Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos TRADUÇÃO ESPECIALIZADA
Relatório de Estágio: AP | Portugal - Tech
Language Solutions
Joana Rita Alves da Silva
M
Joana Rita Alves da Silva
Relatório de Estágio: AP | Portugal - Tech Language
Solutions
Relatório realizado no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, orientado pelo Professor Doutor Rogelio Ponce de León Romeo
coorientado pela Professora Doutora Andrea Rodriguez Iglesias Supervisores de Estágio, Dr. Mário Júnior e Dra. Carolina Melo
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Relatório de Estágio: AP | Portugal - Tech Language
Solutions
Joana Rita Alves da Silva
Relatório realizado no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, orientado pelo Professor Doutor Rogelio Ponce de León Romeo
coorientado pela Professora Doutora Andrea Rodriguez Iglesias Supervisores de Estágio, Dr. Mário Júnior e Dra. Carolina Melo
Membros do Júri
Professor Doutor Maria Alexandra de Araújo Guedes Pinto Faculdade de Letras - Universidade do Porto
Professor Doutor Thomas Juan Carlos Husgen Faculdade de Letras – Universidade do Porto
Professor Doutor Rogelio Ponce de León Romeo Faculdade de Letras - Universidade do Porto
Índice
Declaração de honra ... i Agradecimentos ... ii Resumo ... iii Abstract ...iv Índice de ilustrações ... vÍndice de gráficos ...vi
Índice de tabelas ... vii
Lista de abreviaturas e siglas ... viii
Introdução ... 1
Capítulo 1 – O estágio curricular ... 3
1.1. A decisão de realizar um estágio ... 3
1.2. Apresentação da instituição de acolhimento... 4
1.2.1. Caracterização dos elementos da equipa ... 6
1.2.2. Metodologia de trabalho – Ciclo de vida de um projeto ... 7
1.3. Duração do estágio... 10
1.4. Tipos de tarefas realizadas ... 12
1.5. Apreciação global do estágio ... 22
Capítulo 2 – A tradução jurídica ... 24
2.1. O texto jurídico ... 24
2.1.1. A complexidade da tradução jurídica ... 24
2.1.2. Metodologia adotada ... 26
2.1.3. Análise de casos práticos ... 39
2.1.3.1. Palavras vinculadas a um dado sistema jurídico ... 39
2.1.3.1.1. Palavras associadas a profissionais do direito ... 40
2.1.3.1.2. Palavras associadas a tribunais ... 44
2.1.3.2. Palavras associadas a subdivisões administrativas ... 45
2.1.3.3. Termos semitécnicos ou mistos ... 48
2.1.3.4. Formas verbais associadas à linguagem das obrigações ... 55
2.2. A transcrição jurídica ... 59
2.2.1. Metodologia ... 61
2.2.1.1. Guia de estilo ... 61
2.2.2. Desafios da transcrição ... 65
Conclusão ... 68
Bibliografia ... 70
Anexos... 75
Anexo 1 – Protocolo de estágio ... 75
Anexo 2 – Lista de assiduidade (19 semanas de estágio) ... 81
Anexo 3 – Lista de projetos (tradução e revisão) ... 85
i
Declaração de honra
Declaro que o presente relatório é de minha autoria e não foi utilizado previamente noutro curso ou unidade curricular, desta ou de outra instituição. As referências a outros autores (afirmações, ideias, pensamentos) respeitam escrupulosamente as regras da atribuição, e encontram-se devidamente indicadas no texto e nas referências bibliográficas, de acordo com as normas de referenciação. Tenho consciência de que a prática de plágio e auto-plágio constitui um ilícito académico.
Porto, dezembro de 2019
ii
Agradecimentos
Gostaria de começar por agradecer ao Professor Rogelio Ponce de Léon Romeo por
incentivar-me sempre a dar o melhor de mim e por toda a disponibilidade, apoio e recomendações demonstrados durante a elaboração deste relatório, assim como todos os ensinamentos transmitidos ao longo do meu percurso na FLUP.
À minha coorientadora, Professora Andrea Rodriguez Iglesias, por toda a sua disponibilidade, conselhos e críticas construtivas. Agradeço-lhe também por todo o interesse, dedicação e entusiasmo demonstrados durante as suas aulas, por todos os preciosos conhecimentos partilhados e por me ter incentivado a seguir o sonho de ser tradutora, felicitando-me sempre por cada conquista.
Gostaria também de agradecer a toda a equipa da AP | Portugal por me terem recebido tão calorosamente, principalmente ao PACQ e a todos os estagiários que partilharam comigo esta experiência. Dirijo um agradecimento especial à minha coorientadora na empresa, a Dra. Carolina Melo, por todo o empenho no projeto do Academy, pela sua disponibilidade e por ter procurado responder sempre às minhas dúvidas e questões. Agradeço igualmente à Dra. Ana Duarte, pela partilha de conhecimentos, boa companhia e cumplicidade e por me fazer sentir em casa desde o primeiro dia.
Aproveito também para agradecer à minha mãe por acreditar nas minhas capacidades e por todo o carinho, apoio e paciência e à minha irmã, por ser um modelo a seguir, por ter despertado em mim o gosto de aprender e por todo o seu apoio ao longo do meu percurso académico.
Por último, agradeço a todos os colegas do MTSL por todo o companheirismo, em especial à Zoé e à Bárbara por todos os momentos e aventuras vividas ao longo destes cinco anos.
iii
Resumo
O presente relatório visa oferecer uma análise crítica das tarefas realizadas e dos principais desafios encontrados ao longo do estágio curricular realizado na empresa de serviços linguísticos AP | Portugal - Tech Language Solutions, no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
A primeira parte do relatório centra-se na descrição da instituição de acolhimento, através da caracterização dos elementos da equipa e da sua metodologia de trabalho. Para além disso, apresenta-se uma descrição do estágio e das tarefas realizadas.
Na segunda parte são apresentados e analisados contextos de tradução, tendo como principal foco a tradução jurídica, mais concretamente, as dificuldades decorrentes do processo de tradução e as soluções encontradas. Para além da tradução jurídica, este relatório aborda também a transcrição jurídica e as dificuldades encontradas durante a transcrição de depoimentos de parte.
Palavras-chave: direito, tradução jurídica, tradução documental, tradução instrumental,
iv
Abstract
This report aims to provide a critical analysis of the tasks and main challenges encountered during the curricular internship held at the language services company AP | Portugal - Tech Language Solutions, carried out within the framework of the Master in Translation and Language Services of the Faculty of Arts and Humanities of the University of Porto.
The first part of the report focuses on the description of the foster company, their team members and their working methodology. In addition, it presents a description of the internship and the tasks performed.
The second part looks at the topic of legal translation in more detail, namely the difficulties arising from the translation process and the solutions to overcome them. In addition to legal translation, this report also addresses legal transcription and the difficulties encountered during the transcription of party depositions.
