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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. LUIZ FERNANDO RAMALHO. O DIÁLOGO ENTRE A GEOGRAFIA HUMANA DE MILTON SANTOS E A COMUNICAÇÃO SOCIAL. São Bernardo do Campo, 2016.

(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. LUIZ FERNANDO RAMALHO. O DIÁLOGO ENTRE A GEOGRAFIA HUMANA DE MILTON SANTOS E A COMUNICAÇÃO SOCIAL. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para a obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Fábio Botelho Josgrilberg. São Bernardo do Campo, 2016.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA R141d. Ramalho, Luiz Fernando O diálogo entre a geografia humana de Milton Santos e a comunicação social / Luiz Fernando Ramalho. 2016. 121 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2016. Orientação : Fábio Botelho Josgrilberg. 1. Geografia humana 2. Comunicação social 3. Santos, Milton - Crítica e interpretação I. Título. CDD 302.2.

(4) FOLHA DE APROVAÇÃO. A dissertação de mestrado intitulada: “O DIÁLOGO ENTRE A GEOGRAFIA HUMANA DE MILTON SANTOS E A COMUNICAÇÃO SOCIAL”, elaborada por LUIZ FERNANDO RAMALHO, foi apresentada e aprovada em ____ de _____________ de 2016, perante banca examinadora composta pelo Prof Dr. Fábio Botelho Josgrilberg (Presidente/UMESP), Profa. Dra Magali Cunha (Titular/UMESP) e Prof. Dr. Fábio Betioli Contel (Titular/USP).. ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Fábio Botelho Josgrillberg Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ___________________________________________________________________ Profª. Drª. Magali Cunha Titular Programa de Pós-Graduação em Comunicação - UMESP. ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Fábio Betioli Contel Titular Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas - USP. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Inovações Tecnológicas na Comunicação Contemporânea.

(5) SUMÁRIO Introdução Geral ................................................................................................................................ 9 Capítulo I - REFLEXÕES SOBRE IDEIAS E PENSAMENTOS DE MILTON SANTOS .......... 16 1.1 Introdução do capítulo ............................................................................................................ 16 1.2 Introduzindo a Natureza do Espaço ..................................................................................... 17 1.2.1 Arranjos sistêmicos dos objetos e das ações .............................................................. 24 1.2.2 As unicidades como uma das bases da globalização ................................................ 29 1.2.3 O período técnico atual ................................................................................................... 40 1.2.4 As redes e o espaço geográfico .................................................................................... 43 1.2.5 O cotidiano e sua relação com espaço ......................................................................... 45 Capítulo II – COMUNICAÇÃO SOCIAL CONTEMPORÂNEA: REDES E SISTEMAS DIGITAIS ............................................................................................................................................ 49 2.1 Introdução do capítulo ............................................................................................................ 49 2.2 Tecnologia e Comunicação na Contemporaneidade ......................................................... 50 2.2.2 Interface e usabilidade .................................................................................................... 56 2.2.3 Redes de telecomunicações .......................................................................................... 59 2.3 A comunicação social em rede ............................................................................................. 63 2.4 Persuasão e Mobilização nas Redes: o ativismo digital .................................................... 68 2.4.1 O cidadão comum e o alcance da mensagem............................................................. 71 2.4.2 Conhecimento e liberdade, alienação e manipulação ................................................ 73 2.4.3 Tecnologia e controle ...................................................................................................... 74 2.4.4 Uma consciência coletiva? ............................................................................................. 75 2.5 A cibercultura e o ciberespaço .............................................................................................. 77 2.5.1 Uma nova lógica de pensamento .................................................................................. 79 2.5.2 Um ciberespaço de convívio .......................................................................................... 81 Capítulo III - A COMUNICAÇÃO CONTEMPORÂNEA E A GEOGRAFIA HUMANA DE MILTON SANTOS ............................................................................................................................. 82 3.1 Introdução ................................................................................................................................ 82 3.2 Unicidade das técnicas de comunicação digital ................................................................. 83 3.2.1 Comunicação digital e compreensão mútua ................................................................ 87 3.3 Comunicação digital reorganizando o espaço e o tempo .................................................. 90 3.3.1 Menos locomoções para o mesmo resultado .............................................................. 94 3.3.2 Quem se locomove, o faz melhor .................................................................................. 96 3.4 A vida cotidiana monitorada por objetos .............................................................................. 99 3.4.1 Dispositivos programados para registrar dados ........................................................ 101 3.5 O papel do comunicador na construção do espaço ......................................................... 103.

(6) 4 CONCLUSÃO ............................................................................................................................... 106 5 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................ 111 Apêndice - VIDA E OBRA DE MILTON SANTOS....................................................................... 115.

(7) RESUMO A presente dissertação é um trabalho teórico que se apoiou por um lado na obra do intelectual brasileiro Milton Santos no campo da Geografia Humana, e por outro na Comunicação Social contemporânea, como bases para uma análise que tentou identificar e as interfaces entre as duas áreas. Ao longo do texto, buscou-se apontar as contribuições do autor para o campo da comunicação social, considerando principalmente os novos meios de comunicação digital que se apresentam, a comunicação intermediada por dispositivos computacionais, em bases digitais e conectadas por redes globais. O texto se discute as principais ideias apresentadas por Santos, como a ontologia do espaço, os sistemas de objetos, sistemas de ação, os sistemas técnicos, a unicidade da técnica, do tempo e do motor, delineando aquilo que o Santos vai chamar de meio técnico-científico-informacional. O trabalho sugeriu pontos de relação entre os temas citados com pensamentos teóricos e exemplos práticos oriundos da comunicação, numa abordagem dialética e em perspectiva interdisciplinar, intercambiando conhecimentos no sentido de entender qual é a influência da comunicação na criação do espaço geográfico.. Palavras-chave: geografia humana; comunicação social; Milton Santos; crítica e interpretação..

(8) ABSTRACT This thesis is a theoretical work that is supported, in one hand, on the work of the Brazilian intellectual Milton Santos in the field of Human Geography, and in the other on contemporary social communication, as the basis for an analysis that attempted to identify the interfaces between the two areas. Throughout the text, we attempted to point out the author's contributions to the field of social communication, especially considering the new digital media and the present intermediated communication that happens in computer devices, digital bases and connected by global networks. The text discusses the main ideas presented by Santos as the ontology of space, object systems, systems of action, technical systems, the uniqueness of the technique, time and engine, outlining what the author will call technical-scientific-informational. The work suggested points of connection between the themes cited theoretical thoughts and practical examples coming from communication, in a dialectical approach and interdisciplinary perspective, exchanging knowledge in order to understand what is the influence of communication on the creation of geographical space.. Key-words: human geography; Social Communication; Milton Santos; criticism and interpretation..

