UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia
Efeitos de contingências aversivas sobre o
comportamento de mentir: Sinais e detecção
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia
Efeitos de contingências aversivas sobre o
comportamento de mentir: Sinais e detecção
Nicolau Chaud de Castro Quinta
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Psicologia.
Orientador: Dr. Lauro Eugênio Guimarães Nalini
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia
Dissertação de Mestrado
Efeitos de contingências aversivas sobre o comportamento de mentir:
Sinais e detecção
Nicolau Chaud de Castro Quinta
Dissertação aprovada em 26 de março de 2008.
Banca examinadora:
_________________________________________________________ Prof. Dr. Lauro Eugênio Guimarães Nalini
Universidade Católica de Goiás – UCG (Presidente)
_________________________________________________________ Prof. Dr. Fabio Iglesias
Centro Universitário Euro-Americano – UNIEURO (Membro)
_________________________________________________________ Prof. Dr. Cristiano Coelho
Universidade Católica de Goiás – UCG (Membro)
_________________________________________________________ Prof. Dr. Francisco Dyonísio Cardoso Mendes
Universidade Católica de Goiás – UCG (Membro)
_________________________________________________________ Prof. Dr. Weber Martins(Ph.D.)
Universidade Católica de Goiás – UCG (Suplente)
Dedico este trabalho à minha mãe, sempre a primeira a comemorar meus sucessos.
A elaboração deste trabalho foi parcialmente financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação (Capes/MEC), por meio de bolsa de mestrado do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições de Ensino Particulares (PROSUP).
Agradecimentos
Agradeço primeiramente ao meu pai, pelo suporte e pela confiança incondicional. A toda minha família, por acreditarem, talvez mais que eu mesmo, no rumo dos meus passos. Tudo o que consegui devo a vocês.
À minha tia Regina Célia, pelo interesse, apoio, e pela incessante disposição em ajudar. A todos os meus amigos. Por torcerem por mim, acreditarem em mim, e agüentarem minhas reclamações e encheções de saco.
À CAPES, pela bolsa que me permitiu uma dedicação à altura do desafio.
Ao Reginaldo, Regivane, Guilherme, Renato, Murilo, Mariana, Michel, e aos outros colegas de mestrado, pelas boas conversas e por não me deixarem achar que eu era o único a ficar doido com o Mestrado.
Ao Marcos Paulo, que sabe o que eu quero dizer com “ficar doido” por ter me ajudado com a categorização.
Ao Raphael, pelas discussões proveitosas e por sempre me instigar a fazer um trabalho de qualidade.
Ao Vinícius, que na melhor das disposições foi meu personal faz-tudo e quebrou tantos galhos importantes.
À Adriane e à Daniele, por serem as primeiras clientes da Mobile Store. Ao Luiz Eduardo Jorge, pelas dicas valiosíssimas.
Ao Samuel, Iuri, Alessandra, Maysa, Sebastião, Roberto, e ao Grupo de Teatro Guará, pelo interesse, pela ajuda de indescritível valia, pelo trabalho de qualidade, e por terem feito dos bastidores das coletas momentos tão divertidos.
Aos participantes da simulação de vendas, por terem aceitado tantas coisas doidas no melhor dos espíritos... e por terem mentido.
À Júlia, por ter me ajudado a encontrar mais da metade desses participantes.
Aos professores Dwain, Marcelo, e outros que me cederam suas turmas para realização das coletas. Agradecimento muito especial à Adriana, por ter me recebido em sua cidade, sua casa, sua faculdade, e movimentado tanta gente para viabilizar coletas.
Aos professores Lorismario e Todorov, pela facilidade com que são capazes de tornar a Análise do Comportamento ainda mais interessante.
Ao Décio, José e Martha, pelo acompanhamento atencioso e pela prontidão em ajudar. Ao Weber, por ter salvado minha pele tantas vezes.
Ao Fabio Iglesias, por me ajudar a repensar tudo que eu (achava que) sabia sobre análise de dados, e por me ensinar a lidar de maneira lúcida com a estatística.
Ao Dida, pelo interesse genuíno que demonstrou pelo trabalho, por ter me ensinado tantas coisas que o inspiraram, e pelo entusiasmo e sinceridade com que debateu, criticou e fortaleceu minhas idéias.
Ao Cristiano, por ter sido o primeiro a achar que eu e a pesquisa pudéssemos dar um bom casamento, por ter me apresentado à Análise do Comportamento, por ter me dado as bases de minha formação científica, por tantas vezes ter reforçado minhas idéias mais insólitas e me dado mais algumas, e por ser a pessoa menos aversiva que já conheci.
Por fim, agradeço acima de tudo ao Lauro: por ter me dado liberdade sem me deixar sozinho; por ter me ensinado um jeito sensato de fazer ciência; pelo cuidado e dedicação com que participou de cada parte do trabalho, dos brainstormings de quando o projeto era apenas uma idéia ousada, até carregar móveis pesados de um lado para o outro na faculdade; pelas idéias e ações sem as quais este trabalho jamais seria mais que uma idéia ousada; e por ter contribuído para que estes dois anos fossem uma experiência prazerosa, enriquecedora e estimulante.
Sumário
Índice de Tabelas ... vii
Índice de Figuras ... viii
Resumo ... ix
Abstract ... x
1. Introdução ... 1
1.1. Sobre o estudo da mentira ... 1
1.2. Definições de mentira ... 3
1.3. Mentir como comportamento verbal ... 12
1.4. Detecção de mentiras ... 23
1.5. Punição ... ... 39
1.6. Objetivos ... 45
2. Estudo 1 – Indução e punição do comportamento de mentir ... 47
2.1. Método ... 50
2.2. Resultados ... 60
3. Estudo 2 – Detecção de mentiras ... 65
3.1. Método ... 66 3.2. Resultados ... 75 3.2.1. Detecção direta ... 75 3.2.2. Detecção indireta ... 81 4. Discussão ... 88 5. Referências Bibliográficas ... 104 6. Anexos ... 111 6.1. Anexo I – Material de treinamento dos vendedores
6.2. Anexo II – Fotos da Mobile Store 6.3. Anexo III – Registro de Vendas 6.4. Anexo IV – Registro de Vendedores
6.5. Anexo V – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Estudo 1) 6.6. Anexo VI – Instruções do vendedor
6.7. Anexo VII – Formulário de Respostas – Detecção Direta 6.8. Anexo VIII – Formulário de Respostas – Detecção Indireta
Índice de Tabelas
Tabela 1. Sumário de achados acerca de alguns dos comportamentos investigados em estudos de detecção como possíveis sinais de mentira ... 28 Tabela 2. Estrutura das tentativas (condição, aparelho vendido e decisão final de compra do cliente programada) na sessão de vendas ... 57 Tabela 3. Taxas (emissões por minuto) observadas nas categorias erros, hesitações, pausas, mudanças de posição, movimentos da cabeça e auto-manipuladores nas tentativas 4, 5, 6 e 7 para os 10 participantes, valores médios, desvios-padrão, valores estatísticos do teste Kruskal-Wallis e índices de concordância entre observadores... 61 Tabela 4. Proporções de tempo observadas para as categorias ilustradores e direção do olhar nas tentativas 4, 5, 6 e 7 para os 10 participantes, valores médios, desvios-padrão, valores estatísticos do teste Kruskal-Wallis, e índices de concordância entre observadores ... 63 Tabela 5. Seqüência das mensagens na ordem A ... 68 Tabela 6. Valores do teste Q de Cochran, p, e diferenças estatisticamente significativas (com p < .008) em comparações entre os índices de mentira percebida (IMP) para cada vendedor ... 80 Tabela 7. Escores médios da escala Conhecimento sobre o produto, valores F, p, e diferenças significativas (com p < .008) obtidos através da ANOVA de medidas repetidas, em testes conduzidos separadamente por vendedor ... 83 Tabela 8. Escores médios da escala Sinceridade ao vender, valores F, p, e diferenças significativas (com p < .008) obtidos através da ANOVA de medidas repetidas, em testes conduzidos separadamente por vendedor ... 85 Tabela 9. Escores médios da escala Tranqüilidade ao vender, valores F, p, e diferenças significativas (com p < .008) obtidos através da ANOVA de medidas repetidas, em testes conduzidos separadamente por vendedor ... 87
Índice de Figuras
