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O músico Profissional e a docência: desafios e contribuições

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA

LICENCIATURA EM MÚSICA

ERICK FIRMINO RODRIGUES DE SOUZA

O MÚSICO PROFISSIONAL E A DOCÊNCIA: DESAFIOS E CONTRIBUIÇÕES

NATAL/RN 2019

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA

LICENCIATURA EM MÚSICA

ERICK FIRMINO RODRIGUES DE SOUZA

O MÚSICO PROFISSIONAL E A DOCÊNCIA: DESAFIOS E CONTRIBUIÇÕES

Monografia apresentada ao curso de Licenciatura Plena em Música da

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN – como requisito parcial para a obtenção do Grau de Licenciado em Música.

Orientador: Prof. Me. José da Silva Fontes Júnior.

NATAL-RN 2019

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA

LICENCIATURA EM MÚSICA

ERICK FIRMINO RODRIGUES DE SOUZA

O MÚSICO PROFISSIONAL E A DOCÊNCIA: DESAFIOS E CONTRIBUIÇÕES

BANCA EXAMINADORA

________________________________________________ Prof. Me. José da Silva Fontes Júnior

Instituto de Música Waldemar de Almeida (Orientador)

________________________________________________ Profa. Dra. Valéria Lázaro de Carvalho

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN (Avaliadora)

__________________________________________________ Prof. Me. José Simião Severo

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN (Avaliador)

NATAL-RN 2019

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AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador José da Silva Fontes Junior, pela parceria, contribuições e sugestões sempre pertinentes à melhora do conteúdo deste trabalho.

Ao projeto social Ilha de Música e todos que o compõem, representados nas pessoas de seus coordenadores Inês Latorraca e Gilberto Cabral, pela oportunidade de exercer a docência com liberdade de atuação e inteira confiança por parte de ambos.

Aos meus pais, Pedro Firmino de Souza (In memorian) e Maria de Lourdes Rodrigues de Souza (In memorian), pelo amor que me dedicaram na minha formação como ser humano e cidadão.

Aos meus irmãos Evandro, Maria de Fátima, Maria das graças, Maria Araceli e Eriberto (In memorian) pelo incentivo em seguir em frente na profissão de músico e, posteriormente, na profissão docente em música.

A meu filho Antônio Miguel Britto Cunha de Souza, por ser sempre uma grande fonte de inspiração na vida.

À minha esposa Emanuelle Albuquerque de Oliveira Souza, pela cumplicidade, pelo companheirismo, pela crítica construtiva, pelo incentivo e amor que, desde que a conheço, sempre dedicou a mim.

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RESUMO

Este trabalho tem a intenção de relatar um processo de experiência docente vivenciado por mim no Projeto Social Ilha de Música como professor da disciplina de baixo elétrico. O processo metodológico se configurou em duas fases distintas: Período pré-universitário e universitário. O trabalho visa problematizar o conhecimento da minha formação como músico profissional conectado ao mercado comercial de música à condição de aluno universitário, como também os conhecimentos pedagógicos que foram agregados à minha formação como professor no curso de graduação da licenciatura em música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com o objetivo de levar o leitor a uma reflexão sobre essa condição particular de formação docente, suas contribuições e seus desafios.Foram utilizados como aporte teórico textos de Marie Christine Josso, Jason Desidério Bezerra, Cíntia Thais Morato, Ana Carolina Nunes do Couto, José da Silva Fontes Júnior, Vanessa Weber, Delmary Vasconcelos de Abreu e Luciano Luan Gomes Paiva. Ao final, conclui-se que as carreiras de músico profissional e docente se conectam e se retroalimentam de modo positivo.

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ABSTRACT

This paper intends to report a teaching experience process experienced by me in the Social Project Ilha de Música as a teacher of the electric bass discipline. The methodological process was configured in two distinct phases: pre-university and university period. The work aims to problematize the knowledge of my education as a professional musician connected to the commercial music market as a university student, as well as the pedagogical knowledge that was added to my education as a teacher in the undergraduate degree course in music at the Federal University of Rio Grande do Norte, with the purpose of leading the reader to a reflection on this particular condition of teacher education, its contributions and its challenges. The texts used by Marie Christine Josso, Jason Desiderio Bezerra, Cíntia Thais Morato, Ana Carolina Nunes do Couto, José da Silva Fontes Junior, Vanessa Weber, Delmary Vasconcelos de Abreu and Luciano Luan Gomes Paiva. In the end, it is concluded that the careers of professional musician and teacher connect and feed back positively.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... 8 2. ENTRE A PERFORMANCE E A DOCÊNCIA: UM PEQUENO RELATO ... 11 3. REFERENCIAL TEÓRICO ... 15 4. EXPERIÊNCIA DOCENTE NO PROJETO SOCIAL ILHA DE MÚSICA (PERÍODO PRÉ-UNIVERSIDADE) ... 19

4.1 OS ALUNOS DE BAIXO ELÉTRICO DO PROJETO SOCIAL ILHA DE

MÚSICA ... 21 5. EXPERIÊNCIA DOCENTE 2 NO PROJETO SOCIAL ILHA DE MÚSICA

(PERÍODO UNIVERSITÁRIO) ... 24 6. CONCLUSÃO ... 29 REFERÊNCIAS ... 31

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1. INTRODUÇÃO

Nos dias de hoje, é recorrente a situação do músico profissional que tem uma carreira estabelecida procurar como complemento da sua formação o caminho acadêmico, pois, além de enriquecer o seu conhecimento acerca dos conteúdos relacionados à música, pode dar a opção de seguir o caminho da docência ou o aprimoramento da performance.

No meu caso específico, optei pelo caminho da licenciatura por ter convicção de ser vocacionado para essa missão que é a profissão docente, apesar de atuar apenas na escola especializada como professor de baixo elétrico, instrumento no qual desenvolvi uma carreira profissional como músico.

