Internacionalização de Empresas na perspetiva do cluster industrial
João Pedro Belo AlmeidaDissertação
Mestrado de Economia e Gestão Internacional
Orientado por
Professora Ana Paula Africano Professora Natércia Fortuna
i
Agradecimentos
Primeiramente gostaria de agradecer à minha orientadora, Professora Doutora Ana Paula Africano, pela orientação, profissionalismo e disponibilidade.
Estendo, também um agradecimento à Professora Doutora Natércia Fortuna, pela disponibilidade, flexibilidade e ensinamentos.
Endereçar um agradecimento especial à minha mãe, ao meu pai e ao meu irmão, por toda a força, coragem e compreensão que me têm transmitindo ao longo do tempo, especialmente durante esta etapa académica.
Aproveito também para agradecer a todos os meus amigos pela força e compreensão durante este período.
ii
Abstract
Nowadays, technology exerts a greater impact on people’s life, to such an extent that it is extremely difficult to imagine our life without it. In this regard, we have been witnessing a growth in the number of technologic companies, namely Information and Communication Technologies (ICT) companies, as well as an increase in the number of ICT clusters. Concurrently, we can also observe a growing internationalization of companies, namely the ICT ones. We should emphasize that those companies belonging to a cluster are, usually, embedded in an environment that leverages their competitive advantages and stimulates the characteristics and infrastructures of the region, thus promoting their internationalization processes. In this scope, the research has the objective of assessing the importance of belonging to the Oporto Metropolitan Area ICT cluster, in the perspective of internationalization, namely based on the fact of integrating the cluster, just territorially, or being part of the cluster with a management entity, the Porto Tech Hub. According to the research analysis, the critical facts for the creation and development of a cluster were gathered and it was designed in which way the existence of a cluster management entity can be important in internationalization. In data terms, an exploratory study of the region ICT companies was carried out, by means of a survey sent to the companies. The data used in the study are real data from the companies in the region of Oporto, comprising the period from 2007 to 2018. To fulfil the proposed objective, we used a logit model, as the estimated values allow the identification of the advantages brought to the companies by belonging to the territorial cluster as well as to the cluster with a management entity.
Keywords: Internationalization; Cluster; Competitive Advantages; ICT. JEL-Codes: L86; M16
iii
Resumo
Nos dias de hoje, a tecnologia está a ter um impacto, cada vez maior, no nosso dia-a-dia, sendo extremamente difícil de imaginar a nossa vida sem tecnologia. Neste sentido, tem-se assistido a um aumento das empresas tecnológicas, nomeadamente de empresas focadas nas Tecnologias de Informação e Comunicação e um aumento do número de cluster industriais de empresas TIC. Ao mesmo tempo assistimos também a um aumento da internacionalização das empresas, nomeadamente das empresas TIC. De evidenciar que as empresas que pertencem a um cluster estão, normalmente, inseridas num ambiente que potencia as suas vantagens competitivas e que dinamiza os características e infraestruturas da região, promovendo, assim, os processos de internacionalização das mesmas. Neste âmbito, a presente pesquisa tem como objetivo aferir a importância e o impacto de pertencer ao cluster TIC da Área Metropolitana do Porto, na perspetiva de internacionalização, nomeadamente pelo facto de pertencer ao cluster territorial ou de pertencer ao cluster com uma entidade gestora, mais concretamente a entidade Porto Tech Hub. Com base na revisão de literatura, foram identificados os fatores críticos para a criação/desenvolvimento de um cluster e analisou-se de que forma uma entidade gestora do cluster pode ser importante no processo de internacionalização dos membros do cluster. Foi realizado um estudo exploratório das empresas TIC da região, através de um inquérito enviado às empresas da região, e, adicionalmente, foram usados dados secundários das empresas TIC da região, relativos ao período temporal de 2007 a 2018. De modo a atingir o objetivo proposto, recorreu-se a um modelo logit, sendo que os resultados estimados permitem identificar as vantagens de as empresas pertencerem ao cluster territorial na perspetiva da internacionalização, e o efeito que é ampliado com a pertença a um cluster com uma entidade gestora.
Palavras-chave: Internacionalização; Cluster; Vantagens Competitivas; Empresas TIC JEL-Códigos: L86; M16.
iv
Índice
Agradecimentos ... i Abstract ... ii Resumo ... iii Índice ... iv Índice de tabelas... v Índice de figuras ... vi
Índice de abreviaturas ... vii
1. Introdução ... 1
2. Revisão literatura ... 3
2.1.1. Cluster: diferentes conceitos ... 3
2.1.2. Fatores críticos para criação e desenvolvimento de clusters ... 5
2.2. Internacionalização ... 15
2.2.1. Teorias e modelos de internacionalização ... 16
2.3. Relação entre cluster e internacionalização ... 19
2.3.1. Entidade gestora do cluster e o processo de internacionalização ... 21
3. Modelo teórico e hipóteses ... 23
4. Enquadramento do setor ... 25
4.1. Setor TIC em Portugal ... 25
4.2. A Área Metropolitana do Porto e o setor TIC ... 28
4.3. Porto Tech Hub ... 29
4.4. População alvo ... 30
5. Proposta metodológica ... 36
5.1. Tipo de estudo ... 36
5.1. Estimação e interpretação dos resultados ... 37
5.2. Estimativas das médias de efeitos marginais ... 39
5.3. Taxa de erro de classificação ... 41
6. Discussão ... 43
7. Conclusão ... 49
7.1. Limitações e sugestões para trabalhos futuros ... 51
7.2. Contribuições e implicações ... 52
8. Bibliografia ... 53
v
Índice de tabelas
Tabela 1- Resumo de Fatores Críticos para o surgimento e desenvolvimento dos clusters
tecnológicos ... 6
Tabela 2 - CAEs do Setor TIC ... 25
Tabela 3 - Análise Descritiva do número de colaboradores da amostra ... 31
Tabela 4 - Análise Descritiva do Volume de Negócios das empresas da amostra ... 32
Tabela 5 - Análise Descritiva dos Custos com Pessoal das empresas da amostra ... 32
Tabela 6 - Análise Descritiva do número de colaboradores das empresas do PTH da amostra ... 33
Tabela 7 - Análise Descritiva do Volume de Negócios das empresas do PTH da amostra . 34 Tabela 8 - Ajustamentos sobre a relação entre o cluster e o processo de internacionalização das empresas ... 37
Tabela 9 - Matriz de confronto entre predições e observações. ... 41
vi
Índice de figuras
Figura 1 - Fatores críticos da AMP para o surgimento/desenvolvimento de empresas TIC
... 78
Figura 2 - Contacto das empresas TIC inqueridas com outros agentes da AMP ... 79
Figura 3 - Atividades para o desenvolvimento do cluster TIC da AMP ... 80
vii
Índice de abreviaturas
TIC Tecnologias da Informação e Comunicação ID Industrial District
I&D Investigação e Desenvolvimento AMP Área Metropolitana do Porto AML Área Metropolitana de Lisboa PTH Porto Tech Hub
1
1. Introdução
Nos dias de hoje, a tecnologia tem revolucionado toda a sociedade, sendo impossível imaginar a nossa vida sem tecnologia. Esta evolução só é possível, devido ao aumento do número de empresas tecnológicas.
Em Portugal, tem-se assistido a um crescimento do número de empresas tecnológicas, nos últimos anos, acompanhando a evolução mundial. Uma das áreas de negócio, onde foi possível constatar esta evolução, foi o área das tecnologias da informação e comunicação (TIC), tendo o número de empresas presentes no território nacional, aumentado consideravelmente, nos últimos anos (Campos, 2019).
Segundo este autor Campos (2019), a distribuição de empresas TIC pelo território português é muito assimétrica, estando cerca de 48% das mesmas concentradas na Área Metropolitana de Lisboa, sendo que o distrito de Lisboa, sozinho, representa 40,7% deste valor. No entanto, e apesar do segundo distrito com maior número de empresas do setor TIC ser o Porto, com apenas 17% do número de empresas, quando se analisa em termos de regiões, é possível constatar que a região do Norte agrega cerca de 28%, das mesmas.
