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O corruptor da virtude socrática

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(1)

118

o

JIHGFEDCBA

CORRUPTOR DA VIRTUDE SOCRÁTICA

THE CORRUPTOR DF THE SDCRÁT/CA VIRTUE

UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

H é c t o r H u g o P a l a c i o D o m í n g u e szyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Doutor em Educação e professor do Departamento de Fundamentos

da Educação da Universidade Federal do Ceará.

Resumo

A acusação de corruptor de jovens que se lança contra Sócrates em juízo público aparece em primeira instância como paradoxal, levando

em consideração que Sócrates ficou para ocidente como modelo de

virtude e de transmissão do saber. Desde diferentes pontos de vista, no entanto, essa acusação recupera o sentido: como má interpretação das práticas eróticas da época, como referência ao contexto históri-co antidemocrátihistóri-co da Atenas dos Trinta Tiranos e, finalmente, como questionamento dos princípios de autoridade e tradição em favor do intelectualismo e do primado do exercício individual da razão. Desde essa perspectiva, mais ampla, Sócrates seria de novo condenável.

Palavras-chave: Sócrates, Democracia, Pederastia, Corrupção, Autori-dade, Retórica, Intelectualismo.

Abstroct

Accusing Socrates of corrupting the youth, as it was done in public Trial before his death, seems at first sight to be something of a paradox, taking into account the fact that Socrates has been a Western model for virtue as well as for the transmission of knowledge. From a num-ber of viewpoints, however, this accusation makes sense: as a misun-derstanding of the erotic practices of the period, as a reference to the antidemocratic historical time of the Thirty o Athens and, finally, as a questioning of the principies of authority and tradition, favouring intel-lectualism and the primacy of the individual exertion of reason. From this, broader perspective, Soc~ates would again be condemnable.

Key-w ords: Socrates, Democracy, Pederasty, Corruption, Authority, hetoric, Intellectualism.FEDCBA

f I J I , V.1. n. 55. ano 30 • 2008

A

proposta do texto é a do retorno a esse juízo púhlic o «·h·1li ,li111

em Atenas por volta do ano 399 a.c., juízo com que

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lenado a morte por, dentre outras coisas, "corromper os jovens". (( li" "

interpretar essa acusação formulada contra um homem que cl

1'1'<)1

111.1

história nos apresenta como iniciador, em muitos aspectos, da filoljofl.l

lássica e, certamente, como abertamente preocupado com a transm

i-são do saber, a educação, a virtude, e o próprio s t a t u s da

sabcdon.i

omo entender essa acusação no contexto dos diálogos platônicos, onde

os interlocutores do Sócrates desenhado por Platão, jovens em sua maior

parte, entram em um jogo dialético que tem servido de alicerce para o

desenvolvimento moderno do que se tem considerado, freqüentemente,

o próprio coração do discurso filosófico?

O juízo e a morte de Sócrates têm projetado sempre um extenso

fascínio, com suas interpretações correspondentes, que ainda hoje vão do

debate historiográfico-filológico à exclusiva análise das redes simbólicas

deste ícone cultura de ocidente. Entre ambos os extremos e, sem dúvida,

mais perto desse último, nos propomos neste texto a analisar algumas pos

síveis interpretações dessa desconcertante acusação contra esse "cidad3o

exemplar" de Atenas; ver em que medida podem ser más interpretações ('

em que medida tem deixado de

sê-lo

com a passagem do tempo, ainda, relacionar essa acusação com as outras acusações que surgiram explici

tamente nesse juízo, para fazer ver a suposta não aptidão pedagógica de

Sócrates não pode ser, em absoluto desvinculada dos outros cargos qu

condenaram a beber a cicuta; finalmente, emitiremos mais um juízo sobre

Sócrates, a partir daquilo que os textos que nunca escreveu continuam ,)

nos falar sobre ele; um juízo que, adiantemo-Io, apesar de toda a sua

am-bigüidade e sua ironia, seria novamente condenatório.

(orno Interpretar

Essa Acusação

Na Grécia de finais do século V a.c. é evidente que quase tudo

tinha um sentido suficientemente próximo de nossa conternporancid-t

(2)

o

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

CORRUPTOR DA VIRTUDE SOCRÁTlCA

UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

T H E C O R R U P T O R D F T H E S D C R Á T /C A V IR T U E

IFEDCBAté c to r H u g o P a l a c i o D o m í n g u e s

I)outor em Educação e professor do Departamento de Fundamentos

da Educação da Universidade Federal do Ceará.

Resumo

1\ acusação de corruptor de jovens que se lança contra Sócrates em juízo público aparece em primeira instância como paradoxal, levando

m consideração que Sócrates ficou para ocidente como modelo de

virtude e de transmissão do saber. Desde diferentes pontos de vista, no entanto, essa acusação recupera o sentido: como má interpretação das práticas eróticas da época, como referência ao contexto

históri-o antidemhistóri-ocrátichistóri-o da Atenas dos Trinta Tiranos e, finalmente, como questionamento dos princípios de autorídade e tradição em fa v o r do intelectualismo e do primado do exercício individual da razão. Desde essa perspectiva, mais ampla, Sócrates seria de n o v o condenável.

Palavras-chave: Sócrates, Democracia, Pederastia, Corrupção, Autori-dade, Retórica, Intelectualismo.

