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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE COMUNICAÇÃO Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. VALÉRIA VARGAS DA SILVA. AS INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS E OS INTERMEDIÁRIOS DA PRODUÇÃO E DO ACESSO À INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA. São Bernardo do Campo, 2015.

(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE COMUNICAÇÃO Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. VALÉRIA VARGAS DA SILVA. AS INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS E OS INTERMEDIÁRIOS DA PRODUÇÃO E DO ACESSO À INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para a obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Sebastião Squirra. São Bernardo do Campo, 2015.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA. S i38i. Silva, Valéria Vargas da As inovações tecnológicas e os intermediários da produção e do acesso à informação jornalística / Valéria Vargas da Silva. 2015. 130 p.. Dissertação (mestrado em Comunicação Social) -Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2015. Orientação : Sebastião Carlos de Morais Squirra. 1. Jornalismo - Inovações tecnológicas 2. Internet 3. Fluxo de notícia 4. Comunicação I. Título. CDD 302.2.

(4) A dissertação de mestrado sob o título “_As inovações tecnológicas e os intermediários do acesso à informação jornalística”, elaborada por Valéria Vargas da Silva foi apresentada e aprovada em 14 de setembro de 2015, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Sebastião Carlos de Morais Squirra, e (PresidenteOrientador/UMESP, Profa. Dra. Marli dos Santos (Titular/UMESP) e Prof. Dr. José Luiz Proença (Titular/USP).. __________________________________________ Prof/a. Dr/a. Sebastião Carlos de Morais Squirra Orientador e Presidente da Banca Examinadora. __________________________________________ Prof/a. Dr/a. Marli. dos Santos. Coordenador/a do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de Concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Inovações tecnológicas na comunicação contemporânea.

(5) AGRADECIMENTOS. Ao meu orientador Prof. Dr. Sebastião Squirra pela dedicação e estímulo acadêmico. Aos professores do programa de pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São pelo conhecimento científico repassado neste processo. Para o CNPq pelo auxílio financeiro. À amiga Audrey Duarte pelo incentivo para ingressar no programa..

(6) DEDICATÓRIA. À minha mãe, Maria Luiza Vargas da Silva, pedagoga e educadora que sempre acreditou que o estudo poderia construir uma nova pessoa e nova vida. À Evelani Martins que incentivou, ofereceu ajuda psicológica e local para que eu pudesse estudar..

(7) RESUMO. O jornalismo é um dos principais meios de oferta de temas para a discussão e formação da opinião pública, porém depende de um sistema técnico para ser transmitido. Durante mais de cem anos as informações produzidas pela imprensa foram emitidas, armazenadas, transmitidas e recebidas pelos chamados veículos de comunicação de massa que utilizam a rede centralizada cujas características estão na escassez material, produção em série e massificação. Esse sistema separa no tempo e no espaço emissores e receptores criando uma relação desigual de força em que as grandes empresas controlaram o fluxo informativo, definindo quais fatos seriam veiculados como notícia. Em 1995, a internet cuja informação circula sob a tecnologia da rede distribuída, foi apropriada pela sociedade, alterando a forma de produção, armazenamento e transmissão de informação. A tecnologia despertou a esperança de que esta ferramenta poderia proporcionar uma comunicação mais dialógica e democrática. Mas aos poucos pode-se perceber novas empresas se apropriando da tecnologia da rede distribuída sob a qual circula a internet, gerando um novo controle do fluxo informativo. Realizou-se nessa pesquisa um levantamento bibliográfico para estabelecer uma reflexão crítica dos diferentes intermediários entre fato e a notícia tanto da rede centralizada como na rede distribuída, objetivando despertar uma discussão que possa oferecer novas ideias para políticas, bem como alternativas para uma comunicação mais democrática e mais libertária.. Palavras chave: jornalismo, internet, fluxo de notícia, comunicação..

(8) ABSTRACT. Journalism is the main of many ways to offer themes to discuss and shape the public opinion, but depends on a technical system to be transmitted. For over a hundred years, the information produced by the press were issued, stored, transmitted and received by the so-called mass communication vehicles, using centralized network, whose features are in material shortages, mass production and massification. This system separates in time and space emitters and receivers creating an unequal relation of power, in which large companies have controlled the informative flow, defining what facts would be aired as news. In 1995, the internet which information circulates under distributed network technology, has been appropriated by society, changing the ways of production, storage and transmission of information. The technology aroused the hope that this tool could provide a more dialogic and democratic communication. However, gradually, it is possible to notice new companies taking ownership of the technology of distributed network under which circulates the internet, generating a new control of the information flow. This research conducted a survey and a critical reflection of the different intermediaries between the fact and the news, both in centralized network and in the distributed network, aiming to arouse a discussion that provides new ideas for policies and alternatives for a more libertarian and democratic communication.. Keywords: journalism, internet, news flow, communication..

(9) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO............................................................................................................. 9 1 O PODER DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO .................................................. 14 1.1 A tecnologia e os impactos sociais e econômicos .............................................. 18 1.2 As máquinas elétricas de comunicação .............................................................. 23 1.3 Os donos da tecnologia da comunicação no século XX ..................................... 27 2 O JORNALISMO COMO PODER ....................................................................... 31 2.1 O esgarçamento do quarto poder ........................................................................ 35 2.2 A assimetria na comunicação nas redes centralizadas ........................................ 38 2.3 A produção da notícia pré-internet ..................................................................... 40 3 A RELAÇÃO DA MÍDIA DE MASSA COM O RECEPTOR ........................... 46 3.1 Tecnologias de produção de notícia nas mãos de amadores ............................... 49 3.2 A segmentação da mídia – tv por cabos ............................................................. 50 4 DA REDE CENTRALIZADA PARA A DISTRIBUÍDA .................................... 53 4.1 A troca de conhecimento como filosofia da rede ............................................... 57 5 O JORNALISMO PESSOAL: O WEBJORNALISMO ...................................... 65 5.1 O hipertexto ........................................................................................................ 67 5.2 Os blogs .............................................................................................................. 69 5.3 Jornalismo colaborativo ...................................................................................... 71 5.4 Jornalismo nas redes sociais ............................................................................... 75 6 OS LIMITES PARA O JORNALISMO INDEPENDENTE NA REDE DISTRIBUÍDA ....................................................................................................................... 78 6.1 O acesso à rede e aos conteúdos informativos .................................................... 82 6.2 A credibilidade .................................................................................................... 84 6.3 Os mediadores da rede ........................................................................................ 87 6.4 Filtros de informação digital ............................................................................... 94 6.5 Os controladores da informação ......................................................................... 97 6.6 Os donos da rede ............................................................................................... 101 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 109 REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 112.

