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Unida na diversidadePT
ASAMBLEA PARLAMENTARIA EURO-LATINOAMERICANA EURO-LATIN AMERICAN PARLIAMENTARY ASSEMBLY ASSEMBLEIA PARLAMENTAR EURO-LATINO-AMERICANA ASSEMBLÉE PARLEMENTAIRE EURO-LATINO- AMÉRICAINE PARLAMENTARISCHE VERSAMMLUNG EUROPA-LATEINAMERIKA
Comissão dos Assuntos Económicos, Financeiros e Comerciais
23.02.2015
DOCUMENTO DE TRABALHO
O impacto das negociações da futura Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) e da Parceria Transpacífico (TPP) nas políticas comerciais da UE e da América Latina e das Caraíbas (ALC)AP101.710v03-00 2/6 DT\1051041PT.doc
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Introdução
O comércio pode ser um instrumento poderoso para o crescimento económico e a criação de emprego, com consequências sociais e políticas de grande alcance. Ao nível multilateral, a Organização Mundial do Comércio (OMC), na qual a União Europeia (UE) e os respetivos parceiros latino-americanos participam ativamente, continua a representar o sistema comercial multilateral mais aberto e previsível, baseado em regras e bastante transparente.
A correlatora do Parlamento Europeu (PE) permanece plenamente empenhada na OMC, que é de facto o sistema comercial mais democrático e inclusivo. Desde a sua criação em 1995, contribuiu para reforçar a estabilidade e o Estado de direito, combater o protecionismo, dinamizar o comércio e favorecer a participação dos países menos desenvolvidos em intercâmbios internacionais.
No entanto, devido à sua natureza multilateral, a OMC também se tem confrontado com graves dificuldades, a fim de alcançar resultados positivos ao ritmo necessário para dar resposta às exigências de um mundo globalizado e em constante evolução. O difícil acordo alcançado em Bali, em dezembro de 2013, enfrenta dificuldades na aplicação, havendo ainda muito por fazer, apesar de se registarem finalmente realizações positivas a assinalar, tais como a integração formal do acordo de facilitação do comércio nas regras da OMC e outros progressos relativos à decisão do Bali sobre a detenção de reservas públicas para fins de segurança alimentar.
Este ritmo extremamente lento da Agenda de Desenvolvimento de Doa (ADD) fez com que, para avançarem na agenda comercial, os membros da OMC negociassem vários acordos bilaterais e regionais. A UE e alguns dos seus parceiros tentaram encontrar meios alternativos de efetuar progressos antes da OMC, mas sempre em cooperação com a agenda multilateral. A correlatora do PE considera que os acordos bilaterais, regionais e plurilaterais representam a segunda melhor opção, mas que podem contribuir para realizar progressos a nível multilateral se corretamente concebidos. Os acordos bilaterais/ regionais negociados pela UE e que ultrapassem os compromissos assumidos no âmbito da OMC não apenas devem complementar as regras multilaterais, como ainda constituir um incentivo para outros parceiros contribuírem e participarem no fortalecimento do sistema multilateral.
A UE tem, portanto, estado ativamente empenhada em chegar a acordos com os seus parceiros comerciais na América Latina. Diversos acordos foram já celebrados, designadamente com o Chile, o México, o Cariforum, a América Central, a Colômbia e Peru, estando outros prestes a serem celebrados (Equador) ou em fase de negociação (Mercosul). O início das negociações ambiciosas da TTIP e da TPP constitui um importante evento na agenda de comércio internacional. As consideráveis consequências económicas e políticas resultantes dessas negociações têm um alcance muito para além dos países envolvidos nesses acordos, dado que o comércio entre a UE e os Estados Unidos da América (EUA) representa mais de metade do comércio mundial, e dado o grande número de países envolvidos na TPP. A correlatora do PE considera de interesse mútuo proceder à troca de pontos de vista com os
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parceiros latino-americanos no âmbito da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana. Opresente documento de trabalho tem como principal objetivo encetar e estimular um debate abrangente sobre o assunto em apreço.
