UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
BRENO EITEL ZYLBERSZTAJN
JOHN F.C. TURNER: VIDA, OBRA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A REVISÃO DA POLÍTICA HABITACIONAL NOS ANOS 1970
São Paulo
2018
UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO
JOHN F.C. TURNER: VIDA, OBRA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A REVISÃO DA POLÍTICA HABITACIONAL NOS ANOS 1970
BRENO EITEL ZYLBERSZTAJN
ORIENTADOR: Prof. Dr. José Geraldo Simões Junior.
CO-ORIENTADOR: Prof. Dr. Candido Malta Campos Neto
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie para obtenção do título de Mestre.
São Paulo
2018
ESTE TRABALHO FOI FINANCIADO PELO FUNDO MACKENZIE DE PESQUISA
AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A
FONTE. ASSINATURA: E-MAIL: [email protected]
Z99j Zylbersztajn, Breno Eitel.
John F. C. Turner : vida, obra e sua contribuição para a revisão da política habitacional nos anos 1970 / Breno Eitel Zylbersztajn.
149 f. : il. ; 30 cm
Dissertação (mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018.
Orientadora: José Geraldo Simões Junior.
Bibliografia: f. 127-137.
1. Turner, John F.C. 2. Autoconstrução assistida. 3. Participação social em projetos urbanos e habitacionais. I. Simões Junior, José Geraldo, orientador. II. Título.
CDD 720.981
Dedico este trabalho à minha avó, mulher guerreira, a minha mãe, mulher que me ajuda no percurso da vida, dedico ao meu pai que me aconselha na tomada de decisões, às minhas irmãs Larissa e Thais e, principalmente, aos meus sobrinhos Alice, Irene e Theodoro.
Dedico ainda ao Prof. Dr. José Geraldo Simões Junior, à Prof. Dra. Eunice Helena S. Abascal e a todos os profissionais da educação, um campo que precisa ser mais valorizado neste país.
Uma dedicação especial à Cora Coralina que me
fez companhia durante todo o processo, sempre
ao meu lado.
Agradecimentos
Imerso em uma pesquisa que contraria posicionamentos políticos e ideológicos de atores da academia paulista, expresso os meus agradecimentos aos que contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho.
Agradeço o Prof. Dr. José Geraldo Simões Jr. pela liberdade investigativa e incentivo acadêmico que me ajudou a enfrentar dificuldades desta pesquisa, à Profa. Dra. Eunice Helena Abascal que me acompanha desde a juventude na infâmia do desejo de estudar, ao Prof. Dr. Candido Malta Campos Neto que escuta e se posiciona quando se trata da ciência do urbanismo, à Dra. Suzana Pasternak por sua generosidade em compartilhar conhecimento e à Profa. Dra.
Angélica Aparecida Tanus Benatti Alvim por seu olhar atento sobre o trabalho acadêmico.
Agradeço a equipe do Arquivo Turner da Universidade de Westminster - Londres, que me acolheu e, além de me ajudar a ampliar o escopo e substanciar o universo de pesquisa, me colocou em contato com o Professor John F.C. Turner.
E também ao Professor John F.C. Turner, que nas poucas palavras trocadas, demonstrou interesse pela pesquisa.
Não posso deixar de agradecer a Erica Rath-Prado e Tito Cordeiro (Stardust) que me receberam na ensolarada cidade londrina. Agradeço a Nicolle de Bari que, além de assistente de pesquisa, é amiga do peito.
Agradeço aos colegas que me emprestaram seus ouvidos atentos para ter uma interlocução saudável durante a solitária pesquisa de mestrado: ao Mestre Lucas Girard, Sarah de Oliveira, Dr. José Carlos Espinoza, João Sette, Victor Sardenberg.
Um agradecimento especial a equipe da Terceira Margem - Consultoria urbana e ambiental, à Bruna Aydar, Isabella Previti, Florence Rodrigues, Raquel Bitu, Pedro Heldt e Daniel Oliveira. Quem sabe juntos a gente consegue construir comunidades resilientes!
Não poderia deixar de reconhecer minha parceira e companheira, confidente,
Helena Caixeta Peres Silva, um amor em constante crescimento.
The political merchandiser appeal only to the weaknesses of voters, never to their potential strength. They make no attempt to educate the masses into becoming fit for self- government; they are content merely to manipulate and exploit them. (HUXLEY, 2004, p.73)
We can be educated for freedom - much better educated for it than we are at present. But freedom, as I have tried to show, is threatened from many directions, and these threats are of many different kinds - demographic, social, political, psychological. Our disease has a multiplicity of co-operating causes and is not to be cured except by a multiplicity of cooperating remedies. In coping with any complex human situation, we must take account of all the relevant factors, not merely of a single factor. Nothing short of everything is ever really enough. Freedom is menaced, and education for freedom is urgently needed.
But so many other things - for example, social organization for freedom, birth control for freedom, legislation for freedom. (HUXLEY, 2004, p. 143)
He [Turner] evolved an ideology of housing applicable to the exploding cities of the Third World. But when he moved from South to North America [...] he found that the ideas he had formulated in Peru were also true of the richest nation in the world, and when he returned to England [...] he found that the housing situation in Britain too fitted his formulation. He was perhaps to his surprise, expressing universal truth about housing. (WARD
in TURNER, 1976, p, 5)
Os políticos marqueteiros apelam apenas para a fraqueza de seus eleitores, nunca para sua força potencial. Eles não fazem nenhuma tentativa de educar as massas para se adequarem ao autogoverno; eles se contentam apenas em manipulá-los e explorá-los. (HUXLEY, 2004, p.73)
Podemos ser educados para a liberdade - muito melhor educado para isso do que somos no presente. Mas a liberdade, como tentei mostrar, está ameaçada de várias formas, e essas ameaças são de múltiplos tipos - demográficas, sociais, políticos, psicológicos. Nossa doença tem uma multiplicidade de causas e não dá para ser curado, exceto por uma multiplicidade de remédios. Ao lidar com qualquer situação humana complexa, devemos levar em conta todos os fatores relevantes, e não apenas um único fator. Nada menos que tudo é realmente suficiente. A liberdade é ameaçada e a educação para a liberdade é urgentemente necessária. Mas tantas outras coisas são ameaçadas - por exemplo, organização social para a liberdade, controle de natalidade para a liberdade, legislação para a liberdade. (HUXLEY, 2004, p. 143)
Ele [Turner] desenvolveu uma ideologia de habitação
aplicável às cidades em expansão do Terceiro Mundo. Mas
quando ele se mudou da América do Sul para a América do
Norte [...] ele descobriu que as ideias que ele havia
formulado no Peru também eram verdadeiras na nação
mais rica do mundo, e quando ele voltou para a Inglaterra
[...] ele descobriu que a situação da habitação na Grã-
Bretanha também encaixava em sua formulação. Ele
estava, talvez para sua surpresa, expressando a verdade
universal sobre a habitação (WARD in TURNER, 1976, p, 5)
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo compreender a formação, atuação profissional e ideário do urbanista John F.C. Turner, e elucidar a contribuição direta e indireta do urbanista para a formulação de políticas, programas e projetos de habitação de baixo custo durante a década de 1970 com foco em São Paulo. Para tanto, faz-se um corte transversal na história do urbanista Turner, objeto desta pesquisa, do período de sua formação acadêmica até a consultoria prestada para o município de São Paulo no projeto conduzido pelo IPT, Diretrizes Habitacionais (1977). Ao analisar o caminho de um ideário na formulação de políticas públicas, pretende-se demonstrar a referência do urbanista Turner na ciência do urbanismo paulista. Portanto, como recorte, a pesquisa focaliza a formação, atuação profissional e consultoria do urbanista John F.C. Turner em São Paulo (1977). Considero este trabalho a introdução a um campo de pesquisa em ascensão, que seria o da participação dos beneficiários em projetos de urbanização de favelas e projetos habitacionais.
