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"Vamos lalunar?": experimentações do espaço público em Natal-RN

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Academic year: 2021

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CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTE DEPARTAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

LUCAS DO NASCIMENTO SANTOS

“VAMOS LA LUNAR?”: EXPERIMENTAÇÕES DO ESPAÇO PÚBLICO PELA POPULAÇÃO LGBT EM NATAL-RN

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“VAMOS LA LUNAR?”: EXPERIMENTAÇÕES DO ESPAÇO PÚBLICO PELA POPULAÇÃO LGBT EM NATAL-RN

Monografia apresentada ao curso de graduação em Bacharelado em Gestão de Políticas Públicas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, como requisito para conclusão e obtenção do título de Bacharel em Gestão de Políticas Públicas.

Orientadora: Prof. Dra. Soraia Maria do Socorro Carlos Vidal

Natal, RN 2019

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“VAMOS LA LUNAR?”: EXPERIMENTAÇÕES DO ESPAÇO PÚBLICO PELA POPULAÇÃO LGBT EM NATAL-RN

BANCA EXAMINADORA

Profª. Dra. Soraia Maria do Socorro Carlos Vidal

Prof. Dr. Paulo Victor Leite Lopes - DAN/UFRN

Prof. Dr. Anderson Cristopher dos Santos - DPP/UFRN

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“Caso esteja por vir Me reconheça ali Em um domingo de sol Ou um dia qualquer Apareça! Me leve a um lugar distante Me ajude a carregar Essa maleta Onde eu guardo meu cansaço E meus sonhos mais bonitos E um livro de receitas naturais E um terço pra um pai nosso Um pedaço pão E um lápis , um caderno E a vida de meus filhos Que é tudo que eu tenho E que é tão meu E que é tão seu também É o bem que te confio Caso esteja por vir” (Dentro ali - Luedji Luna)

Começo esses breves agradecimentos com uma frase que sintetiza tudo aquilo que pretendo dizer aqui: “nossos passos vêm de longe”. De forma geral, quero agradecer todos e todas que vieram antes de mim e que construíram as possibilidades para que hoje eu esteja finalizando o ciclo da minha graduação.

Agradecer os passos de Dona Maurina, Dona Zulmira e Seu Zé Eugênio, meus avós, que saíram do Catolé para Santa Cruz e por todo o esforço de manter nossa família unida, criar e educar tanta gente. Vocês são minhas maiores referências de sabedoria popular, sobre como viver sem perder a ternura mesmo passando por grandes dificuldades.

Agradecer aos meus pais, Maria Eugênia e José Humberto, por todo suporte e por acreditar em mim e nas minhas escolhas, mesmo quando não foram aquilo que vocês esperavam. Sei que posso contar com vocês e admiro muito suas histórias de vida, vocês são meus maiores exemplos de como ser forte. Agradecer à todas/os minhas/meus irmãs/ãos (que são muitos) que me acompanharam nessa trajetória, principalmente Luana, Mayse, Layane e Michele. À todas as minhas tias, minha família e meus amigos de Santa Cruz que estiveram presente em grande parte da minha vida, guardo boas lembranças.

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Luedji Luna, muitas pessoas me ajudaram a carregar minha maleta devo a todas por conseguir chegar até aqui, sou grato pela passagem de todas em minha vida.

Às pessoas que conheci em Gestão de Políticas Públicas e o Campo de Públicas, Suel Costa por sua história de vida, todos os conselhos e pelo exemplo de militante LGBT que se desafiou a construir um mundo menos “uó”, queria que você pudesse estar aqui e gritar na minha apresentação. À Attena e Andreska que se tornaram as calouras que quero levar para a vida. Às colegas que ingressaram em 2014.2, Maria Joyce, Luciara, Karol, Joelma e Patrícia, obrigado pela ajuda e pelo exemplo. Ao Centro Acadêmico Djalma Maranhão - CAGPP, Associação Oxente e FENECAP, na pessoa de Hannah, pela possibilidade de construir a luta por uma gestão pública de qualidade.

Aos amigos da UFRN que me ajudaram na caminhada mostrando que a universidade está para além das salas de aula. As pessoas de ciências sociais, do Movimento Estudantil, e do Movimento LGBT. Todas as conversas e trocas no Setor 2, CCHLA, 5º Dimensão, RU, circulares e viagens pelo Brasil.

Agradecer ao Levante Popular da Juventude, que me proporcionou tantas boas experiências, tantas pessoas maravilhosas, e que é possível se construir um projeto de nação para o povo! Sigo acreditando no Projeto Popular para o Brasil!

Às amigas de longa data, Lilian, Mariana que estiveram comigo em bons e maus momentos desde Santa Cruz, espero que possamos continuar construindo essa amizade. Aos que fui presenteado ao chegar em Natal e que tenho muito carinho, Suzanne, Guilherme, Ana Beatriz, Janaina, Felipe e todos que tenho um carinho grande!

Agradeço pelo privilégio de ter ingressado em um curso superior e por tudo que a UFRN me proporcionou. Aos governos do PT pela criação do REUNI e PNAES, políticas públicas que possibilitaram minha entrada e minha permanência, mesmo com as dificuldades no RU, com o valor do auxílio moradia e os 400 reais da bolsa, foram essenciais para minha sobrevivência.

Ao Departamento de Políticas Públicas - DPP, ao curso de Gestão de Políticas Públicas e todas/todos professoras/os que compartilharam seus conhecimentos e questionamentos, principalmente professoras Soraia, Wini e Glenda que tanto me ajudaram com seus diferentes olhares. À oportunidades criadas pelo curso, meu estágio na CBTU (obrigado Patrícia pela oportunidade e ter confiado em mim), bolsa de pesquisa com Professor Fernando Cruz, e a bolsa de Apoio Técnico na Comissão de Ética, obrigado pela chance, Bruma!

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em mim a vontade de pesquisar esse tema e abraçou, inicialmente, minha ideia e orientou este trabalho. Ao Professor Paulo Vitor Leite Lopes, por todo conhecimento e incentivo nestes primeiros passos na antropologia, obrigado pela orientação e por mostrar este campo tão vasto e desafiador.

Por fim, agradeço à banca examinadora Paulo, Soraia e Anderson por aceitarem estar nesse momento tão simbólico em minha vida.

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Este trabalho apresenta reflexões sobre o uso e a apropriação do espaço público na cidade do Natal - RN pela população Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis - LGBT, a partir da experiência do La Luna Bar e Petiscaria que está localizado na praça da Guerreira, no bairro Neópolis. Partindo de reflexões sobre a cidade e as desigualdades nas possibilidades de experimentações, usos e apropriações por diferentes grupos, chegamos ao caso do Lu Luna, um bar em uma praça, que tem como público alvo pessoas “LGBTQI+”, se constituindo em uma das poucas experiências atuais de apropriação de espaço público por este segmento na cidade do Natal.

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INTRODUÇÃO...7

CAPÍTULO 1: CIDADE E ESPAÇO PÚBLICO...10

1.1 A cidade:...10

1.2 O Espaço público:...16

CAPÍTULO 2: COLORINDO A CIDADE...21

2.1 OS/AS LGBTS E O ESPAÇO URBANO:...21

CAPÍTULO 3: O LA LUNA BAR E PETISCARIA...32

3.1 La Luna, história e caracterização:...32

3.2 “La Lunar”, as noites no La luna:...36

3.3 Comércio, estabelecimentos na Praça da Guerreira e encerramento da noite...53

CAPÍTULO 4: CIRCUITO, INTERNET, TRANSFORMAÇÕES E CONFLITOS...57

4.1 La Luna e o Circuito LGBT de Natal:...57

4.2 Comportamento:...60

4.3 Percepções na internet/redes sociais:...63

4.4 Conflitos e Transformações...67

CONSIDERAÇÕES FINAIS:...74

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INTRODUÇÃO

Este trabalho monográfico se apresenta enquanto uma etnografia do La Luna Bar e Petiscaria, localizado na Praça da Guerreira, no bairro Neópolis, Natal - RN. Através das noites de funcionamento do bar, proponho uma reflexão sobre o uso e apropriação do espaço público, nesse caso uma praça, por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais - LGBT.