A TTIP em contexto
Em junho de 2013, na sequência das recomendações do Grupo de Trabalho de Alto Nível sobre o Emprego e o Crescimento (HLWG), a UE e os EUA anunciaram o início das negociações no âmbito da TTIP. Desde então, essas negociações são um dos assuntos mais debatidos na UE entre académicos, políticos, empresários e especialistas. Os debates transcenderam o âmbito geográfico, constituindo o seu extraordinário potencial tanto uma fonte de expetativa e esperança, mas também de ceticismo, na UE, nos EUA e não só. Ciente de sua importância inovadora, o PE tem estado profundamente envolvido no início e, presentemente, no acompanhamento das negociações, sendo a sua aprovação necessária antes da celebração e da entrada em vigor do acordo de comércio e investimento.
Independentemente do resultado das negociações do âmbito da TTIP, os debates têm evidenciado a necessidade de enfrentar conjuntamente as incertezas de um mundo em mudança, através do reforço dos laços existentes com os parceiros que partilham valores políticos, civis, sociais e económicos semelhantes. A TTIP pode tornar-se um marco com o potencial para moldar diretamente o quotidiano de mil milhões de pessoas; é nada menos do que uma tentativa ousada de afastamento de um panorama económico sombrio e de um ambiente internacional agitado.
A correlatora do PE considera que esse potencial só pode ser utilizado mediante um acordo ambicioso, equilibrado, profundo e abrangente, alicerçar em elevados padrões, que apoie a criação de empregos de elevada qualidade, crie novas oportunidades económicas e beneficie diretamente os cidadãos, os consumidores, os trabalhadores e os empresários. Além disso, a correlatora do PE espera que a totalidade das negociações seja caracterizada pelo mais elevado nível possível de transparência em todas as suas fases. Neste contexto, mereceram amplo apoio a decisão do Conselho no sentido de desclassificar as diretrizes de negociação para as tornar publicamente acessíveis aos cidadãos, assim como a iniciativa em matéria de transparência prosseguida pela Comissão Europeia. A correlatora do PE espera também que ainda mais documentos sejam disponibilizados ao público após diversas rondas de negociação.
Implicações da TTIP para a América latina
A TTIP apresenta atualmente tanto uma oportunidade económica como um desafio para a política comercial da UE, bem como para as relações comerciais entre a UE e a América Latina. Na medida em que tem o potencial de conduzir à realização do relacionamento bilateral mais profundo do mundo, a TTIP pode impulsionar significativamente o emprego e o crescimento em ambos os lados do Atlântico. A TTIP possui ainda uma dimensão geoestratégica, fortalecendo a relação transatlântica numa era de complexo ajustamento económico e proporcionando uma oportunidade para a UE e os EUA desenvolverem em conjunto novas abordagens ao comércio e à globalização.
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medida uma TTIP bem sucedida poderá afetar parceiros comerciais tradicionais terceiros da UE. Registaram-se progressos durante o primeiro ano e meio de negociações, estando efetivamente em curso conversações em três das principais áreas: 1) o acesso ao mercado (de bens, serviços e contratos públicos), incluindo a agricultura, a energia e as matérias-primas, 2) os entraves não pautais e a cooperação regulamentar e 3) as normas, incluindo os direitos de propriedade intelectual, o investimento e o desenvolvimento sustentável. Existem inúmeros estudos realizados em ambos os lados do Atlântico pela Comissão, pela administração dos EUA, por grupos de reflexão e outras instituições académicas, que revelam dados e valores animadores; no entanto, mesmo perante os atuais modelos, é difícil prever com precisão o seu impacto1. O nível de ambição a atingir tem ainda de ser determinado setor por setor. O dinamismo da situação internacional e a evolução das negociações noutros fóruns bilaterais, regionais, multinacionais ou plurilaterais também será importante. É evidente desde o início que terá realmente repercussões muito fortes e de longo alcance, não apenas em consequência das alterações dos direitos aduaneiros sobre os bens (que já são moderadas na maioria dos setores, exceto nos classificados como sensíveis), mas sobretudo no respeitante ao enquadramento para os serviços e o investimentos, bem como a convergência regulamentar que daí possa advir já que o peso dos entraves não pautais é muito maior do que o dos direitos pautais e aduaneiros convencionais. A sua arquitetura final e a calendarização da conclusão das negociações e a sua entrada em vigor são também questões importantes que podem pesar sobre a forma como outras relações comerciais evoluem.