Palavras-chave: John F.C. Turner, autoconstrução assistida, participação social
em projetos urbanos e habitacionais
ABSTRACT
The purpose of this paper is to understand the formation, professional performance and ideology of urban planner John F. Turner and to elucidate the direct and indirect contribution of the urban planner to the formulation of low cost housing policies, programs and projects during the 1970s in São Paulo. In order to do so, a cross-section is made in the history of the urban planner Turner, object of this research, from the period of his academic formation to the consultancy given to the municipality of São Paulo in the project conducted by the IPT, Habitat Guidelines (1977). When analyzing the path of an ideology in the formulation of public policies, we intend to demonstrate the reference of urban planner Turner in the science of urbanism in São Paulo. Therefore, as a cut, the research focuses on the formation, professional performance and consulting of urban planner John F. C. Turner in São Paulo (1977). I consider this work the introduction to a field of research on the rise, which would be the participation of the beneficiaries in projects of urbanization of favelas and housing projects.
Key-words: John F.C. Turner, aided self-help project, social participation in
urban and housing projects
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AA Architectural Association School AHAS Housing Advisory Services
APRR Association for Planning and Regional Reconstruction PRRD Planning and Regional Reconstruction Development
BNH Banco Nacional Habitação
CIAM Congresso Internacional Arquitetura Moderna
CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico COHAB Companhia Metropolitana de Habitação
DPU University Colledge of London - Bartlett The Development Planning Unit
EUA Estados Unidos da América
FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço IPT Instituto de Pesquisa e Tecnologia
JFCT-AW John Francis Charlewood Turner - Arquivo Universidade de Westminster MARS Modern Architectural Research Group
MIT Massachusetts Institute of Technology
MoMA Museum of Moderns Art
ONG Organização Não Governamental
ONU Organização das Nações Unidas
SERPHAU Serviço Federal de Habitação e Urbanismo UCL University College of London
UN-IYSH United Nations - International Year of Shelter for the Homeles UN-Habitat United Nations Habitat
UN-TV United Nations TV
USDC Urban Settlement Design in Developing Countries
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1: DIAGRAMA DE TURNER (TURNER, 1976, P. 29). ... 31 FIGURA 2: QUEM DECIDE O QUE E PARA QUEM? O DIAGRAMA EXPÕE A RELAÇÃO ENTRE OS
FINANCIADORES E BENEFICIÁRIOS. PONTO 1: DIAGRAMA DE TURNER (TURNER, 1976, P. 63) ... 32 FIGURA 3: PATRICK GEDDES, "NOTATION OF LIFE". DEFRIES, AMELIA. THE INTERPRETER GEDDES: THE MAN
AND HIS GOSPEL. 1927. (TYRWHITT, 1949). ... 35 FIGURA 4: DIAGRAMAS GEDDESIANOS. (TURNER, 1976, P 103); (TURNER, 1976, P. 160) ... 36 FIGURA 5: MODELO SIMPLIFICADO PARA O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO HABITACIONAL BASEADO EM
GEDDES E BERTALANFFY. (TURNER, 1976, P.63) ... 36 FIGURA 6: AS ANOTAÇÕES ANALÍTICAS DE TURNER SOBRE A OBRA DE GEDDES ELUCIDAM AS RELAÇÕES
ENTRE EXPERIÊNCIA, PRÁTICA, TEORIA E PROCESSOS DE DECISÃO EM RELAÇÃO AO MATERIAL, AMBIENTE, FORMA E FUNÇÃO DO PROCESSO. JOHN F. C. TURNER, “ARCHITECTURAL EDUCATION: THE INTELLECTUAL FOR THE CREATIVE LIFE.” MAR. 1948. JFCT-AW (GYGER, 2013, P. 348) ... 37 FIGURA 7: A RELAÇÃO ENTRE OS ELEMENTOS E PROCESSOS DE DECISÃO. JOHN F.C. TURNER, NOTES ON THE
PROCESS OF "CONTINOUS ADJUSMENT", CA. 1957. JFCT-AW. (GYGER, 2003, P. 348) ... 38 FIGURA 8: O ARTIGO DE TURNER PUBLICADO NA REVISTA FREEDOM N. 10 EM JANEIRO DE 1948. (TURNER,
1948 APUD OYÓN, 2016, P. 42. ... 39 FIGURA 9: A UNIDADE HABITACIONAL AUTOCONSTRUÍDA E AMPLIÁVEL DE GEDDES PUBLICADA NO INDORE REPORT (1918) APUD OYÓN, JOSÉ LUIS, P. 42. ... 40 FIGURA 10: PLAN 6 (1949). (GYGER, 2013, P. 350) ... 41 FIGURA 11: PIONEES HELTH CENTER, PECKHAM. PLAN 7 (1950). (GYNGER, 2003, P. 351) ... 42 FIGURA 12: CONSTRUÇÃO - ARQUITETURA E EDUCAÇÃO. PLAN 6 (1949). "A FIGURA REPRESENTANDO
ARQUITETURA É ERNESTO ROGERS, QUE LECIONOU NESTE PERÍODO POR UM CURTO PERÍODO DE TEMPO NA AA"." (GYGER, 2013, P. 350) TRADUÇÃO NOSSA. ... 43 FIGURA 13: A INTERPRETAÇÃO DE SMITHSON DO VALLEY SECTION DE PATRICK GEDDES. DISPONÍVEL EM:
TEAM 10: IN SEARCH OF A UTOPIA OF THE PRESENT. 1953 - 81, P. 48. ... 45 FIGURA 14: THE VALLEY SECTION. PATRICK GEDDES. CENTER FOR RESEARCH. UNIVERSITY OF EDINBOURG.
DISPONÍVEL EM.:
<HTTP://IMAGES.IS.ED.AC.UK/LUNA/SERVLET/DETAIL/UOEHAL~2~2~99338~100004>. ACESSO EM.:
07/06/2016 ... 47 FIGURA 15: THE DOORN MANIFESTO - HABITAT. ALISON E PETER SMITHSON. DISPONÍVEL EM.:
HTTP://WWW.PISOPILOTO.ORG/ES/POST/VIEW/DOORN-MANIFESTO-TEAM-10/. ACESSO EM.:
03/05/2015. TAMBÉM DISPONÍVEL EM.: TEAM 10: IN SEARCH OF A UTOPIA OF THE PRESENT. 1953 - 81. P. 42. ... 48 FIGURA 16: FOTO DO CONJUNTO HABITACIONAL ROBIN HOOD GARDEN ANTES DE SUA DEMOLIÇÃO.
AUTOR: BRENO EITEL ZYLBERSZTAJN FEV/MAR DE 2017. ... 49 FIGURA 17: _. EKISTICS/OIKI TIH - THE PROBLEMS AND SCIENCE OF HUMAN SETTLEMENTS: MARY
JAQUELINE TYRWHITT IN MEMORIAN. GRÉCIA: ATHENS CENTER OF EKISTICS OF THE ATHENS
TECHNOLOGICAL ORGANIZATION. VOLUME 52. NUMERO 314/315. SET./OUT. - NOV.DEZ. 1985. ... 51 FIGURA 18: AREQUIPA, CIRCA DE 1957. JFCT-AW / GYGER, 2013, P. 353 ... 61 FIGURA 19: URBANIZAÇÃO MARIANO MELGAR, MIRAFLORES. 1957. JFCT-AW. ... 63 FIGURA 20: PROJETO DE URBANIZAÇÃO E AMPLIAÇÃO URBANA PARA AREQUIPA 1957 - 1962. EM
VERMELHO COM CONTORNO PONTILHADO TÊM-SE DELIMITADA A ÁREA PARA A CIDADE SATÉLITE.
