UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM LETRAS LIBRAS - BACHARELADO
Sara Almeida
Adequação da interpretação à necessidade de
comunicação do aluno Surdo
Santa Rosa/RS 2018
2 Sara Almeida
Adequação da Interpretação à Necessidade de
Comunicação do Aluno Surdo
Trabalho apresentado à Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito para a conclusão do curso de Graduação Bacharelado em Letras Libras.
Professor Orientador: Tarcísio de Arantes Leite
Santa Rosa/RS 2018
3 "Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência."
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AGRADECIMENTOS
Inicialmente agradeço a Deus.
Agradeço a tutora Cátia, por todo esforço em me auxiliar durante todo o período de formação no curso. As minhas colegas de trabalho, Carol e Juliane, pelo apoio, leitura e sugestões.
A Dona Edite, minha mãe, mulher de honra, que tem me cuidado até aqui.
Agradeço ainda a minha família e a todos os envolvidos, que de alguma forma, foram importantes no meu processo de formação.
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RESUMO
Neste trabalho, busca-se analisar como o intérprete avalia o nível linguístico do aluno Surdo, bem como quais estratégias os tradutores-intérpretes de LIBRAS utilizam para sanar as necessidades comunicativas de alunos Surdos frente a essas questões linguísticas. Como ponto de partida, fez-se um estudo em lócus, onde se optou por realizar uma análise exploratória a partir das vivências práticas, fazendo uso de estudos bibliográficos em diálogo com essas vivências no presente trabalho. A partir desta reflexão, percebemos que o papel do TILS carece de ser reavaliado e explorado em sua totalidade, para que possa efetuar-se como mudança no espaço educacional, e não se constate ações fragmentadas relacionadas às práticas profissionais neste meio. O texto estende o diálogo também para a formação dos TILS, que parece não oferecer suporte para as situações complexas que serão vivenciadas em sua prática profissional.
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RESUMEN
En este trabajo, se busca analizar cómo el intérprete evalúa el nivel lingüístico del alumno, también qué estrategias los traductores intérpretes de LIBRAS utilizan para remediar las necesidades comunicativas de alumnos sordos frente a cuestiones lingüísticas. Como punto de partida se hizo un estudio en lócus, donde se optó por realizar un análisis exploratorio a partir de las vivencias prácticas, haciendo uso de estudios bibliográficos que propiciaron el diálogo obtenido en el presente trabajo. En la ocasión, se consideró que el concepto sobre el papel del TILS necessita ser reevaluado y investigado en su totalidad, para que pueda efectuarse como cambio en el espacio educativo, y no se constate acciones fragmentadas relacionadas a las prácticas profesionales en este medio. El texto se extiende al diálogo sobre las acciones ejercidas por TILS, cuando la formación efectuada por éste, no subsidia situaciones complejas ejercidas en su práctica profesional.
7 SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...10
1. REFERENCIAL TEÓRICO...12
1.1 O Intérprete TILS: A Formação...12
1.2 O Papel do Intérprete e suas Competências...14
1.3 Intérprete Educacional...17 2 METODOLOGIA DA PESQUISA...19 2.1 Tipologia da Pesquisa...17 2.2 Sujeitos da Pesquisa ...17 2.3 Coleta de Dados...17 2.3.1 Memorial...17 2.3.2 Entrevista Semiestruturada...18
2.4 Análise dos Resultados...18
3. MEMORIAL AUTOBIOGRÁFICO...19
3.1 A Caminhada...19
4. ANÁLISE DE DADOS...23
4.1 Introdução (categorias que diferenciam os objetivos) ...23
4.2 O Papel do Intérprete: Formação x Prática...23
4.3 Sujeitos Surdos: Os Diferentes Níveis Linguísticos...24
4.4 Concretização das Ações...26
CONSIDERAÇÕES FINAIS...28
REFERÊNCIAS ...30
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INTRODUÇÃO
Compreender o marco entre a transição da interpretação pautada nas competências tradutórias, para o desenvolvimento da interpretação traçada pela subjetividade, requer um cuidado preciso, sustentado na persistência versada na prática, estendida ao discurso teórico que possibilite credibilidade a argumentação proposta. Tal discurso, parte das indagações sobre as adequações que os TILS (tradutores Intérpretes de Libras) utilizam na interpretação para amparar as necessidades de comunicação do aluno Surdo.
As discussões apresentadas neste artigo são decorrentes das inquietações adquiridas no decorrer da experiência como TILS, e como aluna na graduação em Letras Libras. Fazer com que as questões teóricas que estão emersas em um universo abstrato se manifestem nas práticas cotidianas de profissionais intérpretes de Libras é sem dúvidas uma tarefa significativa, tanto das instituições formadoras, quanto dos sujeitos que ingressaram a essas atividades.
O interesse pela pesquisa surge a partir do diálogo sobre a formação de TILS aliada aos procedimentos da inclusão de alunos Surdos na educação. Entende-se que a vivencia prática de um TILS, exercita o discurso teórico e abstrato exercido na formação. Assim, fundamenta-se ações e estratégias de tradução e interpretação fidelizadas ao ser singular, impar e subjetivo.
É muito comum testemunhar no decorrer da prática, situações onde se presencie alunos Surdos com pouca fluência na Libras e no português. Em consequência, sabe-se que as escolhas lexicais realizadas por TILS, fazem grande diferença no entendimento desses Surdos, em relação aos discursos proferidos. O que permeia a elaboração dessa pesquisa é a preocupação que se tem, em conseguir atender a esses sujeitos, em sua subjetividade, para que a aquisição de conhecimento aconteça de forma integral.
Este trabalho encontra-se dividido em quatro capítulos. O primeiro trata da formação e das competências do interprete educacional. O segundo contém a descrição da pesquisa. O terceiro contém a descrição das experiências vividas pela pesquisadora, apresentadas em forma de diário. E o quarto é formado pela análise de dados.
Em suma, discutir sobre os modos de adaptação, e os níveis de fluência que correspondam à subjetividade do Surdo, é um tema visto com pouco interesse pela área da pesquisa, em razão da pouca bibliografia existente. Mas está imerso no dia a dia do intérprete
9 de Libras, como desafios a serem superados, os quais são alcançados através de supostos métodos, criados a partir da intuição e da pesquisa-ação do profissional TILS.
O que se espera é que a universidade tenha um olhar inclinado à singularidade do sujeito, tentando aproximar seus alunos aos ofícios e as atividades de um profissional TILS, não a uma realidade pressuposta a profissionais ajustados ao ambiente bilíngue, com Surdos que tiveram oportunidade de ser alfabetizados pela L1 em Libras, mas a realidade que se encontra nas escolas de interior, nas escolas de nível médio ou superior, que oferecem o acesso inclusivo, fragilizado e vulnerável. É uma profissão encantadora, mas com muitos anseios, e expectativas de transformação, não apenas porque a LIBRAS passa por mudanças por se encontrar num processo de variações e reformas, mas também a transformação no ponto de vista da interpretação linear continua, para uma intepretação inclinada ao ser individual, singular.
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1. CAPÍTULO DE REFERENCIAL TEÓRICO
1.1 O Intérprete TILS: A Formação
Durante muitos anos, indivíduos Surdos foram forçados a um processo de uso de língua que não os representava. A Libras, língua brasileira de sinais, foi um ganho essencial para a comunidade surda no Brasil. Através da Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002 (Brasil, 2002), e com sua regulamentação por meio do Decreto nº 5.626 de 22 de dezembro de 2005 (Brasil, 2005), a Libras é reconhecida como meio legal de comunicação, garantindo amplo desenvolvimento da comunidade surda, e abrangendo as possibilidades de estudos da Língua de Sinais.