Keywords: law, legal translation, documentary translation, instrumental translation, text
v
Índice de ilustrações
Figura 1 - Organograma AP | Portugal ... 7
Figura 2 - Ciclo de vida de um projeto ... 10
Figura 3 - Géneros textuais ... 17
Figura 4 - Progresso de projeto no Wordbee ... 19
Figura 5 - Janela de detalhes de um projeto no Wordbee ... 20
Figura 6 - Início de sessão no Wordbee ... 21
vi
Índice de gráficos
Gráfico 1 - Tarefas realizadas ... 12
Gráfico 2 - Palavras traduzidas por mês ... 13
Gráfico 3 - Palavras revistas por mês ... 14
Gráfico 4 - Pares linguísticos... 14
Gráfico 5 - Áreas temáticas ... 17
vii
Índice de tabelas
Tabela 1 - Funções da linguagem (com base em Reiss, 2000) ... 29 Tabela 2 - Funções da linguagem, tipo de texto e características principais (com base em Reiss, 2000) ... 30 Tabela 3 - Tipologia textual (com base em Reiss, 2000) ... 30 Tabela 4 - Classificação de traduções jurídicas com base na metodologia de Šarčević (1997) ... 33 Tabela 5 - Classificação final das traduções jurídicas realizadas ... 35
viii
Lista de abreviaturas e siglas
CATTI – Centro de Apoio a Tradutores, Transcritores e Intérpretes CAT-tool – Ferramenta de apoio à tradução
CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa CQ – Controlo de Qualidade
DAF – Departamento Administrativo e Financeiro
DIRI – Departamento Informativo e de Relações Internacionais DRE – Diário da República Eletrónico
DTP – Desktop Publishing
FLUP – Faculdade de Letras da Universidade do Porto IRN – Instituto dos Registos e do Notariado
MARCOM – Departamento de Marketing e Comunicação MT – Memória de Tradução
MTSL – Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos PACQ – Departamento de Paginação e Controlo de Qualidade SEO – Search Engine Optimization
SGPS – Sociedades Gestoras de Participações Sociais SST – Sistema de Satisfação Total
1
Introdução
Ao longo do meu percurso académico, tanto na Licenciatura em Línguas Aplicadas, como no Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, tornou-se claro o papel importante que a prática desempenha na formação de um tradutor, visto que, ao contrário do que muitos acreditam, a tarefa de tradução não é uma atividade mecânica e vai mais além do conhecimento linguístico em duas línguas. O tradutor não é apenas um linguista que une duas línguas estrangeiras, é também um mediador intercultural, que cria pontes entre pessoas, culturas, informações, vivências. Para isso, traduzir envolve uma combinação de elementos que no final produzem o resultado pretendido: técnica, conhecimentos, aptidões.
Durante os três primeiros semestres do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos esses elementos foram aprofundados sobretudo sob a forma de conhecimentos teóricos. Contudo, a teoria e a prática andam de mãos dadas e complementam-se uma à outra, pois tal como William Hamilton outrora afirmou “There is a distinction, but no opposition, between theory and practice. Each to a certain extent supposes the other. Theory is dependent on practice; practice must have preceded theory1”.
Hamilton não poderia estar mais correto, e a sua afirmação aplica-se na perfeição ao mundo da tradução, pelo que a realização de um estágio curricular durante o último semestre revelou-se indiscutivelmente um elemento crucial para pôr em prática todos os conhecimentos adquiridos e fechar com chave de ouro a minha formação académica, permitindo, por um lado, a aquisição de capacidades para fazer face aos desafios inerentes à profissão e, por outro, uma maior consciencialização de todo o processo tradutivo, desde o contacto com os clientes, até à gestão de tarefas e prioridades.
É neste contexto que surge o presente relatório de estágio, desenvolvido no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos (MTSL), vertente de Tradução Especializada, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que tem como principal objetivo a reflexão sobre o trabalho realizado durante os quatro meses e meio de estágio curricular na empresa de tradução AP | Portugal - Tech Language Solutions.
Este relatório encontra-se dividido em dois capítulos. O Capítulo 1 aborda os
1 Disponível em: https://www.bartleby.com/349/authors/93.html (Consultado pela última vez a
2
motivos que levaram à realização do estágio curricular e é feita uma breve apresentação da entidade de acolhimento, da sua equipa e metodologia de trabalho. De seguida, descreve-se o estágio, as principais atividades desenvolvidas e os recursos utilizados. Por fim, é feita uma apreciação global do estágio.
O Capítulo 2 é dedicado à tradução jurídica e visa oferecer uma análise das principais dificuldades sentidas ao longo da tradução de textos que se inserem nesta área específica. Na primeira parte deste capítulo, é feita uma introdução à complexidade inerente à tradução jurídica e apresenta-se a metodologia adotada para solucionar os desafios encontrados. Em seguida, aborda-se os conceitos de género e tipologia textual com o objetivo de demonstrar a importância da classificação dos textos de partida no processo de adoção de uma estratégia global de tradução. Depois, utilizam-se casos práticos de traduções realizadas ao longo do estágio com o objetivo de expor as principais dificuldades sentidas durante a tradução de textos jurídicos e ilustrar as soluções encontradas. Finalmente, a última parte deste capítulo oferece uma reflexão crítica sobre a transcrição jurídica, mais concretamente, os desafios inerentes à transcrição de depoimentos de parte.
3
Capítulo 1 – O estágio curricular
1.1. A decisão de realizar um estágio
Com vista a concluir a sua formação, os estudantes do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos devem optar pela realização de um estágio curricular com a duração mínima de 3 meses ou pela elaboração de um projeto de investigação.
Ao longo da minha formação académica, constatei que a prática é, sem dúvida, a melhor aliada de um tradutor e algo fundamental para que possa tornar-se num bom profissional.
Neste sentido, considerei que um estágio me permitiria consolidar, adquirir e desenvolver novos conhecimentos, competências e domínio nas várias ferramentas informáticas, técnicas e metodológicas que seriam certamente fundamentais para o meu futuro como tradutora, permitindo ao mesmo tempo realizar novas descobertas e enfrentar novos desafios.
A decisão de realizar um estágio curricular também se justifica por este representar o meu primeiro contacto com o mercado de trabalho e, mais concretamente, o mundo profissional da tradução, dado que todas as traduções que realizei até à data se inseriam num contexto académico. Deste modo, estagiar numa empresa de tradução seria uma mais-valia já que me ofereceria a possibilidade de realizar traduções num ambiente laboral real, para clientes reais e com prazos de entrega reais.
Para além de todas as vantagens já enumeradas, escolher uma empresa como local de estágio pareceu-me ser muito proveitoso, não só por me permitir contactar e trabalhar em equipa com outros tradutores e profissionais, mas também por me proporcionar uma melhor compreensão de todo o processo inerente à realização de uma tradução.
Perante esta perspetiva, em agosto de 2018, iniciei a procura por uma entidade de acolhimento. Entre as diversas possibilidades, encontravam-se empresas ligadas à área da tradução audiovisual, empresas mais generalistas, especializadas em várias áreas de tradução, ou até mesmo empresas ligadas a uma dada área do conhecimento, como, por exemplo, a medicina.
Dado que não tinha um interesse em particular por uma área científica ou tecnológica em específico, restringi a minha procura a empresas multidisciplinares, que me oferecessem a possibilidade de uma formação diversificada e completa.
4
A escolha final recaiu sobre a AP | Portugal - Tech Language Solutions (doravante, “AP | Portugal”), uma das primeiras empresas com as quais estabeleci contacto e que rapidamente demonstrou interesse em acolher-me.
A maior motivação para estagiar na AP | Portugal prendeu-se com o facto de esta ser uma empresa de tradução que oferece diversos serviços linguísticos, como, por exemplo, tradução, transcrição e localização, relacionados com várias áreas (nomeadamente jurídica, económica, comercial, entre outras). No meu entendimento, isto representaria uma grande vantagem para a minha formação, pois garantir-me-ia a possibilidade de desenvolver e aperfeiçoar as minhas capacidades de tradução em diferentes áreas do conhecimento.
No âmbito do estágio curricular na AP | Portugal, estabeleci como objetivos pessoais adquirir um vasto leque de conhecimentos e ferramentas relacionadas com a tradução, desenvolver o nível linguístico nas minhas línguas de trabalho (inglês e espanhol), aprofundar as minhas competências na tradução de textos especializados e técnicos e desenvolver as minhas capacidades de trabalhar em equipa.
1.2. Apresentação da instituição de acolhimento
A AP | Portugal é uma empresa especializada em serviços linguísticos e tecnológicos, fundada em 1998 e com dois escritórios nacionais, um em Lisboa e outro em Vila Nova de Gaia2.
Com vista a apoiar os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e consciente das particularidades linguísticas das variantes presentes nestes países, atualmente, a empresa também está presente além-fronteiras, no mercado angolano (AP | Angola) e brasileiro (AP | Brasil).