JFCT-AW / GYGER, 2013. ... 64 FIGURA 21: PROJETO PARA A NOVA CIDADE. NOVEMBRO DE 1957. JFCT-AW / GYGER, 2013. ... 64 FIGURA 22: JORNAL LA PRENSA, S/D. C. 1958. ... 66 FIGURA 23: RECORTES DE JORNAIS NÃO ESPECIFICADOS MOSTRAM A REPERCUSSÃO DO PROJETO CIUDAD
MI TRABAJO. ... 67 FIGURA 24: ASSEMBLÉIA, AREQUIPA. 1958. A FOTO ILUSTRA UMA VOTAÇÃO DURANTE A ELABORAÇÃO DE
UM PROJETO PARTICIPATIVO DA UNIDADE HABITACIONAL. JFCT-AW. ... 68 FIGURA 25: PROJETO DE AUTOCONSTRUÇÃO ASSISTIDA ESTÁGIOS DE AVALIAÇÃO E EDIFICAÇÃO DOS
PROJETOS HABITACIONAIS. JOHN F. C. TURNER, THE HOUSING AND PLANNING PROBLEMS OF
AREQUIPA, PERU, 1959–1960. ... 69
FIGURA 26: ARQUITETOS NÃO SÃO MÁGICOS. FONTE: SANTOS, CARLOS NELSON FERREIRA. ASSOCIAÇÃO DE MORADORES: ESTARÃO AS PRANCHETAS MUDANDO DE RUMO?. S/D. DISPONÍVEL EM ARQUIVO TURNER, UNIVERSIDADE DE WESTMINSTER - LONDRES. ... 92 FIGURA 27: O TÍTULO DA MATÉRIA DO CADERNO ESPECIAL DA REVISTA MANCHETE DE 1969 EXPRESSA O
APOIO E CRENÇA DA MÍDIA IMPRESSA PELA POLÍTICA IMPLEMENTADA PELO BNH: O
DESFAVELAMENTO A PARTIR DA CONSTRUÇÃO SUBSIDIADA DE CONJUNTOS HABITACIONAIS. ALGO QUE SE MOSTROU POUCO EFICIENTE E QUE TURNER COMBATIA. FONTE: REVISTA MANCHETE, RIO DE JANEIRO, 1969. DISPONÍVEL EM JFCT-WM ... 94 FIGURA 28: TURNER AFIRMA QUE TRABALHO É SOLUÇÃO PARA OS FAVELADOS. JORNAL DO BRASIL, RIO DE
JANEIRO, 25 DE JANEIRO DE 1968. CADERNO 1. P.16. DISPONÍVEL EM:
<HTTPS://NEWS.GOOGLE.COM/NEWSPAPERS?NID=0QX8S2K1IRWC&DAT=19680125&PRINTSEC=FRO NTPAGE&HL=EN> ACESSO EM 14 DE MAIO DE 2017. ... 95 FIGURA 29: DIVULGAÇÃO DO EVENTO. ... 95 FIGURA 30: CHARGE PRESENTE NA PUBLICAÇÃO DA REVISTA DO IAB QUE IRONIZA, NA CASA MÍNIMA, A
LEITURA DE TURNER DO TERRITÓRIO INFORMAL. PROVOCATIVA, MOSTRA A RELUTÂNCIA DO MEIO TÉCNICO PROFISSIONAL EM PROCURAR ALTERNATIVAS HABITACIONAIS PARA POPULAÇÕES
VULNERÁVEIS. ... 96 FIGURA 31: DIAGRAMA DA RELAÇÃO ENTRE PRIORIDADES E RENDA FAMILIAR, DO ARTIGO A NEW VIEW OF HOUSING DEFICITE (TURNER, 1966, P. 3) ... 101 FIGURA 32: O PROJETO HABITACIONAL VILLA KENNEDY, RJ - FOI UMA RESPOSTA DO GOV. LACERDA PARA
COMBATER O DEFICIT HABITACIONAL E DESFAVELAR O RIO DE JANEIRO. IMPOSSÍVEL DE NÃO NOTAR A SEMELHANÇA AO MCMV. FOTO DE 1963. DISPONÍVEL EM:
<HTTP://ASHISTORIASDOSMONUMENTOSDORIO.BLOGSPOT.COM.BR/2011/08/A-ESTATUA-DA- LIBERDADE-DE-VILA-KENNEDY.HTML> ACESSO EM: 19/07/2017. ... 102 FIGURA 33: ESQUEMA ANALÍTICO DAS CATEGORIAS HABITACIONAIS - OBJETO DE ESTUDO DA PESQUISA
IPT. "DIRETRIZES HABITACIONAIS" (1978-1979) ... 114 FIGURA 34: ANÚNCIOS DE VENDA DE IMÓVEIS NA FAVELA PARAISÓPOLIS, ZONA SUL DE SÃO PAULO NO
ANO DE 2017 (FOTO DO AUTOR). ... 115
LISTA DE MAPAS
MAPA 1: PROJETOS LATINOAMERICANOS: AUTOCONSTRUÇÃO / AUTOGESTÃO 143
MAPA 2: DESENVOLVIDO PELO AUTOR COM BASE NO ESCOPO, CONTEÚDO E RESUMO APRESENTADO PELA UNIVERSIDADE DE WESTMINSTER, INSTITUIÇÕES QUE GUARDA OS ARQUIVOS DE JOHN F.C. TURNER."
PAPERS, 1950S-1990S, ACCUMULATED BY JOHN F C TURNER AND RELATING TO HIS WORK ON HOUSING AND PLANNING, MAINLY COMMUNITY-BASED INITIATIVES IN LESS DEVELOPED COUNTRIES, ESPECIALLY LATIN AMERICA. THE PAPERS MAINLY COMPRISE PRINTED MATERIAL AND UNPUBLISHED RESEARCH AND CONSULTANCY REPORTS AND TYPESCRIPTS, INCLUDING WORKS BY OTHER AUTHORS, AND ALSO INCLUDE SOME MAPS. THE MATERIAL RANGES ACROSS NATIONAL AND INTERNATIONAL PROJECTS IN THE UK AND EUROPE; AFRICA; THE MIDDLE EAST; ASIA, INCLUDING EAST, SOUTH AND SOUTH-EAST ASIA; SOUTH AMERICA, IN ARGENTINA, BRAZIL, CHILE, COLOMBIA, PERU AND
VENEZUELA; CENTRAL AMERICA, IN EL SALVADOR, GUATEMALA AND PANAMA; THE CARIBBEAN, IN
CUBA, JAMAICA AND PUERTO RICO; MEXICO; AND NORTH AMERICA" 148
Sumário
Introdução ... 15
Objetivos ... 22
Estrutura do trabalho ... 22
Método ... 24
CAPITULO 1 - John F.C. Turner: biografia e formação ... 26
1.1 John F.C. Turner – síntese de um percurso (1927- ) ... 26
1.2 Primeiro período: Um jovem aprendiz na AA (1944 - 1954) ... 29
1.3 Segundo período: Contexto de formação - The Heart of the City (1947 - 1959) ... 44
1.4 Jaqueline Tyrwhitt - uma ponte entre Geddes e Turner ... 50
1.5 Ampliando o contexto ... 56
CAPÍTULO 2 Atuação profissional: John F.C. Turner no Peru (1957 - 1965) ... 58
CAPÍTULO 3. Territórios autoconstruídos ... 71
3.1 Territórios autoconstruídos: um debate acadêmico internacional ... 71
3.2 Territórios autoconstruídos: o debate acadêmico nacional ... 79
3.2.1 Sobre: o conceito de 'periferização' ... 81
3.2.2 Sobre loteamentos habitacionais periféricos ... 83
3.2.3 Sobre a unidade habitacional autoconstruída ... 87
CAPÍTULO 4 Turner no Brasil ... 94
4.1 Quarto período (1968 - 1979): rebatimentos no Brasil - o Grand Tour de 1968 ... 94
4.2 Quarto período (1968 - 1979): rebatimentos no Brasil - a consultoria de Turner para São Paulo ... 106
4.2.1 IPT - Projeto Diretrizes Habitacionais (1977) ... 109
4.2.2 Uma aproximação com o Banco Mundial e o acordo de empréstimo de 1979 .... 116
Apontamentos finais ... 119
Bibliografia ... 126
ANEXO 1 - Projetos latinoamericanos selecionados para o International UN - Year of Shelter for the Homeless '87 ... 137
ANEXO 2 - Publicações de John F.C. Turner ... 144
ANEXO 3 - Documentos do projeto IPT. Diretrizes Habitacionais... 149
Introdução
Recém-formado Arquiteto Urbanista pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, ingressei no Brasil como consultor para a Synergia Consultoria Urbana e Social - LTDA. Durante três anos, percorri os estados do Maranhão, Pará, Minas Gerais e Espírito Santo, e nessa vivência me aproximei de comunidades locais autoconstruídas, autogeridas e independentes e logo me veio a questão: quais são as correntes teóricas e experiências práticas da ciência do urbanismo que estudam essas formas de construção do meio ambiente? Foi neste contexto e com essa inquietação em mente que me deparei com um personagem peculiar, o urbanista John F.C. Turner (1927 - ), e assim iniciei a presente pesquisa.