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(11) 9. INTRODUÇÃO. Sem precisar recorrer a teorias científicas é possível reconhecer que a informação e o armazenamento de dados sempre foram indispensáveis para a vida humana. A informação obtida pela observação permitiu a princípio, que o indivíduo construísse artefatos e ferramentas para garantir sua sobrevivência e posteriormente, ofereceu suporte para a elaboração de objetos e aparelhos que circulam o cotidiano:. O mundo deixa de ser o ambiente rústico espontâneo e se converte em ambiente urbano, na casa povoada de produtos de arte e, na época atual, de aparelhos que põem as forças naturais a serviço do homem. (VIEIRA. Pinto, 1973 apud FREITAS, 2005). Esse processo evolutivo, circular e infinito, no qual uma nova descoberta, um novo equipamento, oferecem impulso para a criação de outros está relacionada a capacidade humana de transformar informação em conhecimento. O conceito de conhecimento é amplo, mas podemos aqui apresentar uma síntese exposta por SQUIRRA (2005). Genericamente, pode-se dizer que conhecimento seja o “ato de saber” de algo, de tomar consciência de determinado fato ou objeto, experiência ou relato. Todavia, conhecimento pode também ser entendido como a “familiaridade ou estado de consciência que se obtém com a experiência de estudar” determinado fato. Pode ainda ser entendido como a “soma da extensão/percurso/área do que tem sido encontrado, percebido ou aprendido” e, ainda a “específica informação sobre alguma coisa”. (SQUIRRA, 2005, p.256).. Se conhecimento é “o ato de saber de algo”, pode-se então considerar que o jornalismo merece destaque, pois é uma das pontas na atividade de distribuição e transmissão de informação. Com o crescimento das cidades, os indivíduos passaram a saber do que acontecia além da sua comunidade por meio do rádio, televisão jornais e revistas. Esses meios foram por mais de um século - como define Alsina (2009) - construtores da realidade. Se um fato não era noticiado, para a maioria das pessoas, representava que não havia acontecido. Durante anos os meios técnicos de divulgação de informação estiveram, principalmente no ocidente, sob a tutela de grandes empresas capitalistas. A capacidade de serem definidoras da informação que deveria ser consumida por milhares de receptores fez essas instituições se consolidarem como verdadeiros impérios, com poder de abarcar todas as esferas sociais, inclusive o poder político de Estado. As empresas de comunicação de massa.

(12) 10. comandaram as transmissões de rádio e televisão, os jornais, as produtoras de filmes de Hollywood, as gravadoras de música e as editoras de livros e revistas. A mídia do século XX foi fornecedora do temário para a discussão pública e definidora de valores sociais, da cultura e da ideologia compartilhadas pela sociedade. Embora não existam receptores passivos, não há como desconsiderar que na rede centralizada da comunicação de massa o emissor possuiu a capacidade para falar para milhões de pessoas ao mesmo tempo, enquanto, na outra ponta, o receptor só tem direito de decidir se ouve ou desliga o aparelho. Um dos itens importantes na concepção desse cenário está relacionado ao desenvolvimento da tecnologia utilizada na transmissão de informação. Por mais de cem anos, desde o final do século XIX até o final do século XX a informação jornalística foi transmitida e compartilhada por veículos de comunicação que utilizaram a tecnologia da rede centralizada e o formato analógico de armazenamento e estruturação da informação. A arquitetura centralizada divide no tempo e no espaço dois agentes da comunicação, oferece condições técnicas de interação desiguais e estabelece uma relação de poder desequilibrada. De um lado os emissores, com poder de produção e distribuição do conteúdo informativo. Na outra ponta, com um limitado poder de retorno e interação, o receptor. O formato analógico limita o espaço para a circulação de notícias, pois depende de um suporte material para armazenamento. Nem todos os fatos e acontecimentos podem sem impressos no jornal, veiculados no rádio e na televisão. O uso da tecnologia da rede centralizada e analógica exige que seja feita uma filtragem do que deve ou não ser veiculado. Durante praticamente cem anos isso foi realizado dentro das redações de veículos jornalísticos. Esta seleção sempre esteve entremeada por diversas variáveis, desde as estabelecidas na rotina de trabalho das redações, bem como as que levam em conta critérios econômicos e políticos das empresas de comunicação. A partir do final do século XX, uma nova tecnologia de comunicação altera essa relação centenária, sacode as redações, desestabiliza a confiança do profissional da imprensa e impacta o modelo de negócios das empresas de mídia. A rede distribuída de comunicação, a digitalização da informação que dispensa suportes técnicos para o seu armazenamento e o barateamento dos computadores pessoais permitiram, pelo menos tecnicamente, que todos se transformem em emissores e produtores de conteúdo informativo. Essas tecnologias mudaram o conceito do que é notícia e despertam um novo tipo de jornalismo. Surgem os blogs, jornais colaborativos e feitos por amadores, notícias compartilhadas nas redes sociais. Todos os fatos e acontecimentos são publicados, desde alterações na bolsa de valores, problemas de uma.

(13) 11. pequena comunidade, até acontecimentos de abrangência individual como festas de casamentos, pratos da refeição do dia, etc. A liberdade de publicação proporcionada pelas novas tecnologias despertou a esperança em muitos estudiosos e acadêmicos, entre eles Levy (1998), Negroponte (1995), Rheingold (1997). Aos olhos desses pesquisadores que observaram a internet no seu início, a web poderia ser um espaço para a construção de uma esfera pública que enalteceria uma relação comunicacional simétrica, na qual todos têm direito e liberdade de voz, onde o debate e o compartilhamento de informação promoveriam a conscientização e conhecimento do coletivo. Mas aos poucos, as novas tecnologias que seriam impulsionadoras para a construção de um novo espaço público e de um novo modelo de jornalismo vêm despertando outros questionamentos. A internet oferece uma quantidade de informação excessiva e com isso quem seria digno do reconhecimento na transmissão de assuntos noticiosos? Quem teria a chancela de confiável? Quem teria credibilidade? Será que a internet permite a desintermediação entre fato e notícia ou cria outros mediadores com até mais poder e controle dos que foram tão criticados no século XX? A produção e armazenamento ilimitado de dados da internet estimula o surgimento de empresas desenvolvedoras de softwares, de sites de busca e recomendação. Se antes as empresas e os profissionais da redação eram mediadores de conteúdo porque a rede funcionava no formato de um para todos e havia escassez de espaço no suporte responsável pela transmissão de conteúdo, as empresas do século XXI criam modelos de negócios e cada vez mais se transformam nos novos intermediários da informação. A internet reduz o custo de produção de conteúdo informativo e oferece a liberdade de emissão. Não é preciso ser editor, jornalista ou dono de um veículo de comunicação para conseguir publicar uma notícia. Porém, acredita-se que há outras barreiras que podem interferir no acesso da informação jornalística: o aporte financeiro de acesso à rede, a linguagem de programação, os inúmeros filtros automatizados de informação. Neste estudo pretende-se levantar alguns desses entraves que interferem e controlam o acesso às notícias para contribui para reflexão da internet como um espaço em que se repetem disputas de poder semelhantes as verificadas na rede centralizada. Ou seja, a arquitetura da tecnologia não elimina os conflitos, apenas altera. Utilizando um levantamento bibliográfico realizou-se uma viagem na história do jornalismo para apresentar os mediadores e os intermediários entre o acontecimento e sua publicação em um meio, seja analógico ou digital, da rede centralizada ou distribuída..