Abstroct

!\ccusing Socrates of corrupting the youth, as it was done in public

Irial

before his death, seems at first sight to be something of a paradox,

laking into account the fact that Socrates has been a Western model for virtue as well as for the transmission of knowledge. From a num-bcr of viewpoints, however, this accusation makes sense: as a misun-derstanding of the erotic practices of the period, as a reference to the

antidem ocratíc historical time of the Thirty o Athens and, finally, as a

[ucstioning of the principies of authority and tradition, favouring intel-lectualism and the primacy of the individual exertion of reason. From Ihis, broader perspective, Socrates would again be condemnable.

Kcy-words: Socrates, Democracy, Pederasty, Corruption, !\uthority, ~11{'[OriC,Intellectualism.

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Atenas por v o lta do ano 399 a.c., juízo com que

Sócratcs

fO I c un

lenado a morte por, dentre outras coisas, "corromper os jo v e n s " . C O l110

interpretar essa acusação formulada contra um homem que a

própri.i

história nos apresenta como iniciador, em muitos aspectos, da filosofia

lássica e, certamente, como abertamente preocupado com a

transmis-são do saber, a educação, a virtude, e o próprio s t a t u s da sabedoria?

omo entender essa acusação no contexto dos diálogos platônicos, onde

os interlocutores do Sócrates desenhado por Platão, jo v e n s em sua maior

parte, entram em um jogo dialético que tem s e rv id o de alicerce para o

desenvolvimento moderno do que se tem considerado, freqüentemente,

o próprio coração do discurso filosófico?

O juízo e a morte de Sócrates têm projetado sempre um extenso fascínio, com suas interpretações correspondentes, que ainda hoje vão do

debate historiográfico-filológico à exclusiva análise das redes simbólicas

deste ícone cultura de ocidente. Entre ambos os extremos e, sem dúvida,

mais perto desse último, nos propomos neste texto a analisar algumas

pos-síveis interpretações dessa desconcertante acusação contra esse "cidadão

exemplar" de Atenas; v e r em que medida podem ser más interpretações e

em que medida tem deixado de

sê-lo

com a passagem do tempo, ainda, relacionar essa acusação com as outras acusações que surgiram

explici-tamente nesse juízo, para fazer v e r a suposta não aptidão pedagógica de

Sócrates não pode ser, em absoluto desvinculada dos outros cargos que o

condenaram a beber a cicuta; finalmente, emitiremos mais um juízo sobre

Sócrates, a partir daquilo que os textos que nunca escreveu continuam a

nos falar sobre ele; um juízo que, adiantemo-Io, apesar de toda a sua

am-bigüidade e sua ironia, seria novamente condenatório.

119

(orno Interpretar Essa Acusação

Na Grécia de finais do século V a.C. é evidente que quase tudo

tinha um sentido suficientemente próximo de nossa contem porancid.i

(3)

120

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que possamos

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e suficientemente

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que

jamais possamos compreendê-Io

bem. A corrupção

moral

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discípulos jovens não é uma situação que nos resulte

excessivamen-te

difícil de nos representarmos,

porém, a moral idade clássica

rompeu

muitos de seus laços com a nossa. Voltando

o olhar para trás, tão só

algumas décadas,

é difícil encontrar os testemunhos

de helenistas,

filólo-gos e acadêmicos

que tinham sérios problemas para assumir a existência

da instituição grega da pederastia,

e em ocasiões ela era relegada às

mar-gens ou às elipses. Em outras ocasiões,

pelo contrário,

era exatamente

a

desculpa

para colocar de manifesto a inferioridade

moral da

Antigüida-de e, ainda mais, para justificar a ruína pessoal Antigüida-de personagens

públicos

como Sócrates. Chegamos,

assim, a uma primeira interpretação,

quiçá a

mais ingênua, hoje insustentável,

e que jamais teve, de fato, uma grande

repercussão:

a interpretação

do poder corruptor

de Sócrates em tanto

que cidadão

adulto com comportamentos

eróticos com filhos varões de

outros cidadãos:

Sócrates um tanto que pederasta.

Porém, mesmo alguns

defensores

da moral idade judeu-cristã

fizeram alusão,

freqüentemente,

às representações

contemporâneas

do homo-erotismo

como "o vício de

Sócrates",

a vontade

socrática

de se manter à margem

da política ati-

FEDCBA

v a ,

sua ênfase na virtude individual

e sua própria conduta

descrita em

termos de asceta e excêntrico

em relação aos usos amorosos

da época,

tem feito com que nem sequer a tradição

cristã tenha se exacerbado

excessivamente

nesta desacertada,

anacrônica

e ingênua

interpretação.

Teremos que adiantar,

no entanto,

que se bem Sócrates

não nos tem

chegado

como paradigma

do chamado

"amor grego", apesar de

decla-rar ser versado em questões

amorosas

( B a n q u e te ) ,

a transcendência

da

sua associação

da pederastia

com a corrupção

educativa

pode ir, como

UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

v e r e m o s

mais adiante, além do puro anacronismo.

Uma aproximação

historiográfica

mais séria nos fala da corrupção

dos

j o v e n s

em termos estritamente

políticos:

dentre

os seguidores

de

Sócrates, tinham estado Alcebíades

e Crítias, que tinham demonstrado

abertamente

seu distanciamento

do modelo democrático

anterior

duran-te o período da oligarquia dos Trinta, quando exerceram

seu poder. Logo

após a derrocada

dos "trinta tiranos", tinha se proclamado

uma anistia

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proibia juízos em relação

com os acontecimentos

desse período

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em questão o sistema democrático

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idéias de auto-suficiência

e anti-relativismo

que teriam

conduzido

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e Crítias a se tornarem

inimigos tiranos cld Olg.1I11

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ateniense.

