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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA – UFPB CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA

MESTRADO EM LINGUÍSTICA

RAFAELLY FERREIRA BEZERRA

MEMÓRIA DECLARATIVA E LINGUAGEM EM CRIANÇAS ASPERGER:

UM ESTUDO DO PROCESSAMENTO DE PALAVRAS MORFOLOGICAMENTE DERIVADAS EM EIRO / EIRA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

JOÃO PESSOA, PB 2018

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RAFAELLY FERREIRA BEZERRA

MEMÓRIA DECLARATIVA E LINGUAGEM EM CRIANÇAS ASPERGER:

UM ESTUDO DO PROCESSAMENTO DE PALAVRAS MORFOLOGICAMENTE DERIVADASEM EIRO / EIRA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba - UFPB, dirigido à áreade concentração Teoria e Análise Linguística e linha de pesquisa Aquisição e Processamento Linguístico, comorequisito para obtenção do título de Mestre emLinguística.

Orientador: Prof. Dr. José Ferrari Neto

JOÃO PESSOA, PB 2018

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B574m Bezerra, Rafaelly Ferreira.

MEMÓRIA DECLARATIVA E LINGUAGEM EM CRIANÇAS ASPERGER:

UM ESTUDO DO PROCESSAMENTO DE PALAVRAS MORFOLOGICAMENTE DERIVADAS EM EIRO / EIRA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO / Rafaelly Ferreira Bezerra. - João Pessoa, 2019.

76f. : il.

Orientação: José Ferrari Neto Ferrari.

Dissertação (Mestrado) - UFPB/Proling.

1. Psicolinguística; Processamento;Autismo;Memória. I.

Ferrari, José Ferrari Neto. II. Título.

UFPB/BC

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A Deus, meu Senhor e grande Mestre;

Ao meu orientador Prof.Dr. José Ferrari Neto;

Aos meus Pais, que tanto me impulsionaram;

Dedico.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, a Deus por iluminar, dar forças e estender a sabedoria necessária para que eu chegasse até aqui. Segundo, aos meus Pais, Osvaldo Bezerra e Wilha Ferreira, que me impulsionaram e incentivaram nessa pesquisa de uma maneira inigualável.

Somaram bastante em minha trajetória acadêmica ajudando no que eu precisei. Todo o carinho e a preocupação, jamais, serão esquecidos.

Agradeço, também, a um primo amado. Ele é autista e está atualmente com 12 anos.

Suas atitudes e comportamentos muito me fizeram curiosa por essa temática desenvolvida.

Sua trajetória me instigou a ir além, com estudos mais aprofundados, para poder somar à qualidade de vida de crianças como ele. Ao meu namorado, Bruno Pereira, muito obrigada por todo incentivo, paciência e força. A minha irmã Amanda Ferreira, ao meu cunhado Paulo Ferreira e sua mãe, grande amiga, Glícia Pessoa, jamais esquecerei todo apoio dado a mim durante o período de coleta de dados.

Gratidão aos pais dos participantes da pesquisa que, junto comigo, acreditaram na proposta desempenhada. À direção dos espaços de coleta de dados, Unidade Educacional da Prefeitura da Aliança – UEPA, Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Funad – Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência.

Externo também meus agradecimentos à professora Isabela Barbosa do Rego Barros, da UNICAP, pelo apoio na coleta de dados realizada com as crianças autistas de seu laboratório de pesquisa e à coordenadora Elisabete, responsável pelo atendimento das crianças autistas na Funad \ PB. A elas todo meu carinho e gratidão.

Não poderia deixar de mencionar meus colegas e professores do Laboratório de Processamento Linguístico – LAPROL - UFPB e, em especial, ao meu orientador Professor Dr. José Ferrari Neto, seu acolhimento, lições e força foram fundamentais nessa trajetória.

Agradeço muitíssimo por ter acreditado que esse trabalho seria possível, desde o começo, junto aos conhecimentos da Psicolinguística Experimental, com os aprendizados em pesquisa exploratória, lidando com dados estatísticos. Ao senhor, professor, agradeço imensuravelmente por todas as vezes que precisei e o acolhimento foi atendido. Em suma, estendo todo o carinho e gratidão aos evolvidos, direta ou indiretamente.

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RESUMO

A presente pesquisa objetiva compreender como se dá o processamento das palavras morfologicamente derivadas no português brasileiro em crianças com e sem diagnóstico de Transtorno do espectro autista ou TEA, mais especificamente as diagnosticadas Asperger, a fim de obter, mediante análise comparativa comportamental dos dois grupos, dados empíricos acerca das bases neurais, seus sistemas de memória de longo prazo e o funcionamento do seu léxico mental. Sendo assim, buscar-se-á refletir sobre a ocorrência dos mecanismos operacionais da memória declarativa em alta que indicam, segundo Walenski et al (2007) e (2014) um trabalho da memória procedimental em défict e que, por sua vez, interferem no processamento das palavras morfologicamente derivadas. Diante disso, obteve-se como parâmetro de investigação o Modelo Declarativo/Procedimental de Ullman (2003) com o propósito de relacionar os conceitos referentes à caracterização e funcionamento da Memória Declarativa e da Memória Procedimental com a fundamentação teórica acerca o estudo do léxico, bem como as caracterizações dentro dos aspectos morfológicos das palavras trazida pelos autores Villalva et al (2014), Marin (1992), Camillo (2013), Juffs (2010) e cf. Levelt, Roelofs & Meyer in Ferrari-Neto (2014). Tudo isso com a permissão do aporte teórico ligado à Metodologia de pesquisa da Psicolinguística Experimental que auxilia nos estudos e análises do processamento da leitura e decisão lexical nos sujeitos. Portanto, a pesquisa analisou e comparou o processamento lexical de palavras terminadas em sufixo eiro – eira em crianças entre 6 (seis) e 10 (dez) anos com e sem Síndrome de Asperger. Assim sendo, foram comparados os padrões de processamento do sufixo eiro-eira em experimento online, por meio da técnica de Priming morfológico, em uma tarefa de decisão lexical. Essa técnica consiste na apresentação de uma palavra como PRIME e outra como ALVO. A primeira funciona como facilitador ou não da palavra que vem logo a seguir (ALVO). As crianças também foram avaliadas mediante decisão acelerada para string de letra na tela do computador – Você considera essa sequência de letras uma palavra na língua Portuguesa? -, e os resultados obtidos com o experimento aplicado apontaram que as crianças autistas foram superiores em relação ao tempo de leitura, o que corresponde aos dados revelados por Walenski et al. (2007) e (2014), relativos ao possível déficit na memória procedimental.

Entretanto, quanto às respostas Sim e Não referentes ao reconhecimento das palavras, as crianças do grupo controle, que não apresentavam grau algum de autismo, reconheceram mais que as crianças autistas do grupo experimental. Os dados sugeriram, também, que a leitura foi facilitada para os autistas nos casos em que as palavras Simples estavam em posição alvo no experimento e que tempo de reação e reconhecimento das palavras não poderiam ser considerados diretamente proporcionais, ou seja, para a criança autista reconhecer ou não a palavra não quer dizer que ela vai ler mais rápido. O que significará para ela, então, são muito mais questões relativas à presença ou não do componente gramatical representado pelos sufixos das palavras derivadas e que são processados pela memória procedimental. Os dados foram analisados mediante os as coordenadas da estatística não paramétrica.

Palavras-Chave: Psicolinguística Experimental; Processamento Lexical; Autismo; Asperger;

Memória Declarativa; Paradigma de Priming.