Este trabalho se propõe a estabelecer uma conexão entre esses universos distintos, ou seja, o meio musical profissional e a academia. Mais ainda, este relato de experiência busca evidenciar o que esses diferentes meios podem contribuir entre si e se complementar. Para que essas evidências possam ser compreendidas, busquei inicialmente contar um pouco da minha trajetória como músico e, posteriormente, como professor de instrumento.

Para embasar as discussões que aqui se desenvolvem, foram utilizados as seguintes referências bibliográficas: Abreu (2011), Josso (2004), Bezerra (2015), Morato (2009), Paiva (2019), Weber (2019), Couto (2009) e Fontes Júnior (2018). Esses autores, de alguma forma, abordam o tema aqui proposto e trazem reflexões a respeito.

A decisão de produzir um relato de experiência como metodologia veio justamente por causa da minha condição particular de vivenciar o mercado musical profissional juntamente com o meio docente, condição essa que foi facilitadora tanto na minha formação acadêmica, como também na minha atuação como professor. Nesse sentido, Abreu (2011), buscando colaborar com a compreensão da profissionalização de professores de música, infere sobre essa temática destacando que:

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A partir do momento em que o professor narra a sua trajetória profissional, como professor de música, reconstroem-se os caminhos que levaram a determinados acontecimentos no vir a ser professor de música. Portanto, descrever a profissionalização como narrativa é dar visibilidade às experiências do professor de música nos

contextos em que estão inseridos.(ABREU, 2011, p.157)

Sendo assim, entendo que dar visibilidade à minha formação e atuação docente coloca em evidência o ensino de música em escola especializada, bem como contribui com a intenção de recolocar a temática da formação dos professores como cerne de pesquisa.

O relato de experiência incluso no trabalho se divide em duas partes: a primeira, no capítulo intitulado "Experiência Docente no Projeto Social Ilha de Música (período pré-universidade)", discorro sobre a fase de quando fui professor no período em que ainda não frequentava a universidade, como também a respeito dos alunos que começaram o processo de apredizagem do contrabaixo elétrico nessa fase e perpassando à seguinte. Na segunda parte, no capítulo "Experiência Docente 2 no Projeto Social Ilha de Música (período universitário)", procuro ressaltar a influência da academia na minha atuação em sala de aula. A intenção é desvelar sob a perspectiva que vivenciei, o que a profissão de músico aportou ao meu conhecimento acadêmico e como pôde complementar a minha formação de professor. Por outro lado, também sob a ótica da minha experiência pessoal, evidencio a função fundamental da academia na vida do professor que se vale apenas de sua formação prática como músico instrumentista.

Percebo que a minha formação como músico me capacitou para que os cinco anos de experiência universitária fossem mais bem aproveitados e transcorridos sem maiores intercorrências. Observo também que após o ingresso na UFRN(Universidade Federal do Rio Grande do Norte), a minha forma de atuar como professor sofreu grandes mudanças de postura, de comportamento e, sobretudo, de compreensão do processo de aprender.

Nas considerações finais deste trabalho, problematizo sobre as duas carreiras que aqui foram abordadas e o quanto poderão enriquecer seus universos ao estarem interligadas. Assim concluo minhas reflexões a respeito desse tema que

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reflete uma situação bastante comum na atualidade, ou seja, o músico profissional que trilha pelo caminho acadêmico, seus desafios e suas contribuições.

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2. ENTRE A PERFORMANCE E A DOCÊNCIA: UM PEQUENO RELATO

Neste capítulo, procurei descrever minha trajetória como músico instrumentista atuante no mercado de música popular e mais recentemente como professor de música.

A minha primeira experiência com o mundo musical se deu por meio da minha participação no coral infantil do colégio Marista no final dos anos setenta. Foi uma escolha voluntária e até certo ponto, apesar da pouca idade, consciente, pois a participação no coral do colégio me fez descobrir o gosto pelo canto, o que me proporcionou um contato direto com esse universo.

Em casa, tive a influência direta do meu irmão mais velho, pois, por intermédio dele, descobri os Beatles, o rock progressivo e a Música Popular Brasileira. Foi um processo de aculturação pelo contato direto, visto queo interesse veio por meio da audição das músicas que ele gostava. Só aos 14 anos, também com amigos do colégio, surgiu o gosto pelo heavy metal e a vontade de tocar um instrumento. No primeiro momento, o interesse foi pela guitarra. Procurei uma escola de música que oferecesse o instrumento àquela época.

O meu primeiro professor de guitarra foi o renomado violonista, guitarrista e compositor Roberto Taufic. Os encontros foram breves, pelo fato de o professor ter enxergado em mim um bom potencial para tocar baixo elétrico, assim, a partir daquele momento, nasceu o interesse pelo instrumento em que me especializei e por consequência, mudei de professor. Passei a ter aulas com o professor Aluísio de Brito.

A partir daquele momento, o baixo passou a ser o meu foco principal dentro da música, mas, concomitante, sempre me interessei pela linguagem musical e seus códigos. As primeiras aulas de teoria musical aconteceram um pouco depois sob a tutela do professor Cleudo Freire. Naquela ocasião, já existia o interesse em ser músico profissional. Então, veio a formação da primeira banda, que aconteceu de uma reunião de colegas de colégio. Pouco depois, tornei-me integrante da banda de rock local “Modus Vivendi”.

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O que era diversão no início, passou a ter uma conotação mais séria a partir dos primeiros trabalhos em bares da cidade de Natal. Por essa época, comecei a estudar baixo elétrico com o professor Bergenaldo Wanderley no Instituto de Música Waldemar de Almeida(IMWA). No mesmo período, frequentava os ensaios do coral do próprio Instituto, regido pelo professor Danilo Guanais e por ocasião fui convidado a participar do grupo vocal “De coro e alma”, também regido pelo professor Danilo Guanais. Nesse mesmo período, cursei Harmonia Funcional com o professor Manoca Barreto(In memorian). Acredito que essa fase da minha vida foi determinante, tanto para a minha formação como músico profissional como para minha inserção no mercado de trabalho.

