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Academic year: 2018

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UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

1º Ciclo em Criminologia

PROJETO DE GRADUAÇÃO

Avaliação de Risco na mulher vítima de violência nos relacionamentos

heterossexuais

Sofia Madalena Carneiro Viana

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UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

1º Ciclo em Criminologia

PROJETO DE GRADUAÇÃO

Avaliação de Risco na mulher vítima de violência nos relacionamentos

heterossexuais

Sofia Madalena Carneiro Viana

_________________________________________

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IV

Resumo

O presente projeto tem como objetivo a avaliação do grau de risco de revitimização e de homicídio, a que as mulheres vítimas de violência doméstica que recorrem ao Gabinete de Apoio à Vítima (GAV) da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) de Braga estão expostas no âmbito dos seus relacionamentos íntimos heterossexuais. O objetivo geral é antecipar qual o grau de risco a que a vítima está exposta, para que os técnicos de apoio à vítima (TAV) possam aplicar as estratégias de intervenção mais adequadas a cada caso, identificando os fatores que possam levar potenciar o risco da vítima reexperienciar uma situação de vitimização e em caso extremo, o risco de morte.

Neste sentido o presente projeto propõe a realização de um estudo baseado numa metodologia qualitativa de base observacional. Ao nível do método, para a realização desta investigação de carácter descritivo foi constituída, mediante autorização prévia da instituição (APAV), uma amostra composta por 60 mulheres vítimas de violência doméstica que recorrem ao GAV de Braga. A participação voluntária e informada no estudo decorreria nas instalações da APAV e no âmbito do exercício profissional voluntário enquanto técnica de apoio à vítima. A recolha de dados realizar-se-á por notação com base em dois instrumentos: a Checklist Danger Assessment

Scale de Campbell (2003), traduzida para português de Portugal por Marlene Fonseca e

Rosa Saavedra, o qual seria objeto de um pedido prévio de autorização para uso às autoras; e uma Checklist de avaliação do risco de revitimização construída com base na estrutura do instrumento supracitado.

Após a realização deste estudo são esperados resultados positivos no que respeita à identificação de múltiplos fatores passíveis de aumentar o risco de revitimização e potenciar o risco de homicídio. A avaliação tão cedo quanto possível apoiaria certamente a intervenção dos técnicos de apoio à vítima., mesmo que a um nível terciário de prevenção, contribuindo para a diminuição do número de vítimas de violência doméstica e, quiçá o número de casos mortais por este crime.

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V

Abstract

The present project has as a goal to assessing the degree of risk of revictimization and murder, the victims of domestic violence who turn to the Office of Victim Support (Gabinete de Apoio à Vítima - GAV) of the Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) Braga women are exposed within their heterosexual intimate relationships. The overall objective is to predict the degree of risk to which the victim is exposed to Technical Victim Support (Técnicos de Apoio à Vítima - TAV) can apply the most appropriate intervention strategies for each case, identifying the factors that may apply intervention strategies best suited to each case, identifying the factors that may lead enhance the risk of victim turns to experience a situation of victimization and in extreme cases, the risk of death.

In this sense, this project proposes to conduct a study based on a qualitative methodology of observational basis. A the method level, for conducting this research was descriptive constituted with prior authorization of the institution (APAV), a sample of 60 women victims of domestic violence who turn to Office Victim Support (Gabinete de Apoio à Vítima GAV) of Braga. The voluntary and informed participation in the study would result in the premises of APAV and under the professional technical support volunteer army as the victim. Data collection will be conducted by notation based on two instruments: Checklist Danger Assessment Scale Campbell (2003), translated into Portuguese of Portugal by Marlene Fonseca and Rosa Saavedra, which would be subject to a prior authorization request for use to the authors; Checklist and a risk assessment of revictimization built around the framework of the aforementioned instrument.

After this study regarding the positive identification of multiple factors that might increase the risk of revictimization and enhance the risk of homicide results are expected. The evaluation as early as possible would certainly support the intervention of technical support to the victim, even though a tertiary level of prevention, contributing to the reduction of the number of victims of domestic violence and perhaps the number of fatalities for this crime.

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VII

Agradecimentos

A realização deste trabalho contou com a participação de vários profissionais e amigos. Por este motivo quero agradecer em primeiro lugar à minha orientadora de estágio, Professora Doutora Ana Isabel Sani, pelo seu profissionalismo e dedicação e a todos os docentes do 1º ciclo de Criminologia que contribuíram para a minha formação académica.

Agradeço aos meus colegas de turma de Criminologia; Hugo: Roberto e Vânia, e à “turminha” da noite; Helena; Sara; Andreia; Rafael; Liliana; Marlene; Arnoia e Cláudia, pelo vosso companheirismo nesta caminhada. Um grande obrigada ao GAV de Braga, especialmente à Dra. Teresa Sofia Silva, à Dra. Sónia, ao Dr. José, à Eduarda, à Joana, ao Ivo e à Cátia.

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VIII

Índice

Introdução……… 1

I- Enquadramento conceptual……….. 3

1.1.- A violência contra a mulher………. 3

1.1.1. - Enquadramento legal do crime de violência doméstica………. 4

1.1.2. – Formas de violência exercidas num contexto de relação íntima……... 6

1.1.3. - Fatores de risco e de Proteção……….... 9

1.1.4. – Fatores de risco que contribuem para a permanência da mulher numa relação violenta……….. 11

1.1.5. – Avaliação de risco de Revitimização……….. 13

1.2. – Avaliação de risco……… 15

1.2.1. – Modelos para avaliação de risco………. 17

1.2.2. – Instrumentos para avaliação de risco de violência conjugal………... 19

II - Proposta de Investigação……….. 25

2.1. – Levantamento de necessidades………. 25

2.1.1.- Objetivos gerais e específicos do programa……….. 26

2.2. – Método……….. 27

2.2.1.- Amostra………. 27

2.2.2.- Instrumentos ………. 28

2.2.3.- Procedimentos ……….. 30

2.3.- Tratamento de dados……….. 31

2.4. – Apresentação dos Resultados ……….. 31

Conclusão………... 32

Referências ……… 34

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IX

Siglas

APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima

CP- Código Penal

CPP- Código Processo Penal

DAS – Danger Assessment Scale

GAV – Gabinete de Apoio à Vítima

GNR – Guarda Nacional Republicana

NMUME - Núcleo Mulher e Menor

OMA- Observatório das Mulheres Assassinadas

RASI- Relatório Anual de Segurança Interna

SAPROF- Structured Assessment of Protective Factors for violence risk

TAV – Técnico de Apoio à Vítima

UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta

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X

Índice de Anexos

Anexo I. Planeamento das Sessões

Anexo II. Ficha de dados Sociodemográficos

Anexo III. Checklist de Revitimização

Anexo IV. Checklist Danger Assessment Scale (DAS)

Anexo V. Pedido de Autorização para realização de estudo na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima

Anexo VI. Pedido de Autorização à autora para a utilização da Checklist de avaliação de risco Danger Assessment Scale(DAS)

Anexo VII. Pedido de Autorização para a utilização da Checklist de avaliação de risco Danger Assessment Scale (DAS)

Anexo VIII. Determinação de Estratégias de intervenção de acordo com o grau de risco de Revitimização

Anexo IX. Determinação de Estratégias de intervenção de acordo com o grau de risco de Homicídio

Anexo X. Termo de Consentimento

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Introdução

A violência doméstica é uma das formas de violência mais comuns em todo o mundo, sendo as mulheres as mais afetadas que os homens. Esta violência apresenta-se com severidade e continuidade, podendo em certos casos levar ao femicídio (Baldry, 2003; Kroop, Hart e Belfrage, 2005; O’Leary et al., 1989; Walker, 1989 cit. in Almeida

e Soeiro, 2010). A violência conjugal, em concreto, é retratada como uma situação grave e perigosa, devido à proximidade que existe entre o agressor e a vítima, pelo, fato deles coabitarem ou se aproximarem frequentemente. Elevado é ainda o risco de múltiplas formas de violência tais como: a física, psicológica, sexual, económica, o isolamento entre outras (Matos, 2002).