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ABSTRACT

The present research aims to understand how the morphologically derived words in Brazilian Portuguese are processed in children with and without diagnosis of Autism Spectrum Disorder or ASD, in order to obtain, through a behavioral comparative analysis of both groups, empirical data about the neural bases autism, their long-term memory systems and the functioning of their mental lexicon. Thus, we will try to reflect on the occurrence of the operational mechanisms of a declarative memory in high that indicate, according to Walenski et al (2007) and (2014) a work of procedural memory in défict and that, in turn, interfere in the processing of morphologically derived words. Therefore, the Ullman Declarative / Procedural Model (2003) was used as a research parameter in order to relate the concepts related to the characterization and functioning of Declarative Memory and Procedural Memory with the theoretical foundation about the study of the lexicon as well as such as the characterization within the morphological aspects of the words brought by Villalva et al (2014), Marin (1992), Camillo (2013), Juffs (2010) and cf. Levelt, Roelofs & Meyer in Ferrari-Neto (2014). All this with the permission of the theoretical contribution linked to the Research Methodology of Experimental Psycholinguistics that assists in the studies and analyzes of the reading processing and lexical decision in the subjects. Therefore, the research analyzed and compared the lexical processing of terminated eiro - eira words in children between 6 (six) and 10 (ten) years with and without ASD. Thus, we compared the processing patterns of the eiro-eira suffix in an online experiment, using the Morphological Priming technique, in a lexical decision task. This technique consists of presenting one word as PRIME and another as TARGET. The word that works as PRIME works as a facilitator or not of the word that comes next (TARGET). The children were also evaluated by accelerated decision to letter string on the computer screen: Do you consider this letter sequence a word in Portuguese Language? Katz et al (2011). The results obtained with the applied experiment pointed out that the autistic children were superior in relation to the reading time, which corresponds to the data revealed by Walenski et al. (2007) and (2014), regarding the possible deficit in procedural memory. However, regarding the Yes and No responses regarding word recognition, the children in the control group, who did not present any degree of autism, recognized more than the autistic children in the experimental group. The data also suggested that reading was facilitated for autistics in cases where the words Simple were in the target position in the experiment and the reaction time and recognition of the words could not be considered directly proportional, that is, for the autistic child whether or not to recognize the word does not mean that it will read faster. What it will mean for her, then, are many more questions concerning the presence or absence of the grammatical component represented by the suffixes of the derived words and which are processed by procedural memory. The data were analyzed using the coordinates of non-parametric statistics.

Key-Words: Experimental Psycholinguistic; Lexical Processing; Autism; Asperger;

Declarative Memory; Priming Paradigm.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1-Estágios de formação da palavra ... 31 Figura 2 – Área de Broca e Lobo Frontal

correspondentes ao Sistema de Memória Procedimental ...34 Figura 3 – Hipocampo e Lobo Temporal correspondentes

ao Sistema de Memória Declarativa ... 34

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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 –Tempo de leitura das condições experimentais atingidos pelas crianças com espectro autistas ... 52 Gráfico 2 –Tempo de leitura das condições experimentais atingidos pelas

crianças do grupo controle ... 52 Gráfico 3 – Dados cruzados de tempo de leitura das condições experimentais atingidos pelas crianças de ambos os grupos ... 53

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LISTA DE QUADROS E TABELAS

Tabela 1 Dados do tempo de processamento especificados de cada grupo participante

da pesquisa. ... 53

Tabela 2 – Tabela cruzada das respostas Sim e Não referidas no experimento. ... 54

Tabela 3 – Teste de proporção dos valores entre as respostas dadas frente às condições experimentais...54

Tabela 4 – Teste Qui-Quadrado referente às respostas dadas pelas crianças asperger...54

Tabela 5 – Comparações múltiplas de tempo médio de leitura entre as condições... 54

Tabela 6 – Média das respostas Sim e NÃO por idade (Grupo Experimental) ...55

Tabela 7 – Média das respostas Sim e Não por idade (Grupo Controle) ... 55

Tabela 8 – Cruzamentodas respostas SIM e NÃO das pelas crianças do grupo controle .... 55

Tabela 9 –Proporção das respostas SIM e NÃO dadas pelas crianças do grupo controle...56

Tabela 10 – Qui-Quadrado das respostas pelas crianças do grupo controle...56

Quadro 1 - Sintomas essênciais referentes ao diagnóstico de indivíduos com Asperger ... 25

Quadro 2 – Sistemas de Memória e suas caracterizações ...36

Quadro 3: Descrição das fases de alfabelização, as idades correspondientes mais comuns e como elas descorrem segundo Ferreiro e Teberosky (1986) ...46

Quadro 4 - Condições do Experimento ... 48

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ...11

2 REVISÃO DA LITERATURA ...15

2.1 O Processo de Aquisição no Gerativismo ...15

2.2 Contexto Histórico do Autismo e Caracterização Linguístico-Cognitiva do Autista ... 20

2.3. Estudo do Léxico e o Modelo Declarativo\ Procedimental ... 29

2.4 O Autismo e o Modelo Declarativo \ Procedimental de Ullman... 35

2.5 Autismo e Processamento Lexical ... 38

3 METODOLOGIA ... 42

3.1 Paradigma de Priming ... 43

4 EXPERIMENTO ... 45

4.1 Método ... 45

4.1.2 Procedimento ... 51

4.1.3 Hipótese e Previsões ... 51

4.1 4 Resultados e Discussões ... 52

5 CONCLUSÃO ... 58

6. REFERÊNCIAS ...60

Apêndice 1 – Certificado de Aprovação de Pesquisa ... 64

Apêndice 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido entregue na FUNAD... 65

Apêndice 3 - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido entregue na UEPA... 67

Apêndice 4 - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido entregue na UNICAP... 69

Apêndice 5 – Termo de Esclarecimento da Pesquisa entregue aos responsáveis legais das crianças na FUNAD ... 71

Apêndice 6 - Termo de Esclarecimento da Pesquisa entregue aos responsáveis legais das crianças na UNICAP ... 73

Apêndice 7 - Termo de Esclarecimento da Pesquisa entregue aos responsáveis legais das crianças na UEPA ... 75

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1. INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem por objetivo compreender como ocorre o processamento das palavras morfologicamente derivadas por crianças com diagnóstico de Síndrome de Asperger (SA) visando a dados empíricos no que tange à relação entre as bases neurais, seus sistemas de memória de longo prazo e o funcionamento do seu léxico mental. Sendo assim, recorre-se ao modelo de morfologia expresso por Villalva et al (2014), Marin (1992), Camillo (2013), Juffs (2010) e cf. Levelt, Roelofs & Meyer in Ferrari-Neto (2014), os quais explicitam a estrutura morfológica das palavras derivadas em português e fundamentam como se dá seu processamento. Para entender as bases neurais do autista, seus sistemas de memória de longo prazo e o funcionamento do seu léxico mental, tomam-se como modelo de análise o Sistema de Memória Declarativa / Procedimental desenvolvido por Ullman (2003) e (2005), os quais descrevem a relação entre gramática, léxico e memória e os modelos de análise de Walenski et al. (2007) e Walenski et al. (2014), acerca do processamento lexical em autistas. Desse modo, são verificadas possibilidades investigativas no que se refere ao processamento linguístico do sujeito com SA em relação às crianças com desenvolvimento típico ou CDT, também falantes do português brasileiro.

Situado na área de Teoria e Análise Linguística e na Linha de pesquisa de Aquisição e Processamento Linguístico, esse estudo atrela-se ao LAPROL (Laboratório de Processamento Linguístico da UFPB). Nesse laboratório são desenvolvidas pesquisas na perspectiva da Psicolinguística Experimental objetivando investigar os processos mentais relacionados à compreensão e à produção linguística em indivíduos com patologias ou déficits na linguagem.