Como a UE e os EUA concluíram ou negoceiam presentemente uma série de acordos de comércio livre com os outros parceiros tradicionais (designadamente dois membros do Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA), o México e o Canadá), poderá considerar-se, pelo menos em essência, se não por escrito na documentação da negociação, a formulação de disposições no âmbito da TTIP que salvaguardem a futura harmonização desses acordos, de modo a formar um acordo inter-regional UE-NAFTA, ou proporcionem a base de uma plataforma central para outros. Em todo o caso, seria muito importante para os países terceiros da América Latina acompanhar as negociações de forma a prever possíveis mudanças e abraçar o potencial e as oportunidades que o acordo UE-EUA lhes possa também trazer. Na realidade, embora seja de esperar a curto prazo algum desvio dos fluxos comerciais em setores específicos de bens, prevê-se que o aumento do rendimento disponível na UE e nos EUA também possa conduzir a um aumento das importações de outros países parceiros, dada a possibilidade de os rendimentos disponíveis dos agregados familiares serem superiores. Os consumidores beneficiarão da TTIP porque os preços baixarão e a diversidade e qualidade dos produtos aumentará. As empresas (sobretudo as PME) beneficiarão em termos de produtividade e competitividade. Além disso, um maior crescimento para as empresas da UE e dos EUA poderá traduzir-se no aumento dos pedidos dirigidos aos seus fornecedores noutros países parceiros, já que a economia mundial é interdependente e a complexidade das cadeias de valor mundiais é cada vez maior. A procura de produtos produzidos por empresas da UE e dos EUA poderá aumentar também a procura de componentes e serviços dos seus fornecedores noutros países, nomeadamente da América Latina. Os benefícios da redução dos entraves regulamentares ao comércio terão repercussões diretas nos exportadores em todo o mundo. A eliminação, convergência ou redução das barreiras regulamentares permitirão aos produtores de outros países um melhor acesso ao 1
Ver também «The expected impact of the TTIP on EU Member States and selected third countries», pelo Departamento Temático, Parlamento Europeu
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mercado. Muitas empresas da América Latina que exportam para a UE e os EUA têmatualmente de cumprir dois conjuntos de normas e regulamentos, necessitando frequentemente de processos de produção separados. Melhorar a compatibilidade regulamentar prevista ao abrigo da TTIP teria um notável impacto direto e positivo sobre essas empresas. Algo semelhante ao que sucedeu aquando da criação do mercado único da UE. Além disso, outros governos de países terceiros poderão desejar incorporar normas e regulamentos transatlânticos no respetivo sistema e, caso sejam amplamente aceites, poderão encontrar o seu próprio espaço no conjunto das normas internacionais.
Simultaneamente, os consumidores e os cidadãos dos países da América Latina poderiam, de um modo geral, beneficiar de normas laborais e ambientais comuns de elevado nível, nomeadamente robustas normas de segurança alimentar eventualmente criadas no âmbito da TTIP.
A melhoria das economias da UE e dos EUA contribuiria para pôr termo à crise mundial, o que seria claramente benéfico para a economia global, incluindo a América Latina devido aos seus fortes laços com ambas as regiões.
Implicações da Parceria Transpacífico (TPP)
Enquanto decorrem as negociações da TTIP, outro acordo de comércio livre importante é também negociando pelos Estados Unidos com alguns países da América Latina e da Ásia. A Parceria Transpacífico (TPP) é um acordo regional de comércio livre (ACL) que abrange não só os EUA, mas também a Austrália, o Brunei, o Canadá, o Chile, o Japão, a Malásia, o México, a Nova Zelândia, o Peru e o Vietname. Enquanto potenciais membros, as Filipinas, a Coreia do Sul, Taiwan e a Tailândia podem aderir à parceria.