O relatório anual de segurança interna em 2013 registou 40 homicídios conjugais/passionais nos quais mais de metade das vítimas eram do sexo feminino e mostrou a maior tendência de vitimização das mulheres por parte daqueles com quem elas mantêm ou mantinham uma relação análoga (RASI, 2013). A literatura defende que cerca de dois terços das mulheres mortas pelos seus companheiros já tinham sido maltratadas fisicamente antes de serem assassinadas (Campbell, 1995 cit. in Matos,

2002). O aumento dos números de casos de violência doméstica tem trazido dificuldades para os órgãos policiais e os técnicos dos centros de apoio a vítimas, designadamente para identificar quais os agressores que terão mais probabilidades de agredir as suas vítimas, a quais é que deveriam ser aplicadas medidas de coação e quais as vítimas que necessitam mais de assistência, com o intuito de prevenir a violência mais severa e/ou revitimização (Almeida e Soeiro, 2010).

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Perante este cenário será apresentado uma proposta de investigação de avaliação de risco de revitimização e de homicídios junto de mulheres vítimas de violência doméstica em relacionamentos heterossexuais, que recorrem ao Gabinete de Apoio à Vítima (GAV). O principal objetivo desta proposta de investigação é demonstrar a importância da avaliação na adoção de medidas de prevenção e aplicação de estratégias de intervenção mais adequadas a cada caso. Este projeto inicialmente será realizado no GAV da APAV de Braga, mas com a expetativa que possa ser utilizado pelos Técnicos de Apoio à Vítima (TAV) de todos os GAV da APAV do país.

Assim, este projeto encontra-se dividido em duas partes. A primeira parte apresenta o enquadramento teórico, que foi subdividida em dois capítulos e a segunda parte apresenta a proposta de investigação. A proposta de investigação terá início com o levantamento de necessidades, feitas junto da Associação de Apoio à Vítima, de relatórios anuais de Segurança Interna, do Observatório da Mulher Assassinada e de algumas referências bibliográficas relativamente à revitimização (Dutton, 1996; Matos, 2011; Tusher, 2007). Em seguida serão descritos os objetivos gerais e específicos do programa, o método a ser utilizado, designadamente a amostra de onde serão recolhidas as informações necessárias para este projeto, assim como serão também apresentados os instrumentos de avaliação de risco (Checklist de Revitimização e Checklist - Danger Assessment Scale (Campbell, 2003) e os procedimentos a ter em consideração na elaboração do projeto.

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Parte I - Enquadramento Conceptual

1.1. A violência contra a mulher

A violência praticada contra as mulheres é um resultado de um conjunto de crenças culturais, políticas e religiosas, que reforçam as desigualdades entre sexos (Acosta, Gosmes e Barlem, 1993).

Os maus tratos exercidos contra a mulher são uma violação dos direitos humanos que afeta a vida de muitas mulheres em todo o mundo, podendo assumir diversas formas, tais como: o tráfico de mulheres e raparigas, a prostituição forçada, a violência em situações de conflito armado (ex: os assassínios) as violações sistemáticas e a gravidez forçada. Em alguns países é prática corrente os assassinatos por motivos de honra, a violência relacionada com o dote, o infanticídio feminino, a seleção pré-natal do sexo do feto em favor de bebés do sexo masculino, a mutilação genital feminina e outras práticas danosas para o corpo da mulher (ONU, 2000). O Plano Nacional de Ação para Prevenção e Combate à Violência Contra a Mulher de Moçambique (2008), definiu-se a violência contra a mulher como qualquer ato perpetrado que cause danos físicos, sexuais, psicológicos incluindo a ameaça, a imposição de restrições ou a privação de liberdades na vida privada e pública. Segundo a Organização Mundial da

Saúde (OMS

)

(2002:5), a violência é entendida como um uso intencional da força física, de poder real ou ameaça, contra si próprio; contra outra pessoa, contra um grupo ou uma comunidade, que dela resulte lesões, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento e/ou a morte (Plano Nacional de Acção para Prevenção e Combate à Violência contra a Mulher 2008).

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exercidas com frequência e de forma arbitrária sem qualquer aviso prévio o que levam, por vezes, com que a mulher tenha um sentimento de ineficácia e de impotência, sendo mais fácil para os agressores obterem controlo sobre as suas vítimas (Matos, 2002).

Em Portugal a violência que mais ataca as mulheres ainda é a violência exercida no contexto de relacionamento íntimo perpetrada por companheiros ou ex-companheiros e pode ocorrer entre pessoas de diferentes culturas, raças, religiões e classe sociais. Esta é uma realidade que vem sendo reforçada pelos números apresentados nas estatísticas anuais da APAV. Só em 2013, os crimes mais registados eram a violência doméstica (80%) e mais de metade das vítimas que pediram ajuda à instituição eram do sexo feminino (cerca de 82.8%).

No que diz respeito aos direitos das mulheres se estivermos atentos ao que se passa no mundo, concluímos quem em muitos países os direitos humanos são claramente violados, sendo as mulheres são as mais atingidas. Por exemplo, nos Estados Unidos um terço das mulheres assassinadas todos os anos são mortas pelos seus companheiros, na África do Sul as mulheres vítimas de violência doméstica são mortas a cada 6 horas, já em Guatemala a situação é mais crítica, em média são assassinadas duas mulheres por dia pelos seus companheiros, na Índia os casamentos são precedidos por um pagamento, ou dote, da família da noiva para com a família do noivo, se o pagamento do dote não for cumprido a violência é eminente (só em 2007, foram assassinadas 22 mulheres por parte dos companheiros, a maioria são queimadas com ácido na cara UNIFEM, s/d). Estes números alarmantes demonstram que as mulheres têm maior probabilidade de serem agredidas não por pessoas desconhecidas mas sim por alguém que lhe é íntimo (Blackburn 1995, cit. in Matos, 2002).

1.1.1. Enquadramento legal do crime de violência doméstica

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económica das mulheres, que veio rever o papel destas na sociedade e na família, passou-se a dar resposta a um problema social (Matos, 2002). Um exemplo mais recente das medidas desenvolvidas neste domínio em Portugal é o decreto-lei nº 112/2009 de 16 de Setembro, que estabelece um regime jurídico aplicável à prevenção da violência doméstica e à assistência das suas vítimas (cf. Quadro 1).

Quadro 1. Legislação sobre Violência Doméstica

Regime Jurídico aplicável à prevenção; proteção e assistência das vítimas de violência doméstica

Decreto - Lei nº 112/2009 de 16 de Dezembro

Art.º nº 14º- Atribuição do estatuto de vítima Art.º nº 15º - Direito à informação

Art.º nº 19º - Despesas da vítima resultantes da sua participação no processo

Art.º nº 20º - Direito à proteção

Art.º nº 22º - Condições de prevenção da vitimização secundária Art.º nº 31º- Medidas de coação urgentes

Art.º nº 60º - Casas de abrigo

Código Penal

Art.º nº 152º - Violência Doméstica Art.º nº 152 A - Maus Tratos

O Decreto - Lei nº112/2009 de 16 de Dezembro apresenta medidas de apoio às vítimas de violência doméstica, desde planos nacionais contra a violência levadas a cabo pelo Governo nº 1 do art. nº4, à atribuição do estatuto de vítima (art.º nº 14 CP); à disponibilidade de gabinetes de atendimento a vítimas nos órgão de polícia criminal (art.º nº 27º CP) com articulação de instituições se fins lucrativos destinadas ao apoio a vítimas de violência doméstica.

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A vítima passa a ter direito a ser reembolsada das despesas efetuadas em resultado da sua participação no processo (art.º 19º CP).

Estas medidas protegem as vítimas mais fragilizadas economicamente e socialmente, abrangendo também as vítimas residentes noutro estado (art.º 23º CP). Para as vítimas em situação de risco elevado a lei apresenta medidas, tais como a detenção do/a agressor/a em flagrante delito (nº 1 do art.º nº 30º CP); medidas de coação urgentes (art.º 31º CP), sempre que se mostre imprescindível para a proteção da vítima (art.ºnº35º CP) e/ou a colocação da vítima em casas de abrigo (art.º nº 60º CP).