Esta presença de empresas TIC na região do Porto, em particular na Área Metropolitana do Porto, pode ser enquadrada na visão de clusters industriais, uma vez que podem ser definidas como uma “geographic concentrations of interconnected companies and institutions in a particular field” (Porter, 1998, p. 78). Contudo, face à grande dificuldade de se definir qual a área concreta de um cluster, devido aos diferentes conceitos e tipos de cluster (Barkley & Henry, 1997; Van Klink & De Langen, 2001), pode ser difícil de delimitar o cluster tecnológico da AMP. A capacidade deste cluster em atingir um sucesso sustentado estará sempre dependente de um conjunto de premissas, uma vez que nem todos conseguem alcançar o mesmo sucesso (Belussi & Sedita, 2009; Crespo, 2011). Alguns autores identificam como fatores críticos para o sucesso, a existência de Universidades, mão de obra qualificada, infraestruturas na região, a própria organização/ governação do cluster e a forma como este está integrado na comunidade (D. Breznitz & Taylor, 2014; Tavassoli & Tsagdis, 2014).
A participação das empresas em clusters, tem facilitado o seu processo de internacionalização, ao aproveitarem e otimizarem as relações e as redes intra-cluster (Kowalski, 2014). Porter (1990) aborda a perspetiva internacional dos clusters, de forma
2 maximizar as vantagens competitivas do mesmo face ao exterior. Segundo este autor, as empresas ao estarem presentes em clusters aumentam o seu nível de competitividade capacitando-as para enfrentar a elevada concorrência internacional, podendo apostar, então, em processos de internacionalização.
Esta dissertação terá como principal foco, analisar as empresas TIC da AMP de forma aferir a importância e o impacto de pertencer a um cluster, na perspetiva de internacionalização. Com a realização desta análise, espera-se, poder aferir: (1) se as empresas inseridas no cluster territorial, especialmente nos concelhos mais centrais e desenvolvidos do mesmo estão mais capacitadas para os negócios internacionais; (2) se as empresas inseridas em cluster com entidades gestoras estão mais capacitadas para visarem os mercados externos. Desta forma, espera-se que seja possível, analisar a evolução e desenvolvimento do cluster tecnológico da AMP e aferir qual o seu impacto, na vertente internacional dos seus membros.
Assim este trabalho espera contribuir para um maior conhecimento sobre o cluster das empresas TIC da AMP, com utilidade para as empresas presentes no mesmo, para as autoridades de gestão, e ainda para a formulação de políticas públicas direcionadas aos clusters e à internacionalização de empresas.
A presente dissertação está estruturada em capítulos, sendo este primeiro relativo à introdução. O segundo capítulo apresenta a revisão de literatura, em que se apresentam os conceitos básicos de cluster e internacionalização. Apresenta-se ainda o quadro teórico adequado para o estudo a realizar a partir da revisão da literatura sobre clusters e internacionalização de empresas. O terceiro capítulo identifica as hipóteses a testar, segundo a revisão de literatura realizada anteriormente. O capítulo 4 apresenta os dados em estudo bem como uma análise descritiva dos mesmos. O quinto capítulo apresenta a proposta metodológica e os resultados obtidos. Posteriormente, o capítulo 6, apresenta a discussão dos resultados obtidos. Por fim, o último capítulo reúne as principais conclusões obtidas, através da realização deste estudo empírico.
3
2. Revisão literatura
Este capítulo, começa por apresentar alguma literatura sobre clusters, mais propriamente sobre o seu conceito, os fatores críticos para o sucesso e a competitividade dos mesmos. De seguida, a revisão da literatura foca-se no processo de internacionalização de empresas. Por fim, análise incide sobre a relação entre clusters e internacionalização.
2.1.1. Cluster: diferentes conceitos
Vários autores, ao longo dos anos, debruçaram-se sobre aglomeração de empresas em certas áreas geográficas, de forma a compreender quais os fatores e as razões de tais fenómenos. Relativamente aos fatores explicativos da aglomeração de empresas em certas localizações, Marshall (1920), identificava como razões predominantes para este acontecimento, o acesso a mão de obra qualificada, a existência de recursos necessários para a evolução das empresas e as “condições climatéricas” específicas para as empresas (Marshall, 1920). No mesmo estudo, o autor analisou também, que a procura de mão de obra qualificada por parte das empresas levava a que estas se posicionassem junto dos mesmos polos populacionais, pois era aí que conseguiam encontrar trabalhadores com as especificações necessárias. O facto de as empresas optarem por seguir outras empresas, quer sejam concorrentes, distribuidores ou clientes, com o intuito de conseguirem aceder ao mesmo tipo de vantagens, também contribui para aglomeração das mesmas. O mesmo autor, analisou também a dimensão financeira, uma vez que aglomeração permite reduzir taxas e custos de transporte, o que incentivava a que as empresas se localizassem nas mesmas regiões. Desta forma, o autor introduziu, então, o conceito de “Industrial districts”(ID): “the concentration of large numbers of small
businesses of a similar kind in the same locality” (Marshall, 1920, p. 268), que defendia, as
aglomerações de empresas nestes ID, com o objetivo de garantir o acesso a economias de escala externa. Assim, neste estudo, o autor ao analisar as economias de escala externas, que as aglomerações de empresas da mesma área, podiam originar, acabou por introduzir, também, o conceito de Industrial Districts, que esteve na base de diversos estudos sobre aglomeração de empresas na mesma área geográfica.
Outros autores, posteriormente, continuaram a estudar este assunto, surgindo outras perspetivas sobre as razões e a importância de as empresas estarem localizadas nas mesmas áreas geográficas. É o caso da perspetiva de (Pyke, Becattini, & Sengenberger, 1990), que procuravam, principalmente, analisar as relações entre as empresas da região e como estas
4 estavam interligadas, mais do que realizar uma análise centrada nas empresas em si ou na indústria. Assim os autores acabam por reformular o conceito de Industrial District, ao definirem-no como “socio-territorial entity which is characterized by the active presence of both a
community of people and a population of firms in one naturally and historically bounded area. In the district, unlike in other environments, such as manufacturing towns, community and firms tend to merge” (Pyke et
al., 1990 p. 38).
Estas duas abordagens sobre aglomeração de empresas em determinadas localizações, entre outras, estiveram na base do estudo realizado por Michael Porter, especialmente nos anos 90 do século passado. Segundo este autor, os clusters eram determinantes na competitividade e prosperidade das empresas, uma vez que estas têm a possibilidade de aceder a mais informação e de forma mais rápida, bem como à possibilidade de criar relações com os outros membros do cluster (Porter, 1998). A maior inovação e eficiência das empresas vai aumentar a competitividade do próprio país, pois segundo o autor “a nation’s competitiveness depends on the
capacity of its industry to innovate and upgrade. Companies gain advantage against the world’s best competitors because of pressure and challenge” (Porter, 1990, p. 73). A perspetiva defendida pelo
autor, que um país se deve de especializar, apenas na área de negócio, onde é detentor de vantagem competitiva, face ao exterior e a visão de que a riqueza e competitividade dos países é criada pelas suas empresas e pela vantagem competitiva das mesmas (Porter, 1990). Mais tarde, Porter (1998) evoluiu a sua abordagem sobre os clusters, defendendo que a localização continuava a ser um fator determinante para as vantagens competitivas das empresas e respetivamente das suas nações. No entanto, agora a localização não tem valor somente na ótica da empresa, ao permitir o acesso a recursos, como matéria prima ou mão de obra qualificada, mas também pelo ambiente envolvente dessa localização. Assim, o foco recai sobre a capacidade da região de criar um clima propício à inovação e ao desenvolvimento empresarial, uma vez que as vantagens competitivas são dinâmicas, obrigando, então, as empresas uma busca constante de novos focos de inovação (Porter, 1998).
Continuamente, outros autores esforçam-se em compreender e clarificar os conceitos de
Industrial District e Cluster, apresentados anteriormente. Exemplo disso é abordagem de
Staber (1996), que tentava explicar a importância e sucesso do cluster de Baden-Wurttemberg, através do crescimento económico da região. Esta perspetiva deve-se ao facto de o conceito de cluster estar associado a uma localização específica, para aglomeração de
5 instituições, no entanto o mesmo autor defende que os Industrial District raramente são “ilhas isoladas” e que, portanto, essas instituições fundadoras vão acabar por possuir relações com instituições de outras regiões (Staber, 1996). Desta forma a dificuldade de definir um cluster ou ID, prende-se com a incapacidade de delimitar a sua abrangência geográfica, pois mesmo que se crie numa perspetiva e localização nacional ou regional, este, durante a sua evolução vai criar relações com elementos fora do espectro inicial, tendo impacto não só na região inicial mas também noutras regiões (Staber, 1996; Van Klink & De Langen, 2001).