Diante do exposto, é construída uma tarefa atrelada ao paradigma de priming. Esta técnica mede o efeito da primeira palavra da sequência na ativação da segunda. E, para esta pesquisa, a tarefa desenvolvida consiste em expor às crianças Asperger e do grupo controle à leitura de pares de palavras com estrutura simples e derivadas morfologicamente. Com isso, as crianças serão avaliadas mediante o perfil de processamento das palavras expostas.

Sendo assim, a partir da análise estatística em relação ao tipo de resposta e ao tempo de processamento, são tomadas predições acerca de como se dá o processamento linguístico das crianças utilizadas na pesquisa visando a compreensão de como o perfil de processamento influi no comportamento da memória declarativa. Logo, as análises pretendem mostrar que a memória da criança com Asprger tenderá a uma leitura mais acelerada frente a palavra de estrutura simples, o que soma à hipótese proposta por Walenski (2007) e (2014) no que se diz respeito aos mecanismos de processamento da memória declarativa e procedimental e aos

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fatores frequência e familiaridade das palavras. O autor aponta esses fatores como significativos ao processamento linguístico dos sujeitos com espectro autista.

Deste modo, o estudo do processamento lexical aqui proposto terá como alvo as palavras de ordem complexa apresentando derivações em sufixo eiro-eira, em crianças com Síndrome de Asperger em idade entre 6 (seis) e 10 (dez) anos, comparando as características do tempo de processamento e precisão nas respostas encontradas no grupo controle composto por crianças com desenvolvimento típico ou CDT. Isso nos remeterá a um possível padrão atípico no processamento das palavras em análise, por parte das crianças Asperger.

Tudo isso, a fim de buscar dados empíricos relativos às bases neurais da criança com espectro autista, à memória declarativa e aos processos por trás do processamento do léxico mental.

Quanto aos objetivos específicos, esta pesquisa visa:

 Caracterizar o sujeito com Transtorno do Espectro Autista, bem como os diagnosticados com Síndrome de Asperger, situado no nível 1 dentro dos espectros relativos ao transtorno em questão, e como ele se comporta linguísticamente, tendo como referencial os estudos propostos por Walenski et al. (2007) e (2014) a respeito do modelo de sistemas de memória declarativa e procedimental proposto por Ullman e suas relações com o processamento linguístico do Autista, com o objetivo de analisar comparativamente o processamento das palavras complexas, o que corresponde ao estudo das palavras morfologicamente derivadas. Portanto, no grupo experimental comportará as crianças com SA e grupo controle as crianças CDT;

 Realizar uma tarefa utilizando o método Priming Morfológico, no qual, a partir da leitura das palavras, as crianças são avaliadas quanto ao perfil do processamento linguístico de ambas as estruturas (simples e complexas) relativas às palavras expostas;

 Descrever as características do processamento linguístico das crianças autistas e CDT, de acordo com a estruturação das palavras, visando compreender como se dá todo esse processamento, a fim de traçar um perfil, tendo em vista o funcionamento da memória declarativa, com base na tarefa de leitura atrelada ao paradigma de priming morfológico.

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Como justificativa, esta pesquisa vale-se da proposta de Walenski et al (2007) e (2014) acerca do desempenho dos sistemas de memória declarativa e procedimental de sujeitos Autistas, onde foi revelado que o autista tende a nomear mais e com maior velocidade, aprendizado e armazenamento lexical.

Além disso, em dois estudos de neuroimagem funcional da sintaxe receptiva, indivíduos ASD mostraram maior ativação, em comparação com indivíduos controles saudáveis, no córtex temporal / temporoparietal, mas menor ativação no córtex pré-motor, na região de Broca e nos gânglios da base, entre outras estruturas.

(Müller et al., 1999; Justet al., 2004). Da mesma forma, um estudo de ressonância magnética (MRI) relatou que indivíduos com distúrbios de linguagem (e DEL) apresentaram diminuição volumétrica nas regiões frontais esquerdas, especialmente na área de Broca, mas aumento na região do lobo temporal esquerdo (De Fossé et al., 2004). Esses padrões também podem refletir um aumento na dependência compensatória da memória declarativa em face de funções gramaticais e procedimentais disfuncionais. (WALENSKI et al (2006) in WHITAKER et al., 2008, p.194, tradução nossa) [1]

Como foi visto, é notória a relação entre a maior ativação cerebral dos indivíduos no córtex temporal / temporo-parietal e menor ativação no córtex premotor na região de Broca e nos gânglios basais, entre outras estruturas (Müller et al. e Just et al. apud Whitaker et al, 2008). Neste caso, os autores apontam que esses padrões podem refletir uma maior dependência compensatória da memória declarativa em face de funções gramaticais e processuais com disfunções. Essa dependência compensatória também pode ser percebida no estudo de ressonância magnética estrutural (MRI), onde foi relatado que os indivíduos com autismo apresentaram diminuição volum1étrica nas regiões frontais esquerdas, especialmente na área de Broca, mas um aumento na região do lobo temporal esquerdo (De Fossé et al. apud Whitaker et al, 2008).

Em suma, o autor menciona que as atividades da memória declarativa em crianças com TEA funcionam como mecanismo compensatório, em detrimento a possíveis déficits do Sistema de Memória Procedimental.

Neste caso, Ullman (2003) ao mencionar que a Memória Procedimental é diretamente ligada às atividades do lobo frontal e área de Broca, acaba por reforçar o que os exames de

1 Moreover, in two functional neuroimaging studies of receptive syntax, ASD subjects showed greater activation, as compared to healthy control subjects, in temporal/ temporo-parietal cortex, but less activation in premotor cortex, Broca’s region, and the basal ganglia, among other structures (Müller et al., 1999; Justet al., 2004).

Similarly, a structural magnetic resonance imaging (MRI) study reported that language-impaired ASD (and SLI) subjects showed a volumetric decrease in left frontal regions, especially in Broca’s area, but an increase in a left temporal lobe region (De Fossé et al., 2004). These patterns may also reflect an increased compensatory reliance on declarative memory in the face of dysfunctional grammatical and procedural functions.

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ressonância indicam. Pois, havendo diminuição de ativação especialmente nessa área que corresponde a memória procedimental, subentende-se a relação / dificuldades quanto às atividades responsáveis por essa área. Nesta memória são centrados nos núcleos de base que auxiliam no processamento de aspectos da morfologia e fonologia das palavras e formação de frases. Logo, com essas áreas não funcionando bem, pressupõe-se que os autistas tornem-se passíveis ao processamento atípico das palavras morofologicamente derivadas.

Quanto aos aspectos morfológicos, Juffs et al. (2010) relata que os problemas com a morfologia são atribuídos ao acesso reduzido à memória procedimental e a um correspondente excesso de liberdade na memória declarativa. Além do que existe um efeito de frequência de raiz e frequência de palavras inteiras no desempenho de decisão lexical que podem estar ligados a possíveis erros de processamento, correspondentes às palavras derivadas. Este autor também vem afirmar que os sufixos derivativos são processados dentro da gramática mental.

Levando-se em consideração os trabalhos de Walenski et al. (2007) e os achados de Juffs et al. (2010), é passível aos autistas uma diferença de processamento relativa às palavras simples e complexas, mostrando que os autistas processam com menor velocidade as palavras derivadas.

Neste caso, vale ressaltar que (MARIN, 1992) a importância da compreensão da morfologia é enfatizada ainda mais pela evidência clínica de que os componentes morfológicos das palavras são, psicologicamente, aspectos reais da linguagem. Portanto, é um procedimento linguístico natural na língua, haja vista casos como os das crianças com TEA que apresentam aspectos linguístico-cognitivos diferenciados, o que merece ser investigado para melhor compreensão dos pontos colocados em análise nessa pesquisa.

