CAPÍTULO 3. Territórios autoconstruídos
3.2 Territórios autoconstruídos: o debate acadêmico nacional
3.2.3 Sobre a unidade habitacional autoconstruída
As classes populares rurais sempre produziram sua própria moradia em sistemas de auto-ajuda e mutirão, com materiais produzidos localmente ou adquiridos em centros urbanos próximos. Quando essa população rural migra para a cidade, carrega consigo o aprendizado do campo e continua a autoconstruir suas comunidades. Essas comunidades autoconstruídas passaram a incomodar o governo e as elites locais urbanas. É derivado desse incômodo e deslocamento cultural que se pode aferir a atribuição aos territórios autoconstruídos intraurbanos e seus moradores de noções como degradados, degenerados, locais que abrigavam bandidos, prostitutas e traficantes e que, portanto, precisavam ser extirpados da cena urbana, desfavelados, em vez de compreendidos. A visão marxista, criticando o capitalismo urbano, vem dar uma interpretação de espoliação a esse processo, exigindo que sua solução seja dada pela ação do Estado, através de políticas habitacionais de cunho social.
Segundo Valladares (1982, p.23), Maricato é a primeira autora brasileira a definir autoconstrução, descrevendo-a como "o processo através do qual o proprietário constrói sua casa sozinho ou auxiliado por amigos e familiares" e continua "nos seus horários de folga do trabalho remunerado, principalmente, portanto, nos feriados e fins de semana" (MARICATO, 1976, p.10). Posteriormente, amplia seu significado aos termos "autoajuda", "ajuda mútua" e "mutirão", compreendendo assim diversas formas de organização do interessado em uma "solidariedade forçada", sem, no entanto, alterar o significado referenciado em Francisco Oliveira, da autoconstrução ser a forma de exploração do trabalhador por um Estado capitalista. A autora amplia o objeto da autoconstrução, não apenas para a unidade habitacional, mas também para equipamentos comunitários como igrejas e escolas, bem como para infraestruturas públicas como leitos carroçáveis.
Se a autoconstrução é quantitativamente tão importante como confirmam os dados, é porque nem o Estado investe significativamente na reprodução da F.T. (Força de Trabalho), e nem os salários, progressivamente desvalorizados, cobrem os
custos relativos à habitação urbana (casa e seus complementos).
(MARICATO, 1979, p. 92)
A autoconstrução da unidade habitacional individual é fruto do trabalho dos membros da família, podendo envolver a comunidade, por meio da cooperação de amigos, vizinhos e contratados para realizar trabalhos específicos.
Realizada nos fins-de-semana, feriados, férias, pela noite, Valladares sugere que autoconstrução se organiza através de redes de trabalho pautadas em compromissos recíprocos entre vários interessados, acordos estes que podem perdurar durante tempo indeterminado (VALLADARES, 1982, p. 23).
Uma maneira de organizar a autoconstrução está no termo ‘mutirão’. Para Maricato nada mais é do que a "solidariedade forçada" (1979, p.71), já Rolnik e Bonduki criticam tal "solidariedade de classe" que contribui indiretamente para manter os salários baixos e a carga da jornada de trabalho estendida (1979, p.131), e classificam como uma forma de organização do trabalho derivado da autoconstrução (BONDUKI; ROLNIK, 1979, p.131; COSTA, 1979, p.22; LIMA, 1980, p.87; CAVALCANTI, 1980, p.111). Por outro lado, a autoconstrução pode ser interpretada como um fator cultural, associado a uma prática comunitária de populações rurais que se organizam para providenciar edificações da unidade habitacional ao curral.
Lima destaca dois dificultadores que compõem a viabilidade financeira em estratégias de autoconstrução. As despesas, quando firmado um compromisso financeiro para a compra de um lote, são compostas pela parcela do compromisso financeiro somada ao custo de aluguel e os recursos para o material para construir. Esta etapa inicial precede a decisão para o início da construção da unidade habitacional e é crítica, pois conseguir "prover abrigo e sustento ao grupo familiar ao mesmo tempo que paga prestações e material, só é possível quando o autoconstrutor consegue uma elevação ocasional dos seus recursos monetários". Lima identifica ainda que para viabilizar a construção, ocorre a "substituição da casa de aluguel por um cômodo cedido na casa de parentes, por um quarto alugado, ou ainda por um cômodo de avenida56,
56 Lima define cômodo de avenida a partir da descrição de um antigo morador: "Na avenida são quartos
próximo ao loteamento" (LIMA, 1980, p. 79).
