CYNTHIA DOS SANTOS ARAÚJO
RECOMENDAÇÕES PROJETUAIS PARA
EMPREENDIMENTOS DA FAIXA 1 DO PMCMV
NATAL-RN
2020
CENTRO DE TECNOLOGIA
Cynthia dos Santos Araújo
Recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 01 do PMCMV
Trabalho de Conclusão de Curso na modalidade Monografia, submetido ao Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como parte dos requisitos necessários para obtenção do Título de Bacharel em Engenharia Civil.
Orientador: Profa. Ma. Laise Kelley Lemos
Coorientador: Prof. Dr. Reymard Sávio Sampaio de Melo
Natal-RN 2020
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Biblioteca Central Zila Mamede. Setor de Informação e Referência.
Elaborado por Kalline Bezerra da Silva - CRB/15 - 327 Araújo, Cynthia dos Santos.
Recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 01 do PMCMV / Cynthia dos Santos Araújo. - 2020.
75 f.
Monografia (Graduação) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Tecnologia, Curso de Engenharia Civil, Natal, RN, 2020.
Orientadora: Profa. Ma. Laise Kelley Lemos.
Coorientador: Prof. Dr. Reymard Sávio Sampaio de Melo.
1. Habitação de Interesse Social – Monografia. 2. Programa Minha Casa Minha Vida –– Monografia. 3. Recomendações Projetuais – Monografia. I. Lemos, Laise Kelley. II. Melo, Reymard Sávio Sampaio de. III. Título.
Cynthia dos Santos Araújo
Recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 01 do PMCMV
Trabalho de conclusão de curso na modalidade Monografia, submetido ao Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Bacharel em Engenharia Civil.
Aprovado em 07 de dezembro de 2020:
___________________________________________________ Profa. Ma. Laise Kelley Lemos – Orientadora
___________________________________________________ Prof. Dr. Reymard Sávio Sampaio de Melo – Coorientador
___________________________________________________
Prof. Dr. Luiz Alessandro Pinheiro da Câmara de Queiroz – Examinador interno
___________________________________________________ Prof. Me. José Eugenio Silva de Morais Júnior– Examinador externo
Natal-RN 2020
Dedico este trabalho a minha mãe, ser sua filha tem sido minha primeira e maior honra.
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ter tomado posse da direção da minha vida em diversos momentos difíceis e por ter sido meu sustento quando eu não era capaz de fazer escolhas.
Aos meus familiares, especialmente minha mãe, irmãos e sobrinhos. Agradeço por terem sonhado comigo, pelo apoio e por terem sido ânimo em momentos de dificuldade.
Aos meus orientadores, Laise Kelley Lemos e Reymard Sávio Sampaio de Melo, por todo conhecimento transferido, pela orientação e por terem acreditado em mim em diversos momentos da graduação. O desenvolvimento deste trabalho foi um desafio final, o qual cumprimos juntos. Minha sincera gratidão.
RESUMO
Recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 1 do PMCMV
No contexto de Empreendimentos de Habitação de Interesse Social (EHIS), diversos estudos apontam a ausência de customização e inadequação às necessidades do usuário. Um dos motivos para a ocorrência dos problemas mencionados é a ausência de participação dos usuários de EHIS no processo de projeto desse tipo de empreendimento. No nordeste brasileiro existe um elevado déficit habitacional concentrado na população de baixa renda. Estudos têm sido desenvolvidos a fim de captar os atributos de valor dos usuários de EHIS no Brasil. O estudo de Araújo et al. (2018) apresenta os atributos de valor dos usuários de dois EHIS localizados no Rio Grande do Norte (RN). A partir do exposto, é possível identificar um ambiente favorável às pesquisas que colaborem com o desenvolvimento de EHIS customizados e que apresentem maior valor para o usuário por meio do atendimento de suas demandas. Nesse sentido, este trabalho tem o objetivo de propor recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 01 do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), a partir dos atributos de valor dos usuários de dois EHIS localizados no RN. Para desenvolver esta pesquisa foi utilizado um método misto, através de uma estratégia explanatória sequencial, onde os atributos de valor apresentados por Araújo et al. (2018) foram analisados de forma quanti-qualitativa. O resultado do trabalho sugere 17 recomendações projetuais que contribuem com o desenvolvimento de EHIS customizados e que apresentem maior valor para o usuário por meio do atendimento de suas demandas. Para trabalhos futuros, sugere-se que as recomendações projetuais propostas sejam avaliadas quanto a aplicabilidade prática e a viabilidade financeira.
Palavras-chave: Habitação de Interesse Social. Programa Minha Casa Minha Vida. Atributos de valor. Recomendações Projetuais.
ABSTRACT
Design recommendations for ventures of the range 01 do PMCMV
In context of social housing ventures, many studies point to the absence of customization and inadequacy to the needs of the user. One of the reasons for the occurrence of the problems caused is the lack of participation of EHIS users in the design process of this type of venture. In the Brazilian Northeast, there is high housing deficit concentrated in the low-income population. Researches have been developed to identify the value attributes of social housing ventures users in Brasil. The research of Araújo et al. (2018) presents the value attributes of social housing two ventures users located in Rio Grande do Norte (RN). Based on the above, it is possible to identify a favorable environment for research that collaborates with the development of customized EHIS and that presents greater value to the user through meeting their demands. In this sense, this research aims to propose design recommendations for ventures in the 01 range of the Minha Casa Minha Vida Program (PMCMV), based on the value attributes of social two housing ventures users located in RN. To develop this research was used a mixed method, through a sequential explanatory strategy, where the value attributes presented by Araújo et al. (2018) were analysed in a quantitative and qualitative way. The result of the work suggests 17 design recommendations that contribute to the development of customized social housing ventures and that present greater value to the user through meeting their demands. For future studies, it’s suggested that the proposed design recommendations be evaluated for practical applicability and financial viability.