A cidade é antes de tudo uma obra coletiva, construída e habitada pelas diferenças e pelos diferentes grupos. Marcada pela heterogeneidade, as cidades são experimentadas de diversas formas sendo o local de manifestação das estruturas sociais que condicionam as diferentes vivências com base em diversos aspectos, como: classe social, raça/etnia, gênero, sexualidade, idade, condições físicas e mentais, entre outros.

Assim, este lugar de encontro com o diferente, o outro, transforma-se em limitações e condicionamentos expressos na segregação espacial e social. Neste cenário, as/os LGBTs, por consequência do preconceito e discriminação entendidos enquanto LGBTfobia, tem suas possibilidades de experimentar a cidade cerceadas.

É partindo de reflexões sobre segregações espaciais e sociais, e direito à cidade que me proponho a refletir sobre o uso e a apropriação de espaços públicos pela população LGBT através do estudo de caso acima citado. Exemplos como o La Luna se constituem em experiências que destoam da norma, pontos de resistência que grupos marginalizados protagonizam nas cidades e a partir dessas modelam o espaço urbano.

Durante a graduação tive contato com matérias que tinham como objetivo refletir sobre as cidades, urbanismo, e direito à cidade, foi durante esses compartilhamentos de conhecimento que decidi abordar o espaço urbano nesta monografia e assim busquei me aprofundar na temática.

Neste período tive também contato com a antropologia e de forma igualmente excitante comecei minha jornada em um novo mundo. Discussões clássicas como natureza x cultura, etnocentrismo, estudos de relações étnico raciais, gênero e sexualidades, e outros debates com a mesma relevância me fizeram enxergar, ou buscar enxergar, através da luz da antropologia as nuances antes ignoradas.

Buscando estabelecer pontes entre os dois campos de saberes citados, conheço a subárea da antropologia urbana e logo sinto uma afinidade que me norteia até a formulação deste trabalho. Tenho esta como referência para a construção de um olhar antropológico sobre e na cidade, buscando compreender suas particularidades.

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A essa trajetória também se somou a minha militância no movimento estudantil e no movimento LGBT, que me levara a pensar a ocupação do espaço público por LGBTs. Logo, este se torna o tema desta monografia e me leva até o La Luna Bar e Petiscaria, já apresentado.

A proposta do presente trabalho é ser uma pesquisa de cunho qualitativo, construída através de observação participante, entrevistas semiestruturadas, conversas informais e buscas na internet sobre o La Luna, com os diversos usuários e atores presentes no bar.

As idas à campo ocorreram de janeiro de 2018 até janeiro de 2019, de forma revezada entre os dias da semana que o bar funciona com intenção de captar não apenas o que estava acontecendo no espaço, mas também as semelhanças e diferenças entre esses dias, fazendo com que a experiência no La Luna consiga se transformar em múltiplas possibilidades, trazendo a noção de que os espaços não são estáticos e sim mutáveis.

Durante a pesquisa de campo, realizei entrevistas com a gerência do bar, Vanessa, uma das donas, e com duas atendentes. Preferi utilizar o nome real de Vanessa pela sua posição, e obviedade, e por ter acordado com ela, já com as atendentes utilizo nomes falsos para resguardar suas identidades. Também foram feitas algumas conversas informais com o público e com alguns dos estabelecimentos que se fixaram no entorno da praça. Estabeleci esses contatos visando construir uma narrativa sobre o bar, através do que foi percebido por mim, enquanto usuário e pesquisador, e essa gama de atores que constroem o La Luna e a praça da Guerreira.

Durante as noites em campo busquei me orientar pelas reflexões da antropologia urbana, mais especificamente me atentando ao que Da Matta (1978) propõe sobre transformar o exótico em familiar e o familiar em exótico a fim de apreender as nuances do que acontecia no bar e com ele. Digo isso pois em muitos aspectos me assemelho ao público do La Luna, de forma que durante as idas à campo enquanto exercia tal papel de observador também assumia o papel de público de forma que minha presença ali não destoava ou causava estranhamento.

Em sua pesquisa sobre encontro festivos noturnos, Blázquez e Liarte-Tiloca (2018) refletem sobre a presença do observador no campo e de como durante esses momentos o papel de observador e público/participante não são rígidos, pelo contrário, suas fronteiras se confundem “Submersos nos devir dessas derivas, em um duplo papel de antropólogos e participantes das festas, nossos corpos se encontravam praticando aquilo que observávamos até tornar-nos consumidores consumidos pelas noites que estudávamos etnograficamente.” (BLÁZQUEZ e LIARTE-TILOCA, 2018, pg.205, tradução livre).

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Este trabalho se estrutura em quatro capítulos. No primeiro capítulo busco introduzir o debate sobre cidade, urbanização e espaço público, dando atenção a cada um desses pontos.

Nesse primeiro capítulo utilizo de autoras e autores, como Raquel Rolnik (2017), David Harvey (2012) Ermínia Maricato (1998), e Ulf Hannerz (2015), para embasar o debate sobre cidade, principalmente sobre o avanço do processo de urbanização, impulsionado pelo modo de produção capitalista, e as desigualdades que o constitui. Focalizando o debate nos elementos que constituem as cidades, como espaço público, praças e ruas, recorro a autoras e autores como Eneida Maria Souza Mendonça (2007), José Guilherme Cantor Magnani (1993, 2002), Roberto Da Matta (1997), e Lisabete Coradini (1995).

No segundo capítulo busco inserir as reflexões sobre a população LGBT, estabelecendo as relações com espaço público e as possibilidades/negações de uso e apropriação por este segmento. Procuro apoio nas reflexões de Angelo Serpa (2004), Herek (1992), Sérgio Carrara (2016), Isadora Lins França (2006), Regina Facchini (2012), Júlio Assis Simões e Regina Facchini (2009), Paulo Jorge Vieira(2011), e Eve Sedgwick (2007).

No terceiro capítulo me volto para a pesquisa etnográfica, buscando apresentar o que foi observado em campo junto a referências bibliográficas para munir as reflexões propostas. Assim, caracterizo o espaço geográfico no qual o La Luna está inserido trazendo um pouco do bairro Neópolis e os arredores do bar. Seguindo, trago a caracterização do bar, descrevendo o espaço da praça da Guerreira e como costuma acontecer a distribuição espacial durante as noites de funcionamento do bar, apresento a gerência, a equipe, e o funcionamento.

Após essas primeiras descrições, busco identificar o público presente no bar me atentando ao que é compartilhado, mas, também, as diferenças presentes, formando um público diverso composto por grupos que aparentam compartilhar um estilo de vida, mesmo se diferenciando internamente a partir da observação de aspectos como vestimentas, cortes de cabelo e penteados, gírias, corporeidades, consumo, entre outros. É também neste momento que trago aquilo que acontece no bar, os fluxos, as interações, comercializações, música, dinâmica e comportamento no/do bar.

Por fim, no quarto capítulo, busco estabelecer as conexões na cidade que o La Luna faz através de seu público, inserindo-o em um “circuito” (Magnani, 2002) de lazer voltado as/os LGBTs. Também procuro trazer percepções captadas na internet, através de sites que possibilitam avaliar e comentar sobre o bar, bem como as suas redes sociais e menções feitas pelos frequentadores, principalmente na rede social Twitter. Para finalizar, trago os conflitos nos quais o bar esteve/está envolvido, como os mantidos com a vizinhança, e as implicações que se desenvolvem a partir desses. Encerro com as transformações percebidas através das

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idas a campo, da percepção da gerência/equipe do bar aprofundando alguns aspectos que pude acessar a partir do público durante os relatos/conversas estabelecidos.

CAPÍTULO 1: CIDADE E ESPAÇO PÚBLICO.

Neste capítulo faço uma exposição sobre a cidade e o processo de urbanização que é intensificado com o modo de produção capitalista. Neste contexto, as possibilidades de moldar o espaço urbano se dão de forma desigual, gerando diferenciações nas oportunidades de seu uso e apropriação, se materializando em segregação sócio espacial.

Serão aprofundados os elementos rua e praça, com intuito de embasar a discussão feita a partir do estudo de caso. Aqui também será feito o debate sobre espaço público, trazendo as modificações de seus usos após o acesso a este pelas camadas populares.