Embora não esteja relacionada com o mundo da tradução, a responsabilidade social é uma das principais preocupações da AP | Portugal, que acredita que com o contributo de todos, é possível melhorar a qualidade de vida daqueles que nos rodeiam. Neste sentido, é importante destacar que as letras iniciais que compõem o nome da empresa (“AP”) derivam do facto de esta se encontrar institucionalmente ligada ao ApoioXXI, um centro de Ação Psicopedagógica, localizado no escritório da AP | Portugal em Vila Nova
2 Todas as informações presentes neste capítulo têm como fonte a página web oficial da empresa,
disponível em https://www.apportugal.com/ (Consultado pela última vez a 14/05/2019) e alguns documentos internos da AP | Portugal.
5
Gaia, que visa apoiar crianças com dificuldades escolares, afetivas, cognitivas e/ou psicomotoras. O papel da AP | Portugal passa por contribuir para o desenvolvimento das instalações, equipamentos e serviços técnicos oferecidos por este centro. Durante o estágio foi possível entrar em contacto com algumas destas crianças e alguns dos professores responsáveis pelas explicações escolares.
Voltando ao universo da tradução, a AP | Portugal é membro de diversas associações nacionais e internacionais de tradutores e empresas de tradução, de entre as quais se destacam a GALA - Globalization and Localization Association; a ELIA - European Language Industry Association; a ALC - Association of Language Companies, a ATC - Association of Translation Companies, a ATA - American Translators Association; a LEXIS - Comunidade Internacional de Profissionais em Serviços Linguísticos; a EUATC - Associação Europeia de Associações de Empresas de Tradução; a APET - Associação Portuguesa de Empresas de Tradução, e a APTRAD - Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes.
Inicialmente a empresa prestava apenas serviços de tradução, interpretação, transcrição e legendagem. Contudo, num mundo cada vez mais tecnológico, digital e global, a AP | Portugal aumentou o espectro da sua oferta de serviços, de forma a responder às atuais exigências do mercado. Deste modo, atualmente a gama de serviços conta também com a tradução e localização de páginas web, a gestão de conteúdos, o SEO multilingue e um serviço de transcriação e copywriting.
No que se refere aos serviços de tradução, a empresa trabalha essencialmente com documentos de áreas especializadas, como a jurídica, política, económica, empresarial e científica.
Uma das áreas com maior volume de trabalho é a jurídica, e para além de efetuar traduções de diversos tipos de géneros textuais, em particular, contratos, termos e condições de venda, certificados, certidões, procurações, entre outros, a AP | Portugal oferece ainda serviços de tradução certificada.
Como em Portugal não existem Tradutores Ajuramentados, a certificação é necessária para manter a validade legal de um documento traduzido. Este processo é realizado internamente na AP | Portugal, graças ao Departamento Jurídico integrado na empresa, composto por advogados que são responsáveis pela certificação. Caso se trate de uma tradução destinada a um país estrangeiro que tenha assinado a Convenção de Haya, a tradução terá de ser acompanhada de uma apostilha: “processo através do qual
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um país integrado no Convénio de Haya reconhece a eficácia jurídica de um documento”3. Em termos de línguas de trabalho, a empresa conta com o apoio de diversos colaboradores externos, o que lhe permite prestar serviços em diversos pares linguísticos, entre os quais se destacam o inglês, espanhol, alemão, francês, russo, chinês, árabe, italiano, japonês, polaco, neerlandês, sueco, húngaro, entre outros. Apesar desta grande variedade de pares linguísticos, foi possível comprovar, durante o período de estágio, que as línguas com mais volume de trabalho são o inglês, o espanhol e o francês.
1.2.1. Caracterização dos elementos da equipa
A AP | Portugal é gerida por Mário Júnior, Tradutor e Intérprete Consultor e conta com um vasto leque de cerca de 500 colaboradores, internos (tradutores in-house, gestores de projetos, etc.) e externos (tradutores freelancers, intérpretes, empresas de legendagem, etc.).
O escritório de Vila Nova de Gaia, local de acolhimento do estágio, representa o núcleo principal desta empresa de tradução e encontra-se dividido em diversas equipas e salas, como se de uma verdadeira fábrica se tratasse, totalizando cerca de 30 elementos
in-house.
Tal como é possível comprovar no organograma disponível infra, a empresa conta com seis núcleos distintos, cada um responsável por diferentes funções.
O DIRI, Departamento Informativo e de Relações Internacionais, é responsável pelas relações comerciais, parcerias e serviços de consultoria.
O CATTI, Centro de Apoio a Tradutores, Transcritores e Intérpretes, é o departamento responsável pela gestão de projetos. O CATTI apoia todos os colaboradores da AP | Portugal durante a execução de projetos e ajuda-os com dúvidas ou dificuldades, sendo também o fio que une os profissionais linguísticos e os clientes, possibilitando assim um contacto contínuo.
O PACQ, Departamento de Paginação e Controlo de Qualidade, é responsável pelo DTP e pela gestão e controlo de qualidade. Durante o meu estágio fui integrada na equipa do PACQ, o que se justifica pelo facto de os tradutores in-house da empresa também estarem integrados neste núcleo.
3 Informação retirada da página web da AP | Portugal, onde é possível consultar mais detalhes
relacionados com este tipo de tradução. Disponível em:
https://www.apportugal.com/servicos/traducao/#traducoes_certificadas (Consultado pela última vez a 10/07/2019)
7
O DAF, Departamento Administrativo e Financeiro, trata da contabilidade e faturações.
O MARCOM, Departamento de Marketing e Comunicação, é responsável, por exemplo, pela manutenção e atualização do blogue da empresa e pela divulgação dos serviços oferecidos.
O Departamento Jurídico encarrega-se da emissão de traduções certificadas, da aposição de apostilas e fornece apoio aos tradutores na tradução jurídica.
1.2.2. Metodologia de trabalho – Ciclo de vida de um projeto
A AP | Portugal é uma empresa certificada pela Norma Internacional de Qualidade ISO 17100:2015, relativa aos requisitos para os serviços de tradução, daí que a sua missão
AP | P or tugal DIRI - Departamento Informativo e de Relações Internacionais
CATTI - Centro de Apoio aos
Tradutores, Transcritores e Intérpretes PACQ - Departamento de Paginação e Controlo de Qualidade DAF - Departamento Administrativo e Financeiro MARCOM -Departamento de Marketing e Comunicação Departamento Jurídico Prestadores de Serviços Linguísticos Tradutores, Intérptetes, Transcritores, Legendadores Figura 1 - Organograma AP | Portugal
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seja “crescer através de um serviço de qualidade4”.
Em conformidade com os requisitos da Norma ISO 17100:2015, todos os projetos de tradução na AP | Portugal passam por um ciclo de vida que se encontra dividido em três fases distintas: pré-tradução; tradução e pós-tradução.
A fase de pré-tradução inicia-se após a receção de um projeto por parte de um cliente. A equipa de gestores de projetos analisa os documentos, procede à contagem de palavras, verifica a disponibilidade dos recursos e cria uma proposta de orçamento. Caso se trate de documentos em formatos não-editáveis, a orçamentação é levada a cabo pela equipa de Desktop Publishing (DTP), que extrai o texto a traduzir, procede à contagem de palavras e reenvia os documentos aos gestores de projetos.
Após a aprovação do orçamento por parte do cliente, definem-se as datas de entrega do projeto e os recursos que serão utilizados, como, por exemplo, a ferramenta de apoio à tradução. Posteriormente, o gestor de projetos cria o projeto de tradução com o ficheiro no formato original e, quando disponibilizado, com o material de apoio ou referência, instruções ou guias de estilo.
A fase de pré-tradução termina com a atribuição do projeto de tradução a um tradutor ou tradutores, dependendo da extensão e prazo de entrega do projeto, e a um revisor.