Keywords: Social Housing. Minha Casa Minha Vida Program. Value Attributes. Design Recommendations.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Modelo de valor de Spencer e Winch (2002) ... 23
Figura 2 – Atributo ‘Gastar menos com contas de condomínio, água, luz, gás” da categoria “Valor financeiro” ... 23
Figura 3 – Atributo “Temperatura dentro do apartamento” da categoria “Qualidade do ambiente interno” ... 23
Figura 4 - Atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Granja et al., (2009) ... 25
Figura 5 - Cartas ilustradas do modelo de Conceição, Imai e Urbano (2015) adaptadas do modelo de Granja et al., (2009) ... 28
Figura 6 - Atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Conceição, Imai e Urbano (2015) ... 28
Figura 7 - Empreendimento objeto de estudo localizado em Natal/RN ... 29
Figura 8 - Empreendimento objeto de estudo localizado em Parnamirim/RN ... 29
Figura 9 - Delineamento da pesquisa ... 38
Figura 10 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Valor financeiro” ... 45
Figura 11 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Qualidade espacial” ... 46
Figura 12 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Valor socioespacial” ... 47
Figura 13 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor– categoria “Valor cultural” ... 48
Figura 14 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Qualidade do ambiente interno” ... 49
Figura 15 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor para todas as categorias ... 52
Figura 16 – EHIS conforme entregue aos usuários ... 60
Figura 17 - EHIS com reformas realizadas pelos usuários ... 60
Figura 18 - Representação da área de abertura conforme formato da planta baixa ... 62
Figura 19 – Exemplo de brise vertical ... 63
Figura 20 – Exemplo de brise horizontal ... 63
Figura 21 - Exemplo de claraboia... 64
Figura 23 – Modificação a fim de possibilitar a execução de atividade profissional no “Vivendas do Planalto” ... 67 Figura 24 - Exemplo de academia da terceira idade ... 68
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Distribuição de respostas para a categoria “Valor financeiro”... 44
Tabela 2 - Distribuição de respostas para a categoria “Qualidade espacial”... 45
Tabela 3 - Distribuição de respostas para a categoria “Valor socioespacial” ... 46
Tabela 4 - Distribuição de respostas para a categoria “Valor cultural”... 47
Tabela 5 - Distribuição de respostas para a categoria “Qualidade do ambiente interno” ... 48
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Aspectos do valor econômico ... 19
Quadro 2 - Valores contemporâneos a serem considerados em projetos de arquitetura ... 20
Quadro 3 – Categorias de valor do modelo de Granja et al. (2009) e seus atributos de valor . 24 Quadro 4 - Categorias de valor do modelo de Conceição, Imai e Urbano (2015) adaptadas do modelo de Granja et al., (2009) e seus atributos de valor ... 27
Quadro 5 - Oportunidades de melhorias em EHIS apresentadas por Kowaltowski e Granja (2011) ... 33
Quadro 6 - Recomendações projetuais para EHIS propostas por Conceição, Imai e Urbano (2015) ... 34
Quadro 7 - Recomendações projetuais propostas por Aragão e Hirota (2016) ... 35
Quadro 8 – Comparativo entre os resultados dos estudos sobre investigação sobre o valor desejado no Brasil ... 55
Quadro 9 - Comparativo entre os resultados dos estudos sobre investigação sobre o valor desejado no Brasil (Continuação) ... 56
Quadro 10 - Resumo das recomendações projetuais propostas ... 58
Quadro 11 - Resumo das recomendações projetuais propostas (Continuação) ... 59
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - IGI dos atributos da categoria “Valor financeiro” ... 30
Gráfico 2 - IGI dos atributos da categoria “Qualidade espacial” ... 30
Gráfico 3 - IGI dos atributos da categoria “Valor socioespacial” ... 31
Gráfico 4 - IGI dos atributos da categoria “Valor cultural” ... 31
Gráfico 5 - IGI dos atributos da categoria “Qualidade do ambiente interno” ... 32
Gráfico 6 - Atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Araújo et al. (2018) ... 32
Gráfico 7 - Número médio de membros das famílias dos EHIS analisados... 42
Gráfico 8 - Faixa etária média dos usuários dos EHIS analisados ... 43
LISTA DE SIGLAS
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas CFB - Constitui Federal do Brasil
EHIS - Empreendimentos de Habitação de Interesse Social EPS - Poliestireno Expandido
FCS - Fator de Calor Solar
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IC – Intervalo de Confiança
IGI - Índice Geral de Importância
LEA – Laboratório de Estatística Aplicada NBR – Norma Brasileira
PD - Preferência Declarada
PMCMV - Programa Minha Casa Minha Vida
PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PR – Paraná
RN - Rio Grande do Norte SP - São Paulo
UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte UH - Unidade Habitacional
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 16 1.1 Contextualização ... 16 1.2 Justificativa ... 17 1.3 Objetivo geral ... 18 1.3.1. Objetivos específicos ... 18 1.4 Estrutura do trabalho ... 18 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... 19 2.1 Conceitos de valor ... 192.2 Valor na construção civil ... 20
2.3 Valor percebido versus valor desejado ... 21
2.4 Valor desejado nos EHIS ... 22
2.5 Atributos de valor desejado dos usuários de EHIS no Brasil ... 25
2.6 Recomendações projetuais a partir dos atributos de valor desejado dos usuários ... 32
3 MÉTODO DE PESQUISA ... 38
3.1 Revisão bibliográfica ... 38
3.2 Análise estatística dos atributos de valor desejado dos usuários dos empreendimentos analisados ... 39
3.3 Comparação entre os atributos de valor dos usuários de EHIS ... 41
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES ... 42
4.1 Análise estatística dos atributos de valor dos usuários dos EHIS analisados ... 42
4.2.1. Caracterização geral dos usuários dos EHIS analisados... 42
4.2.2. Análise estatística dos atributos de valor por categoria de valor ... 44
4.2.3. Análise estatística dos atributos de valor em conjunto ... 49
4.1 Comparação entre os atributos de valor dos usuários de EHIS ... 53
4.3 Recomendações projetuais ... 57
5 CONCLUSÕES ... 70
5.1 Considerações finais ... 70
5.2 Sugestões de trabalhos futuros ... 71
1 INTRODUÇÃO
Este capítulo tem como objetivo contextualizar o tema abordado nesta pesquisa, apresentar a justificativa, os objetivos, geral e específicos, e a estruturação deste trabalho.
1.1 Contextualização
A habitação é uma necessidade básica humana. A declaração universal dos direitos humanos (1948) dispõe que toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de prover bem-estar a si e a sua família, o que inclui a habitação. A nível nacional, a Constituição Federal do Brasil (CFB) em seu artigo 6º garante o direito de acesso à moradia (BRASIL, 1988).
Apesar do acesso à moradia ser um direito social garantido pela CFB, existe um elevado déficit habitacional no Brasil. Em 2008, o déficit habitacional era de 5,5 milhões de moradias, das quais 1,9 milhões estavam distribuídas pelo Nordeste (IBGE, 2008). A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015 aponta o crescimento do déficit habitacional para 6,2 milhões de habitações. Além disso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima em 2015 que 88,2% do déficit habitacional no Nordeste corresponde às famílias com renda mensal de até 3 salários-mínimos.
Com o objetivo de reduzir o déficit habitacional e impulsionar a economia por meio do setor da construção civil, foi criado em 2009 o maior programa de habitação da história do Brasil, o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV). Atualmente, o PMCMV adota a sistemática de classificar as famílias de acordo com as faixas de renda, são elas: 1, 1,5, 2 e 3. Cada faixa corresponde as seguintes rendas familiares brutas mensais: até R$1.800,00, R$2.600,00, R$4.000,00 e R$7.000,00, respectivamente (CAIXA, 2019). Os empreendimentos desenvolvidos para famílias classificadas na faixa 01 do PMCMV são considerados Empreendimentos de Habitação de Interesse Social (EHIS).
Após 10 anos de criação, o PMCMV entregou mais de 4 milhões de habitações (BRASIL, 2019). Apesar do número de moradias entregues, o programa não tem conseguido conter o déficit habitacional brasileiro, que em 2017 era de 7,8 milhões de habitações (BRASIL, 2019). Especialmente na faixa 1 do PMCMV, esse déficit tem se mantido estagnado, pois esta faixa se tornou pouco atrativa aos construtores, devido à reduzida margem de lucro, ao alto custo e risco inerente ao processo construtivo, às dificuldades em encontrar terrenos compatíveis com características e custo adequados ao que se pretende e às burocracias próprias do programa (CBIC, 2014).
O desafio de atendimento a demanda por imóveis envolve a compreensão das necessidades dos usuários em suas diferentes faixas de renda, com sua dinâmica e complexidade (MIRON et al., 2003; MIRON, 2008; GRANJA et al., 2011; FRANÇA, 2015). Além disso, estudos têm criticado à falta de qualidade e de customização, inadequação às necessidades dos usuários e a perpetuação de projetos de baixo desempenho para EHIS (MIRON, 2002; FERREIRA, 2012; CARDOSO, 2013; KOWALTOWSKI et al., 2015).
Os usuários raramente participam do processo de desenvolvimento de EHIS, sendo este um motivo para a inadequação às necessidades dos usuários e para a falta de customização. Se a satisfação do usuário não for atendida ao longo da vida útil do edifício devido às fases anteriores, como o planejamento, o projeto e a construção, estas deverão ser retomadas para corrigir e adequar à edificação (CONCEIÇÃO; IMAI; URBANO, 2015).
De acordo com Conceição, Imai e Urbano (2015) é necessário incorporar os atributos de valor dos usuários aos projetos de EHIS, ao mesmo tempo em que a qualidade da construção e as restrições de custo existentes devem ser levadas em consideração. A partir dos atributos de valor dos usuários é possível gerar o valor por eles desejado para a edificação, sendo este um dos princípios do pensamento enxuto, o qual preconiza que devem ser priorizadas as atividades que agregam valor ao produto sob o ponto de vista dos usuários.
Devido ao elevado déficit habitacional concentrado na população de baixa renda do Nordeste brasileiro, a estagnação do mercado de EHIS, às críticas a qualidade, a ausência de customização, a inadequação às necessidades dos usuários e a perpetuação de projetos de baixo desempenho para EHIS, este estudo se concentrará em empreendimentos da faixa 1 do PMCMV. Essa pesquisa pretende contribuir com a entrega de valor aos usuários de EHIS através da incorporação dos seus respectivos atributos de valor em projetos de empreendimentos da faixa 1 do PMCMV.