A formação de um ideário: autoconstrução assistida
Uma aproximação a realidades locais de territórios autoconstruídos reacende um antigo debate que ocorreu entre as décadas de 1960 – 1980, quando pesquisadores passaram a estudar assentamentos informais. Essa aproximação deu-se pela necessidade de compreender os desafios do crescimento urbano decorrente do aumento demográfico gerado pela migração campo - cidade durante o pós-guerra. Além disso, questionava-se os projetos modernos de habitação massiva, quando já haviam sido identificados impactos negativos desta estratégia de combate ao déficit habitacional. Evoca-se aqui a imagem da falência do modelo moderno de habitação, a implosão do conjunto habitacional Pruitt Igoe em 1972.
Um dos clássicos embates deste período deu-se entre a vertente do urbanismo moderno, representado por Robert Moses, e a vertente culturalista de Jane Jacobs
1. No livro "Death and life of great American Cities" (1961), Jane B.
Jacobs (1916 - 2006), ao analisar realidades sociais locais, promove uma aproximação a assentamentos através de uma análise cultural, contribuindo para
1 Para mais informações ver.: GRATZ, Roberta Brandes. The Battle for Gotham: New York in the shadow of Robert Moses and Jane Jacobs. Nova Iorque: Nation Books. 2010.
se repensar criticamente modelos e projetos urbanos que desconsideravam tanto as relações sociais locais como os impactos diretos e indiretos de obras rodoviaristas.
Não apenas Jane B. Jacobs, como todo um grupo geração começou a procurar compreender as estruturas sociais, culturais e econômicas envolvidas nos assentamentos segregados da cidade ou fora dos padrões da imagem moderna.
Assentamentos informais, loteamentos clandestinos e favelas - territórios autoconstruídos e independentes do Estado - voltam a ser tema de pesquisa.
Segundo Peter Ward, William Doebele's, em Harvard, demonstra como políticas públicas poderiam integrar assentamentos irregulares no mercado formal imobiliário, introduzindo as populações vulneráveis na economia formal. No campo da antropologia urbana, foram desenvolvidos estudos de tipologias habitacionais em assentamentos informais para se compreender a estrutura do território autoconstruído e os caminhos possíveis de intervenção. No MIT, Susan Eckstein e Wayne Cornelius alertaram para a necessidade de formular políticas públicas que atentam às condições urbanas de populações vulneráveis (WARD, 2012, p. 283).
No MIT, havia alguma tensão entre aqueles que ainda acreditavam na teoria moderna e visões convencionais de planejamento e aqueles que eram críticos e interessados em assentamentos irregulares.
2(WARD, 2012, p.284, tradução nossa) As megacidades com suas contradições urbanas, passam a ser objeto de estudo.
Para contextualizar com alguns autores e seus objetos de estudo: o Rio de Janeiro foi analisado por Anthony Leeds e Janice Perlman; São Paulo por Lucio Kowarick, Erminia Maricato, Raquel Rolnik e Nabil Bonduki; Cidade do México por Susan Eckstein, Peter Ward e Wayne Cornelius; Lima por David Collier;
Santiago por Manuel Castells; e Buenos Aires por James Scobie (ROBERTS;
WILSON, 2009, p. 17).
2 "At MIT, there was some tension between those who still believed in modernization theory and conventional views of planning and those who were critical and interested in irregular settlements and grassroots development efforts. And while Lloyd Rodwin’s impresario skills brought in several people whose ideas were attracting attention at the time, such as John Turner, ultimately the profound differences in approach and philosophy led to their exit." (WARD, 2012. p. 284)
John F. C. Turner, enquanto professor convidado do Massachusetts Institute of Technology (MIT), aproximou diferentes gerações do estudo da natureza dos assentamentos urbanos. Os discípulos de Turner passam a carregar seu ideário no desenvolvimento de políticas, programas e projetos, em agências multilaterais, organizações não governamentais e na atuação profissional subsequente (WARD, 2012, p. 283).
Mas, no que consiste o ideário da autoconstrução? O ideário da autoconstrução consiste na participação comunitária em projetos de desenvolvimento urbano e habitacional.
A participação é um processo no qual as pessoas, e as pessoas especialmente desfavorecidas, influenciam a alocação de recursos, políticas, formulação de programas, implementação;
estão envolvidos em diferentes níveis e graus de intensidade na identificação, duração, planejamento, design, implementação, avaliação e fases de pós-ocupação de projetos de desenvolvimento (IMPARATO; RUSTER, 2003, p.20).
John F.C. Turner foi um dos autores que se aproximaram das realidades da autoconstrução e procuraram alternativas para o provimento habitacional e urbanização de assentamentos informais. Turner advogou pelos direitos da população excluída da cidade.
John F.C. Turner: uma reaproximação da autoconstrução assistida
3A autoconstrução não é um fenômeno recente. Tradicionalmente, comunidades autoconstroem abrigos, aldeias, vilas e cidades. Do cacicado complexo da Amazônia
4aos assentamentos precários urbanos de São Paulo, observa-se a construção realizada pelos esforços dos próprios interessados. Nos assentamentos rurais, a prática da autoconstrução é evidente: casas de taipa, de madeira com coberturas de palha que apresentam boas condições de habitabilidade. A tradição cultural da autoconstrução engendra técnicas
3 Autoconstrução assistida: construção realizada pelos esforços dos próprios beneficiários com subsídio público e/ou assessoria técnica pública.
4Os cacicados complexos da Amazônia - Brasil eram organizações sociais com população de mais de um milhão de indígenas. Para mais informações ver: RIZÉRIO, Antônio. A Cidade no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2012. O autor menciona o estudo de Anna Curtenius Roosevelt - ROOSEVELT, Anna Curtenius.
"Arqueologia Amazônica". In: CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo:
FAPESP/SMC/Companhia das Letras, 1992.
vernáculas apreendidas com a maturação do tempo em um universo cultural.
Havia uma organização de comunidade por trás do processo construtivo no qual amigos, conhecidos e vizinhos se ajudavam mutuamente. Este processo construtivo é classificado como mutirão rural ou urbano.
Em condições extremas, a sociedade civil se organiza para o provimento de núcleos habitacionais. Governos em situações de emergência passam a incentivar a autoconstrução seja pelo subsídio e financiamento, pela assistência técnica ou pelo desenvolvimento de projetos que consideram a autoconstrução como uma de suas etapas.
Richard Harris, em "Slipping through the Cracks: The Origins of Aided Self-help Housing, 1918-53" (1999), desenvolve uma aproximação histórica da iniciativa em autoconstrução assistida para projetos habitacionais, procurando recuperar experiências esquecidas no tempo que fundamentaram ações posteriores.
A história da autoconstrução assistida em projetos habitacionais, ou seja, da habitação construída com ajuda do Estado pelas famílias para uso próprio, é em grande parte desconhecido. Há um equívoco generalizado de que tal política foi discutida e praticada pela primeira vez durante a década de 1960, no contexto do Terceiro Mundo. Na verdade, ele foi adotado na União Soviética, e em muitas nações e cidades europeias, notavelmente em Viena e Estocolmo, depois da Primeira Guerra Mundial.
5(HARRIS, 1999, p. 281, tradução nossa)
Já em "The Silence of the Experts: 'Aided Self-help Housing', 1939 - 1954"
(HARRIS, 1998), há a exposição da articulação política e teórica desenvolvida por Jacob L. Crane (autor que cunhou o termo "aided self-help" por volta de 1945) em sua atuação como diretor do Housing and Home Finance Agency - instituição que incentivou o desenvolvimento de ações em autoconstrução assistida.
Durante as décadas de 1940 e 1950, o autor demonstra como a ideologia da autoconstrução assistida, incorporada por agências norte americanas, incentivou projetos em Porto Rico, Caribe, Colômbia e Peru.
5"The history of aided self-help housing, that is, of housing built with state assistance by families for their own use, is largely unknown. There is a wide spread misapprehension that such a policy was discussed and practiced during the 1960s, in the context of the Third World. In fact, it was adopted in the Soviet Union, and in many Europe an nations and cities, notably Vienna and Stockholm, after the First World War."