A fase que se segue é composta por três atividades principais: a tradução, a revisão e a releitura. Todavia, é relevante acrescentar que, por questões relacionadas com os prazos de entrega e/ou especificações do cliente, a fase de releitura é, por vezes, omitida. Caso a ferramenta de apoio à tradução seja, por exemplo, o SDL Trados Studio ou o MemoQ, o tradutor recebe uma pasta com o projeto ou o package, que deverá abrir no respetivo programa. No entanto, a esmagadora maioria dos projetos de tradução na AP | Portugal realiza-se através do Wordbee, uma CAT-tool disponível online. Por conseguinte, o tradutor recebe no seu endereço eletrónico um link que o encaminha para o projeto na plataforma Wordbee. Este procedimento é exatamente o mesmo para a fase de revisão e releitura.
Durante o estágio, o primeiro passo na fase de tradução incluía sempre a análise do texto de partida e do material de apoio ou referência, uma vez que estes podiam conter indicações ou instruções acerca do projeto relevantes para o processo linguístico. Para além disso, os documentos traduziam-se sempre com recurso às memórias de tradução e
4 Informação retirada da página web oficial da empresa, disponível em:
9
aos glossários disponibilizados pelos gestores de projetos.
Se durante a tradução surgissem dúvidas sobre como proceder, por exemplo, relativamente à tradução de inconsistências, nomes de produtos, referências a softwares, medidas e formatos de data/hora, estas eram comunicadas ao gestor de projetos, que as encaminhava para o cliente.
Antes de terminar o processo de tradução, procedia sempre à verificação ortográfica e ao controlo de qualidade.
Inicialmente tive algumas dificuldades em compreender as distinções entre as fases de revisão e releitura, uma vez que me parecia existir uma certa sobreposição entre os dois conceitos. No entanto, a minha coorientadora na empresa indicou-me que durante a fase de revisão o principal objetivo deveria ser comparar o texto original com o texto traduzido para garantir que não existiam omissões, adições, erros ou interpretações erróneas. Como revisora ficava também incumbida de validar a terminologia traduzida tendo em conta as indicações, o glossário e a memória de tradução disponibilizadas.
A minha coorientadora informou-me também que durante a revisão deveria evitar ao máximo proceder a alterações preferenciais injustificadas, como, por exemplo, substituir termos por sinónimos ou alterações de gosto pessoal, desnecessárias e redundantes ou meramente estilísticas.
No que diz respeito ao passo seguinte, a releitura, foi-me explicado que esta atividade deveria incidir apenas sob o texto traduzido, sendo esta a característica que primordialmente a distingue da fase de revisão. Ou seja, a tradução já revista deveria ser relida por um falante nativo cuja função seria certificar-se de que as regras linguísticas, de construção frásica e de pontuação tinham sido cumpridas e proceder à correção dos possíveis erros de escrita.
Posteriormente, iniciava-se a terceira e última fase de um projeto, a pós-tradução. Este processo incluía o controlo de qualidade e, sempre que necessário, o Desktop
Publishing.
O objetivo do controlo de qualidade é verificar se o texto traduzido está em conformidade com os requisitos do cliente e assegurar a qualidade do documento final. Desta forma, durante um controlo de qualidade era importante: verificar se as instruções do cliente foram cumpridas; verificar se o texto foi todo traduzido; proceder à verificação ortográfica e verificar as tags e a formatação do conteúdo para garantir a consistência do documento após a tradução.
10
responsável pela transferência do ficheiro traduzido para o formato original, comparando os ficheiros de origem e os traduzidos de forma a verificar o layout, a formatação, a numeração, os títulos, os gráficos e as imagens.
Por fim, a versão final do documento traduzido era enviada à equipa de gestores de projetos, que procedia à aprovação da tradução e à entrega ao cliente.
É interessante constatar que a entrega da tradução final ao cliente poderá não significar necessariamente a finalização de um projeto, visto que a empresa dispõe de um serviços pós-venda (SST – Sistema de Satisfação Total), que visa garantir a satisfação total dos clientes. Desta forma, após a entrega da tradução, “o cliente dispõe de um prazo de 20 dias para análise e revisão do trabalho e, durante este período, poderá solicitar uma nova revisão, correção ou adaptação do texto”5.
O esquema que se segue resume todo o processo descrito anteriormente:
1.3. Duração do estágio
O estágio curricular realizado na AP | Portugal teve uma duração de quatro meses e duas semanas, com início a 21 de janeiro de 2019 e fim a 31 de maio do mesmo ano,
5 Informação retirada da página web oficial da empresa, disponível em
https://www.apportugal.com/qualidade/sistema-de-satisfacao-total/ (Consultado pela última vez a 06/05/2019) Cliente Gestão de projetos Tradução Revisão Releitura CQ DTP Gestão de projetos
11
num regime de 34 horas semanais, perfazendo um total de 620 horas6.
Durante o processo de candidatura ao estágio, foi-me explicado pelo Dr. Eugénio Rodrigues, Diretor dos Recursos Humanos, que um estágio de três meses não seria suficiente para absorver todas as tarefas e ensinamentos relacionados com a tradução e, tendo em consideração o volume de trabalho que normalmente atribuem aos estagiários, foi-me proposto que alargasse o período de estágio de forma a perfazer pelo menos 4 ou 5 meses.
A este propósito, parece-me relevante referir que a AP | Portugal integra os estagiários no AP Academy, um programa de estágios curriculares ou autopropostos, com duração de 6 ou 12 meses, que visa introduzir os estudantes de tradução ou os recém-formados no mercado profissional.
A AP | Portugal aceita estagiários oriundos de todo o mundo, pelo que durante o meu estágio curricular tive o privilégio de trabalhar num autêntico ambiente internacional e multicultural. Durante este período, a empresa acolheu simultaneamente oito estagiários: dois franceses, dois espanhóis, um belga, um croata e dois portugueses.
No primeiro dia de estágio na AP | Portugal, o Dr. Eugénio Rodrigues acompanhou-me durante uma visita aos diversos departaacompanhou-mentos que compõem a empresa e fui apresentada a todos os membros de cada equipa.
Durante a manhã, numa breve reunião, foi-me explicado o modelo de organização e articulação dos diversos núcleos da AP | Portugal e foram discutidas algumas das tarefas a cumprir e o número de horas a realizar semanalmente.
De seguida, recebi um computador e um endereço de e-mail que deveria passar a utilizar para todas as questões e comunicações relacionadas com o estágio. Para além disso, foi-me pedido que criasse uma conta na plataforma Workplace, utilizada para todas as comunicações internas entre os diversos membros da AP | Portugal e também na Lexis, uma comunidade internacional para os profissionais de serviços linguísticos.
Assinei um acordo de confidencialidade e uma declaração de uso do computador que me foi disponibilizado, para assegurar que iria utilizá-lo de forma responsável e apenas para uso profissional.
Durante a tarde, a Dra. Carolina Melo informou-me que seria coorientadora do meu estágio, em grande parte devido ao atual volume de trabalho do Dr. Mário Júnior, e forneceu-me alguns documentos internos e manuais essenciais para começar a
6 O Anexo 3 apresenta uma lista das 19 semanas de estágio, onde é possível conferir o número de horas
12
familiarizar-me com o trabalho que viria a realizar na AP | Portugal: “Manual de Acolhimento ao Estagiário”, “Guia de funcionamento do Wordbee”, “Programa de Excelência da AP | Portugal” e “Apresentação do Workplace”.
1.4. Tipos de tarefas realizadas
Ao longo de 19 semanas tive a oportunidade de realizar 75 projetos, que incluíram diversos tipos de tarefas. Como é possível comprovar através do gráfico 1, a tradução foi a minha principal atividade, correspondendo a 59 dos projetos desenvolvidos. Para além da tradução, fui responsável pela realização de 7 revisões, 5 projetos de DTP (Desktop
Publishing), 3 transcrições, 1 releitura e 1 projeto de alinhamento.
No que diz respeito à tradução, no total, foram traduzidas aproximadamente 159 916 palavras. O gráfico 2 apresenta a distribuição do fluxo de trabalho ao longo dos 4 meses e meio de estágio.
