Umbanda é de Crença Espírita

Texto

(1)

UMBANDA

É DE CRENÇA

ESPÍRITA*

VALDIR AQUINO ZITZKE**

D

esde o início do século XX, espiritismo e umbanda têm apresentado divergências e semelhanças, dependendo do olhar de cada analista ou estudioso nos assuntos, seja em termos da utilização ou negação de ritos, procedimentos ou simbolismos, mas oque de fato as coloca em termos de igualdade é o fenomeno do mediunismo e o seu uso ou direcionamento para a caridade ao próximo, encarnado ou não.

Neste artigo, pretendemos mirar no processo de apresentação das doutrinaspara evidenciar que existem mais semelhanças que divergências entre ambas as propostas

filosó-Resumo: espiritismo e umbanda têm mais pontos em comum do que contrários, se consideramos que a hierofania da revelação da umbanda se dá no contexto interno de uma sessão de trabalho espírita. Se, ao mesmo tempo em que os espíritas não aceitavam entidades como pretos-velhos em suas sessões, a manifestação de uma delas no seu contexto de trabalho, acontecendo pelo fenômeno da incorporação inconsciente, no mesmo mediunismo suas propostas de trabalho e discursos são diferentes. O objetivo deste trabalho é evidenciar que existem mais pontos em comuns entre espiritismo e umbanda do que pontos divergentes: a essência do mediunismo é a mesma, diferenciando em ritos e discursos. Enquanto o espiritismo se apresenta como uma doutrina que possui uma filosofia e se fundamente na ciência positiva vigente, a umbanda, na sua revelação, se apresenta enquanto culto, também com uma filosofia, e ambas se distan-ciam das religiões estabelecidas, indo na direção do fenômeno do espírito e do mediunismo, tendo como orientação maior Jesus, o Cristo. A fundamentação deste trabalho se baseia na análise dos contextos de formação ou revelação destas doutrinas, o científico, relacionado ao espiritismo e o simbólico, à umbanda.

Palavras-chave: Umbanda. Espiritismo. Ciência. Simbolismo.

* Recebido em: 02.09.2014. Aprovado em: 29.09.2014.

** Doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor adjunto da Universi-dade Federal do Tocantins. E-mail: vazitzke@hotmail.com.

(2)

ficas e doutrinárias, além de apontar que o surgimento de ambas as doutrinas se deu num contexto muito semelhante de intensidade dos fenômenos mediúnicos: de um lado, os fenô-menos que motivaram Kardec a estudá-los em profundidade, resultando na sua Codificação e, de outro, a umbanda, que é revelada no contexto brasileiro repleto de misticismo e cultos de influência africana. Pretendemos, a partir disso, ir além da descrição histórica e a compara-ção doutrinária, mas afirmar que, embora diferentes na apresentacompara-ção, são semelhantes na sua essência de autoria Divina e nas mensagens aos seus públicos distintos.

Em se tratando do espiritismo, percebemos que o mesmo está compreendido pela sociedade em sua doutrina e filosofia, estando organicamente estruturado em federações, com normativas, orientações, estudos, procedimentos e ritos próprios. A umbanda, ao contrário, precisa ser analisado a partir de novos olhares para que se possa entender o que este termo encerra e o que se propõe revelar. Ela traz consigo certos elementos simbólicos que precisam ser entendidos, analisados, para que se possa diferencia-la de outros eventos de cunho espiri-tualista que vingavam e ainda vingam no Brasil, com fundo marcadamente africanista. Não se trata aqui, do caráter excludente, mas de uma opção metodológica de análise.

Muito embora a umbanda tenha sido revelada num contexto em que as religiões de matriz africana se disseminavam nem certas cidades, como o Rio de Janeiro, temos uma grande influência do espiritismo num pano de fundo, com cenário marcadamente católico que serão analisados do ponto de vista do simbólico.

São estas três matrizes que influenciam a umbanda, o que não significa sincretismo nem raiz africana ou kardecista, mas, ao contrário, constituem-na como um espaço sagrado democrático onde elementos destas três matrizes pudessem fazer parte, incluídos e se mani-festar, tendo como base os ensinamentos marcadamente cristãos.

O PROCESSO DE CODIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO

Depois que a Reforma Protestante havia libertado a humanidade dos domínios da Igreja (Séculos XVI e XVII) e que os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade ampliaram a percepção e a compreensão do mundo dos seres humanos, formou-se um clima muito pro-pício à fermentação de ideais renovadores. Foi neste período que se iniciaram as primeiras manifestações de Espíritos, chamando a atenção dos seres humanos de então e preparando o terreno para o advento do Consolador.