Com a criação do curso superior de Letras Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina no ano de 2006, há uma evolução visível dos processos de aquisição dessa língua.
A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ao criar o primeiro Curso de Graduação em Letras Libras (Língua Brasileira de Sinais) do país, tornou-se um centro nacional de referência na área de Libras. O Curso de Graduação em Letras Libras, na modalidade a distancia, é uma ação desenvolvida para atender às demandas decorrentes da inclusão dos Surdos na educação, conforme previsto no Decreto 5.626/2005 que regulamenta a Lei de Libras 10.436/2002, bem como para garantir sua acessibilidade, conforme previsto na Lei de Acessibilidade 5.296/2004 e em outras determinações legais. (UFSC EAD).
A partir disso, surgem mais estudos referentes às línguas de sinais, e consequentemente, um conhecimento técnico, que profissionalizasse Intérpretes a trabalharem com essa minoria.
Com o início dessas inserções acadêmicas, pode-se apontar o processo de formação universitária como um caminho que desenvolve conhecimento técnico, o qual muitas vezes torna-se indefinido fora do contexto das universidades, pois as realidades dos processos de interpretação podem estar além das competências adquiridas na formação. De acordo com Rodrigues e Quadros (2015), algumas evoluções referentes aos estudos da Tradução e Interpretação merecem ser destacadas,
[...] a criação de Cursos de Graduação com vistas à formação de tradutores e de intérpretes de Libras-Português; (iii) a crescente produção de pesquisas na pós-graduação sobre a tradução e a interpretação envolvendo línguas de sinais; e (iv) a congregação de pesquisadores da tradução e da interpretação de línguas de sinais em eventos acadêmicos das áreas da Linguística, da Linguística Aplicada, da Letras e da Tradução, assim como nas diferentes edições do Congresso Nacional de Pesquisas
11 em Tradução e Interpretação de Libras e Português, desdobraram-se em várias ações, dentre as quais merece destaque o estabelecimento dos Estudos da Tradução e da Interpretação de Línguas de Sinais no contexto brasileiro. (p.11)
Esses mesmos autores citam que no ano de 2010 inicia-se um fluxo de pesquisas na área da tradução e interpretação. Ressaltam que os Estudos da Tradução e os Estudos da Interpretação estão tendo cada vez mais visibilidade, e que esse campo disciplinar, gradativamente está se tornando uma área promissora para novas pesquisas.
A interpretação se faz necessária quando em espaço comunicativo um falante desconhece a língua utilizada por seu interlocutor. Nesses casos, a presença do intérprete permite o rompimento da barreira linguística (LACERDA, 2010).
De acordo com Lacerda (2010) o termo "traduzir" e "interpretar" são compreendidos como similares, já que as duas definições fazem referência ao ato de versar os conteúdos de uma língua para outra. Entretanto, traduzir refere-se, a textos escritos, ou a documentos sinalizados em Libras, ou vice e versa, permitindo ao tradutor tempo, e consulta a materiais distintos, como livros e dicionários. A tradução fica registrada e a avaliação da qualidade é feita a longo prazo e na medida em que o texto é lido e comentado. Ao intérprete, lhe cabe a interpretação simultânea ou consecutiva, o qual faz uso da memória de tradução apenas, sem possibilidades de consultar matérias, pois não possui tempo hábil para tal.
Mas acima de qualquer discurso teórico, um questionamento norteador a evolução profissionais de TILS é a busca em como direcionar a interpretação frente à subjetividade do aluno Surdo, e assim, realizar uma interpretação com todos os requisitos propostos pelos eixos das disciplinas do curso de formação, sem ignorar as características de cada sujeito.
Quando a formação se baseia em uma estrutura teórica e politizada, a aproximação da prática torna-se preocupante frente à necessidade de comunicação do sujeito Surdo. Posto isto, como discutir, por exemplo, a falta de preparação dos profissionais tradutores-intérpretes para lidar com Surdos não fluentes na Libras.
Para Machado (1996) ressignificar nossos conceitos relativos aos desafios da prática e da construção histórica que vivenciamos, não como reconstrução, mas como reflexão e como compromisso com a sociedade, faz-nos reconsiderar a maneira como pensamos, julgamos e agimos. Assim,
“Por mentalidade quero significar a maneira de pensar, julgar e agir. (...) O desafio das práticas significa tornar as vivências e experiências objetos de análise e reflexão. Em geral, não há preocupação com o contexto em que são construídas e consolidadas as nossas práticas, em outras palavras, não reconstruímos a trajetória
12 histórica da nossa prática. Finalmente, o desafio do compromisso significa transitar do discurso para a ação, articular o real possível e o ideal, destruir as fantasias que cercam o mundo dos planejamentos e programas, gestar e gerir propostas capazes de dialogar com as práticas e as realidades, resgatar o sentido do planejar para a ação”. (MACHADO, 1996, p. 103-104)
Sander (2013) argumenta que a formação insuficiente gera no profissional uma percepção negativa sobre seu papel, dando-lhe a sensação de não ser participante efetivo na formação dos alunos Surdos.
Entende-se a importância da formação acadêmica do Tradutor Intérprete de Libras, contudo, a academia deveria abranger discussões que fortalecesse a preparação do profissional Intérprete para lidar com as características peculiares dos sujeitos que se apresentam no ambiente profissional. Consequentemente, uma grande questão que permeia o TILS em lócus, é como adequar a interpretação ao aluno que precisa ser visto de forma diferenciada, para que haja de fato equidade dentro do espaço em que ele está inserido. Para isso, buscar-se-á através do papel e das competências do profissional TILS, dar sentido aos questionamentos presentes mesmo após o processo de formação.
1.2 O Papel do Intérprete e suas Competências
O processo de interpretação apresenta competências que o Tradutor-Intérprete desenvolve ao longo de sua trajetória. Percebe-se que a grande maioria dos autores que trabalham com conceitos linguísticos e competências tradutórias, preocupam-se fundamentalmente com a elaboração de técnicas de competências que se detenham maioritariamente na habilidade do profissional Intérprete, e nas habilidades de interpretação que este profissional possui para manipular as línguas envolvidas, ou seja, se atentam com a formação técnica de TILS. Vejamos a seguir, com Roberts (apud Quadros, 2003), as seis categorias para analisar o processo de interpretação,
13 (1) competência linguística - habilidade em manipular com as línguas envolvidas no processo de interpretação (habilidades em entender o objetivo da linguagem usada em todas as suas nuanças e habilidade em expressar corretamente, fluentemente e claramente a mesma informação na língua alvo), os intérpretes precisam ter um excelente conhecimento de ambas as línguas envolvidas na interpretação (ter habilidade para distinguir as ideias principais das ideias secundárias e determinar os elos que determinam a coesão do discurso). (2) competência para transferência - não é qualquer um que conhece duas línguas que tem capacidade para transferir a linguagem de uma língua para a outra; essa competência envolve habilidade para compreender a articulação do significado no discurso da língua fonte, habilidade para interpretar o significado da língua fonte para a língua alvo (sem distorções, adições ou omissões), habilidade para transferir uma mensagem na língua fonte para língua alvo sem influência da língua fonte e habilidade para transferir da língua fonte para língua alvo de forma apropriada do ponto de vista do estilo. (3) competência metodológica - habilidade em usar diferentes modos de interpretação (simultâneo, consecutivo, etc), habilidade para escolher o modo apropriado diante das circunstâncias, habilidade para retransmitir a interpretação, quando necessário, habilidade para encontrar o item lexical e a terminologia adequada avaliando e usando-os com bom senso, habilidade para recordar itens lexicais e terminologias para uso no futuro. (4) competência na área - conhecimento requerido para compreender o conteúdo de uma mensagem que está sendo interpretada. (5) competência bicultural - profundo conhecimento das culturas que subjazem as línguas envolvidas no processo de interpretação (conhecimento das crenças, valores, experiências e comportamentos dos utentes da língua fonte e da língua alvo e apreciação das diferenças entre a cultura da língua fonte e a cultura da língua alvo). (6) competência técnica - habilidade para posicionar-se apropriadamente para interpretar, habilidade para usar microfone e habilidade para interpretar usando fones, quando necessário. ( p.73-74)
Fazendo inferência a fala do autor, se entende que mesmo que o Intérprete leve em consideração a competência bicultural, que trabalha os aspectos culturais que subjazem as línguas envolvidas, isso não os torna competentes para atuar com uma demanda de sujeitos Surdos que estão fora de qualquer padrão de interpretação, pois possuem necessidades de comunicação, que vão além das competências linguísticas apresentadas pelo autor.