Figura 1. Disposição dos objetos e participantes na Mobile Store ... 51 Figura 2. Telas de navegação do software Mobile Store – Programa de Treinamento ... 52 Figura 3. Histograma de freqüência de valores de acurácia dos detectores na condição Detecção Direta (DIR) ... 75 Figura 4. Acurácia nos quatro blocos de mensagens nas ordens A, B, e dados agrupados de todos os participantes da condição DIR ... 78 Figura 5. Índices de mentira percebida (IMP) obtidos para as mensagens 4, 5, 6 e 7 dos 10 participantes-vendedores da simulação de vendas ... 79 Figura 6. Escores médios da escala Conhecimento sobre o produto para as mensagens 4, 5, 6 e 7 dos 10 participantes da simulação de vendas ... 83 Figura 7. Escores médios da escala Sinceridade ao vender para as mensagens 4, 5, 6 e 7 dos 10 participantes da simulação de vendas ... 84 Figura 8. Escores médios da escala Tranqüilidade ao vender para as mensagens 4, 5, 6 e 7 dos 10 participantes da simulação de vendas ... 86
Resumo
Como subdomínio do estudo da mentira, a detecção de mentiras trata da investigação de variáveis que controlam alterações no comportamento de emissores enquanto contam mentiras (sinais de mentira) e das condições sob as quais detectores são capazes de identificar corretamente tais alterações. O presente trabalho investigou o efeito da punição do mentir sobre os sinais de mentira e avaliou o julgamento de detectores a respeito das falas destes emissores. No Estudo 1, dez estudantes universitários assumiram o papel de vendedores em uma simulação de loja de aparelhos celulares usados e deveriam convencer clientes (confederados) a comprar os aparelhos. Em algumas das tentativas, deveriam vender aparelhos conhecidos (condição verdade) e, em outras, aparelhos desconhecidos (condição mentira) de acordo com treinamento anterior. A punição se configurou pela interpelação por um cliente lesado após a compra de um aparelho vendido na condição mentira. A categorização dos comportamentos destes participantes não apontou diferenças significativas entre falas sinceras e mentirosas e não revelou efeitos da punição. No Estudo 2, 181 participantes realizaram julgamentos sobre as falas dos participantes do primeiro estudo em uma dentre duas condições de detecção. Na condição Detecção Direta, fizeram julgamentos dicotômicos avaliando cada fala como verdade ou mentira. Na condição Detecção Indireta, avaliaram o comportamento dos vendedores em três escalas. Os dados do Estudo 2 mostraram que detectores foram capazes de distinguir entre verdades e mentiras nas duas condições, embora não tenham julgado diferencialmente falas anteriores e posteriores à punição. Os resultados foram discutidos considerando-se questões metodológicas na criação de um cenário para investigação do comportamento de mentir, e levantou-se a necessidade de ajustes na configuração do evento punitivo para o estabelecimento mais claro de relações entre contingências aversivas e sinais de mentira.
Abstract
Effects of aversive contingencies on lying behavior: Cues and detection.
As a subdomain in the study of deception, lie detection deals with the investigation of variables that control changes on the behavior of senders while they tell lies (deception cues), and with the conditions under which detectors are capable of correctly identifying such cues. The present study investigated the effect of punishment of lying on deception cues, and assessed the judgment of detectors about these senders’ speeches. In Study 1, ten undergraduate students took the role of salespeople in a used mobile phone store, and had to convince the clients (confederates) to buy those phones. In some of the trials they had to sell known phones (truth condition) and, at others, unknown phones (lie condition) according to previous training. Punishment was configured by the complaint from a deceived client after the purchase of a phone sold in a lie trial. The categorization of these participants’ behavior didn’t show any significant differences between honest and deceptive messages, and didn’t reveal punishment effects. In Study 2, 181 participants made judgments about the messages from Study 1’s senders in one of two detection conditions. In the Direct Detection condition, they made dichotomic judgments rating each message as a truth or a lie. In the Indirect Detection condition, they rated the senders behavior in three scales. Data from Study 2 showed that detectors were able to distinguish truths from lies in both conditions, although they did not differentially judge pre-punishment from post-pre-punishment messages. Results were discussed considering methodological issues on the creation of scenarios for the investigation of lying behavior, and the need for configuration adjustments for the punishing event was raised for a clearer establishment of relations between deception cues and aversive contingencies.
1.1. Sobre o estudo da mentira
A mentira é um fato social. Estudos naturalísticos sobre o comportamento de contar mentiras revelam que as pessoas mentem todos os dias, em média uma vez a cada três interações sociais (DePaulo, Kashy, Kirkendol, Wyer & Epstein, 1996). Uma mentira pode ser contada por um grande número de razões, como para melhorar a auto-apresentação, evitar algum tipo de repreensão, obter algum benefício através do logro, ou proteger o sentimento do interlocutor (Jensen, Arnett, Feldman, & Cauffman, 2004; Pergher & Sadi, 2003), e em uma infinidade de contextos, tais como nas relações familiares, de trabalho, na mídia e na política. Por esse motivo, são várias as disciplinas que tomam o fenômeno da mentira como objeto de investigação, cada uma com o foco em alguma peculiaridade desse fenômeno complexo; entre elas a Psicologia Social, a Psicologia do Desenvolvimento, a Psicologia da Personalidade, a Fisiologia, e a Psicologia Evolucionista, sendo seus achados de relevância para diversas áreas de interface, como comunicação interpessoal, desenvolvimento cognitivo e cognição comparativa (DePaulo et al, 1996; Frank, 2005).
Ainda que seja comum que o termo tenha conotação negativa no seu uso cotidiano, muitos autores acreditam que a mentira não deve ser vista como um disruptor da vida social, algo necessariamente danoso aos seus alvos. Ao invés disso, a mentira pode muitas vezes ser um regulador de interações humanas, útil para evitar tensões, indisposições e minimizar conflitos (DePaulo et al, 1996; Walters, 2005). Mentiras assim são as chamadas mentiras “brancas” (white lies). Outras mentiras podem ter conseqüências prejudiciais para o seu alvo ou para um grande número de pessoas, como aquelas contadas
A despeito de julgamentos de ordem moral que possam ser feitos sobre a mentira, uma abordagem científica das várias faces do fenômeno tem uma importância óbvia. O estudo científico da mentira buscará compreender as variáveis que tornam a ocorrência de falas mentirosas mais ou menos provável; buscará examinar os aspectos globais do comportamento de uma pessoa enquanto ela conta uma mentira; permitirá que melhores intervenções sejam feitas onde a mentira se apresentar como um comportamento-problema; e, por fim, contribuirá para a identificação de ocorrências da mentira nas falas de pessoas.
Um subdomínio do estudo da mentira é o da detecção de mentiras, que ao invés de investigar os contextos nos quais as mentiras ocorrem e quais suas funções, se atém aos sinais que tornam a mentira detectável e as condições sob as quais as pessoas são capazes de reconhecê-los. O presente trabalho insere-se nesse subdomínio, e objetiva investigar o efeito de contingências aversivas (punição do mentir) sobre o padrão comportamental do mentiroso e a detecção subseqüente de sinais característicos desse padrão por outros indivíduos.
A elaboração a seguir inicia-se por uma revisão conceitual do termo mentira com contribuições de áreas do conhecimento variadas, em especial da Psicologia, com foco final em definições compatíveis com a Análise do Comportamento. Segue-se uma análise do mentir como comportamento verbal, de acordo com a perspectiva skinneriana, tal como proposta na obra O Comportamento Verbal (1957). Em seguida, são levantadas as principais discussões e achados empíricos da literatura sobre detecção de mentiras, com destaque para trabalhos que utilizaram contexto de vendas. Posteriormente, é feita uma breve revisão conceitual e empírica sobre o processo de punição, seguida por uma interpretação de fenômenos associados aos sinais de mentira através deste conceito analítico-comportamental. Por fim, são descritos os dois estudos empíricos realizados no intuito de responder as questões sobre o mentir, alvos da investigação.