Ao longo do século XIX, eclodiram muitos fenômenos espíritas e, embora ofi cial-mbora oficial-mente os espíritas tomem o ano de 1848, com o fenômeno de Hydesville, como o início do espiritismo, é preciso reconhecer que antes disso existiram pessoas que precisam ser citadas, pela sua capacidade de produzir fenômenos ligados às coisas espirituais (GBM, 2010).

Entre elas, está o vidente sueco Emmanuel Swedenborg, grande autoridade em Física e Astronomia, autor de importantes trabalhos sobre as marés e determinação das la-titudes. Zoologista, anatomista, financista e político, era ainda engenheiro de minas, com grande conhecimento em metalurgia. O desabrochar de seu potencial mediúnico deu-se em abril de 1744, em Londres, onde, por vinte e sete anos, desenvolveu seu trabalho e deixou relatos extraordinários de suas experiências com o mundo espiritual. Afirmava que ao redor do planeta havia se formado uma densa nuvem devido ao psiquismo grosseiro da humanida-de, antecipando, talvez, aos ensinamentos sobre os fluídos que a Doutrina Espírita trouxe ao mundo (GBM, 2010).

(3)

Outra pessoa também importante neste cenário é Andrew Jackson Davis, nascido em 1826, em New York que, ao contrário de Swedenborg, que foi educado entre a nobreza sueca, era católico e profundo estudioso da Bíblia, era um jovem sem cultura, nascido em meio pobre, mãe com tendências visionárias aliadas à superstição e o pai trabalhava com cou-ros. Nos últimos anos de infância, começaram a se desenvolver os poderes psíquicos de Davis. Davis representou um importante papel no começo da revelação espírita, preparan-do o terreno antes que se iniciasse o trabalho preparan-dos Espíritos superiores. Quanpreparan-do explodiu o acontecimento de Hydesville, ele já o conhecia desde o início, através de revelações mediúni-cas. Morreu em 1910, aos oitenta e quatro anos de idade (GBM, 2010).

O caso das irmãs Fox (1848), no vilarejo de Hydesville, estado de New York, Esta-dos UniEsta-dos, começou a atrair a atenção do mundo quando começaram a acontecer estranhos ruídos nas paredes, com indícios de serem provenientes de uma inteligência oculta desejando se comunicar. Tudo levava a crer que as irmãs, de 11 e 14 anos, eram o centro do fenômeno paranormal, que acabou transformando a casa em ponto de atração para curiosos, que se di-vertiam observando as jovens ordenarem a uma suposta inteligência invisível, que produzisse pancadas nas tábuas da parede (GBM, 2010).

Outro fenômeno mediúnico, quase concomitante ao das irmãs Fox, despertou a atenção das massas. Tratava-se de Daniel Dunglas Home, que nasceu em uma pequena aldeia na Escócia e viveu entre os anos de 1833 e 1886, que se tornou conhecido na época pelos fe-nômenos paranormais que provocava à sua volta. Forças invisíveis se manifestavam, chegando a algumas ocasiões a levantá-lo do chão. Home foi considerado o mais surpreendente médium de todos os tempos. Embora não fosse espírita, atribuía a responsabilidade dos fenômenos aos Espíritos, o que contribuiu para popularização do Espiritismo nos nobres salões da América e da Europa. Kardec faz comentários sobre ele em sua obra, analisando os fenômenos que para ele, eram autênticas provas da existência de imortalidade da alma (GBM, 2010).

Na França, em 1850, surgiu uma espécie de brincadeira denominada “mesa falan-te” ou “mesa giranfalan-te”, que tomou conta dos salões festivos da época. Constituía-se de uma pequena mesa redonda, de três pés, em torno da qual se sentavam as pessoas para promover as manifestações das forças sobrenaturais. As mãos dos presentes eram pousadas sobre a su-perfície da mesa que, através de um fenômeno de efeitos físicos, saltava sobre seus pés, girava seu tampo e produzia pancadas. Através de um código alfabético semelhante ao usado pelas irmãs Fox, era possível conversar com o “invisível”. Houve uma espécie de febre ao redor dessa brincadeira, onde a sociedade francesa se divertia em perguntar amenidades à mesa.