(9) 9. Introdução Geral Pode parecer estranho um aluno de uma Faculdade de Comunicação focar seu trabalho em um autor da geografia. A admiração pela obra do geógrafo e intelectual brasileiro Milton Santos me acompanha desde a graduação em Relações Públicas. Naquela época, nas aulas de realidade socioeconômica e política brasileira, tive a oportunidade de ler “Por uma outra globalização” e aprender um pouco sobre sua trajetória.. As análises dos fatores e das realidades sociais,. juntamente com a crítica ao processo de globalização foram substanciais para minha formação acadêmica e humana. Outro grande ponto de satisfação é usar como principal referência um autor que tem suas raízes no Brasil, um profundo conhecedor da realidade brasileira e que faz suas análises a partir desse ponto de vista, não se deixando levar pelos vários anos que estudou e lecionou na Europa. No decorrer das disciplinas do mestrado, ouve novamente o contato com a obra de Santos, agora com A Natureza do Espaço, um livro que apresenta conceitos pertinentes ao pensamento comunicacional contemporâneo. Assim, após averiguar que poucos trabalhos existem nesse sentido, julgamos interessante relacionar teoricamente as ideias de Milton Santos com os fenômenos contemporâneos da comunicação social. Tendo a consciência de que são dois universos muito amplos, tentamos fechar o foco em pensamentos principais do autor e em acontecimentos atuais envolvendo a comunicação por redes digitais. De antemão, reconhecemos que as inquietações intelectuais que motivaram a construção dessa dissertação possuem uma profundidade muito maior do que a que foi aqui apresentada, pois não houve tempo hábil para a realização de uma pesquisa de campo. Certamente um trabalho que pode ser ampliado, revisto e aprofundado nos próximos passos de minha iniciante vida acadêmica. O que se fez foi um trabalho teórico e reflexivo que tentou indicar pontos de contato entre os conceitos geográficos de Santos e as práticas comunicacionais contemporâneas, sobretudo as que acontecem no ambiente digital, apoiado em autores da comunicação que debatem tais fenômenos. Ao longo do texto foram utilizados exemplos práticos de dinâmicas. novas,. em. busca. de. evidenciar. o. ponto. de. vista.. No primeiro capítulo, fazemos um apanhado de conceitos presentes na obra de Milton Santos que nos pareceram mais pertinentes à proposta, realizando uma.

(10) 10. análise dissertativa com o intuito de assimilar com mais profundidade e firmeza os pontos de vista do autor. O segundo capítulo fala sobre os meios de comunicação social na contemporaneidade, a migração para a base digital e tecnológica que realiza a mediação das relações hodiernas e alguns de seus principais efeitos na vida cotidiana dos indivíduos. O capítulo terceiro busca mesclar os anteriores, apontando aqueles que seriam, no nosso ponto de vista, algumas das interfaces entre a comunicação e a geografia, buscando exemplos práticos que evidenciam a alteração do espaço por meio da comunicação. Por fim, na conclusão há um resumo que busca sintetizar os resultados reflexivos do trabalho, citando os principais pontos conclusivos que se extraíram da dissertação. A pretensão aqui nunca foi a de criar um trabalho com uma conclusão que encerre o assunto, até porque, quando tratamos de realidades que estão em pleno desenrolar histórico, não se pode colocar um ponto final. Ainda mais em se tratando de uma realidade com alto grau de dinamismo, em que revoluções sociais ou novos fenômenos podem eclodir de um dia para o outro, como se tem realmente constatado que acontece. A velocidade de alteração da realidade hoje faz com que os conhecimentos obtidos e desenvolvidos não sejam mais aplicáveis com grande rapidez. Mas a satisfação reside na possibilidade de, ao menos, ter apontado um caminho para que novos trabalhos sejam realizados, ou para que outros pontos de vista sejam adotados, reconhecendo nessa dissertação uma semente para um trabalho de doutoramento com maior profundidade e pesquisas empíricas. Passamos, assim, após essa breve apresentação, a tratar dos temas e das reflexões abordados ao longo do trabalho, realizando uma introdução geral da dissertação. Inerente e essencial a todo processo de organização social, a comunicação é um fenômeno que perpassa as fronteiras culturais, do espaço e do tempo. Ela está presente em qualquer tipo de comunidade, independente do território, crenças ou racionalidade. É também fundamental para a transmissão de qualquer tipo de.

(11) 11. conhecimento, de modo que é preciso aprender antes a se comunicar, a lidar com os sistemas de linguagem adequados, para depois conseguir adquirir outros conhecimentos e formar pensamentos e reflexões mais complexas. Sobre a comunicação, Santos escreve que “esse processo, no qual entram em jogo diversas interpretações do existente, isto é, das situações objetivas, resulta de uma verdadeira negociação social, de que participam preocupações pragmáticas e valores simbólicos” (SANTOS, 1996, p. 253). A amplitude do fenômeno permite também que os estudiosos da comunicação percebam em outas áreas facetas de pensamentos ou estruturas de ideias pertinentes a seus trabalhos, mesmo que essas informações não se dediquem originalmente aos estudos sobre comunicação. Isso porque, a comunicação social, sobretudo com a evolução das técnicas e dos meios, passou a adotar – ou criar novos termos, muitas vezes metafóricos ou de significado aproximado, para explicar suas novas formas de ser, de se realizar e dos novos lugares em que se estabelecem. Josgrilberg aponta que: Entre ideias vagas e conceitos mais estruturados, as pesquisas sobre os fenômenos comunicacionais navegam entre os limites e possibilidades de metáforas ecológicas; figuras que inspiram a formulação de novas perguntas e compreensões, mas que também carregam ambições de validação científica. (JOSGRILBERG, 2015).. Da mesma forma, outros campos científicos ou atividades profissionais passaram também a usar termos comuns nos estudos da comunicação para complementar o significado de suas atividades, já que muitos sofreram grande alteração após o surgimento ou a evolução de algumas tecnologias computacionais. Como exemplo simples, é perceptível que o verbo “publicar”, isto é, tornar uma informação pública e notória, não faz parte apenas da rotina de comunicadores, como jornalistas ou redatores. Hoje, em potência, todos podem publicar informações em blogs ou redes sociais na internet. Os grandes meios de comunicação perderam essa “exclusividade” de uso. Outro exemplo de importação é o conceito de “transparência”, um termo original da física óptica e que hoje é muito comum no campo da política e da comunicação institucional, referindo-se ao compromisso de instituições com a abertura de seus dados e trâmites. Ser transparente, hoje,.