(14) 12. Objetivamos mostrar quais foram os intermediários que detiveram o poder na transmissão de notícias pelos chamados veículos de comunicação de um para todos (rádio, televisão, revista e jornal), e quais estão emergindo na web e no universo digital. Acredita-se que identificar esses intermediários poderá contribuir para uma reflexão crítica do papel do webjornalismo e dos novos profissionais de imprensa. Na primeira parte, o objetivo foi apresentar uma discussão relacionando tecnologia com o poder. Consideramos importante observar a apropriação da tecnológia e suas possíveis imbricações na divulgação de notícias, afinal o jornalismo nunca prescindiu da tecnologia. O fato da transmissão de notícias ser através de meios técnicos nos dirige para formas de apropriação tecnológica. Para isso buscou-se apoio em alguns autores como Marx, McLuhan (2007), Castells (1999;2014), Wiener (1954;1970), Gleick (2000;2013) e Milton Santos (2000) que analisaram, em algum momento das suas obras, a relação entre o desenvolvimento tecnológico e seus impactos sociais, políticos e econômicos. A transmissão, armazenamento e distribuição de notícias sempre dependeram de um meio ou suporte técnicos. A partir de Bordieu (1989), Thompson (2012), Foucault (2009), buscou-se quais formas de poder estão entrelaçadas ao discurso jornalístico. Na segunda parte trazemos uma contextualização dos processos jornalísticos e sua importância para a democracia e para a formação da opinião pública. Utilizando de um viés político na esfera pública de Habermas (2003). Habermas (2003), Arendt (2002) e Ramonet (2012;2013) auxiliam na explanação da importância do jornalismo na formação da opinião pública na sociedade de massa que desponta após a Revolução Industrial. Castells (1999;2014), Ramonet (2012;2013) e Morin (1997) mostram como a formação das grandes redes e oligopólios empresariais, se consolidaram como centros de poder de transmissão de conteúdo simbólico e de manipulação da opinião pública. As teorias do newsmaking, pesquisadas por Wolf (2012), Traquina (2012) e Alsina (2009), contribuem para trazer a luz as inúmeras interferências, voluntárias e involuntárias, que qualquer acontecimento sofre antes de ser publicado como notícia. O objetivo é compreender os fluxos de informação em diversos ângulos da rede de comunicação de massa que utiliza a tecnologia de um para todos. Afinal durante mais de um século, a comunicação conhecida como de massa foi a fonte para que a sociedade pudesse saber de fatos que aconteciam distantes do local da sua comunidade. O terceiro capítulo apresenta uma discussão sobre a relação dos meios de comunicação de massa com os seus receptores. Por pertencerem a iniciativa privada em um sistema capitalista, o modelo de negócio dos veículos noticiosos utiliza a publicidade como financiamento e por esse motivo têm uma dependência do consumidor de notícias (o.

(15) 13. receptor). Esse vínculo, entretanto, sempre foi tenso: de um lado os emissores querendo controlar o fluxo de notícias e manterem seu status e por outro um receptor procurando a interação e a participação. Nossa finalidade foi avaliar como a tecnologia foi apropriada pelos atores (emissores e receptores) do processo comunicacional durante a comunicação de massa A quarta parte aborda a tecnologia da rede distribuída; como surgiu e sob qual cultura foi moldada. Paul Baran (1964), o desenvolvedor do conceito e da topologia da rede distribuída e da comutação por pacotes, permite uma compreensão técnica do funcionamento sobre qual está a circulação de informação da internet. Castells (1999) e Barlow (1994) contextualizam o desenvolvimento da rede a partir da ideologia em que foi construída. Os primeiros usuários da web, pertencentes a contracultura, implantaram um espírito de liberdade de expressão, de informalidade, e de colaboração sem que houvesse restrições governamentais e empresariais. A rede se consolida, inicialmente a partir da ideia de que muitos contribuem para muitos e que a troca de conhecimento, sem intuito comercial estabelecido logo após a revolução industrial, pode construir uma sociedade melhor. Na quinta parte buscou-se observar, por meio de autores como Gillmor (2005), Salaverria (2004), Squirra (2012;2013), Bambrilla (2006) e Lima (2013;2009), como a cultura do compartilhamento de informação, da digitalização e a tecnologia da rede distribuída, impactaram a produção jornalística. Procurou-se dirigir o olhar para o formato, estilo e conteúdo que aparecem com os primeiros blogs, sites de notícias e redes sociais que surgem com a inserção dos usuários comuns à internet. A sexta parte apresenta quais são os novos intermediários que surgem no jornalismo da internet atualmente. Dertouzos (1997), Dizard (2000), Moreno (2013), alertam para a divisão social (conectados e não conectados, marginalizados e inseridos) que a rede pode criar se não houver uma universalização da conexão. Sobre o ângulo da explosão do volume de conteúdo informativo que circula na internet, Manovich (2008;2013), Lanier (2012;2013), Lima (2013;2011) e Pariser (2012) ajudam a entender como a camada tecnológica que cobre a rede nos mecanismos de buscas pode nublar a cultura inicial na qual a internet foi tecida. A nossa motivação para a pesquisa surgiu de uma certa desconfiança do otimismo criado com o surgimento da tecnologia da rede distribuída. Por isso, buscou-se entender a concentração de poder das empresas jornalísticas que dominaram as tecnologias de distribuição de conteúdo no século XX para refletir sobre o cenário do jornalismo que se desenvolve com a tecnologia da internet..

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(17) 13.

(18) 14. 1 O PODER DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO. Em uma robusta obra de Giddens (2013) sobre diversos objetos de pesquisa da sociologia há um verbete sobre “poder” aos olhos de diversos estudiosos que marcaram a história da humanidade. Nele, o autor explica que Max Weber define poder como “a oportunidade de um homem ou de um conjunto de homens, concretizar a sua própria vontade numa ação dirigida, mesmo contra a resistência de outros participantes da ação”. (GERTH E MILLS, 1948, APUD GIDDENS, P.128). Neste sentido, possui o poder o órgão, a instituição, o grupo de indivíduos que detém a prerrogativa de ter a sua ordem acatada por um outro grupo de indivíduos. Há, portanto, dominados e dominadores. Neste sentido poder representa dominação. Está explícita que a ordem deve ser seguida mesmo que contra a vontade, mesmo que para isso seja usada da violência:. Uma relação de homens que dominam homens, uma relação apoiada por meios de violência legítima [quer dizer, considerada legítima]. Para que exista o estado, o dominado deve obedecer a autoridade dos poderes existentes...o instrumento decisivo da política é a violência. (WEBER [1922] apud CASTELLS, 2014, p.35)1.. Castells (2014, p.39) explica poder como uma relação e não um atributo oferecido a alguém ou uma instituição. “O poder é relacional, a dominação é institucional”. (CASTELLS, 2014, p.39)2. Por isso, considera que a sociedade vive em conflito ininterrupto, afinal para que um grupo usufrua do poder recorre a ininterruptas negociações entre os diversos grupos que formam a sociedade. Castells (2014, p.33) oferece uma definição que considera “ampla “para abarcar quase todas as formas de poder social:. O poder é a capacidade relacional que permite a um ator social influir de forma assimétrica3 nas decisões de outros atores sociais de modo que favoreçam a vontade, os interesses e os valores do ator que tem o poder. O poder se exerce pela coação (ou a possibilidade de exercê-la) e/ou mediante. Tradução nossa do original: “una relación de hombres que dominan hombres, uma relación apoyada por medios de violencia legítima [es decir, considerada legítima]. Para que exista el estado, el dominado debe obedecer a la autoridade de los poderes existentes... el instrumento decisivo de la política es la violencia” 2 Tradução nossa: el poder es relacional, la dominación es institucional. 3 Castells explica que “assimetria significa que se bem a influência em uma relação é sempre recíproca, nas relações de poder sempre há um ângulo maior de influência de um ator sobre o outro. (CASTELLS, 2014, p.34) – trad. nossa do original: “asimetria significa que si bien la influencia em uma relación es siempre recíproca, en las relaciones de poder siempre hay un mayor grado de influencia de um actor sobre el outro. 1.

