Recebido em: 19/08/2019 Aprovado em: 25/08/2019
Editor Respo.: Veleida Anahi - Bernard Charlort Método de Avaliação: Double Blind Review Doi:http://dx.doi.org/10.29380/2019.13.23.06
A PESQUISA CIENTÍFICA EM SEGURANÇA PÚBLICA: DECISÕES ESTRATÉGICAS BASEADAS NOS ATIVOS TANGÍVEIS E INTANGÍVEIS DA POLÍCIA MILITAR DA BAHIA (PMBA)
EIXO: 23. PESQUISA FORA DO CONTEXTO EDUCACIONAL JOSETE BISPO RIBEIRO
Resumo
No presente artigo, promove-se uma discussão sobre a importância da pesquisa científica, realizada fora do contexto educacional, como suporte para decisões estratégicas em Segurança Pública, tendo como campo de investigação a pós-graduação da Polícia Militar da Bahia (PMBA). Emolduramos alguns elementos cruciais para a competitividade das organizações, a exemplo do Patrimônio
Intelectual e dos Ativos Intangíveis, que, disponíveis para o alto escalão hierárquico da corporação,
são considerados potencialmente eficientes e eficazes para o delineamento das suas ações e atividades. As práticas de gestão do conhecimento na PMBA, as quais visam, sobretudo, consolidar os saberes e a expertise dos membros da corporação, são referenciais valiosos para o enfrentamento dos conflitos que emergem das diversas instâncias sociais, no que concerne à segurança pública e às demandas dela advindas.
Palavras Chave: Pesquisa Científica, Patrimônio Intelectual, Ativos Intangíveis, Decisões Estratégicas, Polícia Militar da Bahia (PMBA).
Abstract
In the present article, promote a discussion about the importance of scientific research, fulfilled outside of the educational context, as support to strategic decisions in public security, having as research field the pos-graduation of Bahia Military Policy (PMBA). We frame some crucial elements to organizations competitiveness, for example, Intellectual Property and Intangible Assets, that, available to the top hierarchical level of the corporation, are considered potentially efficient and effective in outlining their actions and activities. The management practices knowledge in the PMBA, which aim, mainly, consolidate, the know and the expertise the corporation’s members, are value references to confrontation of conflicts that emerge a lot of social instances, that concern the public security and her demands
Key Word: scientific research, intellectual patrimony, Intangible Assets, strategic decisions, Bahia Military Policy (PMBA)
Resumen
Este artículo promueve una discusión sobre la importancia de la investigación científica, realizada fuera del contexto educativo, como apoyo a las decisiones estratégicas en Seguridad Pública, teniendo como campo de investigación el postgrado de la Policía Militar de Bahía (PMBA). Hemos enmarcado algunos elementos cruciales para la competitividad de las organizaciones, como el Patrimonio Intelectual y los Activos Intangibles, que, disponibles al más alto nivel jerárquico de la corporación, se consideran potencialmente eficientes y efectivos para describir sus acciones y actividades. Las prácticas de gestión del conocimiento en el PMBA, que tienen como objetivo, sobre todo, consolidar el conocimiento y la experiencia de los miembros de la corporación, son referencias valiosas para la confrontación de los conflictos que surgen de las diferentes instancias sociales, en materia de seguridad pública y sus demandas.
Palabras clave: Investigación científica, Patrimonio intelectual, Activos intangibles, Decisiones estratégicas, Policía Militar de Bahía (PMBA).
INTRODUÇÃO
No atual contexto de transformações constantes, em que a comunicação se processa pelas redes de conectividade, advinda de um cenário globalizado, marcado pela interação entre mundos distintos, os gestores das organizações deverão, necessariamente, basear-se no conhecimento para garantirem a eficácia em seus processos decisórios. Neste aspecto, o conhecimento tem contribuído de maneira relevante para apontar soluções para os problemas complexos da sociedade tornando-se, recorrendo à Smith e Mckeen (2004), elemento decisivo para a valoração das organizações.
A relevância dada ao conhecimento nas instituições fortalece a sua representatividade na sociedade, servindo de influência sobre outras organizações, na medida em que asseguram liderança competitiva e confiabilidade no campo em que atuam. A busca por processos e ações que intensifiquem a constante aprendizagem e, por corolário, o aperfeiçoamento das suas técnicas específicas, imprimem notoriedade na imagem que se projeta para a população, tornando-se amplificadores positivos das ações cotidianas do seu mister profissional.
A Polícia Militar da Bahia (PMBA) é, essencialmente, uma organização cuja imagem tem vasta repercussão social, haja vista a sua representatividade junto à sociedade. Neste sentido, o empenho na busca e difusão dos conhecimentos gerados em benefício daqueles que dela necessitam, passa a ser um esforço contínuo de investigação científica e, graças a isso, de geração de conhecimento em segurança pública.