75 59
7 1 5 13
Tipo de Tarefa
Nº de Projetos Tradução Revisão Alinhamento DTP Releitura Transcrição
13
O número reduzido de palavras traduzidas durante o mês de janeiro justifica-se pelo facto de ter iniciado o estágio apenas a 21 de janeiro, e também por este período inicial corresponder a uma fase de adaptação ao ambiente da empresa e aos respetivos métodos de trabalho.
Em relação aos meses compreendidos entre fevereiro e maio, observa-se uma oscilação constante entre o número de palavras traduzidas. O aumento do número de palavras entre fevereiro e março reflete a atribuição de mais projetos por parte dos gestores de projetos e também uma maior familiaridade com a ferramenta de tradução utilizada pela empresa, o que contribuiu diretamente para um aumento da minha produtividade.
No entanto, é indispensável referir que a variação no número de palavras por mês não dependia apenas da minha produtividade, visto que o meu trabalho estava condicionado pelo volume de trabalho da empresa e pelos restantes estagiários que também estavam a realizar um período de estágio na AP | Portugal. De facto, a diminuição do número de palavras entre março e abril deveu-se à chegada de uma outra estagiária, também ela portuguesa, pelo que os gestores de projetos procuraram distribuir os projetos de forma igualitária entre as duas.
Quanto à revisão, tal como demonstrado no gráfico 3, foram revistas cerca de 31 501 palavras.
14
O gráfico 3 não apresenta os meses de janeiro e abril por não terem sido realizadas quaisquer revisões durante esse período.
Relativamente aos pares linguísticos, a análise do gráfico 4 torna clara a preponderância do par linguístico EN – PT. Importa referir que este gráfico inclui os pares linguísticos tanto das tarefas de tradução como de revisão e releitura.
1 59 1 6 0 10 20 30 40 50 60 70
Português-Inglês Inglês-Português Polaco - Português Espanhol-Português
Nº de Projetos/Par Linguístico
Gráfico 3 - Palavras revistas por mês
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No primeiro dia de estágio, os gestores de projetos informaram-me que na AP | Portugal evita-se ao máximo a retroversão e que, por conseguinte, iria traduzir apenas para a minha língua materna, o português. Algo que se verificou no decorrer do estágio, tendo realizado apenas uma tradução de português para inglês, pois esta tinha um caráter urgente e era a única colaboradora disponível. Realizei também uma releitura de polaco para português. Apesar de o polaco não constituir uma das minhas línguas de trabalho, a tarefa de releitura, conforme mencionado anteriormente, centra-se apenas no texto já traduzido.
No que diz respeito à tarefa de classificar as traduções realizadas por tipo ou área de tradução, esta foi bastante desafiante, principalmente por não existir uma opinião unanime no seio da comunidade académica no que diz respeito à distinção entre as diversas áreas de tradução.
Segundo Jody Byrne (2006: 3), é imperativo fazer uma distinção entre tradução especializada e tradução técnica, visto que “just because there is a specialised terminology, doesn’t make something technical” (Byrne, 2006: 3).
Na visão de Byrne (2006: 3), os textos legais, financeiros ou económicos não devem ser agrupados no espectro da tradução técnica, pois cada um destes apresenta as suas próprias especificidades.
De acordo com o mesmo autor, a tradução técnica só pode ser interpretada num âmbito industrial e esta engloba textos tecnológicos, isto é, textos relacionados com a aplicação do conhecimento científico, como ensaios clínicos, relatórios, factos ou informações de determinados produtos, instruções, manuais, entre outros (Byrne, 2006: 3-33).
Williams & Chesterman (2002: 9) introduzem o conceito de géneros de tradução e na sua metodologia propõem uma distinção entre diversos tipos de textos, “by 'genre' we mean both traditional literary genres such as drama, poetry and prose fiction as well as other well established defined types of text for translation such as multimedia texts, religious texts, children’s literature, tourism texts, legal documents” (Williams & Chesterman, 2002: 9).
Ao contrário de Byrne, os autores defendem que a tradução técnica inclui uma ampla variedade de textos, não só tecnológicos, mas também de áreas como a economia, medicina ou inclusive o setor empresarial (Williams & Chesterman, 2002: 12-13).
Daniel Gouadec (2007: 27), por sua vez, subdivide a tradução em duas grandes áreas: a tradução geral e a tradução especializada.
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Para o autor, a tradução geral engloba todos os textos que não são especializados, ou seja, que têm como público-alvo um leitor comum, que não pertençam a uma área específica e que não exijam um processo de tradução específico, tais como, cartas, livros de receitas, artigos publicados em jornais e revistas, entre outros (Gouadec, 2007: 27).
Quanto à tradução especializada, Gouadec (2007: 382) considera-a como uma área central, que engloba a tradução de materiais relacionados com áreas altamente especializadas, cada uma com determinadas especificidades, públicos-alvo, meios de difusão distintos, “and/or translation requiring particular expertise in the use of special tools, techniques or procedures” (Gouadec, 2007: 382). Na sua opinião, a tradução especializada subdivide-se em diversos ramos: tradução literária, tradução técnica, tradução comercial, tradução financeira, tradução legal, tradução biomédica ou farmacêutica, tradução de tecnologia da informação e a tradução publicitária/marketing (Gouadec, 2007: 28-29).
Para o mesmo autor, a tradução técnica diz respeito à tradução de materiais de uma dada área do conhecimento, desde que estes envolvam conhecimentos especializados da área em questão, “e.g. mechanical engineering, hydraulics, electrical engineering, business management, etc.” (Gouadec, 2007: 30).
Apesar desta distinção, Gouadec (2007: 11-12) reconhece que esta classificação não representa uma fronteira fechada e delimitada, já que as traduções podem ser classificadas de diversas formas: por área temática ou domínio (tradução técnica, económica, financeira, legal, entre outras); por género textual (apólice de seguros, manual de utilizador, catálogos, patentes, entre outros); pela sua finalidade ou função no âmbito de uma determinada atividade (tradução judicial, médica, comercial, editorial, publicitária, entre outras); ou até pelo meio de difusão das traduções (tradução multimédia, tradução audiovisual, localização) (Gouadec, 2007: 11-12).
No decurso do estágio, verifiquei que não era possível agrupar uma tradução apenas numa dada área, visto que, muitas vezes, existia uma sobreposição de várias categorias, motivo pelo qual optei por seguir a classificação proposta por Gouadec, não só por considerá-la das mais completas, mas também porque me pareceu ser a que melhor se adequava ao carácter híbrido das traduções realizadas. Assim, classifiquei as traduções por área temática/domínio, género textual e, sempre que aplicável, pelo setor de atividade.
Como é possível constatar através do gráfico 5, ao longo do estágio tive a oportunidade de realizar trabalhos bastante diversificados.
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A maioria dos textos traduzidos insere-se na área da publicidade, seguida das áreas jurídica e técnica. Também tive a oportunidade de trabalhar com textos da área médica, turística, científica e alguns de carácter mais geral.
Como se pode constatar nas duas tabelas da figura que se segue, esta diversidade de domínios permitiu-me trabalhar com vários géneros textuais, como, por exemplo, anúncio publicitário, declaração de conformidade, comunicado de imprensa, termos e condições de venda, certificado de registo criminal, catálogo de produtos, entre outros7.
7 É possível consultar no Anexo 4 uma lista pormenorizada de todos os projetos de tradução e revisão,
que inclui alguns detalhes relativamente a cada projeto, tais como, o par linguístico, o número de palavras, a data de realização, a CAT-tool utilizada, entre outros.