A existência de diversos e distintos conceitos para clusters, prendesse com o facto de estes serem muito diferentes uns dos outros, quer seja em termos de tamanho, fontes de vantagens competitivas, tipos de interdependência entre elementos do cluster, etc… Assim, é possível considerar como cluster, desde um grupo de instituições localizadas na mesma área, e com poucas interações entre elas, tal como é possível considerar como cluster um conjunto de instituições altamente ligadas entre si, com altos níveis de cooperação em termos de Investigação & Desenvolvimento ou em termos logísticos. (Barkley & Henry, 1997; Ingstrup & Damgaard, 2013; Van Klink & De Langen, 2001)).
2.1.2. Fatores críticos para criação e desenvolvimento de clusters
Fruto da evolução e reconhecimento que vários clusters obtiveram ao longo dos anos, são muitos os autores que tentam aferir quais os fatores críticos que estiveram na origem desses resultados. Segundo Crespo (2011, p. 3), “The literature has mostly focused on the comprehension of
why clusters exist, how they can be characterized and which the reasons of success are”, contudo, considera
que os estudos negligenciam aspetos dinâmicos e imprevisíveis que influenciam a criação e evolução dos clusters. A existência de diversos tipos de clusters e com características muito próprias, torna esta análise da evolução dos clusters ainda mais complicada, especialmente ao focarmos somente nos clusters tecnológicos (Casper, 2013; Porter, 1990; Tavassoli & Tsagdis, 2014). Os clusters tecnológicos, usualmente, caracterizam-se mais pela sua orientação para o conhecimento e inovação, do que pela procura por custos baixos. Normalmente estes surgem de oportunidades tecnológicas, aproveitando certas áreas onde as empresas conseguem obter uma inovação diferenciadora. (Casper, 2013; Crespo, 2011; Lehmann & Menter, 2018). No entanto, mesmos com estas especificações muito próprias dos clusters tecnológicos, alguns autores compilaram o seguinte conjunto de fatores críticos, para o surgimento e evolução dos mesmos.
6
Tabela 1- Resumo de Fatores Críticos para o surgimento e desenvolvimento dos clusters tecnológicos
Casper (2013) • Universidades
• Interligação com outros agentes (Networking)
• Infraestruturas na região
S. M. Breznitz (2013) • Universidades
• Mão de Obra qualificada • Capital Financeiro • Governação dos Clusters D. Breznitz and Taylor (2014) • Factor Focused Researchers
o Universidades
o Mão de Obra Qualificada o Acesso Financiamento o Características da região • Structed Focused Researchers
o Nível de compromisso o Inserção do cluster na região
Assim e assumindo os fatores críticos que foram transversais a vários estudos analisados, sobre a criação e desenvolvimento de clusters tecnológicos é fundamental analisar mais detalhadamente, cada um deles.
2.1.2.1. Universidades
A existência de Universidades, que apostem fortemente na inovação e investigação, é um dos fatores mais relevantes para o surgimento e criação de clusters tecnológicos (D. Breznitz & Taylor, 2014; S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Lehmann & Menter, 2018)). As universidades são essências para o desenvolvimento da sua região, pois criam grandes mais valias para a mesma. Exemplo dessas vantagens para a região, é a criação de uma mão de obra qualificada, permitindo que as empresas se localizem nessas regiões, tendo em vista a contratação desse pessoal qualificado, tal como foi visto anteriormente, nos fatores explicativos da aglomeração de empresas (S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Marshall, 1920; Porter, 1990).
7 Outra vantagem da existência de universidades, para essa região, passa por estas serem uma fonte de investigação constante, estando muitas vezes na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento de produtos. Permitindo que as empresas aproveitem essa fonte de conhecimento, através de colaborações constantes e parcerias (D. Breznitz & Taylor, 2014; S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Cunningham, Lehmann, Menter, & Seitz, 2019; Lehmann & Menter, 2018). Realçando, que muitas são os casos de novas start-ups tecnológicas terem sido criadas a partir de ideias fomentadas nas universidades, que contaram com ajuda de empreendedores e financiadores locais (Casper, 2013).
Uma das grandes temáticas, em relação à importância das universidades nas regiões onde estão inseridas, centra-se nos possíveis spillovers que possam vir a existir, entre as universidades e o tecido empresarial das regiões (Audretsch, Lehmann, Menter, & Seitz, 2019; D. Breznitz & Taylor, 2014; Casper, 2013; Cunningham et al., 2019). A existência de
knowledge spillovers, pode acontecer de diversas formas, sendo necessário que os órgãos
governadores do cluster, criem ações propícias para otimizar a captura desse conhecimento, por parte das instituições presentes no cluster (Lehmann & Menter, 2018)). Existem vários exemplos de clusters que surgiram, das capacidades de aproveitar o conhecimento gerado nas universidades da região. Destacando-se o cluster de Silicon Valley, que através da evolução do departamento de engenharia da universidade de Stanford e dos conhecimentos gerados pelo mesmo, conseguiu que as empresas da região tirassem vantagem da sua localização e das parcerias firmadas com a universidade (Reft, 2019).
Ao longo do tempo, vários são os casos de inovações, originadoras de vantagens competitivas regionais e internacionais, que tiveram lugar nas universidades, ou que pelo menos tiveram ajuda dos seus quadros técnicos. (S. M. Breznitz, O'Shea, & Allen, 2008; Cunningham et al., 2019). Esta importância, que as instituições académicas estão a ter, na criação e transferência de conhecimento, levou que existisse uma alteração do seu âmbito de ação, deixando de atuarem apenas no ensino e na pesquisa, passando abranger também a função de transmitir conhecimento e tecnologia, para o mundo empresarial (S. M. Breznitz et al., 2008; Cunningham et al., 2019). Portanto, devido a toda esta importância da criação e transferência de conhecimento e tecnologia, por parte das universidades, vários autores, consideram estas como membros ativos do desenvolvimento empresarial da região e da economia, capazes de impulsionar a criação e desenvolvimento de clusters (S. M. Breznitz et al., 2008; Casper, 2013; Cunningham et al., 2019)
8 2.1.2.2. Mão de obra qualificada
As empresas procuram localizar-se junto de polos populacionais, onde seja possível encontrar mão de obra qualificada, que reúna as características necessárias, para realizar as funções pretendidas pelas mesmas. Este foi um dos fatores apontados, como explicativos das aglomerações de empresas, em certas áreas geográficas (Casper, 2013; Cusmano, Morrison, & Pandolfo, 2015; Marshall, 1920; Porter, 1990).
Como analisado, no subcapítulo anterior, a existência de mão de obra qualificada está diretamente relacionada com a existência de Instituições de Ensino Superior na região, que devem de ser capazes de formar pessoas com os conhecimentos necessários para ingressar no mercado de trabalho (S. M. Breznitz, 2013). No entanto os alunos das universidades, durante o seu percurso académico, não adquirem apenas conhecimentos técnicos e teóricos, mas acabam por se formar como pessoas e como empreendedores (Casper, 2013). A procura por um maior conhecimento e a pela adoção de uma perspetiva crítica, são características que podem ser desenvolvidas durante o percurso académico dos empreendedores, mas também durante a sua vida profissional. Sendo que a mão de obra qualificada engloba, portanto, o pessoal altamente qualificado, mas também o pessoal com elevada experiência e
know-how na área e que possua certas características pessoais importantes para as empresas.
(Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Jaen & Linan, 2013).
Normalmente, as empresas capazes de adquirir esta mão de obra qualificada, acabam por oferecer condições de trabalho mais apelativas, quer seja em termos de flexibilidade horaria, ou em termos de métodos de compensação. Ressalvando que as empresas ricas em conhecimento, são muitas vezes Pequenas e Médias Empresas, como start-ups, o que impossibilita que estas consigam oferecer condições de trabalho e estabilidade como as de grandes empresas e instituições académicas. Desta forma, e com intuito de conseguir contratar estes profissionais, que muitas vezes podem ser mesmo professores académicos, as empresas optam por oferecer condições de trabalho mais vantajosas ou por exemplo, uma parte de uma futura venda (S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Jaen & Linan, 2013).