1.1 A cidade:

É quase impossível pensarmos na sociedade moderna sem a ligarmos diretamente as cidades. A cidade surge como o local que centraliza as demandas sociais, políticas e organizativas dos seres humanos. Como nos aponta Rolnik (1988), a cidade é uma obra coletiva, que se molda através da história para atender as necessidades de cada tempo, partindo da Cidade antiga, que era fechada, vigiada e protegida contra ameaças externas até nossas cidades contemporâneas, onde impera o fluxo, a velocidade e a quebra de muros físicos, convidando aqueles que passam a conhecê-la e vivenciá-la.

Para conhecê-la é preciso estar disposto a ver suas formas, escutar suas histórias, sentir suas materializações. Assim como quando conhecemos alguém novo, que não sabemos sobre sua vida e seus anseios, precisamos que esse desconhecido nos fale sobre si. A cidade consegue nos contar mais sobre ela do que imaginamos, pois, “a cidade é também um registro, uma escrita, materialização de sua própria história” (Rolnik, 1988, pag. 9). Assim, conhecê-la significa andar por suas ruas, sentar nos bancos de suas praças, observar suas estéticas e os fluxos de todas as pessoas que circulam por seus bairros e avenidas.

Entretanto, existem aspectos sociais envolvidos em uma trama mais complexa da vida em sociedade que necessitam de um olhar mais atencioso e crítico para que possam ser entendidos. A cidade que Rolnik afirma ser antes de mais nada um ímã, ao mesmo tempo que atrai e aglomera também repele e expulsa, ou melhor afasta de seu “centro” aquilo que não se constitui enquanto interessante.

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Com a expansão do processo de urbanização e o crescimento das cidades, surge a necessidade da gestão e administração de seus recursos, seguindo o pensamento de Rolnik “Da necessidade de organização da vida pública na cidade, emerge um poder urbano, autoridade político-administrativa encarregada de sua gestão” (Rolnik, 1988, pag. 20), caberia a esse poder urbano gerir a vida coletiva, sendo responsável pela “coisa pública” que não pertence a ninguém individualmente, mas pertence a todos coletivamente.

Assim, o poder urbano acompanha as mudanças nos sistemas de governo, bem como nas diversas formas de governar, estando sob controle da realeza durante os regimes monárquicos de forma extremamente centralizado, até as democracias atuais, onde se tem uma noção mais descentralizada do poder, consequentemente do poder urbano. Aqui também se fortalece e consolida a ideia de Estado que em nossa sociedade moderna é quem passa a gerir o espaço urbano.

É durante esse processo de expansão que a cidade ganha novos sentidos, passando a ser regida a partir da lógica de mercado que a reorganiza e passa a atrair uma enorme quantidade de pessoas, que migram dos campos e direção ao espaço urbano. Com esse grande número de pessoas migrando para a cidade, ocupar da terra urbana se torna um problema. Antes o que não pertencia a ninguém e, comumente, só precisava ser ocupada, passa a ser entendida como mercadoria, ou seja, a mercantilização junto com a noção de propriedade do espaço, transforma a terra urbana em um item que se pode atribuir valor e ser comercializado, como sapatos, comida ou gado.

Se em um primeiro momento imaginamos a cidade como um espaço heterogêneo, que atrai e aglomera, e é habitada pela diversidade, a partir de um olhar mais crítico e entendendo a mercantilização da terra urbana, percebemos que esse espaço é atravessado por desigualdades e traz em sua constituição as estruturas sociais hegemônicas presentes em nossa sociedade moderna/industrial.

Sua configuração enquanto local de moradia e trabalho só é possível mediante o excedente da produção, ou seja, aquilo que se produz para além das necessidades de consumo. Harvey, em seu artigo “O direito à Cidade” (2012), nos mostra essa conexão entre o processo de urbanização e o desenvolvimento do capitalismo “… a urbanização sempre foi um fenômeno de classe, já que o excedente é extraído de algum lugar e de alguém, enquanto o controle sobre sua distribuição repousa em umas poucas mãos” (pg.74), assim dentro da lógica de classe, a cidade ganha novas formatações, atendendo as demandas do Capital e seu desejo de expansão contínua.

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O espaço urbano passa a ser organizado através do viés de classe, onde podemos observar um grupo que detém os meios de produção, riquezas e bens e outro grupo, entendido como classe trabalhadora, que detém apenas sua força de trabalho e a comercializa. Nesse contexto de privilegiados e despossuídos, as desigualdades ganham formas materiais. Focando no espaço urbano, essas desigualdades irão se concentrar naquilo que os estudiosos da cidade classificam como segregação urbana. Sendo o Estado um dos agentes ativos que atuam no reforço da diferenciação e separação da cidade.

Ermínia Maricato nos mostra em seu trabalho “Habitação e cidade” (1998) que durante o século XX, no Brasil, a ação estatal, através de seus investimentos, vai consolidar essa cidade segregada, que a autora categoriza seu centro. Este recebe grandes investimentos e servirá de morada para os privilegiados, como cidade hegemônica ou oficial e seus subúrbios e periferias, carentes de investimentos e ações estatais para além da repressão e marginalização, como a cidade informal.

Sendo assim, a segregação espacial pode ser entendida como divisão espacial da cidade que não se baseia na geografia ou cartografia para desenhar seus limites, estabelecendo a divisão espacial a partir de marcadores sociais como classe, raça, gênero, sexualidade, idade, entre outros, bem como a finalidade dos espaços, como espaços para morar, espaços para trabalhar, espaços para lazer, dentre outras.

Nessa perspectiva, é atribuído a possibilidade de uso ou passagem para determinados grupos em detrimento da negação do uso, apropriação e trânsito desse espaço para outros grupos, conformando vivências distintas na cidade. Essa possibilidade/negação do uso pode se manifestar de forma material, como os muros dos grandes condomínios que delimitam quem pode e quem não pode acessar o espaço que eles demarcam, ou pode ser uma limitação na esfera simbólica “É como se a cidade fosse demarcada por cercas, fronteiras imaginárias, que definem o lugar de cada coisa e de cada um dos moradores” (Rolnik, 1988, pag.41). Essa limitação simbólica faz com que o grupo que usualmente utiliza determinado espaço consiga, através de seus códigos, símbolos, signos e formas de se comunicar, se reconheça enquanto grupo e consequentemente consiga identificar aqueles que não fazem parte, ou seja, o “outro” no sentido de alteridade.

O contrário também é verdadeiro, o “outro” consegue se perceber enquanto diferente utilizando o mesmo recurso de observação da esfera simbólica e a partir disso conceber que está em um espaço “estranho”, ao qual não pertence ou não tem ligação. Para exemplificar, podemos apontar algumas situações que poderiam causar estranhamento se fossem observadas, como: um idoso rodeado por adolescentes que estão em um “rolezinho” na praça;

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um jovem negro, pobre, na área de lazer de um condomínio de luxo; uma travesti durante o dia em uma praça pública. Todas essas situações hipotéticas tentam expor como esse contraste e a noção de “cada um no seu quadrado” está presente no imaginário social.

Contudo, não é apenas a lógica de classe e o entendimento da cidade enquanto mercadoria que produz a segregação espacial. Como apontado acima, o Estado manifestado através do poder público e suas ações, é um dos fortes produtores da segregação espacial. Sendo a cidade uma arena de disputas, os investimentos do poder público estão constantemente sendo demandados por diferentes grupos, e o que podemos observar é que, recordando aquilo que Harvey (2012) nos diz sobre concentração do poder, esses investimentos são distribuídos de forma desigual se concentrando em locais nobres da cidade, e chegando de forma escassa, ou não conseguindo chegar, nas periferias. Desta forma, se torna visível o tratamento desigual que o poder público tem para com os diferentes espaços das cidades.

Essa desigualdade pode se materializar, por exemplo, na oferta de equipamentos públicos nas diferentes zonas das cidades, ou nos diferentes bairros. Enquanto alguns bairros ou zonas concentram equipamentos de saúde (Unidades Básicas de Saúde - UBS, Unidades de Pronto Atendimento - UPA, Pronto socorro, entre outros), educação (escolas, creches), lazer e cultura (praças, parques, teatros, cinemas), outros bairros e zonas possuem poucos desses equipamentos, para uma quantidade maior de usuários, além de alguns desses se encontrarem sucateados, com poucos ou nenhum recurso para funcionar, como escolas sem água, praças deterioradas, ausência de saneamento básico, acúmulo de lixo nas ruas e canteiros, entre outras situações por vezes caracterizadas como problemas urbanos.