De acordo com Cortés (2009) o intérprete médico possui algumas características, que não estão distantes de demais contextos de interpretação.
Embora a primeira função primordial para facilitar a comunicação entre o paciente (e muitas vezes parentes e amigos que acompanham o paciente) e o médico, parece implicar que o intérprete traduz apenas palavras de uma língua para outro, este não é o caso. Portanto, sugere-se que o intérprete médico exerce vários papéis, como os de condutor, esclarecedor, mediador cultural e defensor (Cruz Programa Cultural de Saúde, 1999). Essas quatro funções são consideradas necessárias para responder a muitas outras barreiras que afetam a comunicação eficaz entre pacientes e médicos ou profissionais de saúde. (CORTÉS, 2009, cap.14, p.5)
Em sua fala o autor cita quatro papéis que o intérprete carece no momento de sua atuação, em seguida, abordar-se-á de forma sucinta o desenvolvimento de cada papel.
14 Cortés (2009) sugere que o intérprete pode assumir quatro papéis importantes, intrínsecos a sua atuação. Primeiramente, este profissional tem um papel de condutor, ou seja, é o papel do intermediador linguístico, de um profissional que domina dois idiomas, duas línguas, atuando na transição de uma língua para outra, para facilitar a conversação do emissor e do receptor, esse é o papel mais óbvio e mais objetivo que conhecemos dos intérpretes.
O segundo papel é o papel de esclarecedor. O Intérprete em qualquer contexto precisa ter a responsabilidade de esclarecer, cabe a este profissional, compreender ou perceber a necessidade de que determinado assunto seja melhor explicado ou não, ele pode requerer informações adicionais que o emissor está fornecendo para que a informação fique o mais completa possível. Isso possibilita que este profissional esteja envolvido com as características subjetivas de seus clientes.
O intérprete tem a função de ser um Intermediador Cultural, assumindo assim, seu terceiro papel. Cabe a ele perceber questões ou diferenças entre a cultura ouvinte a cultura surda e assim poder intermediar essas situações.
E por último, não menos importante, é o papel de Defensor, é um dever significativo, que quebra o mito da neutralidade, algo muito discutido na categoria deste profissional. O intérprete de sinais, também é um defensor, em último caso, isso significa que ele como intérprete conhecedor dos direitos e da legislação, pode ser quem defende o sujeito Surdo, em qualquer área ou contexto existente.
Buscou-se a través de Cortés (2009), apresentar papeis que, de forma mais direta, representam atribuições exercidas por TILS em sala de aula. Ainda, temos autores com Quadros (2004) que fomentam papeis como “Imparcialidade (ser neutro) e Fidelidade”.
Evidenciando o conceito de neutralidade, têm-se, através do ensino na formação e também das experiências profissionais, que manter-se neutro nos processos de interpretação caracteriza-se como mito, utilizado muitos anos por obras reconhecidas no estudo da Língua de Sinais, como na obra de Ronice Quadros, titulada como “O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa”.
O Intérprete, em qualquer contexto, realiza a todo o momento escolhas lexicais que vão de encontro aos discursos de neutralidade. As escolhas lexicais perante a riqueza do uso dos espaços na língua de sinais são de livre escolha do profissional, contudo, escolhas feitas com base no campo semântico e pragmático, uma exigência para que a mensagem seja transmitida.
15 Em resumo, a função do TILS, sugerem Carvalho e Martins (2014), deve ser pensada em três vias inseparáveis: a primeira, de que o exercício de maestria é inevitável em contextos inclusivos de ensino onde há a figuração de interpretação para Surdos; a segunda refere-se à impossibilidade de aprendizagem se a tradução for praticada e reduzida a um “mero gestual padronizado ou estanque”, desconsiderando-se envolvimento e contaminação de ordem didática “afecto-perceptorial” com a condição do outro, que é aprendiz e é Surdo (2014, p. 53-54.). A terceira via convocaria, então, o profissional intérprete para ir além de uma prática instrumentalizada de tradução, instigando-o “a ser criador de signos de aprendizagem concretos”. (GESSER apud CARVALHO, MARTINS, 2014, p.541).
1.3 O Intérprete Educacional
No Brasil, existe pelo menos uma situação em que a lei confere ao Surdo o direito ao acesso a educação juntamente com um profissional que lhe possibilite mediação e compreensão dos conteúdos didáticos. Da mesma forma a uma lei que respalda e regulamenta a profissão do intérprete de Libras. Através da LEI Nº 12.319, DE 1º DE SETEMBRO DE 2010 Art 1º o exercício da profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS é regulamentado.
Por ser um profissional bastante requisitado no mercado de trabalho, e que carece de muita experiência (trabalho/formação) para dar sentido ao ato de interpretar, busca-se compreender como o intérprete educacional consegue realizar uma interpretação que seja eficaz, e que atenda a necessidade do aluno, sem prejudicar ou atrasar o que está sendo discursado. Sobral (2005) apud Lacerda (2009) afirma,
[...] que o domínio da língua não é suficiente para a atuação profissional, já que se trata de compreender bem as ideias, pois serão elas o foco do trabalho, para além das palavras que as compõem. Neste sentido, defende ser fundamental desenvolver conhecimentos para além do conteúdo mais direto da mensagem, compreender as sutilezas dos significados e sentidos, os valores culturais, emocionais e outros envolvidos no texto de origem, e os modos mais adequados de fazer estes mesmos sentidos serem passados para a língua-alvo.
De acordo com Lacerda (2009), é imprescindível que o intérprete possua fluência na Libras, antes mesmo de iniciar a formação.
16 O fundamento principal é ter conhecimento amplo e profundo tanto da língua de partida como da língua alvo, sendo que aos tradutores caberá dominar bem a língua escrita, e aos intérpretes o domínio prestimoso da língua oral. Tal domínio é condição prévia e indispensável para a atuação de tradutores e de intérpretes, e os programas de formação desses profissionais não têm como objetivo o ensino de línguas. O domínio das línguas de trabalho deve anteceder a formação de tradutores e intérpretes. Este aspecto é um ponto discrepante nas exigências observadas para a formação de TILS. (LACERDA, 2009, p. 143)
A presença do intérprete em sala de aula torna os conteúdos acadêmicos acessíveis ao aluno Surdo. A finalidade da educação escolar é o desenvolvimento cognitivo do aluno, interação social, estimulo de potencialidades, entre outros.
