No que tange ao Processamento lexical em indivíduos Autistas, há poucos estudos realizados sobre o assunto. Para tanto, na tentativa de somar com dados a respeito desse aspecto tão importante da linguagem do sujeito com Autismo, esta pesquisa tomará como parâmetros de análise dos estudos de Walenski et al. (2007) e (2014) que trazem dados
bastante significativos acerca das habilidades lexicais dos Autistas. Estes trabalhos trazem dados que relacionam o perfil de processamento relativo à nomeação de imagens e flexão verbal (com verbos regulares e irregulares). Tudo isso com base no modelo dual de sistemas de Memória Declarativa e Procedimental idealizado por Ullman.
Primeiramente, vale ressaltar que quem lida com aspectos referentes ao léxico, neste caso o léxico mental, é a Memória Declarativa. Esta, por sua vez, como diz Walenski et al. (2014), depende da memória associativa e tende a formas generalizadas, padronizadas das estruturas em análise.
Em contrapartida, a Memória Procedimental tem relações com aspectos da gramática mental. Ela se referea regras que governam combinações de elementos linguísticos menores (fonemas, morfemas, palavras) em unidades estruturadas sequencialmente e hierarquicamente maiores (sílabas, frases, sentenças e palavras complexas) como aponta Walenski et al., (2014).
Sendo assim, em sua pesquisa sobre a nomeação aumentada de figuras por sujeitos Autistas, Walenski et al. (2007),apoiado em uma tarefa que se apropriava dos efeitos de imageabilidade no processamento lexical, mostrou que as habilidades lexicais dos autistas são preservadas e aumentadas como uma espécie de mecanismo compensatório, em decorrência de atipias no funcionamento da Memória Procedimental, conforme afirma Ullman (2005). Este autor relata que uma memória operacionando em déficit culmina em trabalhos compensatórios por parte de outra.Portanto, Walenski et al. sugere, com base nos dados das pesquisas em voga, que a memória lexical e semântica é preservada e as operações atuam em alta, o que leva a supor a existência de possíveis déficits recorrentes da memória Procedimental. Esta atua no processamento de itens morfossintáticos pertinentes às palavras.
Diante disso, para investigar essa hipótese do aumento do processamento lexical e semântico, Walenski et al. (2007) coloca sujeitos autistas de alto funcionamento para realizar uma tarefa de nomeação de figuras. Esta tarefa mede os padrões de processamento relativos aos trabalhos da memória declarativa.
Os resultados do teste mostraram que os autistas nomeiam em velocidade maior que os indivíduos com desenvolvimento padrão, levando-se em consideração os afeitos da frequência e familiaridade das palavras relativas às figuras usadas no experimento. Quando as palavras não eram tão familiares, a diferença entre os grupos era ainda mais significativa.
Em seguida, Walenski et al. (2014) estruturou uma pesquisa acerca do processamento gramatical mais rápido em autistas de alto funcionamento, baseada na teoria de morfologia flexional. Nela, ele atestou a possibilidade de nomeação correta nos verbos regulares e irregulares em inglês no intuito de mostrar que se a regra não é recuperada pelo léxico, a regra
base é produzida. A partir daí, foi mostrado que (WALENSKI ET AL., 2014) a dificuldade de afastar-se da forma regular padrão, bem como a velocidade mais rápida de nomeação para as formas sufixadas (-ed em inglês), são como uma forma de preservação ou comportamento repetitivo advindo da Memória Declarativa. E isso implica em possíveis anormalidades existentes no desempenho da Memória Procedimental, que não consegue corroborar eficazmente na identificação das regras por trás das nomeações correspondentes aos verbos utilizados para a pesquisa.
Diante do exposto, é notória a relação entre o desempenho aumentado em uma Memória com o desempenho insatisfatório em outra. É o que Ullman in Whitaker (2008) chama de efeito saw-saw. Ele correspondeu esse efeito ao que foi identificado em suas pesquisas, quando pontuou que a Memória Declarativa se mostrava com desempenho maior que o da Memória Procedimental.
Sendo assim, a presente pesquisa segue apoiada nos dados apontados por Walenski et al., (2007) e Walenski et al., (2014) no intuito de verificar as relações da Memória Declarativa com o Processamento lexical por parte das crianças autistas, tendo como foco as palavras derivadas / sufixadas em “eiro” e “eira”.
Conforme apontado pelo autor, as palavras são armazenadas e processadas na Memória Declarativa, no entanto permanecem questões a serem averiguadas: E em relação às palavras morfologicamente derivadas? Existe ou não diferença no processamento destas, levando-se em conta os sujeitos autistas, devido à carga informacional de ordem morfológica arraigada pelo sufixo?