1.2 Justificativa
De acordo com Kowaltowski et al. (2018), poucos estudos envolvendo o PMCMV têm focado sua análise no ponto de vista do usuário e na qualidade da habitação. Entre as pesquisas desenvolvidas sobre a captação dos atributos de valor dos usuários de EHIS no Brasil, o estudo de Araújo et al. (2018) apresenta os atributos de valor dos usuários de EHIS no Rio Grande do Norte (RN). Além disso, os atributos de valor dos usuários podem ser utilizados para criar recomendações projetuais, que subsidiarão o desenvolvimento de novos empreendimentos
adaptados às necessidades dos usuários. Thomson et al. (2003) defende a importância de traduzir os atributos de valor dos usuários em recomendações projetuais, de modo a atingir ao valor desejado pelos usuários.
O contexto problematizado anteriormente referente à faixa 01 do PMCMV permite identificar um ambiente favorável às pesquisas que colaborem com o desenvolvimento de EHIS customizados e que apresentem maior valor para o usuário por meio do atendimento de suas demandas.
1.3 Objetivo geral
O objetivo geral do presente estudo é propor recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 01 do PMCMV localizados no RN.
1.3.1. Objetivos específicos
A partir do objetivo geral, são propostos os seguintes objetivos específicos:
I. Analisar estatisticamente os atributos de valor dos usuários de EHIS;
II. Comparar os atributos de valor dos usuários de EHIS;
III. Identificar na literatura recomendações projetuais propostas a partir dos atributos de valor dos usuários.
1.4 Estrutura do trabalho
Este trabalho é divido em 5 capítulos, incluindo este, os quais abordam os conteúdos apresentados na forma resumida a seguir:
No Capítulo 1 apresenta-se a contextualização da pesquisa, bem como as justificativas, os objetivos, geral e específicos, e a estrutura do trabalho. Enquanto no Capítulo 2 é feita uma revisão bibliográfica do conceito de valor sob diversas perspectivas, dos atributos de valor desejado pelos usuários de EHIS no Brasil e das recomendações projetuais sugeridas a partir das demandas dos usuários. Já no Capítulo 3 é exposta a metodologia aplicada para o desenvolvimento desta pesquisa. Por fim, no Capítulo 4 são apresentados os resultados obtidos e as discussões e no Capítulo 5 são feitas as considerações finais acerca da pesquisa e sugestões para trabalhos futuros.
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Este capítulo tem como objetivo apresentar a fundamentação teórica da pesquisa, a qual contempla o conceito de valor sob diversas perspectivas, os atributos de valor desejado pelos usuários de EHIS no Brasil e as recomendações projetuais a partir das demandas dos usuários.
2.1 Conceitos de valor
A definição de valor é de fundamental importância para que sejam desenvolvidos produtos dentro do custo e prazo metas, com qualidade e funcionalidade garantidas ao mesmo tempo em que possibilitem lucro ao produtor. O conceito de valor é amplo e altamente subjetivo (MIRON, 2008).
O filósofo Aristóteles discursa que o conceito de valor pode ser observado sob 7 perspectivas, são elas: política, social, estética, religiosa, ética, econômica e judicial. Sob a perspectiva econômica, o valor pode ser mensurado monetariamente e se apresenta em quatro aspectos (CSILLAG, 1995). Esses quatro aspectos são brevemente descritos no Quadro 1. A partir deste quadro é possível verificar que o valor de estima está alinhado com o valor desejado pelo usuário.
Quadro 1 - Aspectos do valor econômico
ASPECTOS DO VALOR
ECONÔMICO BREVE DESCRIÇÃO
Valor de uso Medida monetária disponibilizada para usufruir da função atribuída ao bem ou serviço
Valor de custo Medida monetária necessária à produção ou aquisição de um bem ou serviço
Valor de troca Medida monetária avaliada no bem ou serviço que possibilitam sua troca
Valor de estima Medida monetária associada às características do bem ou serviço que o torna desejável
Fonte: CSILLAG, 1995.
O conceito de valor está presente em diversos estudos de qualidade de empreendimentos habitacionais e em discussões sobre o processo de projeto em arquitetura (GRANJA et al., 2009). De acordo com Ruiz, Granja e Kowaltowski (2012), valor pode ser definido como a relação entre função e custo. Nessa perspectiva, a função seria o trabalho específico que um elemento, detalhe ou projeto deveria exercer e o custo seria o valor monetário do elemento, detalhe ou projeto.
A partir da definição de Ruiz, Granja e Kowaltowski (2012), é possível verificar que o aumento de valor pode ser atingido de três maneiras, são elas: aumento do desempenho das funções, redução dos custos e aumento do desempenho das funções e redução dos custos simultaneamente. No contexto de interesse desta pesquisa, isto é, faixa 1 do PMCMV, a forma mais promissora de aumentar a entrega de valor ao usuário seria através do incremento do desempenho das funções e da redução de custos simultaneamente, uma vez que a referida faixa apresenta fortes restrições de custos e apresenta necessidade de customização às demandas do usuário.
2.2 Valor na construção civil
Tal como mencionou Granja et al. (2009), o conceito de valor na construção civil já estava presente desde a antiguidade. Nesse período, considerava-se que existiam três elementos de valor a serem considerados em uma obra de arquitetura. Posteriormente, esses três elementos de valor foram expandidos e na atualidade correspondem a solidez, funcionalidade e estética, dando atenção especial à relação do homem com o ambiente construído (GRANJA et al., 2009).
A partir da solidez, funcionalidade e estética, Hershberger (1999) criou oito elementos de valor contemporâneos (Quadro 2).
Quadro 2 - Valores contemporâneos a serem considerados em projetos de arquitetura
ATRIBUTOS CARACTERIZAÇÃO
Humanos
Atividades funcionais e necessidades dos usuários; relações sociais a serem mantidas; características físicas, fisiológicas, psicológicas e
necessidades dos usuários
Ambientais Terreno e vistas; clima; contexto urbano; recursos naturais; resíduos Culturais Histórico; institucional; político; legal
Tecnológicos Materiais; sistemas estruturais; processos construtivos e de concepção da forma
Temporais Crescimento; mudança; permanência
Econômicos Financeiros; construção; operação; manutenção; energia
Estéticos Forma, espaço e significado
Segurança Estrutura; incêndio; químico; pessoal; criminoso (vandalismo)
Fonte: Adaptado de Hershberger (1999).
De acordo com Granja et al. (2009), os elementos criados por Hershberger (1999) são a base recomendada para o desenvolvimento de um projeto de arquitetura, com ênfase na definição das necessidades dos usuários.
No contexto mais atual da construção civil, Ruiz et al. (2011) estabelece que existem duas perspectivas de valor: a do cliente e a da empresa. O valor sob o ponto de vista dos clientes pode ser entendido como o atendimento às expectativas e necessidades do usuário. Enquanto isso, sob a ótica das empresas, a definição de valor varia conforme interesse próprio. Moraes (2017) aponta que a dificuldade em se chegar a um consenso do conceito de valor para as empresas se dá em razão dessas instituições conceberem seus conceitos de valor em função das próprias demandas e não em função das demandas dos usuários.
2.3 Valor percebido versus valor desejado
Os conceitos de valor percebido e valor desejado pelo usuário estão relacionados com a sua satisfação. Estes conceitos, no entanto, não devem ser confundidos.
O valor percebido está relacionado com a ponderação entre os benefícios recebidos pela aquisição do produto e os sacrifícios feitos para adquiri-lo (MOROE, 1990). Os benefícios recebidos representam os fatores de desejo e as demandas dos usuários, enquanto os sacrifícios correspondem aos custos associados à compra e ao uso do produto.
O valor desejado pelo usuário é o que ele espera de um produto. O valor desejado é composto de preferências em dimensões específicas e mensuráveis (os atributos), os desempenhos dos atributos e as consequências ligadas aos objetivos da situação de uso (MORAES, 2017, p. 40).