(HARRIS, 1999, p. 281)
Dessa forma se elucida que a experiência e percepção da autoconstrução assistida como diretriz de projetos financiados por governos, na América Latina e Caribe, são antecedentes à década de 1960 e não diretamente dependentes de contextos locais, mas, sim, de alinhamentos institucionais. Richard Harris expõe a pluralidade de autores que desenvolveram trabalhos acerca da autoconstrução:
Aprodicio Lacquian (1971), William Mangin (1967) e Charles Abrams (1964), e, por meio de uma elaboração acadêmica, destaca também o papel influente do arquiteto urbanista John F. C. Turner nesta temática.
Ray Bromley, em "How time and place influenced John Turner's ideas on housing policy" (2003), elucida a relevância de ampliar o debate em autoconstrução por meio de publicações internacionais, alcançando um meio de divulgação do trabalho de Turner desenvolvido no Peru, suas ideias e pesquisas. O impacto no meio científico e acadêmico de suas publicações é notório, bem como a adoção por instituições supranacionais da autoconstrução como elemento de projeto.
Dessa forma se estabelece uma documentação comprobatória e legitimadora da viabilidade, no contexto da década de 1970, de se desenvolver políticas públicas de incentivo à autoconstrução.
John F.C. Turner, por meio de seu trabalho, influência e publicações, amplia o debate da construção realizada de forma independente por comunidades localizadas em assentamentos informais. Em "Freedom to build, dweller control of the housing process", "Housing by People: Towards Autonomy in Building Enviroments" e "Architecture of Democracy: Building Community" (1976), o autor expõe suas principais ideias de como fortalecer o capital social local por meio da participação do interessado nos processos de decisão de projeto e construção de unidades habitacionais.
O projeto participativo é inserido no debate internacional e incorporado por
instituições supranacionais, tais como a ONU, a partir de 1945 pela atuação de
Jacob L. Crane e, novamente, na década de 1960, quando foi experimentado o
projeto PREVI; e o Banco Mundial, a partir da década de 1970, quando
reestruturado durante a gestão de Robert McNamara, que era diretamente
influenciado por John F.C. Turner. Segundo Paulo Sérgio Souza e Silva, a
conferência internacional promovida pela ONU em Vancouver (Canadá) em 1976,
intitulada HABITAT I, bem como um fórum paralelo organizado por ONG's, tiveram em seu escopo a referência de estudos de autoconstrução, mutirão e habitação evolutiva (SILVA, apud. SAMPAIO, 1998, p. 147).
Em 1965, o governo peruano com assistência técnica das Nações Unidas, por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), organizou o concurso internacional PREVI - 'Proyecto Experimental de Vivienda Projeto'. O projeto piloto contava com três propostas para distintas áreas e grupos vulneráveis, sendo que em uma delas a autoconstrução foi incorporada como etapa de projeto, que seria desenvolvido acima de núcleos habitacionais construídos. Neste concurso internacional, destacam-se os arquitetos Aldo van Eyck, Charles Correa, James Stirling, Christopher Alexander e Candilis dentre os 24 profissionais participantes. O projeto PREVI foi implementado entre 1965 e 1973.
6Países da América do Sul passam a incorporar o ideário da autoconstrução assistida como alternativa para produção de habitação de baixo custo por meio de incentivos a cooperativas habitacionais, a mutirões edificados em sistemas de autoconstrução e também a projetos de habitação embrionária passível de ampliações realizadas com assistência técnica pelos próprios beneficiários.
No Chile, o plano Viviendas Progressivas incentivava a edificação de uma unidade embrionária, passível de ampliações, realizado parcialmente com subsídio público e com recursos financeiros do grupo de interesse. Com isso, o plano Viviendas Progressivas incorporou como uma das etapas de projeto a autoconstrução assistida, tal qual a iniciativa da ONU no projeto PREVI.
Na década de 1960, Cooperativas de Ayuda Mutua Uruguayas implementam uma série de projetos de unidades habitacionais edificadas por comunidades organizadas em cooperativas habitacionais. O livro “Cooperativas de vivienda en Uruguay: Medio siglo de experiências” (2015), nos traz um compêndio dos projetos habitacionais realizados no país (CASTILLO; VALLÉS, 2015).
6 Para mais informações ver: GARCÍA-HUIDOBRO, Fernando; TORRITI, Diego Torres; TUGAS, Nicolás. El tiempo construye! El Proyecto Experimental de Vivienda (PREVI) de Lima: génesis y desenlace. Editorial Gustavo Gili, SL. Barcelona. 2008.
No Brasil, a partir da década de 1970, programas e projetos incorporaram a participação social como etapa de projeto para o provimento de moradia a populações vulneráveis. Em uma reestruturação do Banco Nacional da Habitação (BNH), o Promorar - Programa de financiamento de lotes urbanizados – e o Profilurb - Programa de Erradicação de Sub-habitação - ganham destaque e incorporam a autoconstrução assistida. Somam-se a essas iniciativas federais, o Programa mutirão e autoconstrução (IBAM/EMPLASA/1976) elaborado com consultoria técnica de John F.C. Tuner e o acordo de empréstimo entre o BNH e o Banco Mundial de 1979.
Problematizando o tema
Projetos de infraestrutura urbana regional apresentam impacto direto em comunidades locais; projetos locais de provimento habitacional em áreas de assentamentos informais se distanciam da avaliação de condições de habitabilidade das habitações preexistentes nas comunidades e, economias periféricas dos "países em desenvolvimento" não dispõem de recursos necessários para sanar o crescente déficit habitacional.
Entre políticas de construção massiva de unidades habitacionais, que a história já demonstrou ineficientes uma vez que o déficit habitacional supera a produção do mercado subsidiado pelas políticas públicas, e políticas de implementação de infraestrutura em projetos de urbanização de assentamentos informais, as populações vulneráveis constroem sem assistência e as habitações subsistem de forma desestruturada.
Neste contexto, uma série de questões emergem: quais as consequências de projetos de construção de habitação de baixo custo que não levam em conta o capital social local?
7Como inserir populações vulneráveis no território formal e regular, dotado de condições mínimas de habitabilidade? Qual a relevância da
7 O conceito de capital social é múltiplo. No que tange o universo das cidades, capital social se define pelo montante necessário para se constituir e manter laços sociais, economias locais, redes e trocas entre membros de um grupo social e/ou de vizinhança, bairro e comunidade. Para Jane Jacobs "Para a autogestão de um lugar funcionar, acima de qualquer flutuação da população deve haver a permanência das pessoas que forjaram a rede de relações do bairro. Essas redes são o capital social urbano insubstituível. Quando se perde esse capital, pelo motivo que for, a renda gerada por ele desaparece e não volta senão quando se acumular, lenta e ocasionalmente, um novo capital" (JACOBS, 1961. p. 151.)
participação social da população vulnerável em projetos de habitação de baixo custo? Como realizar projetos urbanos, respeitando o direito à cidade, que incentivem a permanência do beneficiário na unidade habitacional construída?
No entanto, a principal questão que este trabalho debruçar-se-á é a de compreender a formação e referência do ideário de Turner em questões habitacionais.
Como Turner contribuiu para a implementação de políticas, programas e/ou projetos de urbanização de favelas em São Paulo e no Brasil? A hipótese é de que ele referenciou projetos participativos no campo da habitação de baixo custo, urbanização de favelas e questionamento dos métodos de cálculo do déficit habitacional, em São Paulo e no Brasil. Tanto pela referência teórica como experiência prática, ao questionar o modelo de projetos habitacionais adotado pelo Banco Nacional da Habitação em meados da década de 1970, Turner sugeriu caminhos alternativos para ampliar a consciência da importância do tecido social e do capital humano tidos em assentamentos informais.
Objetivos
Tendo em vista a problemática apresentada na introdução, é objetivo desta dissertação:
• Compreender a formação, atuação profissional e ideário do urbanista John F.C. Turner, e elucidar a contribuição direta e indireta do urbanista na para a formulação de políticas, programas e projetos de habitação de baixo custo durante a década de 70, ou seja, um estudo sobre a referência e influência da obra de Turner em São Paulo.
Estrutura do trabalho
O primeiro capítulo deste trabalho visa elucidar de modo mais detalhado o período de formação acadêmica e as principais referências diretas de Turner.