1.2. Definições de mentira
A investigação de qualquer fenômeno, psicológico ou de qualquer outro tipo, requer, como passo inicial, uma definição adequada dos termos envolvidos. Nesta sessão, faz-se um esforço conceitual de definição do termo “mentira” dentro do referencial teórico da Análise do Comportamento, de forma coerente com o uso corrente da palavra na Língua Portuguesa e com a forma como ela é usada em trabalhos científicos dentro deste campo.
O primeiro passo consiste em um levantamento de definições do termo, buscando elementos comuns, divergências e implicações dos critérios utilizados.
O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define mentira como “ato ou efeito de mentir; engano, falsidade, fraude; afirmação contrária à verdade a fim de induzir erro; qualquer coisa feita na intenção de enganar ou transmitir falsa impressão”, e no verbete mentir acrescenta “dizer, afirmar ser verdadeiro aquilo que se sabe falso; causar ilusão a, dissimular a verdade, enganar, iludir; não revelar, esconder, ocultar”. (Houaiss & Villar, 2001).
Dois aspectos importantes podem ser ressaltados nesta definição: a dissimulação daquilo que é sabido ser a verdade, e a intenção de induzir erro. Estas duas características particulares devem diferenciar a mentira de outros tipos de engano: na mentira, o engano se dá a partir daquilo que o mentiroso sabe ou acha ser verdade (mesmo que não seja), e o faz com intenção de enganar ou transmitir falsa impressão.
As definições usadas em estudos psicológicos sobre a mentira costumam seguir uma tendência semelhante, mas com algumas variações no trabalho de diferentes autores. É freqüente em relatos empíricos de estudos sobre o comportamento de mentir que definições nem mesmo sejam mencionadas. Diferentes critérios de definição podem, entretanto, incluir ou excluir fenômenos particulares no conceito.
Uma definição típica usada em estudos psicológicos conceitua mentira como “um ato de, propositalmente, transmitir ao outro informação que o mentiroso acredita ser falsa. Mentirosos estão, por esta definição, deliberadamente enganando os outros; eles não estão o fazendo sem pensar, ou por erro” (DePaulo, 1988a, p. 155). Esta noção tem muito em comum com aquela do dicionário; estão presentes a transmissão da informação (que é passada como verdadeira), e o propósito (ou intenção). Grande parte das definições usadas em estudos psicológicos da mentira compartilham basicamente os mesmos critérios (Wells, Bruns, Wender & Stein, 2005; Wilson, Smith & Ross, 2003).
Nem todos os autores incluem a transmissão de uma informação falsa como requisito, entretanto. Para Ekman (2001), na mentira “uma pessoa pretende enganar a outra, o fazendo deliberadamente, sem notificação anterior de seu propósito, e sem ter sido explicitamente requisitada a fazê-lo pelo alvo” (p. 28). O autor inclui este segundo critério para excluir de sua definição de mentira situações nas quais é esperado que uma pessoa transmita a outras informações falsas, como negociações, um jogo de poker, ou uma apresentação teatral. (Ekman, 1997).
Excluindo o critério da informação falsa, Ekman divide a mentira em dois tipos: falseamento e omissão. No primeiro tipo, uma informação que o mentiroso acredita ser
falsa é apresentada como verdadeira. Já na omissão, uma informação que se espera ser revelada é omitida, o que será configurado como uma mentira para este autor desde que seja feito com o intuito de enganar (Ekman, 1997). Outros autores adotaram definições de mentira que permitem essas duas possibilidades (Talwar, 1999).
Ao se falar da intencionalidade, é comum que se enfatize o fato de que a mentira é uma escolha consciente e deliberada (DePaulo, 1988a; Ekman, 2001; Walters, 2005). Um mentiroso sempre tem a opção de não mentir. Partindo deste princípio, Ekman (1997)
acredita que o comportamento de um mentiroso compulsivo não deve ser, de fato, classificado como mentira.
Algumas variações do conceito de mentira apresentam a propriedade de intencionalidade de forma indireta. Para Walters (2005), a mentira é “uma tentativa de enganar não só uma outra pessoa, como também a si mesmo, de modo a obter algo” (p. 17). Smith (2006) define mentira como “qualquer forma de comportamento cuja função seja fornecer aos outros informações falsas ou privá-los de informações verdadeiras” (p. 5). Nestes casos, a intenção fica colocada a partir da consideração ao resultado provável ou pela função do ato de mentir.
Fora do domínio da Psicologia, são comuns definições que consideram o aspecto intencional do mentir a partir de indicações do resultado do ato. Uma definição utilizada em estudos sobre mentira no marketing, criada pela Federal Trade Comission, conceitua mentira como “o potencial que uma comunicação tem para promover uma crença que é (a) insubstancial (ou sabida como sendo falsa), e (b) pode influenciar a decisão de compra de um consumidor” (DePaulo, 1988b, p.254).
Na psiquiatria forense, uma das características definidoras da mentira patológica (pseudologia fantastica) é a falta aparente de “recompensas materiais ou vantagens sociais” (Dike, Baranoski & Griffith, 2005, p. 343), o que a distinguiria de mentiras ordinárias, nas quais esta “razão externa” poderia ser apontada.
Dentro da mesma linha, na tentativa de identificar o que poderia ser representado como mentira na comunicação animal (em especial de primatas), De Waal (1992) considera que os sinais utilizados na comunicação dos animais (chamados, gestos, expressões faciais), mais do que meros reflexos de estados internos, são ferramentas de manipulação do ambiente social para o benefício daquele que se comporta. Esta
de uma imagem falsa ou inacurada que é exibida em condições nas quais normalmente os sinais não ocorreriam, ou na ausência das condições nas quais os sinais normalmente ocorreriam. Este autor admite que, dada a continuidade filogenética entre os seres humanos e outras espécies, os mecanismos da mentira humana são semelhantes. Outros autores que trabalham sob uma perspectiva evolucionista utilizam a definição funcional de mentira como forma de estender a possibilidade de uso do termo para além do domínio humano (Bond & Robinson, 1988; Smith, 2006), uma vez que a noção de intencionalidade no comportamento animal poderia levantar problemas.
Em suma, as definições tradicionais do termo mentira têm dois componentes principais, cada um com duas variações (de acordo com os critérios usados por diferentes autores): a forma da mentira, que para alguns autores envolve a transmissão de uma informação falsa, enquanto outros admitem que a omissão também é uma maneira de mentir; e a explicação da mentira, que pode ser através de seu propósito/intenção diretamente indicado por referência a escolhas deliberadas e conscientes internas, ou indiretamente por referência a suas funções/resultados externos.
Primeiras aproximações analítico-comportamentais à compreensão do comportamento de mentir
Talvez a primeira tentativa de tratar o comportamento de mentir a partir do referencial teórico-conceitual da Análise do Comportamento tenha sido feita por Skinner (1957/1992) em sua obra Comportamento Verbal, na qual afirma que quando “uma resposta é emitida sob circunstâncias que normalmente controlam uma resposta incompatível” (p. 149), nós a chamamos de mentira, categorizando assim este tipo de operante verbal como um tacto distorcido.
Lanza, Starr e Skinner (1982), na tentativa de configurar experimentalmente uma situação de mentira com infra-humanos, treinaram, numa caixa de condicionamento com dois compartimentos acoplados, um pombo a relatar cores para um outro pombo bicando em discos com sinais correspondentes, sendo que o responder da ave era reforçado por “relatos” precisos das cores. Para fazer com que o pombo relator “mentisse”, maior tempo de acesso ao alimento foi programado em uma determinada fase do experimento caso o relato fosse “cor vermelha”, independentemente da cor à qual havia sido exposto. O animal passou a “mentir” relatando a cor vermelha quando outras cores eram mostradas. Na discussão dos dados, os autores argumentaram que esta mentira pode ser dita intencional se consideramos que “a intenção é somente uma forma indireta de se referir às conseqüências do comportamento intencional” (Lanza, Starr & Skinner, 1982, p. 202).