1 9 15 2 25 14 1 C I E N T Í F I C A G E R A L J U R Í D I C A M E D I C I N A P U B L I C I D A D E T É C N I C A T U R Í S T I C A
Nº PROJETOS / ÁREA TEMÁTICA
Gráfico 5 - Áreas temáticas
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Por fim, em termos de ferramentas utilizadas durante o estágio, com base na análise do gráfico 6 torna-se evidente a preponderância da ferramenta Wordbee, uma CAT-tool disponível online. Algo que se justifica pelo facto de a AP | Portugal ser o representante oficial do Wordbee nos países CPLP, sendo esta a ferramenta de eleição da empresa quando os clientes não exigem a utilização de uma ferramenta em particular.
O início do estágio representou o primeiro contacto que tive com esta ferramenta de apoio à tradução, contudo, o Wordbee é bastante semelhante a outras CAT-tools disponíveis online com as quais trabalhamos no decorrer do MTSL, como, por exemplo, o MateCat, pelo que o período de adaptação decorreu sem grandes percalços.
Para além de todas as funcionalidades típicas de uma CAT-tool tradicional, como a possibilidade de traduzir ficheiros em diversos formatos, a apresentação, lado a lado, do texto original e da tradução ou a compatibilidade com memórias de tradução, bases de dados terminológicas e motores de tradução automática, o Wordbee oferece ainda diversas funcionalidades relacionadas com a gestão de projetos. Tal como é possível ler na página web oficial da AP | Portugal, esta CAT-tool:
inclui ferramentas de gestão de projetos e tarefas de A-Z: crie projetos, adicione documentos a traduzir, selecione memórias de tradução, efetue contagem de palavras, calcule preços, selecione tradutores/revisores, atribua trabalhos, valide traduções e efetue a entrega das traduções finais.
61 2
2 1 5 3 2 1
Ferramentas utilizadas
Wordbee SDL Trados Studio Memo Q (Servidor online) SDL Passolo ABBYY FineReader Express Scribe
Microsoft Word Align Assist
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O WORDBEE Translator ajuda-o(a) a gerir todos os serviços e preços dos seus fornecedores8.
Entre as inúmeras funcionalidades oferecidas por este software, a que me parece mais vantajosa é o facto de esta ferramenta nos permitir acompanhar a evolução do nosso trabalho, em tempo real. Ao clicarmos no progresso do projeto em causa, tal como é possível constatar na imagem que se segue, o Wordbee apresenta-nos o total de segmentos e palavras a traduzir e, à medida que o tradutor realiza o seu trabalho, o progresso da tradução é apresentado em percentagem. Além disso, a ferramenta indica-nos também a percentagem de validação da tradução por parte do revisor.
Outra vantagem é o facto de a janela de detalhes apresentar não só a língua de partida e a língua de chegada, mas também o prazo para conclusão da tradução, assim como os materiais de referência e o tempo de edição, algo bastante útil que permite ao tradutor um maior controlo em relação à sua produtividade.
8 Informação retirada da página web da empresa, disponível em:
https://www.apportugal.com/software-de-traducao/caracteristicas-wordbee-translator/ (Consultado pela última vez a 06/07/2019)
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Apesar dos benefícios referidos anteriormente, importa salientar que o Wordbee também apresenta alguns problemas que constituíram um entrave durante a realização de algumas traduções.
Como se trata de uma ferramenta disponível online, os utilizadores necessitam de uma ligação à internet estável, rápida e constante. Durante o estágio, sempre que a ligação à internet falhava, via-me obrigada a parar o meu trabalho, visto que perdia o acesso ao editor de tradução e era necessário aguardar que a ligação fosse restabelecida. Por vezes, esta falha da internet resultava na perda dos últimos segmentos traduzidos, o que me obrigava a estar constantemente a guardar a tradução.
Além disso, as teclas de atalho do Wordbee são bastante diferentes daquelas a que estava habituada a utilizar em ferramentas como, por exemplo, o SDL Trados Studio. Por exemplo, enquanto que no SDL Trados Studio é possível copiar o texto original para o segmento a traduzir clicando em Ctrl + Insert, no Wordbee a mesma operação realiza-se clicando em Ctrl + Shift + C.
Por outro lado, as teclas de atalho disponibilizadas são bastante limitadas, já que o Wordbee não apresenta teclas de atalho para fazer pesquisa ou selecionar resultados na MT, para fazer verificação ortográfica ou para fazer CQ.
Como o tradutor está constantemente numa luta contra o tempo, as teclas de atalho são sem dúvida uma mais-valia, pois permitem realizar certas operações mais rapidamente, evitando a navegação constante pelos diversos menus.
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Inicialmente, tentei colmatar esta lacuna do Wordbee editando as teclas de atalho através das opções disponíveis no menu das definições. Contudo, para ter acesso ao Wordbee é necessário possuir uma conta e iniciar sessão e, por vezes, quando voltava a iniciar sessão no Wordbee, as teclas de atalho já tinham sido novamente alteradas.
Apesar de me ter sido fornecido um nome de utilizador e uma palavra-passe, esta conta não foi criada exclusivamente para mim. Como já foi referido anteriormente, os estagiários que chegam à AP | Portugal são integrados no AP Academy, sendo que todos os estagiários partilham entre eles a mesma conta no Wordbee. Ou seja, como os estagiários estão todos a utilizar a mesma conta, sempre que um estagiário altera qualquer tipo de configuração, ou neste caso em particular, qualquer tecla de atalho, esta alteração propaga-se no editor de todos os estagiários, motivo pelo qual as teclas de atalho estavam continuamente a ser alteradas, conforme as preferências de cada um.
Outro dos grandes problemas com que me deparei relaciona-se com os resultados da memória de tradução. Apesar de apresentar uma janela com as sugestões da MT, a verdade é que a maioria das vezes esta janela não apresentava qualquer resultado. No entanto, ao realizar a pesquisa manualmente era possível verificar que alguns termos ou frases constavam na MT, pelo que tinha de estar continuamente a realizar esta operação de verificação, de forma a evitar inconsistências.
Para além de tudo o que já foi mencionado, verifiquei também que o corretor ortográfico do Wordbee nem sempre funcionava, o que me obrigada a realizar a correção ortográfica num editor de texto externo, nomeadamente, o Microsoft Word.
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Em suma, apesar de apresentar algumas vantagens, parece-me imperativo que o Wordbee melhore algumas das suas funcionalidades, com vista a facilitar o trabalho do tradutor.
1.5. Apreciação global do estágio
No que diz respeito ao período de estágio na AP | Portugal, o balanço desta experiência é, globalmente, bastante positivo e é possível afirmar que os meus objetivos pessoais foram todos atingidos.
Por um lado, fui muito bem recebida por toda a equipa e o ambiente na empresa foi sempre de cooperação e interajuda. Tive acesso a todos os recursos necessários para a realização de todas as atividades e os elementos da equipa demonstraram-se sempre disponíveis para responder a todas as minhas dúvidas e questões.
Além disso, houve sempre uma preocupação constante com a minha integração na empresa e, nesse sentido, todas as semanas realizava-se uma reunião de acompanhamento, dedicada à exposição das minhas preocupações e dificuldades em relação ao estágio.
Por outro lado, o estágio curricular proporcionou-me uma experiência real e permitiu-me contactar, pela primeira vez, com o mundo profissional da tradução e com todas as fases inerentes ao processo de tradução.
Com o trabalho desempenhado na AP | Portugal, melhorei as minhas capacidades para cumprir prazos e aprendi a importância que as instruções dadas pelos clientes desempenham no processo de tradução.
Tal como foi salientado anteriormente, as tarefas realizadas foram várias, contudo, a tarefa mais desenvolvida foi claramente a de tradução, o que me permitiu desenvolver as minhas capacidades de adaptação a diversas áreas do conhecimento e trabalhar com novos géneros textuais, o que será sem dúvida vantajoso para o meu futuro profissional. Todo o trabalho desenvolvido permitiu-me não só aplicar e consolidar todos os conhecimentos adquiridos ao longo da minha formação académica, mas também adquirir novas metodologias e estratégias de tradução para lidar com os mais variados problemas. O estágio também representou uma oportunidade para lidar com algumas das minhas principais dificuldades em relação à tradução, nomeadamente, a gestão do tempo e a confiança no meu trabalho. A minha produtividade evoluiu ao longo destes quatro meses e meio, aprendi a ter mais confiança nas minhas traduções e nas minhas escolhas
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enquanto tradutora e a insegurança que sentia sempre que me era atribuído um novo projeto ou quando verificava as revisões realizadas às minhas traduções acabou por se dissipar ao longo do tempo.