(19) 15. a construção de significado partindo dos discursos através dos quais os atores sociais guiam suas ações. (CASTELLS, 2014, p.33).. Consideramos importante aqui fazer um adendo para elucidar os conceitos de ator e assimetria destacados por Castells. O autor define como “distintos sujeitos da ação: atores individuais, atores coletivos, organizações, instituições e redes”. (CASTELLS, 2014, P. 34) 4. Já assimetria o autor explica que significa que se nas relações a influência é sempre recíproca, “nas relações de poder sempre há um maior ângulo de influência de um ator sobre outro”. (CASTELLS, 2014, p.34) 5. Foucault (2009, p. 13) enumera diferentes recursos para o exercício do poder em cada época. O poder do soberano, por exemplo, usa o espetáculo, a demonstração pública da punição, como ferramenta para a propagação da sua força e para se reafirmar. Já o poder disciplinar, no qual Foucault adotou como modelo o Panóptipo6 de Benthan, usa a tecnologia, para vigiar e controlar. O poder é introjetado no comportamento dos diversos indivíduos da sociedade que se sentem vigiados e observados o tempo todo. A sensação de visibilidade estabelece uma pressão constante. Nunca se sabe se está sendo observado; mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. “Por isso Bentahn colocou o princípio de que o poder devia ser visível e inverificável”. (FOUCAULT, 2009, p.191). O modelo de poder disciplinar a partir do qual a tecnologia do Panóptico oferece vigilância e controle, cria uma armadilha que evita o uso da força como o verificado no poder do soberano porque “age mesmo antes mesmo que as faltas, os erros, os crimes sejam cometidos”. (FOUCAULT, 2009, p.195). Souza (2011, p.118) explica como Foucault estabelece uma divisão dessas duas formas de poder (do soberano e o disciplinar):. No modelo social clássico, como o trecho dedicado ao poder soberano pretendeu ilustrar, a visibilidade estava representada pelo soberano, ou seja, por quem exercia a soberania e se situava – por conseguinte – nas esferas mais altas do poder. O modelo de poder disciplinar já contém uma 4 Tradução nossa do original: “distintos sujetos de la acción: actores individuales, actores colectivos, organizaciones, instituiciones y redes”. 5 Tradução nossa do original: “asimetria significa que si bien la influencia em uma relación es siempre recíproca, en las relaciones de poder siempre hay un mayor grado de influencia de um actor sobre el outro. 6 Panoptico é uma figura arquitetural do poder exercido pela vigilância e controle. “O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre: esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel: a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um condenado, um doente, um operário ou um escolar. Pelo efeito contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se a exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia”. (FOUCAULT, 2009, p.190)..

(20) 16. formulação diferenciada e, nesse ponto, inversa. Isso porque o poder disciplinar busca seu método de exercício no silêncio, no anonimato. A visibilidade nessa relação (entre aquele que exerce e aquele e aquele sobre quem o mecanismo de poder disciplinar é exercido) está ao lado dos corpos sobre os quais o poder está atuando e, por esse aspecto, pode ser definida – se pensarmos numa figura de uma pirâmide – como descendente. Nesse sentimento podemos afirmar que poder tende a se tornar – no regime do poder disciplinar – mais anônimo e funcional. (SOUZA, 2011, p.118).. Thompson (2012) também considera que exercer o poder é ter “a capacidade de intervir no curso dos acontecimentos e em suas consequências”. (THOMPSON, 2012, p. 38) sem que haja uso da força e da violência. O autor faz uma distinção entre quatro tipos de poder (econômico, coercitivo, político e simbólico) que estão presentes de forma entremeada na sociedade. O poder coercitivo que utiliza a força ou a violência, geralmente está associado à justiça, ao Estado por meio de suas instituições militares e punitivas. O poder econômico é resultado da atividade produtiva, do uso da matéria prima transformada em produto; o poder político está associado ao Estado, às instituições responsáveis por regular e estruturar a sociedade, elaborar as leis, estabelecer sistemas de regras e procedimentos; e o poder simbólico nasce, segundo Thompson (2012), na vida social, na comunicação entre os indivíduos, na transmissão e recepção de formas simbólicas:. A atividade simbólica é característica fundamental da vida social, em igualdade de condições com a atividade produtiva, a coordenação dos indivíduos e a atividade coerciva. Os indivíduos se ocupam constantemente com as atividades de expressão de si mesmos em formas simbólicas ou de interpretação das expressões usadas pelos outros; eles são continuamente envolvidos na comunicação uns com os outros e na troca de informação de conteúdo simbólico”. (THOMPSON, 2012, p.42).. Neste sentido, vale destacar o conceito de poder simbólico que está incorporado a uma parte do amplo estudo de Bordieu (1989) sobre as relações de poder. O autor defende que o poder é “invisível” e circula por toda parte. O poder simbólico define os conceitos de tudo que existe; é a “construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo”, (BORDIEU, 1989, p.9). Assim, o simbólico é um instrumento da estruturação do conhecimento, definindo o entendimento de tempo, espaço, da causa e efeito. Ainda para o autor o universo simbólico se transforma em dominação política a partir dos processos comunicacionais.. Não basta notar que as relações de comunicação são, de modo inseparável, sempre relações de poder, que dependem na forma e no conteúdo do poder material acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos nessas.

(21) 17. relações e que, como o dom ou potlatchs podem acumular poder simbólico. É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento que os sistemas simbólicos cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre a outra (violência simbólica). (BORDIEU, 1989, p.11).. O poder simbólico para Bordieu (1989), diferente do poder coercitivo, do qual a justiça e o Estado são detentores naturais, só pode ser exercido sem a utilização da força, pelo consentimento de quem é a ele submetido, mesmo que isso não seja evidente. Bordieu (1989) considera a submissão como consequência de um reconhecimento, de uma confiança em uma pessoa ou uma instituição. Quanto maior esse reconhecimento, confiança e credibilidade, maior será o capital simbólico “geralmente chamado de prestígio, reputação, fama, etc., que é a forma percebida e reconhecida que legitima as diferentes espécies de capital”. (BORDIEU, 1989, p.134-135). Para Bordieu (1989) é a partir do volume e da composição do capital que os agentes ocupam seus espaços no campo social. Esse poder, invisível, controlador e que age na construção de significados é mediado pelos meios de comunicação social. Breton (1992, p.119) lembra que até o século XIX a bússola que orientava os indivíduos quanto aos valores compartilhados socialmente estava, em grande parte, na família, na religião. O homem moderno, observa o autor, usa como bússola os meios de comunicação que “passam a ser o único lugar onde estão as informações que hão de permitir decodificar os diferentes universos em que evoluímos”. (BRETON, 1992, p.119). Isso vale tanto para informação jornalística como para legitimar o comportamento. O papel dos meios de comunicação, “não é de fato o de produzir ou monopolizar a verdade – neste sentido as médias não se arvoram como um novo poder – mas antes o de compor a verdade a partir dos diferentes pontos de vista que lhes compete por uma”. (BRETON, 1992, p.120) A mídia é, segundo Alsina (2009), quem fornece os discursos que norteiam grupos sociais ou classes a construírem “a vida, significados, práticas e valores de outros grupos ou classes sociais e sobre a sua situação com relação ao quesito globalidade”. (ALSINA, 2009 p.71). No contexto da sociedade atual, as interações sociais ocorrem, em grande parte, por meios técnicos como o rádio, a televisão, os jornais, o telefone ou a partir de trocas de bits e códigos, como as observadas na web. Segundo Thompson (2012), isso impacta aspectos sociais e políticos, pois os meios não são apenas transmissores neutros:.

