CONSTITUCIONALIDADE DIFUSO
Resumo: Tendo optado o legislador constitucional brasileiro pelo modelo de constituição rígida, impõe-se a existência de um sistema de controle cujo objetivo seja verificar se a norma infraconstitucional atende aos princípios prescritos pela Carta Magna. O sistema brasileiro de controle de constitucionalidade é muito rico, podendo ser classificado, dentre outras modalidades, no que tange à finalidade e ao órgão jurisdicional competente, em Difuso-Incidental e Concentrado-Abstrato. Uma das principais distinções entre essas modalidades está nos efeitos que geram suas decisões. No controle Difuso, os efeitos são inter partes; no Concentrado, erga omnes. Busca-se, com a teoria da objetivização do controle difuso, atribuir o efeito erga omnes às decisões proferidas nesse contexto.
Palavras-chave: Objetivização; Controle de Constitucionalidade; Controle Difuso; Constituição, Direito.
ThE OBJECTIFICATION OF DIFFUSE JUDDICIAL REVIEw
Abstract: The choice of the Brazilian constitutional legislature for model of rigid constitution requires a control system whose have as purpose verify if the infra constitutional rule meets the principles prescribed by the Constitution. The Brazilian judicial review system is very rich and can be classified as Diffuse - Incidental and Concentrated –Abstract about its goal and the responsible judicial organ. One of the main distinctions between these modalities is the effects created by its decisions. In the Diffuse control these effects are inter partis, but in Concentrated control they are erga
omnes. The objectification of Diffuse control theory intends to assign the erga omnes
effect to the decision made in this context.
Keywords: Objectification; Judicial Review, Diffuse Control, Constitution, Law.
Marcelo Franca Alves. Secretário Geral e Assessor de Planejamento e Gestão da Reitoria do Centro Universi-tário Adventista de São Paulo (Unasp). E-mail: marcelo@ marcelo.pro.br.
RENATO SIQUEIRA DE PRETTO. Doutor em Direito pela PUC-SP. Juiz de Direito Titular da 1ª Vara Cível de Campi-nas-SP. Professor Assistente do Curso de Especialização em Direito Público da Escola Paulista de Magistratura e do curso de Direito do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). [email protected].
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A constituição de um Estado tem por finalidades principais definir os limites de atuação do poder público, a forma pela qual o povo exercerá o poder (Estado Democrático) e as regras pelas quais os direitos fundamentais prevalecerão sobre as demais normas jurídicas. (LENZA, 2008, P. 9)
Somente a existência dessa Carta não garante que o desejo soberano do povo seja acolhido, conforme Siqueira Jr. (2009, p. 73):
A existência de um documento escrito que traz em seu bojo a organização política de um Estado Democrático não é suficiente para a existência desse Estado. Faz-se necessária a previsão de institutos asseguradores, ante a ofen-sa da Constituição pelos detentores do Poder Público. [...] O Controle de Constitucionalidade, como instituto de direito processual constitucional, é um instrumento necessário no Estado de Direito, na medida em que é o meio adequado para garantir os preceitos estabelecidos na Carta Magna de 1988. Portanto, cabe ao instituto do controle de constitucionalidade verificar se as normas infraconstitucionais passam pelo filtro que tem por parâmetro a Carta Magna (e normas equivalentes1), decidindo se essas normas devem ou não permanecer no ordenamento jurídico. Caso essas normas sejam incompatíveis com a Lei Maior, qualificam-se como “nulas, inaplicáveis, sem validade, inconsistentes com a ordem jurídica estabelecida”. (BONAviDES, 2006, p. 297) Esses dispositivos legais devem ser pós Constituição de 1988, pois sendo anterior, como regra,2 não se pode falar em Controle de Constitucionalidade, mas em Recepção ou não da norma (ARAuJO; NuNES JúNiOR, 2006, p. 35).
Esse controle é necessário em função do conceito de Supremacia da Constituição sobre todas as demais normas pertencentes ao sistema jurídico, bem como à rigidez constitucional e proteção dos direitos fundamentais. (MORAES, 2006, p. 635). Moraes ainda defende que mesmo sendo a Constituição autodenominada Rígida, não havendo um devido Controle de Constitucionalidade, essa Carta torna-se flexível, pois o “Poder Constituinte ilimitado” poderá ser exercido pelo legislador ordinário.