Nos dispostos no Código Penal, o art.º nº 152 classifica o crime de violência doméstica como: “todo aquele que de modo reiterado ou não, infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações de liberdade e ofensas sexuais ao cônjuge; ex-cônjuge, a pessoa de outro ou mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação, é punido com pena de prisão de um a cinco anos”. Enquadra-se neste artigo a violência ocorrida no âmbito de relações de namoro.

Para melhor acompanhamento às vítimas de violência foram criadas instituições que fazem parte da rede nacional de apoio às vítimas de violência doméstica, são elas; Associação de Apoio a Vítimas de Crime (APAV); Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG); Linha 144- Linha Nacional e Emergência Social que é gratuita e dá resposta a vítimas em situação de emergência; Estrutura de Missão Contra a Violência Doméstica (EMCVD); Associação de Mulheres Contra a Violência (AMCV); Centro Anti-Violência; GAV da GNR (Rede nacional de Gabinetes de Apoio à Vítima) Plataforma Portuguesa para os Direitos da Mulher; União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR); Linha SOS Mulher; Unidade de Apoio à Vítima Imigrante e de Discriminação Racial ou Étnica; Serviço de Apoio à Mulher Vítima; Polícia de Segurança Pública e GNR – Núcleos Mulher e Menor (José Bota, deputado coordenador do grupo de trabalho sobre a campanha contra a violência doméstica, 2006).

1.1.2. Formas de violência exercidas num contexto de relação íntima

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mesma. À medida que o tempo passa a vítima vai perdendo a sua autoestima, o controlo de si própria e da sua vida, tornando-se assim mais difícil para ela romper com uma situação abusiva (Manita, Ribeiro e Peixoto, 2009).

A Associação de Apoio à Vítima e a autora Manita distingue os seguintes tipos de violência:

Violência emocional e psicológica: é um qualquer comportamento

praticado pelo(a) companheiro(a) com a intenção de o intimidar, ou de fazer com que o outro sinta medo. Inclui comportamentos como: ameaçar a vítima e/ou os filhos; magoar animais de estimação; humilhar o outro na presença de outras pessoas, (familiares, amigos ou em público), criticar negativamente as suas ações, gritar com a vítima, destruir objetos de valor afetivo para a vítima (Manita et al., 2009).

Violência social: é um conjunto de estratégias implementadas pelo

agressor para afastar a vítima da sua rede social e/ou a familiar, com a intenção de controlar a vida social, impedir que ela visite os seus familiares ou amigos, impedir que a vítima se ausente de casa sem o seu consentimento, cortar o seu telefone, controlar as chamadas e/ou as contas telefónicas (Manita et al., 2009).

Violência física: é qualquer forma de violência física exercida sobre a

vítima. Como ferir, causar dano físico ou orgânico, deixando ou não marcas, causado pelo: esmurrar, pontapear, empurrar, puxar os cabelos, estrangular, queimar, atropelar ou tentar atropelar; impedir que o(a) companheiro(a) obtenha medicação ou tratamentos entre outros comportamentos que possam resultam em lesões graves de incapacidade permanente ou mesmo levar à morte da vítima (Manita et al., 2009).

Violência sexual: quando o(a) companheiro(a) força o outro a realizar

atos sexuais que não deseja, pressioná-lo(a), forçar ou tentar que o(a) companheiro(a) mantenha relações sexuais sem proteção e/ou forçar o outro a ter relações com outras pessoas. A violência sexual pode englobar também a prostituição forçada pelo companheiro(a) (Manita et al., 2009).

Violência financeira: são todos aqueles comportamentos que têm como

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controlar o ordenado do outro; recusar dar dinheiro ao outro ou obrigá-lo a justificar qualquer gasto) (APAV, 2012).

Isolar: implica controlar a vida do outro, com quem fala, o que lê, para

onde vai, limitar o envolvimento externo do outro usando o ciúme como justificação (APAV, 2012).

Perseguição: é qualquer comportamento que tenha como intenção

intimidar ou amedrontar a vítima. Como por exemplo: seguir o(a) companheiro(a) quando este(a) sai sozinho(a), segui-lo(a) quando vai para o trabalho e/ou para a escola; controlar os seus movimentos quer, esteja em casa ou não (APAV, 2012).

A Associação de Apoio à Vítima distingue a violência doméstica como, sentido estrito e sentido lato: VD em sentido estrito corresponde aos dispostos nos termos do art.º nº 152º do Código Penal: maus-tratos físicos e psíquicos, privações de liberdade e ofensas sexuais. A VD em sentido lato corresponde a outros crimes em contato doméstico, como a violação de domicílio ou perturbação da vida privada, (utilização de imagens, conversas telefónicas, e-mails, revelação de segredos e/ou fatos privados, entre outros), violação de correspondência ou de telecomunicações, violência sexual, subtração de menor, violação da obrigação de alimento, homicídio na forma tentada ou consumada, dano, furto e/ou roubo (APAV, 2013).

No relatório estatístico anual da APAV de 2013, verifica-se que 36.8%, da violência exercida contra a vítima representa os maus tratos psíquicos e 26.9% os maus tratos físicos, que perfaz 63.7% dos crimes de violência doméstica (VD) em sentido estrito. Apesar da violência física ser a que mais chama a atenção, continua a ser a violência verbal e psicológica a que mais atinge as vítimas. Dos crimes de VD em sentido lato, a violação de domicílio ou perturbação da vida privada, foi o crime mais vezes relatado, com cerca de 1.3% dos casos. Num total de 8.733 casos acompanhados pela APAV, 82.8% são vítimas do sexo feminino e 82.3% dos autores dos crimes são do sexo masculino. No que diz respeito à relação entre autor do crime e a vítima, em 30.7% dos casos a vítima e o agressor mantinham uma relação de conjugalidade (APAV, 2013).

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severos num contexto de VD. A violência mais grave apresentava-se pelo menos três vezes num ano, os abusos físicos mais leves apresentam-se de uma forma mais regular, pelo menos 1 vez por semana (Maziak, 2002).

1.1.3. Fatores de risco e de proteção

Para uma melhor intervenção com as vítimas é fundamental ter conhecimento dos fatores de proteção e de risco que estejam presentes numa relação de violência na intimidade. Apesar dos fatores de proteção não serem tão estudados como os fatores de risco, estes deveram ser sinalizados e analisados para que ambos os fatores possam ser levados em conta na planificação de estratégias de intervenção com vítimas (Ribeiro e Sani, 2009). Na Holanda foi desenvolvida um instrumento de avaliação de fatores de proteção para o risco de violência, o SAPROF (Structured Assessment of Protective Factors for violence risk), que à semelhança de Checklist como HCR-20, é usado como um complemento de instrumentos de avaliação de risco. O principal objetivo deste instrumento é contribuir para uma avaliação de risco mais rigorosa, auxiliando no planeamento de intervenções e estratégias de gestão do risco, para que desta forma seja possível obter uma avaliação mais sensata do risco de violência futura (Neves e Soeiro, 2011).

Para os autores Richman e Fraser (2001, cit. in Ribeiro e Sani, 2009), os fatores

de proteção, são todas as caraterísticas individuais e ambientais que atrasem e/ou neutralizem os resultados negativos, e que se dividem em três categorias (individuais; familiares e extra-familiares). Independentemente das categorias estes fatores têm um efeito amortecedor e neutralizador, contribuindo assim para a diminuição das probabilidades de obter um resultado negativo. Com base numa pesquisa efetuada foram identificados entre outros, os seguintes fatores de proteção: atitude intolerante face à violência; orientação social positiva; saudável sentido de vida; expetativas saudáveis e positivas face ao futuro; temperamento resiliente; envolvimento em atividades sociais; comunidades económicas estáveis; coesão social; competências de gestão de stress e regulação emocional, etc. (Ribeiro e Sani, 2009).

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elementos da personalidade do agressor e da vítima tais como; a personalidade e temperamento desajustados do agressor, baixo autocontrolo e baixa tolerância às frustrações, grande vulnerabilidade ao stress, baixa autoestima, excessiva ansiedade face às responsabilidades perante a vítima, o desemprego, personalidade imatura e impulsiva e ter sido vítima de violência na infância ou ter assistido a violência entre os seus educadores, podem aumentar o risco de ser um(a) agressor(a). Apesar da violência doméstica abranger vítimas de todas as classes, económicas e sociais, estudos defendem que os níveis educacionais e económicos mais baixos são um dos fatores de risco que aumento a probabilidade da existência de violência nas relações de intimidade (APAV, 2010).