(22) 18. O desenvolvimento de novos meios de comunicação cria novas formas de ação e interação e novos tipos de relacionamentos sociais – formas que são bastante diferentes das que tinham prevalecido durante a maior parte da história humana. Ele faz surgir complexas reorganizações de padrões de interação humana através do espaço e do tempo. (THOMPSON, 2012, p.119).. Os meios de comunicação - “meios técnicos”7 como classifica Thompson (2012, p.50) - trabalham como fixadores de bens simbólicos entre os indivíduos. A informação, codificada e decodificada se transforma em conhecimento que oferece uma plataforma para que novas informações sejam codificadas e decodificadas. As novas tecnologias de armazenamento de bens simbólicos “podem servir assim de fonte para o exercício de diferentes formas de poder”. (THOMPSON, 2012 p.45), afinal, tecnologia e poder sempre foram importantes parceiros na história da humanidade.. 1.1 A tecnologia e os impactos sociais e econômicos. Ao analisar a evolução da tecnologia, é possível afirmar que há uma forte imbricação entre a história das máquinas e história do homem. As grandes inovações tecnológicas sempre estiveram aliadas a grandes alterações na forma de pensar e enxergar a realidade, na expressão e no comportamento do indivíduo, enfim, nas relações sociais, políticas, econômicas e, principalmente de poder. Moreno (2013) sustenta que “os detentores da tecnologia têm poder, pois podem fazer coisas que os não possuidores da tecnologia não podem”. (Moreno, 2013 p.53). A autora observa que a posse da tecnologia como expressão do poder faz parte da história do homem. Keekok (2009) em seu estudo analisa a tecnologia a uma forma de poder primitivo voltando o olhar para o homo-faber que constrói artefatos com objetivo de “controlar e manipular a natureza para servi-lo”. (KEEKOK, 2009, p.13)8. Para o autor este foi, inclusive, o conceito que permeou toda a instrumentalização da natureza. “Embora as metas tenham mudado irreconhecivelmente e espetacularmente ao longo dos anos, o objetivo de. 7 Thompson usa “meio técnico de comunicação para se referir aos elementos materiais pelos quais a informação ou conteúdo simbólico é transmitido”. 8 Tradução nossa do original: the essence of homo faber is to control and manipulate nature to serve human-ends..

(23) 19. manipulação e controle da natureza para propósitos humanos permanecem”. (KEEKOK, 2009, p. 14) 9. Gleick (2013, p.100) estabelece uma conexão entre o controle e manipulação de fontes de energia da natureza e o surgimento de novas formas de produção de bens e de relações sociais e de poder. O fogo e a força física conduziram, por muito tempo, as sociedades agrícolas, formadas de pequenos clãs sedentários que viviam a partir do cultivo de plantas e da criação de animais para a subsistência. O vapor produzido pela queima do carvão, impulsionou a indústria alterando a economia de subsistência para a de acumulação de capital e provocando o abandono do campo para cidades que apresentaram enorme crescimento populacional. Gleick (2013) observa que expressões corriqueiras do dia a dia, passaram a associar a queima do carvão a sinônimo de força, poder e vigor:. O vapor quente, gerado pela queima do carvão e controlado por engenhosos inventores, contava com a portabilidade e a versatilidade. Substituiu os músculos por toda a parte. Foi incorporado em expressões: as pessoas passaram a se excitar (steam up) ou ganhar força (get more steam on) ou desabafar (blow off steam). (GLEICK, 2013, p.100).. Depois do carvão, Gleick (2013, p.137) destaca o controle humano da energia elétrica em diversas experiências, uma delas do abade Jean-Antoine Nollet no século XVIII, que com uma garrafa de Leiden e um fio de ferro fez um choque proveniente de um raio percorrer o corpo de 200 monges dispostos em um círculo. “Fosse qual fosse sua natureza, a eletricidade era reconhecida como uma força natural posta sob o controle humano.” (GLEICK, 2013, p.137). Uma energia mais fluída capaz de ”transcender níveis do cinético para o significado”. (GLEICK, 2013,P.138). E foi essa tecnologia que, segundo foi explicitado por Marx ([1848],2010) no manifesto do partido comunista, gradualmente alterou a sociedade e deu início ao processo que denominamos globalização:. A auto-suficiência e o isolamento regional e nacional de outrora deram lugar a um intercâmbio generalizado, a uma interdependência geral entre as nações. Isso vale tanto para as produções materiais quanto para as intelectuais. Os produtos intelectuais de cada nação tornam-se um bem comum. O espírito nacional tacanho e limitado torna-se cada dia mais inviável, e da soma das literaturas nacionais e regionais cria-se uma literatura mundial. (MARX [1848], 2010, p.30). 9 Tradução nossa do original: Although the means to achieve the goal have changed unrecognizable and spectacularly through the ages, the goal of manipulation and control of nature for humam proposes permanece steadfastly unchanged..