Segundo pesquisas apontam, o autista tende a apresentar um trabalho excelente da Memória Declarativa. Entretanto, poderá a carga informacional arraigada ao item morfológico, neste caso representado pelo sufixo atrelado às palavras, influenciar em uma diferença no processamento de palavras simples e derivadas?
Como apontado por Chomsky apud Ferrari-Neto (2014), o léxico é um repositório de exceções, aquilo que não é uma consequência de princípios gerais. Este autor ainda segue apontando que uma entrada lexical especifica as idiossincrasias desse item, as informações minimamente suficientes para derivar a representação LF (logical-form) e permite a componente fonológica construir a representação PF (phonetic-form).
Diante disso, um experimento de priming morfológico foi preparado tomando como norte os questionamentos levantados. Assim, o procedimento proporcionará o fechamentodas lacunas a respeito do processamento lexical em relação às palavras morfologicamente derivadas por parte dos sujeitos com TEA.
Esse experimento medirá o tempo de leitura e as escolhas acerca das palavras expostas. As palavras estão dispostas em pares com estruturação simples e/ou derivada, a fim de identificar o efeito de Prime obtido e se essa diferença de processamento ocorre, de fato, em se tratando da estruturação complexa disposta.
Na sessão a seguir, será abordada a metodologia utilizada na presente pesquisa, bem como o método, os participantes envolvidos, instrumentos de coletas de dados, hipóteses e previsões e as discussões finais acerca do resultado encontrado.
3. METODOLOGIA
Este estudo tem como DELINEAMENTO ser uma pesquisa experimental de caráter exploratório, comparativo e quantitativo cunhada nas técnicas da Psicolinguística experimental. Diante disso, ela se fez pautada numa hipótese lançada que está arraigada à análise estatística e comparativa de dados obtidos entre grupos. Por fim, foram obtidos resultados e conclusões a respeito da pesquisa proposta.
Este trabalho foi vinculado à pesquisa do Professor Dr. e Orientador José Ferrari Neto que tem como título geral: PROCESSAMENTO, AQUISIÇÃO E REPRESENTAÇÃO LEXICAL DE FORMAS MORFOLOGICAMENTE COMPLEXAS EM PORTUGUÊS BRASILEIRO - Área Temática: Versão: 1 CAAE: 03508512.0.0000.5188 Submetido em: 20/08/2012 Instituição Proponente: Centro de Ciência da Saúde Situação da Versão do Projeto: Aprovado.
Desta pesquisa fizeram parte crianças autistas e com desenvolvimento típico padrão. As crianças autistas fazem parte do grupo experimental. As crianças com desenvolvimento típico formam o grupo controle. Uma parte dos voluntários autistas frequentam o Projeto de Extensão - Linguagem, Distúrbio e Multidisciplinaridade - vinculado ao Programa de
Pós-Graduação em Ciências da Linguagem da UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco-,
tendo como responsável a Professora Dra. em Linguística e Fonoaudióloga Isabela Barbosa do Rego Barros. A outra parte dos voluntários Autistasfrequenta a Funad - Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência – localizada em João Pessoa / PB. A seleção dos participantes do grupo experimental foi feita com base no laudo médico a respeito do grau do Autismo, se seriam verbais ou não verbais, a fim de verificar as habilidades de leitura de cada um, pois para a pesquisas foram selecionados os que sabiam ler.
O objetivo maior do estudo é evidenciar aspectos da aquisição e do desenvolvimento da linguagem em crianças com diagnóstico de Transtorno de Espectro Autista, com a finalidade de prover maiores informaçõese, assim, poder compreender melhor esse Transtorno, bem como se situam as relações da Memória Declarativa com a Linguagem, permitindo, a partir daí, a construção de intervenções produtivas e inclusivas.
O desenvolvimento da pesquisa se deu por meio de um experimento com a técnica do paradigma de priming. Trata-se de um método off-line e nele a criança é orientada a ler pares de palavras com estruturas simples e derivadas e em seguida tomar decisões por meio do aperto da tecla do computador no qual roda-se o experimento.
A aplicação do experimento se deu em três espaços. Um deles foi o Laboratório de Informática da Unidade Educacional da Prefeitura da Aliança, (Escola Municipal localizada no Município de Aliança / Pernambuco), o segundo espaço foi o Laboratório de Pesquisa em Linguagem da Universidade Católica e o terceiro foi a sala de atendimento em TO (Terapia Ocupacional) da Funad de João Pessoa / PB. Para o acesso a esses espaços foi apresentado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido acerca da pesquisa (Apêndices 2, 3 e 4). Diante disso, partiu-se para a seleção das crianças concernentes ao experimento. Cada criança foi devidamente locada e familiarizada com o experimento demandado.