Alguns autores (Hotaling e Sugarman, 1986, cit. in Matos, 2002) defendem,

que um indivíduo que tenha sido vítima em criança tem mais probabilidades de se tornar um maltratante em adulto, Este argumento baseia-se na teoria da transmissão intergera-cional da violência e a aprendizagem social. Os comportamentos dos indivíduos são influenciados pelo ambiente social que o rodeia, pelas experiências que experienciaram ou que testemunharam. Sendo assim um sujeito que foi exposto a maus tratos e violência no seio da sua família enquanto criança, pode aprender estratégias maltratantes e violentas (Matos, 2002). No que diz respeito à vítima, pensa-se que o estar economicamente dependente do agressor, ter dependência física e/ou emocional, estar socialmente isolada, ter filhos do agressor e/ou exposição à violência enquanto criança, possa aumentar o risco de vitimização (APAV, 2010).

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O Plano Nacional de ação para prevenção e combate à violência contra a mulher de Moçambique aponta o ciúme e a suspeita de infidelidade conjugal, como um dos principais fatores de risco para a ocorrência de comportamento agressivos e/ou de violência física contra a mulher. As Nações Unidas (2003) defendem que a origem da violência situa-se na estrutura social e num conjunto de valores; tradições; costumes hábitos e crenças relativamente à desigualdade sexual, onde a vítima é quase sempre a mulher e o agressor, quase sempre o homem (Plano Nacional de Acção para Prevenção e Combate à Violência contra a Mulher, 2008).

Além do fatores de risco associados a crenças culturais, existem outros fatores que contribuem para o agravamento do risco de violência, como por exemplo: défices comportamentais; psicopatologia; antecedentes de violência na família e/ou o consumo abusivo de drogas e álcool. Embora não exista dados que confirmem a existência de uma relação causal entre álcool e agressão, investigações defendem que na maioria dos casos o uso de álcool está associado aos maus tratos maus severos (Matos, 2002).

Um estudo realizado com moradores de uma comunidade em Fortaleza do Ceará no Brasil concluiu, que a violência íntima é percebida, principalmente pela mulher, como “algo comum” no quotidiano do casal e que fatores como, álcool, o uso da droga ilícita, o desemprego e a baixa escolaridade agravam a ocorrência da violência na família (Vieira, Pordeus, Ferreira, Moreira, Maia e Saviolli, 2008). Neste sentido podemos concluir que apesar dos fatores de risco não serem tão falados e/ou estudados como os fatores de risco, o conhecimento aprofundados destes fatores de proteção são tão importantes como os fatores de risco, para uma melhor intervenção junto de pessoas que esteja a ser vítima de violência (Ribeiro e Sani, 2009).

1.1.4. Fatores que contribuem para a permanência da mulher numa relação violenta

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A literatura menciona a existência de um ciclo definido vivido pelas vítimas, que pode ajudar a compreender, porque as vítimas adotaram um comportamento de apatia, que as impede de pôr fim a um relacionamento violento (APAV, 2010).

Segundo o autor Walker (2009), entende-se por este ciclo de violência, um sistema onde a dinâmica das relações de casal se manifesta de uma forma sistemática passando por três fases:

1) Aumento de Tensão – nesta fase dá-se a acumulação de tensões no casal;

as difamações; injúrias e as amaças do agressor, criando-se uma situação de perigo eminente para a vítima.

2) Ataque Violento – aqui o agressor exerce violência por vezes severa, por

exemplo: a violência física; psicológica; sexual, podendo esta aumentar a sua frequência e intensidade.

3) Lua-de-mel o agressor após ter exercido violência a vítima, trata-a com

carinho e atenção, desculpabilizando-se pelos seus atos, prometendo mudar os seus comportamentos.

À parte do ciclo de violência, existem outros fatores que podem ajudar a explicar a permanência da mulher numa relação abusiva, tais como: a mútua dependência e equilíbrio relacional (traços desajustados da personalidade de ambos); um vínculo afetivo excessivo da mulher em relação ao agressor, a atração da mulher pelo drama e por situações perigosas; a violência repetida de que a mulher é alvo vai diminuindo a sua motivação para reagir; a mulher como vítima passiva, vítima submissa e desprotegida; aprendizagem e socialização de condições de vida inadequadas (Feiteira, 2011). Uma mulher é exposta a maus tratos na infância, aumenta a probabilidade de esta aceitar um marido maltratante com mais facilidade, pois pode ter aprendido a perceber a violência como uma manifestação de amor por parte do agressor (Matos, 2002).

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e o medo de os perder; ameaças de homicídio por parte do agressor; falta de apoio familiar; a tendência a minimizar e a desculpabilizar situações de violência; medo de represálias (ameaças, perseguição, morte); baixa autoestima; pressão da família; sofrimento aprendido; amor; papéis tradicionais da mulher e do homem na sociedade (Feiteira, 2011).

Apesar da existência de inúmeros fatores que possam explicar a permanência da vítima numa relação abusiva, não é contudo possível atribuir um motivo em específico que possa explicar a resistência da vítima ao abandono de um relacionamento violento. Pensa-se que poderá ser uma cadeia de emoções e crenças que estão na base da manutenção destas relações, a manipulação emocional e ameaças por parte do agressor, a culpabilização das vítimas pelas agressões, podem colocar as vítimas numa situação de dependência afetiva, que lhe dificultam a separação do agressor (APAV, 2010).

1.1.5. O risco de revitimização

Pensa-se que a vulnerabilidade à reincidência dos maus tratos nas mulheres é alimentada por várias circunstâncias e consequências da violência, como por exemplo a descrença nas autoridades, a legitimação e impunidade social atribuída ao comportamento do agressor (Matos, 2002). A literatura aponta as abordagens tradicionais feitas pelas polícias (tentativa de acalmar os ânimos, mediação do conflito) perante os casos de violência doméstica e a falha na proteção às vítimas, como formas de intervenção que negligentemente promovem a revitimização (Doerner e Lab, 1995

cit. in Matos, 2002). Vários estudos realizados nesse sentido demonstram uma elevada

reincidência de violência nas relações de intimidade (25% a 50%) (Dutton e Kropp, 2000 cit. in Matos, 2011).

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tarde pode voltar a ser alvo de uma nova vitimização (ex: violência doméstica) (Dutton, 1996).

Alguns autores apresentam várias causas que possam levar à revitimização, e são elas; comportamentos socializados e sinais de depressão aumentam a vulnerabilidade da vítima para a revitimização; incapacidade de detetar os sinais de perigo a que está exposta; falta de recursos (económicos; pessoais) para tomar médias de autoproteção; a raiva e hostilidade associadas a experiências abusivas podem levar a comportamentos agressivos e violentos que por sua vez, aumenta a vulnerabilidade da vítima; a baixa autoestima e a vergonha sentida pelas vítimas levam a que por vezes esta volte para o agressor ignorando os riscos a que está exposta; apegos emocionais, que fazem com que as vítimas idealizem que “não podem” viver sem o agressor; a vitimização experimentada por um longo período pode socializar a vítima, de que o abuso e a violência são normais e inevitável; estereótipos e crenças relativamente à função de género. Todos estes fatores têm vindo a ser apontada como fatores de vulnerabilidade da reincidência da vitimização (Tusher, 2007).

Apesar da complexidade na elaboração de uma avaliação de risco, os instrumentos da avaliação de risco mostram ser fundamentais, para a prevenção dos maus tratos mais severos e salvaguardar a proteção imediata da vítima. É importante avaliar a possibilidade da ocorrência da violência, do seu aumento de frequência e intensidade. Principalmente nos casos em que a vítima e o agressor coabitam, ou em casos que o agressor tem fácil acesso à vítima, para que desta forma seja possível evitar agressões mais graves ou homicídios (Matos, 2011).