Considerando o conhecimento desenvolvido através da pesquisa científica, fora do contexto educacional tradicional, no Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública (PGSP)[1], realizado pela PMBA, é possível associar o seu potencial científico às demandas basilares do cotidiano profissional da Corporação, validando-a como elemento estratégico para os processos decisórios habituais, na medida em que contribui para apontar soluções para os problemas complexos relacionados à área de segurança pública.
No programa acima referenciado, empreendemos uma sistematização de dados selecionados do Curso de Especialização em Gestão Estratégica em Segurança Pública (CEGESP), por se tratar de um momento no qual se reúnem parte dos Oficiais Superiores, diretamente envolvidos em comando de unidade operacionais e funções estratégicas da Corporação, sendo, futuramente, integrantes do alto escalão e responsáveis por decisões estratégicas que irão repercutir diretamente nos destinos da corporação e, por consequência, da sociedade como um todo.
1. Gestão do Conhecimento Organizacional na PMBA: Um campo científico fora do contexto educacional tradicional.
Sejam nas organizações empresariais, sejam nas esferas institucionais, a Gestão do Conhecimento Organizacional (GCO) tem adquirido notoriedade, na perspectiva de se administrar melhor a informação. Os conceitos acerca do tema direcionam para o valor do conhecimento, já que este é um suporte para o alcance dos objetivos organizacionais, qual seja: a busca pela eficácia nos resultados e competitividade no campo que atua.
A Gestão do Conhecimento Organizacional é um campo de investigação multidisciplinar que é transversal a áreas como os sistemas de informação,
ciências da computação, gestão de recursos humanos e ciências organizacionais entre outras, que se destinam a promover nas organizações, uma espécie de partilha e reutilização do conhecimento, nomeadamente as competências individuais e de Grupo. Com o objetivo de melhorar a qualidade, aumentar a eficiência, aumentar a satisfação dos clientes e colaboradores, reduzir o risco e capitalizar o conhecimento, através da imaginação, experiência e experimentação. (PINTO e AMARAL, 2014, p. 3) Serrano e Fialho (2003) afirmam que a GCO envolve uma gama de processos, desde a criação até o uso e difusão de conhecimentos nas organizações, centrados numa aprendizagem contínua. Nonaka e Takeuchi (1997) reforçam essa ideia quando afirmam que “a criação do conhecimento organizacional é um processo interminável que exige inovação contínua” (1997, p. 139) para evitar a sua obsolescência.
Adicionalmente, Pimentel (2008), reforça a necessidade constante de se aprimorar esse conhecimento:
[...] não basta que a organização estimule a criação de conhecimento e inovação. É preciso também criar um sistema que facilite o armazenamento, recuperação e, principalmente, o acesso ao conhecimento, condizente com a missão da empresa e que auxilie sua estratégia de negócios.
O gerenciamento do conhecimento deve ter como objetivo auxiliar a estratégia de negócio e não ser um fim em si. Para isso deve envolver aspectos tecnológicos, mas, sobretudo, envolver as pessoas para que o sistema seja efetivamente usado e contribua com os objetivos estratégicos da empresa. (Pimentel, 2008, p. 36-37)
Para Awad e Ghaziri (2004), a GCO é o processo de capturar e fazer uso da experiência coletiva de uma empresa; é conhecimento documentado em um sistema integrado, cujo tripé básico de sustentação são: as pessoas, a tecnologia da informação e os processos organizacionais. Tiwana (2000) propõe três estágios que envolvem o processo de geração e gestão do conhecimento: a) A aquisição do conhecimento, onde criam-se e desenvolvem-se as ideais, habilidades e relacionamentos; b) O compartilhamento de conhecimento, disseminação e disponibilidade do conhecimento construído e, c) A utilização do conhecimento, quando o conhecimento é integrado à estrutura organizacional.
Para Kuhn (2011), “a ciência normal não se propõe descobrir novidades (...). Entretanto, fenômenos novos e insuspeitados são periodicamente descobertos pela pesquisa científica”. (2011, p. 77). Isso significa dizer que uma das principais características da pesquisa científica é estar constantemente apresentando teorias radicalmente novas para o tratamento de antigos e novos problemas, como resultado de investigações realizadas nos seus campos científicos próprios.
Leite, (2004), relembra que Bourdieu (1983) introduziu o conceito de campo científico referindo-se ao ambiente onde ocorre a construção do conhecimento científico. Em sua visão, um campo pode ser definido como uma configuração de relações objetivas entre posições de força ocupadas pelos agentes ou instituições, sendo comandadas as estratégias pelas quais os ocupantes dessas posições buscam conservar e/ou melhorar suas posições dentro da hierarquia ali existente. Isso nos leva a compreender o quão deve ser incessante a busca pela verdade, a partir dos saberes, e da legitimação
destes perante a sociedade.