A satisfação, por outro lado, tem cunho psicológico e refere-se ao resultado do processo de compra e de consumo (MIRON, 2008). Nessa perspectiva, a satisfação do usuário é influenciada pelo balanço entre o valor desejado e o valor percebido pelo usuário. Dessa forma, quanto mais próximo o valor percebido estiver do valor desejado, mais satisfeito o usuário se encontrará.
Em países desenvolvidos é comum a utilização da avaliação da qualidade para aferir a qualidade dos EHIS e reduzir o espaço entre o valor desejado e o valor percebido pelos usuários. No Brasil, o usuário raramente participa do processo de projeto e construção de empreendimentos habitacionais de modo que a concepção dos moradores sobre atributos preferenciais não é contemplada (MORAES, 2017). Este trabalho contribui, ainda que em pequena escala, para a mudança deste cenário, pois fornece recomendações projetuais,
concebidas a partir dos atributos de valor dos usuários, para incorporação no processo de projeto de EHIS.
2.4 Valor desejado nos EHIS
Os níveis de percepção de valor dos usuários de EHIS e de satisfação são considerados altos. Ao contrário do que se pensa, esses níveis são elevados em razão do cenário de moradia anterior, que muitas vezes é precário. Embora possuir uma casa própria seja o sonho de parcela representativa da população brasileira, é comum que os EHIS sejam reformados ou comercializados ilegalmente, pois não apresentam customização e são inadequadas às necessidades dos usuários (LIMA, FORMOSO e ECHEVESTE, 2011).
Para evitar a realização de reformas e a comercialização ilegal dos EHIS do PMCMV, torna-se necessária a captação das preferências dos usuários e a sua inserção no processo de projeto. No Brasil, estudos têm abordado essa temática, a exemplo do método proposto por Granja et al. (2009) para capturar e para obter a hierarquização de atributos de valor dos usuários de EHIS (CONCEIÇÃO; IMAI; URBANO, 2015, ARAÚJO et al., 2018).
O método proposto por Granja et al. (2009) foi desenvolvido para captar os atributos de valor de três EHIS, localizados nas cidades Campinas e Valinhos no estado de São Paulo (SP), e consiste em uma adaptação de Spencer e Winch (2002), no qual há quatro categorias de valor: perspectiva financeira, qualidade do ambiente interno, qualidade espacial e percepções socioculturais. O modelo de Spencer e Winch (2002) é apresentado na Figura 1, onde é possível observar os parâmetros considerados nas quatro categorias de valor admitidas no modelo.
Figura 1 - Modelo de valor de Spencer e Winch (2002)
Fonte: Granja et al. (2009).
O modelo proposto por Granja et al. (2009) conta com cinco categorias de valor, dentro das quais há atributos de valor. Para a aplicação do seu método, Granja et al. (2009) desenvolveram um baralho de cartas, onde os naipes do baralho correspondem as categorias de valor e as cartas equivalem aos atributos de valor. A Figura 2 e Figura 3 apresentam dois exemplos de cartas do baralho desenvolvido por Granja et al. (2009). O Quadro 3 apresenta as cinco categorias de valor do modelo de Granja et al. (2009) e seus respectivos atributos de valor.
Figura 2 – Atributo ‘Gastar menos com contas de condomínio, água, luz, gás” da categoria
“Valor financeiro”
Figura 3 – Atributo “Temperatura dentro do apartamento” da categoria “Qualidade
do ambiente interno”
Quadro 3 – Categorias de valor do modelo de Granja et al. (2009) e seus atributos de valor VALOR FINANCEIRO
Gastar menos com condomínio, água, luz e gás
Gastar menos com prestações, financiamentos e aluguel Gastar menos com transportes
Oportunidade de negócios
Gastos menores com consertos, reparos e reformas QUALIDADE ESPACIAL
Tamanho dos cômodos Disposição dos cômodos Novos espaços
Mais cômodos
Apartamento com área maior VALOR SOCIOESPACIAL O lugar
Segurança Privacidade
Local para guardar o carro Aparência do condomínio Áreas comuns
VALOR CULTURAL
Edifícios com aparências variadas Conjuntos menores com menos prédios Natureza
Elementos decorativos
Edifícios com aparência de casa
QUALIDADE DO AMBIENTE INTERNO Tamanho e localização de portas e janelas Qualidade
Iluminação Acústica Temperatura
Fonte: Granja et al. (2009).
Os resultados das pesquisas sobre atributos de valor dos usuários de EHIS que utilizaram o modelo de Granja et al. (2009) foram apresentados através de uma variável denominada Índice Geral de Importância (IGI). O IGI foi criado a fim de medir a importância de cada atributo de valor e “captar resíduos de intenções de escolha que possam estar presentes nas alternativas de menor prioridade” (Granja et al., 2009).
A estimativa do IGI consiste em multiplicar a frequência com que cada atributo de valor apareceu na 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª colocação por 5, 4, 3, 2 e 1 e dividir pela soma. Para a categoria “Valor socioespacial”, por possuir um item a mais, as frequências forma multiplicadas por 5; 4,2; 3,6; 2,8; 2 e 1,2. É válido ressaltar que o valor do IGI pode variar conforme a amostra escolhida. Para amenizar esse impacto, uma alternativa é a construção de Intervalos de Confiança (IC). A partir dos IC é possível comparar os valores dos IGI e verificar quais itens são mais ou menos.
2.5 Atributos de valor desejado dos usuários de EHIS no Brasil
Em se tratando de EHIS no Brasil, estudos têm sido desenvolvidos a fim de captar a preferência de valor desejado dos usuários (Granja et al., 2009; Conceição, Imai e Urbano, 2015; ARAÚJO et al., 2018).
A pesquisa desenvolvida por Granja et al., (2009) para captar a preferência de valor desejado dos usuários foi realizada em três EHIS, localizados nas cidades Campinas e Valinhos no estado de São Paulo (SP) que somam 4.540 Unidades Habitacionais (UH). As características dos três EHIS eram as mesmas, a saber: edificação vertical, tipologia H, sem elevador e que adota a repetição geminada do mesmo modelo de edificação de forma ortogonal. Os atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Granja et al., (2009) são apresentados na Figura 4.
Figura 4 - Atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Granja et al., (2009)
Conceição, Imai e Urbano (2015) desenvolveram um estudo sobre captação dos atributos de valor desejado em EHIS na cidade de Londrina no estado do Paraná (PR). O empreendimento de estudo de Conceição, Imai e Urbano (2015) é da faixa 01 do PMCMV, que totaliza 1.272 UH, com tipologia térrea e de três modelos: modelo geminada, especial para pessoas portadoras de deficiência e especial para idosos.
Para realizar esse estudo, Conceição, Imai e Urbano (2015) utilizaram o modelo do baralho de cartas de Granja et al., (2009). No entanto, este modelo foi adaptado uma vez que seria utilizado com moradores de unidades habitacionais de tipologia térrea, diferentemente do público-alvo para qual o instrumento original foi desenvolvido, isto é, moradores de apartamentos. A adaptação consistiu em alterações nos textos das cartas e na criação de uma carta intitulada “Cômodos com formato mais adequado ao mobiliário”, na categoria de valor “Qualidade espacial”. No Quadro 4 são apresentadas as cinco categorias de valor do modelo de Conceição, Imai e Urbano (2015) adaptadas do modelo de Granja et al., (2009) e seus respectivos atributos de valor.
Quadro 4 - Categorias de valor do modelo de Conceição, Imai e Urbano (2015) adaptadas do modelo de Granja et al., (2009) e seus atributos de valor
PERSPECTIVA FINANCEIRA
Gastar menos com contas de água, luz, outros
Gastar menos com prestações/financiamentos/aluguel Gastar menos com transportes
Ter oportunidade de negócios
Gastos menores com consertos, reparos e reformas QUALIDADE ESPACIAL
Tamanho dos cômodos
Disposição dos cômodos dentro da casa Novos espaços (varanda, quintal, jardim) Mais cômodos na casa
Casa com área maior
Cômodos com formato mais adequado ao mobiliário PERCEPÇÕES SOCIOESPACIAIS
A localização
Segurança: do patrimônio e das pessoas Privacidade: entre vizinhos e com a rua Local para guardar o carro
Aparência do bairro
Áreas públicas: ruas, praças... VALORES CULTURAIS Casas com aparência variada
Conjuntos menores, com menos casas Natureza (áreas verdes, árvores, flores) Elementos decorativos
A aparência das casas
QUALIDADE DO AMBIENTE INTERNO Tamanho e localização das portas e janelas
Qualidade (pisos azulejos, vedação, pintura, esquadrias, hidráulica e elétrica) Iluminação dentro da casa
Acústica da casa (evitar barulhos de fora, de vizinhos e entre cômodos) Temperatura dentro da casa
Fonte: Adaptado de Conceição, Imai e Urbano (2015).
