• Nenhum resultado encontrado

IPT - Projeto Diretrizes Habitacionais (1977)

No documento São Paulo (páginas 110-117)

CAPÍTULO 4 Turner no Brasil

4.2 Quarto período (1968 - 1979): rebatimentos no Brasil - a consultoria de Turner para

4.2.1 IPT - Projeto Diretrizes Habitacionais (1977)

Com base nos documentos levantados no Arquivo Turner da Universidade de Westminster - Londres, surgiram mais dúvidas do que certezas da relação estabelecida entre técnicos locais e o Urbanista. Com base em um estudo preliminar, conduzido conjuntamente a Tomasz Sudra e Paulo Riberio, entitulado Low income housing in São Paulo, Brazil, Background Paper to the Working Hypothesis, afere-se que o Prof. Turner vinha conduzindo pesquisas e consultorias para o IPT desde 1976. Este estudo teve amparo em fontes secundárias fornecidas pela Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo, Secretaria do Bem Estar Social da Prefeitura do Município de São Paulo (SEBES), Secretaria de Negócios Metropolitanos do Estado de São Paulo, EMPLASA, COGEP, FAU-USP, URPLAN e IBGE.

Entre junho de 1976 e 1977, Turner prestou consultoria para o projeto de pesquisa orientado à política habitacional titulado 'National Funding Agencies and Low income Housing in São Paulo'. Pelo documento localizado, confirma-se que ao menos a primeira etapa do projeto contou com apoio do Prof. Turner.

O propósito deste estudo estava em desenvolver uma visão geral da situação habitacional produzida pela população de baixa renda bem como um levantamento socioeconômico em diferentes categorias de unidades habitacionais. O projeto incorporou as categorias sugeridas por Turner, Sudra e Ribeiro: favelas, cortiços, casas coletivas, autoconstrução e conjuntos habitacionais produzidos com subsídio público.

Foram selecionadas seis áreas de estudo em Pari, Sapobemba, Vila Maria, Diadema, Boreré e São Miguel (Itaquera), onde foi aplicado um questionário junto à população residente. Ao todo 1.062 entrevistas foram realizadas.

O estudo revelou que 55% dos entrevistados moravam em casas próprias, sendo o processo de construção mais frequente a autoconstrução em terrenos próprios, correspondendo a 67%, seguido de 20% de moradores em conjuntos habitacionais públicos. A distribuição das unidades habitacionais autoconstruídas ocupadas

pelos seus proprietários se dava com maior frequência na periferia: 81% em São Miguel; 40% em Bororé, 87% em Diadema, 35% na Vila Maria e 60% em Sapopemba. Em Pari, uma área mais central, não foi registrado nenhum caso.

Em áreas mais consolidadas, as unidades dispunham de um melhor serviço de infraestrutura urbana, como no caso da Vila Maria. A maioria das unidades habitacionais autoconstruídas era servida de eletricidade, no entanto, apresentava uma precariedade de saneamento básico e abastecimento de água.

Quanto às conclusões dos dados econômicos levantados dos moradores de casas autoconstruídas, o estudo identifica que existe um aporte inicial para a compra do lote e material para construir a casa. Esse custo inicial limita os interessados a construírem o mínimo. Com o tempo, alcança-se uma estabilidade financeira e a família volta a investir em melhorias na casa. Habitação é um verbo que se constrói no tempo.

Esses três pontos do levantamento empírico revelam que a sugestão de Turner, de aportar recursos financeiros na urbanização de lotes, implementação de infraestrutura pública e subsidiar melhorias habitacionais, eram não apenas pautados pela realidade local, como também se apresentavam como uma alternativa ao do subsídio para unidades habitacionais completas produzidas pelo poder do Estado e, naquele momento, centralizada nas COHAB's.

O encadeamento deste projeto, 'Diretrizes Habitacionais', foi o conduzido pelo Instituto de Pesquisa e Tecnologia (IPT), que tinha por objetivo estudar formas alternativas da produção de unidades habitacionais não inseridas no mercado formal64, localizadas na região metropolitana de São Paulo.