(24) 20. McLuhan (2007) também focaliza a tecnologia e suas inovações como trampolim para mudanças nas relações humanas. A eletricidade como fonte de energia, “viria causar a maior das revoluções ao liquidar a sequência e tornar as coisas simultâneas”. (MCLUHAN, 2007, p.26). A eletricidade alterou, segundo o autor, o modelo gerado pelo vapor durante a revolução industrial; criou uma aldeia global e um mundo unificado pelas inovações que despontaram a partir da energia elétrica. “A nossa configuração e estruturação elétrica da vida cada vez mais se opõe aos velhos processos e instrumentos de análise, lineares e fragmentários, da idade mecânica”. (MCLUHAN, 2007, p. 42). Wiener (1970) diz que o pensamento de cada época se reflete em sua técnica. “Se os séculos XVII e XVIII constituem a era do relógio e os séculos XVIII e XIX a era das máquinas a vapor, os tempos presentes são a era da comunicação”. (WIENER, 1970, P. 67). Breton (1992) compartilha o conceito de que instrumentos tecnológicos impactam o comportamento do homem e suas relações, mas critica a visão determinista:. O ponto de vista determinista que pretende que as técnicas conduzem à mudança social a partir do exterior, reduz a história dessas mudanças a uma simples história das técnicas. No fim das contas, chega-se a uma explicação limitada e simplificadora em que o único ator verdadeiramente decisivo da mudança é o engenheiro e a única história que importa é a dos objetos que ele aperfeiçoa. (BRETON, 1992, p.95).. Inúmeras vezes na história houve uma convicção de que a tecnologia, dependendo da forma que fosse apropriada, poderia ser uma aliada para transformações sociais. Marx ([1848] ,2010) supôs, que o telégrafo, uma das tecnologias que serviu de apoio para a consolidação da classe burguesa e para a expansão da produção, embora criado pelo capital, poderia ser apropriado para mobilizar os trabalhadores e organizar a “revolução do proletariado”: O resultado verdadeiro das lutas não é o sucesso imediato, mas a extensão sempre maior da união dos operários. Esta é favorecida pelo crescimento dos meios de comunicação, criados pela grande indústria, que colocam em contato operários de diferentes localidades. Basta apenas esse contato para centralizar as inúmeras lutas locais – que têm em toda a parte o mesmo carácter – em uma luta nacional, em luta de classes. (MARX, 2010, [1848], p.39).. Bertold Brecht, em sua Teoria do Rádio, desenvolvida entre 1927 a 1932, visualizou na tecnologia do rádio uma capacidade social transformadora. Brecht expressou a ideia do veículo como um novo espaço para a esfera pública. Para ele, o microfone também se aberto para a expressão dos ouvintes, os transformaria em produtores de informação..

(25) 21. É preciso transformar o rádio, convertê-lo de aparelho de distribuição em aparelho de comunicação. O rádio seria o mais fabuloso meio de comunicação imaginável na vida pública, um fantástico sistema de canalização. Isto é, seria se não somente fosse capaz de emitir, como também de receber; portanto, se conseguisse não apenas se fazer escutar pelo ouvinte, mas também pôr-se em comunicação com ele. .A radiodifusão deveria, consequentemente, afastar-se dos que a abastecem e constituir os radiouvintes como abastecedores. Portanto, todos os esforços da radiodifusão em realmente conferir, aos assuntos públicos, o caráter de coisa pública são totalmente positivos. (BRECHT, apud ZUCULOTO, 2005, p. 7 e 8).. A postura que visualiza a ciência de forma pura, de acordo com Dagnino (2008) foi especialmente criticada pelos teóricos da Escola de Frankfurt nos anos 60 que começaram a analisar as evoluções tecnológicas inseridas em uma cesta de valores. “O que faz com que, desse ponto de vista, a ordem tecnológica apareça em sua contingência como um possível objeto de crítica e ação políticas”. (DAGNINO, 2008, p.18). Ou seja, nem mesmo a pesquisa para a busca da evolução tecnológica, estaria liberta de condições sociais, políticas e econômicas. Para Castells (1999, p.73) não só a tecnologia define a sociedade como é definida por ela. Há uma ação em agrupamento e não isolada:. Ela reflete um determinado estágio de conhecimento; um ambiente institucional e industrial específico; uma certa disponibilidade de talentos para definir um problema técnico e resolve-lo; uma mentalidade econômica para dar essa aplicação uma boa relação custo/benefício; e uma rede de fabricantes e usuários capazes de comunicar suas experiências de modo cumulativo e aprender usando e fazendo. (CASTELLS, 1999, p.73).. É importante observar, que nenhuma evolução tecnológica tem ocorrido sem o impulso econômico, ou seja, sem um aporte financeiro para o desenvolvimento de uma máquina e uma expectativa de retorno do capital investido. Teorias e pesquisas podem ficar anos no papel aguardando condições apropriadas para serem concretizadas. Bush (1945) recorda as pesquisas do matemático Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), que desenvolveu o sistema binário:. Dois séculos atrás, Leibniz inventou uma máquina de calcular que incorporava a maioria das características dos atuais dispositivos com teclado, mas não tinha como utilizá-las. A conjuntura econômica era desfavorável, pois o trabalho requerido para construí-la numa época anterior a produção em massa extrapolava o retorno da sua utilidade, já que tudo que ela fazia poderia ser suficientemente feito utilizando lápis e papel. (BUSH, 1945, p. 1)..

(26) 22. Também para Santos (2000) o desenvolvimento tecnológico está associado a diversos fatores. O autor fala de “família de técnicas” que surgem na história da humanidade como marca de cada época e não como forma isolada. São sistemas carregados dos comportamentos sociais, condições econômicas e políticas que seguem em um progresso sem fim. “Essas famílias de técnicas transportam uma história, cada sistema técnico representa uma época.” (SANTOS, 2000, p.25). Straubahaar e LaRose (2004, p.25) consideram que há “estágios de desenvolvimento” e apontam que também os meios de comunicação dependeram de condições compostas de mais de um elemento inter-relacionado para progredirem. “Não poderíamos ter meios de massa disponíveis, por exemplo, antes que a Revolução Industrial tivesse tornado possível a disseminação em massa de livros, jornais, rádio e televisão”. (STRAUBAHAAR e LAROSE, 2004, p.26). Por isso é possível estabelecer uma relação entre poder econômico e os meios de comunicação de massa, especialmente os do século XX. Winner (1980) acredita que fatores econômicos, sociais e políticos interferem no desenvolvimento tecnológico e definem o futuro de uma sociedade. Um exemplo clássico, oferecido pelo autor é a ponte em Long Island10 em Nova Iorque que foi erguida em altura que evitou o trânsito de ônibus, segregando populações de renda mais baixa, negros e pobres e configurando a cidade de Nova Iorque por gerações:. Estudos acerca de máquinas e instrumentos industriais também se transformam em interessantes histórias políticas, incluindo alguns que violam as nossas expectativas normais sobre porque as inovações tecnológicas são feitas. (WINNER, 1980, p.124)11.. Winner (1980) considera que, para entender o contexto da criação da tecnologia e seu impacto para a sociedade é preciso avaliar as circunstâncias históricas e políticas que envolvem a técnica e seus impactos e suas transformações. Recortando um período histórico é possível observar que muitas pesquisas, avanços tecnológicos e desenvolvimento de técnicas e equipamentos, surgem a partir da necessidade de manutenção da soberania nacional, do domínio imperialista e do poder militar. As duas grandes guerras, especialmente a segunda, dispararam pesquisas e novas tecnologias.. 10. A ponte foi erguida pelo arquiteto Robert Moses, o maior construtor de estradas, parques, pontes e diversas obras públicas de 1920 a 1970. A especificação de construir a ponte em uma altura menor teria como objetivo desencorajar a circulação de ônibus. 11 Do original: “Studies off industrial machines and a instruments also turn up interesting political stories, including some that violate our normal expectations about why technological innovations are made in the first place. (WINNER, 1980, p.124)..