Como pertencente ao processo constitucional, o controle de constitucionalidade caracteriza-se por ser um processo sui generis¸ possuindo características do processo
de conhecimento, mas também dos processos cautelar e de execução (GuERRA FiLhO, 2009, p. 10).
1 Como parâmetro de controle de constitucionalidade considera-se o texto original da Constituição de
1988 com as respectivas Emendas Constitucionais e, segundo o § 3º do art. 5º da Constituição, “os trata-dos e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovatrata-dos, em cada Casa do Congres-so Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros”, pactos esses que, de tal forma, passarão a deter a mesma natureza das emendas constitucionais, consoante inovação instituída pela Emenda Constitucional nº 45/04.
2Exceção a essa regra encontra-se no artigo 1º, parágrafo único, inciso I, da Lei 9.882/99 (Lei da Arguição
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Controle de constitucionalidade difuso e concentrado
Segundo Medina (2010, p. 73 – 78) são dois os principais modelos de controle de constitucionalidade existentes: o político e o jurisdicional.
São características principais do modelo político:
• O controle é exercido por órgãos vinculados ao Poder Legislativo ou por órgão especial composto por membros escolhidos pelo Poder Legislativo e pelo Executivo.
• Não se exige dos seus membros formação jurídica.
Já o controle jurisdicional possui como principais características:
• O controle é exercido por órgãos do Poder Judiciário ou por Cortes Especiais compostas por magistrados e juristas.
A investidura de seus membros é temporária.
• O controle jurisdicional possui as seguintes variantes: controle exercido pelas Cortes Especiais e o controle exercido pelos órgãos comuns do judiciário. O controle realizado pelas Cortes Especiais tem sua origem na Constituição Austríaca em modelo elaborado por hans Kelsen; já o exercido pelos órgãos comuns originou-se na Corte Suprema dos Estados unidos da América. Por essa origem, o primeiro é conhecido como Modelo Austríaco e o segundo como Modelo Norte-Americano.
Olhando pelo aspecto orgânico, o controle de constitucionalidade pode ser exercido em duas modalidades: difuso e concentrado, sendo que o controle difuso pode ser realizado por diversos órgãos do Poder Judiciário e o controle concentrado por um órgão específico.
Ainda são características do controle difuso (além de poder ser exercido por diversos órgãos do judiciário), o qual, no Brasil, se exerce à luz de um processo constitucional subjetivo:
• Trata-se de controle incidental, ou seja, a constitucionalidade é discutida não como objeto da ação, mas como requisito necessário a ser pacificado antes de se entrar no mérito da questão: o bem da vida desejado (relação jurídica concreta).
• Conhecido como controle por via de exceção ou de defesa, repressivo, posterior, ou controle aberto (LENZA, 2008, p. 146).
Já o controle concentrado, lastreado num processo constitucional objetivo, além da característica peculiar de ser exercido por um órgão do Poder Judiciário específico (no Brasil, o Supremo Tribunal Federal), possui, outrossim, as seguintes características:
• A constitucionalidade é discutida em tese, em abstrato, ou seja, não existe um caso concreto em que a constitucionalidade é discutida, tem-se, nesse caso a norma questionada como objeto principal da ação (validade da norma jurídica em tese).
• Conhecido, também, como controle por via de ação, via principal ou via direta.
Os efeitos dos controles difuso e concentrado
iniciando pelo controle difuso, tendo em mente que ele se caracteriza pela discussão da constitucionalidade em situação concreta, eis os seus efeitos:
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• Inter Partes, ou seja, a decisão aplica-se somente às partes do processo subjetivo; • Ex Tunc, ou seja, a decisão tem efeito retroativo, agindo como se a norma nunca
houvesse existido.
Para ambos os efeitos existem exceções.