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15 1.2. Avaliação de risco

Um número elevado de casos que envolve a violência conjugal tem trazido algumas dificuldades para os órgãos policiais e profissionais de justiça, principalmente no que diz respeito às prioridades na atribuição de assistências e na identificação dos tipos de assistência a serem atribuídas. Como por exemplo; “Quais os homens que possuem uma maior probabilidade de voltar a agredir ou ameaçar a vida das suas companheiras? Quais os homens que devem ficar sujeitos a um programa de acompanhamento terapêutico? Quais as mulheres que devem usufruir de medidas de proteção?”. Para poder dar resposta a questões semelhantes a estas, é fundamental a realização de uma avaliação de risco (Almeida e Soeiro, 2010).

O principal objetivo da avaliação de risco é prevenir a violência, mas isso não nos dá a certeza se o “agressor” irá ou não reincidir. Para isso é necessário avaliar outros fatores, tais como; a natureza, a iminência, a severidade e a frequência da violência. Estes fatores podem ser divididos em dois tipos: as variáveis estáticas, que não se alteram (ex: história criminal e antecedentes familiares) e as variáveis dinâmicas, que podem sofrer alteração ao longo do tempo (ex: fatores sociais, situacionais e psicológicos) e que podem levar a mudanças ao nível do risco (Hart, 2001; Mulvey e Lidz, 1995 cit. in Almeida e Soeiro, 2010). A avaliação de risco de violência conjugal

apresenta-se como um processo de recolha de informação, correspondente às pessoas envolvidas, permitindo assim uma tomada de decisões de acordo com o risco de reincidência da violência (Kropp, 2004; Kropp, Hart, Webster, e Eaves, 1994, 1995, 1998 cit. in Almeida e Soeiro 2010).

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16

No entanto, para tratar um caso com um grau de elevado risco é necessário ter cautela, pois as vítimas podem-se tornar desconfiadas, mas em alguns casos estas vítimas podem estar numa situação de alto risco se continuarem naquela relação. Nestes casos os técnicos devem sensibilizar a vítima para o risco a que está exposta e tomar todas as medidas possíveis para evitar resultados trágicos (homicídios). Contudo, apenas uma pequena percentagem de casos de violência nos relacionamentos íntimos terminam em homicídios (Campbell, 2005).

Em New Brunswick (Estados Unidos), os serviços de apoio a vítimas de violência doméstica e as casas de abrigo, utilizam instrumentos de avaliação de risco, desenvolvido por Jacquelyn Campbell, Ph. D. RN, FAAN. Esse instrumento é utilizado por técnicos das instituições e têm como objetivo, a avaliação de risco de homicídio nas relações íntimas. Que permite uma recolha de informações relativamente à vítima, que deverá ser analisada e trabalhada de forma a poder delimitar estratégias de intervenção adequadas a cada caso (Millar, Code e Ha, 2009).

Em Portugal a APAV tem utilizado a Checklist de avaliação de risco; Danger Assessment Scale de Campbell (2003), adaptada para Português no âmbito de uma investigação para a tese de Doutoramento em Ciências Forenses da TAV Marlene Fonseca. Este instrumento é utilizado em todos os GAV do continente, inicialmente avaliará o risco de homicídio na mulher vítima de violência nos relacionamentos íntimos heterossexuais. A avaliação de risco permite aos TAV determinar estratégias de invenção adequadas a cada caso de acordo com o grau de risco identificado, de forma a prevenir agressões físicas mais severas.

O SARA (Brief Spousal Assault Form for the Evaluation of Risk) é utilizado

pelos profissionais de justiça e pelas forças policiais, contudo parece não ser um instrumento apropriado para ser utilizado pelos polícias (exceto para aqueles que trabalham em unidades especializadas de violência doméstica), por ser muito extenso e requer avaliações específicas relacionadas com a saúde mental (Almeida e Soeiro, 2010).

Para fazer frente a esta dificuldade, Kropp, Hart e Belfrage, 2005, desenvolveram um instrumento o B-SAFER Brief Spousal Assault Form for the

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17

Police Version, que consiste numa avaliação do risco de violência nos relacionamentos

conjugais. Foi criado especialmente para uso das forças policiais e outros profissionais de justiça que não tenham formação a nível superior na área da saúde ou psicologia (Kropp, 2008 cit. in Almeida e Soeiro, 2010).

Para poder ser utilizada pelos órgãos policiais em Portugal, o SARA-V foi adaptado para Português, por Almeida e Soeiro (2005), tendo sido utilizado por agentes de autoridade do grupo NMUME da GNR e por agentes de autoridade da Divisão de Investigação Criminal do Comando Metropolitano da PSP, em investigações (Feiteira, 2011).

O desenvolvimento e a utilização do B-SAFER têm sido uma mais-valia para o trabalho de muitos profissionais, (profissionais da polícia e técnicos da justiça penal), pois este instrumento permite-nos obter informações necessárias para a avaliação do grau de risco da vítima, orientando os técnicos para uma intervenção e assistência mais eficaz e permitindo a elaboração de planeamento de medidas segurança e estratégias a fim de evitar danos futuros e incidentes mais críticos (Millar, Code e Ha, 2009).

Em suma, a avaliação do risco numa situação de violência conjugal é extremamente importante, na medida em que pode auxiliar os sistemas de justiça a estabelecer decisões acerca da privação da liberdade do agressor e da atribuição de medidas de proteção imediatas a aplicar à vítima (Matos, 2002).

1.2.1. Modelos para Avaliação do Risco

A avaliação de risco baseia-se em intuições clínicas e em conhecimentos empíricos, contudo, os fatores de risco apresentam uma variedade e simultaneidade que os torna muitos instáveis e que pode por vezes induzir os profissionais em erro (Pueyo e Echeburúa, 2010).

Para proceder a realização da avaliação de risco, é necessário efetuar uma recolha de dados para obter informações mais detalhas dos intervenientes. Neste sentido é essencial a realização de entrevistas pessoais, de avaliações psicológicas e médicas, bem como informações suplementares; registos judiciais, médicos e sociais, que possam ser úteis para a avaliação. A investigação pode também ser feita através de procedimentos clínicos; atuariais e mistos (Webster, Douglas, Eaves e Hart, 1997 cit. in

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diagnóstico para tomadas de decisões a partir de informações relevante, tais como, fatores de risco e/ou proteção que possam prever comportamentos violentos (violência física; sexual) contra a/o parceira/o (Hart, 2001 cit. in Feiteira, 2011).

Abordagem clínica: a primeira geração

Esta abordagem é conhecida também por avaliação clínica não – estruturada e é a mais comum na avaliação de risco, baseia-se num juízo clínico não estruturado, com tomadas de decisões baseadas, em opiniões profissionais e humanas (Feiteira, 2011).

Esta abordagem clínica apesar de ser a mais utilizada é um instrumento que apresenta uma baixa credibilidade e uma base teórica fraca, pois não segue as normas fixas e estáveis. Aqui as decisões baseiam-se em juízos pessoais do avaliador e parte-se do princípio que todos os comportamentos violentos são estáticos e que nunca poderão ser modificados (Elbogen e Calkins, et al., 2002, Maden, 2007 cit. in Pueyo e

Echeburúa, 2010). Considera-se pois que este tipo de abordagem é pouco consistência, porque diferentes clínicos podem incidir em fontes de informação diferentes e obter conclusões diversificadas, onde as decisões acabam por não ter apoio de dados empíricos (Feiteita, 2011).

Abordagem atuarial: a segunda geração

Este método de avaliação distinguiu-se dos métodos não atuariais, na medida em que se baseia na utilização de testes específicos, relacionando os itens que os compõem com os resultados obtidos (Harris e Rice, 2007 cit. in Feiteira, 2011). Ou seja,

basicamente trata-se de um procedimento que irão permitir quantificar o risco de violência através de um registo detalhado de dados do historial pessoal do sujeito (Pueyo e Echeburúa, 2010).

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19

Abordagem baseada no juízo profissional estruturado: a terceira geração

Esta abordagem trata-se de um procedimento misto “clínico - atuarial” que recorrendo a aspetos de avaliação clínica e atuarial e conta com o auxílio de guias de avaliação de risco, baseadas na investigação clínica e nos estudos empíricos (Andrés-Pueyo e Redondo, 2007 cit. in Pueyo e Echeburúa, 2010). Nesta abordagem é

necessário especificar um conjunto de fatores de risco que são necessários a ter em conta, como: a operacionalização desses fatores de risco; o planeamento do melhor método para se obter a informação e o fornecimento de orientações concretas para a obtenção de uma conclusão final sobre o grau de risco (Pueyo e Echeburúa, 2010).

