CAPÍTULO 4: CIRCUITO, INTERNET, TRANSFORMAÇÕES E CONFLITOS
4.2 Comportamento:
Muitas vezes senti uma consonância entre o público que me fez pensar neste comportamento do bar como algo construído coletivamente. Parece existir uma sintonia invisível e quase não verbalizada sobre o que fazer naquele dia no bar e isto consegue ultrapassar os limites das mesas sendo compartilhado com grande parte daqueles que estão presentes.
Em uma sexta feira, durante o trabalho de campo, notei que muitas pessoas na praça estavam agitadas e que ela estava ficando lotada para além do costumeiro, logo em seguida coloquei o pensamento como assunto da mesa a fim de saber o que as pessoas que estavam ali achavam. A reação foi quase unânime, todos ali compartilhavam da mesma sensação que envolvia prazer, felicidade, excitação e vontade de festejar e que o clima do bar seguia esta sintonia.
Estabeleci algumas conversas rápidas com o público presente a fim de saber sobre as motivações para irem ao La Luna naquela sexta feira, tive como respostas a vontade de
“sextar”43, que estava presente na fala de quase todos na forma de se divertir e aproveitar o
tempo livre. Como já mencionado algumas vezes, a localização do bar também era uma das motivações, bem como o preço das cervejas, o público do bar, ou estar acompanhando amigos que queriam ir ao bar.
Dentro das respostas me chamou atenção o que motivou um casal de amigos que estava na fila do banheiro quando conversamos. Eles me diziam que o bar não era a primeira opção naquela sexta, mas a falta de outros “lugares legais, que sejam tranquilos pra beber e fumar” em suas palavras, e a falta de eventos/festas na cidade fez com que eles estivessem ali naquele dia. Ambos eram universitários, brancos, o rapaz era gay e a moça heterossexual, aparentavam ser de classe média, e estavam de carro, costumam frequentar o La Luna, mas também iam ao Ateliê bar e ao CasaNova ecobar.
Essa situação nos remete mais uma vez a perspectiva de que o La Luna não está isolado, como uma parte da cidade com fronteiras bem estabelecidas e limitado ao seu espaço físico. Ele se conecta a outros pontos da cidade, seja por fazer parte do circuito LGBT de lazer em Natal ou através do seu público.
Este comportamento do bar, que é necessariamente compartilhado entre o público presente, não se restringe aos dias movimentados e de grande agitação. Às quintas-feiras, por exemplo, são marcadas por serem dias de menor público e também como dias calmos no bar. As pessoas transitam menos pela praça, as mesas ficam mais isoladas, seja pelo distanciamento físico umas das outras ou pelas poucas interações estabelecidas entre as pessoas.
Em uma quarta-feira, final de setembro, lembro de ter decidido ir fazer observação no bar, rapidamente olhei minhas redes sociais buscando menções dos/das amigas sobre ir ao La Luna naquele dia. Duas amigas combinaram através de um grupo de whatsapp sua ida ao bar, ambas alegavam que estavam estressadas, principalmente por causa da universidade ou pela vida acadêmica, e precisavam descansar/relaxar tomando uma cerveja. Decidi me juntar a elas e logo sai da UFRN para pegar um ônibus na parada do Natal Shopping com destino ao La Luna.
O trajeto do shopping até a parada da passarela de Neópolis é curto e não se gasta mais que 15 minutos, mas em horários de pico o percurso em transporte coletivo pode ultrapassar os 30 minutos. Chego na parada por volta das 19:00 horas e ela está lotada. Pessoas estão
43 Sextar tem sido uma expressão muito utilizada entre o público jovem e de jovens adultos, dentro e fora da internet, que significar sair na sexta com o intuito de lazer. Pode-se “sextar” de diversas formas como ir a bares, boates, beber com amigos, ter encontros, sair com paqueras, entre outras formas. O termo tem um uso amplo e começou a se espalhar para outros dias como o sábado, “sabadar”, ou até dias da semana como a quinta-feira, “quintar” ou “quintou”.
saindo do trabalho, estudantes da UFRN, do cursinho preparatório para o ENEM, entre outras se aglomeram esperando pelo ônibus com destino a suas casas.