Levando-se em conta que mesmo o pagamento das prestações do lote somado ao do aluguel é um peso exorbitante no orçamento de trabalhadores com níveis salariais tão baixos, percebe-se que o período que vai da compra do lote à conclusão do primeiro cômodo - momento em que a família se muda para a casa própria - se constitui na fase mais crítica da autoconstrução. (LIMA, 1980, p. 78-79)
Quanto aos meios de obtenção dos recursos necessários para a autoconstrução, Lima identifica a obtenção de "recursos provenientes do FGTS, do 13º salário, da venda de férias, de biscates relativamente bem remunerados e até mesmo a venda de um barraco na favela" (1980, p.79). Valladares complementa a lista com a inserção dos membros da família no mercado de trabalho, redução do orçamento doméstico, alienação de bens de uso doméstico e pessoais; caso isso não seja suficiente, ocorrem atrasos no pagamento da parcela do lote (1982, p.23).
Quanto à aquisição dos materiais necessários para a construção, relaciona-se a disponibilidade de recursos com a etapa específica da construção. O local de compra se dá no comércio local, e não em grandes centros de comercialização de material de construção; se, por um lado, ativa uma economia local, por outro aumenta relativamente seu custo, mas, ao final, acaba por diminuir o custo de transporte do mesmo. O reflexo dessa lógica é o aumento do número de construção da unidade habitacional é interrompida, podendo, assim, deteriorar-se pelas intempéries naturais.
igual [sic] 'tá aqui, só que enfileirado, e um banheiro 'tá la no fundo do terreno pra todo mundo. Então a vala 'tá lá na frente da casa da gente... aí vem de toda porcaria, vem de tudo, tudo passa ali. Quando chove então aquilo 'tá ali subindo pela sua porta. É uma coisa muito sebosa, faz mal à gente. O aluguel mensal de um cômodo de avenida custava no período da pesquisa em torno de Cr$ 350,00."(LIMA, 1980, p.79)
Nas análises convencionais que são feitas sobre o assunto, sempre tem sido difícil escapar às formulações rígidas do problema, com enfoques privilegiados para aspectos tais como:
sucesso ou insucesso das ações do Governo; confrontações entre as necessidades de consumo (valor de uso) e as lógicas de produção (valor de troca) da moradia; graus de satisfação dos usuários em relação ao tipo de habitação que lhes é oferecido;
adequações e eficiência de técnicas de produção e de financiamento etc. (SANTOS, 1980, p.18)
Quanto à preocupação dual entre o "valor de uso" e o "valor de troca" da unidade habitacional, Santos considera uma abordagem resumida e abstrata das ações entre o Estado, o Capital e o morador, por simplificar a complexidade existente entre sociedade, economia e materialidade expressa pelo conceito de 'habitar', bem como do complexo jogo de interesses próprios onde cada ator do processo persegue seus próprios desejos inseridos "nas regras do jogo coletivo". "MORAR em uma cidade, um bairro e uma casa" não é redutível "a um instante fixo no tempo e correspondente a um mero espaço material (o da edificação)". Para Turner, Habitação é uma ação no tempo. A habitação interpretada como um serviço público, "seja orientada pelo Estado ou pelo Estado em aliança com o Capital", implementada por um sistema hierárquico, não consegue prever uma série de externalidades, tornando-se assim 'ineficaz' (SANTOS, 1980, p. 17-18).
Considera-se que a unidade habitacional autoconstruída parte de uma premissa de seu "valor de uso" e, potencialmente, contém um "valor de troca", sendo assim interpretada como uma "mercadoria", afinal, tudo aquilo que tem valor será trocado, em caso de necessidade. "Se, numa primeira instância, a habitação resultante dessa operação é produzida como valor de uso, passa a ter um valor de troca quando é mercantilizada, através de venda ou locação" (BONDUKI;
ROLNIK, 1979, p. 129).
Não obstante, do processo de autoconstrução não resulta um bem apenas dotado de valor de uso, embora seja a busca desse valor o motivo que o deslancha. A casa, apropriada totalmente pelo autoconstrutor, é em potencial uma mercadoria que poderá ser mercantilizada através da venda ou de aluguel. (LIMA, 1980, 89)
O mercado em que se inserem as transações de compra, venda ou locação da unidade habitacional autoconstruída é caracterizado por duas vertentes: por um lado, por casas construídas para locação, locação de cômodos, revenda de lotes,
venda de unidades habitacionais; e, por outro lado, o resultado ampliado do significado de "propriedade habitacional" que, além da supressão do valor de aluguel, pode passar por um processo de valorização no tempo, bem como por um fator de segurança, dada a instabilidade econômica a que todos os moradores estão sujeitos (BONDUKI; ROLNIK, 1979, p.138-144; LIMA, 1980, p. 89-90; SANTOS, 1980, p.37).
ao se apropriar integralmente do bem que produziu, o autoconstrutor se insere no estrato dos proprietários urbanos e esse fato tem implicações políticas e ideológicas. Essas implicações carecem de pesquisas que as explorem em toda sua complexidade, mas pode-se sem risco de erro afirmar que a autoconstrução é uma solução bastante conveniente ao sistema em vigor. (LIMA, 1980, p. 90)
Ao visitar um assentamento irregular no Rio de Janeiro em 1968, Turner se manifesta ao afirmar que viu mais soluções do que problemas. Para Bonduki e Rolnik, a autoconstrução interpretada como solução é vista como "a alternativa que restou ao trabalhador” (1979, p.153); já para Lima, é uma resposta viável ao sistema imposto.