Uma caminhada pela cidade em diferentes localizações, por exemplo, um bairro “bem localizado”, onde os habitantes são, em sua maioria, classe média ou ricos e um bairro periférico, distante do centro político-administrativo da cidade, onde habita as classes populares, seria um bom exercício para conseguir observar a materialidade do que vem sendo exposto.

Não podemos esquecer que a localização e a oferta de equipamentos públicos, comércio e serviços afetam diretamente o preço da terra urbana, sendo assim um bairro “bem localizado” e que tenha ao seu entorno a oferta desses serviços provavelmente terá o preço de sua terra alto e isso impede que pessoas das classes populares consigam adquirir um imóvel ou permanecer nessa parte da cidade1.

1Este processo de expulsão da população, principalmente as classes populares, por consequência de diversas estratégias que impossibilitam a permanência em determinadas partes das cidades tem sido categorizado como “gentrificação” ou “gentrification” no inglês.

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Se agora podemos entender a cidade não como uma entidade coletiva, mas como um espaço dividido e segregado, precisamos entender que as ações que produzem a segregação espacial, seja através do Estado ou das forças do Capital, encontram movimentos que as questionam e tentam subvertê-las. Por exemplo, os movimentos populares que tem como pauta a luta por moradia e acesso à terra urbana e seus serviços e equipamentos. Na Academia, o debate sobre direito à cidade e pesquisas sobre o espaço urbano que problematizam suas desigualdades também servem como exemplo.

Durante os processos de reformas urbanas no Brasil, que ocorreram no início do século 20, podemos citar o caso do Rio de Janeiro, na época capital federal, chamado de “regeneração”, que tinha como objetivo afastar do centro da cidade a população negra, pobres e pessoas em situação de rua, bem como tudo que estivesse ligado a suas vivências. Como ferramenta, foram demolidos diversos cortiços que serviam como moradia para esse grupo. Essa política higienista que tenta mascarar a pobreza presente nas cidades encontra seu ápice na revolta da vacina, onde a população revoltada pelo descaso por parte do poder público, resultando no crescente déficit habitacional e falta de acesso a equipamentos e serviços como à saúde, se nega a tomar a vacina obrigatória contra varíola.

Antes de me ater ao estudo sobre o direito à cidade, quero ressaltar a importância dos estudos sobre a cidade e sobre urbanismo realizados pela Escola de Chicago que executou grandes pesquisas sobre diversos fenômenos que aconteciam na cidade de Chicago no início do século XX. Ulf Hannerz (2015) no segundo capítulo do seu livro “Explorando a cidade: em busca de uma antropologia urbana”, faz uma exposição sobre esta escola e seus pesquisadores, apontando que:

A partir da Primeira Guerra Mundial e durante toda a década de 1930, os sociólogos da Universidade de Chicago realizaram uma série de estudos baseados em investigações de sua própria cidade, que foi geralmente reconhecida como o início dos estudos urbanos modernos, e como o conjunto de pesquisas sociais mais importantes sobre qualquer cidade do mundo contemporâneo. (HANNERZ, 2015, pg.26)

Em outra perspectiva, ainda dentro da Academia, o debate sobre como a cidade é vivenciada de formas desiguais encontra força nos trabalhos de Henri Lefebvre, na década de 60 e mais tarde na produção de David Harvey. Esses e outros pensadores se propõem a refletir sobre como se deu o processo de urbanização no mundo, fazendo uma análise crítica da realidade. Buscam observar as ligações entre o processo de urbanização e o desenvolvimento do sistema capitalista e suas consequências na vivência urbana dos diferentes atores sociais presentes nas cidades.

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Hoje em dia, esse debate conseguiu se aprofundar e perceber que não apenas a classe social interfere diretamente na experiência urbana, outros marcadores sociais como raça/etnia, gênero, sexualidade, geração, entre outros, atribuem características específicas na forma como os sujeitos podem usufruir da vida urbana. Esses questionamentos e reflexões convergem naquilo que é conhecido como Direito à cidade. Para Harvey:

O direito à cidade está muito longe da liberdade individual de acesso a recursos urbanos: é o direito de mudar a nós mesmos pela mudança da cidade. Além disso, é um direito comum antes de individual já que esta transformação depende inevitavelmente do exercício de um poder coletivo de moldar o processo de urbanização. (HARVEY, 2012, pg. 74)

Harvey nos mostra que o direito à cidade está para além de poder habitar e utilizar o espaço urbano de forma mais democrática e igualitária, ele almeja que todos consigam moldar as cidades e como consequência se moldar. O autor também nos chama atenção para o caráter coletivo uma vez que o espaço urbano é necessariamente um espaço social, ou seja, habitado em conjunto.

Quando se fala em moldar o espaço urbano, podemos imaginar que estamos falando de participação e capacidade real de deliberação na tomada de decisão na gestão da cidade, mas o que observamos é uma realidade oposta. Essa capacidade de moldar repousa sobre as mãos de um pequeno grupo, detentor de grande poder econômico, que administra a utiliza de forma individualista, favorecendo seus pares em detrimento da grande massa. Uma das consequências dessa gestão de poucos é a segregação sócio/espacial, como já foi exposto acima.

Todavia, mesmo com a centralidade de poder político e econômico repousando em poucas mãos, a construção da cidade não se dá apenas por essa via. As classes populares e outros atores políticos são responsáveis não apenas pela construção do espaço urbano como também por (re)moldar espaços estabelecidos.

São inegáveis as ações diárias de grupos que historicamente foram postos às margens, da sociedade e das cidades, que se manifestam como consequência da construção de uma cidade que não os enxergam e nem é feita para eles. Essas ações são norteadas por um grito de reivindicação do espaço, que vão do grafite, arte urbana, até ocupações e formulação de demandas a fim de serem atendidas.

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Com o que já foi exposto sobre a cidade, sua formação histórica e como essa é atravessada pelas desigualdades e pelas estruturas hierarquizantes presentes em nossa sociedade ocidental, vamos refletir um pouco sobre sua formação material, como ela se divide e é pensada. Tendo como modelo as cidades ocidentais, é muito difícil imaginá-las sem alguns componentes que servem para estruturar, ordenar e administrar o espaço urbano, são eles: Ruas e avenidas; bairros e zonas administrativas; praças e espaços públicos de uso coletivo.

Para entendermos esses componentes precisamos pensar que a cidade também se organiza observando duas categorias, aquilo que pertence à esfera do público e aquilo que pertence à esfera do privado. Como exemplo, podemos identificar que aquilo que é coletivo e está sob responsabilidade do poder público se encaixa na esfera do público, como as ruas, praças e parques. Aquilo que está ligada a propriedade privada, a individualidade, se encaixa na esfera do privado, como a casa. Essa lógica de Público/Privado não serve apenas para nortear a gestão da cidade, serve também para pensarmos a vivência dos sujeitos e as relações sociais, nuance que irei aprofundar no decorrer do texto.

Para compreendermos melhor o espaço público, precisamos recorrer a história para resgatar algumas considerações no que tange suas mudanças, seu uso e apropriação. Com ajuda de Mendonça (2007), voltamos até o processo de modernização do espaço urbano no século XIX, acontecido em cidades europeias até ganhar perspectivas internacionais, e que contribuiu para modificações das cidades e dos hábitos sociais daqueles que ali moravam. Para além do desenvolvimento da infraestrutura urbana, podemos notar a inserção cada vez maior de elementos como as praças, parques e “boulevard” com objetivo de amenizar os impactos do processo de industrialização nas cidades.

Esses elementos modificaram os trajetos e fluxos dos habitantes, sendo, não coincidentemente, apropriados em primeiro momento pelas elites, que dispunham de tempo livre e a possibilidade de uso desse tempo para além do trabalho, podendo destiná-lo, por exemplo, ao lazer. Entretanto, a partir das lutas por direitos trabalhistas e melhores condições de vida/trabalho, como a redução das jornadas de trabalho, os e as trabalhadores/as conseguem por volta do século XX acessar os espaços públicos, entendendo esses lugares como passíveis de atividades para além do trabalho.