Esta noção de campo científico, é possível associar ao PGSP, considerando-se que, no referido espaço, suscitam-se questionamentos, discutem-se possibilidades, pontuam-se hipóteses, elaboram-se propostas de ações e são traçadas as metas para, por meio do conhecimento desenvolvido, chegar às soluções esperadas no processo da investigação. Enfim, nesse campo da pesquisa – especificamente relacionado à segurança pública – o conhecimento ultrapassa os muros da instituição e culmina na prática social. É, seguramente, possível perceber o fazer científico no âmbito deste programa, com perspectivas de aplicabilidade dos seus resultados para fins de excelência e qualidade aos seus propósitos.
Leite (2004), ressaltando Bourdieu (1983), nos diz que as práticas científicas estão orientadas para aquisição da autoridade científica, e esta, por sua vez, é traduzida em prestígio, reconhecimento e credibilidade.
A luta pela acumulação do capital intelectual envolve a busca de prestígio, reconhecimento e pelo posto de líder na ciência por meio de projetos, publicações, a participação em comissões, o aceso às cartas de financiamento. Entretanto, o interesse do pesquisador vai além das atividades científicas. A autoridade científica oferece ao pesquisador o capital social, este proporciona poder sobre mecanismos constitutivos e influencia as trocas na área científica. (LEITE, 2004, p. 43).
Apesar de não se constituir, originalmente, um lócus depositório de informações dotadas de cientificidade, o PGSP, através da sua pesquisa científica, oferece legitimidade dos saberes que são constituídos por especialistas em segurança pública, na medida em que contribuem para o fortalecimento e legitimidade do saber científico ali produzidos. Dessa forma, a gestão do conhecimento neste programa realiza-se com os objetivos de ampliar e melhorar os procedimentos profissionais do cotidiano natural de atuação da PMBA.
2. A Pesquisa Científica no Programa de Pós-Graduação Lato Sensu da Polícia Militar da Bahia (PMBA)
O atual modelo de desenvolvimento, em nível mundial, possui elementos que estão diretamente relacionados ao avanço tecnológico. Inovadoras ferramentas de acesso a produtos e serviços, em meio virtual, viabilizam um maior envolvimento interrelacional entre os povos, favorecendo a disseminação do conhecimento e da informação, redesenhando, por consequência, a formatação e importância da ciência. Resende (s/d) ressalta a crescente importância dada à ciência, no âmbito das sociedades, sendo eleita como um modo privilegiado, ou mesmo único, de se alcançar o conhecimento da verdade. Barnes et al. (1972 apud RESENDE, s/d) afirmam que, em detrimento de outras formas de se produzir conhecimento, a ciência goza de alta consideração na sociedade moderna, de modo que a autoridade de suas declarações é aceita em um vasto domínio, sendo, para muitos, considerada como a fonte suprema de convalidação do conhecimento, o tribunal final de apelação.
No cerne desses acontecimentos, o processo de investigação científica, lastreado pelos instrumentos tecnológicos, tomou dimensão e abrangência consideráveis. Para Castells (2000), nos vários segmentos da atividade humana, a evolução tecnológica possibilita um aumento na disseminação da
informação e, por conseguinte, vai mudando rapidamente a execução dos processos, gerando um leque de opções na produção de bens, na oferta de serviços e também na geração de conhecimento. De forma similar, Carreiro (1995) afirma que a revolução microeletrônica e a informática foram determinantes para as mudanças na organização do trabalho, nas articulações empresariais, na regulação entre capital e trabalho, no surgimento de novas formas de produção, na gestão participativa e na apropriação do conhecimento. É a era da gestão da informação e do conhecimento, a nova ordem mundial, que traduz a enorme capacidade de armazenamento de informações e que, por meio da tecnologia microeletrônica, passou a ser elemento fundamental à disposição das pessoas e das empresas para utilização imediata.
Nesse contexto de avanço tecnológico e informacional, o universo de atuação profissional do policial militar também foi palco de transformações estruturais e significativas e, por extensão, as atividades funcionais dos policiais passaram “... a estar condicionadas a novos conhecimentos, técnicas, habilidades e atitudes, tanto individuais quanto coletivas, envolvendo essencialmente um aumento da capacidade cognitiva policial” (FERRO JÚNIOR; DANTAS, 2006, p. 4). Ancorado nesse entendimento é que a produção científica institucional, originária do CEGESP, além de agregar valor ao patrimônio intelectual da instituição, permite aperfeiçoar o mister do profissional policial militar.