Na Figura 5 são apresentados exemplos de cartas do baralho de Conceição, Imai e Urbano (2015) adaptadas do baralho de Granja et al., (2009).
Figura 5 - Cartas ilustradas do modelo de Conceição, Imai e Urbano (2015) adaptadas do modelo de Granja et al., (2009)
Fonte: Conceição, Imai e Urbano (2015).
Os atributos de valor desejado dos usuários dos EHIS estudados por Conceição, Imai e Urbano (2015) são apresentados na Figura 6.
Figura 6 - Atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Conceição, Imai e Urbano (2015)
Fonte: Conceição, Imai e Urbano (2015).
A investigação sobre o valor desejado feita por Araújo et al. (2018) foi realizada nas cidades de Parnamirim e Natal no estado do RN e abrangeu dois EHIS, que somam 1.392 UH. Os empreendimentos utilizados como objeto de estudo foram: “Vivendas do Planalto” e “Ilhas do Atlântico”.
O condomínio “Vivendas do Planalto” (Figura 7) está localizado em Natal/RN. Trata-se de um conjunto aberto, que possui 896 apartamentos distribuídos em 112 blocos com 2 pavimentos cada. O condomínio “Ilhas do Atlântico” (Figura 8) está localizado em Parnamirim/RN. Trata-se de um condomínio fechado com 496 UH distribuídas em 11 blocos com 4 pavimentos cada. Ambos EHIS apresentam as mesmas características, a saber: edificação vertical, tipologia H, sem elevador e que adota a repetição geminada do mesmo modelo de edificação de forma ortogonal.
Figura 7 - Empreendimento objeto de estudo localizado em Natal/RN
Figura 8 - Empreendimento objeto de estudo localizado em Parnamirim/RN
Fonte: Autora. Fonte: Autora.
Em seu trabalho, Araújo et al. (2018) utilizaram um plano amostral aleatório estratificado, sendo entrevistados 58 moradores do “Vivendas do Planalto” e 32 moradores do “Ilhas do Atlântico”. Araújo et al. (2018) utilizaram o modelo de Granja et al., (2009), o qual conta com cinco categorias de valor. Dentro de cada uma das cinco categorias de valor, os usuários entrevistados foram solicitados a elencar, em ordem de prioridade, os atributos que julgam de maior valor para a habitação. Em seguida, os atributos classificados como mais importantes em cada categoria de valor foram expostos e os usuários foram solicitados a classificar, em ordem de prioridade, os atributos de maior valor.
A distribuição de respostas de preferência declarada dos usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico” para as categorias de valor é apresentada nos Gráfico 1 a Gráfico 5. A preferência declarada dos usuários considerados todos os atributos de valor é apresentada no Gráfico 6.
Gráfico 1 - IGI dos atributos da categoria “Valor financeiro”
Fonte: Araújo et al. (2018).
Gráfico 2 - IGI dos atributos da categoria “Qualidade espacial”
Fonte: Araújo et al. (2018).
24,60%
21,40%
19,00%
18,90%
16,10% Condomínio, água, luz e gás
Transportes
Prestações, financiamento e aluguel
Oportunidade de negócios
Consertos, reparos e reformas
25,80% 21,60% 18,10% 17,30% 17,20% Novos espaços Tamanho dos cômodos Apartamento com área maior Mais cômodos Disposição dos cômodos
Gráfico 3 - IGI dos atributos da categoria “Valor socioespacial”
Fonte: Araújo et al. (2018).
Gráfico 4 - IGI dos atributos da categoria “Valor cultural”
Fonte: Araújo et al. (2018).
24,80% 19,40% 18,80% 15,70% 11,70% 9,60% Segurança Privacidade O lugar Áreas comuns Aparência do condomínio Local para guardar o carro
25,60% 22,30% 18,90% 17,00% 16,20% Natureza
Conjuntos menores com menos prédios
Elementos decorativos
Edfifícios com aparência de casa
Gráfico 5 - IGI dos atributos da categoria “Qualidade do ambiente interno”
Fonte: Araújo et al. (2018).
Gráfico 6 - Atributos de valor dos usuários dos EHIS estudados por Araújo et al. (2018)
Fonte: Araújo et al. (2018).
2.6 Recomendações projetuais a partir dos atributos de valor desejado dos usuários
O gerenciamento dos atributos de valor dos usuários é necessário devido à influência em vários fatores envolvidos no processo de desenvolvimento de empreendimentos. O gerenciamento não se limita à captura de atributos de valor desejado dos usuários e requer a transformação das necessidades e expectativas dos usuários em recomendações projetuais.
26,40% 24,80% 20,30% 14,70% 13,70% Temperatura Acústica Qualidade Tamanho e localização de portas e
janelas
Além de abordar os atributos de valor desejado dos usuários de EHIS, é possível encontrar na literatura diversos estudos que apresentam recomendações projetuais a partir do processamento das necessidades dos usuários (Kowaltowski e Granja, 2011; Conceição, Imai e Urbano, 2015; Aragão e Hirota, 2016).
O estudo de Kowaltowski e Granja (2011) apresenta 16 oportunidades (Quadro 5) de introdução de melhorias nos projetos dos EHIS, a partir dos atributos de valor dos usuários apresentados por Granja et al. (2009).
Quadro 5 - Oportunidades de melhorias em EHIS apresentadas por Kowaltowski e Granja (2011)
OPORTUNIDADES DE MELHORIAS ATRIBUTO DE VALOR
RELACIONADO
1. Introdução de forro no teto dos banheiros Privacidade, acústica e qualidade 2. Personalização dos revestimentos de piso Elementos decorativos
3. Detalhes de decoração no gesso Elementos decorativos
4. Troca do tipo de porta de acesso por, de preferência, porta de madeira maciça
Segurança, acústica, qualidade, privacidade e elementos decorativos 5. Local para estacionar motocicletas e
bicicletas Segurança e local para guardar o carro
6. Instalação da cerca em torno de edifícios Segurança, o lugar, conjuntos menores com menos prédios e áreas comuns 7. Centros de pequenas empresas, centro de
assistência à infância e centro de saúde Oportunidades de negócio 8. Aumentar a distância entre janelas da forma
'H' de edifícios
Tamanho e localização das portas e janelas, privacidade e acústica 9. Elevar os apartamentos do térreo em 50 cm
acima do nível de entrada Segurança, acústica e privacidade 10. Introduzir barreira de vegetação (arbustos e
canteiros de flores) entre entradas e unidades residenciais ao nível do solo
Natureza, privacidade, segurança, aparência do condomínio e elementos
decorativos 11. Introdução do espaço de transição na frente
das portas dos apartamentos Privacidade, segurança e natureza 12. Melhorar o detalhamento e acabamento dos
degraus da escada Qualidade
13. Abrir as escadas comuns Segurança e áreas comuns
14. Substituir o “centro comunitário” por churrasqueira, playground, bancos e paisagismo
Natureza, áreas comuns e elementos decorativos
15. Individualizar o exterior dos edifícios através de combinação de cores
Elementos decorativos, edifícios com aparências variadas, edifícios com aparência de casa, o lugar e aparência do
condomínio 16. Permitir aberturas de portas em paredes de
divisórias e a junção de espaços de apartamentos adjacentes
Apartamento com área maior, mais cômodos, tamanho dos cômodos e
disposição dos cômodos
Conceição, Imai e Urbano (2015), além de capturarem e hierarquizarem os atributos de valor desejado dos usuários de EHIS na cidade de Londrina/PR, apresentaram 33 recomendações projetuais (Quadro 6) classificadas de acordo com os atributos de valor desejado dos usuários.