Esse processo de popularização dos espaços públicos traz consigo uma maior demanda pela criação de novos espaços unida a reivindicações de possibilidade de uso dos mesmos. Nesse sentido, o transporte público se torna um elemento definidor sobre a oportunidade uso desses equipamentos,

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...o aperfeiçoamento dos meios de transporte, ao inserir na atividade diária os deslocamentos metropolitanos, amplia as possibilidades e as abrangências de utilização dos equipamentos urbanos de um modo geral, incluindo os espaços públicos, permitindo até mesmo, sua utilização em âmbito regional (MENDONÇA, 2007, pg.302).

Sendo o principal meio de locomoção de grande parcela da sociedade, principalmente das classes populares, possibilitando fluxos, trajetos e acesso a cidade, esse também pode ser um elemento que limita a vivência urbana quando observamos, por exemplo, as rotas e as “linhas” disponíveis para a população, a conexão entre as áreas e zonas administrativas das cidades, a ligação das regiões metropolitanas e o valor praticado pelas passagens. Todos esses fatores determinam a circulação e os fluxos dentro das cidades.

Outro elemento definidor da apropriação e uso dos espaços urbanos na atualidade é violência urbana, geralmente associada às grandes cidades, mas que também tem afetado o cotidiano de médias e pequenas cidades. A violência urbana ganhou destaque na mídia de massas através dos polêmicos programas policiais, que constroem uma narrativa com base em assuntos que envolvam a segurança pública, propagando a difusão do medo.

Nesse cenário de insegurança presente no imaginário social, o uso e apropriação do espaço público é dificultado, dando abertura para alternativas privadas, controladas e monitoradas por mecanismos privados de segurança, como os condomínios fechados e suas áreas de lazer restritas, reforçando a segregação sócio espacial nas cidades, como afirma Caldeira apud Mendonça “diferentes grupos sociais, especialmente das classes mais altas, têm usado o medo da violência e do crime para justificar tanto novas tecnologias de exclusão quanto sua retirada dos bairros tradicionais dessas cidades” (CALDEIRA apud MENDONÇA, 2007, pg.303). É importante frisar o marcador de classe como elemento que possibilita o acesso a essas tecnologias, uma vez que esse estilo de vida é economicamente inviável para as camadas populares. Ainda seguindo o raciocínio das autoras temos que:

o novo padrão de segregação urbana baseado na criação de enclaves fortificados representa o lado complementar da privatização da segurança e transformação das concepções do público”, exemplificando, “a emergência de um novo padrão de organização das diferenças sociais no espaço público (CALDEIRA apud MENDONÇA, 2007, pg.303)

O que está sendo discutido é que conforme a popularização do espaço público acontece, bem como a popularização da cidade, determinados grupos, pertencentes às elites e camadas privilegiadas da sociedade, conseguem desenhar novas formas ou novos meios de estabelecer a diferenciação entre eles e o outro lado desse espectro, os marginalizados. Cabe neste trabalho reafirmar que não apenas o marcador de classe aparece como elemento de

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diferenciação, outros marcadores como raça e sexualidade influenciam o acesso e apropriação desses espaços.

Seguindo a discussão sobre os elementos do espaço público, o primeiro passo para pensarmos esses espaços é entender que a cidade é construída intencionalmente atendendo aos interesses daqueles que possuem o poder de moldá-la e conseguem mobilizar essas mudanças através de diferentes estratégias. Esse poder está em constante disputa por diversos grupos, consequentemente esses espaços que servem como ordenamento da cidade são construídos com o propósito de cumprir esses interesses.

Assim, decidir onde determinada rua vai passar, em que lugar é mais interessante construir um novo viaduto, em qual bairro construir uma nova praça, tem como plano de fundo um jogo de interesses onde podemos observar a presença de aspectos socioeconômicos que influenciam diretamente nessas deliberações “... a forma do ambiente urbano se encontra necessariamente relacionada às articulações dos interesses e esforços sociais e econômicos, envolvendo neste sentido, as pessoas, seus desejos e intenções.” (MENDONÇA, pg.297, 2007).

A partir dessa discussão, podemos nos ater a dois elementos que nos auxiliaram no debate proposto pelo presente trabalho, sendo eles: a rua e a praça.

Sobre a rua, como primeira impressão, podemos imaginá-la como um trajeto, local de passagem que serve como meio de deslocamento de um espaço à outro. Para além disso, Mendonça (2007), em diálogo com Lamas, nos mostra que a rua é estruturadora do traçado, através dela podemos estabelecer as formas de ligar os diversos espaços da cidade. A rua também estabelece ligação direta sobre como a cidade vai ser construída, regulando a disposição dos prédios e equipamentos urbanos, organizando a forma urbana nas suas diferentes dimensões “ a rua ou o traçado relaciona-se diretamente com a formação e crescimento da cidade de modo hierarquizado, em função da importância funcional da deslocação, do percurso e da mobilidade de bens, pessoas e ideias” (LAMAS apud MENDONÇA, 2007, pg.298).

Neste sentido, a rua, em primeiro momento, é responsável pela possibilidade de ir/chegar em qualquer local, tendo também o papel de modelar o espaço urbano, sendo reflexo dos interesses daqueles que detêm recursos necessários para transformar as cidades conforme planejam. Uma boa situação para pensarmos isso é a Copa do Mundo, organizada pela Federação Internacional de Futebol - FIFA, que aconteceu no Brasil em 2014. Diversas reformas aconteceram nas cidades brasileiras que serviram como sede para os jogos do campeonato. Reformas como duplicação ou expansão de avenidas, construção e reforma de

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estádios, entre outras, tiveram como consequência de sua execução, desapropriações, realocação/expulsão dos moradores2 e outros transtornos como reformas não finalizadas,

intensificando problemas como moradia e mobilidade urbana.

Essa situação consegue exemplificar como o traçado/fluxo das cidades interferem diretamente na vivência dos habitantes das cidades, de formas diferentes sendo uma melhoria urbana para os grupos que podem utilizar desses novos equipamentos e negação da cidade para os moradores que foram expulsos de suas casas.

Buscando outro ângulo de percepção, encontramos na antropologia um olhar mais “sensível” ao que seria a rua, bem como suas funções e atribuições. Desta forma, Magnani (1993) nos mostra que é possível visualizar na rua elementos para além da sua materialidade enquanto local de fluxo ou possibilidade de ir e vir. Buscam-se as experiências na rua e com a rua.

É a rua que resgata a experiência da diversidade, possibilitando a presença do forasteiro, o encontro entre desconhecidos, a troca entre diferentes, o reconhecimento dos semelhantes, a multiplicidade de usos e olhares - tudo num espaço público e regulado por normas também públicas. (MAGNANI, 1993, pg.2)

Indo ao encontro de intelectuais como DaMatta (1997), percebemos na rua a esfera pública, regida pelas normas públicas/leis sobre o aspecto universalista, em contraponto a casa, que representa a esfera do privado onde encontramos outra normatividade que rege a experiência nesse local, bem mais individual e sem necessidade de universalidade, pois envolve outras relações sociais.

Sobre a praça, Mendonça (2007) traz uma discussão conceitual entre alguns autores (Lamas, 1993; Carneiro e Mesquita, 2000; Robba e Macedo, 2002), que definem de formas diferentes o espaço da praça, porém em suas exposições existem um elemento comum que é o caráter de intencionalidade da permanência. Assim, diferentemente da rua que é planejada para o fluxo, a passagem, a praça é intencionalmente um local de permanência, sendo planejado o encontro, o convívio social:

A rua como “lugar de circulação” e a praça como “lugar intencional do encontro, da permanência, dos acontecimentos, de práticas sociais, de manifestações de vida urbana e comunitária e de prestígio, e, consequentemente, de funções estruturantes e arquiteturas significativas (LAMAS apud MENDONÇA, 2007, pg.298)

Sendo planejada para a permanência e para o encontro, a praça se transforma em um palco da vida urbana, que pode romper com “... nosso sistema, em que o indivíduo é o foco da

2 Uma série de trabalhos acadêmicos, bem como notícias e reportagens, foram elaborados sobre os impactos e o legado deixado pela Copa do Mundo de 2014.