Para Baum (1999), uma definição de mentira deve partir do reconhecimento das condições de estimulação sob as quais a resposta verbal “mentira” é comumente emitida. Partindo desta orientação, e de uma revisão de definições feitas a partir de outras fontes (semelhante à feita no presente trabalho), Sato e Sugiyama (1994) buscam uma interpretação em termos analítico-comportamentais do que seria “uma afirmação falsa com intencionalidade” (p. 166). Os autores concordam com Skinner (1957/1992) que uma mentira é um tacto distorcido, mas isso não dispensaria a explicação deste tipo de tacto em termos de contingências adicionais. Na análise de Sato e Sugiyama (1994), a contingência adicional é estabelecida através da regra “se eu mentir agora, eu serei reforçado e/ou evitarei punição” (p. 170), de forma que a mentira seria essencialmente um comportamento governado por regras.
Pergher e Sadi (2003) tratam dos conceitos de verdade e mentira na Análise do Comportamento equiparando-os a conceitos anteriores deste referencial teórico. Para estes
correspondência, respectivamente. Mais do que isso, a verdade seria um operante verbal com função de tacto, a partir do momento que é evocado por um evento ou objeto particular no ambiente, e a mentira teria função de mando, por estar sob controle não dos eventos antecedentes, mas de conseqüências reforçadoras específicas (de acordo com a classificação dos operantes verbais feita por Skinner, 1957/1992). A similaridade funcional entre verdade-tacto e mentira-mando também é discutida por Ribeiro (1989).
Existem, entretanto, vários problemas em se “traduzir” a mentira diretamente como a não-correspondência, da forma como esta última é entendida na Análise do Comportamento. “Correspondência” é um tipo especial de relação entre o que uma pessoa faz e seu relato sobre o que ela faz, de acordo com um treino estabelecido pela comunidade verbal (Ribeiro, 1989). Uma das implicações é que a noção de não-correspondência não diferencia a mentira do equívoco. De fato, em estudos sobre correspondência com crianças pequenas (3-5 anos) observa-se pouca correspondência entre o que elas fazem e o que elas relatam até que sejam introduzidas contingências específicas para reforçar este tipo de relação (Rogers-Warren & Baer, 1976). Em casos deste tipo e semelhantes, não diríamos que as crianças estavam mentindo.
Outro problema em tomar a não-correspondência isoladamente como mentira é que ela não inclui o componente intencional. Falas não-correspondentes podem ocorrer em circunstâncias diversas, como em ironias, performances de atores, piadas, etc., sem que haja a intenção de enganar o ouvinte. Por exemplo, quando uma pessoa escreve em uma carta “O sabão em pó X é o único que deixa sua roupa mais branca” para participar de uma promoção, não está necessariamente mentindo, mesmo que nunca tenha utilizado esta marca de sabão em pó, ainda que neste caso exista algo que poderia ser chamado de intenção (ganhar um carro na promoção, por exemplo).
Por último, como mencionado anteriormente, algumas definições não delimitam a mentira a afirmações falsas. A omissão, enquanto mentira, não envolve um componente de não-correspondência. Se uma mulher responde “Não fui a nenhum lugar especial” ao marido desconfiado que pergunta onde ela passou o dia (embora ela tivesse se encontrado com o amante), dificilmente diríamos que não existe correspondência entre o relato da mulher e seu comportamento, embora mais provavelmente este se configure como um caso de mentira.
Apesar disso, a não-correspondência parece ser um elemento importante da maior parte dos eventos que chamamos de mentira. Mais do que por erro, os trabalhos empíricos sobre a não-correspondência costumam mostrar como esta pode ser colocada sob controle de contingências de reforçamento específicas (Ribeiro, 1989). A partir do momento que a Análise do Comportamento entende a intencionalidade de forma funcional, ou seja, em termos das conseqüências do comportamento intencional (Baum, 1999), este tipo de trabalho pode fornecer evidências indiretas sobre o controle do comportamento que poderia ser chamado de mentiroso.
No estudo de Rogers-Warren e Baer (1976), crianças foram colocadas em uma tarefa na qual, em um primeiro momento, deveriam participar de uma atividade grupal de desenho e, em um segundo momento, deveriam relatar aos pesquisadores caso houvessem compartilhado materiais e/ou elogiado os colegas ao longo da atividade. Nas primeiras condições experimentais, as crianças eram reforçadas com doces e frutas caso relatassem haver feito uma dessas duas coisas, mesmo que, de fato, não tivessem feito. Nas condições posteriores, somente relatos verdadeiros eram reforçados. Rogers-Warren e Baer observaram que o reforçamento do relato aumentou moderadamente a sua freqüência, e apenas levemente a freqüência dos comportamentos correspondentes (elogiar e
compartilhar), de forma que em muitas instâncias as crianças relatavam que haviam elogiado/compartilhado sem que de fato o tivessem feito.
Ribeiro (1989) obteve resultados semelhantes com crianças (também de 3 a 5 anos) que deveriam fazer relatos sobre uma atividade na qual podiam brincar com diferentes brinquedos e posteriormente deveriam relatar com quais haviam brincado. Quando o relato era reforçado independente do comportamento das crianças, relatos não-correspondentes aumentaram de freqüência, mas tiveram redução quando somente relatos correspondentes passaram a ser reforçados.
Existem outras interpretações possíveis para o que pode ser chamado de “intencionalidade” da mentira na Análise do Comportamento, que não através das conseqüências diretas deste operante verbal. Assim como Sato & Sugiyama (1994), Ribeiro (1989) admite que algumas instâncias do mentir se constituem como comportamentos governados por regras (o que se assemelha à noção de mentira como opção consciente). Enquanto que os primeiros autores definem tais regras de forma genérica, como especificadoras das conseqüências reforçadoras do mentir em uma dada situação, Ribeiro (1989) afirma que contar a verdade e mentir podem ser controlados por regras parentais e/ou sociais, e que tais comportamentos envolvem o controle adicional de contingências éticas.
Por definição, as abordagens que tratam a mentira de forma funcionalista (como a Análise do Comportamento) vão explicá-la em termos de conseqüências/resultados prováveis. Tais conseqüências são usualmente descritas em instâncias específicas; uma criança pode mentir que escovou os dentes para evitar a repreensão da mãe, e um candidato a uma vaga de emprego pode adicionar itens ao seu currículo para aumentar suas chances de passar pela entrevista. Por este lado, as conseqüências da mentira podem ser reforçadoras tanto positiva quanto negativamente (Pergher & Sadi, 2003), e variam de uma
mentira à outra. Mais do que isso, esta conseqüência específica da mentira só a diferencia da verdade na sua relação com o contexto na qual ocorre. Por exemplo, a criança que mente para a mãe sobre a tarefa feita obtém os mesmos reforçadores que a criança que conta a verdade ao dizer a mesma coisa, embora estejam se comportando em contextos diferentes no que diz respeito às condições antecedentes à emissão.
Por outro lado, as abordagens que tratam da mentira sob uma perspectiva intencional especificam um tipo de conseqüência universal da mentira: enganar, induzir em erro ou, nas palavras de Smith, “fornecer aos outros informações falsas ou privá-los de informações verdadeiras” (2006, p. 5). Este é um tipo de conseqüência geralmente mais complexa, e não necessariamente vai acompanhar as conseqüências do primeiro tipo (específicas à situação). A falta deste segundo elemento pode, inclusive, desconfigurar aquilo que chamamos de mentira.
