era descrita no que tange o avanço sobre as praias, mas era detalhada, também em relação à desconsideração da base natural (ruas e lotes aprovados sobre manguezais e corpos d´água, por exemplo, ou a alteração
9 O município possui 32 balneários e 25 km de praias. São eles:Jd. Monções, Arco-Íris, Céu Azul,
cabal da paisagem), e, no que concerne ao próprio modelo, já se destacava tanto a ausência de um sistema viário adequado, que discriminasse as circulações locais e de velocidade e favorecesse o pedestre, quanto a tipologia de parcelamento, vista como adversa à manutenção da paisagem.
Diante de tal quadro, na década de 1980, o Estado passou a interferir nas políticas de ocupação do litoral paranaense. Por meio de estudo elaborado pelo IPARDES10, foi diagnosticada a “[...] fragilidade institucional dos municípios praianos, cujas condições – legislação urbana precária e insuficiência de recursos financeiros e humanos” (SAMPAIO, 2006, p. 177). Em função desse estudo, foi elaborado um documento de caráter consultivo, estabelecendo normas de ordenamento de ocupação do solo na Região do Litoral. Apesar de o documento ter caráter consultivo, este autorizava o Estado a interferir diretamente, caso não fossem colocados em prática, os novos ordenamentos.
Graças à eficácia da intervenção estadual, a orla sul do litoral paranaense foi poupada de ocupação desordenada e de grandes edifícios, na linha de frente para a praia. Mesmo com as pressões do mercado imobiliário, as zonas estabelecidas tiveram que ser respeitadas e não mais foram construídas edificações acima de 2 pavimentos, na linha de frente para a praia (SAMPAIO, 2006).
A partir do final dos anos 1980, os municípios praianos vêm vivenciando um crescimento significativo de população fixa, que procura os balneários com a expectativa de trabalho e melhor condições de vida. Essa onda migratória estabelece um novo sentido de ocupação até então predominantemente, de veraneio.
Em um estudo, realizado por Estades (2003), há o apontamento que entre as décadas de 1970 a 2000 a população do litoral foi duplicada. As taxas apresentadas, no período, estão acima da média nacional e estadual. Matinhos foi a que mais se destacou, principalmente na última década apontada. Teve uma taxa de crescimento entre os anos de 1991-2000 de 8,7% ao ano. Na década de 1970, Matinhos (4.317) tinha a metade da população de Guaratuba (9.734), e no final do período citado a relação já era de 80% da população de Guaratuba. A população de Matinhos, no censo 2010, é de 29.426 habitantes e a de Guaratuba de 32.088, indicando uma
relação de 91,7%, no contexto atual. Isso indica que Matinhos foi o município do litoral que mais cresceu com a migração nas últimas décadas.
O estudo descarta a possibilidade das altas taxas de crescimento serem decorrentes de processos endógenos de baixa mortalidade e altas taxas de fecundidade. Essa constatação indica que o crescimento se deve ao movimento migratório, caracterizado pelo “[...] crescente fluxo de pessoas pobres, em idade produtiva, majoritariamente saídas do interior do estado ou da própria RMC11, buscando oportunidade de trabalho e moradia” (ESTADES, 2003, p. 30).
O referido estudo constatou que o alto crescimento, nas cidades de Matinhos e Guaratuba, concentra-se “[...] majoritariamente em áreas menos valorizadas ou próximas às ocupações informais [...]” opostas à área próxima à praia e o maior número de imigrantes se localiza, em áreas de maiores taxas de crescimento e menor renda. Outro dado constatado por Estades (2003, p.38):
[...] nível de escolaridade dos chefes de domicílio imigrantes mostra maior proporção de pessoas com menos anos de escolaridade nas áreas mais carentes em termos de infraestrutura e serviços urbanos [...]
Os resultados do estudo levaram a autora a concluir que em “áreas de ocupação recente, com as taxas mais elevadas de crescimento populacional, os maiores volumes de imigrantes e os menores níveis de escolaridade dos chefes” (Ibidem, p. 38). Dentre essas áreas do litoral, encontra-se o município de Matinhos.