Foi neste contexto que Allan Kardec, um professor francês, estudioso do magnetis-mo e interessado pelo estudo das manifestações espirituais, depois de informado por um ami-go que se tratava de intervenção dos espíritos, participou de uma dessas reuniões. Começou a questionar para encontrar respostas lógicas que explicassem o fato de objetos inertes emitirem mensagens inteligentes. Admirava-se com as manifestações e acreditava que por detrás delas existia uma causa inteligente responsável pelos movimentos, ao que foi informado que aque-las “forças invisíveis” que se manifestavam nas sessões eram as almas de homens que já haviam vivido na Terra (GBM, 2010).

O processo da Codificação Espírita se iniciou em 1855, através de um mecanismo denominado cesta-pião, um mecanismo parecido com as mesas girantes, com a participação de duas médiuns de 14 e 16 anos, na casa da família Baudin. Kardec pronunciava as perguntas aos Espíritos desencarnados, que as respondiam por meio da escrita mediúnica. À medida que

(4)

as perguntas eram respondidas ele percebia que estava diante de uma estrutura doutrinária e se preparou para publicar o que mais tarde se transformou na primeira obra da Codificação Espírita. Todo o trabalho oriundo destas pesquisas era revisado várias vezes, de modo a se evitar erros ou interpretações dúbias (GBM, 2010).

A REVELAÇÃO DA UMBANDA

Utilizamos como base da revelação da umbanda no Brasil a transcrição de uma fita gravada em 1971 por Lilian Ribeiro (de domínio público) durante uma palestra onde Zélio Fernandino de Moraes, então com 80 anos, contou como foi a revelação da umbanda no Brasil, sob a inspiração do Caboclo das 7 Encruzilhadas. Este relato está presente em muitas obras umbandistas e é de conhecimento público, em todo ou em parte. Nesta gravação Zélio conta, entre outras coisas, como foi que começou a Umbanda no Brasil e quem foi o Caboclo das 7 Encruzilhadas.

Antes, porém, vamos contextualizar a vida de Zélio por julgarmos pertinente saber-mos mais sobre este personagem tão importante. Nascido em 10 de abril de 1892, no bairro das Neves, município de São Gonçalo (RJ), vinte e sete anos após a chegada do kardecismo no Brasil (1865), quatro anos após a Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1988, e três da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Um cenário, no mínimo, inte-ressante, dado à sua complexidade social.

As diferentes manifestações de espíritos que se apresentavam na forma de índios e pretos-velhos vinham acontecendo de forma cada vez mais frequente em diversas casas e espaços onde se verificava o fenômeno do mediunismo. No interior das religiões de matriz africana foram essas manifestações que deram origem a muitas outras manifestações como Toré, Pajelança, Catimbó, Candomblé, Jurema, entre outras.

Já no ambiente Kardecista esses espíritos não encontraram a mesma receptividade nos praticantes. Temos aqui, um cenário astral onde diferentes espíritos buscavam um meio mais adequado para resolver estas questões. Estes espíritos foram denominados por Matta e Silva (2013) de Confraria dos Espíritos, constituída dos espíritos mais antigos e elevados do planeta e foram os primeiros a conseguir esgotar os seus carmas individuais pelas inúmeras reencarnações na Terra. Neste momento, deu-se o início da organização e a preparação do terreno para o advento de uma “nova” doutrina, incluindo a preparação espiritual do jovem Zélio Fernandino de Moraes.

No dia 15 de novembro de 1908, Zélio foi levado por familiares à Federação Espí-rita de Niterói para atendimento por motivos que, supunham seus familiares, eram de saúde. Convidado para sentar-se à mesa de trabalho, Zélio foi tomado por uma força estranha e afirmou: “aqui está faltando uma flor!”. Dizendo isso, saiu da sala e dirigiu-se ao jardim onde colheu uma flor e, retornando, colocou-a sobre a mesa. Logo em seguida ao início dos traba-lhos começaram a se manifestar, num processo de transe e possessão, espíritos de índios e de anciãos que afirmaram terem sido escravos.

O diretor dos trabalhos, não aceitando tais manifestações, exigiu que os espíritos em manifestação se retirassem, pois os considerava insuficientemente evoluídos para os tra-balhos que se faziam necessários naquele recinto. Zélio, tomado pelo processo mediúnico, pergunta por que repelem a presença desses espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Ou, por outro lado, seria pelas suas origens sociais pela da cor da pele.