Nesse capítulo, amplia-se ainda o recorte de estudo com o objetivo de descrever
analiticamente o contexto em que se deu sua formação acadêmica.
Em seguida, é apresentada a sua atuação profissional no Peru entre 1957 e 1965.
Aqui, objetiva-se compreender como a sua formação e o contexto referenciaram a atuação profissional e suas primeiras produções acadêmicas com dados empíricos levantados em campo. Em outras palavras, como uma vivência profissional direciona uma atuação política e acadêmica e os principais desdobramentos dessa experiência, quando Turner é convidado a pesquisar e lecionar em Harvard/MIT.
A partir de documentos primários levantados junto ao Arquivo Turner da Universidade de Westminster, Londres, no capítulo "Territórios Autoconstruídos"
é apresentada uma revisão bibliográfica com objetivo de estabelecer uma aproximação teórico-conceitual da autoconstrução assistida no contexto pós- Segunda Guerra Mundia Guerra Fria ao abordar referências internacionais e nacionais nas diferentes correntes críticas relacionadas à autoconstrução.
Cabe ressaltar que esta síntese bibliográfica é restrita ao material primário levantado, não se expande, tampouco se atualiza a relação de autores / obras que tratam do mesmo tema. Esta síntese concerne a um recorte temporal que condiz com o estabelecido pela pesquisa. O que conduziu a síntese bibliográfica no âmbito internacional foram autores, coautores e citações de publicações que contaram com a participação de Turner. Já a síntese bibliográfica no âmbito nacional foi estruturada a partir do artigo seminal da Prof. Dra. Lícia Valladares:
“Housing in Brazil an introduction to recent literature” (1982). Com base nos documentos levantados, foi possível identificar que houve uma relação próxima entre Valladares e Turner, pois foram localizadas diversas publicações dela com dedicatórias nomeadas a Turner, e uma dessas publicações é a tese de doutoramento de Lícia Valladares.
O capítulo "Turner no Brasil" apresenta de forma sintética e analítica os
rebatimentos do trabalho de Turner no país, a começar pelo "Grand Tour" de
1968, consultoria técnica no trabalho “Diretrizes Habitacionais” realizado pelo
IPT/IBAM/CNPq em 1978 - 1979 e no IBAM-EMPLASA: Programa de mutirão e
autoconstrução de 1976. Também foi abordado o acordo de empréstimo ocorrido
entre o Banco Mundial e o BNH em 1979. Pretende-se aqui elucidar alguns pontos de tangência entre a prática profissional e acadêmica de Turner e seus rebatimentos em território nacional - PROFILURB, PROMORAR e programa João de Barro. Este capítulo é apenas uma introdução a temática da referência de Turner para a política habitacional brasileira cabendo pontuar que, pela dificuldade de se obter dados primários do assunto focado em escala nacional a pesquisa direcionou seu foco para São Paulo.
Finalmente, o capítulo "Apontamentos" reúne pontos a serem levantados, conclusões preliminares e provocações acadêmicas. Quem sabe tais apontamentos não despertam o interesse de jovens pesquisadores para compreender o papel da participação em projetos, programas e políticas de urbanização, de construção habitacional e de ocupação do meio público.
Método
A estrutura da presente dissertação é resultado da metodologia aplicada que segue a cronologia dos fatos históricos da vida e obra de John F.C. Turner: de início sua formação acadêmica, em seguida atuação profissional, consequentemente o destaque de sua atuação e produção no debate nacional e internacional, sua participação em projetos, programas e políticas habitacionais, e, então, os rebatimentos no Brasil com foco em São Paulo. Ao sistematizar a estrutura proposta, em seus períodos, temos o seguinte:
1. Formação acadêmica (1944 - 1954)
2. Trabalhos realizados no Peru e estudos em Harvard/MIT (1957 - 1973) 3. Debate acadêmico Internacional e Nacional (1965 - 1982)
4. Rebatimentos no Brasil (1968 - 1979)
Para desenvolver a primeira seção desta dissertação, que concerne à formação
acadêmica e trabalhos realizados no Peru, a pesquisa focou no levantamento de
dados secundários, tais quais dissertações de mestrado, tese de doutorado,
artigos publicados em periódicos internacionais. Observou-se o crescente
interesse pela obra do autor, uma vez que o número de citações do legado de Turner aumentou consideravelmente nos últimos cinco anos.
Para elucidar a segunda seção desta dissertação - debate acadêmico internacional e nacional e rebatimentos no Brasil - a pesquisa realizou o levantamento de dados primários no arquivo Turner da Universidade de Westminster, Londres, no arquivo da AA - architecture association, na mesma cidade.
Cabe ressaltar que a equipe da Universidade de Westminster apontou que o autor desta dissertação foi o primeiro pesquisador brasileiro a trabalhar no arquivo nos últimos dez anos.
Quanto aos acervos e atores brasileiros que contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho é importante destacar o acervo da biblioteca do IAB/SP, o arquivo digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e a Profa. Dra. Suzana Pasternak que me recebeu para uma breve conversa e orientação. Cabe pontuar que a pesquisa encontrou dificuldades para compreender a atuação de Turner na abordagem dada pelos autores referência da habitação em São Paulo.
O levantamento de documentos primários foi realizado em duas etapas, a primeira em outubro de 2016, conduzido pela assistente de pesquisa Nicolle De Bari; e a segunda desenvolvida em março de 2017 pelo autor da pesquisa em curso. Como resultado quantitativo dessa atividade, foram coletadas mais de 5.000 fotos de projetos, relatórios, publicações e artigos de periódicos.
Somam-se a estes documentos a entrevista realizada pela Dra. Helen Gyger, em
2007, e uma gravação de 8 horas em que Turner elucida o universo de sua
produção profissional e formação acadêmica. A contribuição de Helen Gyger em
sua tese de doutorado defendida na Universidade Columbia (EUA) é,
indubitavelmente, um dos estudos de referência do legado de Turner para o
País. Além disso, a contribuição de Gyger é notável, tendo em vista a
catalogação e organização do arquivo de Turner localizado na Universidade de
Westminster. Sem dúvida alguma, Gyger é incontornável para compreender o
processo que levou Turner a ter um destaque na academia e na técnica do
urbanismo participativo.
CAPITULO 1 - John F.C. Turner: biografia e formação
1.1 John F.C. Turner – síntese de um percurso (1927- )
John F.C. Turner nasceu em Londres no ano de 1927. Seguindo o caminho de seu pai, estudou na St. Edmund's School - Surrey e no Wellington College - Berkshire, ambos na Inglaterra. Aos 17 anos, é admitido na Architectural Association (AA) de Londres, onde, após interrupções derivadas dos serviços militares prestados, se gradua em 1954. Atendendo a um convite de Eduardo Neira (1924 - 2006), Turner se muda para o Peru em 1957, onde permanece até 1965. Neste período, presta consultoria para agências governamentais peruanas na promoção e desenvolvimento de projetos de comunidades e programas de autoconstrução assistida em vilas e assentamentos informais.
Em 1965 é convidado a se associar ao Joint Center for Urban Studies. Com o financiamento da Ford Foundation, Turner, John Steffian e Horacio Caminos estabelecem um programa de pesquisa para países em desenvolvimento, o Urban Settlement Design in Developing Countries (USDC), desenvolvido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) em cooperação com a Harvard University. Entre 1967 e 1973, passa a lecionar no MIT. É deste período a maior parte de sua contribuição acadêmica cujo tema principal é habitação e estudos urbanos em países em desenvolvimento na América Latina.
Entre 1970 e 1971, Turner dirige a avaliação de projetos de autoconstrução assistida, coordenado por Donald Schon, para o U.S. Department of Housing and Urban Development. Os principais resultados obtidos nessa avaliação são publicados em seu primeiro livro Freedom to Build, editado em 1972 conjuntamente com Robert Fichter.
Turner se muda para Inglaterra em 1973-74, com sua segunda mulher e dois
enteados, passa a lecionar na AA e, em 1976 no Development Planning Unit da
School of Environmental Studies, University College of London (UCL), onde
direciona o Special Programm Housing in Development até 1981. Em 1976,
Turner publica seu segundo livro, Housing by People, elaborado com objetivo de atender ao UN-Habitat - I, notório evento organizado em Vancouver, Canadá.