Nessa aproximação

historiográfica,

no entanto,

um autor (OI1H

Thomas Brickhouse,

em seu

S ó c r a te s

a

ju íz o ,

preocupa-se

em rcsg.it.:

a figura de Sócrates para a causa democrática,

por falta de evidênc id'

filológicas:

"concluímos

que a Apologia

33a

4-5

não nos leva pOl

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mesma a supor que Sócrates alude especificamente

a sua pretensa

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rupção de Crítias, Alcibíades

ou Cármides,

de forma oposta ao

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de

j o v e n s

atenienses

que, de acordo

com os

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acusadores'

foram corrompidos

quando

se associaram

a ele (23" '

2)".2 A partir dessa conclusão,

só uma acusação

geral de

corrupim

sem partidismo

político ou nomes próprios concretos,

se sustentari.i,

não estria diretamente

relacionada

com as suposta atitudes

"anlidcmo

cráticas"

de Sócrates,

que no âmbito da cena pai ítica

certam ente

1101

se evidenciam

documentalmente,

nem sequer durante a

oligarquia do

Trinta. Apesar disso, não podemos

deixar de pensar que, na mente do

presentes

ao juízo, a associação

entre Sócrates e os mencionados

tird

nos fornecia corpo e rosto à acusação

de corruptor,

para uns cidad,io

que tinham

sido testemunhas

dos desmandos

políticos

dos

oligarco-Por isso, Brickhouse

insiste no fato de que a anistia proibia

a

inclusa

expl ícita nos cargos das associações

de Sócrates com certos

cidadao-então jovens, "porém

não havia uma provisão

na anistia que irnporh-,

se a Meleto e a outros

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ou Crítias, através

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surge como a primeira interpretação

passível de argllll\I'1l

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dos fatos históricos,

do corruptor

do ensino

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é difícil encontrar

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que tinham sérios problemas

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e em ocasiões ela era relegada às

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repercussão:

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do poder corruptor

de Sócrates

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que cidadão

adulto com comportamentos

eróticos com filhos varões de

outros cidadãos:

Sócrates um tanto que pederasta.

Porém, mesmo alguns

defensores

da moral idade judeu-cristã

fizeram alusão,

freqüentemente,

às

representações

contemporâneas

do homo-erotismo

como "o vício de

Sócrates",

a vontade

socrática

de se manter à margem

da política

ati-v a ,

sua ênfase na virtude individual

e sua própria conduta

descrita

em

termos de asceta e excêntrico

em relação aos usos amorosos

da época,

tem feito com que nem sequer

a tradição

cristã tenha se exacerbado

excessivamente

nesta desacertada,

anacrônica

e ingênua

interpretação.

Teremos

que adiantar,

no entanto,

que se bem Sócrates

não nos tem

hegado como paradigma

do chamado

"amor grego", apesar de

decla-rar ser

v e r s a d o

em questões

amorosas

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a transcendência

da

sua associação

da pederastia

com a corrupção

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pode ir, como

v e r e m o s

mais adiante,

além do puro anacronismo.

Uma aproximação

historiográfica

mais séria nos fala da corrupção

dos jovens

em termos estri tamente

pol íticos: dentre

os segu idores de

Sócrates, tinham estado Alcebíades

e Crítias, que tinham demonstrado

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seu distanciamento

do modelo democrático

anterior

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esta se referindo a um sentimento

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que o associa

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que

tinham colocado

em questão o sistema democrático

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e tinham

xercido um poder déspota. A "corrupção

dos jovens" seriam, então, as

idéias de auto-suficiência

e anti-relativismo

que teriam conduzido

aos

discípulos

Alcebíades

e Crítias a se tornarem

inimigos tiranos da

organi-zada sociedade

ateniense.

Nessa aproximação

historiográfica,

no entanto,

um autor como

Thomas Brickhouse,

em seu

S ó c r a le s

a

ju íz o ,

preocupa-se

em resgatar

a figura de Sócrates

para a causa democrática,

por falta de evidências

filológicas:

"concluímos

que a Apologia

33a

4-5

não nos leva por si

mesma a supor que Sócrates alude especificamente

a sua pretensa

cor-rupção de Crítias, Alcibíades

ou Cármides,

de forma oposta ao

núme-ro indefinido

de jovens atenienses

que, de acordo

com os 'primeiros

acusadores'

foram corrompidos

quando

se associaram

a ele (23c 2 - d

2)".2 A partir dessa conclusão,

só uma acusação

geral de corruptor,

sem partidismo

político ou nomes próprios concretos,

se sustentaria,

e

não estria diretamente

relacionada

com as suposta atitudes

"antidemo-cráticas"

de Sócrates,

que no âmbito da cena política

certamente

não

se evidenciam

documental

mente, nem sequer durante

a oligarquia

dos

Trinta. Apesar disso, não podemos

deixar de pensar que, na mente dos

presentes

ao juízo, a associação

entre Sócrates e os mencionados

tira-nos fornecia corpo e rosto à acusação

de corruptor,

para uns cidadãos

que tinham

sido testemunhas

dos desmandos

políticos

dos oligarcas.