O estudo foi conduzido sob coordenação de Carlos Alberto de Abreu Maffei e gerência de Nancy das Graças Cardia. A equipe do IPT envolveu três atores:

Ester Zita Botelho de Oliveira Oixo, Marta Ferreira Santos Farah e Rosemary

64 "Por mercado formal entende-se as unidades comercializadas e/ou construídas através do Sistema Financeiro da Habitação (SFH); comercializadas e/ou construídas pelo mercado privado; construídas individualmente com assessoria técnica, sem gerenciamento pelo próprio proprietário e unidades domiciliares completas alugadas." (IPT, 1978, p.11)

Zenha Kaupatez. O estudo envolveu também uma equipe da Fundação para Pesquisa em Arquitetura e Ambiente, a FUPAM: Suzana Pasternak e Yvonne Miriam Martha Mautner.

Procurar-se-á, então, não só investigar e analisar as ações governamentais, bem como quais as melhorias que possam ser introduzidas, de modo que as instituições existentes possam aumentar a eficácia de seu desempenho. Mas também as formas de provimento de habitação não englobadas pela ação governamental tais como favela e autoconstrução, de modo que a dinâmica dos seus sistemas habitacionais seja captada e compreendida. Esses subsistemas poderão, eventualmente, fornecer subsídios para reformulações, ampliações e modificações na política habitacional (IPT, 1978, p. 1-2 Apud CARDIA, 1975,).

A justificativa que levou o IPT a este objetivo baseou-se "na lacuna de conhecimento sobre a estrutura e dinâmica de produção, distribuição e uso da habitação das formas alternativas não inseridas no mercado formal". Além do mais, reitera-se que as formas de produção formal da unidade habitacional, sendo ela pública ou privada, não atendiam a populações de baixa renda. Um signo dessa inadequação da política habitacional observado pelo projeto se deu pela constatação, a partir do levantamento censitário realizado, do surgimento de formas alternativas de produção habitacional onde a produção é gerenciada pelo próprio usuário. Outro signo observado foi o crescimento de favelas e cortiços na cidade.

Evidenciou-se uma lacuna de trabalhos que abordassem o problema de habitação de forma mais ampla e que englobassem e respeitassem a teia de relações entre os elementos envolvidos nesse processo. (IPT; CNPq, 1979, p.7)

A problemática habitacional era analisada com foco nos componentes que esboçavam a demanda habitacional, estes componentes se limitavam a

"estatísticas sobre populações sem habitação ou superpovoadas e/ou o déficit qualitativo de obsolescência e de aumento de demanda pelo crescimento populacional". Serviam como "subsídios para especificação da demanda" em caráter quantitativo e, por levantar componentes socioeconômicos delineando um perfil da população a ser atendida, dos consumidores finais da unidade habitacional subsidiada ou não.

O projeto de pesquisa visou "compreender a dinâmica desse mercado habitacional informal" a partir dos "processos de produção, distribuição e uso da habitação", não se restringindo ao objeto construído. Por fim, o estudo ampliou-se para "os contextos urbano, socioeconômico e político" que envolvem a produção informal (IPT, 1978, p.12).

A metodologia utilizada pela pesquisa se pautou na coleta de dados primários

"não quantificáveis" para substanciar uma análise crítica dos fenômenos estudados, sendo alguns deles o processo de "decisão pelo qual dado indivíduo escolhe certa alternativa habitacional" e a produção e distribuição das unidades habitacionais classificadas como informais. A metodologia adotada para se caracterizar tais processos foi "exploratória", com suporte de coleta de dados

"não quantificáveis" e aplicação de entrevistas dotadas de roteiro e instrumental, porém com uma orientação de uma certa liberdade dada aos entrevistados, para que, assim, se registrasse um discurso relativamente livre que ampliasse a coleta de dados e envolvesse questões que julgasse relevantes para contar a sua história, dados estes que poderiam revelar elementos que conduziram o entrevistado a adotar um ou outro processo de decisão (IPT;CNPq, 1979, p.9).