Turner teve um papel de referência internacional na alteração da interpretação da autoconstrução, de um problema para uma possível solução, desde que assistida pelo Estado ou, ao menos, considerada como uma realidade a ser trabalhada. Antes que uma espoliação do capital ou do valor do trabalho, a mais valia dentro da ótica marxista. Pois que o trabalhador não tem capital, mas sim a força de trabalho do trabalhador de baixa renda, é uma oportunidade de se firmar o direito à propriedade privada, desde que o Estado regularize a situação clandestina e não reforce a crença da propriedade privada como um bem inalienável:
Ampliando o contingente de proprietários particulares de habitações, ela realimenta a crença de que o direito legal à propriedade privada é um direito incontestável e reforça o seu valor como aspiração incondicional, contribuindo assim para reforçar o sistema da propriedade privada. (LIMA, 1980, p. 90) Dentre os autores estudados que abordam o tema de moradias autoconstruídas, Lima, Rolnik, Bonduki, Maricato, Cavalcanti e Costa consideram a prática da autoconstrução como um dos principais aspectos da reprodução da força de
trabalho e sugerem que apenas um Estado presente consegue construir unidades habitacionais para combater o déficit habitacional. (VALLADARES, 1982, p. 22;
LIMA, 1980, p.71; ROLNIK; BONDUKI, 1979, p.27; MARICATO, 1979, p.82;
CAVALCANTI, 1979, p.20; COSTA, 1979, p.2)
Por outro lado, observou-se que a iniciativa privada forma suas barreiras políticas para inviabilizar o subsídio público para a 'classe trabalhadora' autoconstruir suas habitações, uma vez que interpreta isso como uma ameaça de perda dos seus potenciais futuros clientes. Jacobi destaca o significado de autoconstrução como uma ‘solução’ habitacional promovida pela própria classe operária, na ausência de políticas habitacionais do governo ou de um "mercado formal" (JACOBI, 1978, p.4), compatível com os níveis salariais desta maioria da população.
Figura 26: Arquitetos não são mágicos. FONTE: SANTOS, Carlos Nelson Ferreira. Associação de moradores:
estarão as pranchetas mudando de rumo?. s/d. Disponível em Arquivo Turner, Universidade de Westminster - Londres.
Isso sugere que a crítica acadêmica fundamentada no trabalho de Francisco de Oliveira é complementar aos impeditivos políticos dos empreendedores privados da construção civil e da ausência do Estado. Tal crítica acadêmica e da iniciativa privada substanciaram uma barreira a qualquer iniciativa do Estado em subsidiar iniciativas de autoconstrução assistida que, segundo Céline Sachs, nunca foi uma prioridade, tendo em vista o montante do capital federal destinado à construção de unidades habitacionais "sociais" na história do Banco Nacional da Habitação.
No entanto, o Brasil continua a se autoconstruir. (SACHS, 1990)
Mesmo para São Paulo e para São Bernardo do Campo os dados apontam 25,0% e 21,3% respectivamente, sendo que consideramos os dados bastante subestimados na medida em que não levam em conta as habitações de favelas ou parte das habitações clandestinas de modo geral. Nos municípios ou bairros que foram ocupados nos últimos vinte anos, o número de autoconstrução é sempre maior: Guarulhos - 51,4%, Cajamar - 78,81%, Itapevi - 85,61% e Embu - 95,8%. (MARICATO, 1979, p.86-87)
A pesquisa solicitada ao DATAFOLHA57 pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (Brasil) revela a contemporaneidade da problemática da autoconstrução. O levantamento foi realizado em junho de 2015. Dos entrevistados, 54% já haviam desenvolvido reforma ou construção de imóvel residencial, destes, 85% não utilizaram um serviço de assistência técnica, apesar desta ser um direito gratuito do cidadão, mas negado no nível municipal. Sabe-se que a lei não garante o serviço, uma vez que este depende de interesses maiores.
A pesquisa revela que sim, o Brasil ainda autoconstrói sua unidade habitacional, indicando, se a autoconstrução representa a "superexploração" do trabalhador, a ineficiência do "serviço público" centralizado no papel do Estado e a baixa produtividade do mercado privado da construção civil. Caso não se alterem as formas de produção, incentivo ou subsídio público à produção privada da unidade habitacional, ou se não forem incorporadas formas de autoconstrução ASSISTIDA nas pautas da política pública de habitação de baixo custo, continuaremos a repetir os antigos jargões históricos para um problema identificado há mais de 40 anos. Quem mais sofre com isso? Desde a década de 1970, foram (e ainda são) os próprios sujeitos dessa história, a população vulnerável de baixa renda.
57 A pesquisa completa está disponibilizada em:
http://www.caubr.gov.br/pesquisa2015/index.php/objetivos-e-metodologia/. Acesso em 20/04/2016.