Como exemplo anedótico, no trabalho de Rogers-Warren e Baer (1976) foi programado um reforçamento contingente aos elogios que as crianças faziam aos desenhos umas das outras. Observou-se um aumento na freqüência dos elogios, mas estes soavam “mecânicos e deficientes em valor reforçador” (p. 343), quase sempre na forma “Eu gosto do seu desenho” ou “Eu gosto do que você está fazendo”, muitas vezes sem que a criança
nem mesmo olhasse para o desenho da outra antes de fazer o elogio. Ainda que este comportamento não tenha sido tratado especificamente em termos verdade/mentira neste estudo, pode ser entendido como uma fala não correspondente sem a “cara” da mentira (talvez devido ao fato de que a criança elogiava no intuito de receber o reforçador programado pelo experimentador, mas não de convencer o colega de que seu desenho estava bonito).
ouvinte em um estado de privação de informações/acesso a informações erradas (enganar); e uma conseqüência positiva ou negativamente reforçadora específica à situação, que só ocorrerá caso o ouvinte seja enganado (acredite no mentiroso).
Enfim, os componentes de uma definição de mentira compatível com o referencial teórico-conceitual da Análise do Comportamento devem ser também compatíveis com definições oriundas de outras áreas do conhecimento. De forma geral, estas últimas definições envolvem dois componentes principais: a transmissão de uma informação falsa e a intenção de enganar. Os trabalhos sobre correspondência e o estudo das variáveis de controle de relatos correspondentes e não-correspondentes podem auxiliar no entendimento deste primeiro componente, ainda que para alguns autores seja possível falar de mentira sem que haja a comunicação de uma informação falsa. A intencionalidade é entendida sob uma perspectiva funcional, através das conseqüências do comportamento de mentir, que podem ser universais (enganar o ouvinte) ou específicas à situação.
Tamanha variabilidade e maleabilidade dos critérios utilizados, mesmo dentro de uma única definição, implica na existência de diversos fenômenos relativamente distintos agrupados sobre o mesmo rótulo, de forma que parece razoável admitir a existência de vários tipos de mentira. Isto pode ter implicações importantes para a compreensão dos fenômenos que venham a cair sob esta denominação, assim como para a criação de cenários experimentais de estudo da mentira com validade externa.
1.3. Mentir como comportamento verbal
Em sua obra O Comportamento Verbal, Skinner (1957/1992) propõe uma análise de fenômenos da linguagem, costumeiramente estudados sob uma perspectiva lingüística, à luz do paradigma operante e de achados empíricos oriundos de experimentação com infra-humanos. Skinner define “comportamento verbal” como comportamento operante cujo
reforço é mediado por uma outra pessoa especificamente treinada para fazê-lo, no contexto de um episódio verbal. Apesar deste recorte conceitual, para o autor ele não difere em natureza dos outros tipos de comportamento operante, sendo, portanto, regido pelos mesmos princípios comportamentais. Não obstante, a evidente importância das práticas verbais para os seres humanos, assim como peculiaridades na dinâmica deste operante justificam um tratamento à parte.
As bases de incorporação desta categoria de comportamentos ao paradigma operante não são, como se poderia esperar de um experimentalista, empíricas. Melhor dito, não são empírico-experimentais, mas são observacionais à medida que a produção verbal é onipresente na experiência de qualquer ser humano. Nas palavras de Skinner,
Os fatos básicos a serem analisados são bem conhecidos a todas as pessoas educadas e não precisam ser substanciados estatística ou experimentalmente no nível de rigor aqui tentado. (....) A presente extensão ao comportamento verbal é assim um exercício de interpretação ao invés de uma extrapolação quantitativa de rigorosos resultados experimentais. (1957/1992, p. 11).
Lançando mão de exemplos da fala cotidiana e de obras literárias, assim como do referencial teórico-conceitual característico de seus trabalhos anteriores, em O Comportamento Verbal Skinner tenta demonstrar de forma interpretativa como operam as
dinâmicas verbais em sua interação com variáveis ambientais (neste caso, essencialmente sociais).
Neste ponto, desenvolve-se uma tentativa de extensão do tipo e dos produtos de tais interpretações a um caso especial de comportamento verbal – o mentir – focando na importância da noção de causação múltipla para sua compreensão.
transcrição (ou cópia) e o tomar ditado são operantes verbais controlados por um estímulo
discriminativo verbal antecedente, havendo correspondência ponto-a-ponto entre o estímulo e o responder correlacionado, podendo ou não haver similaridade formal com o produto-de-resposta gerado pela emissão (variando na modalidade de estimulação envolvida na interação); o intraverbal é também controlado por estímulos verbais antecedentes, porém, sem que haja correspondência ponto-a-ponto entre a estimulação discriminativa antecedente e a resposta emitida; o tacto é operante verbal controlado por condição de estimulação (ou “estado de coisas”) não-verbal antecedente à emissão (nesta categoria caem os fenômenos tipicamente concebidos como relativos ao problema da referência lingüistica); o mando, por último, é o operante verbal cujas variáveis de controle relevantes são motivacionais: estados de privação ou estimulação aversiva (atualmente consideradas sob o conceito de operações estabelecedoras – ver, por exemplo, Cunha & Isidro-Marino, 2005; cf. Keller & Schoenfeld, 1950), sem relação com estimulação discriminativa antecedente específica.
Apesar do formato taxonômico adotado na apresentação dos operantes verbais, Skinner, mais adiante em sua obra, admite que nunca há apenas uma fonte de controle operando na produção do comportamento verbal. A probabilidade de sua emissão é função conjunta de várias fontes, que combinam-se em uma resposta resultante e definem suas propriedades formais e dinâmicas. Por exemplo, um tacto do tipo “Está quente hoje” está sob controle de, no mínimo, duas fontes: a temperatura ambiente e uma audiência que media o reforçamento ao falante. Por outro lado, ainda que a causação múltipla seja propriedade essencial do processo de produção de qualquer comportamento verbal, seus efeitos são mais nitidamente importantes em alguns casos particulares.
Um destes casos é o comportamento de mentir. Este comportamento tem pelo menos duas fontes de controle fundamentais: um dado estado de coisas (que é ocultado,
deformado ou transformado na mentira) e algum tipo de pressão motivacional (efeito de uma operação estabelecedora no ambiente) que induz esta ocultação, deformação ou transformação. Em parte, estes dois tipos de controle podem ser entendidos como característicos dos operantes verbais tacto e mando. Pergher e Sadi (2003) equiparam funcionalmente contar a verdade e mentir a estas duas classes, respectivamente, mas uma análise funcional adequada destes operantes, em especial do contar mentiras, requer a consideração de variáveis adicionais (ver Ribeiro, 1989).
Um tacto típico geralmente define uma instância do que pode ser chamado de “contar a verdade”. “O elevador chegou” será um tacto se estiver sob controle desta condição do ambiente físico (a chegada do elevador), e será razoável considerar que nestas circunstâncias a pessoa que emitiu tal resposta estava dizendo a verdade. Tactos assim são estabelecidos e mantidos por uma comunidade verbal, que reforça a precisão da correspondência entre o comportamento do falante e o mundo físico, por se beneficiar do contato estabelecido com as variáveis que operam na produção da resposta.
A comunidade verbal nem sempre, contudo, tem acesso aos estímulos não-verbais controladores do tacto, não sendo capaz de reforçar correspondências precisas, o que pode resultar naquilo que Skinner denomina distorção do tacto:
Em um caso menor, o falante simplesmente “estica os fatos.” Ele superestima o tamanho de um peixe que ele pegou ou minimiza os perigos do ataque de um inimigo. Uma medida especial de reforço generalizado o levou a mal-interpretar um ponto em uma escala de mensuração (Skinner, 1957/1992, p. 149).
Sendo assim, parcelas diferenciais de reforçamento generalizado aplicadas a formas verbais específicas podem deteriorar a relação entre o tacto e suas variáveis de
peixe pescado; quando a comunidade verbal não tem acesso ao peixe, o relato do pescador tende a ser modelado na direção de formas que obterão maior reforçamento.
Reforçadores não-generalizados podem ter efeitos semelhantes. Algumas respostas do falante necessitam de ações apropriadas por parte do ouvinte para serem efetivas. “Eu estou com fome” é um tacto que pode ser mantido por reforçamento generalizado do tipo “Sim, você não come há muito tempo”, mas se o ouvinte realizar ações apropriadas ao estado de privação ou de estimulação aversiva do falante (como, neste caso, oferecer comida), a resposta do falante será afetada. Formas específicas da resposta que tornam mais provável a atitude do ouvinte são fortalecidas. “Eu estou com fome” pode dar lugar a “Estou faminto!”, sem que necessariamente haja uma diferença
correspondente no estado de privação.