(27) 23. 1.2 As máquinas elétricas de comunicação. O telégrafo foi um dos primeiros dispositivos amplamente utilizados como equipamento para a manutenção do poder militar. O equipamento alterou a velocidade da troca de informações entre terras distantes e segundo Standage (1998) a tecnologia foi largamente empregada para encurtar distância entre soldados e seus generais, entre os generais e o governo. “O telégrafo provou o seu valor como uma ferramenta militar na Europa quando foi usado pela Prússia para coordenar um movimento que levou diretamente a sua vitória sobre a França em Könniggrätz”. (STANDAGE, 1998, p.159)12. As mensagens enviadas por meio do telégrafo também impactaram a imprensa e os seus leitores. As notícias internacionais que antes demoravam meses para saírem impressas nos jornais começaram a ser veiculadas com mais agilidade. Os veículos instalaram correspondentes em diversos cantos do mundo. “Em vez de limitar suas coberturas a uma pequena localidade, o jornal era capaz, pela primeira vez, de oferecer pelo menos a ilusão de uma cobertura global”. (STANDAGE, 1998, p.152)13. A tecnologia do telégrafo e a grande aceitação da veiculação de informações estrangeiras dispararam o crescimento das agências de notícias. Elas concentravam um número de correspondentes que espalhados pelo mundo distribuíam conteúdo noticioso para inúmeros jornais. O modelo das agências, de distribuir conteúdo informativo pelo telégrafo estabeleceu um poder geopolítico, afinal, as notícias saíam de um ponto determinado no globo e eram espalhadas para todo o mundo. Ou seja, os correspondentes ficavam cada vez mais perto de países que detinham cabos de ligação do telégrafo: Quando a Inglaterra e França estavam conectadas pelo telégrafo, em 1859, Reuters foi para Londres. Sua política era “siga o cabo”, então Londres era o lugar para ser, ao mesmo tempo, capital financeira do mundo e centro da rápida expansão do telégrafo. (STANDAGE, 1998, p.151)14.. A demarcação do “centro” para crescimento financeiro e das comunicações, para muitos teóricos, representou a conquista cultural e ideológica global. Os repórteres que eram. Tradução nossa do original: “The telegraph proved its value as a military tool in Europe, where it was used by the Prussians to coordinate a pincer movement that led directly to their victory over the French at Könniggrätz”. 13 Tradução nossa do original: “Instead of limiting their coverage to a small locality newspaper were able for the first time to give at least the ilusion of global coverage”. 14 Tradução nossa do original: “When the England and France were linked by telegraph in 1859 , Reuters moved to London. His policy was ‘follow the cable’. So London was the place to be, since it was both the financial capital of the world and center of rapidly expanding international telegraph network”. 12.

(28) 24. os olhos dos leitores diante dos acontecimentos não só relatavam os fatos, mas também transportavam um conceito ideológico.. É fácil avaliar a terrível força que compõe as agências de notícias, as agências de publicidade e cadeias de jornais e revistas, sua influência política, sua capacidade de modificar a opinião, de criar e manter mitos ou de destruir esperanças e combater aspirações. (WERNECK, 1999, p.4).. Standage (1998) classifica a tecnologia do telégrafo como “mãe de todas as redes” porque tanto o telégrafo, como rádio, a televisão e posteriormente a internet, são inovações que surgiram a partir da eletricidade como fonte geradora de energia. “Assim a eletricidade viria a causar a maior das revoluções, ao liquidar a sequência e tornar as coisas simultâneas”. (MCLUHAN, 2007, p.26). Estabelecendo uma comparação é possível reparar que as máquinas com a tecnologia da era mecânica - quando a fonte de energia era proveniente da queima do carvão - eram extensão dos movimentos, uma forma de potencializar o trabalho físico humano na produção de objetos materiais. A tecnologia da energia gerada pela eletricidade, não tem como único objetivo a produção material, mas é como explica Wiener (1970): O que a distingue da tecnologia da força motriz é que o seu interesse fundamental não é a economia de energia, mas a reprodução precisa de um sinal. Este sinal pode ser a leve pancada de uma chave, a ser reproduzida como uma batidinha de um receptor telegráfico na outra extremidade; ou pode ser um som recebido e transmitido através da aparelhagem de um telefone; ou pode ser o girar da roda do leme, recebido como a posição angular do timão. (WIENER, 1970, p.67).. No final da década de 40 e início de 50, encontros organizados pela Fundação Macy reuniram em Nova Iorque diversos pesquisadores de várias áreas, sendo um dos expoentes desse grupo, Norbert Wiener que cunhou o termo Cibernética para este campo de estudo que despontava com esse conjunto de cientistas. Estes pesquisadores, experientes matemáticos e físicos, surgiram a partir da segunda guerra e das descobertas de máquinas como os equipamentos de controle de fogo antiaéreo. A palavra Cibernética foi um derivado “da palavra grega kubernetes, ou piloto, a mesma palavra grega de que eventualmente derivamos a nossa palavra governador”. (WIENER, 1954, p.15). Esses estudos que estabeleceram conceitos para a formulação de sistemas complexos de interação homem-máquina, máquina-máquina e máquina e o resto da natureza viva, sempre utilizando estrategicamente o controle comunicativo. “Tal controle da máquina com base no seu desempenho efetivo em vez do seu desempenho esperado é conhecido como.

(29) 25. realimentação (feedback) e envolve membros sensórios que são acionados por membros motores”. (WIENER, 1954, p.24). Para o autor havia semelhança entre homens e máquinas.. Quando dou uma ordem a uma máquina, a situação não difere essencialmente da que surge quando dou uma ordem a uma pessoa. Por outras palavras, tanto quanto alcança minha consciência, estou ciente da ordem emitida e do sinal de aquiescência recebido de volta. Para mim, pessoalmente, o fato de o sinal, em seus estágios intermediários, ter passado por uma máquina em vez de por uma pessoa, é irrelevante, e em nenhum caso altera significativamente minha relação com o sinal. Dessarte, a teoria do comando em engenharia, quer seja ele humano, animal ou mecânico, constitui um capítulo da teoria das mensagens. (WIENER, 1954, p.16).. As máquinas movidas à vapor são capazes de potencializar o movimento muscular. Já as máquinas elétricas potencializam sinais e, por isso, podem realizar parte do trabalho que o cérebro humano executa; deixam, portanto o nível cinético para se aproximarem da transmissão de informação por neurônios, ou seja, se aproximam mais dos transmissores de significado. Por isso, segundo Gleick (2013) pretendia que a cibernética fosse um campo capaz estabelecer uma relação entre máquinas e o ser humano; “ele não estava tão interessado em esclarecer a ascensão da computação – com a qual, aliás seus elos eram apenas periféricos – quanto em descobrir como a computação poderia esclarecer a humanidade. (GLEICK, 2013, p 249). Na comunicação entre máquinas, assim como entre seres humanos, Wiener (1968) aponta a existência de um inimigo: a desorganização provocada pelo excesso de informação. Para explicar o desarranjo Wiener (1968) recorre ao termo entropia:. Conforme aumenta a entropia, o universo, e todos os sistemas fechados do universo, tendem naturalmente a se deteriorar e a perder a nitidez; a passar de um estado de mínima a outro de máxima probabilidade; de um estado de organização e diferenciação, em que existem formas e distinções a um estado de caos e mesmice. (WIENER, 1968, p.14).. Para evitar a entropia, Wiener (1968) implanta o processo de retro-alimentação, de feedback, um processo que seria, segundo Pfhol (2008, p.209) “um sistema fechado, temporário, um enclave local contra o caos”. Para o autor, o “delírio” de Wiener é fazer um salto da cibernética para assuntos do simbolismo abstrato; é saltar de um sistema fechado para um sistema diferente do vivenciado pelo humano em sua comunicação..