Os resultados obtidos com o auxílio desta abordagem têm mostrado, maior fidedignidade e uma validade preditiva satisfatória (Feiteira, 2011).

1.2.2. Instrumentos para Avaliação do Risco de violência conjugal Abordagem sistemática e compreensiva: a quarta geração

Esta abordagem utiliza instrumentos direcionados para a integração do processo de gestão de risco, da seleção de métodos e objetivos a atingir (Campbell et al., 2007 cit. in Feiteira, 2011). Estes instrumentos têm como principal característica a

capacidade de administração de múltiplas ocasiões. Por outro lado estes instrumentos fornecem informações acerca das alterações criminógenas que poderão ocorrer logo que o agressor tenha contato com o sistema de justiça e/ou possíveis alterações durante sua permanência, desde a entrada no sistema até à sua saída e por último fornecem-nos informações sobre o risco (Feiteira, 2011).

Segundo alguns autores, os instrumentos que fazem parte desta quarta geração podem identificar áreas a intervir no plano de gestão de risco, com o objetivo de o minimizar (Guerra, 2009 cit. in Feiteira, 2011).

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dois aspetos importantes; delimitar as caraterísticas da violência a avaliar e definir a população onde vai ser feita a avaliação (Pueyo e Echeburúa, 2010).

Segundo os autores Douglas e Lavoie (2006 cit. in Feiteira, 2011) existem

cinco princípios orientadores para a avaliação de risco;

1º Princípio - Identificação dos fatores de risco de violência. Para medir os níveis de risco é necessário proceder à identificação dos fatores de risco que possam estar presentes. Sendo assim todos os instrumentos de avaliação de risco devem conter os fatores de risco já conhecidos pela ciência como sendo comportamentos violentos, para que seja possível relaciona-los com a violência. Esta concordância permitirá aos profissionais fazer tomadas de decisões relativamente à presença dos fatores de risco para cada caso em particular.

2 º Princípio - Cobertura abrangente dos fatores de risco de violência. Este princípio defende que os profissionais devem deixar de se focar tanto nos fatores de risco tidos como importantes e terem em conta a maioria dos fatores de risco conhecidos, pois, pode haver o perigo destes fatores de risco existirem mas ainda não terem sido identificados.

3 º Princípio - Relevância dos esquemas de avaliação do risco para a gestão e redução de riscos. Os profissionais devem fornecer algumas recomendações para o tratamento de gestão e redução do risco, pois por vezes existe uma necessidade de intervir no sentido de fornecer indicações relativas à gestão do risco. Deste modo o processo de avaliação de risco deverá ter em conta; os fatores de risco mais relevantes para o tratamento e gestão, os fatores dinâmicos e os fatores estáticos (Douglas e Lavoie, 2006 cit. in

Feiteira, 2011). Segundo os autores Dvoskin e Heilbrun (2001), a existência de fatores estáticos não passa de uma crítica, pois considera-se que existe um risco do indivíduo mudar os seus comportamentos, como consequência das intervenções de que este foi alvo ao longo do tempo.

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21

este processo de comunicação deverá facilitar e especificar uma ação. Os técnicos devem ter noção do grau de risco em causa e planificar estratégias que o minimizem.

5 º Princípio

Os instrumentos específicos para avaliação da violência conjugais envolvem sobretudo Checklists e questionários. O quadro 2 apresenta instrumentos de avaliação que podem ser utilizados em situações de violência no contexto de intimidade. Alguns instrumentos são direcionados para vítimas e agressores e outros só para vítimas, dando importantes dando importantes indicadores para a avaliação do risco nestes.

- Processo de decisão suscetível de revisão e explicação. Qualquer procedimento de avaliação do risco deve estar ao alcance de vários profissionais envolvidos, como: magistrados, advogados ou outros técnicos de apoio a vítimas. É de extrema importância a consulta da avaliação de risco por todos os técnicos, pois permite a reconstrução do processo relativo ao modo como foram tomadas as decisões, permitindo assim uma possível contestação. O processo de avaliação do risco deve ser documentado de forma pormenorizada para que outros os técnicos possam ter acesso a essas informações (ex: serviço de saúde mental), também deverão ser descriminados os fatores de risco que foram identificados.

Para realizar uma avaliação de risco, primeiro é necessário definir o tipo de violência que está presente (física, psicológica ou sexual) e se o agressor têm ou teve alguma relação efetiva com a vítima, ou se nunca tiveram nenhuma relação. De seguida procede-se à tomada de decisões, baseada na observação da existência de fatores de risco e/ou de fatores de proteção, não esquecendo nunca de recolher informação relativamente ao historial de antecedentes criminais do/a agressor/a.

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Instrumentos de Avaliação

CTS- Conflict Tactics Scale CTS foi desenvolvida por Straus e Gelles em 1990, consiste numa lista de quinze comportamentos dirigidos às vítimas de violência conjugal. SARA – Brief Spousal Assault Form for

the Evaluation of Risk Este instrumento destina-se a avaliação de risco que também podem ser utilizados com agressores, mas o objetivo primário é prevenir a violência.

SARA- PV – Brief Spousal Assault Form for the Evaluation of Risk – versão para Polícias (Almeida e Soeiro, 2005)

É um guia para a avaliação e gestão do risco de violência doméstica, com objetivo de proteger as vítimas, baseado na revisão de literatura e que inclui a seleção de fatores de risco com suporte na literatura, com suporte de clínicos e académicos.

I.V.C. – Inventário de Violência Conjugal Esta escala tem por objetivo identificar a vitimização e/ou perpetração de comportamentos abusivos. É composta por 21 itens que envolvem comportamentos fisicamente abusivos. EPV- Avaliação de risco de homicídio e de

violência grave contra a parceira e ex-parceira

Este instrumento avalia o risco de homicídio e de violência grave contra a companheira e ex- companheira estabelecida por uma pontuação que permite quantificar o grau de risco (baixo, moderado ou alto).

DAS Danger Assessment Scale (Campbell, 2003)

É um instrumento que avalia o risco de homicídio numa relação íntima, contém 20 item de respostas dicotómicas sim/não).

I-TRAC -Alberta Integrated Threat and Risk Assessment Centre

O I-TRAC avalia o nível de risco individual, proporcionando estratégias de gestão de risco e planeamento de segurança. É uma ferramenta que auxilia na aplicação das leis em casos de violência doméstica.

VI- DomesticViolenceInventory O Inventário de Violência Doméstica é usado como uma ferramenta opcional que avalia os níveis de risco numa relação de violência. A.Q. – Questionário de Agressividade É um questionário que visa avaliar a agressividade em quatro medidas; a agressão física, agressão verbal, raiva e hostilidade. Contém 29 itens referentes às quatro medidas de agressão. E.C.V.C. - Escala de Crenças sobre a

Violência Conjugal (Matos, Machado & Gonçalves, 2000)

É uma escala de crenças sobre violência conjugal que permite avaliar as crenças em relação à violência física e psicológica exercida no contexto de relações de tipo conjugal.

Abusive Behavior Inventory (ABI,

Shepard e Campbell, 1992) Consiste num inventário de autorrelato que avalia a frequência do abuso físico e emocional, ocorrido nos últimos 6 meses.

Index Spouse Abuse (ISA, Hudson &

McIntosh, 1981) É uma escala que mede a frequência e a severidade do abuso físico e psicológico perpetrado sobre a mulher pelo parceiro.

Severity of Violence Against Women

Scale (SVAWS, Marshall, 1992) É uma escala que mede a frequência e a severidade de comportamentos conjugais abusivos (e.g. físicos, emocionais, psicológicos e sexuais) perpetrados sobre a mulher.

DVSRF- Domestic Violence Supplementary Report Form

Esta ferramenta foi desenvolvida para auxiliar os técnicos de apoio à vítima e polícias, na elaboração de planos de segurança nos casos de violência doméstica. O objetivo principal é garantir que os técnicos tenham conhecimento dos principais fatores de risco presentes numa relação violenta.