(5)

Identifi-cou-se como um “caboclo brasileiro”. Ao ser inquirido por um médium vidente que percebia ali vestes sacerdotais, explicou que viam nele os restos de uma existência anterior, quando foi padre. E que foi encaminhado àquele local em nome de Santo Agostinho e seu nome, em outra reencarnação, tinha sido Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria, foi sacrificado na fogueira da inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Com-pletou informando que “na última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro”.

Perguntado seu nome, disse chamar-se do Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para ele não existiriam caminhos fechados. “Venho trazer a Umbanda, um novo culto que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos”, finalizou.

Questionado se já não havia religiões suficientes na Terra para ele viesse inaugurar mais uma, respondeu, conforme consta na entrevista:

Deus, em Sua infinita bondade, estabeleceu na morte o grande nivelador universal. Rico ou po-bre, poderoso ou humilde, todos se tornam iguais na morte, mas vocês, homens preconceituosos, não contentes em estabelecer diferenças entre os vivos, procuram levar estas mesmas diferenças até mesmo além da barreira da morte. Por que não podem nos visitar estes humildes trabalhadores do espaço, se apesar de não haverem sido pessoas importantes na Terra, também trazem importantes mensagens do além? Por que o não aos caboclos e pretos-velhos? Acaso não foram eles também filhos do mesmo Deus?

Antes de se retirar, informou que no dia seguinte na casa de seu médium, haveria uma mesa posta a toda e qualquer entidade que quisesse ou precisasse se manifestar indepen-dente daquilo que haja sido em vida. Todos seriam ouvidos, e aqueles espíritos que souberem mais ensinariam aqueles que sabiam menos, e a nenhum seria negada esta possibilidade, pois era a vontade de deus.

Neste dia, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, através do transe de Zélio, definiu o rito do novo culto, que deveria ser bem simples, com cânticos baixos e harmoniosos, roupas de cor branca, proibição de sacrifícios de animais. Dispensou os atabaques e as palmas. Capa-cetes, espadas, cocares, vestimentas de cor, rendas e lamês não seriam aceitos. As guias usadas seriam apenas as que determinam a entidade que se manifesta. Os banhos de ervas, os amacis, a concentração nos ambientes vibratórios da natureza, a par do ensinamento doutrinário, na base do Evangelho, constituiriam os principais elementos de preparação do médium.

A diversidade e a pluralidade em suas manifestações são características marcantes da umbanda, fruto de sua origem descentralizada, permitindo, desde seu início, a introdu-ção de elementos regionais em sua ritualística e liturgia, sem a perda da sua unidade e nem dos seus desígnios de caridade e trabalho aos necessitados (RIVAS NETO, 2008). Para os estudiosos de espiritismo, a miscigenação da umbanda no Brasil, pelas culturas ameríndia e africana, pode representar uma aparente desconstrução do Uno sagrado. E foi este traço, mar-cadamente amplo e de cunho regional que levou a um não reconhecimento de suas diversas mani festações.

CIÊNCIA E ESPIRITISMO

O contexto europeu, com seu traço forte iluminista influenciou diretamente na codificação do espiritismo, pelas suas características históricas deixadas em diferentes

(6)

insti-tuições (imprensa, estado nação), padrões de comportamento (democracia representativa, cultura secular, progresso), política (equilíbrio dos três poderes, democracia representativa, contrato social), economia (expansionismo econômico, indústria) e ciência (ciência moderna, declínio da religião, razão histórica, superação do pensamento tradicional).

A ciência moderna iluminista surge e se organiza em torno dos trabalhos científicos de Galileu e do cálculo e da física de Isaac Newton, legitimando o modelo do universo regido por leis matemáticas e propiciando o estabelecimento do materialismo científico, a ciência objetivista e linear. Esta situação impossibilitava a existência de qualquer realidade fora do mundo material e objetivo, tidos como a única dimensão que poderia explicar o mundo, utilizando-se, para isso, da experimentação em laboratório, do controle de suas variáveis e da comprovação das leis que regem os fenômenos naturais, físicos, biológicos ou sociais (MA-RALDI, 2011).