O Supremo Tribunal Federal (STF), “tendo em vista razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social”, pode utilizar o Poder Modulador, transformando o efeito que, em regra, é ex tunc em ex nunc (a partir do momento da decisão) ou mesmo pro futuro (em algum momento no futuro). vejamos, por exemplo, o Recurso Extraordinário
197.917-8/2002 em que esse Tribunal reduziu o número de vereadores do Município paulista de Mira Estrela, determinando que essa decisão entrasse em vigor somente na próxima legislatura (efeito pro futuro). Tal Poder tem previsão legal no art. 27 da Lei
9.868/99, a Lei da ADi (Ação Direta de inconstitucionalidade). Apesar dessa previsão aplicar-se especificamente às Ações Diretas de inconstitucionalidade e às Declaratórias de Constitucionalidade, peculiares ao controle concentrado, o STF tem, como visto, utilizado desse recurso no controle difuso.3
Art. 27. Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, e tendo em vista razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social, po-derá o Supremo Tribunal Federal, por maioria de dois terços de seus mem-bros, restringir os efeitos daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em julgado ou de outro momento que venha a ser fixado (Lei 9.868/99, art. 27).
Em outro sentido, para que a barreira do efeito inter partes possa ser superada,
transformando-o em erga omnes, o legislador constitucional abriu a possibilidade de o Senado
Federal, através de Resolução, suspender a execução da norma declarada inconstitucional, em sede de controle difuso, pelo STF:
Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal:
X - suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitu-cional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; (CR, 52) Entende-se que a expressão “no todo ou em parte”, não permite ao Senado Federal escolher o trecho da norma a ser objeto de Resolução, mas ao STF definir se a norma é inconstitucional completa ou parcialmente, podendo ou não o Senado Federal editar a Resolução. Decidindo positivamente, destarte, deverá suspender a execução no quantum
determinado pelo STF.4
infere-se, também, do termo “suspender” do dispositivo constitucional aludido, que o efeito que, em regra é ex tunc, passa a ser ex nunc (LENZA, 2008, p. 148 – 157,
ARAuJO; NuNES JúNiOR, 2006, p. 32).
3 Confira-se, igualmente, o julgamento do hC no 82.959 no Supremo Tribunal Federal, em que houve a
decla-ração de inconstitucionalidade – a contar de tal decisum - do artigo 2º, § 1º, da Lei no 8.072/90 (impossibilidade
de progressão de regime aos condenados por crimes hediondos).
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Exceção ao efeito ex nunc da Resolução do Senado Federal encontra-se nos §§ 1º
e 2º do artigo 1º do Decreto 2.346/97. Nesse caso, à administração pública, aplica-se o efeito ex tunc:
§ 1º Transitada em julgado decisão do Supremo Tribunal Federal que declare a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, em ação direta, a decisão, dotada de eficácia ex tunc, produzirá efeitos desde a entrada em vigor da
norma declarada inconstitucional, salvo se o ato praticado com base na lei ou ato normativo inconstitucional não mais for suscetível de revisão admi-nistrativa ou judicial.
§ 2º O disposto no parágrafo anterior aplica-se, igualmente, à lei ou ao ato normativo que tenha sua inconstitucionalidade proferida, incidentalmente, pelo Supremo Tribunal Federal, após a suspensão de sua execução pelo Se-nado Federal. (Decreto 2.346/97, art. 1º)
De outro lado, como regra, revelam-se como efeitos das decisões de inconstitucionalidade em sede de controle concentrado:
• Ex Tunc, cabendo as mesmas observações do controle difuso quanto a esse
efeito. Como exemplo à aplicação do Poder Modulador pelo STF, pode-se citar o caso da contratação de funcionários da área da saúde em virtude do surto da denominada “gripe suína” (influenza A), pelo governo do Espírito Santo, ao arrepio das normas inscritas nos incisos ii e iX do artigo 37 da Lei Maior. A lei que permitia essa contratação teve artigo declarado inconstitucional na ADi 3.430-8/ES. Nesse caso, a decisão do Supremo entrou em vigor 60 dias após a decisão ter sido comunicada ao Governador e à Assembleia Legislativa.
• Erga Omnes: esse efeito é próprio desse tipo de controle exatamente porque a
discussão da constitucionalidade realiza-se em abstrato. O maior interessado nesse tipo de controle é o próprio sistema jurídico que deve ficar livre da norma inconstitucional.