ODARA- Ontario Domestic Assault Risk

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Os instrumentos acima mencionados permitem-nos obter informações diversificadas num contexto de violência na intimidade como por exemplo; avaliação das dinâmicas conjugais abusivas ex: CTS – Conflict Tactics Scale; a medição da

frequência e severidade do abuso físico e psicológico perpetrado sobre a mulher pelo companheiro, (ex: Index Spouse Abuse; Severity of Violence Against Women Scale)e a

agressividade (A.Q. – Questionário de Agressividade) A Escala de Crenças sobre a

Violência Conjugal (E. C. V. C.) permite-nos obter informações relativamente às

crenças sobre a violência conjugal (Feiteira, 2011). Outros instrumentos (ex: DAS-

Danger Assessment Scale), avaliam o risco de homicídio e/ou de violência mais grave

numa relação e pode ser utilizado por vários profissionais da justiça; criminólogos; saúde; psicologia e serviço social (Matos, 2000 cit. in Matos, 2002).

O SARA – PV- Brief Spousal Assault Form for the Evaluation of Risk, versão

para polícias, foi criado com objetivo de proteger as vítimas e avaliar o risco de violência doméstica (Feiteira, 2011), este instrumento foi adaptado para Polícias, mas pode ser utilizado por outros profissionais, como criminólogos; profissionais da Justiça e da saúde. Este instrumento tem ainda a particularidade de não se destinar só a avaliar as vítimas mas também os agressores.

1.2.2.1. DAS - Danger Assessment Scale de Campbell (2003)

O Danger Assessment Scale (DAS) de Campbell, 2003, é um instrumento de

avaliação de risco para mulheres vítimas de violência nos relacionamentos íntimos heterossexuais. A avaliação é dividida em 2 sessões, na primeira requer que a vítima complete um calendário de forma a detalhar as suas experiências de violência relativamente ao ano transato, ou seja, basicamente a mulher terá que identificar num calendário a data correta ou a mais aproximada em que foi maltratada pelo seu companheiro ou ex-companheiro, durante o último ano. Para cada data assinalada, a vítima deve indicar a gravidade do incidente ocorrido de acordo com a seguinte escala:

1. Bofetadas; empurrões, sem lesões, com ou sem dor prolongada 2. Murros, pontapés, pisadura, fortes com ou sem dor contínua

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24

4. Ameaça do uso de arma, ferimentos na cabeça, ferimentos internos, lesões permanentes, estrangulamento

5. Uso de armas, ferimentos provocados por armas

(Se for aplicado mais do que uma descrição deve-se optar pelo número mais elevado)

A segunda sessão é composta por 20 itens, que contém questões que nos permitem perceber que tipo de violência está presente, a intensidade das agressões; existência ou não de armas etc. Cada um dos itens tem pontuação dicotómica (sim/não), baseada na soma do número total de respostas "sim", considerando-se que o aumento do risco é proporcional ao das respostas positivas (Campbell et al., 2009).

Ou seja para realizar a cotação faz-se a soma do nº total de resposta “SIM” do item 1 a 19, o vigésimo item não é contabilizado. No item 2 soma-se 4 pontos se a resposta for “SIM”; nos itens 3 e 4 somar 3 pontos por cada “SIM”; nos itens 5, 6 e 7, soma-se 2 pontos por cada “SIM”; nos itens 8 e 9, soma-se 1 ponto por cada “SIM”; caso tenha sido assinalada a resposta 3a) terá que se SUBTRAIR 3 pontos por “SIM”. Por fim obtêm-se o número total, que nos permitirá perceber que nível de risco se encontra a vítima. Campbell e colaboradores identificaram 4 níveis de perigo que integravam as pontuações da DAS assim, as pontuações de 0 a 7 foram classificadas como de perigo variável, de 9 a 13 como de perigo acrescido, de 14 a 17 como de perigo grave e pontuação igual ou superior a 18 como de perigo extremo (Campbell et al., 2009).

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Parte II - Proposta de Investigação

2.1. Levantamento de necessidades

Estudos realizados demonstram que existe uma elevada reincidência de violência nas relações de intimidade (Dutton e Kropp, 2000 cit. in Matos, 2011). Neste

sentido pensa-se que a reincidência dos maus tratos nas mulheres poderá ser alimentada por várias situações e circunstâncias, tais como; incapacidade de detetar os sinais de perigo a que está exposta; falta de recursos (económicos; pessoais); apegos emocionais; vergonha; existência de filhos; pressão da família e amigos (Matos, 2002 e Tusher, 2007)

A prevenção da reincidência da violência, através da avaliação de risco é fundamental para a prevenção de maus tratos mais severos e salvaguardar. É importante avaliar a possibilidade da ocorrência da violência, do aumento de frequência e intensidade em casos em que a vítima e o agressor coabitam, para que desta forma seja possível evitar agressões mais graves ou homicídios (Matos, 2011). Estudos feitos neste sentido revelaram que os homicídios intrafamiliares constituem uma parte significativa do conjunto de homicídios, sendo que a maioria desses homicídios são cometidos pelos conjugues, onde a mulher é quase sempre a principal vítima (Silva, 1995 cit. in Matos,

2002). A literatura cita que 90% das mulheres assassinadas são mortas por homens, quase sempre um membro da família, (conjugue ou ex- conjugue) e que cerca de dois terços dessas mulheres mortas pelos seus companheiros já haviam sido maltratadas fisicamente antes de serem assassinadas (Campbell, 1995 cit. in Matos, 2002). A

literatura afirma ainda, que a tomada de decisão da vítima de se afastar do maltratante, não garantem o fim da violência. Pois, hoje sabe-se que o risco de violência severa, tal como o de homicídio tem mais probabilidade de aumentar quando a vítima termina o relacionamento com o agressor (Manita et al., 2009).

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26

conjugais/passionais nos quais 30 das vítimas eram do sexo feminino e 10 do sexo masculino (RASI, 2013).

No que diz respeito à relação entre vítimas e homicidas, verificamos que continua a ser na sua grande maioria o grupo dos homens com quem as mulheres mantêm uma relação de intimidade. Verifica-se ainda que as relações de intimidade representam 73% do total dos femicídios noticiados. Dos dados recolhidos, indicam que existe uma maior tendência de vitimização das mulheres por parte daqueles com quem elas mantém ou mantinham uma relação, (casamento, união de fato, maridos, ex-companheiros, ex-namorados, namoro ou outro tipo relação de intimidade) (RASI, 2013).

Os dados estatísticos do Observatório das Mulheres Assassinadas (OMA) revelam ainda que a presença de situações de violência na relação já era conhecida por familiares, vizinhos, amigos e muitas delas já haviam sido denunciadas aos órgãos policiais, mas que tal não foi suficiente para prevenir a revitimização ou as agressões mais severas. Os dados estatísticos da UMAR, mostram-nos que em 15% dos casos de violência na intimidade, já existiam denúncias anteriores de VD e em algum dos casos, o homicida já tinha sido condenado pelo crime de violência doméstica (UMAR, 2013).

Perante os resultados das estatísticas feitas todos os anos, optou-se por elaborar um projeto que possa ajudar a minimizar os homicídios contra a mulher nos relacionamentos íntimos. Como a melhor forma de minimizar e/ou eliminar os riscos de violência é preveni-lo, o projeto de intervenção propõem a utilização de dois instrumentos, para avaliar o risco de revitimização e o risco de homicídio conjugal de vítimas do sexo feminino, em relacionamentos heterossexuais.

2.1.1. Objetivos gerais e específicos do programa

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27

aplicar estratégias de prevenção para eliminar ou minimizar a revitimização das vítimas e as agressões mais graves, que possam culminar em homicídios. À parte realização da entrevista de avaliação de revitimização e utilização da Checklist da avaliação do risco de homicídio será entregue à vítima um calendário para sinalizar as agressões, permitindo aos técnicos adquirir informação relativamente à frequência e escalada das agressões, para auxiliar na aplicação de medidas de segurança mais adequadas às vítimas.