Quando o estado de privação ou estimulação aversiva (i. e. operações estabelecedoras) controlam a forma da resposta, ela adquire caráter de mando. Assim, “Estou com fome” será funcionalmente equivalente a “Dê-me comida”. A função de tacto
é mantida até o ponto em que a estimulação antecedente exerce controle sobre a resposta, mas quando as operações estabelecedoras são muito fortes, a resposta pode se desvincular em graus progressivamente maiores da condição de estimulação. Suponhamos que uma criança pegue o brinquedo de outra criança menor, e a vítima reclame para um adulto dizendo “Ele roubou meu brinquedo!”. O adulto toma o brinquedo da criança maior e devolve para a menor, reforçando sua resposta (a reclamação). Em ocasiões futuras na qual a criança pequena se interesse pelo brinquedo de uma outra, a resposta “Ele roubou meu brinquedo!” poderá ser emitida na presença de um adulto mesmo que o “roubo” não tenha
acontecido de fato, devido ao efeito do tipo de reforçador em questão (obtenção do brinquedo).
Em suma, fontes de controle adicionais podem resultar em uma distorção do tacto a tal ponto em que uma resposta inteiramente incompatível com a condição de estimulação antecedente é emitida. Para Skinner, respostas originadas de processos deste tipo são o que chamamos de mentira. Esta concepção nos remete à busca inicial das fontes múltiplas de controle da mentira, e a identificação destas fontes será suficiente para uma explicação completa da ocorrência de uma dada instância do mentir.
A relevância da causação múltipla em relação a este tipo de comportamento verbal extrapola, entretanto, a mera previsão da sua probabilidade de emissão, mas determina também as formas escolhidas. “Eu estava em casa ontem à noite” e “Eu não fui ao bar ontem à noite” são duas opções para o homem que não quer revelar seu real
paradeiro da noite anterior (o bar), mas a segunda possibilidade demonstra maior força de uma forma de tacto sob controle da condição antecedente, ainda que o autoclítico não (controlado por operações que estabelecem que respostas reveladoras do paradeiro do homem serão punidas e pelas alterações que promove na função do restante da emissão) mude inteiramente a função da produção final.
As duas fontes de controle características do mentir muitas vezes agem em sentido oposto: uma condição de estimulação antecedente não-verbal aumenta a probabilidade de respostas do tipo tacto, enquanto fontes concomitantes enfraquecem tactos precisos, pois estes têm alta probabilidade de punição (ou baixa probabilidade de reforçamento) naquelas circunstâncias. Receber um presente do qual não se gosta aumenta a probabilidade de um tacto do tipo “Não gostei do presente”, mas uma forma de evitar a punição provável seria dizer “Obrigado, adorei o presente”, em resposta à pergunta feita pelo presenteador (“Gostou?”). As duas respostas são obviamente incompatíveis, e em cada uma predomina um tipo de controle diferente.
Essa oposição não necessariamente fará parte da produção de uma mentira, e as fontes de controle podem se combinar em uma resposta que cumpra ambas as funções, como acontece em “Eu nunca esperaria ganhar isso de presente”. Tal emissão efetivamente evita a punição gerada por uma expressão de descontentamento, mas ainda assim está em correspondência com um estado de coisas, ou seja, sob controle da condição de estimulação característica de tactos.
Tal diferenciação entre possíveis modos de combinação das fontes de controle corresponde, em certa medida, a uma classificação da mentira entre falseamento e omissão (Ekman, 1997). O falseamento envolve uma resposta incompatível em relação a um tacto não-distorcido, ao passo que, na omissão, a resposta mantém seu aspecto de tacto ao mesmo tempo que é controlada pelos reforçadores característicos de mandos.
Definir a omissão como um tipo de mentira parece levantar problemas, pois a correspondência entre a resposta emitida e algum estado de coisas é mantida. Uma análise em termos de causação múltipla pode nos ajudar a distinguir instâncias de mentiras tipo omissão e verdades. Uma mulher que recebeu o amante em casa, ao atender o telefonema do marido que pergunta “O que você fez durante o dia?”, pode mentir “Eu não saí de casa hoje” (omissão), ou ainda “Eu passei o dia inteiro sozinha” (falseamento). Se o amante da
mulher não tivesse ido até a sua casa naquele dia, uma resposta do tipo “Eu não saí de casa hoje” também seria provável, mas sob estas circunstâncias ela estaria dizendo a verdade.
Ainda que ambas respostas possam ser qualificadas como tactos, aquela no caso da mentira cumpre uma função adicional (evitar que o marido descubra a traição), o que faz destas duas instâncias formalmente idênticas de emissão verbal operantes distintos.
Nas mentiras do tipo falseamento, respostas cuja forma estão sob controle de um estado de coisas que não deve ser revelado são enfraquecidas, e outras respostas verbais já existentes com algum nível de força tomam o seu lugar. Ao explicar à sua professora o
motivo pelo qual não fez a lição de casa, um grande número de respostas do aluno cumprirá a função de não revelar o que de fato aconteceu (a lição não foi feita por puro descaso ou preguiça, por exemplo). Emissões verbais que anteriormente foram reforçadas com a aquiescência do ouvinte são fortalecidas.
Em casos assim, o efeito de uma terceira fonte de controle se evidencia: a audiência. A mentira “Não fiz minha lição porque tive que viajar” pode ser efetiva para evitar a repreensão da professora, mas não a dos pais, de forma que respostas alternativas serão mais prováveis diante desta audiência diferenciada. O rapaz diz “Eu te amo” em um momento de carinho com a namorada, mas a mesma forma pode ser emitida em um contexto no qual ele quer abreviar uma conversa de telefone extensa demais com ela. O contato com diferentes audiências fortalece formas verbais específicas que podem vir a ser mentiras eficientes, mesmo que seu fortalecimento original tenha acontecido em circunstâncias nas quais o que estava sendo dito era a verdade.
Um outro efeito da causação múltipla sobre as formas do mentir são os lapsos verbais. Em um sentido freudiano, lapsos verbais originam-se da combinação de fontes de controle em grande parte desconhecidas pelo falante, mas na mentira as fontes são conhecidas, e o esforço do mentiroso é justamente o de ocultá-las (neste caso, sem muito sucesso). Quando interrogado pela polícia sobre um assassinato, o assassino pode dizer “Não fui eu... Eu nem estive em seu apartamento na noite passada”, para logo depois
perceber que um inocente não saberia que o crime tinha acontecido naquele lugar. Algo semelhante acontece quando o rapaz diz “Eu te amo, Paula” para sua namorada chamada Sílvia.
O lapso nem sempre é tão evidente, e pode tomar a forma de pequenas contradições na fala. A sua explicação está na intensidade da força de uma das fontes de
ou “Estive em seu apartamento na noite passada” ganham força no repertório do assassino. A força será ainda maior se ele gosta de se gabar de seus crimes, ou se sente que precisa “tirar aquilo do seu peito”. O controle em sentido oposto, exercido pelas condições que tornam as mentiras prováveis, pode não ser poderoso o suficiente para suprimir estas formas completamente.
As contradições na mentira podem aparecer também na ausência de uma resposta forte (como alternativa à verdade), e formas fragmentárias de menor força se mesclam sem muita coerência. Alguém pode se esquivar de um compromisso indesejável dizendo “Eu gostaria de ir com você, mas preciso ir ao médico... E meu filho está sozinho em casa”. Se
a contradição for detectada pelo ouvinte, o mentiroso pode lançar mãos de complementos do tipo “Vou ao médico levar meu filho”.
