Filme de mim mesmo: a multidimensionalidade do artista no filme "Eu Não Estou Lá"

Texto

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Marcus Antonio Schifino Wittmann

Filme de mim mesmo: a

multidimensionalidade do artista

no filme Eu Não Estou Lá

Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Contato: wittmann.marcus@gmail.com.

Resumo

Neste artigo analisaremos o filme Eu Não Estou Lá, uma “falsa-biografia” de Bob

Dylan, do diretor Todd Haynes. Afastamos-nos das análises da Escola de Frankfurt sobre o cinema como carro-chefe da Indústria Cultural, procurando em um contexto mais amplo as redes de interconexão da película. Assim, não apenas o filme em si é analisado, mas também seu contexto de produção e recepção. Através desse panorama poderíamos visualizar e entender o que nos parece ser o âmago do filme: o artista e sua multidimensionalidade.

Palavras-chave

Eu Não Estou Lá; Todd Haynes; Indústria Cultural; Análise fílmica.

Abstract

In this article we will analyze the movie I’m Not There, a “false bio-pic” of Bob

Dylan, from director Todd Haynes. Moving away from the analysis of the School of Frankfurt about cinema as the flagship of the Culture Industry, we look to the nets of interconnection of the movie in a broader context. Thus, not only the film itself is analyzed, but also its context of production and reception. Through this scenario we could see and understand what seems to be the core of the film: the artist and its multidimensionality.

Keywords

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1. Chegando ao desconhecido pela

desor-dem de todos os sentidos

Failing to fetch me at first keep encouraged, Missing me one place search another, I stop somewhere waiting for you. (Walt Whitman, Song of Myself)

O corpo morto deitado sobre a mesa. Os óculos escuros ainda escondendo seus olhos. O preto cabelo encaracolado e a face magra formam uma figura familiar. A necropsia começa com um corte na altura do coração. Ali ele está, enfim imóvel, enfim aberto. Mas, a voz do narrador confessa: “Até mesmo o fantasma era mais de uma pessoa”. É com essa cena que o diretor Todd Haynes nos introduz os personagens que representam, pelo menos subentendidamente, a figura de Bob Dylan no filme “Eu Não Estou Lá” (I’m Not There, 2007): o Poeta, o Profeta, o Marginal, o

Simulado, o Astro da Eletricidade.

Após essa sequência inicial as diferentes histórias dos personagens são desenroladas: vemos o garoto negro que se autointitula Woody Guthrie (interpretado por Marcus Carl Franklin) viajando de trem pelo interior dos Estados Unidos enquanto canta músicas Folk; a saga do jovem Jack Rollins (Christian Bale), de “voz de uma geração” dos anos 1960, para a carreira como pastor evangélico na década de 1980; a história de amor e separação entre o ator Robbie (Heath Ledger) e sua mulher Claire (Charlotte Gainsbourg); o interrogatório do poeta que deixou de escrever, Arthur Rimbaud (Ben Wishaw); a turnê na Inglaterra do músico da contracultura, Jude Quinn (Cate Blanchett); e o exílio de Billy the Kid (Richard Gere) na cidade de Riddle. Todas essas vidas podem ser relacionadas com a história de Bob Dylan em

algum período da sua trajetória.

Porém, como o próprio Haynes afirma nos comentários do filme, não se trata aqui sobre a vida de Bob Dylan, nem sobre suas canções, nem sobre sua importância política e cultural. “Só os mortos podem renascer”, diz o diretor, e são nessas ações que reside o foco do longa-metragem, “renascer continuamente”, completa Haynes. Este breve ensaio pretende analisar o filme “Eu Não Estou Lá” através de algumas perspectivas da Escola de Frankfurt e discutir o que nos parece ser o cerne do filme: a multidimensionalidade da figura do artista.