A capacidade de as empresas contratarem esta mão de obra qualificada, pode derivar da existência de networks, entre o tecido empresarial da região, as várias instituições e outros agentes económicos, que permitam uma maior facilidade da transmissão de conhecimento.
9 Muitas vezes, essa transmissão acaba por ser realizada na inserção destas pessoas, com elevado conhecimento, nas empresas quer seja através de contratos de trabalho ou através de parcerias (Casper, 2013; Cusmano et al., 2015).
As regiões e os próprios clusters devem, então, de incentivar a criação de medidas capazes do tecido empresarial aproveitar a existência de mão de obra qualificada, uma vez que a mão de obra, vai preferir localizar-se em regiões onde irá ter mais probabilidades de conseguir um emprego e onde poderá conseguir ser uma fonte de inovação. Estas áreas normalmente, são conhecidas por oferecerem uma boa qualidade de vida, para a população lá residente. Os
entrepeuneurs, Venture Capitalists e os trabalhadores com elevados conhecimentos em
tecnologia, estão a optar por residir em regiões com maior densidade, em termos populacionais e de infraestruturas, regiões mais dinâmicas e com “mais vida” e onde a população não seja tão dependente do carro. As características da própria região, tornam-se assim um importante fator para o sucesso de um cluster rico em conhecimento e inovação, com especial relevo para atração e captação da mão de obra qualificada (S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Engel, 2015; Florida & Mellander, 2016).
2.1.2.3. Acesso a Financiamento
Nos últimos anos, vários foram os casos de empresas tecnológicas que conseguiram alcançar o sucesso, ao atingirem lucros muito elevados e/ou serem vendidas em grandes contratos. No entanto, as empresas tecnológicas e ricas em conhecimento, passam por muitas dificuldades durante o seu processo de criação, uma vez que necessitam de realizar elevados investimentos em I&D, Marketing e Mão de obra qualificada, para levar a cabo o inicio do seu processo produtivo (S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Engel & del-Palacio, 2009). Nesta área, de empresas ricas em tecnologia, é então, um fator crucial para a criação e desenvolvimento das mesmas, o acesso ao financiamento, de forma a que seja possível ultrapassar os elevados custos inicias, incorridos por estas (D. Breznitz & Taylor, 2014; S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013). O acesso a financiamento por parte destas empresas nem sempre é fácil de acontecer, em grande parte devido ao tipo de produto que estas produzem, muito complexo e imaterial e por estas, serem empresas criadas sobre ideias muito complexas e inovadoras, que por vezes, podem ser difíceis de explicar e “vender” (Casper, 2013). O investimento nestas empresas surge assim, como de alto risco para os investidores, porém e
10 como falado anteriormente, este tipo de investimentos podem vir a tornar-se muito rentáveis no futuro (D. Breznitz & Taylor, 2014; S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Engel, 2015; Engel & del-Palacio, 2009).
O elevado risco associado ao investimento nestas empresas é muitas vezes assumido por
entrepeuneurs, que graças a serem mais avessos ao risco e na esperança de encontrarem the next big ideia, acabam por estar mais predispostos para investir em novas ideias e em novos
negócios (D. Breznitz & Taylor, 2014; Engel, 2015; Engel & del-Palacio, 2009). Estes
entrepeuneurs ao assumirem uma visão mais critica sobre as coisas e ao procurarem por
inovações, estão a ser cada vez mais importantes para o desenvolvimento das sociedades e do tecido empresarial, pois acabam por criar e apoiar novas empresas com ideias disruptivas de negócio. Normalmente estes investidores, acabam por situar-se nas regiões atrativas para o surgimento de empresas, pois sabem que aí irá estar reunida a mão obra qualificada capaz de criar ou acrescentar valor para as empresas, permitindo que estas se tornem ricas em conhecimento e tecnologia (Casper, 2013; Engel, 2015; Engel & del-Palacio, 2009).
Normalmente muitos dos investidores em novas empresas, ricas em conhecimento e tecnologia, são empresas/sócios/fundadores de outras empresas, que já obtiverem sucesso no mundo empresarial e que na tentativa de diversificarem o seu portefólio, acabam por investir em novas oportunidades de negócio. Nesse sentido, é normal que as novas empresas prefiram localizar-se nas mesmas regiões das empresas que já obtiveram sucesso, aumentando assim a sua visibilidade para atração de investimentos e aproveitando o historial de sucesso dessas regiões. Esta proximidade geográfica, pode ser importante também, para a facilitação de transferência de conhecimento e know-how, dos investidores para as novas empresas no mercado (Brenner & Muhlig, 2013; D. Breznitz & Taylor, 2014; Engel & del-Palacio, 2009; Florida & Mellander, 2016).
A procura por financiamento e investimentos por parte destas novas empresas, pode ser facilitada pela existência de redes network entre os vários elementos da região. Estas redes
network podem assumir um papel crítico na transmissão das ideias de negócio e na difusão
das próprias empresas pela região, tornando assim mais propicio, o aparecimento de possíveis investidores (Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; R. H. Eriksson & Lengyel, 2019).
11 2.1.2.4. Networks
A existência de redes onde estejam englobados diferentes tipos de agentes económicos é muito usual e é visto como uma mais valia para o suporte do tecido empresarial, sendo importante para a evolução e desenvolvimento de ideias e oportunidades de negócio (Casper, 2013; Engel, 2015; R. H. Eriksson & Lengyel, 2019). Estas redes apesar de poderem assumir a forma de associações, são principalmente redes meramente socias, onde estão interligados diferentes tipos de intervenientes, desde cientistas, engenheiros, gestores de empresas, universidades, docentes, alunos, associações, entre outros… A existência de um conjunto tão variado de agentes, com conhecimento sobre as mais diversas áreas, leva a uma partilha e discussão sobre diversas ideais e planos de negócio, bem como a partilha de experiências e conhecimentos. (D. Breznitz & Taylor, 2014; Casper, 2013; A. Elola, Valdaliso, Franco, & Lopez, 2017; R. H. Eriksson & Lengyel, 2019; Stojcic, Anic, & Aralica, 2019).
A existência destas redes é imprescindível para a difusão e transmissão de conhecimento, através dos diversos agentes económicos, especialmente do conhecimento mais complexo e que necessita de uma maior discussão (Casper, 2013; R. H. Eriksson & Lengyel, 2019). Exemplo ilustrativo deste ponto e que já foi analisado anteriormente é a transmissão do conhecimento das universidades para o mundo empresarial, uma vez que as instituições de ensino só conseguem partilhar e adaptar o seu conhecimento mais teórico para os problemas concretos do tecido empresarial, caso existe uma relação de proximidade e de debate de ideias entre os docentes, alunos e os gerentes de empresas. (D. Breznitz & Taylor, 2014; Casper, 2013; Cunningham et al., 2019; Engel, 2015).
Estas relações interpessoais ao permitirem a difusão do conhecimento, permitem também e como já referido anteriormente, a promoção e desenvolvimento de novas ideias e oportunidades de negócio. A existência destas relações estimula a partilha e o debate de novas ideias de negócio entre os diferentes agentes da rede, bem como a partilha das experiencias vivenciadas pelos agentes, permitindo que as empresas aprendam com as experiencias e conquistas dos outros membros, não necessitando de incorrer nos erros já cometidos por outros agentes (Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Dubé, Haijuan, & Lijun, 2015; Engel & del-Palacio, 2009). Assim a integração numa rede com muitos agentes de diferentes áreas de negócio, permite que as empresas consigam aceder a diferentes experiências, permitindo assim reunir um maior conhecimento sobre possíveis desafios e oportunidades a encontrar
12 (Brenner & Muhlig, 2013; Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Dubé et al., 2015; Engel & del-Palacio, 2009).