(12) 12. significa possibilitar o livre acesso das informações ao público, uma atitude eticamente aprovada e que não tem ligação denotativa com a óptica. Contudo, atemo-nos às metáforas adotadas pela comunicação. Josgrilberg observa que “as metáforas espaciais, em especial, são recorrentes no campo das ciências sociais, seja por sua familiaridade com a linguagem cotidiana, seja por ser a espacialidade uma dimensão fundamental da vivência fenomenológica dos indivíduos”. (JOSGRILBERG,. 2015).. O. próprio. conceito. de. “rede”. teve,. gradativamente, suas definições estendidas às mais diversas áreas (anatomia, química, neurologia, entre muitas outras), principalmente depois da criação da distribuição da eletricidade, através das redes elétricas, ou mesmo das ferrovias e rodovias que se distribuem no território como tal, chegando ao ponto de ser, hoje, tratada como sinônimo de “internet” pelo senso comum e até por alguns dicionários. Santos fala sobre isso, observando que, em geral, o termo se proliferou acriticamente nas ciências humanas e sociais (1996). A popularização do termo acompanhou o crescimento e a concentração das diversas redes que compõem o espaço contemporâneo, sobretudo o urbano. Josgrilberg aponta que: As diferentes relações e práticas sociais no espaço urbano, onde há maior concentração de rede de telecomunicações, e mediação das distâncias contribuíram para uma estimulante imbricação de vocabulários que articula geografia, arquitetura, telecomunicações, ciências da computação e cultura cotidiana. (JOSGRILBERG, 2015). Certamente, esse intercâmbio constante de termos e busca incessante por conceitos. que. expliquem. os. fenômenos. contemporâneos. se. devem. as. transformações que o ser humano exerce no meio em que vive, inserindo sempre novos objetos técnicos que levam a novos sistemas de ação e significados. Conforme McLuhan (1964) escreveu, toda nova tecnologia inserida em uma sociedade altera, mesmo que implicitamente, toda uma estrutura de ações e símbolos, de relações entre agentes e objetos. Josgrilberg (2015) também escreve que “toda nova técnica leva a uma nova percepção do mundo e do tempo”. Isso, sem dúvidas, inclui as dinâmicas e significados das palavras e da linguagem. Nesse sentido, os estudos do intelectual brasileiro Milton Santos na área da geografia humana, tratando da epistemologia da geografia, dos problemas do espaço urbano, da questão filosófica da técnica, das formas de organização e.

(13) 13. interação humana com o território, as problemáticas do processo de globalização, e sobretudo a ontologia do espaço, oferecem uma vasta gama de conceitos e pensamentos totalmente pertinentes ao campo da comunicação social, à fase do desenvolvimento tecnológico que se apresenta e ao período histórico no qual a humanidade se encontra, que simplesmente transbordam a disciplina da geografia. Santos apresenta um olhar analítico e reflexivo completo ao que chama de sistemas de ações e sistemas de objetos, componentes daquilo que é um dos maiores enfoques de sua obra: o espaço. Para o autor, é este o objeto ao qual o corpus da geografia é subordinado (SANTOS, 1996). Ou seja, o espaço é – ou deveria ser - o principal foco dos trabalhos e estudos geográficos, pois é somente através dele e nele que se dão as relações humanas e os acontecimentos naturais. Conforme constata Dias: A geografia proposta por Milton Santos é uma ciência da transformação por interpretar a dialética do mundo contemporâneo de maneira militante, ao trazer a maioria da população como centro de uma geografia que reconhece o espaço como uma instância social, a partir da compreensão de que este não é apenas materialidade. O espaço é materialidade conjugada com as ações humanas, e sem essas a materialidade do espaço perde todo o seu sentido de existência. (DIAS, 2008, p. 91).. A abordagem humana que Santos faz da geografia é a grande característica que atrai a comunicação social, e as ciências sociais aplicadas em geral, revelando uma possível e clara convergência de estudos e relação entre os campos. Essa convergência se fortalece com o emergir das novas técnicas comunicacionais nos mais. variados. territórios,. e. com. a. evolução. galopante. das. tecnologias. computacionais, respaldadas pela união da técnica com a ciência. Dentre os diversos objetos técnicos que invadiram o cotidiano das pessoas e proporcionaram a ruptura com o período histórico anterior, destacam-se dois, que são a base para os demais: o computador e a internet. Além de estandardizar a técnica e permitir o fluxo de informações em velocidade quase instantânea, a internet (que é uma rede telemática) também proporciona a criação de ambientes digitais, nos quais se pode e hospedar dados e manter relações interpessoais. Como a obra de Santos trata profundamente da questão do espaço, acreditamos ser pertinente o debate que se apresenta em torno.

(14) 14. deste novo lugar digital, aquele que alguns teóricos chamam de ciberespaço. O debate aumenta devido à popularidade das redes sociais, que passaram a sediar boa parte de novas relações entre os indivíduos. Sobre isso, Josgrilberg comenta: O ciberespaço é um elemento do espaço e não “outro espaço”. O conceito de espaço não é uma metáfora ou um sistema independente (ciber), mas algo concreto articulado por sistemas de objetos e sistemas de ações, mobilizados por técnicas do atual período. (JOSGRILBERG, 2015).. Aceitando que o ciberespaço é um lugar dentro do espaço, e não algo a parte, possibilitado pela concentração de tecnologia e pelas redes de telecomunicações, principalmente pela internet, entendemos também que sua existência não depende apenas dos sistemas técnicos, mas também da ampla aceitação e apropriação das redes por usuários domésticos, não especialistas. Essa é uma questão social e cotidiana de suma importância. Consideramos também um ponto concernente da obra de Santos seus pensamentos sobre os fluxos de dados e de informações, que aumentou. exponencialmente. com. a. implementação. de. sistemas. técnicos. hegemônicos em todo mundo. O autor considera que, sendo a informação um combustível desse período, os objetos e as técnicas são pensados e concebidos sob esta lógica, sendo eles próprios, também, informação. Assim, estimula-se os fluxos a manterem-se sempre ativos, apesar de as informações nem sempre serem valiosas, podendo, inclusive, confundir ao invés de esclarecer. Para a comunicação social, esta é uma questão muito importante. Há também uma questão fundamental que se apresenta: o controle. As aplicações sociais não neutras - e isto observa-se mais explicitamente na internet acabam exercendo sobre os usuários um grande poder de controle, que não é tão aparente, mas que se mostra à uma reflexão mais profunda sobre como elas funcionam e quais são suas finalidades. Certamente, suas idiossincrasias são imbricadas por ideologias e intencionalidades oriundas dos países e das empresas onde são desenvolvidas, atores cada vez mais hegemônicos, restando às regiões periféricas apenas aceitá-las e usá-las, sob a pena de permanecer ainda mais fora do processo de globalização caso não o façam. Essa discrepância também é observada por Santos e também será discutida no trabalho: Essas técnicas da informação (por enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por algumas empresas, aprofundando assim o processo de criação de desigualdades. É desse modo que a.

(15) 15 periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica, seja porque não dispõe totalmente dos novos meios de produção, seja porque lhes escapa a possibilidade de controle. (SANTOS, 2000, p. 39). Portanto, os possíveis diálogos entre a obra de Santos e as questões contemporâneas da comunicação são diversas. É evidente que, dada tamanha grandeza da obra desse intelectual, que publicou mais de quarenta livros em vários idiomas, além dos mais de 400 artigos, praticamente todas as disciplinas das ciências humanas e sociais aplicadas podem encontrar algum pensamento concernente e contribuinte. Como um crítico rígido ao processo de globalização, Santos se manteve atento a evolução dos sistemas técnicos, das tecnologias da informação e comunicação, como se deu (e ainda se dá) a distribuição desse conhecimento e quais são os efeitos disso para a sociedade. Não resta dúvidas que, além da própria geografia, seus trabalhos agregam muito às disciplinas de história, sociologia, etnografia, economia, ecologia, tecnologia, educação, saúde, entre muitas outras, sem falar aos setores políticos de planejamento e, finalmente, à própria comunicação social. Após esta breve introdução, apresenta-se a pergunta de pesquisa que norteará a dissertação: quais são as contribuições da geografia humana de Milton Santos para a comunicação social? Quais são os possíveis diálogos entre o pensamento do autor e as atuais questões relacionadas aos sistemas técnicos e de objetos que sustentam os novos processos de comunicação?.