Para esta dissertação, além do capítulo introdutório, a sua organização seguirá da seguinte forma: No capítulo 2 consta uma Revisão da Literatura que envolve seções sobre O Processo de Aquisição no Gerativismo, O Contexto Histórico do Autismo e Caracterização Linguístico-Cognitiva do Autista, O Estudo do Léxico e o Modelo Declarativo\ Procedimental desenvolvido por Ullman (2003) e O Modelo Declarativo \ Procedimental e o Autismo. Tudo isso buscando uma correlação entre o autismo e o processamento linguístico nessas condições, partindo do funcionamento da memória procedimental. O capítulo 4 tem como proposta esboçar a metodologia do trabalho, ou seja, como ele foi pensado e articulado. No capitulo 5 é exposto o experimento base da pesquisa, bem como o método, procedimento desenvolvido, hipótese e previsões, resultados e previsões. O capítulo 6 apresenta a conclusões e considerações finais da pesquisa.

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2. REVISÃO DA LITERATURA

Este capítulo aborda o processo de aquisição enfatizado pelogerativismo chomskyano, bem como ocontexto histórico do autismo e caracterização linguístico-cognitiva do autista, a fim de trazer maiores contribuições no que tange ao entendimento dos pontos destacados na pesquisa relativos à patologia em foco.Somando a esses pontos, a teoria da linguagem norteadora da pesquisa, que parte de uma perspectiva cognitiva, vem corroborar significativamente para o entendimentoda relação entre os processos mentaisdo autista e o seu processamento linguístico.

2.1. O Processo de Aquisição no Gerativismo

Saber como a linguagem se constitui no ser humano tornou-se objeto de estudo da Linguística e, com o advento dessa ciência da linguagem, no século XX, várias áreas do conhecimento (Psicologia e Neurologia, além da Filosofia e Sociologia, por exemplo) foram convergindo e dando suas contribuições sobre o que estaria por trás desse fenômeno tão característico da espécie humana. Perguntas foram feitas (O que está por trás da linguagem?

Serão mecanismos externos ou internos, os responsáveis por deliberar essa capacidade no ser humano? O que os falantes teriam ou conheceriam para tal?) e com isso uma nova hipótese passou a vigorar e a morada da linguagem passou a ser a mente humana. Chomsky, a partir de então, deu um novo enfoque aos estudos da linguagem. Ele passou a descrever a linguagem como um sistema de conhecimentos radicados na mente do falante, o que a coloca sob o olhar das ciências cognitivas.

Os inatistas, como são chamados os adeptos ao enfoque internalista dado à linguagem, a consideram como um órgão mental, localizado na mente\cérebro do indivíduo, ea vendo como uma capacidade inerente à espécie humana, corroborando as teorias de Platão e Sócrates. De acordo com Silva (2008, p.2)

SÓCRATES – O conhecimento preexiste no espírito do homem e a aprendizagem consiste no despertar desses conhecimentos inatos e adormecidos.

PLATÃO – [...] A alma está sujeita a metempsicose e guarda a lembrança das ideias contempladas na encarnação anterior que, pela percepção, voltam à consciência.

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Tomando como base esses pressupostos, Chomsky desperta o olhar para a capacidade linguística criativa do ser humano e mostrou que o indivíduo produz e compreende palavras e sentenças nunca antes mencionadas por outros. Também começou a observar que a linguagem apresenta propriedades específicas e o uso linguístico seria apropriado e dentro do contexto.

Conforme Quadros (2007, p.26)

A linguagem, nessa concepção, não pode ser confundida como um tipo de habilidade. É justamente o uso criativo da linguagem que evidencia que não é uma questão de habilidade que entra em jogo quando uma pessoa utiliza a linguagem.

Esse é o principal argumento e talvez o mais contundente, de Chomsky em sua crítica à teoria comportamentalista desenvolvida por Skinner (discutida de forma detalhada no capítulo 1 deste volume). Na obra language and Mind (1968) Chomsky situa os estudos da linguagem no campo da cognição, posicionando-se contra tal corrente teórica afirmando que a linguagem humana é diferente de tudo o que se pode ensinar por condicionamento.

Chomsky também desperta para as ideias de competência e desempenho em relação à linguagem e descarta a ideia de uma língua como produto de estímulos advindos do ambiente.

Logo, o pensamento comportamentalista dos behavioristas cai em desuso. Conforme Ferrari- Neto (2012, p.14)

Concluindo, os falantes de línguas humanas possuem um conhecimento linguístico que os tornam capazes tanto de reconhecer como as palavras que se combinam para formar uma frase e o sentido que decorre dessa combinação, atribuindo a essa frase uma estrutura hierárquica abstrata, quanto avaliar sua correção e boa formação [...]

Ao longo da história do gerativismo, esse conhecimento recebeu denominações diversas. Inicialmente, chamou-se de competência linguística, referindo-se ao conhecimento tácito que um falante possui sobre sua própria língua. O termo competência foi definido em contraste com o termo Desempenho (performance), usado para designar tanto o uso ou os produtos desse conhecimento em situações efetivas de comunicação linguística, quanto os mecanismos de percepção e processamento de linguagem que subjazem à Competência.

Em seguida, o gerativismo chomskyano aborda a existência de uma Gramática Universal. A GU funciona como um dispositivo inato, um órgão mental, pronto para ser ativado e gerar as sentenças presentes nas línguas (É a capacidade humana de linguagem). O meio, portanto, funcionaria como input para ativar os princípios e parâmetros pertinentes à língua exposta. Para tanto, um dos grandes questionamentos dos gerativistas é o que os seres humanos possuem e o que os tornam capazes de obtê-los para fins característicos em uma

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língua natural. Em seguida, Chomsky atenta para uma maturação e aquisição autoprogramada (QUADROS, 2007).

Sendo assim, isso reforça mais ainda o caráter inato da língua. Ela seria um conjunto de representações mentais, o que faz o estudo da linguagem ter um olhar de dentro para fora e não de fora para dentro do organismo humano. Isso determina a linguagem como algo não moldado pelo ambiente, mas que a partir do input do mesmo, um dispositivo inato, que é a GU, presente na mente do indivíduo, seria ativado e proporcionaria a ocorrência dessa capacidade comunicativa em decorrência da aquisição de uma língua.

Tomando como referência os estudos de Chomsky acerca da linguagem, Fontes (2004) a refere como um instinto que nos leva a aprender, falar e compreender as sentenças da língua. E é por ser algo tão natural em nossa constituição biológica que esquecemos o fato de ela ser um milagre. Podemos moldar eventos no cérebro com primorosa precisão.

Diante disso, Fontes (2004, p.9)

A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo, e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente. Por esses motivos, alguns cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica, um órgão mental, um sistema neural ou um módulo computacional. Mas prefiro o simples e banal termo “instinto”.

Atento ao fato da criança pequena ser capaz de adquirir um sistema gramatical tão complexo e de forma tão natural, com suas variações na estrutura, mas não ser capaz de aprender artes plásticas, cálculos ou dança sem a ajuda de um adulto que o instrua, Fontes (2004) diz que é preciso uma mente pervertida pela aprendizagem para fazer com que o natural pareça estranho.

Por fim, é com Chomsky e as contribuições da ciência cognitiva nos estudos da linguagem que o fenômeno da linguagem passa a ser visto como uma faculdade psicológica, um órgão mental, um sistema neural, módulo computacional e não mais como algo meramente provindo do meio (FONTES, 2004). A mente e o que se passa nela, em termos linguísticos, passaram a ter espaço em meio aos estudos da ciência da Linguística.