A partir de então, vieram os trabalhos como músico acompanhante de artistas locais e também os primeiros trabalhos como músico de estúdio, além das primeiras experiências docentes na escola especializada Musicália.

No final do ano de 1992, mudei de cidade e passei a morar em Salvador-BA. Por ser uma cidade maior e com a música baiana em efervescência naquele momento, atuei como músico profissional naquela cidade, entre idas e vindas, por um período de 15/16 anos, havendo um hiato de 4 anos entre 1995 e 1999 em que morei na cidade de São Paulo. Na primeira estada na cidade de Salvador, prestei vestibular e passei para cursar Licenciatura em Música na UFBA (Universidade Federal da Bahia) no ano de 1994. Por causa da mudança para São Paulo, tranquei a matrícula (fui jubilado por abandono de curso) e segui para um outro desafio profissional.

No período da estada em São Paulo, concorri a uma vaga na ULM-SP (Universidade Livre de Música do Estado de São Paulo) e passei a cursar Baixo Elétrico com o professor Itamar Collaço na hoje extinta unidade do Brooklin Novo. Pelo fato de ser estudante da instituição, tive a oportunidade de concorrer a uma vaga no Festival de Inverno de Campos de Jordão. Em meados de 1999, participei do citado festival como um dos bolsistas de baixo elétrico do núcleo de música popular.

Após o festival, aconteceu o retorno para a Bahia e o reinício da trajetória profissional, sempre paralela aos estudos do instrumento, harmonia e improvisação.

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A partir da segunda metade do ano de 1999, comecei a trabalhar como baixista com a cantora baiana Margareth Menezes, função a qual exerci por oito anos. Durante essa fase sempre atuei com músicos da cena de música instrumental da Bahia, entre eles, Alex Mesquita (titular da cadeira de guitarra no curso de música popular da UFBA), Luizinho Assis (Pianista e compositor da cena jazzística baiana), Marcelo Brasil (baterista e compositor da cena instrumental baiana) e tantos outros.

Por volta do ano de 2006, aconteceu a segunda experiência docente como professor de baixo elétrico da AMBAH (Academia de Música Bahiana), quando fui convidado pelo Maestro Letieres Leite e por seu sócio Gerson Silva (Importante guitarrista e produtor musical da cena de música na Bahia) para assumir junto com o professor Alexandre Montenegro o ensino do instrumento naquela instituição.

O estudo do baixo elétrico sempre foi a tônica da minha vida musical, mesmo quando fiz cursos e oficinas com outros músicos que não eram baixistas. O conhecimento sobre as diferentes linguagens dentro do universo musical me capacitou para assumir os desafios profissionais, porém, a docência, que naquela fase da minha vida não era prioridade, foi direcionada a um segundo plano.

A partir do ano de 2012, voltei de forma definitiva a morar na cidade de Natal. Voltei a atuar profissionalmente como músico no cenário natalense, porém, aberto a outras vertentes que envolvessem música.

A ONG Ilha de Música apareceu para mim em 2013 como uma oportunidade de docência, ao mesmo tempo que também oportunizou o enfoque do trabalho voluntário com objetivos de inclusão social. Estou no projeto desde então e entre ganhos e perdas, a ONG sobrevive. Nessa instituição, foi possível desenvolver um trabalho contínuo como professor de baixo elétrico e de violão. Pude realmente acompanhar a evolução de alunos que permanecem comigo até hoje e perceber a minha influência em suas formações musicais e por consequência, atitudinais também.

Fiz o ENEM pela primeira vez em 2013, tentando uma vaga no curso de licenciatura em música da UFRN, porém um erro de data fez-me perder o teste de habilidade específica, que na ocasião ainda era promovido de forma presencial. No

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ano seguinte, submeti-me novamente ao ENEM, dessa vez tendo sucesso na aprovação no curso de graduação/licenciatura em música. O início do curso aconteceu em 2015 e desde lá, a minha visão da docência se transformou substancialmente.

No mesmo ano do início da graduação da licenciatura da UFRN, fui convidado junto com um grupo de professores/músicos para lecionar oficinas de instrumentos (no meu caso, baixo elétrico) no Instituto de Música Waldemar de Almeida por meio do então diretor , Sérgio Farias. Desenvolvi esse trabalho durante um ano, mas por mudanças na direção da instituição, não foi dada continuidade ao projeto das oficinas. Desde o ano de 2018, leciono baixo elétrico e violão na escola de artes 4Por4, sob o comando dos professores Everson Fernandes, Liana Gomes, Emerson Carpegianni e Nadja Martins. Todos os trabalhos mencionados aqui sempre estiveram diretamente ligados ao ensino de instrumentos, ou seja, escola especializada.

Os trabalhos com a ONG Ilha de Música e com a Escola de Artes 4por4 continuam até hoje, como também aulas particulares nos dois instrumentos supracitados.

A docência em minha vida surgiu por uma procura em aprimorar a minha atividade como professor de instrumento musical, dando-me outra opção de carreira a seguir, além da carreira de músico instrumentista. O fato de atuar profissionalmente como músico baixista me faz enxergar o ensino de música por uma ótica mais prática, levando em consideração o preparo do aluno para uma boa performance trazendo elementos que enriquecem o desenvolvimento no instrumento musical, elementos esses, muitas vezes, não contemplados nos cursos de licenciatura para educação musical que têm por objetivo principal formar professores para o ensino básico.