Quadro 6 - Recomendações projetuais para EHIS propostas por Conceição, Imai e Urbano (2015)
RECOMENDAÇÕES PROJETUAIS ATRIBUTO DE VALOR
RELACIONADO
1. Prever fechamento do lote Segurança
2. Prever portão de acesso ao lote/casa Segurança
3. Reservar área para jardim e/ou horta Natureza
4. Prever quantidade de cômodos de acordo com a
necessidade da família Mais cômodos na casa
5. Prever cozinha e sala em cômodos separados
6. Prever dois banheiros Mais cômodos na casa
7. Prever piso interno
Qualidade 8. Prever contrapiso externo
9. Prever tanque grande e resistente
10. Prever fechamento da área do banho "box" 11. Prever pintura interna lavável
12. Prever revestimento lavável na cozinha (área da pia + fogão)
13. Prever banheiro com azulejo em todas as paredes até o teto
14. Prever pia do banheiro com gabinete 15. Prever piso na área de serviço 16. Prever casa com laje
17. Prever área de serviço coberta
Tamanho dos cômodos 18. O tamanho da cozinha deve ser adequado as
atividades desenvolvidas
19. O tamanho dos quartos deve ser adequado ao número de pessoas de cada quarto
20. O tamanho da sala deve ser adequado as atividades desenvolvidas e ao número de pessoas da família
21. Prever sistemas (hidráulico, elétrico...) que minimizem a necessidade de reparos e manutenção
Gastar menos com consertos, reparos e reformas 22. Prever pintura externa da edificação diversificada
RECOMENDAÇÕES PROJETUAIS ATRIBUTO DE VALOR RELACIONADO
23. Prever pinturas das portas e janelas Casas com aparências variadas 24. Possibilitar a utilização de um cômodo para
atividade profissional Ter oportunidade de negócios
25. Prever área coberta no fundo do lote para lazer da família
Novos espaços 26. Prever local para a construção de varanda
27. Prever local para a construção de dependência 28. Prever local para a construção de depósito
29. Executar calçadas Áreas públicas
30. As portas e janelas devem ser locadas melhorando a privacidade e segurança da família
Tamanho e localização das portas e janelas 31. Prever a composição das fachadas das casas
Aparência das casas 32. Prever a implantação da casa no nível igual ou
superior ao da rua
33. Prever local para construção de garagem coberta Local para guardar o carro
Fonte: Adaptado de Conceição, Imai e Urbano (2015).
A partir da captura dos atributos de valor desejado dos usuários de EHIS realizada por Conceição, Imai e Urbano (2015), Aragão e Hirota (2016) desenvolveram uma pesquisa focada em compreender os atributos de valor desejado do usuário de um EHIS, levantar as restrições de projeto existentes em legislações, normas e outros documentos de caráter técnico que influenciam no processo de concepção de um empreendimento na região em estudo e propor recomendações projetuais, de modo a propiciar maior incremento de valor ao produto sob o ponto de vista do usuário. As recomendações projetuais propostas por Aragão e Hirota (2016) são apresentados no Quadro 7.
Quadro 7 - Recomendações projetuais propostas por Aragão e Hirota (2016)
RECOMENDAÇÕES PROJETUAIS ATRIBUTOSDE VALOR
RELACIONADO
1. Fechamento da unidade habitacional com muro
Segurança, acústica da casa e privacidade
2. Bloqueio visual nas aberturas laterais
entre unidades habitacionais Privacidade
3. Unidade habitacional independente
4. Variedade da fachada
Casas com aparência variada, aparência do bairro, elementos decorativos e aparência das casas
RECOMENDAÇÕES PROJETUAIS ATRIBUTOSDE VALOR RELACIONADO
5. Frente mínima no lote
Aparência das casas, natureza, tamanho dos cômodos, disposição dos cômodos e cômodos com formato mais
adequado ao mobiliário 6. Capacidade e eficiência do sistema de
aquecimento solar
Gastar menos com contas de condomínio, água, luz e gás 7. Cômodo suplementar (área para
comércio/serviço)
Ter oportunidade de negócios e mais cômodos
8. Cômodo suplementar (3º dormitório) Mais cômodos
9. Área de serviço funcional coberta Mais cômodos e casa com área maior 10. Minimizar área de corredores dentro
da casa Casa com área maior
11. Projeto de ampliação da unidade habitacional
Casa com área maior e gastar menos com consertos, reparos e reformas 12. Abertura para ampliação (friso para
recorde na parede)
Gastar menos com consertos, reparos e reformas
13. Paredes com conexões hidráulicas Qualidade
14. Ventilação cruzada dentro dos
cômodos Temperatura dentro da casa
15. Construção complementar (varanda) Novos espaços
16. Dimensões do lote apropriadas a novos espaços
Novos espaços, tamanho e localização de portas e janelas, iluminação dentro
da casa e local para guardar o carro 17. Construção complementar (garagem) Local para guardar o carro
Fonte: Adaptado de Aragão e Hirota (2016).
A análise comparativa das recomendações projetuais propostas nos estudos de Conceição, Imai e Urbano (2015) e de Aragão e Hirota (2016) nos permite constatar semelhanças e diferenças.
Para atender ao atributo de valor mais desejado pelos usuários do EHIS estudado, isto é, “segurança”, Conceição, Imai e Urbano (2015) propõem duas recomendações, são elas: fechamento do lote e prever portão de acesso ao lote/casa. Enquanto isso, Aragão e Hirota (2016) propõem apenas o fechamento da UH com muro. Para Aragão e Hirota (2016), esta recomendação atende ainda aos atributos de valor “acústica” e “privacidade”.
A fim de proporcionar mais valor ao usuário por meio do subsídio ao atributo “natureza”, cada autor sugere uma recomendação, sendo a proposta de Conceição, Imai e Urbano (2015) reservar área para jardim e/ou horta e a de Aragão e Hirota (2016) adotar frente
mínima no lote. As recomendações de ambos os autores estão alinhadas, pois envolvem destinar uma área do lote a elementos naturais. É válido ressaltar que a recomendação de adotar frente mínima no lote proposta por Aragão e Hirota (2016) considera o atendimento a outros atributos de valor dos usuários, são eles: aparência das casas, tamanho dos cômodos, disposição dos cômodos e cômodos com formato mais adequado ao mobiliário.
Conceição, Imai e Urbano (2015) não apresentam propostas de recomendações projetuais para atender ao terceiro e ao quarto atributo de valor mais desejado pelos usuários do EHIS estudado, isto é, “gastar menos com contas de condomínio, água, luz e gás” e “acústica”. Por outro lado, Aragão e Hirota (2016) sugerem o atendimento ao atributo de valor “gastar menos com contas de condomínio, água, luz e gás” por meio da recomendação de aperfeiçoar a capacidade e eficiência do sistema de aquecimento solar.
Em relação ao atributo de valor “mais cômodos”, ambos os autores aconselham a ampliação do número de cômodos visando atender as necessidades da família e permitir o desenvolvimento das atividades. Já acerca da “qualidade”, Aragão e Hirota (2016) dispõem apenas sobre a instalação das conexões hidráulicas nas paredes. Ainda sobre o atributo de valor “qualidade”, mas sob outra perspectiva, Conceição, Imai e Urbano (2015) sugerem a prescrição de materiais de acabamento e a instalação de acessórios com melhores características estéticas e de resistência.
Para prover maior condição de privacidade, Aragão e Hirota (2016) indica o bloqueio visual nas aberturas laterais entre UH e a construção de UH independentes. Conceição, Imai e Urbano (2015) não apresentaram recomendações acerca do atributo de valor “privacidade”. Para além das observações feitas acima, verifica-se que para alguns atributos, como por exemplo, “gastar menos com prestações, financiamentos e aluguel”, nenhum dos autores apresentaram propostas de melhorias.