2.1 A Pesquisa Científica Institucional: Uma concepção estratégica da Gestão do Conhecimento Institucional
É fato que a pesquisa desempenha papel fundamental na consolidação da universidade como espaço para a produção e disseminação do conhecimento. Elemento indissociável do ensino e da extensão, ela constitui-se como um trabalho investigativo e criativo, representando um avanço em relação ao esforço coletivo já empreendido por cientistas das diversas áreas de conhecimento em que é realizada.
A pesquisa cientifica visa, basicamente, contribuir para a evolução do conhecimento humano em todas as áreas, de modo que o pesquisador tem papel fundamental no desenvolvimento de um país; ele, no esforço cognitivo da investigação, busca aplicar o capital intelectual próprio, do campo ao qual pertence e em prol deste, tendo em vista que “... fenômenos novos e insuspeitados são periodicamente descobertos pela pesquisa científica”. (KUHN, 2011, p. 77).
Rudio (1986, apud DANTAS, 2013, p. 14), sintetiza o conceito de pesquisa: “(...) no sentido mais amplo, é um conjunto de atividades orientadas para a busca de um determinado conhecimento”. Trata-se de um conceito que estava restrito ao ambiente científico, mas que, modernamente, se estende às esferas organizacionais e institucionais, as quais perceberam o quão fundamental tem sido essa ferramenta, a fim de tornar mais seguras as decisões relacionadas às áreas em que atuam.
Tais pressupostos permitem que se categorize como institucional a pesquisa científica desenvolvida na PMBA, tendo em vista que os saberes ali partilhados resultam do esforço coletivo de pesquisadores comprometidos com a resolução dos problemas os quais emergem da instituição e, igualmente, fora dela. Ademais, as abordagens temáticas que circulam nos seus espaços físicos estão em consonância com a sua atividade finalística, numa perspectiva de converter o aprendizado teórico em atividade prática e cotidiana.
Dantas (2013) alerta para os riscos que constantemente circulam nas organizações, sendo, pois, necessário e prudente que as decisões sejam tomadas com base em fontes de informações confiáveis
e de boa qualidade, daí a importância do ato de pesquisar.
A pesquisa, então, passou a ser uma espécie de complemento indispensável à obtenção de informação, além de servir como provedor de informação para os sistemas de informação, seja com o objetivo de busca de novas informações, seja com o objetivo de atualização de informações (DANTAS, 2013, p. 14).
Podemos afirmar, pois, que a produção do conhecimento, em grande escala, no contexto institucional, aponta para a disseminação e o uso do conhecimento geral. Isso significa dizer que as instituições constituem-se num sistema global de repositório de informações transformadas em conhecimento, o qual deve, seguramente, ganhar visibilidade, aceitabilidade e, sobretudo, aplicabilidade frente às recorrentes demandas sociais.
Nesta perspectiva, fica evidente a compreensão da relação de casualidade entre o conhecimento e a pesquisa, visto tratar-se de uma fusão necessária para que os saberes se consolidem e adquiram legitimidade no âmbito da sociedade. A ciência está refletida, portanto, nas problemáticas que inquietam pesquisadores, os quais buscam, por meio de hipóteses, alcançar soluções nos segmentos em que estão inseridos. A PMBA, particularmente, elege como sujeitos da pesquisa os membros da própria Corporação, considerando-se as demandas que advêm do seu campo de atuação, isto é, a manutenção da segurança pública no estado da Bahia. Na tentativa de solucionar problemas, o CEGESP assume o papel de protagonista na pesquisa científica, para dela extrair respostas e adotar procedimentos na sua prática de gestão do conhecimento institucional.
2.1.1 A Pesquisa Científica Institucional como instrumento de Gestão do Conhecimento Organizacional na PMBA.
O conhecimento científico constrói-se a partir da existência de uma rede complexa de relações sociais envolvendo tanto a comunidade científica quanto a sociedade visando, necessariamente, a busca por soluções frente aos problemas que assolam a humanidade. Assim, o conhecimento é compreendido não apenas pela busca do bem e da verdade, baseado na razão e em direção ao progresso, que é uma das suas propostas, mas também pela sua prática social, de modo que está sujeito a determinantes culturais, sociais, econômicos e à história individual do pesquisador.
Neste aspecto, o CEGESP reúne parte do Patrimônio Intelectual da instituição num esforço de pesquisa e reflexão acerca dos problemas que envolvem a atividade finalística da Corporação. Em consonância com esta reflexão, Dionne e Laville (1999), nos diz que
[...] para sobreviver e facilitar sua existência, o ser humano confrontou-se permanentemente com a necessidade de dispor do saber, inclusive de construí-lo por si só (...) Ele o fez de diversas maneiras antes de chegar ao que hoje é julgado como o mais eficaz: a pesquisa científica. (1999, p. 17) Reconhecendo tal importância, o Ciclo de Geração do Conhecimento no CEGESP (Quadro 1), expressa o seu potencial enquanto instrumento de Gestão do Conhecimento Institucional, através da pesquisa científica, na medida em que, a articulação entre as partes, consegue promover uma interlocução entre os ativos tangíveis e intangíveis da PMBA, redundando em valiosos referenciais
para a tomada de decisão em nível institucional.