Por vezes, estes debates bem como a partilha de conhecimentos e experiências, leva as empresas a tentar contratar os outros membros destas redes ou pelo menos tentar firmar ações de colaboração com os mesmos(Casper, 2013; Cusmano et al., 2015). Como analisado anteriormente no subcapítulo da mão de obra qualificada, estas networks são fundamentais para o processo de recrutamento de pessoas altamente qualificadas para as empesas(Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Engel & del-Palacio, 2009).
Outro dos pontos mais debatidos sobre a importância da existência deste tipo de redes, é a relevância que estas representam na internacionalização das empresas. Vários autores consideram que através destas redes as empresas ficam capacitadas para iniciar e desenvolver os seus processos de internacionalização. (Casper, 2013; Coviello & Munro, 1995; Dubé et al., 2015; Johanson & Vahlne, 1977, 1990; Torkkeli, Kuivalainen, Saarenketo, & Puumalainen, 2018). Este ponto, irá ser analisado mais pormenorizadamente no subcapítulo da internacionalização.
As relações entre os diversos agentes, pertencentes a estas redes, são então fulcrais para diversos pontos das empresas, tal como apresentado anteriormente. No entanto, não é só por pertencerem a estas redes que as empresas vão usufruir destas vantagens, uma vez que estas redes são dinâmicas, sendo necessário que estas sejam incentivadas ao longo do tempo, de forma a garantir que os agentes pertencentes estão constantemente interligados e a cooperar entre si (Topfer, Cantner, & Graf, 2019). As empresas conseguem obter, melhores resultados, quando se encontram em redes mais densas e atrativas, uma vez que estas facilitam a difusão do conhecimento permitem melhorar os níveis de produtividade das empresas (S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Topfer et al., 2019).
A procura pela integração em redes mais densas, acaba por explicar o porquê de diversos agentes económicos preferirem certas localizações geográfica (R. H. Eriksson & Lengyel, 2019; Topfer et al., 2019). A opção pela localização junto de polos populacionais mais densos e mais urbanizados, acaba por também ser explicada, pela maior existência de conhecimento nessa áreas, sendo mais provável a transmissão do mesmo, acrescendo a isso o facto de nestas áreas ser mais usual o uso de politicas de criação e desenvolvimento de redes e consequentemente de clusters (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Brenner & Muhlig, 2013;
13 S. M. Breznitz, 2013; Cantner, Graf, & Rothgang, 2018; Casper, 2013; Aitziber Elola, Valdaliso, Franco, & Lopez, 2016; A. Elola et al., 2017; Engel, 2015; R. H. Eriksson & Lengyel, 2019; Florida & Mellander, 2016; Stojcic et al., 2019).
2.1.2.5. Políticas de governação do cluster
Nos últimos tempos e graças ao aumento do número de clusters industriais que alcançaram o sucesso, vários foram os países que criaram políticas de incentivo à criação e desenvolvimento de clusters nas suas regiões e indústrias (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Brenner & Muhlig, 2013; Cantner et al., 2018; Aitziber Elola et al., 2016). O sucesso dos clusters mundialmente, bem como o aumento dos estudos sobre como os clusters podem ser originadores de mais valias para as suas empresas e regiões, fez com que os governos tentassem implementar políticas capazes de encorajar o surgimento dos mesmos, com especial para os países pertencentes à União Europeia. A criação de clusters que procurem inovação e permitem a melhoria da oferta internacional das suas regiões é um dos objetivos da EU e é nesse sentido que são lançados os Fundos Estruturais Europeus e as várias iniciativas e programas para o desenvolvimento de clusters (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Benneworth, 2002; Cantner et al., 2018; Aitziber Elola et al., 2016). Essa abordagem dos governos de criar medidas de apoio ao surgimento de clusters de sucesso, tentando de certa forma imitar o que aconteceu e continua a acontecer em certos países, não é 100% fiável. Assim não existe uma receita mágica capaz de garantir o sucesso dessas políticas, sendo necessário que os governos adaptem as politicas ao seu país (Brenner & Muhlig, 2013; Cantner et al., 2018; Dubé et al., 2015; Aitziber Elola et al., 2016).
Os governos e autarquias podem optar por dois tipos diferentes de políticas para apoiar o aparecimento e desenvolvimento de clusters, as políticas diretas e as indiretas (Brenner & Muhlig, 2013; Casper, 2013; Aitziber Elola et al., 2016). As políticas diretas são as medidas que visam somente a criação e o apoio aos clusters, sendo medidas que visam facilitar o surgimento e a evolução de empresas e consequentemente de clusters em certas indústrias e localizações (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Brenner & Muhlig, 2013; Aitziber Elola et al., 2016). Por outro lado, as políticas indiretas, podem ser tidas como medidas para desenvolver a sociedade e o tecido empresarial do seu território, que apesar de não terem como objetivo último a criação e desenvolvimento de clusters, acabam por ser fundamentais para esse fenómeno. Um exemplo ilustrativo de medidas indiretas que são fulcrais para o surgimento de clusters tecnológicos são as medidas no âmbito das “Smart Cities”, porque ao
14 assumirem medidas como o aumento e reforço da distribuição de banda larga (atualmente fibra ótica) nas suas regiões, as cidades acabam por ficar mais eficientes, inovadoras e sustentáveis e acabam por atrair empresas tecnológicas para a região (Brenner & Muhlig, 2013; D. Breznitz & Taylor, 2014; S. M. Breznitz et al., 2008; Casper, 2013; Wolfe & Bramwell, 2010).
A existência de diferentes tipos de políticas governamentais para o incentivo à criação e desenvolvimento de clusters, está a ser cada vez mais usual, contudo estas não são as únicas medidas de governação dos clusters, existindo também as medidas adotadas pelas direções governadoras dos mesmos. Certos clusters acabam por ter uma estrutura própria para gerir e dinamizar os mesmos, sendo estas direções as responsáveis por assumirem medidas de atração a novas empresas e medidas capazes de melhorar o nível de cooperação entre as empresas pertencentes ao cluster (Brenner & Muhlig, 2013; Cantner et al., 2018; Aitziber Elola et al., 2016; Mauroner & Zorn, 2017; Zyglidopoulos, Demartino, & Reid, 2006). Estas medidas são desta forma também importantes para traçar o caminho e o sucesso dos clusters, uma vez que vão normalmente, mais de encontro com as características e necessidades das próprias regiões e indústrias, devendo, contudo de estarem sempre alinhadas com as políticas governamentais (Brenner & Muhlig, 2013; Dubé et al., 2015; Aitziber Elola et al., 2016; Engel, 2015; Roper, Love, & Bonner, 2017).
As políticas para a criação e para evolução do cluster, especialmente as políticas governamentais, podem ser fundamentais para o sucesso das regiões e das suas empresas, uma vez que o Estado pode ser tido como “a effective source of coordination, a convener of community,
a provider of critical resources. However, government initiatives must be carefully and critically understood and monitored” (Engel, 2015, p. 54). No entanto, é de ressalvar que estas devem de ter em conta a
região em que incidem, sendo necessário que estas seja bem planeadas e acompanhadas ao longo do seu período de execução, tendo sempre em consideração os diversos fatores capazes de influenciar o sucesso das mesmas, tais como o perfil da população, passado histórico da região, o modo de funcionamento e operacionalização das empresas, o tipo de indústrias que querem incentivar, entre outros … (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Brenner & Muhlig, 2013; Casper, 2013; Aitziber Elola et al., 2016).
A análise realizada pelos governos aos fatores fulcrais para a criação de medidas de incentivo a clusters é muito importante, pois por exemplo nem todos os tipos de industria absorvem e respondem da mesma forma às políticas de apoio criadas pelo Estado (Ben Abdesslem &
15 Chiappini, 2019; Brenner & Muhlig, 2013; Dubé et al., 2015; Aitziber Elola et al., 2016; Roper et al., 2017). Indústrias mais ricas em tecnologia e conhecimento, são normalmente as indústrias mais procuradas pelos Estados na adoção de medidas de apoio e incentivo à criação de clusters, uma vez que estas tidas como de maior valor acrescentado para as suas regiões. O sucesso das medidas neste tipo de indústria deve-se ao facto das medidas visarem normalmente o aumento da confiança dos novos empreendedores, incentivando estes arriscar em áreas mais complexas e com maior conhecimento, bem como o incentivarem a uma procura mais consistente por novas fontes de inovação e produtividade (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Aitziber Elola et al., 2016; Engel, 2015). Um exemplo de sucesso das políticas publicas de apoio aos clusters, foi as medidas assumidas pelo Estado Francês que incidiram numa indústria muito complexa e de alto conhecimento, como é a indústria da Ótica e fotónica. Graças às medidas assumidas, esta indústria francesa foi capaz de melhorar os seus resultados, tendo “the firms belonging to the 2005 competitiveness clusters have experienced, three
years after the implementation of the policy, an average gain in total factor productivity of 12% and an average gain in labour productivity of around 11% compared with firms in the first control group” (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019, p. 704).