Aqui queremos nos afastar da análise de Adorno e de Horkheimer sobre o cinema, os quais atestam que este seria o carro chefe da Indústria Cultural. Para os autores, o cinema é usado para alienar o espectador e atrofiar sua imaginação e espontaneidade (ADORNO, HORKHEIMER, 2002, p. 10). Assim, a passagem da rua para o cinema não conduziria ao sonho, à subjetividade e ao pensamento sobre aquilo que se vê. Todavia, sabe-se que principalmente Adorno escreveu suas críticas durante o exílio nos Estados Unidos, período em que esteve muito exposto ao cinema industrial americano, generalizando assim para o cinema tudo aquilo que está vendo e discutindo no cinema hollywoodiano (SILVA, 1999, p. 118). Dentro desse panorama americano os filmes seriam os propulsores de um dos axiomas essenciais e historicamente consolidados na indústria de Hollywood: dar ao público o que ele quer ver (NOGUEIRA, 1998, p. 4). E, como nos adverte Marcuse, as vontades e necessidades do indivíduo são padronizadas pela Indústria Cultural (MARCUSE, 1973, p. 27). A manipulação e doutrinação desses sentimentos levam à mecanização e objetificação dos indivíduos e a um estado de unidimensionalidade, o

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qual abrange também a sociedade como um todo. Assim, nada de novo e crítico ao status quo seria

produzido enquanto as “loucuras pessoais” forem coagidas.

Mas, para adentrarmos mais no âmago dessa produção cinematográfica, devemos procurar pistas em outras esferas nas quais o longa-metragem transita. Segundo Marc Ferro, as imagens sonoras em forma de filme podem destruir aquilo de organizado na sociedade por homens de estado e pensadores. A câmera revelaria o funcionamento real das coisas e da sociedade, diria mais sobre cada uma do que elas gostariam de mostrar (FERRO, 1973, 113). Devido a isso, Ferro trata dos filmes como uma contra-análise da sociedade, muito diferente da proposta de Adorno. Para revelar tais significados deve-se analisar os filmes como um produto, uma imagem-objeto, na qual os significados não são apenas cinematográficos. Assim sendo, os questionamentos do pesquisador devem ir além da história, do cenário, do roteiro. Deve-se procurar as relações do filme com aquilo que não é o filme: o autor, a produção, o público, a crítica. Deste modo, poderia se compreender a realidade figurada pelo filme (op. cit., p. 114).

É importante salientar que não descartamos a Indústria Cultural da análise de “Eu Não Estou Lá”. Ela ainda está presente no que tange o filme como objeto de lucro e uma forma de transformar a história de uma pessoa, e ela mesma, em uma mercadoria. Porém o longa-metragem também possui seus pontos de resistência. No próximo subtítulo analisaremos os diferentes atores e seus pontos de vista que rondam o filme “Eu Não Estou Lá”.

2. “Tudo que eu posso fazer é ser eu

mesmo, quem quer que seja”

Do I contradict myself? Very well then I contradict myself, (I am large, I contain multitudes.) (Walt Whitman, Song of Myself)

O filme começa e acaba com o mesmo tipo de ponto de vista: a câmera como primeira pessoa. Porém, o que muda é o sujeito que olha. Na primeira cena estamos nos olhos de um músico chamado para o palco de um show, na última, somos apenas mais um no meio do público, atravessando uma multidão para chegar na frente do palco. É através dessas diferentes perspectivas conjuntas que podemos ter um melhor entendimento do filme “Eu Não Estou Lá”.

Vendo pela perspectiva do mercado cinematográfico, o filme faz parte de um período no qual a produção de longas-metragens sobre músicos norte americanos estava em alta. Podemos citar como exemplo os filmes “Ray”, de 2004 sobre a vida de Ray Charles, e “Johnny e June”, de 2005 sobre Johnny Cash, ambos retratando de forma bem pragmática a trajetória desses ícones da música norte americana. “Eu Não Estou Lá”, de 2007, entra dentro desse fluxo de produções. Porém, a iniciativa não partiu apenas da indústria hollywoodiana, mas também do empresário de Bob Dylan na época, Jeff Rosen. Foi ele quem orquestrou o revival mercadológico, mas não

artístico, de Dylan a partir dos anos 1990: primeiro com o lançamento dos Bootlegs Series1, álbuns com

músicas inéditas, versões de estúdio e ao vivo, depois com a produção do documentário dirigido por Martin Scorsese “No Direction Home” e do lançamento do livro autobiográfico de Dylan “Crônicas – Volume Um”2, ambos em 2004 (HOBERMAN, 2007, s.p.).

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Foi Rosen também que guiou Todd Haynes para que a ideia de fazer um filme sobre Dylan (o que Haynes já arquitetava desde 2000) fosse aceita pelo músico. Segundo os comentários do diretor no filme, o empresário pediu para que ele escrevesse em uma página um resumo dos seis personagens que representariam Dylan no filme, porém sem citar termos como “a voz de uma geração”, alcunha pela qual Bob Dylan ficou conhecido, e nem o próprio nome do músico.