Diante do exposto, desvinculando-se da perspectiva estruturalista na qual o meio é visto como fator preponderante na aquisição da linguagem, os gerativistas, apoiados na visão mentalista / internalista de linguagem, veem a aquisição como algo que parte da mente do

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indivíduo. O sujeito, nesta teoria, é visto como um ser geneticamente preparado para o fenômeno da aquisição.

Deste modo, mediante Raposo (1998, p. 53)

[...] a criança é, durante essa fase de aquisição, um “pequeno cientista” construindo hipóteses sobre as regras da sua língua que sejam compatíveis com os dados gramaticais a que vai sendo progressivamente exposta, e eliminando aquelas que se revelam incompatíveis com dados novos. Se num dado momento dois sistemas de regras se revelam igualmente compatíveis com os dados, a criança utiliza a medida de avaliação, descartando-se o sistema mais complexo.

De início, Chomsky destaca que a gramática é como parte de uma herança genética e os gerativistas a colocam numa perspectiva descritiva de análise das expressões linguísticas.

O foco, portanto, passa a ser o sistema bem como a aplicação de regras transformacionais que geram as sentenças da língua. Nessa perspectiva, considera-se a gramática como um mecanismo finito que permite gerar um conjunto infinito de frases gramaticais (SILVA, 2008).

Com o passar das investigações, os gerativistas veem a gramática como um sistema de regras derivacionais. A noção de que uma sentença se transforma em outra por meio de regras que são aplicadas é superada pela ideia da existência de regras derivacionais que atuam nas sentenças e, portanto, geram as frases pertinentes à língua exposta.

Após essa nova postura investigativa, a teoria gerativa passa a entender a gramática como um dispositivo inato presente na mente/cérebro do indivíduo e que oportuniza a ativação de princípios e parâmetros pertinentes ao sistema ao qual é exposto. É o que chamaram de teoria dos princípios e parâmetros ou P&P.

Nesse caso, os estudos se voltam para a ideia de princípios universais que viabilizam a ocorrência das várias línguas humanas. A fase da teoria P&P é um divisor de águas para o que entendemos hoje sobre a teoria gerativa, pois é por meio dela que a aquisição é vista como o crescimento e maturação da GU, que passa de um estado apenas parcialmente especificado (com parâmetros por fixar) para um estado completamente especificado (com parâmetros fixados) (SILVA, 2008).

Assim, vale salientar que os estudos provenientes da ideia da existência da GU na mente do sujeito falante, fundamentam a presença de uma base cognitiva, base biológica e a hipótese inatista arraigadas à teoria gerativa. Isso é fundamental para a reflexão de fenômenos que ocorrem durante a fase de aquisição, pois tomando como ponto de análise a basecognitiva

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postulada, leva-se a considerar as intuições que o indivíduo tem sobre a sua língua, diferenciando aquilo que seja gramatical ou agramatical nas sentenças dessa língua exposta. É importante destacar também, que esse conhecimento tácito que possibilita as intuições na língua, foi chamado primeiramente de competência linguística e como produto dessa competência ter-se-ia o desempenho. Tendo em vista essas ocorrências na língua, mais tarde o que se chamou de competência passou a ser denominado de Língua-I e o desempenho de Língua-E. Esses seriam o que temos como parte interna e externa da língua. A língua, portanto, seria o resultado da Língua-I + Língua-E e o que interessou, de fato, tendo em vista as propostas da teoria gerativa, foi essa parte interna que capacita à compreensão e produção das sentenças da língua.

Com relação à base biológica e a hipótese inatista, vê-se que o ser humano já nasce com a capacidade de se comunicar por meio de uma língua a qual está intrínseca a sua constituição biológica. A linguagem, por sua vez, está arraigada a sua constituição genética, é algo inato ao indivíduo.

Desse modo, hoje, por meio das investigações do programa minimalista, entende-se que a criança é um sujeito biológico que contém em sua mente regras e princípios que maturam e, somado a essas questões, crê-se na existência de operações computacionais responsáveis pela formação/derivação das sentenças da língua.

Entretanto, levando-se em conta patologias como o autismo, esta afeta diretamente linguístico-cognitivamente o sujeito acometido por ela. Vale salientar que para Maia (2015) a linguagem é um dos componentes da cognição humana, o que culmina na obtenção de conhecimento, obtenção do saber sobre si mesmo e sobre o mundo. Portanto, a ligação linguagem e cognição éimprescindívelao bom desenvolvimento do indivíduo e um maior ou menor comprometimento cognitivo pode interferir significativamente no curso da linguagem.Nesse contexto, estudos de Walenski et al (2007) apontam a existência de comprometimentos nas bases neurais do autista que os impedem, consequentemente, de processar naturalmente os dados linguísticos expostos, no que tange ao processamento de palavras morfologicamente derivadas.

Na seção seguinte serão expostos dados históricos a respeito do autismo e caracterização linguístico-cognitiva do autista.

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2.2 . Contexto Histórico do Autismo e Caracterização Linguístico-Cognitiva do Autista

Conforme o DSM V, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o Autismo é caracterizado como um Transtorno que causa prejuízos no âmbito da sociabilização, comunicação e Cognição. Aliado a esses fatores, esse Transtorno é estudado também em detrimento de seus espectros ou níveis indo desde o grau leve até o grau de grande comprometimento linguístico – cognitivo – comportamental. A diferença de incidência dos Transtornos do Espectro Autista em relação ao gênero sugere que os transtornos têm uma possível condição genética associada à sua existência (BAILEY ET AL. APUD BARREIRA, 2011). Costa & Nunesmaia (1998) apontam que a distribuição dos propósitos quanto ao sexo, mostrou uma frequência do sexo masculino (77,8 %) três vezes maior do que a do sexo feminino (22,2 %), sendo a razão de sexo de 3,5, o que nos faz perceber a frequência maior em meninos a que meninas.

A avaliação das crianças com alterações neurodesenvolvimentais fornece pistas sobre a estrutura organizacional e representação da linguagem, bem como as relações entre linguagem e outros sistemas cognitivos (GOLENDZINER, 2011). Por isso, a importância de se estudar o autismo, bem como ocorre a aquisição da linguagem em crianças com esse transtorno.

Em uma pesquisa que foi realizada pela Universidade da Califórnia, publicada no Journal of the American Medical Association em novembro de 2011 e coordenada pelo neurocientista Eric Courchersneapontou dois marcadores biológicos do distúrbio que podem apontar um novo caminho para se estudar a sua origem. A grande descoberta foi em virtude da maior incidência de neurônios na região do córtex pré-frontal, relacionado às habilidades cognitivas, comunicativas e de interação social. Na pesquisa foram analisados tecidos do córtex pré - frontal de 13 meninos adolescentes que morreram entre 12 e 16 anos de idade – sete deles diagnosticados com autismo. Nestes casos foi visto que o grupo diagnosticado com TEA apresentava 67% mais neurônios que o grupo controle. Entretanto, foi observada apenas a contagem dos neurônios, pois nas outras células neurais a contagem era idêntica ao do grupo controle. Para além desses dados foi percebido que o cérebro dos autistas revelou-se 17,6%

mais pesado e 7% maior que a média geral. Diante disso, divulgou-se que futuros estudos, com uma amostra maior de tecidos, poderão revelar relações importantes entre a contagem de neurônios e a severidade dos sintomas.