Os estudos de Conceição, Imai e Urbano (2015) e de Aragão e Hirota (2016) se complementam, contribuem para entregar mais valor ao usuário e podem ainda ser utilizados como referência para outros estudos que objetivem atender aos atributos de valor dos usuários por eles não contemplados. Por fim, destaca-se que a partir dos mesmos dados de atributos de valor dos usuários, os autores propuseram recomendações projetuais ora semelhantes, ora diferenciadas, o que nos permite constatar como a subjetividade da interpretação do projetista pode influenciar no processo de projeto.
3 MÉTODO DE PESQUISA
Neste capítulo é descrita toda a metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho, na qual foi empregada a estratégia de pesquisa explanatória sequencial. Trata-se de uma abordagem quanti-qualitativa (ou mista), que é conhecida internacionalmente como pesquisa de métodos mistos (CRESWELL, 2012). O objetivo da pesquisa explanatória sequencial é usar resultados qualitativos para auxiliar na explicação e na interpretação de resultados de um estudo primariamente quantitativo (CRESWELL, 2012).
A metodologia de pesquisa foi estruturada com base na revisão bibliográfica, análise estatística dos dados quantitativos dos atributos de valor dos usuários dos empreendimentos analisados e na comparação entre os atributos de valor dos usuários de EHIS (Figura 9).
Figura 9 - Delineamento da pesquisa
Fonte: Autora.
Além das três etapas descritas acima, foram realizadas visitas técnicas à 90 UH do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico”. Estas visitas foram realizadas com o objetivo de obter uma percepção mais próxima do usuário em relação aos atributos de valor apresentados por Araújo et al. (2018). O conhecimento dessa percepção foi utilizado para, junto às informações obtidas nas demais etapas desta metodologia, propor as recomendações projetuais mais customizadas às necessidades dos usuários.
3.1 Revisão bibliográfica
A primeira etapa para o desenvolvimento deste trabalho foi a realização de uma revisão bibliográfica. Nesta etapa, foi construída a fundamentação teórica da pesquisa e coletados os
dados para o desenvolvimento das etapas subsequentes. Foram utilizados como fonte de dados: periódicos nacionais e internacionais, anais de eventos, legislações, documentos oficiais, livros, base de dados reconhecidas (tais como o IBGE), normas técnicas e repositórios de universidades (contemplando trabalhos de conclusão de cursos, dissertações e teses).
O foco da revisão bibliográfica foi a percepção de valor do usuário em sua habitação. Para tal, se fez necessário apresentar os diferentes conceitos de valor existentes na literatura, como o conceito de valor pode ser entendido na construção civil, o que é valor desejado para os usuários de EHIS e as nuances entre valor percebido e valor desejado. A partir dessa revisão bibliográfica foi possível identificar os estudos existentes no Brasil sobre a captação dos atributos de valor desejado dos usuários de EHIS. Além disso, também foram levantados os estudos que sugerem recomendações projetuais para esse tipo de empreendimento, a partir do ponto de vista do usuário. A partir do exposto, foram selecionados os EHIS a serem analisados neste trabalho.
3.2 Análise estatística dos atributos de valor desejado dos usuários dos empreendimentos analisados
A segunda etapa para o desenvolvimento deste trabalho consiste na análise estatística dos atributos de valor desejado dos usuários dos EHIS a serem analisados. Os empreendimentos tomados como objeto de estudo neste trabalho foram o “Vivendas do Planalto” e o “Ilhas do Atlântico”. Conforme mencionado anteriormente, ambos empreendimentos estão localizados no RN, sendo o “Vivendas do Planalto” em Natal e o “Ilhas do Atlântico” em Parnamirim. Os atributos de valor desejado dos usuários desses EHIS foram apresentados por Araújo et al. (2018). O Laboratório de Estatística Aplicada (LEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) auxiliou o processo de análise estatística dos referidos atributos.
Em razão da amostra obtida por Araújo et al. (2018) ter sido dada a partir de um plano estratificado, foram seguidas as adequações do método Bootstrap apresentadas por (LOHR, 1999, p.374). O Bootstrap (Efron, 1982) consiste em uma técnica de reamostragem, sendo a amostra considerada a população e são retiradas r amostras aleatórias com reposição, 0 < r < 1, de mesmo tamanho da amostra original. Para cada amostra é recalculada a estatística de interesse.
O método Bootstrap foi utilizado para construir os Intervalos de Confiança (IC) para o IGI, fazendo-se a correção de Bonferroni, necessária devido à comparação entre múltiplos
intervalos de confiança simultaneamente. O nível de significância α adotado foi de 5%. Para a realização das análises foi utilizado o Software R 3.4.4 e o pacote ggplot2 foi utilizado para gerar os gráficos.
A análise e interpretação individual das categorias “Valor financeiro”, “Qualidade do ambiente interno”, “Qualidade espacial” e “Valor cultural” permite o total de 10 comparações par a par, por categoria. Assim, cada intervalo de confiança foi construído com 99,5% (5% em 10) utilizando-se a correção de Bonferroni. Já para a categoria “Valor socioespacial”, como esta tem 6 atributos de valor, o número total de comparações é 15. Assim, utilizando-se a correção de Bonferroni e fixando-se a significância em 5%, cada intervalo foi construído com 99,7%.
Para a análise dos IC, pode-se afirmar que o verdadeiro valor do IGI está entre os valores do limite inferior e limite superior. A interpretação dos gráficos perpassa pelo seguinte entendimento: não havendo sobreposição entre os intervalos de confiança, entende-se que há diferença estatística mínima de 5% entre eles, desse modo o atributo de valor com IGI maior teria maior grau de importância para o usuário. Por outro lado, havendo sobreposição entre os intervalos de confiança, entende-se que não há diferença estatística mínima de 5% entre eles. Nesse sentido, os atributos de valor sobrepostos apresentam grau de importância semelhante para os usuários, sendo que quanto maior o IGI mais importante é o atributo para o usuário.
As recomendações projetuais foram propostas com base no IGI e na análise dos IC. A importância de considerar a análise estatística para propor recomendações projetuais pode ser apresentada através de um exemplo. No contexto estudado, as restrições de custo são relevantes, o que significa que em diversas vezes é necessário optar qual alteração deve ser feita para melhor atender o usuário haja vista que todas não podem ser realizadas pelo custo agregado que elas trazem. Nesse sentido, caso o usuário necessite optar por uma recomendação projetual, ele, provavelmente, iria optar por aquela que contemple o atributo de valor com maior IGI. Além disso, se ele precisar optar entre duas ou mais recomendações projetuais que apresentem IGI semelhante, a análise do IC auxilia o processo de tomada de decisão pela recomendação que agregue mais valor.
A consideração da análise estatística atrelada a revisão bibliográfica possibilitou a proposição de recomendações projetuais para empreendimentos da faixa 01 do PMCMV localizados no RN, em ordem de prioridade e que agreguem valor sob o ponto de vista dos usuários.
3.3 Comparação entre os atributos de valor dos usuários de EHIS
A terceira etapa para o desenvolvimento deste trabalho se trata de uma comparação entre os atributos de valor dos usuários de EHIS. Na etapa de revisão bibliográfica foram identificados três estudos que apresentam atributos de valor dos usuários de EHIS no Brasil. Estes estudos foram realizados em três regiões diferentes do país, a saber: sudeste, sul e nordeste. A comparação entre os atributos de valor dos usuários de EHIS desses três estudos faz-se necessária para compreender como as diferenças regionais, sejam elas climáticas ou culturais, impactam nas demandas dos usuários de EHIS. Além disso, essa comparação fornecerá subsídio para questionar a implantação de projetos padronizados para esse tipo de empreendimento.
Os estudos identificados que abordam a captura dos atributos de valor dos usuários de EHIS no Brasil utilizam o mesmo método, sofrendo adaptações quando necessário, e a mesma variável estatística para aferir a preferências dos usuários, o IGI. Esses estudos apresentam as preferências dos usuários por categoria de valor e como um conjunto. Neste estudo, a comparação dos atributos de valor foi realizada de forma direta e apenas dos atributos de valor dos usuários considerados como um conjunto.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Este capítulo tem o objetivo de apresentar os resultados alcançados neste trabalho, perpassando pelo alcance aos objetivos específicos até atingir o objetivo geral da pesquisa.