A questão central não é traduzir conteúdos, mas torná-los compreensíveis, com sentido. Em consequência a isso, alguém que trabalhe em sala de aula, e que possua estreita relação com o sujeito Surdo, não pode realizar uma interpretação sem se importar se está sendo compreendido, ou se o aluno está aprendendo, o interpretar e o aprender são indivisíveis, estão ligados.
Desta forma, conceitos relacionados ao papel do Intérprete como imparcialidade e fidelidade vão de encontro com a prática do intérprete educacional. Assim como a lei de regulamentação da profissão afirma, é necessário que o intérprete com rigor técnico, e zele pelos valores éticos a ele inerentes, e, sobretudo, trabalhe com dedicação, cuidado e respeito à pessoa humana e à cultura surda (BRASIL, 2010).
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2. METODOLOGIA DA PESQUISA
2.1 Tipologia da Pesquisa
Visando neste estudo investigar a adaptação da interpretação do TILS para usuários com limitações da L1 (Libras) e L2 (português), opta-se em desenvolver um percurso metodológico pautado no estudo de campo. Quanto aos objetivos, classifica-se está pesquisa como um estudo exploratório. De acordo com Gill (1999), as pesquisas exploratórias envolvem geralmente a utilização de diferentes instrumentos de pesquisa, sendo geralmente utilizado levantamento bibliográfico e documental, entrevistas e estudos de caso. Partindo desse princípio, será realizado um estudo qualitativo, onde existem relações diretas com a problemática referida no presente trabalho.
A seguir, serão especificados os elementos da pesquisa, a saber: coleta de dados, subdividida em diário e entrevista semiestruturada.
2.2 Sujeitos da pesquisa
Os sujeitos da pesquisa dividiram-se em: a) três intérpretes que responderam a entrevista. Optou-se em denominar as intérpretes de entrevistada, 1,2 e 3, para manter sigilo de suas identidades. As entrevistas foram realizadas com TILS que durante sua atuação profissional, passada ou presente, foram Intérpretes de sujeitos Surdos que possuíam limitações na Libras e no Português. Os sujeitos entrevistados foram profissionais que no decorrer de sua prática, tiveram contato com Surdos inclusos em escolas regulares. Esses profissionais foram escolhidos em razão de atuarem nos três níveis de ensino, médio, técnico e superior.
2.3 Coleta de Dados
A coleta de dados aconteceu através da análise do diário e das entrevistas semiestruturadas, realizadas com três interpretes da área educacional.
18 2.3.1 Memorial
Descrito a partir das experiências da pesquisadora, tornou-se viável juntamente com o projeto de TCC. Trata-se de um relatório de vivencia profissional, que busca descrever realidades presenciadas no ambiente de trabalho. A ideia de criar um memorial surge com a necessidade de registrar momentos da atuação profissional com Surdos que possuíam uma demanda diferenciada. Desta forma, junto com a elaboração desses registros, evidenciam-se alguns conceitos adquiridos no processo de formação, neste sentindo, tem-se como proposta a elaboração de um artigo que auxilia-se na construção de argumentos que pudessem sanar as incertezas adquiridas na prática e na formação.
2.3.2 Entrevista Semiestruturada
A soma dos Intérpretes que participaram da pesquisa totalizou-se em três. Para isso, buscou-se elaborar uma entrevista semiestruturada subdivida em três blocos. A primeira versou sobre e formação dos intérpretes: sexo, faixa etária, formação profissional, e aprendizado da Libras, tempo de trabalho, atividade profissional principal ou secundária entre outras. A segunda parte tratou sobre o ponto de vista da profissional Intérprete em relação ao sujeito Surdo: nível de proficiência. E a terceira parte, trata das ações do Intérprete frente à prática profissional em sala de aula: estratégias utilizadas no processo de tradução e interpretação. As entrevistas foram realizadas no Instituto Federal Farroupilha, onde duas das entrevistadas atuam, e uma se deu se forma online, fazendo uso de ferramentas midiáticas. As entrevistas estão presentes no apêndice.
2.4 Análise dos Resultados
Quantos aos resultados foram apresentados de forma qualitativa, visto que, na presente pesquisa, não existem dados a serem quantificados. Através da transcrição das entrevistas, foi explorado a partir do referencial teórico a análise dos resultados, por tanto, apresentando legitimidade a construção do presente trabalho.
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3. MEMORIAL AUTOBIOGRÁFICO
3.1 A Caminhada
Iniciei minhas atividades como intérprete de Libras um ano após meu primeiro contato com um Surdo, em uma disciplina optativa do curso superior em Serviço Social. Durante essa disciplina optativa (onde o aprendizado era embasado em sinais básicos da Libras), me aproximei do ajudante Surdo que acompanhava a professora de Libras, e nos tornamos muito amigos. A partir desse contato, começamos a nos ver frequentemente, desta forma precisei procurar por instituições que oferecessem cursos avançados de Libras, para que pudesse me comunicar com mais fluência.
Com a realização dos cursos, e com a proximidade a comunidade surda, obtive maior fluência, e consequentemente, melhorei minha proficiência na Libras rapidamente. Em questão de oito meses, realizei curso avançado de Libras e provas que me certificassem da proficiência. A interpretação veio com um convite de uma professora e Intérprete de Libras do Instituto Federal Farroupilha. Eu sabia conversar fluentemente, mas, todavia, não possuía técnica de interpretação. A partir desse convite, estabeleci metas, e no mesmo ano iniciei pela Universidade Federal de Santa Catarina o curso de Bacharelado em Libras. Junto com o curso, comecei a realizar trabalhos de interpretação no Instituto Federal Farroupilha de Santa Rosa.
Minha primeira experiência como intérprete foi no curso técnico em edificações, com uma aluna surda que não fazia uso de aparelho, tão pouco tinha percepção de oralização. O primeiro momento foi de adaptações, mas logo nas primeiras semanas nos adequamos bem, pois a surda era fluente na Libras, facilitando as interpretações. Desta forma, pude fazer uso de todo vocabulário do qual eu tinha domínio, assim, conseguia realizar uma interpretação mais ativa, sem me preocupar com a compreensão da aluna em relação às escolhas lexicais no momento da interpretação. Sempre obtive feedback das interpretações, o que acrescentava muito no meu trabalho.
Neste contexto, fazendo trabalho de interpretação em vários cursos como: matemática; administração; técnico em móveis; técnico em edificações; concomitante com o curso de bacharelado em Libras fui construindo diariamente competência na interpretação. Minhas experiências até então, foram exclusivamente com Surdos fluentes na Libras.
20 Em 2016, realizei um concurso para trabalhar como técnica substituta no Instituto Federal Farroupilha (IFFAR), com vaga o para o campus de Frederico Westphalen, Rio Grande do Sul, para trabalhar com uma aluna que tinha passado por chamada pública no curso de administração. Decidi ir ao campus conhecer a aluna para então avaliar se eu permaneceria na instituição, isso porque havia recebido informações que a aluna possuía “limitações” na língua de sinais.