Posto isto, a governação do cluster, quer seja através de políticas governamentais, quer seja através de políticas das direções dos mesmos, são um ponto importante para a criação e desenvolvimento de clusters, devendo, contudo, de ser adaptadas às próprias características da região, de forma a garantir o seu sucesso (Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Cantner et al., 2018; Dubé et al., 2015; Aitziber Elola et al., 2016; Engel, 2015).
2.2.
Internacionalização
Nos dias de hoje, o conceito de internacionalização está em voga, tendo existido diversos autores a estudarem e analisarem o mesmo, levando então, à elaboração de várias teorias sobre este processo (Jankowska & Götz, 2017; Lam & White, 1999; Lu & Beamish, 2001; Rugman, 2009). A internacionalização pode ser tida como o processo de consideração e operacionalização nas atividades internacionais, ou seja, é o processo percorrido pelas empresas desde a preparação até à concretização e evolução das suas atividades em países estrangeiros (Lam & White, 1999; Rugman, 2009).
16 Este processo de internacionalização é tido como de elevado valor para as empresas, uma vez que estas ao aproveitarem as oportunidades existentes nos mercados estrangeiros conseguem melhorar os seus resultados (Jankowska & Götz, 2017; Johanson & Vahlne, 1990; Rugman, 2009). De forma a aproveitar estas oportunidades nos mercados externos foram desenvolvidos diversos métodos de entrada nos mercados externos, como por exemplo exportações (diretas e indiretas), modos contratuais (licenciamento, franschising, subcontratação, contratos de gestão, partilha de produção, modelo chave na mão e alianças estratégicas) e investimento direto estrangeiro (subsidiarias e joint ventures) (Rugman, 2009). A existência de um conjunto variado de modos de entrada em mercados externos, obriga que a sua escolha seja adaptada as necessidades das empresas e que esteja de acordo com a estratégia de internacionalização definida pela mesma. De modo a escolher a estratégia de internacionalização para a empresa várias são as teorias existentes sobre o processo de internacionalização das empresas e como estas podem abordar o mercado externo. Algumas das teorias mais importantes são os seguintes:
2.2.1. Teorias e modelos de internacionalização
2.2.1.1. Uppsala theory
Esta teoria surgiu na Suécia no século XX e defende que o processo de internacionalização das empresas é gradual, sendo que a “internationalization is the product of a series of incremental
decisions” (Johanson & Vahlne, 1977, p. 23). Segundo os seus autores, as empresas com a
evolução do seu processo de internacionalização vão adquirindo gradualmente mais conhecimento, que irá fazer com que estas assumam um maior compromisso e envolvimento com as suas atividades nos mercados internacionais (Johanson & Vahlne, 1977, 1990, 2006). Ao longo do tempo e com a realização de novos estudos sobre esta teoria, os autores passaram a considerar que não só o conhecimento adquirido ao longo do processo de internacionalização é importante para o aumento do compromisso com este processo, como é fundamental para criação e aproveitamento de novas oportunidades de negócio internacionais (Johanson & Vahlne, 2006).
Mais recentemente e com o assumir das várias mudanças no ambiente económico, regulamentar e empresarial, desde a publicação da primeira abordagem desta teoria em 1977, os autores decidiram realizar uma nova abordagem ao mesmo (Johanson & Vahlne, 2009).
17 Esta revisão ao modelo teve como base a visão de “a business network view of the environment faced
by an internationalizing firm” (Johanson & Vahlne, 2009, p. 2), incidindo sobre as várias relações
que os diversos agentes possuem e como estas criam diversas oportunidades e problemas para as empresas e para a internacionalização das mesmas. Para além destes novos fatores a ter em conta para a internacionalização das empresas, os autores consideraram também como importante a coordenação destas relações, de forma a permitir um melhor resultado para todos os agentes, uma vez que graças a estas relações estes passam a estar, em certa parte, dependentes uns dos outros (Johanson & Mattsson, 2015; Johanson & Vahlne, 2009). Com esta revisão do modelo os autores concluíram que “firm’s problems and opportunities in
international business are becoming less a meter of country-specificity and more one of relationship- specificity and network-specificity” (Johanson & Vahlne, 2009, p. 17), demonstrando assim como, atualmente,
as relações firmadas pelas empresas são fundamentais para o processo de internacionalização. 2.2.1.2. The Network Theory
Os mercados são ricos em relações entre os diversos agentes e tal como visto na última teoria estas relações são fulcrais para o sucesso das operações internacionais das empresas (Coviello & Munro, 1995; Johanson & Vahlne, 2009; Torkkeli et al., 2018). O sucesso internacional das empresas estará, então, dependente das suas relações, vem como das suas capacidades em usufruírem das vantagens e conhecimento dessas relações (Johanson & Vahlne, 2009; Torkkeli et al., 2018).
As empresas com o processo de internacionalização e com a integração em mais networks, vão conseguir aceder a uma maior quantidade de conhecimento permitindo então que a empresa consiga estar mais preparada para criar e aproveitar as oportunidades existentes nas redes (Johanson & Mattsson, 2015; Johanson & Vahlne, 2009; Torkkeli et al., 2018). A importância destas redes para o processo de internacionalização, deriva do facto de nessas redes existirem membros oriundos de países estrangeiros, bem como membros com negócios em países estrangeiros e que irão servir como um apoio para as empresas alcançarem novos mercados internacionais (Brenner & Muhlig, 2013; Coviello & Munro, 1995; Dubé et al., 2015). As integrações nessas networks podem também ser importantes para ouvir concelhos e experiências de outros agentes, sobre o seu processo de internacionalização para certos mercados internacionais (Brenner & Muhlig, 2013; Torkkeli et al., 2018).
18 A capacidade das empresas em tirarem proveito destas networks, está ligado à densidade e dinâmicas existentes nestas redes e assume um impacto muito grande na capacidade destas empresas em se internacionalizarem (Torkkeli, Puumalainen, Saarenketo, & Kuivalainen, 2010). Assim as empresas devem de estar em redes dinâmicas e densas, de forma a conseguirem tirar proveito das oportunidades destas redes para abraçar os mercados externos (Johanson & Mattsson, 2015; Topfer et al., 2019; Torkkeli et al., 2018; Torkkeli et al., 2010).
2.2.1.3. Born Global
Segundo Rennie (1993) as empresas exportadoras podem ser divididas em dois tipos diferentes, as empresas exportadoras mais tradicionais e as empresas Born Global. O primeiro tipo de empresas diz respeito aquelas que se focam primeiramente em conseguir estabilizar-se no seu mercado doméstico e só depois visar as oportunidades nos mercados externos (Rennie, 1993). O outro tipo de empresas exportadoras, são as Born Global, que são normalmente empresas de pequena e média dimensão, que começaram a exportar até cerca dois anos depois da sua criação, assumindo desde início uma visão mais global do seu mercado (Gabrielsson & Kirpalani, 2004; Huang, 2019; Rennie, 1993).
As Born Global são empresas que desde a sua criação estão logo alertas para as oportunidades dos mercados externos, assumindo uma visão globalizada sobre o seu mercado de atuação. A esta visão mais global alia-se também o facto de estas serem empresas mais avessas ao risco, pois começam a exportar sem ainda terem uma posição bem estabilizada no mercado doméstico e sem possuírem recursos e infraestruturas fundamentais para vingar nos mercados externos (Gabrielsson & Kirpalani, 2004; Rennie, 1993).