É nesse contexto, na França, onde o Iluminismo assumiu sua feição intelectual mais vigorosa, que o espiritismo, um tratado epistemológico, é codificado. Em relação à natureza do espiritismo, Kardec afirmou que:

É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas. (KARDEC, 1990, p. 20)

Neste cenário, Kardec não apenas reconhecia a importância do método positivo para o avanço e consolidação da ciência moderna, como também desenvolveu procedimentos para emprega-lonos estudos dos fenômenos espíritas. Além disso, submeteu os fatos espíritas à observação e à comparação, classificando-os na escala espírita para encontrar a sua causa racional e aplicou estudo rigoroso das suas várias hipóteses de explicação para manter os con-ceitos espíritas dentro de uma racionalização lógica e coerente. Neste sentido, foi fortemente influenciado pelo racionalismo, experimentalismo e evolucionismo, as principais vertentes do Iluminismo.

Da mesma forma, as Leis Morais que Kardec apresenta no Livro dos Espíritos, têm influência direta de pensadores como Rousseau (O Contrato Social), Montesquieu (O Espí-rito das Leis), Maquiavel(O Príncipe) e Descartes (O Discurso do Método), além de Voltaire, Diderot, e muitos outros Iluministas.

Se, por um lado, a visão sobre a evolução humana que o espiritismo propicia, com base no sentido das leis, rompendo com a suposta ideia da intervenção Divina na história, se caracteriza por uma abordagem não teológica do progresso, por outro lado, o espiritismo amplia esta visão ao conceber a evolução humana por meio de algumas leis naturais, entre elas a reencarnação e a influência recíproca dos diferentes planos da vida, assumindo, assim, uma visão mais naturalista. Kardec transcendeu ao iluminismo ao optar por um modelo episte-mológico de trabalho que estava além de seu tempo, desenvolvendo, através do diálogo com os espíritos, uma racionalidade mais ampla e complexa, integrando interpretações filosóficas, dados concretos e objetivos da ciência de sua época, relatos e descrições etnográficas dos espíritos, empatia espiritual e a vivência de uma consciência religiosa autêntica e profunda (MARALDI, 2011).

Em pleno século XIX, Kardec, com sua infidelidade ao paradigma cientificista da sua época, conseguiu construir uma ciência e uma linguagem novas, com elementos

(7)

suficien-tes para superar os condicionamentos impostos pela ciência newton-carsuficien-tesiana, apontando, inclusive, para uma concepção quântica do universo ao descrever as formas de matéria cujo grau de eterização rompia com a física corpuscular de Newton. Além disso, traz em si elemen-tos da tradição do Romantismo, ressignificando o mundo através dos valores espirituais, do amor e da fraternidade universais, em cada ser, individualidade e, diferentes de manifestações da vida (MARALDI, 2011).

SIMBOLISMO E UMBANDA

A umbanda que foi revelada no Brasil apresenta uma linguagem simbólica, pois ágrafa, nascida no seio de comunidades pobres e periféricas das cidades brasileiras, constituída de pessoas humildes e analfabetas, ao contrário do espiritismo que nasce nos salões da nobreza francesa e seio da ciência moderna. Para ser compreendida pelos seus adeptos, como uma for-ma de consolo à dureza da vida cotidiana, apropriou-se da linguagem simbólica que imperava no interior destas periferias brasileiras, e que frequentavam, via de regra, as diferentes casas que se utilizavam do fenômeno do mediunismo, como forma de oferecer alento e soluções aos diferentes tipos de problemas, muitas delas, mediante pagamentos.

Desta forma, o simbolismo, apreendido pelos sentidos e somados à fascinação so-cial pelo fenômeno do mediunismo imperante, tão intrínseco à gênese do povo brasileiro, com danças, gritos, risos, batuques e cantigas, foi a forma que os espíritos da Confraria de Umbanda, segundo Matta e Silva, encontraram para implantar no Brasil o Projeto Terras do Sul, com a reintrodução da Umbanda.

Muito embora a umbanda tenha sido revelada num contexto em que as religiões de matriz africana se disseminavam nem certas cidades, com o Rio de Janeiro temos uma gran-de influencia do espiritismo (kargran-decismo) num pano gran-de fundo, com cenário marcadamente católico.

Então, estes três elementos se constituem no grande cenário onde a umbanda foi anunciada, influenciando e sendo influenciada por eles ao mesmo tempo, o que não sig-nifica sincretismo nem raiz africana ou kardecista, mas, ao contrário, um espaço sagrado democrático onde elementos destas três matrizes pudessem fazer parte, incluídos e se mani-festar, tendo como base os ensinamentos marcadamente cristãos. Neste aspecto, a umbanda se apresenta com caráter eclético, abrangente e universalista, não se restringindo a ser apenas uma religião, embora o seja.