O crescimento de Matinhos e o das cidades praianas tem sido objeto de estudos, nas últimas décadas, e reforçam a necessidade de políticas públicas que atendam as novas demandas. Segundo Moura e Werneck (2000, p. 80)
Tal aumento diversificado requer um melhor preparo das estruturas administrativas para o atendimento de um volume maior de necessidades, como também impõe a articulação para o exercício do atendimento conjunto das funções públicas de interesse comum a mais de um município
Com esse crescimento, as fronteiras dos municípios do litoral são extrapoladas e, portanto, as políticas precisam ser integradas para que possam ter efeito.
1.3 MATINHOS DE HOJE
Figura 05: Vista da Orla de Matinhos – ao fundo o morro do boi e balneário de Caiobá.
Fonte: Acervo da Prefeitura Municipal de Matinhos.
Segundo o censo IBGE12 2010, a população total é de 29.426 habitantes, sendo 29.277, na área urbana, e 149 na área rural. Do total de habitantes, 48,7 % da população é do gênero masculino e 51,3% do gênero feminino.
Dados do IBGE/IPARDS13, referentes ao ano de 2000, constatam que 5.296 pessoas vivem em situação de pobreza, constituído de 1.345 famílias vivendo nessas condições. Isso representava, na época, 21,9% da população. Esse dado é representativo e reflete o que até aqui já descrevemos sobre a ocupação do litoral.
A densidade demográfica é de 205,29 hab/km2 e o índice de urbanização é de 99,37%.
No ano de 2000 (IBGE), a taxa de analfabetismo de pessoas com 15 anos, ou mais era de 5,8% da população.
A economia é basicamente de serviços de caráter sazonal. Há uma economia local, mas muito frágil e totalmente, dependente da sazonalidade da “temporada” de verão. Para a maioria dos comerciantes, o período para gerar receita é durante a curta temporada, que normalmente não passa de 45 dias por ano. Nos demais meses do ano, o comércio equilibra as receitas com o que arrecadou, na temporada. A população, de modo geral, também utiliza a temporada para receita extra, trabalhando em período extra com os trabalhos temporários. Muitas pessoas durante os dias da temporada trabalham ininterruptamente
Para muitos jovens a temporada é a forma de conseguirem trabalho e ajudarem suas famílias com renda extra. Quase que a totalidade dos empregos gerados, nesse período, cessam com o fim da temporada.
A partir de 2005, a cidade passou a contar com duas instituições de ensino superior sediadas, no município. Uma delas é a UFPR Setor Litoral que foi instalada, no segundo semestre de 2005, e hoje conta com 11 cursos de graduação e 4 de gradução tecnológica. Essa IES possui, aproximadamente, 2000 alunos, na sua maioria da região litorânea. A instalação da Universidade Federal do Paraná Setor Litoral representa um importante marco para o município, não só do ponto de vista da oferta de vagas de ensino superior público, mas também por ser um aporte econômico significativo, pois por meio dos salários dos funcionários e professores, mensalmente saem recursos da esfera pública federal para a economia do
12 IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
município. Isso produz imediatamente, um impacto significativo em uma economia frágil.
No entanto, o maior benefício está no longo prazo. A universidade é uma usina de conhecimento e isso trará desenvolvimento social para a cidade e região, gerando uma massa crítica necessária; a reboque virá o desenvolvimento econômico.
Também no princípio do ano de 2005, foi instalada uma extensão do curso de Pedagogia do Campus FAFIPAR/Paranaguá da Universidade Estadual do Paraná – UEPR. A instalação do curso de Pedagogia representa uma importante conquista para qualificação dos professores do município de Matinhos. A grande maioria dos primeiros alunos do curso era constituída por professores da Secretaria de Educação, Esporte e Cultura que ainda não possuíam graduação.
Certamente, o ano de 2005 ficará na história do município de Matinhos como um marco divisor de águas, representando principalmente, pela instalação da UFPR Setor Litoral.
1.5 O LOCUS DA INVESTIGAÇÃO
Apresentada a síntese histórica da formação do município de Matinhos, importa responder a pergunta: Porque investigar a Secretaria de Educação, Esporte e Cultura de Matinhos14-PR?
Na introdução desse trabalho, estão delineadas as questões norteadoras: o fenômeno que ocorreu em Matinhos é semelhante ao que vem ocorrendo em outras secretarias municipais espalhadas pelo país.