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maioria das ações da vida cotidiana e todos os espaços são marcados individualizadamente” (Da Matta, 1997, pag.40) por possibilitar uma experiência coletiva no espaço público urbano. Temos na praça, a expressão moderna da Ágora, que pode ser entendida como a praça central da Polis (cidade grega da antiguidade clássica) onde acontecia a vida pública e política dessa cidade antiga. Nas pequenas e médias cidades brasileiras, a praça se torna o centro da vida social, concentrando os habitantes que almejam convívio social mais amplo, lazer, encontros ou se inteirar da cotidianidade urbana, coloquialmente “saber da vida dos outros”.

Enxergando a praça através desse viés, enquanto palco, podemos através desse espaço visualizar e compreender a dinâmica e as transformações que estão constantemente ocorrendo nas cidades, e de uma forma mais ampla na sociedade que essas estão inseridas. Um bom exemplo sobre essa perspectiva é o trabalho realizado por Lisabete Coradini (1995), onde a autora traz enquanto objeto de estudo a Praça XV, em Florianópolis, e a partir da praça tece a história da praça e da cidade fazendo análises daquilo que ocorre na praça e com a praça:

A Praça possibilita, portanto, uma leitura da cidade desde sua fundação. Diferentes concepções e projetos da cidade vão ao longo do tempo sendo ali implantados. Ao detectar as diferentes representações da Praça ao longo do tempo, procuro captar as transformações e o conjunto de significações e apropriações que foram produzidas ao longo do tempo. A memória e as diferentes reinvenções da tradição são impressas no cotidiano da cidade. (CORADINI, 1995, pg.18)

Assim os elementos acima abordados se apresentam enquanto interessantes meios de observação da realidade, nos auxiliando enquanto espaços possíveis de captação e análise sobre a vida das cidades, o cotidiano, as relações e interações, a produção e apropriação dos espaços urbanos, e em uma instância mais ampla da sociedade.

Aqui discutimos a formação das cidades e o processo de expansão do urbanismo. As desigualdades de acesso que se expressam na segregação sócio espacial nos leva a pensar sobre as diferentes vivências e experimentações que acontecem no, e com o espaço urbano. O espaço público com seus elementos, neste caso a rua e a praça, serve como palco para observação da realidade e que são capazes de contar as histórias e as dinâmicas neles inseridas.

No próximo capítulo procuro mostrar a inserção da população LGBT dentro do debate da cidade, buscando refletir sobre possibilidades e negações, bem como estratégias de uso e apropriação do espaço urbano.

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CAPÍTULO 2: COLORINDO A CIDADE

Neste capítulo busco inserir questões voltadas à população LGBT, trazendo de forma breve sua história e construção enquanto movimento, com demandas e ações próprias. Apresento ainda a relação entre os/as LGBTs e o espaço urbano, buscando expor a vivências e problemáticas que refletem diretamente na possibilidade de uso e apropriação dos espaços públicos por estes/as sujeitos/as.

2.1 OS/AS LGBTS E O ESPAÇO URBANO:

Os espaços públicos das cidades, enquanto lugares de livre acesso, são para uso coletivo, consequentemente nesses espaços há maior possibilidade que aconteça o encontro com o outro, e aqui entende-se o outro no sentido mais simples de alteridade, ou seja, o diferente. Sendo o espaço de encontro, também será o lugar do estranhamento entre os diferentes. Ângelo Serpa (2004), baseado nas reflexões de Lefebvre, mostra que o espaço público é social e traz em si as representações das relações de produção, que por sua vez encaixa as relações de poder no mesmo. Em outras palavras, a estrutura social e a hierarquização existente na sociedade é posta dentro desses espaços e a partir disso começa a moldá-lo.

Quando se é posto que as relações de poder existentes na sociedade são reproduzidas no espaço urbano, e que isto o molda, significa afirmar que nele estigmas e desigualdades sociais poderão ser expressados e percebidos. Consequentemente, este deixará de ser universal, limitando seus usos e trazendo à tona a segregação sócio espacial, perdendo de certa forma sua capacidade de proporcionar “encontros”.

Trazendo um exemplo bem simples para facilitar a reflexão, é a divisão territorial das cidades, existindo bairros nobres, com a terra urbana altamente valorizada e as favelas e periferias, deixando nítido quais indivíduos conseguem habitar cada um desses territórios. A cidade é atravessada por fronteiras e delimitações, físicas ou não, permeáveis e mutáveis, que constroem diferentes desenhos dentro de um mesmo espaço geograficamente definido.

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Como ponto de encontro das diferenças, em seu ideal, seria no espaço urbano onde a heterogeneidade que o conforma encontraria a possibilidade de uma convivência harmoniosa entre tantos grupos e corpos que circulam por suas ruas e residem em seus diversos territórios. Porém, a realidade é diferente, existem fatores que definem a vivência urbana, marcadores sociais como sexualidade, gênero, cor/raça e classe, e interferem diretamente no acesso e no trânsito nos diferentes espaços da cidade.

Nesse contexto, as e os Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - LGBT, que se configura enquanto uma minoria política, sofre com a falta de acesso a cidade, e a principal causa deste problema é a LGBTfobia que se manifesta na forma de violências físicas e simbólicas. São recorrentes os casos de discriminação sofridas pelo grupo em parques, praças, ruas e estabelecimentos comerciais, de supermercados a espaços de lazer.

Historicamente esse grupo enfrenta obstáculos na vida social, fruto de uma cultura onde sexualidades e identidades não-hegemônicas são vistas como aberrações, anormalidades, que ferem a moral, sendo tratados como crimes em alguns países, e até recentemente como doença3.

Fugindo de ideias homogeneizantes, dentro da própria população LGBT, a possibilidade de vivenciar a cidade se dá de forma diferente. Os marcadores acima citados interseccionam com os marcadores de sexualidade e identidade de gênero, construindo essas diversas formas de acessar o espaço urbano, atentando a especificidades de cada um dos segmentos que estão enquadrados neste grupo.

Com o decorrer da história, esses sujeitos, articulados politicamente, se tornaram o hoje chamamos de Movimento LGBT, que em primeiro momento se identifica como Movimento Homossexual, e tem como uma de suas principais demandas o direito de vivenciar suas identidades sexuais e/ou de gênero no espaço urbano sem sofrer repressão policial ou de outros grupos.

Para melhor exemplificar, falemos do que se entende como marco inicial do movimento LGBT, a Revolta de Stonewall. Stonewall Inn é um bar localizado no bairro Greenwich Village, em New York - EUA. Bastante frequentado por gays, lésbicas, bissexuais, travestis e drag queens, sofria constantemente com “batidas” e abordagens violentas da polícia, até que em 1969, como ato de resistência, os frequentadores do bar enfrentaram a

3 Apenas em meados de 1990 a homossexualidade deixa de ser tratada como disfunção mental pela Organização Mundial de Saúde - OMS. Em 2018 a transexualidade deixou de fazer parte do rol de doenças do International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems (ICD), que é um manual de diagnósticos que serve como texto de referência à Organização Mundial da Saúde - OMS .

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violência policial em um protesto que durou três dias e reivindicava o fim da intolerância e da repressão sofridas pelo grupo.

O Marco de Stonewall serve para exemplificar como a demanda por direito à cidade está atrelada a população LGBT, que desde sua formação, compreendeu a relevância de se lutar por transformações na sociedade, e que estas se expressariam no espaço urbano, modificando-o.

Vale salientar que esta demanda ainda se faz presente na agenda do movimento LGBT nos dias de hoje, tendo em vista que o espaço urbano ainda se apresenta como hostil para o grupo. Outro ponto é que a reivindicação da possibilidade de uso e vivência do espaço se apresenta de forma mais forte no âmbito urbano, pelo fator de aglomeração das cidades, entretanto também se faz presente no espaço rural, de forma mais tímida. Assim, sobre a relação entre a população LGBT e espaço urbano, considero existir duas grandes problemáticas.

A primeira, diz respeito a vivenciar a cidade. Sendo o espaço urbano esse local de aglomeração, que possibilita o encontro com o outro, o diferente, é nele que encontramos a possibilidade, ou uma maior probabilidade tendo em vista sua formação heterogênea, de visualizar as desigualdades sociais de forma mais acentuada, como já foi falado à segregação sócio-espacial, por exemplo. É nessa realidade de conflito, que grupos historicamente marginalizados encontram dificuldades para uso/fluxo nas cidades e os equipamentos e serviços nelas presentes. Recordamos sobre um dos principais elementos que pode influenciar nesse uso/fluxo que é a segurança, ou ausência dela. Vale lembrar que não estamos falando a insegurança urbana geral, aquela que qualquer indivíduo está exposto, mas das violências motivadas por preconceitos, como violências de cunho LGBTfóbicas4, racistas, machistas,

xenófobas, entre outras.