Por isso, Brickhouse

insiste no fato de que a anistia proibia

a inclusão

explícita

nos cargos das associações

de Sócrates com certos cidadãos,

então jovens,

"porém

não havia uma provisão

na anistia que

impedis-se a Meleto

e a outros d íazer-jnegáveis

referências

à associação

de

Sócrates

com Alcibíades

ou Crítias, através

de insinuação

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ou

inclusive bastante

explicitamente"."

De forma que a acusação

de

"anti-democrata"

surge como a primeira

interpretação

passível de argumen

tação,

diante

dos fatos históricos,

do corruptor

do ensino

socrátic

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Para resgatar

nosso personagem

dessa acusação

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121

(5)

suficiente

com desqualificar

os preconceitos

que, sem fundamentação

nos fatos concretos,

mas simplesmente

na passada

relacionamento

p~-dagógico,

ligavam na mente dos jurados a Sócrates e alguns dos

políti-cos do regime dos Trinta Tiranos.

E, ainda assim, deixando

de lado o terreno exclusivamente

histo-riográfico,

caberia

perguntar-se

se não estamos

nós, em condições

de

assumir uma suspeita semelhante

à dos jurados, se o ensino de Sócrates

não tinha em si mesmo algo de incitante ao poder oligárquico

e ao culto

pessoal, por oposição

à tradicional

distribuição

do poder mais ou menos

equitativa

entre os varões

que detinham

o privilégio

da cidadania.

rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAÀ

margem de históricas

intrigas políticas, é perfeitamente

lícita a

pergun-ta pelo adequado

da atividade

pedagógica

de Sócrates

dentro

de um

contexto político onde a tradição e a autoridade

continuavam

desempe-nhando um papel importante:

Desde o ponto de vista de um ateniense

tradicional,

o "serviço à

divindade"

de Sócrates poderia

muito bem parecer ser uma corrupção.

122

A Atenas do século V estava cheia de homens orgulhosos,

homens cuja

cultura estava

construída

ao seu redor. Esta não era meramente

uma

cultura dominada

pelo masculino,

mas também

uma cultura

do

auto-ritarismo

masculino.

Os varões adultos

não só governavam

o estado,

senão também seus lares e tudo aquilo que neles vivia. [... ] Esses homens

eram loquazes,

combativos,

e sensíveis ao ridículo,

à necessidade

de

se sair bem livrados nos confrontos

públicos.

Qual seria o efeito, numa

cultura assim, de um homem cuja missão o levara diariamente

a lugares

públicos

para mostrar que pouca sabedoria

real eles tinham? A missão

de Sócrates tinha o efeito de mostrar aos jovens o pouco que realmente

sabiam seus pais acerca de como viver, e que pouco alicerçados

esta-vam seus valores e tradições.

E os jovens admiradores

de Sócrates não

aceitaram

passivamente

a autoridade

de seus majores;

pelo contrário,

questionaram-na,

e eram estimulados

pela sua capacidade

para refutar

e confundir

seus pais acerca das crenças

mais vitais e estimadas.

É

in-teiramente

possível o fato de que alguns jovens seguidores

de Sócrates

se convencessem

pela sua capacidade

para refutar valores tradicionais

sustentados

irreflexivamente,

que tais valores não podiam justificar-se,

e

se viram avocados,

então, ao mais profundo

niilismo moral. Os

primei-Ilhlllflnn"1II Uubnto •

ro,Iololo

v. 1,n.55,ano 30 • 2008 p.118a 127

IOS encontros

com o pensar da filosofia crítica frt'qÜ(\lll(,Ill('IlI,~

It'lll I'S!;i

d('ilO, inclusive

hoje."

De tal forma que a evidência

do arriscado da atividade

d('

~eI( 1.11"

podemos

senti-Ia, ainda hoje, na perplexidade

que o próprio

('I1 'iIIIO d,1

filosofia pode causar

nos jovens que se aproximam

dcla.

P odcu.uno-,

nós também, emitir um juízo, e dizer se esse perigoso

convite (H ) qU('.,

tionamento

da autoridade,

ao jogo dialético

da independência

cio P('1l

sar, tem algo de corruptor

na sua essência,

ou só teve essa caractcnstk

,

aos

olhos de uma civilização

antiga, em relação à qual, nós

tivem os 01

sorte de não herdar muitos de seus fardos.

Pronunciemos,

então, esse juízo, desde a prudente

distância

de

urna interpretação

de um tempo que dista dois mil e quatrocentos

,l/W"

c em momento

nenhum

pretendendo

oferecer

solução

ao cham.« 1,1

"problema

de

Sóctates:""

Apesar de todo o seu serviço

à

dernocr.« 101

ateniense,

o contato com seus discípulos socavava muitos dos

princfpio

sobre os quais alicerçava-se

essa democracia.

Os infinitos e

renovado

estudos sobre o classicismo

têm nos ensinado

que as etimologias

1101'

são suficiente justificativa

para a sobrevivência

de um conceito,

e

que (

exercício

da democracia

ateniense,

possuindo

complexas

e

sofisticad.i

redes de poder, encontra-se

muito distante dos princípios

de

autononu.i

direitos individuais

e universalidade

com os quais estamos

acostum a

dos a descrever os regimes democráticos

contemporâneos.