Até agora, as formas de emissões verbais características de mentiras estão sendo analisadas com base em duas fontes de controle principais, fontes estas caracteristicamente associadas a tactos (condição de estimulação antecedente não-verbal) e mandos (operações estabelecedoras). Contudo, outras categorias básicas de operantes verbais podem estar envolvidas na produção da resposta. Uma mentira com controle suplementar do tipo textual ocorre quando uma mulher não quer revelar o próprio nome e diz se chamar Marisa, logo após ter olhado para o outdoor de uma loja com o mesmo nome. Quando
questionados pelos pais sobre o vaso quebrado, uma criança diz “Foi o cachorro”, seguida por uma outra dizendo “É, foi o cachorro”, explicitando elementos de responder ecóico na resposta da segunda criança. As mentiras populares (comumente chamadas de “desculpas esfarrapadas”) como “Minha avó morreu” sugerem algum nível de intraverbalização.
Dada a complexidade do mentir como fenômeno comportamental e verbal, outros processos característicos de emissões verbais complexas também farão parte da composição da mentira, como autoclitização e auto-edição. Autoclíticos negativos “...
qualificam ou cancelam a resposta que acompanham, mas implicam que a resposta é forte por algum motivo” (Skinner, 1957/1992, p. 317), o que pode ser suficiente para converter um tacto ordinário em uma mentira, como na hoje célebre “Eu nunca tive relações sexuais com Monica Lewinksy”. Autoclíticos quantificadores estão presentes em mentiras do tipo
exagero (“Já fiz todas as minhas tarefas, posso brincar agora?”). Mentiras de um tipo mais sutil podem ser contadas com a participação de autoclíticos descritores da força da resposta, como acontece quando um vendedor diz “Eu tenho certeza de que você vai adorar este produto”.
As produções verbais escritas podem afetar o falante (neste caso, o escritor) de maneira semelhante a como afetarão um futuro leitor, de modo que o primeiro pode manipular suas próprias respostas de acordo com o efeito desejado. Este processo recebe o nome de auto-edição. Ainda que ele também seja possível no comportamento verbal vocal, é verificado de forma mais evidente na escrita, uma vez que o emissor das respostas pode efetivamente rejeitar algumas formas e substituí-las por outras. O mentiroso irá escolher as mentiras que soem mais plausíveis. Skinner coloca que “O falante usualmente rejeita uma resposta porque ela foi punida.” (1953/1992, p. 371). Mentiras com alta probabilidade de punição são aquelas que mais facilmente serão apontadas como tal pelo ouvinte. Pela possibilidade de rejeição de formas que contêm lapsos ou inconsistências, o processo de edição permite que as mentiras escritas sejam mais eficazes (no sentido de serem mais dificilmente detectáveis).
Um último efeito da causação múltipla sobre o mentir diz respeito a propriedades dinâmicas das respostas. Ainda que “Eu adorei o presente” tenha funções semelhantes (agradar o presenteador) tanto quando dito honestamente como quando falado de forma a enganar o ouvinte, a força da resposta é evidentemente menor no caso da mentira, o que
volume, etc.). Um efeito indesejável para o mentiroso é que a mentira pode ser detectada a partir destas propriedades não-verbais de sua produção. Quando o mentiroso está extremamente motivado para que a mentira não seja descoberta (i.e. o controle exercido pelas operações estabelecedoras é muito forte), tais propriedades podem exacerbar-se e resultar em uma fala “forçada” ou pouco natural.1
As variações nas propriedades não-verbais do comportamento verbal características da emissão mentirosa são chamadas de sinais de mentira. A denominação explicita o fato de que a discriminação adequada de tais propriedades favorece o reconhecimento da emissão verbal como sendo uma mentira (como acontece na detecção de mentiras). Porém, os eventos que podem funcionar como sinais de mentira não são sempre propriedades de emissões verbais. Outras possibilidades de sinais são o movimento dos olhos e das mãos, as mudanças posturais e as expressões faciais (Vrij, 2005). Desde a perspectiva das áreas de estudo do comportamento não-verbal em psicologia (DePaulo, 1988a) esses movimentos e expressões não são propriedades do comportamento, mas comportamentos em si próprios, sendo que alguns deles não necessariamente são verbais (considerado o entendimento analítico-comportamental). A mudança na probabilidade de ocorrência dos referidos sinais concomitante à emissão do mentir caracteriza uma outra dinâmica de causação múltipla possível, em que uma mesma variável afeta mais de uma resposta.
Em síntese, quando se afirma que o comportamento de mentir é produto de causação múltipla, o que se quer dizer é que: (a) várias fontes de controle operam sobre ele, e que a combinação destas fontes determina (b) a probabilidade de emissão da mentira (em detrimento da verdade), (c) a forma da emissão mentirosa, (d) as propriedades dinâmicas da emissão, e (e) a probabilidade de emissão de comportamentos contíguos (os
sinais de mentira). Uma consideração completa de um episódio verbal envolvendo mentiras deve levar em conta a participação de todos os eventos acima indicados, sendo que a compreensão dos princípios e processos comportamentais que regem o comportamento verbal (de acordo com a proposta skinneriana) pode fornecer indicativos importantes sobre as maneiras como tais eventos se relacionam.
1.4. Detecção de mentiras
A pergunta “É possível detectar mentiras?” não pode ser respondida com uma única palavra. Mais de um século de uso do teste do polígrafo e, em especial, quase 30 anos de pesquisa em detecção de mentiras através do comportamento externamente observável têm deixado mais perguntas do que respostas.
A técnica mais antiga e mais popular de detecção de mentiras é o teste do polígrafo. Os métodos fisiológicos modernos de avaliação de verdade e mentira começaram na Itália no final do século XIX (Iacono & Lykken, 2002). Originalmente, seu papel primordial era de ferramenta de investigação criminal, mas hoje, principalmente nos Estados Unidos, ele é usado também em larga escala por empresas privadas em entrevistas de admissão ao emprego (Ekman, 2001).
O teste do polígrafo consiste em um conjunto de aparelhos capazes de medir precisamente alterações fisiológicas tais como a freqüência cardíaca, a pressão sangüínea, a respiração, a sudorese, a condutância eletrodérmica e a temperatura. Diversos sensores são colocados no corpo da pessoa que será entrevistada, e as menores alterações em qualquer uma das medidas fisiológicas é registrada. O teste do polígrafo não detecta de fato mentiras, mas sim as alterações no funcionamento fisiológico do entrevistado. A premissa por trás do teste é que essas alterações fisiológicas acompanham a fala mentirosa
Um examinador de polígrafo sabe que não é só a mentira que desencadeia alterações fisiológicas características de respostas emocionais, de forma que o teste do polígrafo é sempre feito usando uma ou mais dentre várias técnicas específicas para isolar as respostas verdadeiras e mentirosas do entrevistado (Iacono & Lykken, 2002). Uma destas técnicas é o Teste da Questão de Controle (Control Question Test – CQT). Nesta variação, são feitas ao entrevistado questões de controle e questões específicas sobre a situação em questão. As questões de controle são destinadas a provocar um maior grau de excitação na pessoa inocente do que a questão específica. Por exemplo, em uma investigação de roubo, a questão de controle poderia ser “Alguma vez na vida você já pegou alguma coisa que não lhe pertencia?”. Responder essa pergunta implicaria maiores mudanças fisiológicas em um inocente do que responder, por exemplo, a pergunta “Você roubou os documentos do escritório ontem à noite?”.
Uma outra técnica que não exige nem mesmo que o entrevistado dê respostas é o Teste do Conhecimento do Culpado (Guilty Knowledge Test – GKT). No GKT, o examinador faz uma pergunta que só o culpado (e neste caso, também os investigadores) sabe a resposta, e ele mesmo apresenta possíveis alternativas. Poderia perguntar, por exemplo, “Qual a cor do vestido que a vítima estava vestindo na noite do estupro: verde, amarela, vermelha ou estampada?”. É feita uma pausa entre cada uma das alternativas, e espera-se que o culpado demonstre maiores alterações nas respostas fisiológicas quando o examinador diz o item verdadeiro (Iacono & Lykken, 1997).