4.1 Análise estatística dos atributos de valor dos usuários dos EHIS analisados Afim de tornar mais clara a compreensão do resultado da análise estatística dos atributos de valor dos usuários dos EHIS analisados, esta será apresentada nos seguintes subitens: caracterização geral dos usuários dos EHIS analisados, análise estatística dos atributos de valor por categoria de valor e análise estatística dos atributos de valor em conjunto.
4.2.1. Caracterização geral dos usuários dos EHIS analisados
De acordo com os dados analisados, a maioria das famílias dos EHIS analisados possui 4 membros (Gráfico 7). Além disso, observou-se que a idade dos proprietários é variada (Gráfico 8) sendo que 15,56% possuem de 18 a 25 anos, 33,44% possuem de 26 a 35 aos, 28,89% possuem de 36 a 45 anos, 14,44% possuem de 46 a 55 anos e 6,66% possuem 56 anos ou mais.
Gráfico 7 - Número médio de membros das famílias dos EHIS analisados
Fonte: Autora. 2,15% 21,51% 25,81% 36,56% 7,53% 6,45% 1 2 3 4 5 6 ou mais
Gráfico 8 - Faixa etária média dos usuários dos EHIS analisados
Fonte: Autora.
O Gráfico 9 apresenta o tempo médio de permanência no imóvel dos usuários dos EHIS analisados. Verifica-se que 63,33% permanecem de 22 a 24 horas no imóvel. Nesse sentido, destaca-se a importância de se ter uma habitação confortável e que atenda as demandas do usuário.
Gráfico 9 - Tempo médio de permanência no imóvel
Fonte: Autora. 15,56% 34,44% 28,89% 14,44% 4,44% 2,22% 18-25 26-35 36-45 46-55 56-65 66 ou mais 10,00% 11,11% 4,44% 8,89% 2,22% 63,33% 0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00% 70,00% 7 - 9 10 - 12 13 - 15 16 - 18 19 - 21 22 - 24
4.2.2. Análise estatística dos atributos de valor por categoria de valor
O Gráfico 1 apresenta o IGI de cada atributo da categoria “Valor financeiro”. A Tabela 1 apresenta a distribuição de respostas de preferência declarada dos usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico” para os atributos da referida categoria, a partir dos quais foram determinados os valores dos IGIs.
Tabela 1 - Distribuição de respostas para a categoria “Valor financeiro”
Atributos de valor 1ª opção 2ª opção 3ª opção 4ª opção 5ª opção
Condomínio, água, luz e gás 32,20% 26,70% 24,40% 11,10% 5,60% Prestações, financiamento e aluguel 21,15% 12,20% 21,15% 22,20% 23,30%
Transportes 20,00% 32,20% 14,40% 16,70% 16,70%
Oportunidade de negócios 17,80% 15,60% 23,30% 18,90% 24,50% Consertos, reparos e reformas 8,90% 13,30% 17,80% 31,10% 28,90%
Fonte: Autora.
A Figura 10 apresenta os intervalos de confiança para a categoria “Valor financeiro”. A análise par a par permite concluir que o atributo “Condomínio, água, luz e gás” tem o mesmo grau de importância para os usuários que o atributo “Transportes” e é mais importante que os demais atributos da categoria.
O atributo “Transportes” analisado, par a par, apresenta o mesmo grau de importância dos atributos “Prestações, financiamentos e aluguel” e “Oportunidade de negócios”. Além disso, é mais importante que o atributo “Consertos, reparos e reformas”.
Os atributos “Prestações, financiamentos e aluguel”, “Oportunidade de negócios” e “Consertos, reparos e reformas” não diferem em grau de importância para os usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico”.
Figura 10 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Valor financeiro”
Fonte: Autora.
O Gráfico 2 apresenta o IGI de cada atributo da categoria “Qualidade espacial”. A Tabela 2 apresenta a distribuição de respostas de preferência declarada dos usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico” para os atributos da referida categoria, a partir dos quais foram determinados os valores dos IGIs.
Tabela 2 - Distribuição de respostas para a categoria “Qualidade espacial”
Atributos de valor 1ª Opção 2ª Opção 3ª Opção 4ª opção 5ª Opção
Tamanho dos cômodos 18,90% 30,00% 23,30% 12,20% 15,60%
Disposição dos cômodos 5,60% 20,00% 26,70% 22,20% 25,50%
Novos espaços 51,10% 14,40% 13,30% 12,30% 8,90%
Mais cômodos 11,10% 20,00% 17,80% 20,00% 31,10%
Apartamento com área maior 13,30% 15,60% 18,90% 33,30% 18,90%
Fonte: Autora.
A Figura 11 apresenta os intervalos de confiança para a categoria “Qualidade espacial”. A análise par a par permite concluir que o atributo “Novos espaços” tem o mesmo grau de importância do atributo “Tamanho dos cômodos” e é mais importante que os demais atributos da categoria.
O atributo “Tamanho dos cômodos”, “Apartamento com área maior”, “Mais cômodos” e “Disposição dos cômodos” não diferem entre si em grau de importância para os usuários dos EHIS analisados.
Figura 11 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Qualidade espacial”
Fonte: Autora.
O Gráfico 3 apresenta o IGI de cada atributo da categoria “Valor socioespacial”. A Tabela 3 apresenta a distribuição de respostas de preferência declarada dos usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico” para os atributos da referida categoria, a partir dos quais foram determinados os valores dos IGIs.
Tabela 3 - Distribuição de respostas para a categoria “Valor socioespacial”
Atributos de valor 1ª Opção 2ª Opção 3ª Opção 4ª opção 5ª Opção 6ª Opção
O lugar 15,60% 22,20% 26,80% 20,00% 11,00% 4,40%
Segurança 57,80% 27,80% 11,10% 1,10% 1,10% 1,10%
Privacidade 13,30% 34,40% 22,20% 13,40% 13,40% 3,30%
Local para guardar
o carro 1,10% 4,40% 7,80% 10,00% 25,60% 51,10%
Aparência do
condomínio 3,30% 5,60% 8,90% 21,10% 31,10% 30,00%
Áreas comuns 8,90% 6,70% 23,30% 34,40% 17,80% 8,90%
Fonte: Autora.
A Figura 12 apresenta os intervalos de confiança para a categoria “Valor socioespacial”. A análise par a par permite concluir que o atributo “Segurança” é de maior importância para os usuários em relação aos demais atributos da categoria.
O atributo de valor “Privacidade” apresenta o mesmo grau de importância do atributo “O lugar” e é mais importante que os demais atributos da categoria. Por outro lado, o atributo
“O lugar” apresenta o mesmo grau de importância que o atributo “Áreas comuns” e é mais importante que os atributos “Aparência do condomínio” e “Local para guardar o carro”.
O atributo de valor “Áreas comuns” é mais importante que os atributos “Aparência do condomínio” e “Local para guardar o carro”. Estes, por sua vez, não diferem entre si em grau de importância para os usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico”.
Figura 12 - Intervalos de confiança (bootstrap) para o IGI por atributo de valor – categoria “Valor socioespacial”
Fonte: Autora.
O Gráfico 4 apresenta o IGI de cada atributo da categoria “Valor cultural”. A Tabela 4 apresenta a distribuição de respostas de preferência declarada dos usuários do “Vivendas do Planalto” e do “Ilhas do Atlântico” para os atributos da referida categoria, a partir dos quais foram determinados os valores dos IGIs.
Tabela 4 - Distribuição de respostas para a categoria “Valor cultural”
Atributos de valor 1ª Opção 2ª Opção 3ª Opção 4ª opção 5ª Opção
Edifícios com aparências
variadas 7,80% 15,50% 21,20% 23,30% 32,20%
Conjuntos menores com menos
prédios 33,30% 15,60% 17,80% 18,90% 14,40%
Natureza 40,00% 24,50% 17,70% 14,50% 3,30%
Elementos decorativos 10,00% 23,30% 25,60% 22,20% 18,90% Edifícios com aparência de
casa 8,90% 21,10% 17,80% 21,10% 31,10%