(16) 16. Capítulo I - REFLEXÕES SOBRE IDEIAS E PENSAMENTOS DE MILTON SANTOS 1.1 Introdução do capítulo Nascido na pequena cidade de Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, Milton Almeida dos Santos, conhecido mais tarde como Professor Milton Santos, pode ser considerado um exemplo de brasileiro a ser seguido, com uma belíssima trajetória intelectual e educacional, amplamente reconhecida dentro e fora do Brasil, conforme consta em sua bibliografia disponível no site oficial do autor, citado nas referências. Doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, graduouse em Direito dez anos antes na Universidade Federal da Bahia. Pesquisador nato, desde o início da carreira realizava estudos importantes sobre sua localidade e exercia amplamente atividades públicas, assumindo cargos. Conforme citado, chegou a ser redator do Jornal À Tarde e diretor da Imprensa Oficial da Bahia, cargos que lhe conferem importância política e crítica. A trajetória internacional notória talvez não tivesse acontecido não fosse o golpe militar de 1964, que o fez ter de buscar exílio na França. Se mudou diversas vezes de cidade e de país, lecionando em importantes universidades, como a Universidade de Paris, Universidade de Toronto e no Massachusetts Institute of Technology (MIT) em Boston, entre algumas outras não menos importantes. Quando volta ao Brasil, enfrenta algumas dificuldades para se recolocar nas universidades Brasileiras, mas logo ingressa por concurso na Universidade de São Paulo - USP. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa de doze universidades brasileiras e sete universidades estrangeiras e em 1994 torna-se o único geógrafo da América Latina a receber o Prêmio Vautrim Lud, o maior dentro da Geografia mundial. Reconhecido como importante personagem na proposta por uma nova geografia, também foi crítico profundo do processo de globalização e suas implicações sociais. Sua abordagem humana da geografia reconhece a atividade social como peça chave para a criação do espaço geográfico. Sendo um dos principais autores da geografia brasileira, é até hoje admirado, não apenas pela grandiosidade de sua obra, em número, profundidade e rigor, mas.

(17) 17. também pela alegria e simplicidade de ser. Sempre enfrentou com discernimento e firmeza as questões relacionadas ao preconceito racial e fez de seu intelecto uma de suas maiores riquezas. Trabalhou até o fim de sua vida, orientando alunos, escrevendo e atuando. Suas últimas obras são frutos de uma vida de dedicação e de ampla experiência. Dentre todas elas, lançamos olhar mais detalhado sobre o livro que é considerado seu maior trabalho, por organizar diversos de seus próprios pensamentos face ao momento atual da sociedade e seus fenômenos. Mais informações sobre a vida e obra de Milton Santos podem ser encontradas no Apêndice único da dissertação. 1.2 Introduzindo a Natureza do Espaço Com a primeira edição publicada em 1995 pela editora Hucitec, A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção, juntou diversos debates e ideias que Santos apresentou em obras anteriores, revisitando-os com uma abordagem amadurecida, fazendo um rico apanhado de citações e evoluindo seu próprio pensamento. Para muitos leitores do autor, este livro pode ser considerado o ápice de sua trajetória intelectual, resultado do trabalho de toda uma vida, obra de notável rigor científico e admirável clareza. O livro apresenta importantes reflexões para se pensar o mundo atual, a sociedade e a realidade contemporânea. O eixo ao redor do qual os temas giram, conforme o título do livro adianta, é o espaço e sua ontologia. Contudo, não enquanto conceito cosmológico ou astrofísico, nem exclusivamente a distância entre dois pontos. Trata-se daquilo que o autor chama de espaço geográfico, uma soma de objetos, sistemas e elementos (técnicos, sociais, informacionais), que resulta no ambiente em que vida humana se realiza. Logo no início, Santos esclarece que o espaço vem a ser o principal objeto, não apenas do livro, mas da disciplina da geografia, ao qual ela deve (ou deveria) se submeter. Esse conceito não surgiu repentinamente, mas foi construído no decorrer dos anos de pesquisa e reflexão. Josgrilberg traça bem a linha do tempo da construção do conceito de espaço para Santos, pontuando suas transformações: A evolução teórica do conceito de espaço evoluiu de um “um conjunto de fixos e fluxos” (Santos, 1978) para a tentativa de se pensar a “configuração territorial” e as “relações sociais” (Santos, 1988), até se consolidar como “conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ação” (Milton Santos, 2002, 62). Em sua definição última, a proposta de Santos não prescinde da ação.

(18) 18 humana, valorizando, portanto, outra noção fundadora em sua ontologia do espaço: a técnica. (JOSGRILBERG, 2015).. É nítido que todas as conceituações que Santos propôs fazem sentido lógico, cada uma à sua época, de modo que a nova ideia não invalida a anterior, mas a complementa, sendo todas cabíveis e importantes para a concepção de suas sucessoras. A última delas, todavia, introduz uma noção fundadora do espaço que tem vital importância para a dissertação: a técnica. Sem dúvidas, a técnica é e tem se tornado cada vez mais definidora do espaço e do período temporal, sobretudo no modelo de vida atual. Para Santos, ela não é única e se apresenta como sistema: um sistema técnico. Além disso, Santos se dedica a esmiuçar outros conceitos importantes para a criação do espaço, como os sistemas de objetos e os sistemas de ação, falando sobre o híbrido que mescla matéria, intencionalidade, redes e ação humana. Lancemos olhar sobre cada um dos elementos que, segundo Santos, compõem a natureza do espaço, iniciando por aquilo que o autor chamou de sistemas técnicos no espaço geográfico: As épocas se distinguem pelas formas de fazer, isto é, pelas técnicas. Os sistemas técnicos envolvem formas de produzir energia, bens e serviços, formas de relacionar os homens entre eles, formas de informação, formas de discurso e interlocução. (SANTOS, 1996, p.141). A abordagem ampla atribuída ao termo demonstra bem o ponto de vista que Santos assume e a importância que dá ao fenômeno técnico. O espaço geográfico em seu pensamento, representado pelo local onde as pessoas habitam, independentemente de ser uma cidade, área rural, metrópole, megalópole, comunidade, tribo ou qualquer outro tipo de arranjo, é fruto da atividade humana que ali se desempenha. Essas atividades, postas em conjunto, estão sendo cada vez mais determinadas por técnicas hegemônicas e globais. Desconsideram-se como espaço geográfico, assim, os ambientes livres de atividade humana (raros atualmente, é verdade), considerando-os como paisagens naturais, artificiais ou mistas. Portanto, sempre que nos referimos a espaço ao longo do texto, está se considerando a atividade humana no ambiente físico, composto por objetos técnicos e coisas naturais. Por si só, tais elementos apenas existem, pois “só por sua presença, os objetos técnicos não têm outro significado senão o paisagístico. Mas eles aí estão também em disponibilidade, à espera de um conteúdo social”. (SANTOS, 1997, p. 85). Também deve-se entender que as ações humanas que.