Pesquisas sobre a precisão dos resultados indicados pelo teste do polígrafo, tanto em campo quanto em laboratório, mostram uma porcentagem de acertos em torno de 85% (Ekman, 2001). O maior problema com este método de detecção é a possibilidade de não confiabilidade do registro produzido quando usado com pessoas especialmente treinadas para enganá-lo, e com pessoas que não apresentam respostas emocionais quando mentem,
como ocorre com sociopatas (Ekman, 2001). Por estes e outros motivos, a comunidade científica dos Estados Unidos, lugar onde a técnica tem sido usada em maior escala, não a consideram como instrumento confiável de avaliação (Iacono & Lykken, 1997).
Como alternativa às medidas fisiológicas tradicionais, trabalhos mais recentes têm pesquisado alterações em ondas cerebrais como possíveis indicadores de emissão mentirosa. Um tipo de onda cerebral, a P300 (ou P3) é observada em um eletroencefalograma (EEG) em resposta a estímulos significativos e destoantes. Por exemplo, um sujeito vendo nomes em uma lista, apresentados aleatoriamente a cada três segundos, eventualmente é confrontado com seu próprio nome no meio da lista. Frente ao estímulo significativo (autobiográfico) e reconhecido (o próprio nome), uma onda P3 é evocada (Rosenfeld, 2001).
Utilizando procedimentos semelhantes aos utilizados com o polígrafo (como o CQT), trabalhos com ondas cerebrais têm encontrado correlações significativas entre contar mentiras e alterações na onda P3 (Stelmack, Houlihan & Doucet, 1994), embora inconsistências entre diferentes estudos usando diferentes procedimentos impeçam que este tipo de medida seja usado como um detector de mentiras confiável, pelo menos por enquanto (Rosenfeld, 2001).
No Brasil, o teste do polígrafo é administrado principalmente por empresas de consultoria que prestam serviços a outras empresas particulares. Entretanto, o teste não é obrigatório no país nem mesmo para aqueles submetidos à investigação criminal. Uma exceção são as empresas aéreas, que depois do atentado de 11 de setembro foram autorizadas a submeter seus empregados da área de segurança ao polígrafo.
Um outro método de detecção de mentiras que vêm recebendo interesse tanto prático quanto acadêmico é aquele através de mudanças no comportamento externamente
polígrafo, ou seja, que as mudanças ocorrem quando as pessoas estão mentindo. Como dito anteriormente, as mudanças são comumente denominadas sinais de mentira. A definição de sinal de mentira deve ser, necessariamente, relacional. Nenhum comportamento é sinal de mentira em absoluto, mas funcionará como sinal se ocorrer regularmente com maior ou menor freqüência quando a pessoa mente em comparação a quando fala a verdade. Se alguém consistentemente pisca mais quando mente em comparação ao seu padrão normal de piscar, o piscar excessivo se configurará como sinal de mentira. Se uma outra pessoa pisca com menor freqüência enquanto mente, o piscar pouco predominante será um sinal de mentira. Sinais de mentira podem ser ainda mudanças em propriedades não-verbais do responder verbal, como o tom de voz, a velocidade da fala, a duração das pausas, etc.
Os comportamentos mais comumente investigados em trabalhos de detecção de mentiras incluem: hesitações no discurso, erros no discurso, taxa do discurso, tom de voz, períodos de latência nas falas, freqüência e duração de pausas, direção do olhar, piscar dos olhos, expressões faciais, sorrisos, movimentos das mãos, da cabeça, dos dedos e das pernas, ilustradores, auto-manipuladores e mudanças na posição (Vrij, 2005).
Alterações nestes padrões comportamentais evidentemente não acontecerão todas as vezes em que a mentira ocorrer, e não serão iguais para todas as pessoas, estando ligadas a diversos fatores contextuais e individuais. Ao contrário do que acontece com o Pinóquio do conto de fadas, não existe um único sinal que sempre irá aparecer quando as pessoas contam mentiras. Assim sendo, a palavra “detecção” em detecção de mentiras tem um sentido até certo ponto diferente daquele denotado em detecção de sinais, por exemplo. O paradigma de detecção de sinais (Nevin, 1969) envolve a discriminação de algum estímulo específico que ora é apresentado e ora não é. A mentira, por outro lado, não existe materialmente enquanto estímulo discreto, e só se define através da relação entre o comportamento verbal e outros eventos no ambiente. Mais do que isso, a detecção de
mentiras não é a discriminação deste comportamento verbal, mas das suas propriedades verbais e não-verbais e/ou dos outros comportamentos que regularmente o acompanham. A tarefa do detector de mentiras será, portanto, a de: 1) perceber no emissor a presença de um ou mais sinais concomitantes à sua fala ou comunicação; 2) comparar a ocorrência, freqüência ou intensidade destes sinais com outras falas, sinceras ou enganosas, do mesmo emissor e/ou de outros; 3) fazer um julgamento. A possibilidade de uma detecção de mentiras acurada está condicionada ao grau com que os sinais consistentemente diferenciam falas mentirosas de falas sinceras. Estudos da área procuram mensurar e comparar tais sinais para determinar se são ou não capazes de diferenciar estes dois tipos de falas. A Tabela 1 (adaptada de Vrij, 2005) apresenta um sumário dos achados de diversos estudos em relação a alguns destes sinais. Observa-se que nenhum dos comportamentos listados é consistentemente apontado como sinal de mentira entre diferentes estudos, sendo que alguns deles (como erros, hesitações e ilustradores) apresentam resultados conflitantes. Parece não haver um sinal de mentira universalmente confiável.
Um dado quase unânime na literatura psicológica de detecção de mentiras através do comportamento do mentiroso diz respeito ao fato de que as pessoas não se saem bem em tarefas nas quais devem julgar se outras estão mentindo. A porcentagem de acertos em tarefas de detecção nos estudos experimentais sobre o tema raramente passa de 60%, sendo 50% considerado acaso (i. e. Ekman, 1996; Hartwig, Granhag, Strömwall, & Vrij, 2002; O’Sullivan, Ekman & Friesen, 1988).
Tabela 1. Sumário de achados acerca de alguns dos comportamentos investigados em estudos de detecção como possíveis sinais de mentira.
Estudo Erros Hesitações Pausas Mudança deposição Movimentosda cabeça manipuladoresAuto- Ilustradores Olhar
Bond et al. (1985) - - - > > Bond et al. (1990) - > - - - - -Buller & Aune (1987) - - < - < Buller et al. (1989) < < - - - < Buller et al. (1994) - > -Cody & O’Hair (1983) > - < -Cody et al. (1989) > - - - -Feeley & deTurck (1998) > > - - - - -Fiedler & Walka (1993) > < -Greene et al. (1985) - < - < -Hocking & Leathers (1980) > - - - < Höfer et al. (1993) < - - - < -Kalma et al. (1996) < < < Knapp et al. (1974) - - - > - < Mann et al. (1998) > < > < < -Vrij & Winkel (1991) - < - - < < -Vrij et al. (1999) > > - <
-Nota. Sinais > indicam que o comportamento aconteceu com maior freqüência durante mentiras naquele
estudo, e < com menor freqüência. O sinal - indica que tal comportamento não se diferenciou entre emissões de verdades e de mentiras. Células vazias representam comportamentos que não foram investigados no estudo.
Nota. Adaptado de Detecting lies and deceit, (pp. 34-37), por A. Vrij, 1995, Chichester: John Willey.
Direitos autorais de 2000 por John Wiley & Sons ltd. Adaptado com permissão.
Em um trabalho ilustrativo, Ekman e O’Sullivan (1991) instruíram estudantes de enfermagem a descrever seus sentimentos diante de uma câmera de vídeo enquanto assistiam a um filme que lhes era apresentado, mas não era capturado na filmagem. Todas as estudantes deveriam descrever sentimentos de calma, paz e tranqüilidade enquanto assistiam ao filme; entretanto, apenas a metade delas assistiu a filmes que provavelmente evocariam este tipo de emoções (uma seqüência de cenas de paisagens, campos, etc.), enquanto a outra metade foi exposta a uma montagem de cenas cirúrgicas envolvendo