Saindo do Natal shopping existem mais de sete linhas de ônibus urbano que passam pelo La Luna. Com pouco tempo de espera subo em um ônibus da linha 33, que passa pela BR-101 em direção ao bairro satélite, zona sul da cidade, outras tantas pessoas também subiram e foram se apertando no ônibus que estava lotado. O trânsito na BR-101 fez com que o trajeto durasse cerca de 30 minutos, logo desci e atravessei a passarela para chegar no bar. O clima agradável da noite e a brisa refrescante contrastavam com o ambiente quente do ônibus lotado.
Cheguei no bar por volta das 19:40, umas poucas mesas estavam ocupadas, duas delas por pessoas que estavam no mesmo ônibus que eu e compartilharam o trajeto. De pronto me direcionei ao balcão para cumprimentar uma amiga que estava trabalhando no bar neste dia, perguntando se estava bem ela me disse estar cansada e que acreditava que seria um dia tranquilo no bar. Estava tocando uma música calma, quase melancólica, do cantor Belchior e comentei, em tom de brincadeira, sobre a escolha da playlist “daqui a pouco o povo começa a chorar” e minha amiga respondeu sorrindo “hoje vai ser assim”.
Fui sentar para esperar minhas amigas enquanto observava o entorno. Acostumado com quartas-feiras mais movimentadas, aquele me parecia um dia que iria destoar. Com o avançar da hora minhas amigas e várias outras pessoas chegaram no bar, o clima um pouco “frio” parecia estar em consonância com o comportamento geral do bar que estava bem calmo, quase intimista. Pelas características parecia que estávamos em uma noite de quinta- feira, coisa que foi relatada por minhas amigas e que escutei de outros conhecidos que encontrei na praça.
Este dia serviu para perceber o caráter mutável do bar, que varia entre os dias, mas que é fortemente influenciado pela vibe do público. Mesmo com algumas habitualidades nos dias, existem aqueles dias no bar que fogem do script, como esta quarta.
A música tocando no bar nos serve como termômetro sobre como está o comportamento do bar. Como a playlist é coletiva, construída pelo público presente, a frequência de um estilo musical ou categoria musical sinaliza o que o público está querendo escutar, consequentemente é um reflexo de como as pessoas ali estão se sentindo.
Em dias animados como a sexta-feira os ritmos frequentes são o funk e o pop, esses são estilos musicais altamente consumidos pelo público LGBT e podemos identificar pelas reações que as músicas causam que vão de dancinhas, cantar junto da música até performances animadas que são feitas por pessoas já em estado alterado pelo consumo da
cerveja e outras drogas. Também nesses dias tocam músicas eletrônicas, que algumas pessoas classificam como “música de hetero”, poucas as vezes presenciei ritmos como sertanejo que também estão nessa classificação.
Em dias calmos, como no relato acima, a música intensifica na praça a sensação de tranquilidade, em algumas mesas chega a se confundir com desânimo. Músicas que vão de clássicos da MPB até bandas e cantores/cantoras atuais pouco difundidos nas grandes mídias, revelam mais um aspecto daquilo que consideramos um estilo de vida compartilhado pelo público.
Entretanto, a música não serve apenas como termômetro do público. Ela faz parte do cenário do La Luna, construindo junto com os personagens, o público, a cena que irá se desenrolar naquela noite. Esta parte sensorial passa quase que despercebida, mas consegue agir sobre o público, por exemplo provocado côro ou danças, afetando este comportamento coletivo.
Mesmo sendo anunciada enquanto uma playlist coletiva é preciso “dançar conforme a música”, dificilmente se escuta músicas que estejam divergindo da playlist no geral. Assim em dias animados as músicas mais lentas, acústicos, ou melancólicas são cortadas da sequência. Os e as atendentes também tem possibilidade de passar músicas ou atender favores beneficiando alguns pedidos em detrimento de outro. Também presenciei casos onde o descontentamento do público e os pedidos para mudar a música foram atendidos colocando em questionamento de qual seria a margem de possibilidades dessa playlist.
O som do bar não é o único presente pela praça, algumas mesas trazem suas próprias caixinhas de som portáteis e colocam suas músicas. Geralmente essas mesas/sons ficam mais afastadas do balcão, não causando interferência na música do bar. O uso desses aparelhos unido com a escolha do estilo musical pode refletir diretamente sobre o grupo que está escutando, podendo revelar o que aquele grupo está pensando sobre aquela noite.