(19) 19. criam o espaço possuem “no momento atual, uma função atual, como resposta às necessidades atuais da sociedade”. (SANTOS, 1997, p.84). A intervenção que fazemos no sentido de civilizar o ambiente, atribuindo-lhe existência social, é feita através do trabalho que, por sua vez, necessita de uma técnica. Portanto, se decidimos (ou decidiram) enquanto sociedade que a melhor alternativa para atender as demandas energéticas atuais é queimar combustíveis fósseis, por exemplo, se aplicam as técnicas pertinentes a este objetivo, com todas suas implicações. Se decidimos que é melhor construir prédios do que viver em ocas, que se desenvolvam as técnicas que realizem tal tarefa. Ainda como exemplo, se decidimos que transmitir ao vivo uma partida de futebol via televisão para milhões de telespectadores é algo válido, que faz sentido, o fazemos através de técnicas desenhadas e dispositivos tecnológicos específicos para tal. Mas a noção que aqui se busca é mais ampla: a transmissão do jogo (e os dois exemplos anteriores) não deve ser entendida apenas como processos tecnológicos de comunicação digital entre câmeras, computadores, servidores, antenas, satélites e televisores, mas como possuidora de uma lógica própria de existência e disposição na sociedade que também é técnica, neste caso, uma técnica de entretenimento, por exemplo. Assim, pode-se descrever inúmeros processos da vida cotidiana que existem submetidos à técnica e que possuem ligação com forma de criar os respectivos espaços de convívio social. Santos observa que “as técnicas oferecem respostas à vontade de evolução dos homens e, definidas pelas possibilidades que criam, são a marca de cada período da história” (2001, p. 63). A análise de Santos parece não subordinar a técnica ao âmbito científico, apesar do trabalho possuir profundo rigor e compromisso com a ciência, mas a aproxima da filosofia, da reflexão e da crítica, aplicando um enfoque que é, ao mesmo tempo, abrangente e profundo. Neste sentido, é um fenômeno de fundamental relevância na forma como percebemos e produzimos a realidade. Já faz algum tempo que a paisagem mais comum ao homem deixou de ser o ambiente rural, mais próximo à natureza e a vida selvagem. Ela foi transferida para o ambiente urbano, concretizado pelas cidades. Sendo atualmente a principal forma de organização e de arranjo social, estima-se que 85% do total da população brasileira viva em cidades (IBGE, 2010). O processo paulatino conhecido como êxodo rural fez com que as pessoas buscassem uma nova forma de trabalho, deixando para trás as práticas do campo com a esperança de uma vida mais digna e melhor, de modo.

(20) 20. geral. Esse fenômeno pode ser observado nas mais diversas regiões do globo, principalmente durante as últimas cinco ou seis décadas. No Brasil, o êxodo se acentuou a partir da década de 60, com a abertura da economia para a entrada de investimentos internacionais, que trouxe grandes indústrias para o país, gerando empregos e atraindo trabalhadores rurais para os locais onde elas foram instaladas. Para prosperar no novo ambiente, os que se arriscaram precisaram aprender novas técnicas, não só de trabalho, mas de vida. Esse é um bom exemplo para entendermos o conceito de técnica que se aplicará ao longo dessa dissertação. Para se adaptar e construir seu novo meio, o homem sempre criou, aprendeu e aplicou novas técnicas. A priori, já existe o ambiente, o meio, composto por elementos estáticos ou móveis e por um conjunto infinito de outras coisas, que a princípio é natural. O ser humano, através de seu trabalho, transforma continuamente esse ambiente em algo novo, artificial. O direcionamento desse trabalho se altera conforme a intenção de quem o realiza, enquanto sua operacionalização necessariamente invoca uma técnica. Ou seja, uma maneira de fazer específica, formas de combinar os elementos e arranjar processos a fim de produzir um resultado. Nas palavras de Santos, a técnica é “a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio”, complementando que “as técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço” (SANTOS, 1997, p. 25). Assim, quem deixou a zona rural, encontrou na cidade outros elementos: o cimento abundante em todas as edificações, o pavimento que expande e define o que é transitável, a linha do horizonte substituída por edifícios, o crescimento vertical, o trânsito dos automóveis e tantas outras características que a maioria das cidades têm em comum. Para viver, precisou se adaptar, aprender as técnicas pertinentes ao novo meio, não apenas as do trabalho, mas também as da vida cotidiano e tudo que nela cabe: como se locomover, como buscar alimento, como habitar o espaço, como se comportar e se relacionar. Ou seja, a técnica em seu sentido amplo e filosófico, já proposto por Sorre (1948) e apontado por Santos (1997), que vai além das práticas mecânicas ou procedimentais. Ao passo que as aprendia e as aplicava, o homem também as reinventava, como ainda o faz, sabendo disso ou não. É fato que não somente os trabalhadores rurais que migraram de região passaram por esse processo. As evoluções das diversas técnicas com as quais o.

(21) 21. homem modifica o meio atingiram a vida de praticamente todas as pessoas inseridas na sociedade, independente de classe, condição financeira, crença ou cultura, obviamente,. de. maneiras. diferentes.. Muitas. profissões. desapareceram. recentemente, e muitas outras têm surgido. Antigas formas de fazer e entender o mundo estão ficando para trás, ultrapassadas por inovações. Hoje, elas são contínuas, estão em acelerado ritmo e algo importantíssimo de se destacar: muitas delas ocorreram recentemente nos modos e meios de comunicação interpessoal, sobretudo com a significante ampliação do acesso à tais aparatos. Isso concedeu à comunicação um papel central dentro dos modos vida atual. Wolton (2005) teve essa percepção: A comunicação assume seu lugar normativo ao passar de uma sociedade fechada a uma sociedade aberta. Desenvolve-se muito, portanto, com o crescimento urbano, o êxodo rural, a fragmentação das estruturas sociais tradicionais, o enfraquecimento das classes sociais e da família ampliada. É o símbolo da libertação em relação à tradição, da mobilidade em relação à estabilidade, de uma sociedade menos hierárquica, mais centrada em si e na relação com o outro. (WOLTON, 2005, p. 26). Mas tudo isso acaba de ser assim. No princípio da civilização, nossos ancestrais mais longínquos criavam objetos e técnicas rudimentares, ao longo de intervalos maiores de tempo, muitas vezes apenas modificando o uso e não a forma de um objeto. Um galho utilizado como bastão para golpear uma caça, ainda é um galho, empregado em um novo uso. Um próximo passo, talvez, seria afiar uma de suas pontas com a ajuda de rochas e transformá-lo numa lança, agora promovendo também a alteração de sua forma. Seguindo o raciocínio, podemos pensar nos diversos utensílios e técnicas que durante milhares de anos foram sendo implementados na superfície do planeta, alterando lentamente a paisagem e os modelos de vida dos grupos humanos, até chegar ao sistema globalizado e capitalista hegemônico que hoje se apresenta e que abordaremos mais adiante. Por agora, o foco está nas técnicas e suas repercussões. Sem entrar nos méritos, é preciso estar claro que o número de desdobramentos sociais e ocasionais que uma técnica proporciona é muito grande e, por vezes, imprevisível. Ela pode resultar em um objeto, em uma nova forma de organização social, em sucessos ou fracassos de uma comunidade, em construção ou destruição de um espaço geográfico, no aumento ou diminuição da qualidade de.