Vendo por este lado “Eu Não Estou Lá” talvez pudesse ser considerado o ápice desse processo empresarial e dos filmes biográficos sobre músicos norte-americanos, por tratar do mais conhecido e importante artista estadunidense. Porém, em parte nenhuma dessas coisas se consolidou como tal. O filme não foi um sucesso de bilheteria (a renda dos cinemas nos EUA pagou metade do orçamento do filme), embora tenha sido a primeira vez que a figura de Dylan foi retratada no cinema para o grande público. A recepção do filme pode ser analisada através de alguns sites sobre cinema que apresentam notas dadas por críticos e pelos usuários cadastrados. Escolhemos três sites com certo renome no que tange críticas cinematográficas: IMDB (Internet Movie Data Base), Rotten Tomatoes e Metacritic. Para efeito de comparação selecionamos também as notas dadas para os filmes “Ray” (2004) e “Johnny e June” (2005), por se tratarem de filmes com uma temática parecida e por terem sido produzidos em um período próximo um do outro. No IMDB a nota geral para o filme “Eu Não Estou Lá” foi 7,03, enquanto “Ray” recebeu 7,84

e “Johnny e June”, 7,95. No site Rotten Tomatoes as

notas são separadas entre a dos críticos do site e a dos usuários. As avaliações foram respectivamente assim dadas: “Ray” 81%/87%6; “Johnny e June” 82%/90%7

e “Eu Não Estou Lá” 77%/70%8. No Metacritic

as notas também são separadas desse modo. As avaliações foram: “Ray” 73/8,29, “Johnny e June”

72/7,910 e “Eu Não Estou Lá” 73/6,611.

Como vemos, essas avaliações mostram que o grau de aceitação, tanto de críticos profissionais quanto de um público em geral, de “Eu Não Estou Lá” foi menor do que dos outros filmes que tratam sobre músicos norte-americanos. Isso talvez se dê pelo fato de que o filme de Todd Haynes não supra as expectativas do que se espera ver de praxe nos filmes biográficos: aqui não há uma ordem cronológica dos fatos contados. Os fatos em si são muito mais metáforas e bricolagens de fatos reais acontecidos na trajetória de Bob Dylan, mitos sobre a sua vida e representações imagéticas de suas músicas, além de que não há um personagem principal, mas sim 6 atores interpretando diferentes facetas do artista, e nenhum deles porta o nome de “Bob Dylan”. Para nos aprofundarmos nesse campo, adotaremos outro ponto de vista: o do diretor.

Para entendermos a figura de Todd Haynes devemos olhar para a sua trajetória. Ele possui um Bacharelado em Semiótica pela Brown University em 1985 e começou a estabelecer sua carreira cinematográfica logo após isso, principalmente através do movimento “New Queer Cinema”. Este movimento experimental e independente do final dos anos 1980 e início dos anos 1990 procurava destruir noções fixas sobre gênero, sexualidade e identidade (DARBY, 2013, p. 334). Através desse tipo de discussão, a linguagem cinematográfica também deveria ser posta em pauta como fator de desconstrução. Talvez o exemplo maior desse processo seja mostrado no primeiro filme de Haynes: “Superstar: the Karen Carpenter Story”, o qual nunca foi lançado por

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problemas autorias com a trilha sonora. O filme, o qual conta a história da banda The Carpenters, é uma animação em stop-motion com bonecas Barbie como

protagonistas, mesclado com cenas de programas de TV dos anos 1960 e 1970, documentários sobre anorexia e cenas reais da libertação dos campos de extermínio nazistas (op. cit.,335).

O caso de “Eu Não Estou Lá” não é tão extremo, mas continua brincando com diferentes perspectivas e com desconstruções de certos paradigmas. Paradigmas esses que afetaram também a relação com o mercado e com o público. Parece-nos que isso se deve ao fato de que o filme trata muito mais com referências e metáforas do que com fatos que podem ser colocados em uma ordem lógica e que tenha um sentido único. Nada é concluído no final dos 135 minutos de duração, não pode se dizer que aprendemos algo sobre a vida de Bob Dylan após vermos o filme, a lógica narrativa é muito mais circular e emaranhada do que cronológica, ou seja, após a experiência de ver este filme se sai pensando sobre aquilo que se viu, tentando juntar as peças, tentando entender o que ele nos traz e nos diz. É a subjetividade de cada um que é ativada e posta em movimento, assim a relação do filme com a audiência se baseia no seu próprio conhecimento (op. cit., p. 338). Talvez o melhor comentário sobre o filme tenha vindo de Bob Dylan quando perguntado sua opinião sobre a película: “Você acha que o diretor estava preocupado se as pessoas iam entender ou não? Eu não acho que ele se importava nem um pouco. Eu apenas acho que ele queria fazer um bom filme”12. No próximo item

vamos nos aprofundar na narrativa da película.