Fiquei durante uma semana no campus, no primeiro dia quando conheci a aluna, percebi que as necessidades dela eram bem mais do que limitações na Libras, isto é, necessitava uma construção gramatical em Libras, de ferramentas que possibilitassem aprender mais sinais, e ao mesmo tempo pudesse proporcionar acesso mínimo as informações que o curso de bacharelado em Administração oferecia. O conhecimento da aluna na Língua de Sinais era insuficiente para que eu pudesse realizar uma interpretação simultânea, a citada, tinha conhecimento da escrita do português, realizava a leitura das palavras, porém de forma mecanizada, sem entender o sentido das frases. A aluna moderadamente conhecia Libras, possuía domínio de alguns sinais usados para comunicar-se no cotidiano, sinais que se misturavam com gesticulações que havia desenvolvido em família.
Logo, optei em não trabalhar na Instituição, pois acreditava que meu papel enquanto intérprete seria fazer a interpretação da língua fonte para língua alvo, e não me preocupar com questões pedagógicas, tornando-me agente do processo de aquisição da Libras, da qual necessitava a aluna. Entendia que adaptar expressões, palavras e usar sinônimos faziam parte de toda a interpretação e tradução, mas ensinar uma língua estava fora de tudo o que eu havia aprendido na academia. O fato da aluna não possuir domínio de um léxico mais abrangente, e ter imensa dificuldade na Língua portuguesa me fez desistir da oportunidade em trabalhar no campus do IFF em Frederico Westphalen.
No mesmo período, eu também havia passado no concurso para técnico substituto do IFFAR em Santa Rosa, Rio Grande do Sul, onde assumi a vaga de intérprete. Até então, no IFFAR, havia Surdos no curso de móveis, arquitetura e no curso de administração. Eu já tinha contato com esses Surdos, pois eu havia trabalhado no campus no ano anterior e sabia que eles eram muito fluentes na Língua de Sinais, e a necessidade de adaptação era em relação a sinônimos e a terminologias próprias e específicas do curso em que estavam inseridos.
Logo no primeiro mês que entrei no IFFAR, iniciaram as aulas e junto o ingresso de um novo aluno Surdo, no curso de Eletromecânica. O aluno possui limitações visíveis No uso da Libras, nossa comunicação foi um pouco difícil, e ainda está em processo de construção.
21 Trabalho duas noites com o aluno, tenho duas colegas intérprete que também interpretam noites para ele. Mesmo interpretando poucas noites, vejo como um desafio esta tarefa, mas essa experiência tem revelado uma mudança de opinião referente à minha atuação enquanto intérprete. Estamos nos adaptando, tentamos o máximo possível realizar uma interpretação que corresponda a necessidade de comunicação do aluno.
À vista disso, buscamos ferramentas que possibilitassem oferecer um atendimento individualizado, que desse visibilidade a subjetividade do aluno. Assim, iniciamos atendimentos durante o turno da tarde, pois o aluno não trabalha o que facilita os encontros. O aluno possui dificuldades para socialização com as demais pessoas, mesmo quando seus colegas buscam se comunicar com ele, este não lhes dá muito retorno, prefere limitar sua relação na escola apenas com as intérpretes. Está sendo um desafio, tanto para mim, quanto para as minhas colegas.
O aluno em questão é diferente de qualquer outro Surdo que trabalhei. A partir do convívio com ele, mesmo nas primeiras semanas, percebemos a necessidade comunicativa, e o nível de proficiência na língua de sinais que ele possui. Busquei a partir disso, interagir no mesmo nível, pois entendemos que o aluno tem uma maneira singular de se expressar, utilizando um excesso de classificadores e de sinais icônicos. Percebo que me adaptando a ele, fazendo uso das mesmas escolhas comunicativas que ele domina, estamos progredindo. Aos poucos, tenho inserido no seu vocabulário sinais importantes, que são fundamentais para formação do curso de eletromecânica.
O que se espera, não é exclusivamente um resultado positivo, que foque apenas no processo metodológico de ensino, mais sim, na capacidade de aprendizagem, no quanto o aluno está conseguindo adquirir de conhecimento.
É uma tarefa difícil e exaustiva. Seria muito mais fácil realizar uma interpretação tal qual a fala do professor, isso facilitaria muito o nosso trabalho enquanto intérpretes, mas sabemos que isso não garante acessibilidade, e não estaríamos agindo com ética, pois estaríamos descomprometidos com a efetiva inclusão, e a eficácia da comunicação.
A minha primeira opção quando conheci uma aluna que não possuía fluência na Libras foi abrir mão, pois entendo que não estava preparada para assumir aquela demanda. Atualmente trabalho com esse aluno Surdo que tem pouca proficiência em Libras, mas descarto a opção de abrir mão porque hoje acredito que atuar como TILS seja um processo de reflexão continua. A escolha atual é estabelecer uma relação onde eu me faça compreensível, uma interpretação que faça com que esse aluno possa me compreender mesmo com suas
22 limitações. O desafio diário que enquanto intérpretes temos é saber como encarar, como enfrentar esses nuances, essas particularidades distintas que se apresentam em sala de aula.
23
4 ANÁLISE DOS DADOS
4.1 Introdução
A análise foi desenvolvida por categorias de diferenciam os objetivos, o que permitiu chegar a importantes conclusões a respeito de como a interpretação em LIBRAS tem sido praticada no âmbito educacional com alunos Surdos que possuem atraso no desenvolvimento linguístico.
4.2 O Papel do Intérprete: Formação x Prática
Muito se debate acerca do que se deve oferecer no processo de ensino aprendizagem de alunos Surdos, mas sabemos que ainda existem muitos entraves que precisam ser reorientados no andamento da execução da política de inclusão. Desta forma, mostra-se relevante no contexto atual uma revisão das práticas cotidianas, com ênfase na criação de espaços menos alienantes, que valorizem a presença de todos os envolvidos no contexto educacional.
Não obstante, é preciso entender que o intérprete educacional está envolvido com o ensino aprendizagem do aluno, e necessita ter um olhar humanizado, que de preferência à subjetividade desse sujeito.
Quando questionada sobre a instrução universitária, a entrevistada (3), que possui Pós Graduação em Tradução/Interpretação e Docência de Libras, afirma que o saber acadêmico não lhe subsidiou em relação à criação das estratégias que utiliza para atender certas especificidades de alunos Surdos. Ressalta a entrevistada em relação a ter ou não subsidio na formação acadêmica,
Acredito que não, cada um na sua realidade precisa buscar subsídios para fazer seu trabalho da melhor maneira possível, e sempre estudar, dialogar, buscar...No dia-a-dia que surgem novas situações, e dia-a-diante delas o intérprete precisa buscar estratégias para que as necessidades do Surdo seja supridas e o trabalho seja o mais satisfatório possível. (ENTREVISTADA 3)
As outras três TILS entrevistadas consideraram a formação importante, mas destacaram que acima do curso, e do discurso técnico, o contato com o Surdo, e com o
24 contexto de atuação, formaliza-se como a formação mais completa, que tange e caracteriza a atuação de um intérprete competente.
Neste cenário, a prática é o início de uma etapa que formaliza uma atuação que não está embasada apenas nos conteúdos “programáticos” que a formação universitária oferece. Uma etapa que engloba muito mais do que uma metodologia politizada, que se prende em um estudo formal, gramático e linear. O que se busca na prática é alcançar todas as potencialidades possíveis no meio em que se está inserido, indo além da práxis empregue pela universidade e emergindo a categorias não discutidas em sala de aula.