(22) 22. vida, dependendo sempre da maneira como é aplicada e da intenção daqueles que a aplicam. De maneira geral, tem uma forte ligação com a utilidade. Dificilmente se desenvolve e se aplica uma técnica que não tenha fim prático, mesmo que seja para uma prática filosófica ou intelectual. Mesmo ainda que seja para um fim que prejudique uns em benefício de outros, como as técnicas de guerra ou atividades violentas. Em todos esses casos, há sempre algo a ser alcançado. Há sempre uma busca por resultados. Em síntese, ela gera mudanças. Daí a busca constante por técnicas mais eficientes. É necessário entender que as técnicas, mas não só elas, exercem influência direta e indireta no espaço que construímos e, portanto, na existência social. A maneira como edificamos o território e alteramos a paisagem tem relação íntima com a técnica que se utiliza para fazê-lo. Pierre George fala sobre isso: A influência da técnica sobre o espaço se exerce de duas maneiras e em duas escalas diferentes: a ocupação do solo pelas infraestruturas das técnicas modernas (fábricas, minas, ‘carrières’, espaços reservados à circulação) e, de outro lado, às transformações generalizadas impostas pelo uso da máquina e pela execução dos novos métodos de produção de existência. (GEORGE, 1974 apud SANTOS, 1997, p.28).. Com a revolução industrial iniciada na segunda metade do século XIII, um dos eventos mais importantes na história da sociedade contemporânea, pode-se dizer que a preocupação com as técnicas ganhou outro nível. Antes disso, os modos de produção de objetos eram predominantemente artesanais, que não deixam de ser trabalhos técnicos, técnicas artesanais, mas que lhes proporcionavam distribuição limitada e valor próprio. O surgimento das máquinas como mão de obra e ferramenta, o maior domínio sobre as energias provenientes da água, do vapor e do carvão, e a sofisticação das técnicas mecânicas de produção permitiu que os objetos deixassem de ser apenas produzidos, mas pudessem também ser reproduzidos em escala consideravelmente maior, de forma padronizada e com nível de qualidade aceitável. As técnicas de produção industrial e engenharia de produção se espalharam pelo mundo ocidental e se tornaram foco de atenção. Para sustentar esse novo modo de produção, foi preciso juntamente criar a demanda que consumiria essa nova e crescente oferta de objetos, para que não somente o objeto físico fosse aceito (ou desejado), mas também toda a racionalidade que o envolve, de modo a viabilizar e justificar o processo. Talvez seja esse o ponto na história no qual as técnicas passam a ganhar uma aplicação lógica.

(23) 23. que é, também, ideológica. Salta para além das linhas de montagem industriais, passando a ser parte determinante da vida cotidiana do homem anônimo. Com mais técnicas imbricadas na vida ordinária, o espaço geográfico passa a refletir direta e indiretamente os efeitos dessa alteração e a paisagem passa por transformações. Considera-se: O espaço visto como um conjunto de objetos organizados segundo uma lógica e utilizados (acionados) segundo uma lógica. Essa lógica de instalação das coisas e de realização das ações se confunde com a lógica da história, à qual o espaço assegura continuidade. (SANTOS, 1997, p. 34). Para entender como o fenômeno técnico altera o espaço geográfico, e como isso atinge tanto a materialidade quanto a ideologia vigente, podemos pensar no exemplo da criação e reprodução dos automóveis. Antes de existirem, a forma de organizar e dispor as áreas públicas em uma cidade era totalmente outra. Como pavimentar os passeios, com qual métrica? Tudo isso se altera severamente com a inserção desse novo elemento, que traz consigo racionalidade e proposta de uso, e estende seus efeitos colaterais em diversas direções. Foi preciso, exemplificando, criar técnicas para administrar e regulamentar o trânsito, para produzir e disponibilizar os combustíveis, para promover a segurança dos condutores e dos pedestres, para cobrir buracos que atrapalhem a locomoção, entre tantas outras coisas que até hoje passam constantemente por aprimoramentos, formando um sistema complexo de técnicas e que faz sentido para quem o vê e utiliza. Baudrillard (1968), já disse que “o automóvel é um dos mais importantes signos do nosso tempo e seu papel na produção do imaginário tem profunda repercussão sobre o conjunto da vida do homem, incluindo a redefinição da sociedade e do espaço”. (Apud SANTOS, 1997, p. 54). Como já foi dito, portanto, a técnica aqui não se restringe a forma de aplicação específica, mas como ela se entranhou nos modos de vida atuais, de modo amplo, difuso, e diretamente responsável pela criação do espaço geográfico, conforme explica Santos: Quando geógrafos escrevem que a sociedade opera no espaço geográfico por meio dos sistemas de comunicação e transportes, eles estão certos, mas a relação, que se deve buscar, entre o espaço e o fenômeno técnico, é abrangente de todas as manifestações da técnica, incluídas as técnicas da própria ação. Não se trata, pois, de apenas considerar as chamadas técnicas da produção, ou como outros preferem, as “técnicas industriais”, isto é, a técnica específica, vista como um meio de realizar este ou aquele resultado específico. (...) Só o fenômeno técnico na sua.

(24) 24 total abrangência permite alcançar a noção de espaço geográfico. (SANTOS, 1997, p. 31). Estando ciente da abordagem, há mais uma característica essencial relacionada à questão técnica atual: sua aproximação – ou fusão – com a ciência. Isto é, a ciência, aponta Santos (1997), principalmente no com as duas grandes guerras do século XX, se aproximaram muito das técnicas, deixando de ser restrita à laboratórios em universidades, e passando a servir fortemente a indústria e os interesses econômicos em geral. Trabalharemos esse fenômeno mais afundo ainda nesse capítulo. O que fica por agora é visão ampliada do fenômeno técnico e sua realização através de sistemas técnicos, indissociáveis de outros sistemas: os sistemas de objetos e os sistemas de ação. 1.2.1 Arranjos sistêmicos dos objetos e das ações. Para entendermos o conceito de espaço que Santos propõe, é preciso caracterizar as colunas que sustentam a ideia central. Conforme apontado anteriormente, as técnicas assumem tal papel e se organizam como sistema. Juntamente, Santo aponta a existência dos “sistemas de objetos” e os “sistemas de ação”. Ambos os termos aparecem em um dos conceitos de espaço mais defendidos pelo autor: “O espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá”. (Ibidem, p. 51). O conjunto indissociável diz respeito à união dos diversos sistemas que compõem a vida. cotidiana,. que. apenas. funcionam. juntos.. São. solidários. pois. são. interdependentes e se sustentam mutuamente em muitos casos, mas também são contraditórios, pois há muitos pontos de conflito e atritos aos quais os sistemas não podem escapar. Para Santos, os sistemas de objetos representam a materialidade, as formas físicas, naturais ou artificiais, que estão disponíveis para que o homem aplique sua ação. Esta ação similarmente emerge como sistema: sistemas de ação, e refere-se ao trabalho exercido pelo ser humano sobre os objetos. Se olhamos para os sistemas de objetos isoladamente, excluir-se-á a realidade atribuída pelos sistemas de ação, a realidade simbólica, filosófica, intencional, ideológica e cognitiva que o homem dá ao mundo. O que resta é uma visão parcial e restrita. Da mesma forma,.