Se sentir seguro para as/os LGBT vai além do sentimento de que seu corpo estará resguardado contra violência física, ou o respaldo de que seus bens materiais não serão furtados ou roubados, que são consequências da violência urbana e que todos estão expostos, de diferentes formas. O que busco afirmar é que para além do que foi posto acima, se sentir seguro para pessoas LGBT diz respeito sobre a possibilidade de vivenciar de forma plena sua individualidade, ou seja, poder ser quem se é sem restrições causadas pela heteronormatividade, seja com demonstrações públicas de afeto, formas de se vestir, expressões de gênero e toda simbologia que está ligada ao grupo LGBT e seus segmentos.

4 LGBTfobia é um termo que tem sido utilizado pelo movimento LGBT em substituição da homofobia com o intuito de aglomerar ações baseadas em preconceito e discriminação voltadas a todos os seus segmentos.

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Para melhor entendermos essa questão, precisamos saber o que é a heteronormatividade, que também pode ser entendido como heterossexismo. Herek (1992) traz o heterossexismo como um sistema ideológico que nega, denigre e estigmatiza qualquer forma não heterossexual de comportamento, relacionamento ou comunidade. Seguindo o raciocínio do autor, esse sistema produz privilégios para os indivíduos que se encaixam no padrão heterossexual e marginalizam aqueles que fogem deste padrão, negando, ou dificultando, o acesso a direitos e instrumentos sociais.

À exemplo, o caso5 que aconteceu em janeiro de 2017 com o casal Junior Santos e

Maycon Aguiar, que receberam uma carta anônima com conteúdo homofóbico e racista após se mudarem para um condomínio fechado, na zona norte do Rio de Janeiro. Assim como outros casos parecidos, o exemplo expõe o caráter conservador presente em nossa sociedade que reforça o estigma negativo que recai sobre a população LGBT, e a herança racista presente em nossa cultura.

Dando continuidade ao debate, tendo em vista as dificuldades em viver o espaço urbano, historicamente o segmento LGBT construiu alternativas para ultrapassar os obstáculos impostos e conseguir acessar pontos da cidade que lhe proporcionasse um mínimo de sensação de segurança. Esses territórios possuem configurações múltiplas, em diferentes espaços e com diversas finalidades, podem ser ruas, praças, parques, bares, cinemas, praias, boates, saunas, cafés, entre outros.

É relevante ressaltar que estes espaços quase sempre são ocupados/apropriados, ou seja, são espaços que não foram criados com o objetivo de acolher as/os LGBTs ou suprir as demandas sobre acesso a cidade que o movimento historicamente tem posto, mas diante da ausência de resposta por parte do Estado, este segmento passa a frequentá-lo e nesse processo de apropriação e resistência o transforma em lugar onde há uma maior possibilidade de ter uma vivência enquanto pessoa LGBT, com menor risco de experimentar algum ato discriminatório de teor LGBTfóbico.

É incontestável que esses territórios não estão isentos da violência urbana que atinge as cidades de diferentes formas, em diferentes espaços das cidades, bem como das violências motivadas por preconceito. O que está sendo exposto é que esses espaços proporcionam a possibilidade de exercício das sexualidades e das expressões de gênero não-hegemônicas,

5 Notícia vista em:

https://oglobo.globo.com/rio/casal-gay-recebe-circular-em-condominio-da-zona-norte-do-rio-gente-

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contrariando os casos frequentes envolvendo diversas formas de negação e violência que esta população sofre6.

Sobre as violências sofridas por LGBTs, de acordo com o relatório “Mortes Violentas de LGBT no Brasil Relatório 2017” produzido pelo Grupo Gay Bahia - GGB, apontam que aproximadamente a cada 19 horas, um LGBT morre de forma violenta por motivação LGBTfóbica no Brasil. Casos que evidenciam outras formas de discriminação de cunho LGBTfobico são frequentemente encontradas na internet, como o casal de namorados que foi abordado e repreendidos no Midway Mall, um dos maiores shoppings de Natal-RN, pela equipe de segurança, por estarem abraçados e compartilhando um fone de ouvido7.

Quando observamos que a realidade é atravessada por casos e dados como os citados acima, podemos afirmar que a possibilidade de uso dos espaços e equipamentos das cidades são negados, ou dificultados para esta população. Aqui, percebemos que uso/apropriação estão diretamente ligados às oportunidades de vivenciar suas identidades sexuais e de gênero nos espaços públicos ou privados sem necessitar se preocupar em ser vítima de preconceito ou discriminação.

Assim, vem sendo pautado por atores do movimento LGBT o reconhecimento por parte do Estado de seu status de cidadão e consequentemente poder usufruir de seus direitos e deveres, como bem aponta Rolnik (1988) “... o clamor pela intervenção do Estado se formula com a exigência do reconhecimento a este grupo da condição de cidadão e portanto merecedor da infraestrutura, equipamentos públicos e habitação digna. ” (pg. 69). Ainda acerca desse ponto, é importante lembrarmos que os investimentos do Estado, ou poder Urbano para usar o conceito de Rolnik, é disputado cotidianamente por diferentes grupos, incluindo aqueles que representam o Capital imobiliário e aqueles que enxergam a cidade como mercadoria.

Ao contrário do que se espera, o poder urbano, na forma do Estado repressivo, tem direcionado suas ações a políticas higienistas que optam por expulsar e excluir grupos marginalizados do espaço público. Essa política higienista tem buscado durante o percurso da história, respaldo científico e social para suas ações. O espaço acadêmico vem produzindo através de planos e projetos, a negação do uso do espaço alegando que suas escolhas fundamentalmente políticas têm como pano de fundo apenas o tecnicismo. Já no respaldo

6 No final de 2017, travestis de São Paulo denunciaram perseguição sofrida em uma praça pública, Praça da República, por parte da Polícia Militar, onde as mesmas afirmavam que eram detidas sem motivações e sofriam constantes ameaças. Notícia em: https://ponte.org/travestis-denunciam-perseguicao-de-policiais-na-praca-da-republica-em-sp/

7 Fonte: Portal Apartamento 702. Disponível em: https://apartamento702.com.br/shopping-de-natal-oferece-jantar-romantico-casal-que-sofreu-homofobia/

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social é buscado ouvir demandas de grupos sociais que formulam seu discurso com base na moral e bons costumes.

A segunda problemática relacionada a população LGBT e o espaço urbano, é sobre os espaços que esta pode acessar e a mercantilização, ou segmentação dos espaços, por meio da pauta LGBT: A perspectiva negativa que recai sobre as/os LGBTs limita o uso/apropriação dos espaços públicos, o resultado é um número reduzido de locais onde o segmento pode transitar com maior tranquilidade.

Com a ausência da oferta de espaços públicos reconhecido pelo grupo enquanto um lugar para a vivência LGBT, a iniciativa privada enxergou um mercado promissor ofertando espaços que se tornam referências nas cidades, e é abraçado pelo grupo enquanto espaços amigáveis (LGBT friendly8). Em sua maioria, esses espaços estão ligados a lazer, como bares

e boates, e/ou espaços de acesso à arte, como cafés, galerias, teatros e afins.

Desta forma, este cenário de ausência, ou pouca disponibilidade, de espaços públicos apropriados por LGBTs, nos leva aos espaços privados que oferecem serviços voltados para esse público. Por ser de caráter privado, o acesso está diretamente ligado à esfera econômica, dificultando o uso/apropriação para aqueles e aquelas que não dispõem de recursos financeiros. Consequentemente, a possibilidade de socialização e da experiência urbana enquanto LGBT, se torna possível para quem pode acessar os espaços privados e mais uma vez negada para as pessoas LGBTs das classes populares.

Espaços segmentados ou comércios segmentados, como foi trabalhado por França (2006), nos traz uma outra faceta que esses espaços privados adotam. Visando um nicho específico, alguns espaços como bares, saunas e outros, tem suas ações focadas em um segmento desta população adotando posturas que estabelecem exclusividade, como no caso estudado pela autora de saunas exclusivas para homens, ou se tornando referência a partir do público alvo.