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3. REFERENCIAL TEÓRICO

Este trabalho busca expor minha experiência como músico profissional e de que modo essa particularidade influenciou na minha carreira docente como professor de escola especializada. Tenho a intenção de promover debates e reflexões sobre essa ótica docente, tendo como orientação as situações pedagógicas vivenciadas em sala de aula no Projeto Social Ilha de Música, onde atuo como professor da disciplina de baixo elétrico e violão popular. O público-alvo desse projeto é constituído de crianças a partir de 08 anos e adolescentes até 18 anos de idade.

A questão a ser desvelada é compreender e discutir sobre o modo em que minha atuação profissional como baixista viabilizou a minha atuação docente. Nesse aporte, tenho como base o entendimento de que “o ensino de instrumento estaria relacionado à maneira como o professor mobiliza os saberes construídos ao longo do seu processo de vida e formação, considerando as particularidades de seu contexto de trabalho” (WEBER, 2019, p. 216). Por esse viés, a ideia é problematizar sobre os conhecimentos adquiridos fora da academia e o quanto eles proporcionaram facilidades à docência.

Não tenho a intenção de colocar o conhecimento adquirido na universidade num patamar inferior ao conhecimento apreendido fora dela, entretanto, cabe refletir sobre o quanto são válidos esses últimos, num contexto da graduação/licenciatura em música.

Por entender a pedagogia como ferramenta essencial na formação docente, tenho a consciência do papel fundamental da academia na vida de um futuro professor. Pois observo que, é por meio dos conhecimentos disponibilizados e compartilhados em relações vivenciadas nos meios acadêmicos, que o graduando poderá organizar suas ideias, conteúdos, condutas, etc.

Particularmente na graduação da licenciatura em música, o conhecimento adquirido fora da universidade me proporcionou facilidades com relação ao desempenho acadêmico, como também na sala de aula atuando como professor. A pesquisadora Marie-Christine Josso nos diz que: “Se a aprendizagem experiencial é

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um meio poderoso de elaboração e de integração do saber-fazer e dos conhecimentos, o seu domínio pode tornar-se um suporte eficaz de transformações” (JOSSO, 2004, p. 41). Transformações essas que são interiores e exteriores a nós e que nos forjam como pessoa e consequentemente como profissional docente. Nesse sentido, cabe-me aqui traçar esse paralelo entre os conhecimentos acadêmicos e a experiência de vida como baixista profissional que atua no mercado musical. O domínio do saber-fazer tornou viável a atuação docente e facilitou a intermediação dos conteúdos.

Os conhecimentos se completam na medida em que a atuação em sala de aula lecionando a disciplina de baixo elétrico se pautam em técnicas pedagógicas para ensinar, mas também se valem dos “atalhos” que a vida prática de músico me proporcionou.

Por esse viés, o trabalho que aqui se desenvolve me leva a compreender o papel formador da academia, bem como as experiências extra-academia. Desse modo, cabe-me uma análise consciente sobre a nossa formação. Segundo Josso:

Para que uma experiência seja considerada formadora, é necessário falarmos sob o ângulo da aprendizagem; em outras palavras, essa experiência simboliza atitudes, comportamentos, pensamentos, saber-fazer, sentimentos que caracterizam uma subjetividade e identidades (JOSSO, 2004, p. 47-48).

Portanto, é necessário, sob a minha ótica, tornar válidos na minha formação os conhecimentos que viabilizem a aprendizagem, independente dos contextos em que esses conhecimentos sejam estabelecidos.

A questão da formação docente que se apresenta nesse trabalho é problematizada sob os dois pontos de vista, o acadêmico (formal) e o não acadêmico (informal), e de que modo esses meios contribuem um para o outro. A informação ou o conhecimento propriamente dito, colhido fora do ambiente acadêmico, também tem uma importância fundamental na formação do indivíduo. Não é diferente quando se trata da formação docente.

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Sendo assim, as experiências que vivenciamos ao longo da vida integram um bloco em camadas que vão se sobrepondo cumulativamente, forjando nosso ser e consequentemente nossas condutas. Ampliando as discussões sobre o tema proposto, a tese de Morato nos faz refletir sobre as múltiplas vivências que contribuem com nossa formação humana e profissional, ao afirmar que,

[...]não é só na instituição formadora, em especial na universidade, que vivemos experiências. Vivemos experiências em todos os momentos da nossa vida. Portanto, não é só nos tempos e espaços universitários que nos formamos; formamo-nos em todos os ambientes que frequentamos (família, lazer, trabalho, universidade, religião, esporte, etc.) e por toda a vida (MORATO, 2009, p. 29).

É por essa vertente, refletindo sobre minha experiência de vida como baixista profissional, que quero ressaltar o contexto da minha formação docente em música. Minha atuação como professor de baixo elétrico no Projeto Social Ilha de Música é o meu objeto de pesquisa nesse relato de experiência e, principalmente, o quanto essa formação como músico profissional facilitou a minha atuação dentro da sala de aula.

Tenho de salientar também o papel decisivo da formação acadêmica na minha atuação docente, visto que eu tinha um conhecimento muito superficial da docência quando atuava como professor e a universidade ainda não fazia parte do meu cotidiano.

A academia foi fundamental no sentido de estabelecer parâmetros, formatar conceitos e organizar ideias. Esse papel da universidade é incontestável e valoroso, mesmo não sendo a única via no sentido de validar perante a sociedade a sua formação como docente, pois é de conhecimento social que o notório saber também é uma via de intermediação de conhecimentos.

Por mais que existam lacunas na formação docente em música e seja relevante complementar com a vivência musical fora da academia, diria que o docente que tem formação autodidata pode vir a ser um excelente professor, mas que não deve prescindir dos conhecimentos em pedagogia para nortear sua atuação profissional.

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Assim, ao longo desse relato de experiência, estarei buscando construir reflexões que possam configurar para futuros docentes uma fonte de pesquisa em música que se paute pela junção da formação docente acadêmica com os contextos não formais. Essas últimas vão se formatando à medida que o indivíduo experimenta o saber e o saber fazer durante sua jornada de vida.