A Umbanda se constitui num culto eminentemente simbólico, e isto se justifica pelo fato de o símbolo estar presente no cotidiano das atividades humanas, tornando-se um traço característico da dimensão humana. No início do século XX, Carl Gustav Jung produ-ziu uma teoria psicanalítica baseada nesta característica humana, apontando para a existência de imagens simbólicas gravadas no inconsciente coletivo, considerando que estas imagens seriam fruto de toda uma herança cultural ancestral, passada através de gerações.

Do ponto de vista espiritualista, elas podem ser interpretadas como as aquisições do espírito ao longo de suas diversas passagens pela matéria em épocas distintas da história da humanidade. Alguns destes símbolos ou imagens alcançam o status de “imagens primordiais” ou “arquétipos”, ou seja, imagens que contém em si uma carga representativa passível de ser reconhecida por qualquer pessoa, em qualquer lugar, e que permitem a construção de uma teia de símbolos amplamente utilizados de forma geral, pelo ser humano.

(8)

Um símbolo é uma representação, mas não uma reprodução. Um símbolo traz em si a capacidade de evocar conceito do objeto que ele representa devido possuir características em comum, tratando-se de outro tipo de linguagem, coletiva, mais emotiva e mais rica, exprimindo o que não pode ser expresso diretamente no falar corrente. O símbolo aponta para algo que está ausente, representando-o, mas sem apreender todas as suas possibilida-des. O símbolo tem a propriedade excepcional de sintetizar, numa expressão sensível, todas as influências do inconsciente e da consciência, bem como das forças instintivas e espirituais, em conflito ou em vias de se harmonizar no interior de cada homem (CHEVALIER; GHE-ERBRANT, 2001).

No caso da revelação da Umbanda, os símbolos presentes são elementos essenciais no processo de comunicação e, embora alguns sejam amplamente conhecidos, outros só po-derão ser reconhecidos e compreendidos daquele momento em diante e dentro do grupo ou no contexto de um templo espiritualista de umbanda. Estes símbolos é que intensificam a relação com o transcendente, com a dimensão espiritual. A representação específica de cada símbolo, naquele monento, foi convencionada de maneira a que os receptores presentes con-seguissem fazer a interpretação dos seus significados implícitos e atribuir-lhes determinada conotação.

A flor branca depositada sobre a mesa na Federação Espírita se constituiu no pri-meiro símbolo e precisa ser analisado na perspectiva sistêmica: o ambiente kardecista, isento, geralmente, de qualquer tipo de simbologias ou representações, foi alterado pela presença de uma flor. Sabemos, pela literatura espírita, que o mundo dos espíritos é o mundo das energias sutis e, nesse momento, a presença da flor alterou em termos energéticos ou vibracionais a condição do ambiente, criando as condições necessárias para a manifestação daqueles espíritos que até aquele momento não seriam intencionalmente invocados. A flor simbolizou, naquele momento, um elemento mágico de conexão com as energias puras da natureza, representan-do a dimensão astro-magnética das energias movimentadas pelos espíritos na Umbanda.

O segundo símbolo da umbanda que precisa ser analisado é nome do Caboclo: representa aquilo que mais importa na Umbanda, a sua prática, que seria a chave para a iden-tificação dos diferentes espíritos na Umbanda, onde cada um utilize nomes que identificariam mais sua função no astral do que uma personalidade ou um ego. Naquele momento, o nome Caboclo das 7 Encruzilhadas refletia em seu nome a abertura de todos os caminhos espirituais e terrenos para todos os espíritos que desejassem trabalhar no novo culto cujas bases foram ali lançadas.

O número 7 presente no nome do Caboclo, para o qual “nenhum caminho estaria fechado”, pode se referir aos sete caminhos que teria para percorrer no sentido de propagar a Umbanda. A junção destes sete caminhos, a encruzilhada, remete-nos às praças de muitas igrejas das cidades do interior, que oferecem aos fiéis sete opções de caminhos para chegar até o templo. Estes caminhos podem se referir aos sete dons do Espírito Santo: Sabedoria, Enten-dimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor, portanto, completamente distante das interpretações que qualificavam as entidades da Umbanda como demoníacas.