O facto de estas serem empresas de dimensões mais reduzidas e de não possuírem certos tipos de recursos importantes para o sucesso internacional, obriga que estas assumam estratégias de internacionalização mais arriscadas. Normalmente uma das estratégias utilizadas por estas empresas, incide no aproveitamento dos seus relacionamentos com outros agentes e pelo aproveitamento das suas posições nas redes em que estão inseridas, pois como já analisado anteriormente estas são fundamentais para partilhar riscos e aceder a recursos e ativos críticos para o processo de internacionalização (Gabrielsson & Kirpalani, 2004; Huang, 2019). No entanto, é necessário ter em consideração o facto de as Born Global ser empresas que assumem estratégias com muito risco, ao incidirem nas atividades
19 internacionais tão cedo, porém é importante que estas tentem assumir estratégias que sejam sustentáveis a longo prazo (Huang, 2019).
2.3.
Relação entre cluster e internacionalização
Vários são os estudos que analisam o impacto positivo que os clusters representam no processo de internacionalização das empresas (Benneworth, 2002; Boschma & Fornahl, 2011; S. M. Breznitz, 2013; Aitziber Elola et al., 2016; Engel, 2015; Jankowska & Główka, 2016; Jankowska & Götz, 2017; Kowalski, 2014; Pandey & Desai, 2017; Wolfe & Bramwell, 2010). Exemplo ilustrativo desse impacto é a visão defendida por Porter (1990) sobre os clusters, uma vez que esta visão já tinha inerente a si o processo de internacionalização das empresas, pois esta defendia que as vantagens competitivas das empresas, provenientes de estarem inseridas no cluster, eram as vantagens competitivas das nações e que deveriam, por isso, de ser aproveitadas nos negócios internacionais.
As empresas, ao longo dos anos, começam a estar cada vez mais atentas aos mercados externos, tendo como objetivo conseguir aproveitar as suas vantagens competitivas no estrangeiro. Esta procura pelos mercados externos pode derivar de quatro motivações diferentes: a procura por novos mercados e clientes; a procura por maiores níveis de eficiência; a procura por recursos e a procura por ativos estratégicos que não encontra no seu país (Dunning & Lundan, 2008).
As empresas ao terem motivações para se internacionalizarem e ao estarem inseridas em clusters, acabam por se sentirem mais preparadas e competitivas para iniciarem e/ou desenvolverem o seu processo de internacionalização (Dunning & Lundan, 2008). O facto das empresas se sentirem mais preparadas, para desenvolveram o seu processo de internacionalização, deriva das vantagens inerentes de pertencerem a um cluster, nomeadamente: terem acesso mais rápido e facilitado a informações, recursos, mercados e clientes; terem acesso facilitado a atividades de I&D e spillovers de conhecimento; terem uma maior capacidade para aumentarem a sua produção e eficiência; terem uma maior notoriedade e reconhecimento no mercado; estarem inseridas num clima empresarial que transmite confiança e que reduz incerteza, entre outras… (Felzensztein, Huemer, & Gimmon, 2009; Ingstrup & Damgaard, 2013; Jankowska & Główka, 2016; Kowalski, 2014; Porter, 1990, 1998; Roper et al., 2017; Zyglidopoulos et al., 2006).
20 As empresas tentam aproveitar as vantagens de estarem inseridas em clusters para conseguirem serem mais competitivas internacionalmente, sendo que uma parte relevante destas vantagens decorrem de os clusters permitirem que as empresas estejam inseridas em networks, que como visto anteriormente são importante para a internacionalização (Coviello & Munro, 1995; Jankowska & Götz, 2017; Johanson & Mattsson, 2015; Torkkeli et al., 2010). Estas networks são cruciais para o sucesso do cluster e para entradas das empresas nos negócios internacionais, uma vez que permitem a partilha de conhecimentos, informações, experiências, contactos, etc… que serão crucias para o sucesso externo (Coviello & Munro, 1995; Jankowska & Götz, 2017; Johanson & Mattsson, 2015; Torkkeli et al., 2018; Torkkeli et al., 2010). A capacidade das empresas em tirarem proveito destas networks, está diretamente relacionado com a densidade e dinâmicas destas redes, sendo que as empresas inseridas em clusters e networks mais dinâmicas e com mais agentes, são aquelas empresas que mais sofrem dos impactos positivos das mesmas, especialmente internacionalmente (Jankowska & Główka, 2016; Jankowska & Götz, 2017; Torkkeli et al., 2018; Torkkeli et al., 2010).
As vantagens dos clusters, especialmente para os negócios internacionais, decorrem muitas vezes da sua localização, pois certas áreas possuem um conjunto de infraestruturas e benefícios que as tornam mais atrativas para a localização de empresas e para o desenvolvimento de clusters (Anthopoulos & Fitsilis, 2014; Benneworth, 2002; Wolfe & Bramwell, 2010). No caso de clusters ricos em tecnologia é normal que as empresas prefiram se localizar em áreas que adotem medidas de Smart Cities e que possuam infraestruturas importantes para o desenvolvimento de tecnologia, como é o caso de distribuição de banda-larga, acesso a transportes públicos, acesso a autoestradas, etc…(Engel, 2015; Florida & Mellander, 2016; Wolfe & Bramwell, 2010). Além disso, existe várias regiões que oferecem diversos benefícios (fiscais, financeiros e não-financeiros) para atração de novas empresas e para a criação de clusters (Benneworth, 2002). Nesse sentido, as empresas que pertencem a clusters localizados nestas áreas partem em vantagem para o acesso aos negócios internacionais, pois vão tornar-se mais eficientes e, consequentemente, mais competitivas (Anthopoulos & Fitsilis, 2014; Benneworth, 2002; Jankowska & Główka, 2016; Jankowska & Götz, 2017; Kowalski, 2014; Wolfe & Bramwell, 2010).
A criação e desenvolvimento dos clusters, bem como o próprio sucesso dos mesmos, tornam estes mais atrativos para receberem empresas internacionais (ex: subsidiarias) e empresas
21 nacionais mais competitivas e reconhecidas no mercado. A entrada destas empresas no cluster, faz aumentar a confiança e reconhecimento do cluster, com especial destaque no estrangeiro, bem como permite que as outras empresas consigam aprender e trocar ideias com estas empresas, o que pode gerar uma assimilação de processos e aumento da competitividade geral das empresas (S. M. Breznitz, 2013; Engel, 2015; Jankowska & Główka, 2016; Jankowska & Götz, 2017; Kowalski, 2014; Scur & Garcia, 2019; Zyglidopoulos et al., 2006).
Posto isto, o cluster com a sua evolução e sucesso vai ficar cada vez mais atrativo para novas empresas e investimentos, criando-se, assim, um ambiente empresarial, ligado ao cluster, de sucesso e confiança. Este clima de sucesso e confiança relacionado com o cluster é fundamenta para aumentar o reconhecimento do cluster, especialmente internacionalmente, que será crucial para o desenvolvimento do mesmo, na medida que permitirá a entrada de novos agentes para o cluster e ajudará que os agentes atuais se desenvolvam e cheguem a novos mercados (Barkley & Henry, 1997; Cusmano et al., 2015; Engel, 2015; Ingstrup & Damgaard, 2013; Kowalski, 2014; Reft, 2019). Assim vários são os estudos que indicam que pertencer a um cluster, torna as empresas mais capacitadas para os seus processos de internacionalização (Brenner & Muhlig, 2013; Jankowska & Główka, 2016; Jankowska & Götz, 2017; Kowalski, 2014; Porter, 1990, 1998; Scur & Garcia, 2019; Zyglidopoulos et al., 2006).
2.3.1. Entidade gestora do cluster e o processo de
internacionalização
A existência de uma entidade gestora do cluster é importante para a incentivar e promover os processos de internacionalização das suas empresas, na medida em que irão promover e maximizar a obtenção das vantagens de pertencer ao cluster (Cantner et al., 2018; Jankowska & Główka, 2016; Mauroner & Zorn, 2017; Zyglidopoulos et al., 2006).
As entidades gestoras dos clusters são muitas vezes as responsáveis, em conjunto com as autoridades de gestão locais e nacionais, pela definição de uma estratégia única e uniformizada para as empresas do seu cluster. Esta criação de uma estratégia uniformizada para o cluster e suas empresas vai permitir que seja mais fácil a criação de políticas governamentais que vão de encontro com as necessidades e preferências das empresas do cluster, bem como vai permitir que o cluster fique mais atrativo para receber empresas
22 estrangeiras e com maior notoriedade (Anthopoulos & Fitsilis, 2014; Audretsch et al., 2019; Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Benneworth, 2002; Brenner & Muhlig, 2013; Cantner et al., 2018; Dubé et al., 2015; Wolfe & Bramwell, 2010).