• vinculante: a decisão vincula os demais órgãos do poder judiciário e a administração
pública. Em outras palavras: o executivo (Federal, Estadual, Municipal e do Distrito Federal) bem como o judiciário não poderão decidir ou agir contrariamente ao decisum
consolidado na súmula. Não estão sujeitos à vinculação o próprio STF e o legislativo.5 § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade produzirão eficácia contra todos e efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração públi-ca direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. (CR, 102)
A questão da cláusula de reserva de plenário
Requisito necessário a ambos os sistemas de controle de constitucionalidade (difuso e concentrado) é o atendimento ao artigo 97 da Constituição da República, conhecido 5 ADi 2675/PE, rel. Min. Carlos velloso e ADi 2777/SP, rel. Min. Cezar Peluso, 26 e 27.11.2003;
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como Cláusula de Reserva de Plenário (DiDiER JR., 2009, p. 569):
Art. 97. Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a in-constitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público. (CR, 97) havendo questão (incidental) de constitucionalidade discutida em processo distribuído a uma câmara, turma ou seção do tribunal, deve-se suscitar questão de ordem, sendo o processo remetido ao pleno ou ao órgão especial do tribunal para análise da constitucionalidade. Após decisão da questão incidental pelo pleno ou órgão especial, “a causa volta ao órgão julgador originário, que deve ultimar o julgamento do feito, resolvendo as demais questões incidentes e decidindo a questão principal. O órgão originário fica vinculado à solução que o colegiado maior deu à questão incidente”. (DiDiER JR., 2009, p. 560 - 561)
Mesmo o STF, exercendo o controle difuso (Recurso Extraordinário, Mandado de Segurança de parlamentar contra processo legislativo, etc.) ou concentrado está sujeito a essa determinação constitucional. Trata-se de “condição de eficácia jurídica da própria declaração de inconstitucionalidade dos atos do Poder Público” (LENZA, p. 146 - 147). Esse princípio foi ratificado pelo conteúdo da Súmula vinculante nº 10:
viola a Cláusula de Reserva de Plenário (CF, Artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitu-cionalidade de lei ou ato normativo do poder público, afasta sua incidência, no todo ou em parte. (Súmula vinculante nº 10)
Em função da celeridade processual e da segurança jurídica, é desnecessária a aplicação dessa cláusula em situações em que o Pleno, o Órgão Especial ou o STF já tenha decidido sobre matéria similar. Posição essa ratificada pelo legislador infraconstitucional no Código de Processo Civil (CPC), art. 481, parágrafo único:
Parágrafo único. Os órgãos fracionários dos tribunais não submeterão ao plenário, ou ao órgão especial, a argüição de inconstitucionalidade, quando já houver pronunciamento destes ou do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre a questão. (CPC, 481)
Outra possível exceção à aplicação dessa cláusula está prevista no parágrafo 1º-A do artigo 557 do CPC que permite ao relator do processo dar provimento ao recurso se a decisão de primeira instância confronte súmula ou jurisprudência do STF ou outro tribunal Superior:
§ 1º-A Se a decisão recorrida estiver em manifesto confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal, ou de Tribunal Superior, o relator poderá dar provimento ao recurso. (CPC, 557)
Além dessas exceções, entende o STF que a Cláusula de Reserva de Plenário não se aplica às turmas recursais de juizado especial, pois essas não se qualificam como “tribunais”.
Note-se que a declaração de constitucionalidade por órgão fracionário não fere à referida Cláusula, pois o artigo 97 da Carta Magna fala explicitamente em inconstitucionalidade e os atos normativos possuem a presunção de constitucionalidade.
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Também por razões óbvias, é materialmente impossível aplicar-se a Cláusula de Reserva de Plenário ao Juiz singular no exercício do Controle de Constitucionalidade Difuso. Essa impossibilidade não invalida sua decisão (viviAN, 2009).
A objetivização
Conceito também conhecido como “Transcendência dos Motivos Determinantes da Sentença” (LENZA, 2008, p. 152 - 156), “Abstrativização do Controle Concreto de Constitucionalidade” (SAPERANDiO, 2010, p. 44), “Germanização do Sistema de Controle” (MORAiS, 2010, p. 79), ou ainda como “incidente Processual de Natureza Objetiva” (DiDiER JR., 2009, p. 571) é arduamente defendido pelo ex-presidente do STF, Ministro Gilmar Mendes. O tema passa, também, pela discussão sobre o papel do Senado Federal na edição da resolução, alterando os efeitos da decisão do STF no controle difuso de inter partes para erga omnes. Teria ele, o Senado Federal, o poder discricionário de editar
tal resolução?
importante ressaltar que o tema, apesar de defendido por ilustres juristas e doutrinadores, não encontra consenso na Suprema Corte Brasileira.6
De acordo com o apresentando anteriormente neste trabalho, a grande diferença entre os efeitos do controle difuso e concentrado encontra-se nos limites subjetivos da decisão. A decisão proferida no controle difuso tem efeito inter partes, enquanto que, no
concentrado, erga omnes (SPERANDiO, 2010, p. 44). A teoria da objetivização do controle
difuso, em poucas palavras, defende a atribuição do efeito erga omnes às decisões tomadas
em controle difuso, tornando ineficaz a edição da resolução pelo Senado Federal, que serviria tão-só à publicidade da decisão da Suprema Corte nacional.