Desse modo, a investigação desse fenômeno reveste-se de grande relevância, pois investigá-lo representa também, compreender algo que extrapola os limites geográficos e culturais do município de Matinhos
A caracterização a seguir do lócus investigativo fornecerá o detalhamento que corrobora com a justificava a pergunta inicial.
O Município de Matinhos conta com uma rede que atende a Educação Fundamental dos anos iniciais e a Educação Infantil.
São oito escolas de Ensino Fundamental que, no ano de 2009, atendiam um número total de 2.825 crianças, conforme quadro a seguir:
Quadro 01: Escolas de Ensino Fundamental dos Anos Iniciais
Escola Bairro No de Alunos
Profo. Caetano Paranhos Caiobá 216
Francisco dos Santos Júnior Tabuleiro 582
Profa Leocádia O dos Santos Centro 215
Wallace Thadeu de Mello e Silva Centro 574
Oito de Maio Sertãozinho 268
Luiz Carlos dos Santos Rio da Onça 228
Monteiro Lobato Rivieira 314
Pastor Elias Abrahão Perequê 428
TOTAL DE ALUNOS 2825
As unidades escolares estão localizadas todas, na área urbana, do município, sendo a escola Pastor Elias Abrahão a mais distante da sede administrativa.
A Secretaria da Educação, Cultura e Esporte atende também a Educação Infantil, com nove centros espalhados pela área urbana do município.
A partir do ano de 2007, foi implantado o ensino de nove anos, no Ensino Fundamental.
As unidades escolares15 de Ensino Fundamental, mantidas pela Secretaria de Educação são, na sua maioria construções edificadas em pequeno espaço territorial. Isso significa que há pouco espaço para circulação e para as atividades de lazer das crianças. Em três unidades, não há espaço adequado para a recreação infantil. Os
espaços que separam os prédios são reduzidos e estão mais para corredores do que para espaços recreativos.
Apenas quatro unidades desfrutam de quadra poliesportiva, sendo que em uma delas a quadra não é própria. Ela pertence a uma escola estadual que funciona lado a lado com a unidade e cede o espaço para as crianças desenvolverem as atividades recreativo-esportivas. Dessa maneira, significa que apenas 50% das escolas possuem condições adequadas para as práticas recreativo-esportivas.
Duas unidades (centro e tabuleiro) podem ser consideradas “modelo” do ponto de vista das condições materiais, pois possuem biblioteca, salas adequadas, espaço para os professores e auditório. Uma deles possui laboratório de informática e amplo espaço para recreação.
Algumas escolas apresentam estado crítico. Uma delas, localizada no centro da cidade, muito pequena, a situação é gritante. As salas não possuem forro. A construção é baixa e o telhado é de calhas de fibroamianto chamadas de “calhetão”. Esse tipo de telhado provoca um efeito “estufa” nas salas de aula e administrativas, de forma que qualquer tipo de trabalho fica impraticável, principalmente em se tratando de trabalho intelectual, com crianças de 6 a 10 anos de idade.
A escola, responsável pelo atendimento de crianças, que vivem em áreas de risco social, também é muito pequena para o número de alunos. Para atividades recreativo-esportivas, as crianças precisam ser deslocadas até um ginásio municipal que fica a algumas quadras da escola. Essa situação cria problemas para os professores responsáveis pelas atividades, pois a responsabilidade de sair com as crianças do espaço escolar até outro local é preocupante.
A maioria delas não possui o espaço adequado para os professores terem seu tempo de estudo, intervalo e para armazenarem seu material, adequadamente. Da mesma forma não há espaço adequado para biblioteca. Na maioria das vezes, são mais salas para armazenar os livros, do que espaço para pesquisa e o estudo.
Três unidades escolares, 37,5% do total, possuem as condições adequadas para o trabalho pedagógico. As outras cinco, que corresponde a 62,5% do total, carecem de melhores condições.
A rede de Educação Fundamental do município possui 18916 professores efetivos e 1 (um) professor contratado, perfazendo um total de 190 (cento e noventa)
professores. Desses, 180 (cento e oitenta) são do gênero feminino e 10 (dez) do gênero masculino.
O quadro de professores, em termos de gênero, segue basicamente o fenômeno da feminização do magistério, que é não só nacional mas mundial.