Correlacionando com os estágios de Tiwana(2000), podemos afirmar que a Etapa Inicial do Curso, os Inputs, onde são disponibilizados os Recursos Humanos e o Investimento Financeiro, juntamente com a Etapa Intermediária do Curso, onde as atividades se realizam, correspondem aos estágios de “Aquisição do Conhecimento”, cujo foco é, fundamentalmente, realizar a construção do conhecimento. Os Outputs, existentes na Etapa Final do Curso, correspondem ao estágio de “Compartilhamento do Conhecimento”, tendo em vista que é o momento onde são disponibilizados os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC).
Quadro 1 – O Ciclo de Gestão do Conhecimento Organizacional no CEGESP
INPUTS – ETAPA INICIAL DO CURSO
Ativos
Intangíveis AtivosTangíveis Propósito pedagógico Recursos Humanos (Professores, Funcionários, Instrutores) Valores monetários (Recursos Financeiros)
Pagamentos de professores das disciplinas do curso, de professores de Metodologia do Trabalho Científico (MTC) e de professores-orientadores, além de funcionários
administrativos
Custeio de Visitas Técnicas e Viagens de Estudo ETAPA INTERMEDIÁRIA DO CURSO
Aulas teóricas e práticas; Atividades complementares; Visitas Técnicas; Viagens de Estudo; Intercâmbio técnico-profissional Multireferencial; Pesquisa Científica; Palestras, outros.
OUTPUTS – ETAPA FINAL DO CURSO
Ativos
Intangíveis AtivosTangíveis Propósito social e profissional Patrimônio Intelectual da Corporação Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)
Maior qualidade nas atividades finalísticas por parte dos policiais militares
Repositório de informações científicas sobre as temáticas da atividade finalísticas da PMBA
Fonte: Elaboração da autora.
Dessa forma, atuando com instância que busca solucionar problemas, tendo como vetor importante a pesquisa, a PMBA passa a integrar a “comunidade científica” propagada por Kuhn (1974). Segundo o autor, para definir o que seja uma comunidade científica, não basta enumerar os indivíduos que dela fazem parte. Kuhn (1974, p. 356) se refere a uma comunidade científica como um grupo de praticantes de uma especialidade científica, os quais se encontram unidos por elementos comuns que foram incorporados por meio da iniciação científica. É no ambiente oferecido pela comunidade científica que os cientistas se veem a si próprios e são vistos pelos outros como os responsáveis pela resolução de um conjunto de problemas.
Ao desenvolver tal conceito, o propósito do autor era pensar a ciência como uma atividade coletiva, e, para que esta pudesse realmente ser constituída, fazia-se necessário ter um espaço único, próprio, adequado, de modo que ela pudesse ser desenvolvida com alguma legitimidade. Assim, pode-se afirmar que essa legitimidade é alcançada pela PMBA, na medida em que se trata de indivíduos os quais estão circunscritos em um campo de saberes específicos, conforme aponta Bourdieu, qual seja, a melhoria na qualidade dos serviços prestados na área de segurança pública. Nesse caso, uma comunidade científica passa a ser entendida como uma instituição, ou seja, é algo diferente do que
uma simples união, junção de cientistas.
2.1.2 O curso de Especialização em Gestão Estratégica em Segurança Pública (CEGESP): Encontro de Ativos Intangíveis na PMBA.
Os Ativos Intangíveis são definidos por Hendrinksen e Van Breda (1999) como sendo bens incorpóreos, imateriais que podem gerar benefícios econômicos futuros prováveis, obtidos ou controlados por dada entidade, em consequência de transações ou eventos passados. Estes ativos, identificados no CEGESP como sendo os Oficiais Superiores da PMBA, geram tais benefícios a partir do momento em que, ao concluir o curso, estarão melhores capacitados, para gerir a corporação e prestar melhores serviços à sociedade.
Por fazer parte da composição do PGSP, o CEGESP pode também ser categorizado como uma Comunidade Científica multirreferencial. Em nível institucional, esse curso conta com a participação de Oficiais Superiores, nos postos de Majores e Tenentes Coronéis, que ocupam funções de comando de Companhias Independentes e Batalhões, respectivamente, na estrutura operacional e de diretor adjunto, nas unidades administrativas e de saúde da PMBA, abrangendo a totalidade da sua estrutura organizacional, além do Corpo de Bombeiros e de profissionais de outros órgãos da estrutura do Sistema de Defesa Social do Estado da Bahia.