O facto de existir uma entidade gestora capaz de criar uma estratégia única para as empresas do cluster e para o cluster em si, vai permitir que este e que a as suas empresas se tornem mais competitivas, nomeadamente pelo facto desta estratégia ter em conta as politicas governamentais, bem como pelo facto de agregar as diferentes visões e os diferentes conhecimentos dos agentes da região. De notar, que muitas das empresas de menor dimensão e com menos recursos, nunca iriam sozinhas conseguir ter acesso a uma estratégia como esta, sendo que a existência desta estratégia única será extremamente importante para as empresas de menor dimensão e menos desenvolvidas (Cantner et al., 2018; Jankowska & Główka, 2016; Mauroner & Zorn, 2017; Zyglidopoulos et al., 2006).
As entidades gestoras do cluster ao assumirem a criação das estratégias acabam, também, por assumirem o desenvolvimento da marca do cluster, o que um posto crucial para o reconhecimento e credibilidade do cluster e, consequentemente, para a “comercialização” das empresas e serviços dos agentes do cluster (Koszarek, 2013; Mauroner & Zorn, 2017; Tavassoli & Tsagdis, 2014; Zyglidopoulos et al., 2006). A criação de uma marca do cluster é importante para o sucesso do mesmo, pois “cluster brands are relevant to competition for the
participating actors. By stimulating local buzz and global pipelines, regional cluster brands reinforce the dynamics of internal cluster development and thus increase the competitiveness of the cluster actors and the location” (Mauroner & Zorn, 2017, p. 307). De ressalvar, que a gestão da marca do cluster,
apesar de ser realizada pela entidade responsável pelo cluster, esta só eficiente se for conducente com a estratégia do cluster e se for partilhada pelos vários agentes (branding coletivo), especialmente internacionalmente, por forma a assegurar que as empresas vão aproveitar as vantagens de estarem associadas ao cluster nos negócios internacionais (Koszarek, 2013; Mauroner & Zorn, 2017; Tavassoli & Tsagdis, 2014; Zyglidopoulos et al., 2006)
23
3. Modelo teórico e hipóteses
A presente dissertação assume como objetivo a análise das empresas TIC, situadas na AMP, de forma aferir a importância e o impacto de pertencer a um cluster, na perspetiva de internacionalização, nomeadamente no facto de pertencer a um cluster, apenas, territorial e em pertencer a um cluster com uma entidade gestora. Considerando os principais fatores críticos para a criação e desenvolvimento de um cluster rico em tecnologia, identificados na revisão de literatura, este estudo procura- evidenciar quais as diferenças existentes no processo de internacionalização das empresas pertencentes a um cluster territorial e a um cluster com uma entidade gestora a dar suporte.
Mais concretamente, este estudo visa a área TIC da AMP, assumindo como objetivo compreender o cluster TIC da região e de que forma as características únicas da região dinamizam o processo de internacionalização das suas empresas.
Tal como referido anteriormente, é expectável que as empresas que se localizem numa área tida como cluster territorial assumam mais capacidades para iniciarem e desenvolverem os seus processos de internacionalização, na medida em que irão ter acesso mais rápido e facilitado a informações, recursos, pessoal, mercados e clientes o que será essencial na procura pelos mercados externos (Felzensztein et al., 2009; Ingstrup & Damgaard, 2013; Jankowska & Główka, 2016; Kowalski, 2014; Porter, 1990, 1998; Roper et al., 2017; Zyglidopoulos et al., 2006).
Vários autores identificam que, especialmente, em clusters ricos em tecnologia e inovação é essencial ter acesso a recursos humanos com qualificações académicas e que possuam predisposição para trabalhar em empresas inovadoras e disruptivas (D. Breznitz & Taylor, 2014; S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Lehmann & Menter, 2018). Nesse sentido, é necessário ter em consideração que estes tipos de recursos humanos optam por residir em regiões com maior densidade, em termos populacionais e de infraestruturas, ou seja, regiões mais dinâmicas e com “mais vida”, o que permite uma maior qualidade de vida para estes recursos humanos. Assim, é mais usual que as empresas se localizem nesta áreas, onde sabem que podem aceder a RH qualificados e com capacidades profissionais, bem como fatores críticos para o seu desenvolvimento (S. M. Breznitz, 2013; Casper, 2013; Cusmano et al., 2015; Engel, 2015; Florida & Mellander, 2016).
24 H1: As empresas inseridas em concelhos mais centrais e desenvolvidos do cluster territorial estão
mais capacitadas para os negócios internacionais.
A existência de uma entidade gestora do cluster é importante para a incentivar e promover o desenvolvimento e sucesso do cluster, na medida em que irá promover e maximizar a obtenção das vantagens de pertencer ao cluster (Cantner et al., 2018; Jankowska & Główka, 2016; Mauroner & Zorn, 2017; Zyglidopoulos et al., 2006). Desta forma, são vários os autores que relacionam a existência de uma entidade gestora de um cluster com os processos de internacionalização das empresas pertencentes ao cluster, nomeadamente por esta entidade tornar mais fácil a criação de políticas governamentais que vão de encontro com as necessidades e preferências das empresas do cluster, por esta entidade tornar o cluster mais atrativo para receber empresas estrangeiras com grande notoriedade ou pelo facto de promover ações para a criação e desenvolvimento de networks Anthopoulos & Fitsilis, 2014; Audretsch et al., 2019; Ben Abdesslem & Chiappini, 2019; Benneworth, 2002; Brenner & Muhlig, 2013; Cantner et al., 2018; Dubé et al., 2015; Wolfe & Bramwell, 2010).
Neste sentido, formula-se a seguinte hipótese de investigação:
H2: As empresas inseridas em cluster com entidades gestoras estão mais capacitadas para visarem
25
4. Enquadramento do setor
Com o objetivo de contextualizar o caso em estudo, este capítulo proporciona uma introdução sobre o setor TIC em Portugal, na AMP e sobre a entidade Porto Tech Hub.
4.1.
Setor TIC em Portugal
A expressão Tecnologias da Informação e Comunicação, vulgarmente conhecido como TIC, refere-se segundo o Campos (2019, p. 7) ao “conjunto de tecnologias e atividades que estão na base
do que tem sido designado por economia digital, isto é, a crescente e transversal integração nas atividades económicas de avançados desenvolvimentos tecnológicos que, ao integrar sistemas físicos e digitais, geram novos processos produtivos e modelos comerciais, criam produtos e serviços inteligentes e instituem modelos de negócio inovadores”.
Este utilização das TIC, como motor para uma desmaterialização de processos, para a promoção da economia digital, para a criação de novos modelos de negocio, entre muito mais, tem potenciado um crescimento exponencial das TIC por todo o mundo, sendo que Portugal e em especifico a região da AMP não são exceção (Campos, 2019; INE, 2020). Nesse sentido, várias são as empresas tecnológicas no âmbito das TIC que se têm desenvolvido nos últimos anos, porém é difícil definir com exatidão quais atividades e empresas que são consideradas como TIC. Neste presente estudo, irá ser utilizada a mesma definição de Campos (2019), no seu estudo “O Setor TIC em Portugal (século XXI)”, que através da classificação portuguesa das atividades económicas (CAE)1 definiu as atividades presentes na seguinte tabela, como atividades TIC.
Tabela 2 - CAEs do Setor TIC
Subsetores TIC CAE REV 3 Classes de Atividades TIC
26 - Fabricação de equipamentos informáticos,
equipamento para comunicações e produtos eletrónicos e óticos
2611 - Fabricação de componentes eletrónicos 2612 - Fabricação de placas de circuitos eletrónicos
2620 - Fabricação de computadores e de equipamento periférico 2630 - Fabricação de aparelhos e equipamentos para
comunicações
2640 - Fabricação de recetores de rádio e de televisão e bens de consumo similares
2680 - Fabricação de suportes de informação magnéticos e óticos
1 Classificação das Atividades Económicas Portuguesa por Ramos de Atividade -Revisão 3 (Instituto