Em relação à Umbanda se constituir num “novo” culto, temos três observações que se fazem importantes para compreensão dos fundamentos da Umbanda: o Caboclo afirmou ser um novo culto e não uma corruptela de alguma já existente, importante para que não se confundisse com outras religiões de matriz africana que se verificavam naquele momento histórico; que os pretos-velhos africanos e os índios nativos (caboclos) não

(9)

encon-travam campo de ação nos grupamentos kardecistas e que teria na Umbanda este espaço de trabalho e que esse seria um culto embasado no Evangelho de Jesus, reconhecendo-o, inclu-sive, como Mestre Supremo.

Em relação ao “ator” que anuncia a Umbanda, que se identificou como Caboclo das 7 Encruzilhadas é o fato de denominar enviado de Santo Agostinho, um dos doutores da Igreja (Doctor Gratiae), que em outra vida, havia sido um padre jesuíta, o que nos leva a considerar a Umbanda enquanto uma religião que acolhe trabalhadores de qualquer religião, irmanados para o bem comum.

Os pintores da Idade Média, com razão, representaram Santo Agostinho tendo em sua mão um coração atravessado por uma flecha. Ele havia dito a Deus que “tu atinges meu coração com a flecha de teu amor”. O coração simbolizando o amor de Deus por todos, bem como o desejo de conhecê-lo e experimentar seu amor Divino. A flecha transpassando o cora-ção, de cima para baixo, representa o Espírito de Deus entrando nos corações. Todos são cha-mados a continuar crescendo na fé, na esperança e na caridade, principalmente ao próximo.

Numa pintura mediúnica do Caboclo das 7 Encruzilhadas realizada em 1949 pelo médium vidente Jurandy, o símbolo do coração atravessado pela flecha aparece no seu ombro evidenciando a ligação e o compromisso de Santo Agostinho com a Umbanda, juntamente com o Caboclo das Sete Encruzilhadas. A presença deste Santo é importante e decisiva na formação da Umbanda, pois um dos mais importantes teólogos e grande inspirador da vida religiosa e do desenvolvimento do cristianismo no ocidente.

Em relação às características dos ritos do novo culto ou religião, que deveriam ser bem simples e, portanto, sem ostentações de os adereços, com cânticos baixos e inexistência de tambores, o Caboclo se referia às muitas casas religiosas, muitas de matriz africana, onde existia uma hierarquia manifestada nas roupagens e guias dos seus diretores, conferindo-lhes certo caráter de autoridades espirituais, o uso vibrante dos tambores palmas nas sessões de trabalho, com o uso de cocares, capacetes e vestimentas de cor utilizada pelos médiuns para identificar ou caracterizar a entidade que “baixava”. Neste sentido, tirava o foco dos ritos e manifestações materiais direcionando-os para conceitos de irmandade, de igualdade e de simplicidade.

Na nova religião, a Umbanda, os banhos de ervas, os amacis, a concentração nos ambientes vibratórios da natureza, a par do ensinamento doutrinário, na base do Evangelho, constituiriam os principais elementos de preparação do médium. Este fato evidencia a estreita relação da Umbanda com os sítios vibratórios da natureza terrena como ambiente de equilí-brio aos médiuns e a fonte de energia para os trabalhos de magia de trabalho e fundamenta sua doutrina nos Evangelhos, fato que a afasta, claramente, da crença no senso comum, de sua origem africana. Neste sentido, a Umbanda é de orientação crística, tendo Jesus, o Cristo, como seu mentor.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Este primeiro ensaio nos leva a questionar muitos pontos de vista divulgados em re-lação às diferenças entre espiritismo e umbanda, todos relacionados aos seus ritos, entidades, fenômenos e manifestações mediúnicas.

Mas o que nos importa neste momento, é verificar que ambas são diferentes lin-guagem de um mesmo Autor, voltada para públicos (receptores) diferentes e em contextos

(10)

específicos, exigindo, da mesma forma, linguagens próprias. Assim, no caso do espiritismo, a manifestação divina se deu através da linguagem cientifica, num contexto em que a ciência se consolidava e avançava, num crescente progresso humano e material, mostrando certa consistência científica, uma racionalidade analítica e um conteúdo passível de verificações e experimentações. No caso da umbanda, a opção pela linguagem simbólica se deveu pelo próprio cenário brasileiro, pobre, excludente, mestiço e ágrafo, onde o simbolismo, associado ao sincretismo, legitimava as manifestações religiosas.