O objetivo é liberalizar o comércio da maioria dos produtos e serviços através da eliminação dos entraves pautais e não pautais ao comércio e investimento entre os países. Estão também a ser negociados outros domínios, como os direitos de propriedade intelectual, os serviços, os contratos, os investimentos, as regras de origem, as normas de concorrência, trabalho e ambientais.
Atualmente, os EUA já têm acordos de comércio livre com a maioria desses países, incluindo os da América Latina. Portanto, a TPP poderia ser considerado um sinal do seu desejo de «viragem» em direção à Ásia e servir, tal como a TTIP, para harmonizar os atuais ACL e criar novas regras sobre questões de política comercial.
O impacto que a TPP poderá ter sobre a UE também é difícil de prever. Diz-se que o desvio dos fluxos comerciais que a TPP causaria poderia afetar negativamente o comércio da UE. No entanto, esse impacto depende do âmbito do acordo e dos países participantes.2.
Quanto às implicações da TPP para o NAFTA, devemos ter em mente que os países do NAFTA representam mais de metade da produção combinada e da população dos países que negociam a TPP. Como a parceria reforça os laços económicos e políticos entre os países da
2 «The Trans-Pacific Partnership and its impact on EU trade», pelo Departamento Temático, Parlamento
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região Ásia-Pacífico, poderia ter consideráveis vantagens comerciais e ao nível das receitas para cada país, fortaleceria o NAFTA e contribuiria para aprofundar a integração económica e a competitividade da América do Norte.3.
A multifacetada estrutura dos acordos de comércio regionais em negociação (entre os quais a TTIP e a TPP) podem tornar-se bastante complexa: Tal como supramencionado, o Chile, o México e o Peru integram a TPP, fazendo simultaneamente parte de diversos acordos comerciais bilaterais com outros países da América e da Europa. O México já manifestou a sua vontade de aderir à TTIP e outros países latino-americanos, que mantêm acordos comerciais com a UE e os EUA, designadamente a Colômbia, a Costa Rica e o Panamá, também gostariam de se juntar à TPP, o que também afetaria o seu comércio com a UE. As repercussões exatas da TTIP e da TPP no comércio entre a UE e a América Latina são difíceis de prever antes de concluídas as negociações4. É, no entanto, evidente que, independentemente do acordo que for celebrado primeiro, assistir-se-á a uma mudança do eixo económico e político (seja o Atlântico ou o Pacífico), criar-se-á um padrão arquitetural para continuar a desenvolver o comércio e o investimento, condicionar-se-ão as opções das demais negociações em curso no que respeita às normas, regras e disciplinas.
Conclusões
A correlatora do PE está plenamente empenhada em apoiar a agenda multilateral consubstanciada na OMC, mas considera que, frente ao lento progresso da sua implementação, não seria sensato manter a inatividade fiando-se apenas nas suas realizações, enquanto as economias da Europa e América latina são severamente afetadas por uma situação económica sombria. É necessário tomar medidas, pelo que todos os projetos (nomeadamente a TTIP) para impulsionar a competitividade, estimular o crescimento e o emprego e a criação de empregos qualificados e aproximar ainda mais os parceiros tradicionais em ambos os lados do Atlântico, que partilham duradouros laços culturais e históricos, constituem uma oportunidade que exige um sólido compromisso mas que pode produzir resultados positivos duradouros. A correlatora considera que a UE e a América Latina devem empenhar-se fortemente na partilha de uma visão comum, consolidando as pontes transatlânticas (nas suas diversas formas) e demonstrando vontade em coordenar esforços, tanto quanto possível, para tornar viáveis e compatíveis os diferentes projetos (bilaterais, regionais, plurilaterais e multilaterais) e alcançar um crescimento e progresso comuns e sustentáveis.
A UE e a América Latina partilham valores e raízes comuns que certamente irão servir de base para coordenar os esforços paralelos de construção de um novo sistema de comércio internacional justo e eficaz.