Por tanto,

nr

contexto do poder democrático

do

399

antes de Cristo, Sócrates estava,

de fato, corrompendo

os jovens, na medida em que os afastava dos prin

cípios tradicionais

do exercício do poder público.6

Paradoxalmentc,

isso

ficaria apoiado

pela própria

prática erótica de Sócrates,

a qual, como

afirmamos,

acima,

não é simplesmente

anedótica:

Platão nos apresou

ta um Sócrates que constantemente

transgride

a instituição

clássica d ll

pederastia,

fazendo .vista grossa de requerimentos

de erómenoi

COIlI<

Alcibíades,

ou simplesmente

subtraindo-se,

com sua independênci.i

e

ascética

características,

às paixões

eróticas

próprias

de um mestre

d,1

época. Voltando

a nossa primeira,

ingênua interpretação

de diafqt'ÍJ('II\

(corromper),

teríamos que dizer que Sócrates corrompia

os jovens P"" I

samente por que não encaixava

nos cânones

de um

pederasta.

p. 118 0127

(6)

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pc-d,Ig<'>gico,ligavam na m ente dos jurados a S ócrates e alguns dos

políti-(OS do regim e dos Trinta Tiranos.

E , ainda assim , deixando de lado o terreno exclusivam ente histo-riográfico, caberia perguntar-se se não estam os nós, em condições de

.issumir um a suspeita sem elhante à dos jurados, se o ensino de S ócrates não tinha em si m esm o algo de incitante ao poder oligárquico e ao culto pessoal, por oposição à tradicional distribuição do poder m ais ou m enos

quitativa entre os varões que detinham o privilégio da cidadania. À

m argem de históricas intrigas políticas, é perfeitam ente lícita a pergun-ta pelo adequado da atividade pedagógica de S ócrates dentro de um ontexto político onde a tradição e a autoridade continuavam desem pe-nhando um papel im portante:

D esde o ponto de vista de um ateniense tradicional, o "serviço à divindade" de S ócrates poderia m uito bem parecer ser um a corrupção. A A tenas do século V estava cheia de hom ens orgulhosos, hom ens cuja

ultura estava construída ao seu redor. E sta não era m eram ente um a ultura dom inada pelo m asculino, m as tam bém um a cultura do auto-ritarism o m asculino. O s varões adultos não sóFEDCBAg o v e r n a v a m o estado, senão tam bém seus lares e tudo aquilo que neles vivia. [...] E sseshom ens eram loquazes, com bativ o s , e sensíveis ao ridículo, à necessidade de se sair bem livrados nos confrontos públicos. Q ual seria o efeito, num a ultura assim , de um hom em cuja m issão o levara diariam ente a lugares públicos para m ostrar que pouca sabedoria real eles tinham ? A m issão de S ócrates tinha o efeito de m ostrar aos jovens o pouco que realm ente sabiam seus pais acerca de com o viver, e que pouco alicerçados

esta-v a m seus valores e tradições. E os jo v e n s adm iradores de S ócrates não

m..eitaram passivam ente a autoridade de seus m ajores; pelo contrário,

questionaram -na, e eram estim ulados pela sua capacidade para refutar nfundir seus pais acerca das crenças m ais vitais e estim adas. É in-teiram ente possível o fato de que alguns jo v e n s seguidores de S ócrates

sec o n v e n c e s s e m pela sua capacidade para refutar valores tradicionais

sustentados irreflexivam ente, que tais valores não podiam justificar-se, e

'i(' viram a v o c a d o s , então, ao m ais profundo niilism o m oral. O s prim

ei-11 "til Unltlltu • lorlol070 • v. I, n. 55, ano 30·2008 p. 118 0127

IOS encontros com o pensar da filosofia crítica freqüentem ente tem e"s('

efeito, inclusive hoje."

D e tal form a que a evidência do arriscado da atividade de S ócrates podem os senti-Ia, ainda hoje, na perplexidade que o próprio ensino da filosofia pode causar nos jovens que se aproxim am dela. P oderíam os, nós tam bém , em itir um juízo, e dizer se esse perigoso convite ao ques-tionam ento da autoridade, ao jogo dialético da independência do pen-sar, tem algo de corruptor na sua essência, ou só teve essa característica aos olhos de um a civilização antiga, em relação à qual, nós tivem os a sorte de não herdar m uitos de seus fardos.

P ronunciem os, então, esse juízo, desde a prudente distância de um a interpretação de um tem po que dista dois m il c quatrocentos anos,

e em m om ento nenhum pretendendo oferecer solução ao cham ado

"problem a de

Sócrates:"?

A pesar de todo o seu serviço

à

dem ocracia ateniense, o contato com seus discípulos s o c a v a v a m uitos cios princípios sobre os quais alicerçava-se essa dem ocracia. O s infinitos c renovados estudos sobre o classicism o têm nos ensinado que as ctirnologias 11,10

são suficiente justificativa para a sobrevivência de um conceito, c que ( exercício da dem ocracia ateniense, possuindo com plexas e sofisticadas redes de poder, encontra-se m uito distante dos princípios de autonom ia, direitos individuais e universalidade com os quais estam os acostum a-dos ad e s c r e v e r os regim es dem ocráticos contem porâneos. P or tanto, no contexto do poder dem ocrático do 399 antes de C risto, S ócrates estava, de fato, corrom pendo osjo v e n s , na m edida em que os a fa s ta v a dos prin-cípios tradicionais do exercício do poder público.6 P aradoxalm ente, isso ficaria apoiado pela própria prática erótica de S ócrates, a qual, com o afirm am os, acim a, não é sim plesm ente anedótica: P latão nos apresen-ta um S ócrates que consapresen-tantem ente transgride a instituição clássica da pederastia, fazendo vista grossa ~e requerim entos de eróm enoi com o A lcibíades, ou sim plesm ente subtraindo-se, com sua independência e ascética características, às paixões eróticas próprias de um m estre da época. V oltando a nossa prim eira, ingênua interpretação de diafqeírein (corrom per), teríam os que dizer que S ócrates corrom pia os jovens preci-sam ente por que não encaixava nos cânones de um pederasta.