(25) 25. não há ação humana que não envolva, em algum nível, os objetos, as materialidades, sobretudo na atualidade altamente tecnológica e consumista que construímos, onde a busca por bens de consumo é constante. Portanto, são sistemas de ação que também não fazem sentido sozinhos. Apesar disso, vale lançar olhar sobre cada um dos conceitos para aprofundar o entendimento das relações que se estabelecem entre tais sistemas e quais papeis eles desempenham na vida cotidiana do ser humano contemporâneo. Quando fala dos sistemas de objetos, Santos (1997) inicia realizando uma distinção entre “objeto” e “coisa”. Termos que no cotidiano possuem utilização quase sinônima, aqui se diferenciam entre aquilo que a natureza cria no caso deste (rios, montanhas, nuvens, árvores, etc.), e aquilo que o homem cria para aquele (artefatos). Apesar de citar outros autores que concordam com a ideia, Santos admite que essa classificação é intuitiva de modo geral e que “no princípio, tudo eram coisas, enquanto hoje tudo tende a ser objeto, já que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam, também, a ser objeto”. (Ibidem, p.53). É nítido que o processo de artificialização da natureza é constante e crescente em nossa sociedade mundializada, basta notar que, na maior parte do tempo, aqueles que vivem em cidades estão muito mais cercados por objetos artificiais do que coisas naturais, e isso não é de agora. Mesmo para os habitantes da zona rural, a quantidade de objetos que ajudam na realização da vida cotidiana não é pequena e ela só se modifica para cima. O que vemos é um vasto conjunto de sistemas de objetos compondo o espaço. A criatividade para sua obtenção e utilização parece ser parte importante da natureza humana, haja visto que nossos ancestrais mais longínquos já a utilizavam, criando objetos rudimentares, mas que foram o início do processo. Deparamo-nos, agora, com um ponto de evolução da artificialização que é inédito e que traz consigo profundas reflexões éticas, morais e filosóficas. Mas como e por quê se criam os objetos? Primeiro, eles podem ser simples, como uma bifurcação em madeira feita estilingue, e podem ser sofisticados, como uma estação espacial orbitando o planeta. Independentemente do caso, são frutos complexos do acúmulo de conhecimento, tempo, técnica e intencionalidade. O que define sua complexidade não é sua forma em si, mas a soma desses elementos que foram acionados em sua concepção, necessariamente humanos e que precisam ser.

(26) 26. logicamente combinados para resultarem em algo útil. A utilidade guarda o porquê. Objetos servem, de alguma forma, ao homem. Assim, também é ele um registro de informações: aquilo que se pode inferir sobre. Como coloca Santos, “a complexidade estrutural de um objeto é sua informação porque é a forma como pode comunicar-se com outro objeto, ou servir a uma pessoa ou empresa ou instituição” (1997, p. 56). A razão de ser de um objeto, portanto, vem de uma necessidade identificada no espaço. Objetos compõem o espaço, e por ele são determinados. Santos assegura que “o espaço é formado de objetos; mas não são os objetos que determinam os objetos. É o espaço que determina os objetos: o espaço visto como um conjunto de objetos organizados segundo uma lógica e utilizados (acionados) segundo uma lógica (1996, p. 34). Percebe-se, portanto, que é um fenômeno necessariamente social, isto é, não aconteceria fora da existência humana, já que “toda criação de objetos responde a condições sociais e técnicas presente num dado momento histórico” (IBID, p. 56). Assim, os processos de criação, reprodução, distribuição e consumo dos objetos, formam sistemas ao coexistirem e se correlacionarem logicamente. Hoje multiplicam-se, somam-se e destroem-se. Existem aqueles que são fixos: prédios, viadutos, estações de metrô, terminais rodoviários, monumentos e edificações imóveis, objetos geográficos. E há os objetos móveis, que seguem pelos fluxos das ações humanas, que se locomovem ou se transportam com mais facilidade pelo espaço. Ambos, contudo, são artificiais e à ambos se aplica a lógica sistêmica. Isso aplicado em escala global, surte uma quantidade indeterminada de efeitos que simplesmente não se consegue acompanhar, ou mesmo, observar. Conforme se constata, no atual período os objetos distribuídos mundialmente levam consigo suas tecnologias, sua materialidade, seus significados, suas ideologias, sua racionalidade e suas técnicas de utilização. Esse fenômeno se deu principalmente pelo processo de globalização, que interligou mercados, transpôs barreiras de tempo e espaço, aproximou algumas culturas, excluiu outras e, no geral, alterou os modos de vida da espécie humana. Há, portanto, uma “população” de objetos inseridos em nossas vidas que fazem todo tipo de coisa e sem os quais a vida contemporânea entraria em colapso. Com o passar do tempo, boa parte deles ganharam características comuns: a obsolescência programada que o modelo de consumo adota como fundamental, sustentando setores industriais e comerciais ao redor do mundo. Ou então a.

(27) 27. capacidade de conexão com redes, transmissão e armazenamento de dados, a alta tecnologia que se incorporou a outros tantos. Podemos dizer que, no tempo atual, os objetos são cada vez menos rudimentares, artesanais e cada vez mais sofisticados, industrializados e padronizados, e sua distribuição é mais generalizada. Vale aqui salientar brevemente o grupo de objetos técnicos que se introduziu rapidamente em nosso dia a dia e alteraram explicitamente nossas formas de se relacionar com o outro. São os dispositivos computacionais ligados à internet. Através de computadores, celulares smartphones, tabletes, e todos os derivados correlatos, a distribuição de mensagens e informações pulverizou-se de uma só vez. A comunicação social passou a acontecer por vias inéditas, novas, diferentes, e com isso emergiu um novo mundo de possibilidades, uma nova cultura. Trataremos especificamente desse tema em outros capítulos, mas não havia como deixar de citar os aparelhos que saltaram do estágio “inexistente” direto para o “indispensável” num período de tempo que, em termos históricos, equivale a um piscar de olhos. Abordando então os sistemas de ações, pensamos sobre o verbo do termo. Talvez ele seja um dos mais próximos da existência humana: o verbo agir. Tudo que o homem faz é agir. É através da ação que os homens alteram a realidade e a si próprios. Apoiado em Everett M. Rogers (1962), Santos pontua que a ação é um comportamento orientado, ou seja, não surge ao acaso como um acontecimento qualquer, mas sim surge por um motivo e busca um objetivo. Complementando com os estudos de Alfred Schutz (1967) e Abraham Moles (1974), o autor entende que a ação, por sua própria natureza, necessita de uma projeção prévia, um planejamento de seu praticante, e que invariavelmente ela resulta em uma modificação ou alteração do meio em que se insere ou ao qual se destina. O verbo agir é elementar. É somente através dele que as transformações se realizam, em todas as vertentes da vida social, pois apenas o homem pode realizar uma ação. Santos afirma que “a ação é o próprio do homem. Só o homem tem ação, porque só ele tem objetivo, finalidade. A natureza não tem ação porque ela é cega, não tem futuro” (1996, p. 67). E se cada indivíduo é capaz de desempenhar suas ações, de acordo com suas necessidades e intencionalidades, transformando a realidade, a junção de todas as ações das individuais cria sistemas de ações que coexistem, que se chocam, se atritam, se completam, cooperam, dando corpo aos fatos cotidianos e animando a materialidade. Nossas ações estão sempre interligadas, isto é, uma.