3. “Eu aceito o caos, eu não tenho certeza

se ele me aceita”

You will hardly know who I am or what I mean, But I shall be good health to you nevertheless, And filter and fibre your blood. (Walt Whitman, Song of Myself) “É como se você tivesse ontem, hoje e amanhã todos no mesmo quarto. Não há como prever o que pode acontecer”, diz Billy the Kid (interpretado por Richard Gere) enquanto dedilha o velho violão empoeirado que encontrou escondido no vagão do trem que o leva para longe. Esta é uma das últimas cenas do filme “Eu Não Estou Lá”, mas serve também como introdução e linha mestra da película. A frase explica um pouco da lógica da narrativa do longa-metragem: uma mistura de tempos, cada um com suas possibilidades e versões. A impossibilidade de previsão não nos impede de procurar as próprias interpretações e ligações entre os tempos, tramas e personagens do filme. Muito pelo contrário. Esta cena também se conecta com o início do filme, o qual começa com o personagem de Woody Guthrie entrando em um vagão de trem empunhando o mesmo violão, com a frase “this machine kills fascists”, que Billy the Kid encontra no final. Esses personagens são, respectivamente, o mais jovem e o mais velho do filme, e ambos vêm da cidade de Riddle (“enigma” em inglês, um nome bem significativo dentro do contexto do filme). Porém, não se sabe, e nem se precisa saber, com qual deles o filme, caso contado de maneira cronológica, começaria.

Essa quebra com o tempo é só um dos artifícios do filme de Todd Haynes. Por exemplo, geralmente se separa os filmes pelo seu gênero: ação, aventura, drama, documentário, comédia, etc. O que já

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define certo público e expectativas, mas é também um estímulo à diferenciação e não à unidimensionalidade, pois isso gera segmentos de consumidores específicos, os quais, através da crítica e da recepção, contribuem para a reformulação destes gêneros (NOGUEIRA, 1998, p. 4). Contudo, esse método de separação entre gêneros não pode ser usado para a película de Todd Haynes. O diretor se refere ao seu filme como uma falsa-biografia, por quebrar com um modelo pré-estabelecido, e este longa-metragem também já foi chamado de um “poema-ensaio” sobre os mitos e histórias que cercam a carreira e a música de Bob Dylan (GROSS, s.d., s.p.).

A narrativa do filme perpassa vários segmentos que se entrelaçam, filmados, cada um deles, com técnicas, formatos e através de narrativas diferentes. O filme transita de um documentário para um drama, de uma “nouvelle vague” para um clipe de música, de uma fábula idílica para um interrogatório. Tudo aqui é plural e nada é estático. O filme e – por que não? – o diretor, é mais de um, o personagem “principal” é mais de um e o roteiro (montado com fatos reais e inventados, com citações diretas de livros, de entrevistas, de poemas, de músicas e até de outros filmes), pode ser considerado mais de um.

Esse tipo de abordagem em filmes sobre músicos norte-americanos não é nova no trabalho de Todd Haynes. Em seu filme “Velvet Goldmine”, que trata do Glam Rock e da figura de David Bowie, o ponto de vista já era instável, devido ao uso de diferentes formas de mídia, como documentário, vídeo amador e clipe de música. Assim, reconhecem-se certos fragmentos de fatos, memórias e testemunhos, porém a identidade tanto do filme quanto dos personagens é fragmentada, não se sabendo o que é verdade no que é visto e falado (DARBY, 2013, p. 337). Logo, Bob

Dylan, um artista que representa uma metamorfose constante, seja no corpo, na voz, na música, ou em sua própria trajetória de vida, é o signo ideal para este tipo de cinema e narrativa. Sendo assim Haynes constrói um filme onde o tempo histórico, biográfico, mítico e até a temporalidade do discurso poético contamina, realça e transforma um ao outro (GROSS, s.d., s.p.). Para Gross esse padrão circular de imagens e tempos mostraria a necessidade do artista popular norte-americano de se desentrelaçar das forças culturais que procuram coagir, distorcer e possuir ele (op. cit., s.d., s.p.). Porém, ressaltamos que não se trata aqui da relação do filme com a vida de Bob Dylan. Esta produção cinematográfica se utiliza apenas de aspectos referentes a Bob Dylan para construir algo novo, diferente. Ou seja, como o personagem de Arthur Rimbaud diz no início de “Eu Não Estou Lá” sobre as canções, entendemos o filme como “algo que caminha por si mesmo”, cabendo a nós interpretá-lo e procurar significados.