(7)

124

Outros acusações

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Numa cultura orgânica como a clássica não é difícil estabelecer

ligações estreitas entre atividades diferentes da vida pública. Dessa

for-ma, nos centrarmos na acusação de corrupção nos impede de estender

nosso juízo particular ao resto das acusações que finalmente levaram

à

condenação a morte de Sócrates. Mesmo que a acusação formal seja

le-vada a efeito por I\nito, Meleto e Licón, Sócrates, naFEDCBAA p o lo g ia , inclui

ou-tras possíveis acusações, derivadas, dentre outras, da deformada imagem

pública que dele tinha elaborado a comédia.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAA s N u v e n s , de Aristófanes.

Essas eram as acusações que se costumava lançar contra os sofistas: se

ocupar em excesso dos problemas celestes e subterrâneos, e de fazer

com que o argumento mais fraco apareça como o mais forte. Sócrates

não parece ter grandes dificuldades em se defender de sua inclusão no

grupo de mestres de quem se sentia fundamentalmente desvinculado,

fundamentalmente por que apelava para o desdém pelo relativismo da

força retórica e o intelectualismo da virtude política.

O que relaciona o descrédito do poder da palavra e a

racionali-zação da virtude com a corrupção da juventude; ou, ainda mais, com a

acusação de impiedade, que também se lança contra Sócrates? Devemos

levar em consideração a novidade que supõem os postulados socráticos,

uma novidade mensurável pelo seu impacto nas reformulações que

de-les tem feito a história de ocidente. Ligar o saber

à

virtude

é

o grande passo que senta os alicerces, pela primeira vez na história, para a criação

de um sujeito cuja autonomia se baseia em sua capacidade racional e

não em seus vínculos ou diferenças com o grupo ou com a tradição." De

outro lado, desligar as noções verdadeiras da força persuasiva dos

argu-mentos, perseguir a verdade que subjaz ao enganoso poder da

lingua-gem, coloca Sócrates no início da tradição filosófica dialética, apoiada

em valores de verdade e não em valores de poder. Ambos os giros

po-dem parecer-nos irrenunciáveis, constitutivos, inclusive, de nossa

pró-pria configuração mental como homens e mulheres do terceiro milênio.

ontudo, acreditamos que é tarefa da filosofia a crítica de seus próprios

pressupostos e a exploração dos caminhos teóricos que a historicidado

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atenção

não para a renuncia a umas origens provavelmente irrcnunr I ívcis, mas para o desenvolvimento de uns gérmens cujo contexto, 11 li 11 I

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interpretações e, certamente, não na de suas mal interpretações.

Do intelectualismo de Sócrates deriva-se sua impiedade: alguom

que desconfia da retórica e pretende racionalizar a virtude não pode'

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deixar seduzir pela verdade do mito nem pela veneração da

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Esse intelectualismo, certamente, corruptor para alguns de seus jovens

discípulos em sua época, lhe tem sido criticado desde pontos de vista

diferentes. Um dos casos mais notórios é, provavelmente, o do jovem

Nietzsche, acusando a Eurípides de "socratismo estético", denunciandc

a associação entre Sócrates e Eurípides, e denotando em um tom ccr

tamente romântico a máxima de que "p a r a ser bela uma coisa tem que

ser primeiro inteligível", uma máxima paralela ao d i c t u m socrático "so

mente aquele que sabe é virtuoso.?" Muitos anos depois que o próprio

N iclzsche tem sido reinterpretado, continua sendo válido perguntar-se pelas acusações feitas a Sócrates por seus contemporâneos, à luz da

quilo que a história do pensamento moderno tem de réplica e

até

de' sanLificação de certos aspectos do socratismo: a autonomia, a

gênese

do princípio de identidade, a universalidade da virtude, o desprezo pelo

princípio da autoridade e da tradição. E esse colocar em questão

é

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reto, por que o modelo socrático com suas luzes e sombras, continua

presente em nosso entendimento do ensino da filosofia e da transmissão

do saber em geral. Seria dcscj.ivcl, depois de ter passado pela sacraliza

ção da autoridade no período Medieval e, pela deificação ilustrada dc'

racional idades várias, levar em consideração todos os gestos socráLicos,

incluídos sua ambigüidade e sua ironia, e acima de tudo o fato de quo

aceitara sua condenação como uma coisa justa (C R íTO N , 52b-53c). !\

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para a causa onto-teológica e, nós podemos acrescentar, para a polítk .I

e' a prática educativa. Só assim parece compreensível o horror que' (,111

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(8)

Oulros acusações

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Numa cultura orgânica como a clássica não é difícil estabelecer

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a morte de Sócrates. Mesmo que a acusação formal seja le-vada a efeito por Anito, Meleto e Licón, Sócrates, naUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAA p o l o g i a , inclui ou-tras possíveis acusações, derivadas, dentre outras, da deformada imagem

pública que dele tinha elaborado a comédia. A s N u v e n s , de Aristófanes.