No que diz respeito aos objetivos propostos pela empresa, disponíveis no Anexo 1, é indispensável mencionar que estes não foram completamente atingidos.
Ao longo do estágio não tive oportunidade de realizar nenhuma Gestão de Conteúdos (“Linguistic Content Management”), nem nenhum Controlo de Qualidade (“Quality Control”) e, por conseguinte, também não utilizei o Memsource, uma ferramenta de apoio à tradução, nem o Verifika, uma ferramenta destinada a assegurar a qualidade de uma tradução.
À exceção dos objetivos mencionados anteriormente, posso afirmar que todos os restantes foram cumpridos com sucesso.
Um dos aspetos que destaco como negativo está relacionado com o feedback das traduções, pois, por vezes, não recebia qualquer tipo de opinião em relação ao trabalho realizado. Quando a revisão era levada a cabo por uma das tradutoras in-house, estas tinham sempre o cuidado de realizar algum comentário, opinião ou crítica e até discutíamos algumas opções tradutivas com o objetivo de chegarmos a um consenso. No entanto, quando a revisão ficava a cargo de um tradutor freelancer, muitas das vezes tinha de fazer, por iniciativa própria, a comparação entre a minha tradução e a revisão realizada, de forma a poder distinguir os erros que tinha cometido.
Relativamente ao balanço feito por parte da AP | Portugal, disponível no Anexo 2, este foi bastante positivo e refletiu-se na possibilidade de continuar a minha colaboração com a empresa através da realização de um estágio profissional.
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Capítulo 2 – A tradução jurídica
2.1. O texto jurídico
2.1.1. A complexidade da tradução jurídica
Apesar de os dados apresentados no capítulo anterior evidenciarem que a tradução jurídica não correspondeu ao maior volume de trabalho realizado, achei oportuno dedicar um olhar atento a este tema, visto que, tendo em conta a natureza dos textos jurídicos e a complexidade da área temática do direito, foram vários os problemas e as dificuldades com os quais me deparei ao longo das diversas traduções jurídicas que realizei.
Os obstáculos com os quais fui confrontada derivaram, em grande parte, da complexidade subjacente à tradução jurídica, pois, tal como Borja (2002: 2) afirma, o tradutor de textos jurídicos é confrontado com um grande volume de informação extralinguística sobre direito e vê-se obrigado a assimilar, num curto espaço de tempo, conceitos jurídicos complexos:
Se enfrentan a la traducción de contractos de agencia, hipotecas, poderes notariales, etc., unos documentos en los que se maneja una terminología muy compleja. Otras especializaciones, como la traducción literaria (…) no plantean las dificultades de comprensión conceptual que genera la traducción de textos legales. (Borja, 2002: 2)
Efetivamente, enquanto estagiária na AP | Portugal deparei-me com a tradução de diversos tipos de documentos jurídicos, como, por exemplo, certidões, certificados, códigos de conduta, entre outros. Cada um deles apresentava uma terminologia jurídica específica e inerente ao género textual, muito complexa e desconhecida por mim. Deste modo, enquanto tradutora tive de lidar com diversas dificuldades, que diziam respeito não só à compreensão do original, mas também à procura do termo correto para a tradução.
Na conceção de Hickey (2005:19), esta complexidade da tradução jurídica justifica-se em parte devido à existência de sistemas jurídicos diferentes, pelo que nem justifica-sempre é possível encontrar uma correspondência exata entre a terminologia da língua de partida e da língua de chegada:
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A diferencia de otros géneros de traducción, en los que los conceptos suelen coincidir aunque los términos difieran –el sarampión sigue siendo sarampión aun cuando se denomina measles–, en el campo jurídico las figuras, estructuras y prácticas varían según la jurisdicción de que se trate. (Hickey 2005:19)
Com efeito, e tal como será exemplificado no ponto 2.3 do presente relatório, durante as traduções realizadas, a procura por um equivalente entre as designações dos oficiais de justiça foi algo particularmente desafiante, não só porque os documentos se encontravam inseridos no âmbito de sistemas jurídicos diferentes, mas também porque provinham de vários países, como, por exemplo, Índia, Inglaterra, Suíça, Roménia ou República Checa, cada um deles com órgãos da justiça distintos.
Desta forma, a tradução de um texto jurídico implica não só a transferência de uma língua de partida a uma língua de chegada, mas também a transposição de um sistema jurídico a outro, motivo pelo qual Monzó (2003: 8) afirma que os textos redigidos pelos tradutores são diferentes daqueles escritos pelos oficiais de justiça:
Las traducciones se encuentran a caballo entre un sistema jurídico y otro; pertenecen a ambos a la vez que a ninguno; son tierra de nadie, no-lugares (Auge, 1992/1998). ¿O son la tierra del traductor? (Monzó, 2003: 8)
Ainda sobre esta questão, e em conformidade com o que foi notado anteriormente, Borja (2000: 9) também destaca que uma das principais dificuldades decorrentes da incompatibilidade entre dois sistemas jurídicos diferentes assenta na falta de equivalência entre as figuras jurídicas e, à semelhança de vários outros autores que também se debruçaram sobre este tema, a autora refere como principais sistemas jurídicos o direito civil e a Common Law e acrescenta que as “diferencias entre ambas familias se deben a varias razones, fundamentalmente a sus orígenes históricos” (Borja, 2000: 10).
Para além da falta de equivalência entre sistemas jurídicos, Borja destaca que a complexidade da tradução jurídica reside igualmente nas vastas restrições e condições impostas pelas convenções do género, que tendem a permanecer inalteradas num mundo cada vez mais marcado pelo avanço tecnológico:
El lenguaje jurídico es extremadamente conservador frente al carácter dinámico de otros tecnolectos, en los que los continuos y rápidos avances tecnológicos obligan a crear nuevas palabras y formas de expresión para denominar los nuevos conceptos en las lenguas de especialidad. En general, los lenguajes de especialidad son muy innovadores y cambian a
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gran velocidad. A diferencia de los lenguajes técnicos, el jurídico está anclado en fórmulas arcaizantes y expresiones que permanecen invariables desde hace siglos. (Borja, 2000: 11)
De facto, através das traduções jurídicas que realizei, constatei que os textos jurídicos, principalmente os documentos oficiais, apresentam frases prototípicas e fórmulas pré-feitas que se repetem pelos vários documentos, muitas vezes de difícil compreensão e descodificação, principalmente por um cidadão comum sem qualquer formação no mundo do direito.
Para além destas convenções, Borja também destaca a elevada formalidade presente nos textos jurídicos, que, segundo esta autora, se justifica pelo “carácter oficial y representativo de los órganos o personas que los emiten” e o carácter impessoal, objetivo e distante da linguagem utilizada, “que se logra evitando los pronombres personales, los adjetivos, los adverbios intensificadores, las interjecciones y multiplicando las nominalizaciones (…)” (Borja, 2000: 23). Por fim, a autora destaca ainda a utilização excessiva de frases longas e repetitivas, marcadas pela utilização de várias orações subordinadas, que resultam em “textos alambicados de muy escasa puntuación y de lectura farragosa” (Borja, 2000: 23).
Embora as convenções referidas pela autora se refiram ao caso particular da linguagem jurídica inglesa e espanhola, o contacto que tive com os textos jurídicos portugueses permite-me afirmar que, efetivamente, a realidade jurídica portuguesa apresenta os mesmos elementos característicos, algo que é corroborado pelas palavras de Ramos (2019: 10):
Sucede que a linguagem de que o direito se socorre para a sua realização continua a ser hermética e pouco acessível à maior parte das pessoas (…) exemplo disto mesmo é a utilização regular de brocardos latinos, de vocabulário altamente especializado ou de estruturas formais opacas e arcaicas que dificultam a compreensão intuitiva da maioria da produção textual associada à linguagem jurídica.