Adentrando a essa conjuntura, constata-se que a experiência com alunos Surdos não fluentes na Língua de Sinais demonstra que, enquanto intérpretes, somos frágeis a realidade existente em sala de aula, e demais contextos de atuação profissional. Carecemos de uma formação que não nos limite ao estudo técnico, pois se entende que não basta fazer uma interpretação consecutiva ou uma interpretação simultânea, não basta ter um léxico amplo, ou um vocabulário amplo que me propicie capacidade de interpretação técnica. Conclui-se isso a partir de minha trajetória profissional relatada em meu diário e que vivi diariamente:
[...] percebi que as necessidades dela eram bem mais do que limitações na Libras, isto é, não necessitava de uma interpretação fidedigna, mas sim de uma construção gramatical em Libras, de ferramentas que ensinasse sinais, e ao mesmo tempo pudesse proporcionar acesso mínimo as informações que o curso de bacharelado em Administração oferecia (PESQUISADORA, p.18)
É indispensável que tenhamos sensibilidade para compreender as peculiaridades do aluno, para então dar seguimento a uma interpretação moldada a esse sujeito. Em consequência, forma-se um perfil de profissionais diferenciados, que não seguem meramente um padrão.
4.3 Sujeitos Surdos: Os Diferentes Níveis Linguísticos
A Libras possui uma estrutura gramatical composta a partir de parâmetros que estruturam sua formação nos diferentes níveis linguísticos, são eles: morfológico, semântico pragmático, fonológico, sintático. Os sinais são formados pelo uso de cinco parâmetros que formam a comunicação. O movimento, o ponto de articulação, configuração de mão, orientação e Expressão Corporal/Facial.
25 Com tal complexidade, analisar o nível linguístico de alunos Surdos, é uma tarefa que o intérprete realiza de forma não imediata.
Com base nas experiências vivenciadas, entende-se que o nível de proficiência do aluno, é identificado em grande medida de forma intuitiva, e não cientifico sistemático. Por conseguinte, alguns critérios utilizados para avaliar a competência comunicativa do aluno são citados pelas intérpretes entrevistadas,
“No contexto da sala de aula, eu entendo que facilmente percebo o nível de fluência linguística do aluno Surdo. Já na primeira semana em contato diário com esse aluno, capto características do seu perfil. Mas é nos primeiros meses que a gente percebe o uso de sinais que esse aluno Surdo tem por anteposição, por exemplo, temos um aluno que preferencialmente faz uso classificadores e temos alunos, que enquanto intérprete podemos fazer uma interpretação bem técnica usando um léxico bem ampliado de sinais, e eles tem uma boa percepção, porque o nível de compreensão e fluência deles é bem avançado. Geralmente esses últimos alunos já estão em semestres mais avançados, ou seja, já há algum tempo dedicam-se a determinada disciplina, e a terminologias especificas, mas isso não se generaliza, pois possuímos também alunos Surdos que estão se formando no curso superior, e tem sinais característicos, subjetivos ao seu nível de fluência, que não se compara aos anteriormente citados” ( ENTREVISTADA 2)
Não há como prever ou avaliar o nível de fluência de um Surdo simplesmente por ele ter ingressado em algum curso, isto porque, o acesso na instituição, muitas vezes, acontece por chamada pública ou pela política de cotas, onde por vezes, o Surdo pode ser o único deficiente inscrito para a vaga no respectivo curso. Mesmo com uma nota baixa no ENEM ou no próprio vestibular que a instituição promove, o Surdo acaba ingressando no curso escolhido.
Consequentemente avaliar a competência de comunicação desse aluno Surdo se dá nas primeiras semanas já em sala de aula, junto com o Intérprete de Libras. No diário cita-se parte da experiência obtida com um aluno Surdo, que se adequa ao citado acima,
A partir do convívio com ele, mesmo nas primeiras semanas, percebemos a necessidade comunicativa, e o nível de proficiência na língua de sinais que ele possui. Buscamos a partir disso, interagir no mesmo nível, pois entendemos que o aluno tem uma maneira singular de se expressar, utilizando um excesso de classificadores e de sinais icônicos. Percebo que me adaptando a ele, fazendo uso das mesmas escolhas comunicativas que ele domina, estamos progredindo. Aos poucos, tenho inserido no seu vocabulário sinais importantes, que são fundamentais para formação do curso de eletromecânica. (PESQUISADORA, p.19)
26 Ter um intérprete em sala de aula não assegura que todas as questões metodológicas irão contemplar as necessidades comunicativas do aluno, mas aproxima esse sujeito da realidade da educação inclusiva.
4.4 Concretização das Ações
Na busca por realizar uma interpretação que a atenda a necessidade do aluno Surdo, que possui lacunas no desenvolvimento linguístico, as TILS entrevistadas, apresentaram em seus argumentos, que o caminho para se chegar à interpretação efetiva é,
[...] em primeiro lugar respeitar o sujeito e “dar tempo ao tempo”, ir conhecendo o Surdo. Após quando já percebeu o nível de fluência tentar adequar ao nível correspondente, e se for pouca fluência, tentar ajudar o Surdo apropriar-se da sua língua, e se for um nível bom, o intérprete também pode aprimorar seus sinais, suas estratégias para que o aprendizado aconteça sempre e gradativo.
[...] a cada dia reflito sobre meu papel. As vezes falho, mas busco corrigir e buscar apoio nas colegas quando fico em dúvida sobre a postura que devo ter em determinadas situações. Assim, refletimos juntas. (ENTREVISTADA 3).
O TILS precisa ter claro que é necessário o envolvimento de todos os profissionais que fazem parte do processo que esse aluno está incluído, e quando o aluno é negligenciado pela falta e adequação do conteúdo que a ele é ofertado, o intérprete tem subsídio para empoderar-se e usar todas as ferramentas que estão ao empoderar-seu alcance para que esempoderar-se aluno empoderar-seja de fato tratado com equidade no espaço em que se encontra. Assim como Cortés (2009) cita, o Intérprete assumindo o papel de defensor, deve se posicionar em favor do aluno Surdo, que já se encontra em desvantagem pela diferença liguística.
Refletir sobre as ações que o Tradutor Intérprete de Libras utiliza para realizar um trabalho fidedigno, quando muitas vezes a necessidade do aluno vai além da tradução e da interpretação, decorre cotidianamente na atuação do intérprete.
A minha primeira opção quando conheci uma aluna que não possuía fluência na Libras, foi abrir mão, pois entendo que não estava preparada para assumir aquela demanda. Atualmente trabalho com esse aluno Surdo que possui muitas limitações, mas já não é mais uma opção abrir mão, pois hoje acredito que atuar como TILS seja um processo de reflexão continua. (PESQUISADORA, p.19,20)
Buscar compreender a mensagem original, processando está mensagem, e transmitindo-a para que ela chegue ao receptor já com sentido agregado, são ações que perpassam os processos de tradução e interpretação, desdobram-se na teorização do
27 cumprimento de um papel técnico, delegado ao profissional intérprete, que busca cumprir suas obrigações tradutórias.