Sendo assim, faz-se necessário apontar que lesões no córtex pré-frontal interferem nas emoções; causam prejuízo das responsabilidades sociais, bem como capacidade de

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concentração e abstração; interferem na escolha das opções e estratégias comportamentais, manutenção da atenção e controle do comportamento emocional; prejudicam a integração das informações sensitivas externas e internas, o que pesam às consequências de ações futuras para efetuar o planejamento motor de acordo com as conclusões. Também prejudicam em ações rotineiras.

Soares (2009) relata que uma das visões conceituais que contribuiu de forma incisiva para uma melhor compreensão do quadro clínico do autismo é a conceituação elaborada pelo pesquisador Wing, em 1976. Esta aponta que a condição do autismo seria considerada um continuum (espectro). Desta forma, o autismo fica entendido como não sendo uma patologia com características demarcadas. Neste caso, (SCHOPLER ET AL, 1998) a variedade das capacidades cognitivas dos indivíduos diagnosticados no espectro tem relação direta com a heterogeneidade vista no desenvolvimento de sua linguagem.

Os primeiros relatos fortemente descritos e analisados sobre o autismo foram produzidos por Kanner, em 1943 (BANDIM, 2011). Segundo Bosa (2002), o termo

“Autismo” deriva do grego (autos = si mesmo + ismo =disposição/orientação) e foi tomado emprestado de Bleuler, o qual foi um dos pioneiros a citar os sintomas fundamentais da esquizofrenia. (VARGAS, 2015) Bleuler destaca que o Autismo seria um dos sintomas da Esquizofrenia, em virtude do afastamento do mundo exterior que os sujeitos estudados apresentavam.

Este transtorno dá os primeiros sinais ainda nas primeiras fases da vida da criança.

Geralmente, o desenvolvimento da criança demonstra caracterizações fora do padrão de normalidade (GÓMEZ ET AL, 2014). O sono perturbado ou dorme de forma constante sendo necessário acordar para que mamar ou realizar quaisquer atividades da rotina da criança, choro constante devido a hipersensibilidade aos sons ou ração ao desconhecido, olhar vazio, dificuldades de atribuir um valor significativo ao que está sendo realizado em meio a interação comunicativa, dificuldade para manter um diálogo, surdez atípica (quando chama a atenção e a criança parece não escutar e por vez atender), o relacionamento com os objetos tende a estereotipismos tomando os objetos como extensão do corpo.

No entanto, Bandim (2011) aponta que com o passar do tempo pesquisas desconsideraram o Autismo como psicose, passando a tratá-lo como um déficit cognitivo ou transtorno ligado ao desenvolvimento. Isso reforça a ideia de que há prejuízo no desenvolvimento das pessoas acometidas pela patologia.

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No entanto, o retardo mental não é uma característica do transtorno autista, mas uma grande porcentagem de pessoas autistas pode apresentar retardo mental como uma característica associada (GÓMEZ ET AL, 2014).

Quanto aos processos mentais, a mente dos autistas funciona como um disco rígido com grande capacidade de armazenamento, mas com baixa velocidade no sistema de arquivos (GÓMEZ ET AL, 2014). Isso nos leva a considerar os achados de Ullman (2003) mediante seu Modelo de Memória, quando ele mostraque existem dois tipos de Memórias correlacionadas à aquisição da linguagem. Uma é a Memória Declarativa e a outra é a Memória Procedimental. A primeira refere-se ao léxico Mental e a segunda à Gramática mental do sujeito. Portanto, em seus estudos, o autor testa as habilidades lexicais dos autistas de alto funcionamento e mostra que elas podem ser aumentadas e não limitadas. A velocidade de nomeação é surpreendente, levando-se em consideração fatores como frequência das palavras e forma fonológica conhecida.

O atraso inicial da linguagem– uma das características que definem o Transtorno do Espectro Autista – pode ter influência no decorrer de seu desenvolvimento e em eventuais ganhos de habilidades gramaticais no final da infância ou quando adolescentes (EIGSTI E BENNETTO APUD BARREIRA, 2011).

Em seguida serão retratados aspectos conceituais e caracterização da Síndrome de Asperger, grupo experimental refererido na pesquisa dissertada, bem como a morfologia, pragmática e sintaxe relativas aos sujeitos diagnosticados com ela.

Em 1943, o Médico Pediatra Alemão Hans Asperger identificou crianças com comportamentos estereotipados, restrita socialização e que apresentavam uma linguagem complexa. A princípio, ele classificou as características identificadas como Psicopatia Autística devido a sua aproximação com a esquizofrenia. Suas pesquisas, portanto, ficaram anos restritas ao público Alemão.

Para tanto, suas pesquisas vieram a ser mais conhecidas e revistas por meio dos registros comparativos encontrados em pesquisas feitas por Wing, em 1981, o qual fez uso do termo Síndrome de Asperger regularmente. Muitos foram os estudos para fins de organização de critérios diagnósticos. Uma de suas contribuições foi a classificação de “continnum autístico”, na qual ficou demonstrado que as características autistas atrelam-se a espectros que devem ser prontamente identificados e classificados para fins terapêuticos do indivíduo.

A Síndrome de Asperger, antes do DSM 5, Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais que orienta a categoria Psiquiátrica mediante avaliação do paciente, era vista como variante do Autismo, apresentando características distintas. O indivíduo apresentaria a

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alteração \ distinção social do autismo na presença de inteligência normal, não havendo atraso de linguagem.

Sendo assim, de acordo com Gilberg (1989):

não há diferenças nos fatores neurobiológicos implicados na etiologia da síndrome de Asperger e do autismo, sendo que a primeira poderia ser uma variante “menos grave” da segunda e que, independente dos critérios diagnósticos empregados, a utilização do termo “síndrome de Asperger” parece ser mais adequada para alguns pacientes, enquanto “autismo infantil” parece mais apropriado para outros e o uso de um ou de outro “rótulo” não significa que a síndrome de Asperger exista como entidade distinta do autismo, ou que o seu diagnóstico invalide o de autismo.

Contudo, na Síndrome de Asperger, determinou-se que os indivíduos diagnosticados caracterizam-se por comportamentos estereotipados, bem restritos e repetitivos, com apegos incomuns a objetos ou assunto de seu interesse, o que denota um envolvimento muito particularizado e próprio deles, apresentam alterações qualitativas quanto a interação social, demonstrando-se isolados, porém nem sempre tímidos na presença de outras pessoas, fala dentro de um monólogo e quando interagem transparecem um tom pedante e excêntrico devido à complexidade de vocabulário que apresentam, pois quando se interessam por um assunto aprofundam-se e apuram tudo o que podem sobre ele. Entretanto, esse seu comportamento acaba não sendo bem visto e dificulta a relação com as outras pessoas, bem como na conquista de amizades.

Pesquisas apontam que devido aos fracassos na tentativa de se envolver com outras pessoas, muitos indivíduos com SA desenvolvem sintomas de transtorno de ansiedade ou de humor que podem culminar em tratamento associado à medicação. E em consonância aos desajustes referentes ao aspecto da interação social, pessoas com Asperger acabam sendo confundidas como pessoas desapegadas, insensíveis às emoções do outro. Conforme Klin (2006, p. 09)

Podem ser capazes de descrever corretamente, de uma forma cognitiva e frequentemente formalista, as emoções, as intenções esperadas e as convenções das demais pessoas; no entanto, são incapazes de atuar de acordo com essas informações de uma forma intuitiva e espontânea, perdendo, dessa forma, o ritmo da interação.

Sua intuição pobre e falta de adaptação espontânea são acompanhadas por um notável apego às regras formais do comportamento e às rígidas convenções sociais.