Segundo dados da Coordenação de Pós-Graduação Profissional (CPGP) da PMBA, a participação dos Oficiais Superiores revelou uma predominância das patentes de Tenentes-Coronéis (67%). Este dado, amplifica a importância do curso, na medida em que esses Oficiais Superiores são designados para comandar Unidades Operacionais ou dirigir Unidades Administrativas da PMBA e, portanto, necessitam, continuamente, tomar decisões de comando em nível tático e administrativo. Adicionalmente, estes Oficiais devem habilitar-se para tomada de decisões, em nível estratégico, quando do seu ingresso no Alto Escalão da Corporação, na patente de Coronel.
Em nível de capilaridade regional, este curso conta, adicionalmente, com a participação de oficiais superiores integrantes de diversas polícias do território nacional, favorecendo o intercâmbio científico-profissional através das oportunidades de trocas, compartilhamento e socialização de experiências profissionais (Quadro 2).
Quadro 2 – Participação de Pós-graduandos do CEGESP Por órgãos públicos vinculantes, período consolidado, 2015-2018
Órgão vinculante Participação
PMBA 74%
BMBA 9%
PM (UF´s Diversas) 13%
Outros órgãos do Sistema de Segurança Social 4% Fonte: Elaboração da autora.
As informações acerca da Produção Científica por Linhas de Pesquisa (LP), no CEGESP, servem para emoldurar o que denominamos Patrimônio Intelectual da PMBA, o qual, por intermédio dos seus pesquisadores, aqui denominados Ativos Intangíveis, permite-nos identificar o referido curso como um instrumento de Gestão do Conhecimento Institucional. Nesta particularidade, o curso é
dividido em 4(quatro) linhas que correspondem à diferentes áreas do conhecimento, conforme Quadro 03:
Quadro 3 – Linhas de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública (PGSP)
Linhas de Pesquisa do CEGESP
Linha de Pesquisa 01: Gestão de Segurança Pública
1. Políticas de Segurança Pública; 2. Gestão da Informação, do Conhecimento e da Aprendizagem; 3. Comportamento Organizacional; 4. Gestão de Pessoas; 5. Gestão de Operações e Processos; 6. Marketing; 7. Ensino; 8. Pesquisa; 9. Desenvolvimento Tecnológico em Segurança Pública.
Linha de Pesquisa 02: Gestão do Território, Violência e Segurança Pública 1. Papel da Gestão Municipal e dos atores locais na produção de Segurança Pública; 2. Metodologia e instrumentos de gestão urbana e territorial para a prevenção da violência; 3. Atuação dos Conselhos Comunitários de segurança e de outras organizações da sociedade civil na atividade de Segurança Pública; 4. Relação entre indicadores sociais e de criminalidade.
Linha de Pesquisa 03: Estudos Jurídicos
1. Estudos sobre a legislação específica das polícias; 2. Controle legal da atividade policial; 3. Aperfeiçoamento dos institutos jurídicos de Direito Criminal, Direitos Humanos e Ação Policial.
Linha de Pesquisa 04: Saúde do Trabalhador
1. Estudos que abordem temáticas concernentes ao ambiente do trabalho porque reflexiona uma atenção das instituições ao seu público interno. Nesse sentido, estudos como doenças ocupacionais, insalubridade e periculosidade no ambiente de trabalho, conhecimento e minimização de riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos no ambiente de trabalho podem ser incluídos nessas pesquisas.
Fonte: Elaboração da autora.
Sobre a produção científica, os indicadores revelam que, no período consolidado de 2015 a 2018, a predominância dos trabalhos de conclusão de curso na LP1, com 62%, seguida pela LP2 (23%), pela LP3 (11%) e, por último, pela LP4(4%). Tal informação nos possibilita destacar maior densidade científica nas áreas de organização interna (LP1) e de atividade operacional (LP2), o que fortalece o entendimento de que existe uma afinidade pessoal compatível com o interesse institucional por temas aderentes à atividade precípua da PMBA. Tais dados acima apresentados nos permitem refletir acerca da relevância do curso e dos elementos à ele subjacentes (Ativos Intangíveis, Pesquisa e Produção Científica, etc), enquanto práticas de Gestão do Conhecimento, permitindo-nos propor um formato de GCO, com um ciclo completo, que fortaleça e enriqueça o Patrimônio Intelectual da PMBA.