Os objetivos de transferência de tecnologia e de formação de pessoal serão atingidos através de intercâmbio com o Prof. John Turner (com os subsídios do Ministry of Overseas Development) e de seminários com técnicos do exterior, bem como através das dissertações de mestrado e teses de doutorado a serem produzidas por membros da equipe envolvida na pesquisa (IPT, 1978, p.13).

A contribuição do Prof. Turner neste projeto configurou-se como um "aspecto positivo da cooperação internacional no sentido de sua contribuição à formação de pessoal especializado em pesquisas habitacionais", ficando sob sua responsabilidade a assistência e orientação de trabalhos acadêmicos, bem como a participação de conferências e seminários, além da contribuição "ao desenvolvimento de uma metodologia de pesquisa nessa área" (IPT, 1978, p.1).

O projeto Diretrizes Habitacionais estruturava-se em quatro etapas, conforme elucida o cronograma de atividades do plano de trabalho da pesquisa, documento publicado em março de 1978 pelo IPT.

Tabela 1: Cronograma de atividades do Plano de Trabalho da Pesquisa Diretrizes Habitacionais. Março de 1978.

Quando da seleção das unidades de estudo (abril) seria oportuno que a equipe do IPT se reunisse com técnicos do CNPq [...] Seria extremamente valioso que tais contatos ocorressem em momentos decisivos do trabalho além daqueles em que se contará com a contribuição do Prof. John Turner. (IPT, 1978, p.

23)

Para a definição das localidades escolhidas como estudos de caso, seguiram um

"esquema analítico" com base no "status jurídico do terreno" - se invadido ou adquirido - e a "densidade do habitat" - unifamiliar ou coletivo. A pesquisa adverte que tais categorias não são restritivas a tipologias habitacionais por existirem diversas modalidades de habitação, tais como: "própria, alugadas, cedida, de alvenaria ou não, autoconstrução, cortiços centrais e de periferia, etc" (IPT;CNPq, 1979, p.10).

Figura 33: Esquema analítico das categorias habitacionais - objeto de estudo da pesquisa IPT. "Diretrizes Habitacionais" (1978-1979)

Isso posto, foram definidas as áreas de estudo que contemplassem favelas, invasão de moradias, "periferia", cortiços e conjuntos habitacionais. Procurou-se contemplar a multiplicidade de tipologias de áreas em cada categoria definida.

"Escolheram-se dois tipos de invasão de terras: a favela do Jaguaré" - com mais de 15 anos de existência, 2.500 barracos, dotada de equipamentos de infraestrutura; e "uma das favelas nos loteamentos periféricos - a da Brasilândia.

Um terceiro tipo de favela - o núcleo pequeno, perto de zonas ricas da cidade".

Novamente o que se viu foi que a alternativa habitacional mais recorrente foi a da autoconstrução. Um terço dos entrevistados relataram o processo da autoconstrução como o adotado para se obter a unidade habitacional. Os desdobramentos destes estudos são múltiplos: comprovou-se que a produção dos barracos autoconstruídos utiliza mão de obra especializada, tem um custo considerável no orçamento familiar, é realizada por uma dinâmica de cooperação entre pessoas que habitam a mesma comunidade e serviços especializados, e, por vezes, o produto final é destinado ao aluguel. Estes resultados são amplamente abordados pela Prof. Dra. Suzana Pasternak e Yvone Mautner em Habitação da Pobreza: Alternativas de Moradia Popular em São Paulo (1982). Na publicação, as autoras comprovam que existe um mercado informal deste bem produzido pela autoconstrução assistida, representando

assim um contraponto à hipótese que se tinha na época de se tratar de um bem sem valor de mercado. Hoje, sabemos da existência de imobiliárias em favelas autoconstruídas e que estes imóveis têm valor de mercado que respeita o meio local em que se encontra.

Figura 34: Anúncios de venda de imóveis na favela Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo no ano de 2017 (Foto do autor).

4.2.2 Uma aproximação com o Banco Mundial e o acordo de

No documento São Paulo (páginas 110-117)