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4. EXPERIÊNCIA DOCENTE NO PROJETO SOCIAL ILHA DE MÚSICA (PERÍODO PRÉ-UNIVERSIDADE)

A minha experiência docente à frente do Projeto Social Ilha de Música teve início em meados do ano de 2013, a princípio ministrando apenas a disciplina de baixo elétrico.

A Ilha de Música atende crianças e jovens da comunidade da África na praia da Redinha, Zona Norte do município de Natal-RN. Funciona desde o ano de 2006 e oferece “um trabalho educacional que utiliza a música como um meio de formação humana, de socializar crianças e jovens, de protegê-los da violência do bairro e como uma possível alternativa de inserção profissional” (FONTES JUNIOR, 2018, p. 54). Assim sendo, já apresentou resultados significativos com alguns dos seus participantes formados nos cursos técnicos, e outros em vias de formarem-se na graduação do bacharelado e da licenciatura em música na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (FONTES JUNIOR, 2018).

A minha atuação docente começa num período de transição da instituição quando da mudança da primeira geração de alunos para a segunda. Naquele momento da minha vida, vinha de uma atuação que priorizava a performance musical como baixista no cenário artístico da cidade de Natal-RN. Minha vida musical, além da cidade de Natal, também perpassou as cidades de Salvador-BA e São Paulo-SP, principalmente nos anos 1990 e primeira década dos anos 2000. Tive a oportunidade de me profissionalizar como músico, então, busquei outros mercados que proporcionassem um bom volume de trabalho, como também mais facilidade de acesso à informação (conhecimento). No ano de 1995, prestei vestibular para a licenciatura em música pela Universidade Federal da Bahia. Aquela incursão me pareceu adequada a uma formação de caráter formal na qual eu poderia trilhar dentro do universo acadêmico, mas pelo fato de já estar inserido no mercado de trabalho profissional de música na cidade de Salvador-BA, a graduação teve que esperar, principalmente pela mudança de cidade por razões profissionais, de Salvador para São Paulo-SP em 1995.

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Tive alguns momentos em que pude experienciar a docência de instrumento nessa fase da vida, porém, a minha atuação docente só foi praticada de forma contínua a partir do ano de 2013 no Projeto Social Ilha de Música.

Não tinha experiência pedagógica que me desse lastro para uma atuação segura diante dos alunos, entretanto, guiei-me pela experiência de ser músico, o que direcionou minha abordagem para a oralidade e o saber fazer. Claro, foi necessário ter referências bibliográficas para possibilitar o ensino da linguagem musical.

Weber (2019, p. 222) compreende que “saber tocar o instrumento que se deseja ensinar é um dos conhecimentos que formam o conjunto dos saberes docentes do professor de instrumento”. Por essa perspectiva, o saber fazer, de certa forma, facilitou minha conduta, pois o fato de proceder sempre visando a performance e possibilitando o contato direto com o fazer musical em todas as aulas, fez despertar nos alunos um grande interesse em aprender a tocar o instrumento.

O projeto Social Ilha de Música sempre incentivou seus participantes à prática de conjunto, o que serviu de base para que os alunos praticassem o aprendizado do instrumento, socializando entre si as experiências musicais, como nos expõe Couto (2009):

Uma característica marcante da música popular é o fazer musical em grupos. O músico popular está engajado em atividades coletivas, as quais são significativas para o desenvolvimento musical nesse contexto. Além do treino individual, a interação com outras pessoas – amigos, irmãos e familiares – favorece a aprendizagem musical, seja de forma consciente ou inconsciente.(COUTO, 2009, p.99)

Utilizados como ferramenta didática, os ensaios coletivos, realizados na Ilha de Música serviam para que os professores avaliassem o quanto os seus alunos conseguiram absorver os conteúdos intermediados por eles.

Nesse cenário, fui introduzido no universo da docência. Não tive nenhum preparo pedagógico, mas a minha experiência de vida como músico profissional, ou seja, o saber fazer me possibilitou iniciar no caminho da docência. É claro que muitas lacunas de conhecimento, principalmente pedagógico, fizeram-se presentes,

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mas procurei suprir essas deficiências por meio do fazer musical. Para a nossa análise, segundo Morato:

[...]é ponto pacífico que o ensino superior não pode perder de vista a realidade; entretanto, acreditar na supremacia da formação inicial como tempo de construir competências para a amplitude dos campos profissionais que se multiplicam e se modificam em um ritmo intenso é correr atrás do inalcançável (MORATO, 2009, p. 22).

É inegável que os conhecimentos adquiridos fora do ambiente acadêmico têm muitas vezes um papel preponderante na vida das pessoas, mas, como ressalta Morato, pautar a atuação profissional somente pela formação autodidata pode trazer limitações profissionais e pessoais, então, no meu ponto de vista, é necessário reconhecer a importância do papel desses conhecimentos informais sem prescindir do conhecimento científico que a academia proporciona.

4.1 OS ALUNOS DE BAIXO ELÉTRICO DO PROJETO SOCIAL ILHA DE MÚSICA

No momento relatado aqui, eu tinha três alunos de baixo elétrico fazendo parte do projeto. Desses alunos, entre as desistências e idas e vindas de alunos, dois continuaram até a idade limite do projeto (18 anos). Por meio desses dois alunos, que irei chamar aqui no relato de aluno J e aluno G, pude materializar, mesmo que de forma abstrata, sem adotar parâmetros científicos de pesquisa e utilizando a observação como método, a minha atuação docente como professor de escola especializada, principalmente pelo fato de esses alunos terem vivenciado todas as fases docentes que perpassei, ou seja, antes e durante o exercício da graduação na licenciatura em música da UFRN.

A minha experiência docente de forma realmente contínua teve início no ano de 2013. Já tinha vivenciado algumas experiências docentes em períodos distintos da minha vida, porém, a vivência dentro do projeto me estimulou inclusive a me inserir na vida acadêmica no ano de 2015.