Sobre as condições salariais dos professores, há pouca valorização do profissional docente. Existe um plano de cargos e salários (anexo 1), aprovado em 2000, mas que não tem sido aplicado pelas gestões que se sucedem. Os salários não sofrem reajustes, desde a aprovação do referido planos de cargos e salários, no ano de 2000. Os salários estão defasados e não oferecem as condições de valorização do magistério.
No ano de 2009, foi criado pela atual gestão um bônus por assiduidade no valor de R$ 150,00 reais aos professores que não excederem o número de três faltas no mês. Não se trata de um aumento, ou reajuste. É um bônus e pode ser retirado a qualquer momento pelo atual gestor, ou pelo que venha a sucedê-lo.
No âmbito das políticas de currículo, fazendo um recorte a partir do ano de 2004, três formas de organização do currículo foram praticadas pela Secretaria de Educação.
As três formas relatadas são descritas a seguir:
1. Até 2004 – O currículo era organizado e apresentado aos professores em forma de um rol de conteúdos. Os professores recebiam uma apostila reproduzida pela Secretaria de Educação, por série17. Não havia recomendação de encaminhamentos no material, apenas eram relacionados os conteúdos.
2. Do ano de 2005-2008 –Convênio com “AZ” – A partir de 2005 a Secretaria de Educação firmou um convênio com uma empresa educacional de Curitiba para fornecer material didático (professor e alunos) para educação infantil e Material de orientação para os professores de ensino fundamental. O convênio não previa fornecimento de material para os alunos do ensino fundamental. Os professores recebiam um manual por área/ano com os conteúdos e os encaminhamentos metodológicos. Além disso, o convênio previa treinamento para os professores colocarem em prática a proposta sintetizada no material.
3. A partir de 2009 – Mudança de Gestão na prefeitura e do novo secretário de educação – A convênio com “AZ” foi cancelado e durante o ano de 2009 os professores receberam um material muito semelhante ao que já aplicavam antes do convênio com “AZ”. Era uma apostila elaborada pela equipe da Secretaria de Educação. Em 2010 foi iniciado um novo convênio “BB”18 com uma empresa de informática educacional da capital do estado. Diferente do anterior esse convênio era para fornecimento de equipamentos de informática educacional (telões de LCD, Netbooks e servidores) e treinamento dos professores. Ao longo de 2010 os equipamentos foram sendo instalados nas escolas e a partir de 2011 começaram a ser utilizados. Simultâneamente em 2010 foi entregue aos professores Diretrizes Curriculares elaboradas pela equipe da Secretaria. As diretrizes organizaram o currículo por ano/conteúdos e traziam os encaminhamentos metodológicos. Em nossa investigação não nos deteremos a analisar esse período. No entanto, ele estará como pano de fundo nos depoimentos dos professores como mais uma mudança.
Essas mudanças que serão, nos capítulos seguintes, amplamente discutidas foram as inspiradoras e impulsionadoras deste trabalho. Em um curto espaço de tempo, os professores foram submetidos a bruscas mudanças de políticas, no âmbito da organização curricular.
Esse fenômeno não é apenas limitado à realidade do município de Matinhos. Muitos outros municípios e Estados têm levado seus quadros de professores a conviverem com mudanças contínuas. A descontinuidade de políticas certamente tem produzido muitos malefícios aos professores e à educação dentro dos sistemas e redes de ensino.
Desse modo, diante do que até aqui foi descrito, direcionar esforços para investigativar o que ocorreu em Matinhos justifica a escolha desse “lócus”. A escolha não se deu por comodidade ou preferências pessoais do pesquisador. Ela é decorrente das peculiaridades que o movimento das mudanças de organização de currículo produziram e ainda produzem junto ao professorado da Secretaria de Educação de Matinhos
É nesse contexto que este trabalho se articula e busca entender como os professores – os protagonistas da mudança – agem, reagem e sobrevivem.
CAPÍTULO 2
A PESQUISA E O PESQUISADOR: UM MOVIMENTO CONTÍNUO
O presente capítulo retrata a caminhada do pesquisador, seus anseios, seus erros e suas frustrações, mas também seus acertos e aprendizado com e no processo.
Qualquer investigação, e por sua vez construção de conhecimento, não se faz de modo solitário. As palavras de Paulo Freire são reveladoras quando afirma que “Conhecer é um evento social, ainda que com dimensões individuais” (2006, p. 123).