(28) 28. ação gera uma mudança e será a partir dela que a próxima ação se dará, talvez com o nome de “reação”, que nada mais é do que uma resposta ao estímulo anterior. Existem também ações conjuntas. Ao passo que se organiza, o homem cria grupos, como empresas, instituições, sindicatos, governos, que se normatizam e orientam as ações dos indivíduos que as compõem, visando um objetivo maior, somente alcançável com a participação de todos. Ou seja, a ação orientada de vários indivíduos resulta em uma ação coletiva maior. Essa orientação, na grande maioria das vezes, é centralizada e um comando e não decidida pelos realizadores. Numa empresa, por exemplo, o dono tem mais poder de decisão, por estar acima na escala hierárquica, de tal modo que seu trabalho é apontar os rumos, mas não necessariamente realizar a ação. Importante fixar que, conforme coloca Santos, “as ações resultam de necessidades, naturais ou criadas” (1996, p. 67). Podemos dizer que, antes da globalização, as ações eram mais presas no espaço e orientadas pelo território, atendendo as necessidades locais. A relação com o tempo também era diferente, com prazos maiores e ritmos mais desacelerados. Hoje, contudo, com a internacionalização do capital, o avanço da diplomacia e das relações comerciais entre os países, observa-se que “muitas das ações que se exercem num lugar são o produto de necessidades alheias, de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é localizada naquele ponto preciso da superfície da Terra”. (IBID, p. 65). A exportação de mão de obra é um exemplo explícito. Encontram-se atualmente na China e outros países asiáticos boa parte da produção de bens de consumo que abastecem o mundo todo, mas que não são criações chinesas. A engenharia do produto, o design, a tecnologia empregada, o posicionamento no mercado, o investimento em marketing, as técnicas de produção, é tudo decidido fora da região que produz o objeto, e isso se tornou muito comum devido ao baixo custo operacional exercido em tais países. Para além do debate da exploração de mão de obra, observa-se claramente que “as ações são cada vez mais estranhas aos fins próprios do homem e do lugar. Daí a necessidade de operar uma distinção entre a escala de realização das ações e a escala do seu comando. ” (IBID, p. 65). Então, é preciso estar claro que, no arranjo social, existem aqueles que decidem o que vai ser feito e aqueles que realizam o que foi decidido. O poder decisivo é restrito à um número menor de pessoas, mas em diversos níveis de.

(29) 29. hierarquia pode-se constatar esse tipo de relação. Na escala global, países mais desenvolvidos economicamente costumam abrigar tais “centros de comando” que abrigam duas fábricas em países menos desenvolvidos e distribuem seus objetos para todo o planeta. Sendo os sistemas de ação um dos principais influenciadores da criação do espaço segundo as ideias de Santos, o distanciamento da sua relação com o território e a aceleração do tempo certamente alteram o espaço que se cria. Isso, por sua vez, transforma nossa percepção do mundo e, ao mesmo tempo, transforma o modo como agimos no mundo, participando do sistema através do consumo e orientando nossas ações a partir do novo sistema de objetos que se dispõe. Também é preciso reforçar que, apesar do olhar individual lançado sobre os dois tipos de sistemas (de objetos e de ação), eles são indissociáveis na prática. Um está a todo momento influenciando e acontecendo junto com o outro, num emaranhado complexo que ainda une a intencionalidade e as técnicas do fazer. Para Santos, essa grande família de elementos é determinante dos períodos da história humana: Todo e qualquer período histórico se afirma com um elenco correspondente de técnicas que o caracterizam e com uma família correspondente de objetos. Ao longo do tempo, um novo sistema de objetos responde ao surgimento de cada novo sistema de técnicas. Em cada período, há, também, um novo arranjo de objetos. Em realidade, não há apenas novos objetos, novos padrões, mas igualmente, novas formas de ação. (SANTOS, 1997, p. 77).. Um outro desdobramento nítido do atual período, com a distribuição massiva e global de diversos objetos, é o avanço daquilo que Santos (1997) chama de as “unicidades”. São elas: da técnica, do tempo e do motor.. 1.2.2 As unicidades como uma das bases da globalização “No começo da história social do Planeta, havia tantos sistemas técnicos quantos eram os lugares e os grupos humanos. ” (Santos, 1997, p. 151). Entender as unicidades propostas por Santos são pontos fundamentais para uma leitura ampla de seus pensamentos. No item do livro dedicado a este tema, o autor explica que em tempos remotos, quando a humanidade se organizava em grupos isolados pela distância geográfica, cada qual possuía seus próprios sistemas de técnicas, que raramente sofriam influência externa ou eram intercambiados com outros grupos. As.

(30) 30. barreiras. do. espaço. e. do. tempo. dificultavam. qualquer. intercâmbio. de. conhecimentos, objetos, técnicas, ações, simbologias, informações em geral. Assim, as estruturas sociais de cada grupo eram independentes e suas formas de fazer eram originais, isto é, “os sistemas técnicos eram locais” (SANTOS, 1996, p. 152). Durante longo período histórico, as comunidades humanas tinham um foco centralizado em si mesmas, e isso inclui seu tempo e seu território. Os habitantes de regiões áridas, por exemplo, tinham que se organizar de forma própria para conseguir água, diferentemente de habitantes de uma região com abundância hídrica. Essa localidade se aplica à caça (espécies disponíveis na região), coleta de alimentos, habitação, agricultura e tantas outras práticas humanas que estavam submetidas a tais condições. Não havia, pois, a necessidade (ou sequer o conhecimento) de outras formas de ação, outras técnicas, outros objetos, senão aqueles que ali existiam ou ali eram criados, naquele tempo e naquele local específico. Conforme os grupos humanos se tornavam mais populosos e as formas de locomoção evoluíam, passaram a ocorrer mais contatos entre as comunidades e, consequentemente, mais trocas culturais. Essas “trocas”, muitas vezes, foram impostas durante processos de colonização. Os modos de vida dos colonizadores em detrimento absoluto dos demais, o que obviamente gerou (e ainda gera) confrontos e devastações culturais, étnicas e ambientais. Nesses casos, sistemas de ação e de objetos (inteiros ou não) eram incorporados ao território conquistado, mediante o uso de violência. A cultura local era desprezada, ou mesmo proibida, e os forasteiros assumiam o controle sobre o novo espaço. No período das grandes navegações, por exemplo, é sabido que os impérios impunham brutalmente seus sistemas técnicos aos nativos das colônias, com total descaso ao que antes ali havia, visando apenas os interesses do império. Conforme Santos demonstra, um dos efeitos desse processo é a diminuição do número de sistemas técnicos e de sistemas de objetos independentes e únicos, pois comunidades que antes realizavam sua vida de forma própria, passaram a usar sistemas alheios, trazidos e implantados por aqueles que possuíam maior domínio sobre as técnicas de locomoção pelo espaço (no caso das grandes navegações) e sobre outros poderosos instrumentos de dominação, dentre os quais se destaca a pólvora e a arma de fogo. Essa diminuição tem impacto direto na pluralidade e na diversidade cultural contida na superfície do planeta, causando uma redução.

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