Esses anos de experiência docente entre os anos de 2013 e 2015 foram de muito aprendizado prático já dentro do ambiente de trabalho, o que me possibilitou formular algumas estratégias de ensino que proporcionassem a sua absorção de

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maneira rápida e consciente, então, a minha linguagem teve que se adequar ao perfil da população que atendíamos no projeto, aí, mais por uma questão de empatia e bom senso.

Por causa dessa experiência com a performance e o ensino, pude observar que o baixo elétrico é um instrumento que requer um certo amadurecimento físico do seu executante, pois se mostra de difícil manuseio para crianças que ainda não chegaram na fase adolescente e que não tenham crescido o suficiente para manuseá-lo. O tamanho das mãos e consequentemente dos dedos fazem toda a diferença.

Os dois alunos que estiveram desde o nosso início de experiência docente já tinham a idade de 14 anos e tinham vontade de aprender a tocar o baixo elétrico. A questão física não foi um impedimento no caso desses alunos, pois ambos já tinham certo amadurecimento físico que os possibilitou manusear o instrumento de forma eficiente, extraindo boa sonoridade.

A especificidade desse instrumento requer do baixista o conhecimento de escalas e arpejos, tríades e tétrades, bem como saber se portar nos diferentes contextos musicais em que o baixo se faz presente. O grande desafio foi tornar o aprendizado de todo esse conhecimento técnico interessante para os alunos. Aprendi pelo método da tentativa e erro, que esses conteúdos não podem estar dissociados do componente “Música”. As aulas só se tornaram interessantes quando foram associadas a momentos de apreciação e prática de conjunto.

Nessa conjuntura, minha experiência de vida no universo musical facilitou a abordagem com os alunos. Indicar referências, orientar posturas e condutas, fomentar a prática possibilitaram a inserção de conteúdos de linguagem e estruturas musicais de forma que os alunos não perdessem o interesse por se tratar de assunto fundamentalmente técnico. Foi importante para a minha formação perceber que os alunos conseguiram identificar os elementos de linguagem musical dentro das músicas que foram trabalhadas na prática de conjunto, materializando um significado para o conteúdo. Foram os momentos nos quais "tudo passou a fazer sentido".

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É importante ressaltar que, antes de conseguir resultados positivos com o aprendizado dos alunos, foi necessário passar por alguns fracassos. Como ainda não existia a presença da academia na minha formação, a intuição era o eixo norteador da minha atuação, portanto, a tentativa e o erro eram frequentes na aplicação dos métodos de ensino. Nesse caso, como já citado anteriormente, a empatia e o bom senso foram importantes para compreender o contexto social no qual eu estava inserido e assim, atingir o objetivo de ensinar e aprender, pois o professor sempre vai trilhar por essa infindável via de mão dupla.

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5. EXPERIÊNCIA DOCENTE 2 NO PROJETO SOCIAL ILHA DE MÚSICA (PERÍODO UNIVERSITÁRIO)

No ano de 2014, sentindo a necessidade de ampliar os conhecimentos, sobretudo pedagógicos, submeti-me ao processo seletivo do ENEM, no qual fui aprovado para o curso de licenciatura em música da UFRN para início no ano de 2015.

Ao ingressar no curso, percebi estar vivenciando um fenômeno que, de acordo com as minhas observações, costuma atingir boa parte dos graduandos em música da licenciatura, ou seja, cursar a universidade quando já exerce a docência.

Buscando discorrer um pouco mais sobre o fenômeno citado, em 2008, foi aprovada a Lei 11.769, que instituiu a música como componente curricular obrigatório do ensino básico brasileiro. Esse acontecimento trouxe grandes incrementos para a carreira docente com especialidade em música, mas também trouxe junto com as oportunidades, as exigências que teriam que ser atendidas, inclusive no que se refere à formação de novos professores da área, visto que o quadro de professores de música do ensino básico não atendia às necessidades de pessoal à época da promulgação da lei. Posso dizer que faço parte dos alunos que se enquadram nessa categoria (exercer a docência enquanto cursa a universidade), ressaltando que a minha experiência docente ocorreu sempre no contexto da escola especializada e não na escola básica.

Sobre essa situação Morato expõe o seguinte parecer:

O caso “trabalhar e estudar durante a graduação em música”, ou seja, a presença de alunos que já atuam profissionalmente enquanto matriculados nos cursos superiores de música, pode ser verificado particularmente na literatura da educação musical e nos estudos que discutem a relação entre formação universitária e “mercado de trabalho” no Brasil (MORATO, 2009, p. 14).

Ou seja, esse contexto é algo que já é problematizado pela área de música, constando assim vários trabalhos de pesquisa sobre esse fenômeno. Assim, enfrentei com tranquilidade essa situação particular, que pode ser considerada uma situação coletiva, tamanha a quantidade de pessoas que a vivenciam.

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A partir do ano de 2015, minha atuação docente passou a ser alvo das minhas observações reflexivas, considerações essas que a academia incentivou para somar aos meus conhecimentos. Frequentar a universidade trouxe para mim conhecimentos pedagógicos e, consequentemente, novos métodos de ensino. Isso já foi perceptível a mim no primeiro ano em que cursei a graduação. Diante desses aportes de conhecimento, procurei exercitá-los no meu ambiente de trabalho, o que me possibilitou aplicar métodos científicos, como também os “atalhos pedagógicos” da minha atuação profissional como baixista. Procurei exercer uma postura de alteridade em relação à minha atuação como professor, buscando, sempre que possível, o caminho da reflexão a respeito dos métodos e atividades propostas aos alunos.