Essa teoria tem como precedentes o Recurso Extraordinário 197.917/SP (o caso dos vereadores de Mira Estrela-SP) e o Habeas Corpus 82.959/SP (o caso de progressão do
regime na lei dos crimes hediondos).
Com a devida venia, não vemos como adequada essa doutrina.
A primeira barreira que encontra a tese vergastada é infraconstitucional, a saber, o artigo 469 do Código de Processo Civil, lembrando-se que o controle difuso-incidental segue as normas atinentes ao processual constitucional subjetivo:
Art. 469. Não fazem coisa julgada:
i - os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença;
iii - a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no pro-cesso.
Como poderia uma decisão em controle difuso, que trata de aspectos de constitucionalidade de forma incidental, tendo sua análise discutida nos motivos da
6 No HC 82.959/SP votaram a favor da objetivização os ministros: Gilmar Mendes (relator) e Eros Grau.
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decisão e não integrante da parte dispositiva da sentença, e que, conforme o artigo 469 do CPC, não faz coisa julgada, ter efeito erga omnes? Legalmente impossível (DiDiER
JR., 2009, p. 560-561)
Outra barreira que essa teoria tem dificuldades em superar é a da separação constitucional dos poderes. A Constituição define claramente os papéis do Senado Federal e do STF enquanto atores em processos de controle de constitucionalidade difuso. Nada obstante, Mendes (2004, p. 155-6) defende não haver mais a necessidade da edição da resolução senatorial, existindo somente um motivo histórico para tal previsão constitucional, utilizando a máxima “quem pode mais pode menos”:
A amplitude conferida ao controle abstrato de normas e a possibilidade de que se suspenda, liminarmente, a eficácia de leis ou atos normativos, com eficácia geral, contribuíram, certamente, para que se quebrantasse a crença na própria justificativa desse instituto, que se inspirava diretamente numa concepção de separação de Poderes - hoje necessária e inevitavelmente ul-trapassada. Se o Supremo Tribunal pode, em ação direta de inconstitucio-nalidade, suspender, liminarmente, a eficácia de uma lei, até mesmo de uma Emenda Constitucional, por que haveria a declaração de inconstitucionalida-de, proferida no controle incidental, de valer tão-somente para as partes? A única resposta plausível nos leva a crer que o instituto da suspensão pelo Senado assenta-se hoje em razão de índole exclusivamente histórica. Outra justificativa utilizada por Mendes (2006, p. 326) para tal posicionamento decorre do aparente conflito entre os efeitos do controle de constitucionalidade abstrato (ex tunc) e do concreto com edição da resolução senatorial (ex nunc):
há de se reconhecer que o tema assume entre nós peculiar complexidade tendo em vista a inevitável convivência entre os modelos difuso e direto. Quais serão, assim, os efeitos da decisão ex nunc do Supremo Tribunal
Fe-deral, proferida in abstracto, sobre as decisões já proferidas pelas instâncias
afirmadoras da inconstitucionalidade com eficácia ex tunc?
Defende, igualmente, Mendes (2004, p. 165) ter havido “autêntica mutação constitucional em razão da completa reformulação do sistema jurídico e, por conseguinte, da nova compreensão que se conferiu à regra do art. 52, X, da Constituição de 1988”.
Todavia, apesar da lógica e atraente argumentação de Mendes, a aceitação dessa linha argumentativa, nas palavras de Morais (2010, p. 77) “equipara a função do Senado Federal, no controle concreto e difuso de constitucionalidade, a um mero Diário Oficial!”.