É nessa autonomia de caminhar para onde quiser que, nos parece, reside o âmago do filme. Não apenas no que tange a “história” de Bob Dylan contada pelo filme, como um artista instável, em constante metamorfose e transformações, mas na trajetória do próprio espectador enquanto vê e pensa o filme. Através da subjetividade do diretor, as subjetividades dos espectadores são convidadas a construir as interligações do filme conjuntamente. O filme é um caos de possibilidades de interpretações e significados. Nada é estático, nada é palpável. Darby afirma que “Eu Não Estou Lá” é um ótimo exemplo para a schizo-análise de Deleuze e Guattari, pois o inconsciente para eles seria um “caos ilimitado de possibilidades” (DARBY, 2013, p. 331). Ou seja, algo que esta sempre em movimento, em um impulso em

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direção a novas produções, exatamente o que o filme proporciona para o espectador.

Assim, a autoria do filme como meio de narração de uma história é estendida ao público, ao espectador, fazendo, assim, com que ele também vire o narrador do que se desenrola à sua frente. Se a narrativa do filme é um emaranhado sobre as diferentes facetas, histórias, mitos, personalidades e criações do artista, “Eu Não Estou Lá” também confunde a própria figura do artista entre o que é visto e o que é interpretado. O artista que emerge de tudo isso não é apenas cada um dos seis personagens, nem apenas a junção de todos eles, é também o próprio diretor e o espectador. Ou seja, o cinema aqui feito não é a ação de imagens emitidas no cérebro de quem visualiza para serem interpretadas como metáforas, mas a mutualidade de geração e criação tanto do cérebro quanto da tela (op. cit., p. 334). Todo esse fluxo e processo caótico mostra que, parafraseando os poetas Rimbaud e Walt Whitman, o “Eu” não é apenas um outro, o “Eu” contém multidões.

Notas:

1 Até agora foram lançados nove álbuns desta coleção.

2 Este seria a primeira parte de uma trilogia escrita pelo próprio Dylan sobre sua vida. Até agora o segundo volume não foi lançado.

3 Disponível em: <http://www.imdb.com/title/ tt0368794/?ref_=nv_sr_1> (Acesso 4 jun. 2014) 4 Disponível em: <http://www.imdb.com/title/

tt0350258/?ref_=fn_al_tt_1> (Acesso 4 jun. 2014) 5 Disponível em: <http://www.imdb.com/title/

tt0368794/?ref_=nv_sr_1> (Acesso: 4 jun. 2014).

6 Disponível em: <http://www.rottentomatoes.com/m/ray/> (Acesso: 4 jun. 2014).

7 Disponível em: <http://www.rottentomatoes.com/m/walk_ the_line/> (Acesso: 4 jun. 2014).

8 Disponível em: <http://www.rottentomatoes.com/m/ im_not_there_suppositions_on_a_film_concerning_dylan/> (Acesso: 4 jun. 2014).

9 Disponível em: <http://www.metacritic.com/movie/ray> (Acesso: 4 jun. 2014).

10 Disponível em: <http://www.metacritic.com/movie/walk-the-line> (Acesso: 4 jun. 2014).

11 Disponível em: <http://www.metacritic.com/movie/im-not-there> (Acesso: 4 jun. 2014).

12 Disponível em: <http://www.rollingstone.com/music/news/ bob-dylan-unleashed-a-wild-ride-on-his-new-lp-and-striking-back-at-critics-20120927?page=6> (Acesso: 06 jun. 2014).

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5-44.

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Disponível em: <http://www.filmcomment.com/ article/the-lives-of-others-im-not-there> (Acesso: 7 maio 2014).

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<http://www.bocc.uff.br/pag/nogueira-luis-cinema-adorno.pdf> (Acesso: 16 maio 2014). SILVA, Mateus Araújo. Adorno e o cinema: um

início de conversa. Novos Estudos, Nº 54. São

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Referências

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