Portanto, os sujeitos da pesquisa, que voluntariamente se submeteram a fornecer informações e doaram seu tempo e sua atenção, e os autores utilizados, que percorreram uma longa caminhada intelectual, para fornecer a esteira do entendimento da realidade, são figuras fundamentais. Também os colegas do grupo de orientação que, ao longo da caminhada, ajudaram com suas contribuições, quer coletivamente, quer em conversas informais. Outra pessoa fundamental foi o orientador que, à distância e por vezes muito próximo forneceu o desafio adequado para o desenvolvimento da pesquisa. Dessa maneira, todas essas pessoas formaram um coletivo inegável e, portanto, um argumento irrefutável para afirmar que nenhuma investigação se constrói solitariamente.
No entanto, há um espaço, há momentos, há “uma dimensão individual” na caminhada ou no processo, permeados pela necessária solidão. O momento da crise, dos dilemas e das decisões que necessariamente a investigação impõe. Assim, é desse espaço, desses momentos e dessa dimensão, que trata este capítulo.
Situamos a narrativa, como síntese da grande aprendizagem. Os resultados são importantes e validam a pesquisa, mas não podem ofuscar o que está atrás da cortina: aquilo que foi vivenciado e experimentado momento a momento, para chegarmos a ele.
construção de um caminho investigativo, desafiador, cheio de surpresas, mas que erigiu novas possibilidades e novos interesses para o trabalho docente.
Convidamos o leitor a se aproximar do texto com esse olhar. Transformando a leitura em uma aventura mais próxima das experiências e dos dilemas do autor.
2.1 A ABORDAGEM PARA A CONSTRUÇÃO DA INVESTIGAÇÃO
No contexto atual das pesquisas em educação, a opção mais natural é a pesquisa de abordagem qualitativa – e também é a mais usual -, mas nem sempre foi assim. Em um passado recente, a predominância das pesquisas em educação era a de abordagem quantitativa.
Parece uma questão simples a ser respondida, mas que na realidade revela-se complexa, pois a indagação pode revela-ser ampliada nos revela-seguintes termos: Poderia revela-ser qualquer tipo de pesquisa qualitativa? O que caracteriza um tipo de pesquisa qualitativa? Como se manter coerente a um determinado tipo de pesquisa qualitativa?
Seguir adiante significou buscar respostas para algumas dessas questões levantadas, que vão se dirimindo à medida que o texto vai avançando. Assim, o texto pode ser tomado como o desenvolvimento das etapas constituintes da investigação.
Nesse sentido, os autores que vão sendo citdos indicam pouco a pouco as opções ao longo do processo..
Assim sendo, a pesquisa de abordagem qualitativa foi a opção escolhida, tendo em vista a problemática desta investigação que elegeu como, a mais adequada para compreender o fenômeno.
Gamboa (2001, p. 95) afirma que
utilizando técnicas abertas que permitem a manifestação profunda dos fenômenos (técnicas qualitativas) [...].
A pesquisa de abordagem qualitativa é capaz de se aprofundar sobre o fenômeno. Nesse sentido, as técnicas desse tipo de abordagem, ao partirem de fenômenos que são aparentemente simples, são capazes de expor a complexidade da vida humana e desvelam significados que são ignorados, aos quais a pesquisa de abordagem quantitativa não é capaz de chegar (CHIZZOTTI, 2000).
Chizzoti (2000, p. 79) afirma que a pesquisa qualitativa
[...] parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito.
Assim, o pesquisador é parte constituinte do processo de produção do conhecimento, na medida em que ele interpreta os fenômenos e lhes atribui significados. O objeto e o sujeito, que pesquisa, não são neutros. O objeto está permeado de significados que são construídos nas relações entre sujeitos concretos. Da mesma forma, o sujeito que pesquisa tem sua percepção permeada pela síntese das relações concretas que ele construiu ao longo de suas experiências, vivências e formação.
Segundo Bogdan e Biklen (1994) a pesquisa qualitativa apresenta cinco características básicas. A primeira característica destacada é que a pesquisa qualitativa tem, no ambiente natural a fonte direta de dados e o pesquisador é seu principal instrumento. Desse modo, o pesquisador precisa, necessariamente, estabelecer um contato prolongado com o ambiente em que irá ocorrer a investigação; onde o objeto será investigado.