Dito de outra forma: estruturas linguísticas e elementos ou instrumentos próprios de cada contexto histórico: a linguagem científica, baseada no desenvolvimento da razão, a reflexão, a análise e a conclusão, portanto, um método científico de compreender o mundo em se tratando de espiritismo; linguagem simbólica, baseada na busca da solução imediata para os problemas da vida (saúde, orientação, trabalho) utilizando-se de elementos do coti-diano e disponível a todas as pessoas: água, velas, ervas medicinais, fumo (cachimbo), álcool (cachaça), conhecimentos das lunações, das rezas, ou seja, a magia dos elementos e energias da natureza no caso da umbanda.

Constituem-se, ambas as doutrinas, nas duas faces da mesma moeda e em conso-nância com a afirmação de Roger Feraudy, também admitimos que “no espiritismo, é Jesus estudando, na umbanda, é Jesus trabalhando”.

UMBANDA BELIEF IS SPIRITIST

Abstract: Spiritism and Umbanda have more in common than contrary, if we consider that the revelation of the Umbanda hierophany occurs in the internal context of a spiritist session. If, at the same time as the spiritualists would not accept elderly black spirits in their sessions, the manifesta-tion of one of them in their work context, going by the phenomenon of unconscious incorporamanifesta-tion, the same mediumship its work proposals and discourses are different. The objective of this work is to show that there are more points in common between spiritualism and Umbanda than divergent ones: The essence of mediumship is the same, the difference is their rites and discourses. While spiri-tualism is presented as a doctrine that has a philosophy and is based on the positive science, Um-banda, in its revelation, presents itself as a cult, also with a philosophy, and both are distant from established religions, going toward the phenomenon of spirit and mediumship, yielding a greater guide Jesus the Christ. The rationale of this work is based on analysis of the contexts of the develop-ment of these doctrine: scientific, related to Spiritism, and the symbolic, related to Umbanda. Keywords: Umbanda. Spiritism. Science. Symbolism.

Referências

CANTUÁRIO, Maria Zelma de Araújo Madeira. A maternidade simbólica na religião afro-bra-sileira: aspectos socioculturais da mãe de santo na umbanda em Fortaleza-Ceará. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Federal do Ceará, 2009.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.

ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução: Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes. 1991.

FERNANDES, Paulo César da Conceição. As origens do Espiritismo no Brasil: razão, cultura e resistência no início de uma experiência (1850-1914). 2008. 139p. Dissertação (Mestrado em

(11)

Psicologia) - Universidade Federal de Brasília, DF, 2008.

ISAIA, Artur César. O elogio ao progresso na obra dos intelectuais de umbanda. In: CONGRES-SO DA ASCONGRES-SOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE LUSITANISTAS, 6, 1999, Lisboa. Anais. Disponível em: <www.geocities.com/ail_br/oelogioaoprogressonaobra. htm>. Acesso em: 24 jul. 2003.

FERAUDY, Roger. Umbanda, essa desconhecida. 5 ed. Limeira, SP: Editora do Conhecimen-to, 2006.

GRUPO ESPÍRITA BEZERRA DE MENEZES. Origem da doutrina espírita. 2010. Dis-ponível em:http://www.espirito.org.br/portal/doutrina/espiritismo-para-iniciantes-3.html, acessado em 03 mar.2014.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1997. JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes, 2000. LURKER, Manfred. Dicionário de simbologia. São Paulo: Martins Fontes. 1997.

MACHADO, Sandra Maria Chaves. Umbanda: reencantamento na pós-modernidade? 2003. 133p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2003.

MARALDI, Everton de Oliveira. Metamorfoses do espírito: usos e sentidos das crenças e experiên-cias paranormais na construção da identidade dos médiuns espíritas. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. 2011.

MATTA e SILVA, W. W. Da. Umbanda de todos nós. São Paulo: Ícone, 1956. MATTA e SILVA, W. W. Da. Umbanda do Brasil. 4 ed. São Paulo: Ícone, 2012.

NASSER, Maria Celina de Q. Carrera. O que dizem os símbolos? São Paulo: Paulus, 2003. OLIVEIRA, José Henrique Motta de Oliveira. Entre a macumba e o espiritismo: uma análise comparativa das estratégias de legitimação da Umbanda durante o Estado Novo. 2007. 165p. Dissertação (Mestrado em História Comparada) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ, 2007.

RIVAS NETO, Francisco. Umbanda, a proto-síntesecósmica. São Paulo: Pensamento; 2002.

Imagem

Referências