Em 1983, muda-se de Londres para a cidade costeira de Hastings, ao sul da Inglaterra, onde, em conjunto com Bertha Turner e Peter Stead, continua a trabalhar em sua consultoria, Housing Advisory Services (AHAS), uma organização não governamental (ONG). Entre 1983 e 1986, Turner coordena o projeto do Habitat International Coalition's (ONG) ligado a UN International Year of Shelter for the Homeless de 1987, ano que recebe o prêmio The Right Livelihood Award. Derivado deste projeto, publica o livro Building Community: A Third World Case Book. A proposta da AHAS é:
fornecer apoio, assistência e conselhos a grupos de pessoas em seus ambientes domésticos e de trabalho de forma a aumentar o controle pessoal e comunitário sobre assuntos locais; gerar e aumentar a renda e riqueza dentro da comunidade; e conservar recursos escassos ou não renováveis.
8(AHAS, 1979, p. 199, tradução nossa)
Em sua vida, Turner procurou pesquisar alternativas habitacionais àquelas impostas a realidades locais por sistemas hierárquicos centralizados em agentes financeiros, procurando ampliar o significado de déficit habitacional e revelando a importância de se ampliar o acesso a unidades habitacionais, interpretando-as como uma necessidade humana básica e sua correlata contribuição para a saúde e o bem-estar dos indivíduos e famílias (TURNER, FICHTER, 1972). O mercado da construção habitacional é também compreendido como um setor econômico importante e com efeito multiplicador significativo ao se considerar a cadeia produtiva da unidade habitacional. Além de seu valor de uso, habitação é, por vezes, um lugar de trabalho que viabiliza acesso a emprego, serviços e outros pormenores.
Acadêmicos e urbanistas acordam em ao menos dois caminhos políticos viáveis para se ampliar o acesso de populações vulneráveis a unidades habitacionais:
ampliar canais de acesso à construção formal e legal de unidades habitacionais,
8"provide support, assistance, and advice to groups of persons within their home and work environments in ways that will increase personal and local community control over local affairs; generate and retails income and wealth within the community; and conserve scarce or non-renewable resources." (AHAS, 1979, p.199)
reduzindo assim o incremento habitacional de favelas; e ampliar o investimento privado em territórios informais/favelas com o objetivo de melhorar as condições das unidades habitacionais já existentes.
John Turner (1963, 1967, 1968, 1976) e Hernando de Soto (1989, 2000) sustentam que os meios de regularização fundiária - legalização dos direitos de propriedade privada de assentamentos clandestinos - são uma maneira de incentivar o investimento privado destinado a melhorar as condições de habitação e cidade de favelas.
Inserido no ideário de que a política de remoções de favelas era a solução, Turner e um grupo de profissionais e cientistas de sua geração iniciam estudos de campo demonstrando como as 'verdades universais' da imagem negativa das favelas eram questionáveis. Uma geração de resistência aos valores preconceituosos desafiou os estereótipos negativos impostos aos favelados - ladrões, prostitutas e 'subclasse' que representavam um dificultador ao progresso -, elucidando o valor da favela como uma relevante opção de moradia de baixo custo (ABRAMS, 1964; JACOBS, 1961; TURNER, 1963, 1972). Em uma aproximação técnica, a noção de favela desenvolvida pelas pesquisas conduzidas por John Turner e William Mangin, embasada pelos trabalhos empíricos realizados, elucidou, de uma forma mais compreensível, as lógicas por detrás dos mitos das então chamadas "slums of hope" (MANGIN, 1967; MANGIN, TURNER, 1968;
TURNER, 1972, 1976).
A seguir apresentaremos em mais detalhe aspectos desta trajetória, subdividida
em quatro grandes períodos da vida de Turner.
1.2 Primeiro período: Um jovem aprendiz na AA (1944 - 1954)
Em 1944, Turner se inscreveu na Architectural Association School (AA) – Londres.
Ao completar 18 anos de idade e um ano de estudo, é convocado a prestar serviços militares nacionais
9. Por razões escusas aos serviços militares, Turner se depara com o periódico anarquista inglês Freedom
10e através da leitura de autores como Pyotr Kropotkin
11, Herbert Read e Eric Gill, passa a se aproximar do ideário anarquista veiculado pelo periódico. Outra referência do autor é William Morris
12, um dos instigadores vitorianos pré-rafaelita do movimento britânico arts and crafts do final do século XIX e início do XX e que é classificado por Choay como uma referência para o 'pré-urbanismo culturalista', junto a John Ruskin e Augustus Welby Northmore Pugin. O avô de Turner trabalhou junto a William Morris e May Morris - filha mais velha de William Morris e madrinha de Joscelyne V. Charlewood Turner, mãe de Turner (CHOAY, 2007, p.117-138;
9 Turner inicia os serviços militares no final da Segunda Guerra Mundial. Segundo Helen Elizabeth Gyger (2013), em entrevista realizada com o autor em 2007, Turner é transferido, para exercer o papel de conciliador, em protestos dos Aliados contra o uso de armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki; ao fim passa a realizar trabalhos agrícolas.
10 Entre as décadas de 1940 e 1960, o periódico inglês Freedom teve como editor Colin Ward (1924 - 2010), escritor anarquista e colega de Turner que escreveu a introdução de Housing by People: twards autonomy in building environments (1976).
11 Geógrafo aristocrata Russo, Pyotr Alexeyevich Kropotkin (1842 - 1921) é considerado um dos fundadores do movimento anarquista comunista. Em suas obras fundamenta o ideário norteador da história do anarquismo, ligado à causa da Revolução Social, advoga a descentralização de governos em busca de uma sociedade livre, baseada na associação voluntária e cooperativa entre a classe trabalhadora, por meio da ajuda mútua e apoio mútuo.
12 "Conheci as pessoas em Chipping Camden quando criança, porque minha avó ainda estava viva .... Então, havia uma influência ali - todo o sentimento do vernáculo sempre foi importante, penso eu, como plano de fundo". Também existiu uma influência do movimento Artes e Ofícios no lado da família de seu pai, já que o próprio pai de Turner era um arquiteto, que desenhou e construiu a casa em Kent, onde Turner cresceu.
Turner descreveu a prática de seu pai como "vernáculo contemporâneo", à maneira de Lethaby ou Voysey, e ele trabalhou em estreita colaboração com construtores locais: "Então, a escala do trabalho foi local e meu interesse permaneceu nesse nível. É aí que eu sinto que as coisas realmente acontecem, entre as pessoas localmente .... Isso, eu acho, foi uma grande influência." Turner, entrevista ao autor. (GYGER, 2013, p. 77.
Tradução nossa)
" knew the people in Chipping Camden as a child growing up, because my grandmother was still alive.... So there was an influence there — the whole feeling of the vernacular was always important, I think, in the background." There was also an Arts and Crafts influence on his father’s side of the family, since Turner’s own father was an architect, who designed and built the house in Kent where Turner grew up. Turner described his father’s practice as “contemporary vernacular,” in the manner of Lethaby or Voysey, and he worked closely with local builders: “So the scale of the work was local, and my interest has really remained at that level. That's where I feel that things really happen, between people locally.... That, I think, was a major influence.” Turner, interview with the author. (GYGER, 2013, p. 77)
GYGER, 2013, p.77; TURNER, 2000).
Segundo Helen Gyger (2013), a referência anarquista presente na obra de Turner é evidente pela aproximação de suas ideias às da aided self-help, pela ênfase dada às comunidades autoconstruídas, autogeridas e, sobretudo, à ação local - implicitamente um posicionamento anti-Estado. Gyger pontua que Turner evidencia a referência ao modelo anarquista quando classifica, em 1976, no livro Housing by People, duas distintas aproximações analíticas de sistemas de decisão para a provisão de casas: o heterônimo e o autônomo
13.
Enquanto os sistemas "heteronômicos" (centralmente administrados) apresentam uma dinâmica familiar imposta à prática tradicional arquitetônica, sistemas "autônomos"
(autogeridos localmente) implicam em uma rede de usuários finais que tomam decisões e participam de toda a cadeia produtiva do espaço, seguindo o modelo anarquista.