3. Decisões estratégicas baseadas nos Ativos Intangíveis da PMBA.
Os pressupostos que nortearam o estudo possibilitam-nos apreender a noção de pesquisa como um ciclo no âmbito da gestão de conhecimento empreendida pela PMBA. Nesse processo cíclico, os ativos tangíveis e intangíveis são redimensionados, respectivamente a partir do Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC) e do Patrimônio Intelectual. É imprescindível que o CEGESP, nessa prática de capacitação dos Oficiais, saiba administrar esses Ativos Intangíveis, com vistas “... a desenvolver competências profissionais que vão interferir, significativa e positivamente, nas suas atividades cotidianas...” (Ribeiro, (2013:03). Como resultado, a Corporação disporá à sociedade serviços mais eficientes e eficazes no atendimento das suas demandas.
Na perspectiva de alinhar a configuração final de uma proposta de Modelo de Gestão do Conhecimento Institucional, em nível estratégico, para a PMBA, com a fundamentação teórica que orientou o presente estudo, serão utilizadas informações sobre a utilização dos ativos intangíveis para implementação de ações concretas na Corporação, cujo intuito é o de ratificar as afirmações teóricas acerca da importância da pesquisa realizada no âmbito da Organização Polícia Militar, levando em consideração o fato de tais pesquisas serem empreendidas por sujeitos (profissionais da PM) que vivenciam os seus objetos de pesquisa.
Conforme demonstrado no Quadro 4, o Patrimônio Intelectual e os TCCs, fruto do empreendimento cognitivo que emana do CEGESP, poderiam ser utilizados pelo alto escalão da PMBA, como fonte de informação e assessoramento, nos processos decisórios. Assim, é possível perceber nas interconexões da referida ilustração que, a finalização do TCC (Ativo Tangível) e, consequentemente, a consolidação de um Patrimônio Intelectual Corporativo (Ativo Intangível) funcionam na retroalimentação, iniciando novos desdobramentos, legitimando e validando os propósitos da pesquisa no Curso de Pós-Graduação. Dessa forma, conseguimos incluir o terceiro estágio de geração do conhecimento, proposto por Tiwana (2000), qual seja: A utilização do conhecimento.
Quadro 4 – Proposta Gestão do Conhecimento Organizacional para tomada de decisões estratégicas na PMBA
INPUTS – ETAPA INICIAL DO PROCESSO DECISÓRIO: IDENTIFICAÇÃO DO
PROBLEMA
Ativos Intangíveis AtivosTangíveis Propósito decisório Patrimônio Intelectual da Corporação Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)
Apresentar subsídios e diagnósticos sobre os mais diversos problemas, internos e externos,
relacionados às atividades finalísticas da instituição, ao Alto Escalão da Corporação ETAPA INTERMEDIÁRIA DO PROCESSO DECISÓRIO: ANÁLISE E PARECER
Reuniões institucionais para análise, discussão e parecer acerca dos problemas
demandados pela sociedade associando-os aos levantamentos previamente diagnosticados nos trabalhos científicos do CEGESP
OUTPUTS – ETAPA FINAL DO PROCESSO DECISÓRIO: IMPLEMENTAÇÃO
DAS AÇÕES
Qualidade profissional Representatividade Institucional Satisfação Social Criação de Unidades Reestruturação Curricular Implementação de ações de combate à violência e criminalidade
Qualificação e Aperfeiçoamento das práticas policiais militares
Atendimento à demandas específicas da área de Segurança Pública
Solução ou Minimização de situações-problema existentes no seio social, cuja responsabilidade está sob a custodia da PMBA
Melhoria nos indicadores e violência e criminalidade, dentre outros assuntos. Fonte: Elaboração da autora.
Importante ressaltar que a pesquisa científica nos cursos de Pós-Graduação da APM tem produzido resultados positivos concretos, quando utilizados como base para a tomada de decisões. A criação e instalação do Escritório Corporativo de Projetos, vinculado ao Departamento de Planejamento, mediante a Portaria n.º 095-CG/12, publicada no Suplemento LJNG n.º 012, de 21 de novembro de 2012, cujas principais ações estão voltadas para estudos e projetos relacionados ao aprimoramento da gestão, foi baseada no trabalho monográfico intitulado “A importância da implantação de um Escritório de Gerenciamento de Projetos na Secretaria de Segurança Pública da Bahia”, de autoria do Cap. PM Lucius Moabe Damásio Monteiro, pós-graduando do programa no ano de 2006.
Referindo-se a mesma portaria, foi criada também uma Coordenação de Estudos, Pesquisas e Gestão da Informação (CEPEGI), cuja finalidade é a realização de estudos, pesquisas e gestão da informação, em assessoramento ao Alto Comando da Corporação com vistas ao desenvolvimento qualitativo de suas ações. Evidencia-se, desse modo, um interesse da PMBA em transformar em práticas concretas o conhecimento construído pelos seus próprios membros.