Essa apresentação é responsável, em grande parte, pela impressão de ingenuidade social e rigidez comportamental, que é tão forçosamente transmitida por esses indivíduos.

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Indivíduos com Asperger também apresentam dificuldade na compreensão de palavras no texto, apesar de demonstrarem alta capacidade de leitura que subjaz de uma possível hiperlexia associada.

Em suma, Orrú (2010) aponta algumas características como essenciais em meio ao diagnóstico de indivíduos com Asperger:

Aparecimento dos Sintomas:

“Dificilmente reconhecida antes dos 3 anos de idade, em geral o diagnóstico ocorre por volta dos 5 ou 6 anos e muitas vezes com suspeita de superdotação. (SCHWARTZMAN, 1992)

Habilidades Motoras:

Desenvolvimento motor normal, mas com algumas inabilidades psicomotoras, dando um aspecto de desajeitado (GILLBERG, 1993; KLIN, 2003)

Processos Perceptuais:

Percepção sempre dirigida ao todo/excelente memória associada. (ASPERGER, 1944; DSM IV, 1995)

Contato Visual:

Superficial, mas sempre presente. (ASPERGER, 1944; KLIN, 2003; SCHWARTZMAN, 1992)

Padrões de Jogo \ Interesses

Explora objetos adequadamente desde o início do desenvolvimento. Possui interesses específicos, restritos e não usuais. (ASPERGER, 1944; DSM IV, 1995)

Fala \ Linguagem:

Geralmente não há atraso no aparecimento da fala, que costuma ser pedante e pouco usual à idade. Há fala estruturada gramaticalmente, mas com alterações pragmáticas (MARTIN;

MACDONALD, 2003; PASTORELLO, 1996) •

Desenvolvimento da Leitura e Escrita:

Desenvolvimento espontâneo e em idade precoce (hiperlexia) em grande parte dos casos.

(SCHWARTZMAN, 1992)” (LOPES-HERRERA, S.A., 2005, p. 24)

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Desenvolvimento Social:

“Comunica-se socialmente de forma espontânea, mas decora” as regras do jogo social (KLIN, 2003; SCHWARTZMAN, 1992)

Quadro 1 - Sintomas essênciais referentes ao diagnóstico de indivíduos com Asperger

Portanto, de acordo com o CID 10 (Critério Internacional para Diagnóstico da SA),

É um transtorno de validade nosológica incerta, caracterizado por uma alteração qualitativa das interações sociais recíprocas, semelhante à observada no autismo, com um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Ele se diferencia do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Os sujeitos que apresentam este transtorno são em geral muito desajeitados. As anomalias persistem frequentemente na adolescência e idade adulta. O transtorno se acompanha por vezes de episódios psicóticos no início da idade adulta. Psicopatia autística. Transtorno esquizóide da infância. (CID 10, 84 - 5)

A partir do DSM V, indivíduos com um diagnóstico do DSM-IV bem estabelecido de transtorno autista, síndrome de Asperger ou transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação passam a receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista. Contudo, diante do recomendado, o profissional que avaliar o indivíduo com as características de TEA, deve especificar, por exemplo, se ele apresenta comprometimento intelectual, na linguagem ou se essas características apresentam alguma comorbidade. Então, após essa avaliação, o profissional verifica a classificação da gravidade do quadro especificado e delineia o perfil encontrado para possíveis acompanhamentos multiprofissionais corroborativo.

Quanto aos aspectos morfológicos da língua, Vulchanova M. et al, (2012) realizou experimentos com indivíduos Asperger e com desenvolvimento típico e revelou competência linguística estrutural geral superior para além do domínio da morfologia, atingindo a sintaxe frasal e fenômenos de concordância no grupo Asperger. Para tanto, demonstram uma vantagem particular nos processos / relações locais, fornecendo suporte à Fraca Conta de Coerência Central.

No Asperger também é observada uma diminuição gradual no desempenho gramatical da morfologia local (morfologia nominal, inflexões verbais) para a morfologia de nível de estrutura (inflexões aspectuais). O mesmo se aplica aos processos de integração semântica: do bom desempenho na integração local (compostos, ambiguidades locais) ao fracasso da integração global (interligar inferências, coerência de discurso).

Em suma, há uma vantagem em scripts temporalmente coerentes (guiados por morfologia temporal e advérbios = script), o que pode ser explicado pela presença de

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ponteiros temporalmente ancorados no texto. No entanto, verificam-se problemas com a integração semântica, além do nível da frase, e o uso do contexto persiste em tarefas que envolvem o processamento global, o que neste caso já se relaciona aos aspectos pragmáticos da linguagem.

No que tange aos aspectos pragmáticos da linguagem, eles atendem às funções comunicativas, isto é, uso da linguagem. Para Golendziner (2011), a habilidade de linguagem refere-se à capacidade da criança em compreender e formular os sistemas simbólicos falados ou escritos, enquanto a competência comunicativa refere-se à capacidade em fazer uso da linguagem como um instrumento efetivamente interativo com outros contextos sociais.

Contudo, nestes aspectos, o autista é comprometido, severamente, apresentando dificuldades que envolvem o uso social referente à metáfora e à metonímia, por exemplo. Ambas muito comuns na linguagem cotidiana. Destaca-se também que as crianças exprimem uma interpretação no plano do concreto indicando problemas na interpretação das subjetivações advindas do uso da linguagem, o que revela uma deficiência importante no plano da semântica da língua que influencia no uso da língua.

É relevante apontar a preferência dos autistas por raciocínios repetitivos e sequenciais,atividades repetitivas de memória verbal, em vez de tarefas de raciocínio conceitual e social, o que mostra que esses sujeitostêm um aprendizado fragmentado, não completando diferentes partes de uma tarefa e situações, como se o olhar voltasse mais para a parte e não para o todo, dificuldades em aprendizado por retomada na memória (o feedback) e dificuldades em inibir respostas irrelevantes e ineficientes. Tudo isso impulsiona a buscar melhores esclarecimentos acerca do funcionamento da memória procedimental dos autistas que subjaz ao processamento dos aspectos morfológicos que compõem as palavras derivadas.

No plano da sintaxe, as alterações no acesso à linguagem acabam gerando comportamentos linguísticos atípicos como ecolalias, inversão pronominal, discurso inflexível e isso favorece a uma comunicação não usual, desprendida de competência e desempenho linguísticos naturais. As crianças autistas produzem mais ecolalia em resposta a frases sem sentido e a emissões abstratas (PACCIA E CURCIO APUD FERNAMDES, 1993).

Wetherby, Koegel e Mendel apud Fernamdes (1993) concluíram que o mecanismo associado à ecolalia provém do desenvolvimento perturbado das áreas de associação cortical superior.

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Autistas utilizam – se de mecanismo diferenciado para o acesso lexical e ativam neurologicamente áreas distintas, principalmente quando o acesso semântico tem uma função comunicativa e social. Podem apresentar falhas para empregar informações semânticas, para codificar o material verbal e mais tarde retornar a sequência de palavras. Apresentam dificuldades para interpretar as palavras de acordo com o contexto semântico e uma tendência para produzir menos categorias que, normalmente, as crianças com desenvolvimento típico desenvolvem (GOLENDZINER, 2011, p. 39)

Ainda na sintaxe, o estudo de Durrleman (2015) sobre discurso na voz passiva com crianças autistas aponta que a dificuldade, tanto na produção quanto compreensão dessas estruturas segue em decorrência da dificuldade em interpretar / rastrear recursos do discurso como o tópico. Primeiramente, os déficits pragmáticos são significativos incluindo a pragmática discursiva que é universal nos autistas. Argumenta-se, também, que (DURRLEMAN ET AL., 2015) um subgrupo de crianças com TEA exibe prejuízo nos aspectos formais da linguagem, incluindo construções que envolvem ordem não-canônica de palavras e, portanto, apresentam perfis sintáticos equivalentes aos de crianças com Distúrbio Específico de Linguagem (DEL). Diante disso, o autor se posiciona dizendo que as dificuldades das crianças com DEL devem ser sintáticas e não pragmáticas acontecendo o inverso em crianças com TEA.