Mas traduzir não é ensinar. Contudo, à medida que o tradutor se vê frente a frente com a tarefa de ensinar traduzindo e traduzir ensinando, ele, muito mais do que ensinar, ativa o efeito próprio da inclusão de possibilidades concretas circunscritas às experiências educativas. Dessa maneira, “evitamos a dimensão quase ingênua” de se pensar que traduzir já é incluir, o que não é verdadeiro, pois uma tradução pode muito bem cumprir o seu papel técnico, mas entrar em total deriva no sentido próprio de poder ensinar algo a alguém. (CARVALHO, MARTINS, 2014).
Atender as ações que percorrem os procedimentos tradutórios em sala de aula requer uma atenção sui generis, original. Assim como o autor acima citado afirma que “pensar que traduzir é o mesmo que incluir” se consiste em uma dimensão ingênua, firmar-se no discurso que a interpretação e o ato da tradução são substancialmente teóricos, são especulações inocentes, que se desviam das reais experiências vivenciadas em sala de aula.
Existe muito senso comum que carece ser reorientado frente às expressões de indivíduos que reproduzem discursos errôneos sobre a interação de intérpretes com sujeitos Surdos. Da mesma forma que debate-se diariamente com profissionais do meio educacional que questionam o profissionalismo do intérprete, pois desconhecem, e não buscam conhecer as obrigações deste profissional no seu meio de trabalho.
Muitas vezes, adaptar a interpretação a necessidade do aluno, demanda uma proximidade mais exposta com este, a qual causa até estranheza, pois o intérprete parece assumir funções que não são de sua atribuição. Mas apenas a vivencia traz consigo, a percepção de integrar a circunstância ao contexto real do aluno em sala de aula.
28
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como contribuição desta pesquisa, buscou-se destacar que mais do que competência tradutória, é imprescindível que o TILS tenha um olhar humanizado, que supere as dificuldades através do desenvolvimento subjetivo. Que atue de forma gradativa, ao encontro de um resultado que esteja fadado ao compromisso da tradução fidedigna, que está envolta nos pressupostos do ser subjetivo.
O objetivo aqui não é finalizar o que está sendo apresentado, mas a partir dessa reflexão, dialogar sobre a formação dos TILS aliada aos procedimentos da inclusão de alunos Surdos em formação. Lidar com sujeitos subjetivos, é reconhecer que relações de confiabilidade e cumplicidade, valorizam a conexão entre profissional e sujeito, acarretando resultados positivos na formação do aluno.
Para tanto, a subjetividade é um sistema que possui variadas dimensões, com características que a legitimam como expressão de um sistema de reflexão complexo, mas que através de seu reconhecimento, potencializam a interpretação fidedigna, servindo de forma íntegra as necessidades comunicativas de cada sujeito. (ROSSATO, MARTÍNEZ, 2013)
Assim, entende-se que a profissão, vai além dos mecanismos que traduzem a metodologia de tradução e interpretação em conhecimento técnico (que potencializa o domínio do conhecimento explícito e tácito), mas sim, traz consigo, a sensibilidade perceptiva, que se baseia na capacidade de decodificar o significado de comportamentos não verbais, e a habilidade intuitiva, que embasa o profissional com discernimento, feeling frente à demanda que se apresenta, incorporando a partir disso um desempenho que ampara as necessidades que o sujeito manifesta, mesmo que seja de forma implícita.
Com relação às entrevistadas, todas possuem formação específica na área de tradução e interpretação de Libras. Três delas apresentam Pós-graduação na área, e uma, está em processo de conclusão do curso superior em Letras Libras, mas já obteve certificação de proficiência para TILS. Todas apontam que a formação é um meio de grande valia para dar sentido às escolhas interpretativas, mas que a vivência, e o bom senso frente às demandas que se apresentam, revela as potencialidades de cada profissional TILS envolvido com a efetiva inclusão. Estabelecer padrões de interpretação requer muito cuidado, pois a lida com sujeitos subjetivos, ressignifica o atuar do profissional TILS.
29 São ações pedagógicas que promovem a constituição e o reconhecimento do sujeito e possibilitam aos estudantes experiências simbólico-emocionais produtoras de sentidos subjetivos favorecedores da aprendizagem escolar. (2013, p.297)
Adequar TILS a possuírem caráter pedagógico, não condiz com a formação de Tradução e Interpretação de Libras. Mas comprometer todos os profissionais envolvidos para que essas ações alcancem na mesma proporção sujeitos Surdos, é sim, uma atribuição que condiz com a prática do profissional TILS.
Em suma, espera-se que o TILS como um ser de consciência, permaneça atento às dificuldades de comunicação dos sujeitos Surdos, e enquanto profissional munido de conhecimento, possa ter tanto sensibilidade quanto ferramentas práticas frente às demandas que possam se apresentar por parte do estudante Surdo, dessa forma, agindo com equidade diante das deficiências existente no meio educacional.
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REFERÊNCIAS
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31
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32
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33 APÊNDICE A
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM LETRAS LIBRAS - BACHARELADO
ENTREVISTA 1
1) Sobre sua Formação
a- Sexo ? Feminino b- Idade? 23 anos
c- Formação? Bacharelado em Libras (7 semestre)
d- Sua atividade profissional enquanto TILS educacional é principal ou secundária?
Ser TILS educacional é minha única profissão atual;
e- Possui algum curso especifico de tradução e interpretação de Língua de Sinais (Libras)?
Sim!“Curso de Capacitação de tradução e interpretação de Libras e Português”.
f- Se sim, onde, quando e qual instituição realizou o curso?
O Curso foi ofertado pela Universidade de Caxias do Sul, minha turma foi a sexta edição, 2013-2015.
g- Quanto tempo de experiência possui na área de Tradução e Interpretação de Libras?
4 anos, aproximadamente, e tenho mais experiência na área da interpretação.
h- A partir da sua formação, o que você entende por “Papel do Tradutor Intérprete de Língua de Sinais (Tils)?
Profissional que possibilita, ou media, a comunicação entre Surdos e ouvintes, enquanto usuários de apenas uma dessas duas diferentes de línguas.
34 i- Esse papel condiz com sua Prática?
Nem sempre. Considerando a minha prática em na área educacional, acredito que o papel do intérprete neste contexto vai além das especificidades próprias da profissão. Vejo que ser intérprete educacional é ser também um pouco professor, monitor, psicólogo, amigo e família do aluno. Não assumimos esses papeis, necessariamente, em salas de aula, mas o profissional intérprete é visto por muitos alunos Surdos como uma referência para buscar ajuda, conselho, orientação, além de possibilitar a comunicação entre Surdos e ouvintes. Já nas minhas atuações em contexto mais formal incluindo o político (Câmara de Vereadores, palestras, seminários), o intérprete exerce apenas o papel de mediador da comunicação entre Surdos e ouvintes, uma vez que não há espaço para interação com os interlocutores, considerando inclusive que, não raro, há um distanciamento entre Surdos e intérpretes nesses tipos de eventos. Como intérprete no contexto educacional eu sinto os alunos Surdos próximos de mim, tanto no sentido físico quanto em se tratando de relações amigáveis (extraprofissionais). Já em outros nichos de atuação me vejo apenas como um meio de possibilitar a comunicação entre pessoas usuárias de duas línguas diferentes (Libras e língua portuguesa), que é, teoricamente, a função do ILS.
2) Sobre o sujeito Surdo:
a- Qual a visão que você tem de um aluno Surdo?