Outro desdobramento dos Ativos Tangíveis, de grande repercussão, foi a Reestruturação Curricular cujas alterações partiram da pesquisa científica dos trabalhos desenvolvidos nos cursos de pós-graduação da PMBA. Através dos conteúdos científicos, construídos, foi possível ampliar o conhecimento sobre os diversos processos e procedimentos educacionais, nos cursos e estágios realizados pela Academia de Polícia Militar (APM) e pelo Centro de Formação de Praças (CEFAP), melhorando a qualidade da prestação de serviços educacionais da PMBA.
A presença de um permanente núcleo de estudos na PMBA viria, certamente, consolidar os objetivos da Corporação, no que diz respeito ao desenvolvimento de ações estratégicas da PM, tendo em vista que, constantemente, são designadas comissões e grupos de trabalho para realizarem pesquisas e estudos voltados para a implementação de mudanças estruturais e estratégicas como um todo na Corporação.
4. Considerações Finais.
Neste trabalho buscou-se, analisar, a partir da revisão bibliográfica realizada e sob a correlação com os resultados de pesquisa desenvolvidos, as relações existentes entre a Gestão do Conhecimento Organizacional (GCO) e a Pesquisa Científica no âmbito da Polícia Militar da Bahia (PMBA), notadamente aquela originária do Curso de Especialização em Gestão Estratégica em Segurança
Pública (CEGESP), numa tentativa de demonstrar a sua importância enquanto suporte decisório para o Alto Escalão Hierárquico da Corporação.
Os Oficiais Superiores, vistos como Ativos Intangíveis que reforçam o Patrimônio Intelectual da PMBA, produzem Ativos Tangíveis (Trabalhos de Conclusão de Curso – TCC), que servem como base de assessoramento para a tomada de decisões estratégicas do Alto Comando da referida Corporação. Classificamos o CEGESP como uma comunidade acadêmica multireferencial e multi-institucional, tendo em vista que anualmente ele congrega pesquisadores da PMBA (Policiais Militares e Bombeiros), da Polícia Civil (Delegados), do Departamento de Polícia Técnica (Peritos) além de Policiais Militares e Bombeiros de outras unidades federativas. Esta composição reforça o intercâmbio, as interpretações, as discussões e as análises, que são pressupostos previstos nas etapas de aquisição e compartilhamento do conhecimento.
No desenho esquemático de GCO proposto, foram apresentados dados e informações selecionadas do CEGESP num recorte temporal dos últimos quatro anos, cujo formato comprovou que os Recursos financeiros e de Infraestrutura (Ativos Tangíveis) associados aos Recursos Humanos (Ativos Intangíveis) se conformam como Insumos (Inputs) no processo de geração do conhecimento na PMBA. Tais inputs, quando integrados submetidos à uma dinâmica interativa (Aulas Teóricas e Práticas, Atividades Complementares, Visitas Técnicas, Viagem de Estudos, Intercâmbio Técnico-Profissional Multirreferencial, Pesquisa Científica, Palestras, dentre outros) se reconfiguram e se reapresentam na forma de novos Ativos Tangíveis (TCCs) e novos Ativos Intangíveis (Patrimônio Intelectual), ambos trazendo novos olhares e saberes acerca de antigos e novos problemas complexos da segurança pública.
Primamos por mostrar que na produção científica do CEGESP há uma forte predominância de temáticas aderentes às Linhas de Pesquisa 1 e 2 (Gestão de Segurança Pública e Gestão do Território, Violência e Segurança Pública) em detrimento das demais linhas. Isto nos permite afirmar que existe um foco maior das pesquisas voltadas para o diagnóstico, análise e prognóstico de fenômenos internos à instituição, bem como da sua inter-relação com a sociedade em que atua.
Frente às informações e aos argumentos propostos, podemos salientar a contribuição científica do CEGESP, como uma valiosa e potencial prática de GCO na PMBA, no seu nível estratégico. A reprodução constante e contínua de Ativos Tangíveis e Intangíveis representa passos largos na melhoria da qualidade dos serviços prestados, imprimindo elevação da representatividade institucional, seja através de ações internas concretas como Criação de Unidades ou Reestruturação Curricular, seja através de um maior reconhecimento social.
REFERÊNCIAS
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[1] O Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública (PGSP) é composto por dois cursos de Pós-Graduação Lato Sensu, a saber: Curso de Especialização em Segurança Pública (CESP), cuja finalidade é capacitar os Oficiais na patente de Capitão e o Curso de Especialização em Gestão Estratégica em Segurança Pública (CEGESP) cuja finalidade é capacitar os Oficiais Superiores, nas patentes de Majores e Tenentes-Coronéis. Ambos os cursos, são pré-requisitos obrigatórios para a promoção hierárquica na carreira do Oficial.