Em muitas oportunidades me vi, no período antes de cursar a graduação em música, na condição de saber fazer (tocar o instrumento) e algumas vezes não saber explicar o conceito de alguns conteúdos, o que, no meu entendimento, configura um conhecimento parcial do assunto, muitas vezes comprometendo o fundamento desse conteúdo. Ex: Quando explico a formação de um campo harmônico, não ensino simplesmente a fazer a melhor digitação no baixo, mas também ensino o porquê dos acordes, arpejos e escalas ocorrerem daquela forma e naquela ordem.

Essa questão me fez buscar sempre pelas duas vias de conhecimento (saber e saber fazer). Essas lacunas de conhecimento teórico não foram cruciais no processo de ensino, porém me trouxeram um certo grau de dificuldade para intermediar a informação necessária ao conhecimento dos alunos. Como observa Bezerra:

Na busca pela identidade do ser professor as articulações entre as experiências de vida, formação e conhecimento são de fundamental relevância na construção dos saberes docentes. Nesse sentido, o professor está em constante estado de ressignificação atribuindo um novo sentido à sua prática pedagógica [...] (BEZERRA, 2015, p. 20).

Ou seja, o caminho a ser seguido na docência, na minha ótica, seria a minha experiência de vida somada aos aportes acadêmicos.

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A universidade trouxe respostas para, se não todos, grande parte dos meus questionamentos em relação aos procedimentos pedagógicos, bem como a algumas dúvidas referentes à linguagem e estruturação musical. Pude, por meio da participação em algumas ações de extensão que a universidade proporciona, incrementar meus conhecimentos sobre pedagogia, além de vivenciar o ambiente acadêmico, o qual é muito instigante para o aluno que pretende atuar como professor. Posso afirmar que os conhecimentos acadêmicos foram fundamentais para uma nova postura docente de minha parte.

Com o passar do tempo, vieram os métodos de como planejar uma aula, de como organizar conteúdos, de como estabelecer parâmetros de ensino. Aliado a esses conhecimentos, a minha experiência como músico me proporcionou boas práticas de como intermediar um determinado conteúdo. Percebi que tinha a segurança do saber fazer com o respaldo da ciência, o que na minha avaliação me trouxe uma maior tranquilidade para atuar em sala de aula. O fato de trabalhar e estudar concomitantemente, apesar da grande responsabilidade em ter êxito nas duas frentes, trouxe a riqueza dos conhecimentos científicos musicais e didáticos para dentro do meu cotidiano de trabalho alinhados ao meu saber fazer (tocar baixo elétrico).

O fato de ter vivenciado o meio musical profissional me tornou capaz de resolver rapidamente problemas práticos, por exemplo: transpor uma música de tom ou ler uma determinada cifra ou partitura, atividades que se tornariam hercúleas, se não tivesse praticado de maneira contínua a performance. Essas particularidades agregaram uma grande dinâmica dentro da sala de aula, devido à velocidade em resolver essas possíveis e prováveis intercorrências que acontecem numa aula de música. A experiência adquirida fora do contexto acadêmico provou ter a sua utilidade dentro do processo de formação docente.

Bezerra (2015, p.17) observa que “o formar-se está ligado ao neologismo autopoiese, que vem do grego, com o significado de produzir a si mesmo, estando o professor num constante processo de reflexão e construção de sua prática docente”. Nessa reflexão, o autor compreende o processo de autoformação como um elemento que deve estar inserido de forma contínua na vida de quem exerce a

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docência. O conhecimento adquirido muitas vezes em contextos informais, até mesmo em conversas de corredor na escola de música, ou até nos ensaios de que participei profissionalmente como baixista, ou mesmo simplesmente conversando com amigos músicos se mostraram muito úteis nos momentos de elaboração dos conteúdos das aulas, bem como nas situações de impasse como já foi supracitado.

Na minha formação musical, por uma questão de necessidade, tive que exercitar muito o ouvido, ou seja, trabalhei, mesmo que inconscientemente, a percepção musical e suas variações (rítmicas, melódicas, etc.). Esse diferencial foi fundamental na condução das disciplinas de prática de conjunto e baixo elétrico.

Em reflexões sobre o meu desenvolvimento musical, percebo que a necessidade de reproduzir músicas e ter como fonte de informação somente a percepção auditiva, findou servindo a um desdobramento para a aquisição de uma percepção musical mais eficiente. Digo isso porque nos anos em que iniciei meus estudos de baixo elétrico ainda não havia todas as opções de mídias disponíveis nos dias atuais. Mesmo entendendo que o uso dessas mídias pode levar o músico em formação a uma postura acomodada no desenvolvimento de suas percepções, é pertinente destacar que essas tecnologias se desenvolvem constantemente e buscam facilitar o aprendizado musical. Sobre essa particularidade das tecnologias presentes nos dias de hoje, Gomes Paiva (2018, p. 39) problematiza o seguinte:

Está à disposição um mundo de informações e possibilidades para fazer diversas atividades, que, se comparado com as possibilidades de anos atrás, há hoje uma democratização de informações, haja vista as pessoas conseguirem ter acesso a infinitos dados disponibilizados na rede mundial de computadores.

Nesse caso, fica evidenciada uma facilidade que pode levar a uma acomodação. No meu caso particular, a falta de tecnologias, como as que existem hoje em dia, pode ter servido de estímulo para uma superação e com isso, favorecido o desenvolvimento de uma percepção auditiva mais aguçada. No entanto, cabe aqui refletir se a minha facilidade com melodias, harmonias e ritmos se deu justamente pela dificuldade ao acesso das tecnologias que hoje estão à disposição de todos que têm acesso a internet.

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Retomando as discussões sobre as experiências vivenciadas na Ilha de Música, os alunos do projeto foram expostos a experiências reais de tocar juntos e conhecer seu papel dentro de um contexto de diferentes formações de bandas de música (Combos ou grandes formações com muitos instrumentos), e esse incremento da minha formação proporcionou uma atuação docente fluida e dinâmica.