14(GYGER, 2010, p. 29, tradução nossa)
Os processos de tomadas de decisão caracterizados em ambos os sistemas analisados por Turner são opostos. As operações que Turner utiliza para elucidar esses processos são: planejamento - ou operações que antecedem a construção;
a construção; e a manutenção e administração do ambiente construído. Estas etapas de projeto são então caracterizadas pelos atores (indivíduos, grupos ou instituições) que têm controle dos recursos necessários ao processo de edificação. Como resultado das diferentes possibilidades de aproximação - autônomas ou heterônomas - Turner elabora o diagrama exposto a seguir:
13 "Heteronomy (2). Subjection to the rule of another being or power...subjection to external law opp. to autonomy. O.E.D." (TURNER, 1976, p.17)
14"[...] while "heteronomous" systems (Centrally-administrated, and "other-determined") present a top- down dynamic familiar to traditional architectural practice, "autonomous" systems (locally self-governing, and "self-determined") imply a network of end-users making decisions for themselves, following the anarchist model." (GYGER, 2010, p. 29)
Figura 1: Diagrama de Turner (TURNER, 1976, p. 29).
Kropotkin fundamenta em sua obra a descentralização de governos como um meio de se alcançar uma sociedade livre, organizada, baseada na associação voluntária e cooperativa entre os indivíduos de uma comunidade pelo meio da ajuda e apoio mútuos. Kropotkin critica o sistema econômico capitalista por este estabelecer desigualdades sociais, uma vez que promove privilégios às classes sociais bem-sucedidas. Segundo o autor russo, o sistema de governança e administração centralizada, o Estado, se distancia de realidades locais. Em contraposição à crítica do sistema capitalista, ele observa a organização de comunidades para o provimento de alimentos, segurança e abrigo, e propõe um sistema econômico descentralizado, baseado na ajuda mútua, suporte mútuo e cooperação voluntária. Uma governança de baixo para cima. No livro Mutual Aid: Factory of Evolution, o autor questiona o Darwinismo Social, ao sugerir que, tanto no mundo animal como na civilização humana, a cooperação entre indivíduos foi um fator de desenvolvimento local e de sobrevivência (KROPOTKIN, 1902).
Kropotkin enfatiza a autossuficiência produtiva de uma determinada região, pautada na manufatura de bens e alimentos, antes da importação e relação de dependência entre localidades. Essa forma, a comunidade autogerida, autossuficiente e autoconstruída pelo esforço coletivo dos próprios indivíduos, é classificada como uma estrutura social independente de um governo
Governo autônomo local ou, sistema de habitação autônoma
Projeto Construção Gestão Projeto Construção Gestão
Fiscais ou Setor Público
Fornecedores ou Setor Privado (comercial)
Usuários ou Setor Popular
Administrado de forma centraliza- da ou, sistema de habitação heteronômico
centralizado e de uma economia capitalista.
O território construído de maneira coletiva, pelo esforço dos próprios usuários, se caracteriza como um campo fértil para a análise feita por Turner. As favelas, interpretadas pelo autor inglês como a construção livre e independente realizada por comunidades locais, estão em oposição aos modelos de intervenção governamental para a construção massiva de unidades habitacionais destinadas a grupos vulneráveis. Não obstante, os princípios da autonomia, para o urbanista londrino, podem se aplicar a diferentes modalidades e níveis de participação das partes envolvidas nos processos de edificação do território.
Turner classifica, então, níveis de participação das partes envolvidas em processos de decisões pautados pela razão entre quem financia e quem decide o que será projetado, construído e mantido. Na investigação, o autor procura elucidar quais são as formas alternativas de participação e elabora, assim, o diagrama exposto a seguir.
Figura 2: Quem decide o que e para quem? O diagrama expõe a relação entre os financiadores e beneficiários. Ponto 1: Diagrama de Turner (TURNER, 1976, p. 63)
Findados os serviços militares, Turner retorna à Architectural Association School em 1947. Em um fortuito encontro
15, Turner ganha a primeira edição de Town
15 Segundo Helen Gynger, foi um vizinho e, amigo pessoal de Patrick Geddes, que presenteou Turner com a edição de Town Planning towards City Development: A Report to the Durbar of Indore (1918) com observações manuscritas de seu autor.
QUEM DECIDE?
FINANCIADORES
BENEFICIÁRIOS
BENEFICIÁRIOS FINANCIADORES
1. FINANCIADORES DECIDEM E PROVIDENCIAM
3. USUÁRIOS DECIDEM E FINANCIADORES
PROVIDENCIAM
3. USUÁRIOS DECIDEM E PROVIDENCIAM
2. FINANCIADORES DECIDEM E BENEFICIÁRIOS PROVIDENCIAM
QUEM FORNECE?
Planning towards City Development: A Report to the Durbar of Indore (1918), com observações escritas a mão por seu autor, Patrick Geddes. Turner já havia se familiarizado pela corrente ideológica de Patrick Geddes por meio da leitura, durante o primeiro ano cursado na AA, de Lewis Mumford, um dos discípulos de Geddes. Fascinados pelo documento primário encontrado, Turner, Parffard Keatinge-Clay e Bruce Martin - colegas na AA - estudam entre 1947 e 1948 a obra de Geddes, por meio da análise de seus diagramas na procura por aplicabilidades do ideário geddesiano na prática e no ensino da arquitetura e urbanismo.
(KEATINGE-CLAY, MARTIN, TURNER,1949, p. 200-205)
Os resultados dos estudos, incentivados por Jaqueline Tyrwhitt, foram publicados no apêndice da segunda edição de Cities in Evolution. Neste artigo, Turner, Clay e Martin abordam a visão de Geddes em sua síntese expressa por meio dos diagramas elaborados
16. Para os autores, antes de uma visão analítica, os diagramas expressam uma visão sintética da geografia humana, das relações entre homem e meio ambiente construído.
17A crítica elaborada pelos autores substancia-se, portanto, no discernimento entre a visão analítica e a visão sintética presente na academia. Inicia-se com a compreensão de como Geddes ampliou os princípios de Le Play
18da inter-relação
16 "A interpretação de Geddes, de seus pioneiros esquemas sistêmicos da atividade humana desencadeou uma busca, do longo da minha vida, de maneiras holísticas de se compreender as relações entre pessoas e o meio ambiente." (TURNER, 2007. Tradução nossa)
"The interpretation of Geddes’ pioneering general systems scheme of human activity triggered a life-long search for holistic ways of understanding relationships between people and environment." (TURNER, 2007)
17 "Jaqueline Tyrwhitt, uma influente professora minha, foi a editora. Foi ha um bom tempo antes de contribuir com qualquer outra publicação! Esse artigo me levou ao Peru. Em uma reunião do CIAM - Congresso Internacional de Arquitetura Moderna - em Veneza em 1950, acho que foi, eu conheci Eduardo Neira, um arquiteto do Peru. Ele me surpreendeu dizendo que havia traduzido o apêndice dos diagramas de Geddes para seus alunos da Universidade de Lima! E isso levou a um convite para trabalhar com ele no Peru, onde fui com minha primeira esposa e filho de seis anos. (TURNER, 2000, p. 2. Tradução nossa)
“Jacqueline Tyrwhitt, an influential teacher of mine was the editor. It was a long time before I contributed to any other publication! That article led directly to my move to Peru. At a CIAM meeting—of the Congrès Internacionales des Architectes Modernes—in Venice in 1950, I think it was, I met Eduardo Neira, an architectplanner from Peru. He astonished me by saying that he had translated the appendix on Geddes’ diagrams for his students at the University in Lima! And that led to an invitation to work with him in Peru where I went with my first wife and small son six years later.” (TURNER, 2000, p. 2)
18Pierre-Guillaume-Frédéric Le Play (1806 - 1882) autor de La Réforme Sociale (1864), L'Organisation de la Famille (1871) e La Constitution de l'Angleterre (1875), fundou, em 1856 a Société internationale des études pratiques d'économie sociale. A técnica, até então pioneira, que Le Play praticou foi a monografia um compêndio de anotações, observações e análises de campo. Para Le Play, não seria o indivíduo isolado a unidade básica para se compreender a sociedade, mas sim, a unidade familiar, sua renda e meio. Os dados