Além de ferir flagrantemente a Carta Magna, tal argumentação afronta o princípio constitucional da separação dos poderes e do sistema de freios e contrapesos, dando poderes ao STF que ultrapassam aos desejados pelo legislador constituinte, qual seja, representar a vontade soberana do povo ao “legislar”, alterando dispositivo constitucional no qual o legislador não deixou dúvidas quanto à sua vontade. No ponto, não se pode olvidar que a competência do STF é de direito estrito e decorre da Constituição, que a
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restringe aos casos enumerados no art. 102 e incisos,7 portanto, de enumeração taxativa na Lei Maior, sendo que tão-só a Emenda Constitucional poderia ampliá-la.8
Nessa toada, defende Morais (2010, p. 79):
[...] parece-nos errático o entendimento de que se o Supremo Tribunal Fe-deral já detém a competência constitucional de exercer o papel de legislador-negativo no controle abstrato de normas – por determinação da própria Constituição -, a Corte poderia exercer uma suposta função de “menor im-portância” para tornar definitiva a questão constitucional no controle con-creto de normas.
Não há, por conseguinte, de se falar em mutação constitucional. Ao revés, aceitando-se a argumentação de que o art. 52, X da Constituição não é mais aplicável, estaremos falando de usurpação de competência constitucional do Senado Federal pelo STF. Tal entendimento (desnecessidade da resolução senatorial) somente será válido quando o legislador constitucional emendar a Carta Magna, retirando citado dispositivo de seu texto, é dizer, excluindo mencionada competência do Poder Legislativo. Essa argumentação foi defendida pelo Min. Joaquim Barbosa em voto na Reclamação nº 4.335-5/AC:
[...] haveria de ser mantida a leitura tradicional do art. 52, X, da CF, que trata de uma autorização ao Senado de determinar a suspensão de execução do dispositivo tido por inconstitucional e não de uma faculdade de cercear a autoridade do STF [...] essa proposta, além de estar impedida pela literali-dade do art. 52, X, da CF, iria na contramão das conhecidas regras de auto-restrição. (informativo STF n. 463)
Não existe necessidade do STF ferir a Norma Maior Nacional considerando que dispõe de instrumento necessário para alcançar seus objetivos, a saber, a possibilidade dada pela Emenda Constitucional (EC) nº 45/2004 de edição, inclusive de ofício, de Súmula vinculante. Recorde-se, aliás, que o quorum para a Súmula vinculante (dois terços de seus membros) é mais robusto
do que aquele para a mera declaração incidental de inconstitucionalidade (maioria absoluta), o que evidencia a jurisdição constitucional como exercício de um poder contramajoritário . Essa previsão está disposta no atual art. 103-A da Constituição:
Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma esta-belecida em lei. (CR, 103-A).
7 STF, Pet 693-AgR, Rel. Min. ilmar Galvão, julgamento em 12-8-1993, Plenário, DJ de 1º-3-1996.
8 STF; RhC 79785; RJ; Tribunal Pleno; Rel. Min. Sepúlveda Pertence; Julg. 29/03/2000; DJu 22/11/2002;
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Pode, portanto, o STF, no controle de constitucionalidade difuso, editar súmula vinculante que terá efeitos:
• Erga omnes
• Eficácia vinculante
E isso equivale exatamente ao que se deseja com a teoria da objetivização, porém sem qualquer mácula à matriz constitucional.
Considerações Finais
Muito rico e complexo é o sistema que permite o Controle de Constitucionalidade no Brasil. inicialmente, seguindo o modelo norte-americano, nosso Estado adotava somente o controle difuso. Mais tarde, porém, foi introduzido em nosso ordenamento o controle concentrado.
Aceitar a teoria da objetivização do controle de constitucionalidade difuso, além de “empobrecer” o sistema brasileiro de controle de constitucionalidade, implicaria atribuir ao STF competência não definida em seu favor pelo legislador constitucional. Do mesmo modo, reduziria o papel do Senado Federal a mero diário oficial daquela Corte.
A sobrevivência saudável do estado democrático de direito depende, necessariamente, da observância do princípio da separação dos poderes. A implementação da teoria colocada em xeque nesse trabalho, sem prévia alteração formal da Constituição, pode colocar em risco tal equilíbrio.
Melhor saída é, então, a utilização do instituto da Súmula vinculante, pelo qual o Tribunal Maior atingirá os mesmos objetivos desejados por aqueles que defendem a teoria apresentada.
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