2.1.2. Metodologia adotada
Tal como ficou patente no ponto anterior, a tradução jurídica é bastante complexa, motivo pelo qual optei por delinear uma estratégia metodológica que me ajudasse a
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contornar essa complexidade e que pudesse ser aplicada aos vários géneros textuais que compõem o discurso jurídico.
O facto de estar perante uma área de tradução que se insere num domínio totalmente desconhecido por mim, o do direito, constituiu um dos meus principais receios. Nas unidades curriculares de Tradução Técnica e Científica do MTSL, os docentes transmitiram-nos que a melhor forma de lidar com áreas do conhecimento desconhecidas por nós é através da pesquisa, em dicionários, glossários, bases de dados e em textos paralelos redigidos na língua de chegada. Tendo estes ensinamentos presentes e visto que estava bastante insegura em relação à terminologia que deveria utilizar durante as minhas traduções, considerei que seria crucial dedicar algum tempo inicial à pesquisa de materiais de referência, com o objetivo de encontrar textos em português que se inserissem na área jurídica e que espelhassem o género textual em questão, de forma a aumentar os meus conhecimentos sobre o tema em causa.
Este modo de proceder está em consonância com a metodologia defendida por Anabel Borja Albi, tradutora ajuramentada e professora de Tradução Jurídica na Universitat Jaume I, Castellón9, que defende afincadamente a importância dos textos paralelos quando se trata de tradução no âmbito jurídico (2007: 1-9).
Tal como mencionado anteriormente, Borja (2007: 1) sublinha que um dos principais elementos característicos dos textos jurídicos é o seu carácter estereotipado e repetitivo. Segundo esta autora, devido ao valor normativo do direito e com vista a assegurar o seu cumprimento, os géneros jurídicos “poseen sus convenciones, rutinas, clichés, tópicos y estructuras recorrentes” (Borja: 2007: 2).
Desta forma, Borja classifica os textos jurídicos como “fossilizados”, visto que “presentan una forma convencional, fija y estereotipada. Los testamentos, contratos, poderes notariales, escrituras de constitución de sociedades, etc., son sólo algunos ejemplos de estas estructuras textuales recurrentes y fosilizadas” (Borja, 2000: 8).
Assim, esta autora defende que é fundamental consultar textos paralelos na língua de chegada, que permitam delimitar as características que marcam o género jurídico em questão (Borja: 2007: 9).
Borja acrescenta que ao conhecer as convenções de um dado género textual, e ao familiarizar-se com a sua organização, os termos técnicos utilizados e a sua construção
9Informação sobre a autora disponível em: https://uji.academia.edu/AnabelBorjaAlbi (Consultado pela
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frásica, o tradutor, por um lado, será capaz de resolver problemas e tomar decisões tradutivas mais consciencializadas e, por outro lado, conseguirá obter um texto mais natural, ao aproximar a sua tradução à forma de expressão e aspetos formais inerentes ao género (Borja: 2007: 9).
Borja menciona ainda que a recolha de textos paralelos e a sua organização de acordo com o género em questão representa uma das melhores soluções para colmatar um dos problemas que mais assombram o tradutor de textos jurídicos: a falta de formação na área e a “necesidad de adquirir y gestionar conocimientos expertos sobre derecho (y sobre textos jurídicos en particular) en espacios de tiempo muy breves (…)” (Borja, 2007: 8).
Desta forma, sempre que recebia um projeto que se inserisse no âmbito jurídico, numa primeira fase, procedia à leitura e análise do texto de partida e uma vez identificado o género textual em questão, o passo seguinte compreendia a procura de documentos equivalentes na língua de chegada que pudessem representar uma fonte de referência. Assim, foi possível desenvolver os meus conhecimentos sobre o tema do texto em questão e familiarizar-me com a sua estrutura prototípica, isto é, o tipo de micro e macroestruturas utilizadas em português.
Com vista a classificar e analisar os textos de partida, foi necessário recuperar alguns dos conceitos aprofundados em unidades curriculares do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, nomeadamente o conceito de género e a tipologia textual desenvolvida por Reiss.
Partindo da definição de Alcaraz & Hudges (2002: 101), é possível definir género como “each of the specific classes of texts characteristic of a given scientific community or professional group and distinguished from each other by certain features of vocabulary, form and style, which are wholly function-specific and conventional in nature”.
Os autores sublinham que os textos que se inserem num dado género partilham entre si algumas características formais e estilísticas, das quais se destacam, uma mesma função comunicativa, uma macroestrutura semelhante, uma dada sequência textual predominante (por exemplo, narrativa, descritiva, etc.), estruturas sintáticas e lexicais em comum, e certas convenções sociopragmáticas, como, por exemplo, o uso de uma dada forma de tratamento (Alcaraz & Hudges, 2002: 102).
O conceito de género é crucial para o mundo da tradução, dado que a sua identificação permite que o tradutor dedique um olhar atento aos requisitos e funções abrangidas pelo texto original (Alcaraz & Hudges: 103). Deste modo, o tradutor é capaz de analisar minuciosamente a essência e traços característicos do texto com o qual está a
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trabalhar:
Genre equivalence allows translators to go beyond mere matters of lexical equivalence (polysymy, synonymity and related issues), syntactic equivalence (nominalization, passivity, modality, word order and similar considerantions) or stylistic equivalence (solemnity, formality, figures of speech and other rhetorical devices, severity or asperity of tone in oral utterances, and so on). (Alcaraz & Hudges: 103)
De forma a classificar os diversos tipos de géneros jurídicos traduzidos durante o estágio, é fundamental referir a tipologia textual desenvolvida por Katharina Reiss, que representou uma mudança de paradigma no mundo da tradução ao propor uma classificação textual com base nas principais funções da linguagem delimitadas por Karl Bühler (Reiss, 2000: 25-26):
Funções da linguagem Representação
Expressão
Apelo
Tabela 1 - Funções da linguagem (com base em Reiss, 2000)
Segundo Reiss (2000: 25-26), é possível associar a cada uma destas funções um determinado tipo de texto, marcado por uma dada finalidade e características:
Funções da linguagem Tipo de texto Características e principal finalidade
Representação Texto informativo
Centrado no conteúdo; destinado à transmissão de informação, realização de declarações ou descrição de situações; foca-se numa comunicação eficaz e na precisão da informação.
Expressão Texto expressivo
Centrado na forma; orientado para a expressão artística e, por isso, marcado pelo uso de diversos recursos linguísticos e estilísticos.
Apelo Texto operativo
Centrado no apelo ao recetor; apresenta a informação desde uma dada perspetiva e sempre com um
30 propósito específico: desencadear uma ação não-linguística.
Tabela 2 - Funções da linguagem, tipo de texto e características principais (com base em Reiss, 2000)
Por fim, Reiss (2000: 25-26) acrescenta que cada um destes tipos de textos apresenta uma dimensão linguística prevalecente:
Sob o espectro dos textos informativos, Reiss inclui os comunicados de imprensa, artigos de jornais, instruções de utilização, tratados, documentos oficiais, textos de
Funções da linguagem Tipo de texto Características e principal finalidade Dimensão linguística prevalecente Representação Texto informativo Centrado no conteúdo; destinado à transmissão de informação, realização de declarações ou descrição de situações; foca-se numa comunicação eficaz e na precisão da informação.
Lógica
Expressão Texto expressivo
Centrado na forma; orientado para a expressão artística e, por isso, marcado pelo uso de diversos recursos linguísticos e estilísticos.
Estética
Apelo Texto operativo
Centrado no apelo ao recetor; apresenta a informação desde uma dada perspetiva e sempre com um propósito específico: desencadear uma ação não-linguística.
Dialógica