Nesse sentido, Facchini (2012) traz um estudo sobre bares lésbicos na cidade de São Paulo que integram um circuito de lazer noturno destinado a estas mulheres. Em seu trabalho a autora consegue captar as diferenças que constroem cada local, observando como o perfil das usuárias, performance, idade, classe social, se modifica dependendo do lugar. No mesmo sentido, as práticas e as finalidades atribuídas aos diferentes bares. Isso nos remete a como a relação sujeito e espaço é uma via de mão dupla onde um constrói e é construído pelo outro.

8É um termo norte-americano que vem sendo utilizado no Brasil e é utilizado para se referir a lugares públicos ou privados que são abertos e receptivos, ou seja, “amigáveis” ao público LGBT.

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Outro fator que limita a experiência individual enquanto LGBT, e a sociabilidade enquanto segmento nas grandes cidades, é a geografia e distribuição dos locais LGBT friendly. Em sua maioria, esses espaços estão concentrados nas áreas centrais das cidades, o que dificulta/limita a possibilidade de acesso para quem mora/reside nas periferias e precisa se deslocar até o centro para poder acessar tais equipamentos.

Park (1979) nos ajuda a compreender sobre a formação da cidade mostrando que mesmo dentro de um planejamento inicial de uma planta da cidade existiram “fugas” das de tais delimitações prescritas. Assim a cidade adquire uma organização e distribuição que nem sempre são controladas:

A geografia física, as vantagens e desvantagens naturais, inclusive meios de transporte, determinam com antecedência o esboço geral da planta urbana. Crescendo a cidade em população, as influências e simpatias, rivalidade e necessidade econômica mais sutis tendem a controlar a distribuição da população. Comércio e indústria buscam localizações vantajosas circundando-se de certas partes da população. (pg.6)

É nesta lógica de concentração, ou setorialização, que comércios e serviços, e neste caso a oferta de espaços de lazer, se concentram no centro das cidades, ao passo que populações, principalmente das classes populares são afastadas dos centros.

Após essa breve exposição surge um questionamento: a população LGBT pode vivenciar a cidade? Bem, pensar o acesso a cidade adicionando o marcador social da sexualidade/identidade de gênero me parece algo interessante e para além disso, tentar entender a disputa por espaços e as ocupações urbanas que as/os LGBTs tem se desafiado a fazer como forma de resistência.

Cabe aqui destacar o papel histórico desses espaços públicos e privados no fortalecimento do então movimento homossexual, agora movimento LGBT. Estes espaços surgiam como referência de onde estas pessoas poderiam se encontrar, experienciar suas sexualidades e expressões de gênero, consequentemente traçar sociabilidades e estabelecer contatos, tendo em vista a repressão institucional e da sociedade, sofrida de forma escrachada.

... além da circulação pelos espaços públicos, a sociabilidade que se dava em ambientes domésticos, em reuniões e festas, possibilitando a integração a grupos e turmas de amigos que constituíam redes de sociabilização e de apoio formadas ao redor de interesses compartilhados de diversas ordens. (SIMÕES e FACCHINI, pag.66, 2009)

Regina Facchini e Júlio Simões no capítulo “Da “movimentação” ao movimento”, do livro “Na trilha do arco-íris: do movimento homossexual ao LGBT” (SIMÕES e FACCHINI, pag. 63-80, 2009) trazem o panorama das décadas de 1950 a 70 e do aumento e diversificação de lugares de encontro, com diferentes finalidades, e de como a difusão desses locais estão no

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pano de fundo da articulação política que se desenvolveria em torno da pauta da homossexualidade.

Vale ressaltar a limitação da circulação de informação deste período, que diferente do atual contexto, no qual através de mensagens instantâneas conseguimos nos comunicar com milhares de pessoas em poucos segundos, se dava através de listas telefónicas e da circulação destas informações nestes espaços na famosa “boca a boca”.

Durante esse período, já se aproximando da década de 70, também surgem e ganham força, materiais impressos que traziam debates que rodeavam a vivência do grupo naquela época. Dentre os vários jornais caseiros, algumas experiências ganharam grande destaque, como a “Coluna do Meio”, assinada por Celso Curi no jornal Última Hora, e o jornal Lampião.

Quase que como resposta a privatização da sociabilidade LGBT, que em si era limitante, a ocupação de espaços públicos nas grandes cidades emerge como lugares possíveis, e acessíveis para aqueles que não conseguiam circular pelos espaços privados, seja por fatores econômicos ou por não querer se associar ao que esses lugares representavam, que no geral, era uma vivência fora da heterossexualidade.

Segundo os autores, grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo se tornam marcos dessas experimentações do espaço público, e da expansão dos espaços privados, pelo grupo neste período, concentradas nos seus centros. No Rio, bairros como Copacabana, Cinelândia e Lapa já dispunham de estabelecimentos privados e de vias públicas marcados pela frequência do público homossexual. Em São Paulo9, o largo do Arouche, a rua Vieira de

Carvalho, a avenida São João, a praça da República bem como a avenida Paulista são o palco dessa experimentação.

Toda essa movimentação, como já afirmado, serviu como pano de fundo para o então movimento homossexual. Outro aspecto estava sendo construído que é a visibilidade enquanto grupo, fugindo do processo de segregação espacial que direcionava os “guetos gays” a lugares “escondidos”. Ocupar espaços, iniciando esse processo de apropriação, traz consigo uma visibilidade para o grupo que tem suas nuances políticas como afirmar a existência do grupo e elaborar demandas a partir disto.

Como aponta Facchini (2009), a visibilidade, assim como a ampliação de rede de alianças e espaços de participação política e social, é adotada como uma estratégia do movimento:

9 O filme São Paulo em Hi-Fi(2013), de Lufe Steffen, é um interessante registro histórico sobre essa experiência homossexual durante esse período, trazendo narrativa de personagem que estiveram presentes e construíram este cenário histórico.

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A incidência política e a visibilidade massiva têm sido as principais estratégias utilizadas pelo movimento nos últimos anos. Tais estratégias têm produzido muitos avanços, como é o caso da conquista representada pela realização da Conferência Nacional LGBT, mas há também dificuldades de encaminhamento de demandas via Legislativo e um acolhimento via Judiciário que, embora importante, tem se limitado a decisões tomadas por juízes ou localidades considerados mais “progressistas”. (pg. 139)

Para a população LGBT tratar de visibilidade significa tratar de seu oposto, a invisibilidade. Um elemento central neste debate é o conceito de armário, amplamente conhecido seja dentro e fora deste segmento, na Academia e no movimento político. O armário se torna a materialização da invisibilidade, por vezes do conflito com a sexualidade e/ou expressões de gênero não-hegemônicas, trazendo em si a negação da manifestação pública destes marcadores. Como é posto por Paulo Jorge Vieira que faz uma abordagem conceitual sobre sexualidades e espaço urbano:

Esse conceito é o de visibilidade. Efetivamente se o conceito de armário explica em parte a invisibilidade social, e muitas vezes espacial, das questões gays e lésbicas o conceito de visibilidade torna o ponto-chave de quase toda a investigação na temática. Na realidade o que a investigação nas ciências sociais estuda é quase sempre as diferentes formas de visibilidade deste fenómeno. (VIEIRA, 2011, pg.16)

Sair do armário significa romper com esta invisibilidade. Esta ação perpassa a vida de pessoas LGBT em várias esferas como trabalho, conhecer novas pessoas, estar em determinados espaços, como bem colocado por Eve Sedgwick em seu livro, e artigo homônimo publicado nos Cadernos Pagu, em 2007, “Epistemologia do Armário”, que traz a reflexão sobre como o “armário” atua como dispositivo de regulamentação na vida de gays e lésbicas, tendo também implicações, de sentido oposto, para heterossexuais. O autor também aponta para o processo de “sair do armário” cotidianamente:

Cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição. Mesmo uma pessoa gay assumida lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se sabem ou não. (SEDGWICK, 2007, pg.22)

Quando ligado a questão de segurança, estar ou sair do armário pode se configurar como uma ação pensada para se resguardar de sofrer ataques de cunho LGBTfóbico, um cálculo de antecipação que atua como um dos determinantes das ações dos sujeitos do grupo, por exemplo, a escolha de um local para “curtir a noite” com amigos ou para ter um encontro.

Referências

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