Em 2014 o mesmo autor reforça com sua pesquisa sobre estruturas relativas que os indivíduos com espectro autista sentem mais dificuldades em processar esse tipo de estrutura a que indivíduos com desenvolvimento típico. Portanto, reforça mais a desordem correspondente à sintaxe da língua.

As crianças com diagnóstico de autismo, segundo Rapin (2005), geralmente apresentam uma fala com vocabulário sem elementos coesivos, característicos de uma fala telegráfica, o que causa a ininteligibilidade, uma vez que os enunciados da criança tornam-se curtos e sem estrutura sintática. Sendo assim, para o autor, o domínio de estruturas linguísticas flexíveis essenciais para a compreensão da linguagem falada, como pronomes, verbos, adjetivos e conjunções, geralmente está prejudicado devido o autismo.

Ao que subjaz o perfil claro da avaliação cognitiva dos autistas, vê-se que ele marcado por déficits significativos no raciocínio abstrato, na sua habilidade de formação de conceitos verbais e tarefas que exigem habilidades de raciocínio verbal (GÓMEZ ET AL, 2014).

No autismo é comum o armazenamento das palavras como fotografias, generalizando os conceitos (Características da Memória Declarativa destacada por Ullman (2003)). Diante disso, é gerada uma série de características semelhantes que permitem estabelecer uma

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relação entre elas. E em consonância aos achados da Memória Declarativa, Ullman (2003) também destacou em seus estudos que os autistas (representantes do seu grupo experimental) apresentavam limitações em seu aparato linguístico-Cognitivo para processar unidades de ordem gramatical (fonemas e morfemas, por exemplo), arraigadas à estrutura das palavras.

Logo, subentende-se que a memória procedimental, responsável por esses procedimentos, não opera em âmbito padrão de funcionamento.

Portanto, partindo das reflexões acima, o sujeito estudado pela Psicolinguística de base gerativa é um sujeito biológico, a língua é tida como interna a esse sujeito eos estudos que a linguísticagerativa realiza, partindo da competência, contribuem para o entendimentodo desempenho linguístico dos falantes. Neste caso, a Psicolinguística gerativa busca levar a uma melhor compreensão mediante os aspectos relativos ao processamento linguístico do sujeito.

Neste caso, mediante a análise do perfil de processamento das palavras morfologicamente derivadas por crianças com Transtorno do Espectro Autista, buscar-se-á verificar os mecanismos de funcionamento da sua Memória Declarativa em relação aos trabalhos da memória procedimental.

Tendo em vista os estudos de Walenski et al (2007) acerca do funcionamento da memória declarativa de sujeitos autistas, é visto que as habilidades lexicais não são preservadas, mas aumentadas, haja vista a existência de possíveis disfunções da memória procedimental que corroboram com o funcionamento aumentado dos sistemas de Memória Declarativa. (ULLMAN, 2005) Na verdade, a aprendizagem em um sistema deve inibir o aprendizado no outro. Haja vista que (ULLMAN, 2005) os dois sistemas interagem de forma cooperativa e competitiva, ou seja, ao mesmo tempo em que juntos contribuem para a aprendizagem e processamento de informações, com a qualidade necessária ao bom desempenho do sujeito, em meio às atividades justapostas, disfunções em uma das memórias pode acarretar na aprendizagem aprimorada do outro.

Os sistemas de memória declarativa e procedural interagem de várias maneiras.

Juntos, os sistemas formam uma rede de interação dinâmica que produz aprendizado e processamento cooperativos e competitivos, de modo que as funções de memória podem ser otimizadas (Poldrack e Packard 2003; Ullman 2004). Primeiro de tudo, os dois sistemas podem interagir cooperativamente para aprender uma dada tarefa (Willingham, 1998). O sistema de memória declarativa pode adquirir conhecimentos precocemente, graças às suas habilidades de aprendizado rápido, enquanto o sistema processual gradualmente aprende o mesmo conhecimento ou o conhecimento análogo (Packard e McGaugh, 1996; Poldrack e Packard, 2003). Curiosamente, o curso do tempo de aprendizado e eventual dependência dos dois sistemas de memória pode ser modulado farmacologicamente (Packard, 1999). Segundo, estudos em animais e humanos sugerem que os dois sistemas também interagem

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competitivamente (para revisões, ver Packard e Knowlton, 2002; Poldrack e Packard, 2003; Ullman, 2004). Isso leva a um “efeito de balanço” (Ullman 2004), de tal forma que uma disfunção de um sistema resulta em aprendizagem aprimorada no outro, ou que o aprendizado em um sistema deprime a funcionalidade do outro.

(Packard et al. 1989; Poldrack and Packard 2003; Ullman 2004 in ULLMAN, 2005, p. 338, tradução nossa) [2]

Portanto, o autista apresentando disfunções no sistema de memória procedimental, acarreta no aumento da velocidade de armazenamento e acesso lexical, subjacentes às atividades do sistema de memória declarativa, e isso culmina em problemas no processamento de informações morfológicas oriundas das palavras complexas, pois como Juffs (2010) afirma, os sufixos derivativos são processados dentro da gramática mental, que por sua vez depende do bom funcionamento da Memória procedimental. Esta, em se tratando de sujeitos autistas, subentende-se não funcionar com a mesma qualidade que em crianças com desenvolvimento padrão. Logo, isso reflete na produção e compreensão de menos morfemas derivacionaispor parte dos indivíduos com TEA, frente às crianças neurotípicas, conforme apontado na pesquisa de Walenski et al. (2014).

O próximo tópico aborda o estudo do léxico. Ele relata o estudo do léxico e o modelo declarativo \ procedimental. Em seguidatem-se uma abordagem sobre o autismo e o modelo declarativo \ procedimental. Tudo isso, sob o propósito de descrever o estudo lexical proposto por Villalva et al (2014) e as abordagens sobre o autismo, tendo em vista a relação existente com o modelo declarativo\ procedime2ntal.

2.3. Estudo do Léxico e o Modelo Declarativo \ Procedimental

Para a Morfologia, a palavra seria o elemento em que se concretizam as categorias morfológicas, como as palavras derivadas (CAMILO, 2013). Diante disso, a criança age intuitivamente procurando padrões sintáticos e morfológicos na cadeia sonora, provenientes

2 The declarative and procedural memory systems interact in a number of ways. Together, the systems form a dynamically interacting network that yields both cooperative and competitive learning and processing, such that memory functions may be optimized (Poldrack and Packard 2003; Ullman 2004). First of all, the two systems can interact cooperatively to learn a given task (Willingham 1998). The declarative memory system may acquire knowledge early, thanks to its rapid learning abilities, while the procedural system gradually learns the same or analogous knowledge (Packard and McGaugh 1996; Poldrack and Packard 2003). Interestingly, the time-course of the learning in and eventual dependence on the two memory systems can be modulated pharmacologically (Packard 1999). Second, animal and human studies suggest that the two systems also interact competitively (for reviews, see Packard and Knowlton 2002; Poldrack and Packard 2003; Ullman 2004). This leads to a “see-saw effect” (Ullman 2004), such that a dysfunction of one system results in enhanced learning in the other, or that learning in one system depresses the functionality of the other.

Referências

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