Assim, enveredando pelos dois caminhos (acadêmico e não acadêmico), pude constatar a melhora do meu desempenho docente, observando a transformação de minhas ações pedagógicas refletida no desenvolvimento musical dos meus alunos.

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6. CONCLUSÃO

Posso chegar à conclusão que a minha vivência docente perpassou por períodos distintos antes e durante o curso de graduação da licenciatura em música. Esse curso oferecido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte é pautado na área de Educação Musical e tem como objetivo que seus participantes sejam inseridos ao mercado de trabalho do ensino básico. Mesmo não sendo esse o meu objetivo pessoal, ter cursado a Licenciatura em Música pela UFRN foi de grande importância para a minha formação docente.

Eu sempre estive intimamente conectado com a área da performance e sempre exerci a docência com a ótica de um professor de instrumento. Essa particularidade nunca me desestimulou em relação ao tipo de formação que me foi oferecida. O fato de o curso ser voltado muito mais às pedagogias da área da educação musical visando a escola básica me fez enxergar que eu poderia absorver todo o conteúdo e que esse seria de grande utilidade para o seu uso na escola especializada. Particularmente, gostaria de ter experienciado disciplinas que fossem voltadas à pedagogia de instrumentos, mais precisamente no meu caso, o baixo elétrico. Porém, pude abarcar todo o conhecimento ao qual fui exposto e filtrar o que realmente posso usar em sala de aula, fazendo algumas adaptações pertinentes à escola especializada.

Durante a graduação, comecei a perceber uma transformação em minha forma de abordar os conteúdos com os meus alunos em sala de aula, as reflexões, além de gerarem mudanças para um melhor relacionamento com os alunos, fizeram-me elaborar novas estratégias de ensino. A importância da academia na minha atuação docente foi decisiva para compreender melhor as nuances do ensino e as dificuldades que provêm do processo de aprendizagem. A minha ótica de ser professor sofreu grandes mudanças no tocante à postura em sala de aula e a como me aproximar dos alunos para me fazer entender em relação aos conhecimentos que intermediei durante o período em que cursei a graduação da licenciatura em música.

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Todo esse processo também me fez enxergar que os alunos têm personalidade própria e, consequentemente, comportamentos difusos à absorção desses conteúdos. Por esse viés, Weber (2019) afirma que:

Cada aluno de instrumento é diferente, busca a aprendizagem com diferentes objetivos e se relaciona com a música de forma diferenciada. Tais aspectos demonstram a importância de o professor de instrumento saber mobilizar os saberes da função educativa, visto que a didática e a metodologia de ensino do instrumento não serão as mesmas para todos os alunos (WEBER, 2019, p. 227).

Desso modo, buscando o entendimento sobre a particularidade de cada aluno, pude aprender a lidar com suas dificuldades e limitações, estimulando-os sempre a crescer como instrumentistas e também como indivíduos inseridos na nossa sociedade, o que me proporcionou crescer como professor e ser humano também. Aliás, na minha ótica, esse processo de crescimento é contínuo quando o professor reflete sobre sua atuação em sua rotina de ensinar.

Compreendo que a experiência de vida como músico profissional viabilizou o ensino em muitas situações vivenciadas na sala de aula. O saber fazer contribuiu muito para mostrar como fazer o aluno compreender os processos de aprender a tocar o instrumento. Por essa experiência, percebi que os alunos são seduzidos a gostar do instrumento quando o professor demonstra segurança ao tocar. Isso passa confiança e instiga-os a trilhar o caminho do aprendizado.

A minha formação como músico, que foi anterior à universidade, e a minha formação docente acadêmica, mesmo não sendo uma formação direcionada para a pedagogia de instrumento musical, capacitaram-me para exercer a docência com propriedade. Posso afirmar que, passar por essa experiência acadêmica, já tendo uma carreira como músico, fez-me crescer como ser humano, e vice-versa, ou seja, a minha experiência como músico tornou a minha vida universitária mais sólida e me facilitou trilhar esse caminho.

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REFERÊNCIAS

ABREU, Delmary Vasconcelos de. Compreender a profissionalização de professores de música: contribuições de abordagens biográficas. Opus, Porto Alegre, v. 17, n. 2, p. 141-162, dez. 2011. Disponível em:

http://www.anppom.com.br/revista/index.php/opus/article/view/205. Acesso em: 02 nov. 2019.

BEZERRA, J. D. Identidade do professor de música: Compreendendo os caminhos da formação docente. 2015. 41 f. Monografia (Graduação) - Escola de Música, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2015.

COUTO, Ana Carolina Nunes do. Música popular e aprendizagem: algumas considerações. Opus, Goiânia, v. 15, n. 2, p. 89-104, dez. 2009. Disponível em: http://www.anppom.com.br/revista/index.php/opus/article/view/256. Acesso em: 02 nov. 2019.

FONTES JUNIOR, J. S. Ilha de Música: Uma perspectiva sobre a Educação Musical em ONGs. 2018. 154f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Música, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2018.

JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e formação. Tradução de José Cláudio e Júlia Ferreira. Adaptação à edição brasileira de Maria Vianna. São Paulo: Cortez, 2004.

MORATO, C. T. Estudar e trabalhar durante a graduação em música:

construindo sentidos sobre a formação profissional do músico e do professor de música. 2009. 307 f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação de Música, Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009. PAIVA, L. L. G. A aprendizagem musical mediada por tecnologias digitais, sob a ótica da complexidade: uma pesquisa-ação com guitarristas do curso de

extensão da UFRN. 2019. 183 f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Música, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2019.

WEBER, Vanessa. Saber tocar e saber ensinar: os saberes mobilizados na prática pedagógica do professor de instrumento. Opus, v. 25, n. 2, p. 215-238, maio/ago. 2019. Disponível em:

http://www.anppom.com.br/revista/index.php/opus/article/view/opus2019b2510. Acesso em: 02 nov. 2019.

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