Assim em termos de objetivos específicos procuramos atingir os seguintes:

• Dotar os TAV a desenvolver competências para a aplicação das estratégias de prevenção mais adequadas para cada vítima;

• Ajudar os TAV a desenvolver um melhor acompanhamento de “pós-vitimização” para prevenir uma situação de revitimização;

• Fazer os TAV adquirir consciencialização de fatores/causas que possam contribuir para a uma revitimização

Melhorar as suas competências e formação para uma melhor qualidade de serviço nos atendimentos às vítimas.

2.2. Método

Este projeto de investigação é predominantemente de natureza qualitativa, não obstante fazer-se a recolha também de dados quantitativos, pressupondo-se por isso uma investigação de tipo mista.

2.2.1. Amostra

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28 2.2.2. Instrumentos

A recolha de dados decorrerá em quatro fases (Anexo I) e implicará o uso de vários instrumentos. Na primeira fase será entregue à vítima uma ficha sociodemográfica composta por 8 questões de escolha múltipla, que permitem recolher os dados pessoais da vítima e caraterísticas do relacionamento com o agressor (Anexo II). Na segunda fase, requer que a vítima complete um calendário de forma a detalhar as suas experiências de violência na intimidade durante o ano transato. A mulher terá que identificar no dito calendário a data correta ou a mais aproximada em que, durante o último ano, foi maltratada pelo seu companheiro ou ex-companheiro, e para cada data assinalada deve indicar a gravidade do incidente ocorrido de acordo com uma escala predefinida (cf. p. 24).

A terceira fase é composta pela Checklist de revitimização (Anexo III), construída com base estrutura da Danger Assessment Scale de Campbell (2003), contém

apenas com 12 questões de respostas SIM/NÃO. Para poder obter o grau de risco de revitimização a que a vítima está exposta. As questões foram elaboradas com base em informação que foi retirada da revisão de literatura (Dutton, 1996; Tusher 2007 e Matos, 2011).

A atribuição da cotação às questões foi feita com base no conteúdo das questões (que segundo a literatura) ou seja, as questões que apresentam a situação de revitimização têm a cotação mais alta. Por exemplo as questões que têm a cotação mais elevada são: o nº 1 e nº 3, se analisarmos bem, a vítima ao responder “SIM” já está a confirmar uma situação de revitimização (1- À parte deste relacionamento, já tinha sido vítima de violência doméstica? / 3- Voltou para ele depois de se terem separado?). O mesmo acontece com as outras questões escolhidas para serem contabilizadas, as cotações mais baixas foram atribuídas às questões que de alguma forma não contribuem tanto como as outras (as que tem maior cotação) para o aumento do risco de revitimização.

Os resultados são obtidos através de uma cotação atribuída a 10 questões, distribuída da seguinte forma:

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por cada SIM nos itens 8, 11 e 12 e subtrair 3 pontos se a resposta 3.1 for assinalada. Por fim obtêm-se os resultados mediante a seguinte classificação; Menos de 8- risco baixo; entre 9-13 - risco médio e mais de 13 – risco elevado.

Na quarta e última fase é composta pela Checklist de avaliação de homicídio baseada na Danger Assessment Scale (DAS) de (Campbell, 2003) e que foi traduzida

para português e está a ser utilizada pela APAV. É de carácter confidencial e anónimo, todos os dados recolhidos serão só para utilização deste estudo. Esta Checklist é dividida em duas partes: a primeira folha contém um calendário e a segunda uma Checklist com 20 questões, que contém questões que nos permite perceber que tipo de violência está presente, a intensidade das agressões; existência ou não de armas etc. Cada um dos itens tem pontuação dicotómica (sim/não), esta pontuação é baseada na soma do número total de respostas "sim", considerando-se que o aumento do risco é proporcional ao das respostas positivas. Ou seja para realizar a cotação o vigésimo item não é contabilizado, contabiliza-se só o nº total de resposta “SIM” do item 1 a 19, e alguns dos 19 itens. Por exemplo, no item 2 soma-se 4 pontos se a resposta for SIM; nos itens 3 e 4 somar 3 pontos por cada SIM; nos itens 5, 6 e 7, soma-se 2 pontos por cada SIM; nos itens 8 e 9, soma-se 1 ponto por cada SIM; caso tenha sido assinalada a resposta 3a) terá que se SUBTRAIR 3 pontos por SIM. Por fim obtêm-se o número total, que nos permitirá obter o nível de risco de homicídio a que a vítima se encontra. A classificação é feita da seguinte forma; menos de 8 pontos: Risco variável / entre 8 a 13 - Risco aumentado/ entre 14 a 17 – Risco severo/ Mais de 18 – Risco extremo (Anexo IV).

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30 2.2.3. Procedimento

Antes de realizar a recolha de informação junta da amostra é necessário fazer um pedido à APAV para conseguir permissão para recolher os dados para a projeto de investigação no GAV de Braga (Anexo V). De seguida é importante obter a autorização da autora (Campbell) (Anexo VI) e das tradutoras (Marlene Fonseca e Rosa Saavedra) da Checklist de avaliação de risco (Danger Assessment Scale de Campbell, 2003) para

poder utilizar como instrumento de avaliação (Anexo VII).

Depois de concedidas as autorizações para realizar o projeto, já no terreno é necessário perceber se a vítima se encontra em condições emocionais e psicológicas para se proceder à realização da avaliação (visto que a avaliação terá que ser feita na primeira consulta). Caso a vítima não esteja ainda preparada é necessário marcar outra consulta para fazer a avaliação. Numa primeira fase para uma melhor intervenção é fundamental apresentar e descrever o instrumento de avaliação, para que a mulher tenha conhecimento do objetivo deste instrumento e para que esta possa perceber em que sentido esta avaliação pode ser uma mais-valia, cooperando na aplicação e dê o consentimento informado para o estudo (Anexo X).

Os instrumentos de avaliações de risco bem como a ficha sociodemográfica e os calendários serão entregues às mulheres vítimas de violência doméstica de 1 de Maio de 2015 a 1 de Maio de 2016. Primeiro será feito o levantamento das necessidades que decorrerá do mês de Maio a Junhos, e só depois serão entregues as avaliações de risco que serão divididas em 4 fases; 1ª fase – Ficha sócio - demográfica, que terá a duração máxima de 10 minutos; 2ª fase - Calendário, para sinalização de atos violentos, com a duração máxima de 10 minutos; 3ª fase – instrumento de avaliação de risco de homicídio, Danger Assessment Scale, com a duração máxima de 35 minutos e 4ª fase – a Checklist de avaliação do risco de revitimização, com a duração de 20 minutos.

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31

fim, procede-se ao tratamento das informações de acordo com os procedimentos de análise qualitativa prevista pelos instrumentos usados.

2.3. Tratamento de Dados

Nesta fase proceder-se-á à quantificação dos dados obtidos a partir dos vários instrumentos de forma a poder obter o grau de risco. Com o auxílio de uma grelha de verificação de condições analisa-se o conteúdo recolhido da amostra, comparando os enunciados entre si, analisando se existem conceitos que os unifiquem e caso haja temas diferentes será necessário encontrar semelhanças entre eles, de forma a poder obter um resultado final uniforme.

No que diz respeito à ficha sociodemográfica e aos calendários, o procedimento será o mesmo, estes resultados permitirão traçar um perfil das vítimas e fornecer indicações a respeito da intensidade e da frequência da violência exercida sobre as vítimas nos dois últimos anos.

2.4. Apresentação dos resultados

Com este projeto de investigação pretendesse alcançar vários resultados sendo que todos eles são importantes para a contribuição de uma melhor intervenção junto das vítimas. A ficha sociodemográfica entregue às vítimas, tem como principal objetivo obter a caraterização sociodemográfica das mulheres vítimas de violência doméstica que recorrem ao Gabinete de Apoio à Vítima (GAV) da Associação de Apoio à Vítima (APAV) de Braga, desta forma será possível adquirir um perfil das vítimas que recorrem ao gabinete (ex: idade; sexo; estado civil; habilitações literárias etc.). Com os calendários que serão entregues às vítimas espera-se ser possível perceber se a violência exercida sobre ela foi aumentando de frequência e/ou intensidade ou se simplesmente as formas de violência se foram alterando (ex: deixa de exercer violência física e passa a usar a violência psicológica, etc.).

Referências

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