Essas eram as acusações que se costumava lançar contra os sofistas: se

ocupar em excesso dos problemas celestes e subterrâneos, e de fazer

om que o argumento mais fraco apareça como o mais forte.

Sócrates

não parece ter grandes dificuldades em se defender de sua inclusão no

grupo de mestres de quem se sentia fundamentalmente desvinculado,

fundamentalmente por que apelava para o desdém pelo relativismo da

força retórica e o intelectualismo da virtude política.

O que relaciona o descrédito do poder da palavra e a

racionali-ração

da virtude com a corrupção da juventude; ou, ainda mais, com a acusação de impiedade, que também se lança contra Sócrates? Devemos

l e v a r em consideração a novidade que supõem os postulados socráticos,

uma novidade mensurável pelo seu impacto nas reformulações que

de-les tem feito a história de ocidente. Ligar o saber

à

virtude é o grande passo que senta os alicerces, pela primeira vez na história, para a criação

de um sujeito cuja autonomia se baseia em sua capacidade racional e

não em seus vínculos ou diferenças com o grupo ou com a tradição." De

outro lado, desligar as noções verdadeiras da força persuasiva dos

argu-mentos, perseguir a verdade que subjaz ao enganoso poder da

lingua-gem, coloca Sócrates no início da tradição filosófica dialética, apoiada

m valores de verdade e não em valores de poder. Ambos os giros

po-lcrn parecer-nos irrenunciáveis, constitutivos, inclusive, de nossa

pró-pria configuração mental como homens e mulheres do terceiro milênio.

Contudo, acreditamos que é tarefa da filosofia a crítica de seus próprios

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interpretações e, certamente, não na de suas mal interpretações.

Do intelectualismo de Sócrates deriva-se sua impiedade:

alguém

que desconfia da retórica e pretende racionalizar a virtude não pode se

deixar seduzir pela verdade do mito nem pela veneração da tradição.

Esse intelectualismo, certamente, corruptor para alguns de seus jovens

discípulos em sua época, lhe tem sido criticado desde pontos de vista

diferentes. Um dos casos mais notórios é, provavelmente, o do j o v e m

Nietzsche, acusando a Eurípides de "socratismo estético", denunciando

a associação entre Sócrates e Eurípides, e denotando em um tom

cer-tamente romântico a máxima de que "para ser bela uma coisa tem que

ser primeiro inteligível", uma máxima paralela ao d i c t u m socrático " S O

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Muitos anos depois que o próprio Nietzsche tem sido rcinterpretado, continua sendo válido perguntar-se

pelas acusações feitas a Sócrates por seus contemporâneos,

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da-quilo que a história do pensamento moderno tem de réplica e até de

santificação de certos aspectos do socratismo: a autonomia, a gênese

do princípio de identidade, a universalidade da virtude, o desprezo pelo

princípio da autoridade e da tradição. E esse colocar em questão é

cor-reto, por que o modelo socrático com suas luzes e sombras, continua

presente em nosso entendimento do ensino da filosofia e da transmissão

do saber em geral. Seria dcscj.ivel, depois de ter passado pela

sacraliza-ção da autoridade no período Medieval e, pela deificação ilustrada de

racional idades várias, l e v a r em consideração todos os gestos socráticos,

incluídos sua ambigüidade e sua ironia, e acima de tudo o fato de que

aceitara sua condenação como uma coisa justa (CRíTON, 52b-53cl. A

morte do Sócrates histórico torna-o, segundo alguns teóricos, um mártir

para a causa onto-teológica e, nós podemos acrescentar, para a política

e a prática educativa. Só assim parece compreensível o horror que

cau-sam num contexto contemporâneo as noções de tradição, autoridade,

retórica, força discursiva, como monstros envenenados para sempre pela

cicuta de Sócrates.

125

(9)

Roforências Bibliográficos

rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

126

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

BRICKIIOUSE Thomas

&

D. SMITH Nicholas.

UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAS o c r a t e s o n t r i a l .

Clare-don: Oxford,

1990.

p.

197.

LURI MEDRANO, Gregorio.

E l p r o c e s s o d e S ó c r a t e s :

Sócrates y Ia

trans-posición dei socratismo.

Madrid: Trotta,

1988.

p.

31.

MARTíNEZ HERNÁNDEZ, José.

E l l e g a d o d e S ó c r a t e s .

Granada:

Coma-res,

2001.

p.

154.

PALAClO DOMíNGUES,

Héctor.

A fo r m a ç ã o h u m a n a c o m o e d u c a ç ã o

é t i c o - p o l í t i c a :

uma leitura do Protágoras. Tese (Doutorado:

Inédita).

Por-to Alegre,

2006.

PLATÓN.

D e fe n s a d e S ó c r a t e s .

Tradução

de Francisco

García Yagüe,

em

O b r a s C o m p l e t a s .

Madrid: Aguilar,

1966,

p.

202.

SAFRANSKI, Rüdiger.

N i e t z s c h e B i o g r a fi a d e u m a t r a g é d i a .

.São Paulo:

Geração

Editorial,

2002.