Depende da personalidade do aluno e da base curricular que ele tem. Quando conheço um aluno “bem dado” logo há evidências de um laço de amizade que vai além do espaço acadêmico. E, quando o aluno parece ser mais tímido, limito a interação às atividades de tradução/ interpretação que me competem realizar (isso dificilmente ocorre). Outra questão é a formação acadêmica básica que o aluno tem. Se a base da educação foi boa e o aluno tem clareza de coisas que acontecem à nossa volta, vejo-o como alguém mais esclarecido e independente. E quando a educação básica deixa a desejar, em se tratando de acessibilidade e ensino, vejo alunos mais inseguros e dependentes.
Outro aspecto que esses dois fatores influenciam é em relação ao Surdo enquanto cidadão. Eu vejo dois perfis de sujeito Surdo na minha comunidade, tem aqueles cientes de
35 sua capacidade, que buscam mais formação, mais qualidade de vida, mais independência, trabalham, tinham a carteira de motorista, vão a uma agência bancária mesmo sabendo que lá não tem intérprete, compram o que querem e o precisam, etc. Por outro lado, conheço Surdos que não têm nem a capacidade de ir comprar pão. Não sabem o valor do dinheiro, não sabem o básico da LP, não têm iniciativa para levarem uma vida normal, e são totalmente dependentes da família e de tutores.
b- Você considera todos os Surdos iguais quanto sua proficiência linguística na Libras? Explique?
Não. Já tive contato com Surdos que são “feras” na língua de sinais, fluentes, inteligentes e esclarecidos, e também já interagi com Surdos que desconhecem sinais considerados elementares da língua. Observei que um dos fatores que influencia isso é o fato de a família conhecer ou não a LS, e outro fator é se o Surdo interage com outros usuários da Libras ou se ainda é apartado e inativo na sociedade.
c- Em sua Prática, você já se deparou com Surdos que não tinham fluência na Libras?
Sim. Na minha prática de atuação profissional tive pouca experiência nesse sentido. Porém, considero algo interessante: trabalho atualmente com Surdos fluentes na Libras, que estão na fase inicial de sua graduação mas que não sabem escrever palavras coloquiais ou simples da Língua Portuguesa. Sinalizam muito bem, mas às vezes pergunto a palavra ou o conceito de um sinal realizado por eles que desconheço e estes sequer sabem me dar um exemplo (às vezes conseguem, mas com dificuldade e nem sempre). Na minha prática como participante da comunidade surda, em contextos informais, já me deparei com pessoas surdas que conhecem muito pouco o léxico, a sintaxe, a estrutura gramatical da Libras, em relação ao conhecimento que eu tenho disso enquanto ouvinte/ estudante da Língua. Estes vivem sem interação frequente com outros usuários da Libras e concluíram apenas o
ensino fundamental em escola inclusiva.
3) As Ações:
a- Diante da realidade profissional, quais estratégias você utiliza em suas práticas interpretativas para dar conta das diferenças linguísticas apresentadas pelos Surdos?
36 Bem, eu utilizo as estratégias básicas da interpretação, como a explicitação, simplificação, omissão, datilologia, adaptação, sempre considerando o perfil de cada aluno Surdo. E procuro ter uma comunicação aberta com os docentes da instituição de ensino onde trabalho, inclusive para deixá-los a par do acompanhamento dos alunos Surdos em relação ao conteúdo das aulas quando solicitado. Já vivenciei situações em que uma professora entregou para uma aluna surda um texto, pediu para que a aluna surda e eu nos retirássemos da sala e que a aluna fizesse uma atividade de interpretação daquele texto. A razão de irmos para outro lugar (uma sala de estudos) foi que, a pedido da professora, eu traduzisse o texto para a Libras e posteriormente interpretasse o conteúdo para a aluna. Esta foi uma estratégia que a professora usou, considerando que assim a aluna se sairia melhor na realização da atividade, uma vez que o material estivesse acessível na sua L1. Foi uma experiência diferente, a nota dela foi boa, mas ela sentiu-se excluída e apartada dos colegas, além de ter perdido tempo para fazer a atividade enquanto eu traduzia o texto.
b- Com relação a essas estratégias, você acredita que sua formação lhe subsidiou para criá-las e aplicá-las?
Sim. Tanto na questão teórica quanto funcional. Conhecer, estudar e praticar essas possíveis estratégias de interpretação em aulas de laboratório do Curso de Capacitação me serviu de base e até de modelo de atuação, com exceção de algumas estratégias. Porém, esta base por si só não bastou. À medida que estudo e pratico a profissão de intérprete me apercebo da necessidade de continuar articulando aspectos da Libras com colegas de profissão e de estar envolvida com a comunidade surda. Mais do que com o Curso, é com os Surdos que eu realmente aprendo a usar a língua de forma mais apropriada e condizente com os diferentes contextos, a cada dia.
37 APÊNDICE B
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM LETRAS LIBRAS - BACHARELADO
ENTREVISTA 2
1) Sobre sua Formação
a- Sexo ? Feminino b- Idade? 46 anos
c- Formação? Pedagogia
d- Sua atividade profissional enquanto TILS educacional é principal ou secundária?
Atualmente atuo como TILS educacional e professora Substituta de Libras.
e- Possui algum curso especifico de tradução e interpretação de Língua de Sinais (Libras)?
Sim possuo curso de capacitação em tradução e interpretação de sinais com carga horaria de 480h e banca de proficiência. Além da certificação PROLIBRAS.
f- Se sim, onde , quando e qual instituição realizou o curso?
Parceria da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos- APADA- Santa Rosa- RS, Escola de Ensino Médio Concórdia para Surdos e Fundação Educacional Machado de Assis- Santa Rosa – RS
g- Quanto tempo de experiência possui na área de Tradução e Interpretação de Libras?
18 anos
h- A partir da sua formação, o que você entende por “Papel do Tradutor Intérprete de Língua de Sinais (Tils)?
38 O papel principal do tradutor interprete de Libras e mediar à comunicação entre Surdos e ouvintes, possibilitando assim a acessibilidade comunicacional, como direito em todos os espaços da sociedade.
i- Esse papel, condiz com sua Prática?
Sim, penso que é através da ética e atitude profissional e que faz o verdadeiro papel do interprete de Libras funcionalmente, além da busca de formação constantemente.
2) Sobre o sujeito Surdo:
a- Qual a visão que você tem de um aluno Surdo?
Sujeito como todos nos somos, com sua identidade e subjetividade. Cada sujeito é um ser capaz de desenvolver suas habilidades e capacidade, o que e necessário para o desenvolvimento do sujeito e ter o direito de acesso a qualquer espaço social sendo respeitado e proporcionado a acessibilidade necessária, além do respeito de usar sua primeira língua.
b- Você considera todos os Surdos iguais quanto sua proficiência linguística na Libras? Explique?
Não...cada Surdo tem sua historia de vida linguística, o meio tem influencia na estrutura da língua, cada Surdo tem acesso diferente portanto não e possível considerar iguais, além de que a própria língua não e universal , pois ela tem muitas variações linguísticas que influenciam na proficiência de cada pessoa, tanto surda como ouvinte usuária e fluente na língua de sinais. E sempre há a necessidade respeitar isso quando obter contato com Surdos e a língua de sinais.
c- Em sua Prática, você já se deparou com Surdos que não tinham fluência na Libras?
Sim... Muitos, como crianças, adolescentes e adultos. Por trabalhar em escolas de Surdos e interpretar em escola de inclusão.
3) As Ações:
a) Diante da realidade profissional, quais estratégias você utiliza em suas práticas interpretativas para dar conta das diferenças linguísticas apresentadas pelos Surdos?