Notas

PLATÓN, Defensa de Sócrates. Tradução de Francisco García Yagüe,

em

O b r a s C o m p l e t e s ,

Aguilar: Madrid,

1966,

p.

202.

2

Thomas Brickhouse

&

Nicholas D. Smith,

S o c r a t e s o n T r i a l .

Claredon:

Oxford,

1990,

p.

197.

3

Brickhouse,

p.

75.

4

Brickhouse,

p.

198-99.

5

José Martínez

Hernández

evita pronunciar

um discurso

valorativo

acerca da figura histórica, mas ao mesmo tempo, acrescida

de ficção,

de Sócrates. Esse fato pode não nos ajudar muito na hora de

compre-ender o espírito desse grande polemista:

Não vamos centrar-nos

aqui

no Sócrates histórico, e também não no recorrente

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acerca do qual tanto se tem escrito. Carecemos

para isso da erudição,

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e, acima de tudo, estamos

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esse termo como

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e, sob essa perspectiva,

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aberta por Hegel, que a acusação era verdadeira,

pois 'Sócrates estava

minando a moral baseada na necessidade

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com o costume que mantém unidos os grupo~

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em questão o mais

básico de toda comunidade

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cidadãos"

(Gregorio Luri Medrano,

EI processo de Sócrates:

S ó c r a L

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Trotta: Madrid,

1988.

p.

31). 7

Cf. a esse respeito, a análise da virtude segundo o modelo socrático em

Norbert Bilbeny,

S ó c r a t e s : E I s a b e r c o m o é t i c a

(Barcelona:

Península.

1988,

p.

46-54).

8

F. Nietzsche,

As origens da Tragédia, Parágrafo

12.

Enviado para publi(oçóo: 10110/1011" A(eito para publicaçõo: 30/10/'lllllll

(10)

l{olo/6ndas Bibliográficos

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

/1/,/( K//OUSE ThomasrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA& D. SM/TH Nicholas.UTSRQPONMLKJIHGFEDCBAS o c r a t e s o n t r i a l . Clare-don: Oxford, 1990. p. 197.

/ UR/ MEDRANO, Gregorio. E Ip r o c e s s o d e S ó c r a t e s : Sócrates y Ia

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Coma-rcs,

2001. p. 154.

PALAClO DOMíNGUES, Héctor. A fo r m a ç ã o h u m a n a c o m o e d u c a ç ã o

' l i c o - p o l í t i c a : uma leitura do Protágoras. Tese (Doutorado: Inédita).

Por-10Alegre, 2006.

PLATÓN. D e fe n s a d e S ó c r a t e s . Tradução de Francisco García Yagüe,

m O b r a s C o m p l e t a s . Madrid: Aguilar, 1966, p. 202.

SAFRANSKI, Rüdiger. N i e t z s c h e B i o g r a fi a d e u m a t r a g é d i a . 'São Paulo:

~eração Editorial, 2002.

Notas

1 PLATÓN, Defensa de Sócrates. Tradução de Francisco García Yagüe,

em O b r a sFEDCBAC o m p le te s , Aguilar: Madrid, 1966, p. 202.

) Thomas Brickhouse & Nicholas D. Smith, S o c r a t e s o n T r i a l .Claredon:

Oxford, 1990, p. 197.

I Brickhouse, p. 75.

~ Brickhouse, p. 198-99.

fi José Martínez Hernández evita pronunciar um discurso valorativo erca da figura histórica, mas ao mesmo tempo, acrescida de ficção, de Sócrates. Esse fato pode não nos ajudar muito na hora de

compre-ndor o espírito desse grande polemista: Não vamos centrar-nos aqui no Sócrates histórico, e também não no recorrente p r o b l e m a s o c r á t i c o

.iccrca do qual tanto se tem escrito. Carecemos para isso da erudição,

dcl paciência e do interesse necessários e, acima de tudo, estamos

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p. 118 0127

convictos de que essa não

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a forma mais adcquad. d<'"(1 ''lH O ' IIII~ \I

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de argumentações e de sutis diferenças que se usam para apor.u ;\tl

mais díspares teorias." José Martínez Hernández, Ellegado de Sócr,\IOS, omares: Granada, 2001, p. 154).

() "A acusação é, por tanto, a de piorar (em maior ou menos grau) o estado da juventude ateniense. Conford interpreta esse termo com 'desmoralizar' e, sob essa perspectiva, acrescenta, numa direção já aberta por Hegel, que a acusação era verdadeira, pois 'Sócrates estava minando a moral baseada na necessidade social, essa ética da obediên-cia e da conformidade com o costume que mantém unidos os grupos sociais.' Em último termo, Sócrates está colocando em questão o mais básico de toda comunidade humana: os simulacros que fomentam sua identidade e sua coesão: Sócrates torna piores os jovens em tanto que cidadãos" (Gregorio Luri Medrano, EI processo de Sócrates: S ó c r a t e s

y I a t r a n s p o s i c i ó n d e I s o c r a t i s m o , Trotta: Madrid, 1988. p. 31). 7 Cf. a esse respeito, a análise da virtude segundo o modelo socrático em

Norbert Bilbeny, S ó c r a t e s : E I s a b e r c o m o é t i c a (Barcelona: Península,

1988, p. 46-54).

8 F. Nietzsche, As origens da Tragédia, Parágrafo 12.

127

Enviado poro publicação: 10/10/2008 Aceito poro publicação: 30/10/2008

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