(30) 26. Neste aspecto filosófico do trabalho de Wiener, a cibernética se torna uma ciência moral adequada para combater o seu arqui-inimigo: a desorganização. Wiener afirma que este inimigo não é o diabo maniqueísta com seus truques habilidosos de dissimulação (...). Wiener delirantemente imagina a cibernética como uma arma sagrada e científica que estuda os circuitos de feedback comunicativo para descobrir e exorcizar o ruído ‘entrópico’. (PFHOL, 2008, p. 209,210).. Essa perspectiva de Wiener coloca a comunicação com e entre máquinas como parte do homem e da sociedade. Bretom (1992) avalia que o conceito de Wiener trouxe uma utopia de que a lógica das máquinas pudesse ajudar o homem na sua organização social e política, um conceito que, segundo o autor transforma as máquinas em “seres comunicantes”. (BRETON, 1992, p.51). A partir deste princípio, a sociedade passa a ser compreendida “apenas através do estudo das mensagens e das facilidades de transmissão”. (BRETON, 1992, p.30). Breton (1992) lembra que toda tecnologia vem carregada de valores que determinam o desenvolvimento de novos instrumentos e máquinas. “Todas as novas máquinas de comunicar que povoam progressivamente o nosso ambiente quotidiano são verdadeiros cavalos de Tróia”. (BRETON, 1992, P.98). O autor salienta ainda que os computadores foram desenvolvidos pelos mesmos homens e na mesma época da bomba atômica.. Enquanto a bomba é o ponto alto das realizações da antiga ciência, comprometida com a barbárie, o computador anuncia – estamos realmente aqui no domínio da esperança – uma sociedade nova, em que a racionalidade se imporá a loucura mortífera. Moralmente o computador representa, para muitos cientistas do pós-guerra, o resgate dos pecados nucleares. (BRETON, 1992, p. 99).. A evolução da tecnologia comunicacional que ampliou a relação homem-máquina, como em todo desenvolvimento tecnológico, apresenta tensões econômicas sociais e políticas. São valores que ficam embutidos nas estruturas das máquinas e sistemas. As relações sociais, lembra Moreno (2013, p.54), sempre foram construídas a partir de lutas e a tecnologia, principalmente a que carrega informação, é um vetor com força e direção:. Há certo controle dos fluxos mundiais de desenvolvimento da tecnologia e da inovação por países industrializados. Não é qualquer país que pode, em termos de capacidade e também de controle que pode gerar tecnologia de informação e comunicação. Sabemos que Bill Gates, os americanos, os.

(31) 27. japoneses, os alemães detém o monopólio da criação de software e de hardware. (MORENO, 2013, p.54)15.. Castells (1999, p.73) acredita na superioridade de quem é produtor de tecnologia sobre quem é apenas usuário: “as elites aprendem fazendo e com isso modificam as aplicações da tecnologia, enquanto a maior parte das pessoas aprende usando, assim, permanece dentro do pacote da tecnologia”. (CASTELLS, 1999, p.73).. No século XX, as tecnologias mais. poderosas, as da comunicação a distância, como telefone, rádio, televisão, assim como os produtos de comunicação, como programas, filmes, músicos, estiveram nas mãos de grandes oligopólios formado por empresas ligadas politica e economicamente as maiores potências mundiais que dominaram o século.. 1.3 Os donos da tecnologia da comunicação no século XX. Os veículos de comunicação de massa, na maioria dos países ocidentais, foram os principais meios utilizados para a difusão da filosofia e da ideologia necessárias que sustentaram a expansão do capitalismo. Através principalmente da publicidade, foram criadas necessidades para o indivíduo que forçasse um crescimento do consumo, das vendas e claro da produção. “As invenções técnicas foram necessárias para que a cultura industrial se tornasse possível (...). Sem o prodigioso impulso do espírito capitalista essas invenções não teriam conhecido um desenvolvimento tão radical e maciçamente orientado”. (MORIN, 1986, p. 22). Wiener (1970, p. 203) destaca a importância da transmissão da informação como importante meio para manter o equilíbrio de um grupo e ressalta a importância dos meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas, livros, cinema, telégrafo, telefone, correio, escola, igreja, teatro). Mas, lembra que além da importância de ser um meio de ligação em amplas sociedades, todos os meios citados possuem uma outra função associada. O jornal, o cinema, o livro, o rádio, a televisão não serão produzidos se não derem lucro. Essa dupla função, segundo Wiener (1970) provoca a distorção que resume o que vem ocorrendo:. Surge uma tripla constrição dos meios de comunicação: a eliminação dos meios menos lucrativos em favor dos mais lucrativos; o fato de ficarem esses 15. Tradução nossa do original: Pero hay cierto control sobre los flujos mundiales de desarrollo de tecnología y de innovación por parte de los países industrializados.No cualquier país “puede”, en términos de capacidad ytambién en términos de control, generar tecnología de información y de comunicación. Sabemos que Bill Gates, los americanos, los japoneses, los alemanes tienen el monopolio de la creación de software y hardware..

(32) 28. meios em mãos de um número limitado de homens abastados e, assim, naturalmente, expressarem a opinião da referida classe; e mais o fato de que, como uma das principais vias para o poder pessoal e político, atraem acima de tudo os sequiosos de tal poder. Aquele sistema que acima de todos deveria contribuir para a homeostase social é atirado diretamente nas mãos dos mais interessados no jogo do poder e do dinheiro, os quais, como vimos, constituem um dos principais elementos anti-homeostáticos na comunidade. (WIENER, 1970, p.204).. Funcionando como empresas capitalistas, visando vendas e lucros o conteúdo informativo transmitido pelos jornais, o rádio, e posteriormente a televisão, ganharam popularidade e se tornaram bens de consumo acessível ao mundo inteiro. O modelo de distribuição de concessões radiofônicas e televisivas, adotado na maior parte dos países do ocidente, formalizou essa a ligação empresa privada e ambiente público de comunicação.. O modelo de teledifusão instituído pelo rádio comercial foi, no entanto, gradativamente absorvido pela televisão. Nos EUA, assim como no Brasil, a televisão, controlada pelas poderosas redes de rádio – que se constituíam um novo polo privado protegido pelo governo americano – desenvolveu-se para a conveniência e lucro dessas corporações. A captação da imagem e sua transmissão tornaram-se cara e apenas acessíveis à propriedade privada. (MATUCK, 1995, p.18).. Para Ramonet (2013, p.53) a ligação com a iniciativa privada inibe a possibilidade dos meios de comunicação serem espaço livre para a construção da opinião pública legitimadora do Estado. Os meios de comunicação passaram a criar problemas para a democracia não só por não oferecerem ampla visibilidade pública, mas também por representarem interesses próprios. “Eles geram problemas ao próprio sistema democrático, pois não funcionam de maneira satisfatória para os cidadãos. Isso porque, por um lado, se põem a serviço dos interesses de grupos que os controlam”. (RAMONET, 2013, p. 53). Foi oferecendo o conceito de mediadora de serviço de interesse público e usando o slogan “As comunicações são os pilares da democracia” (WU, 2012, p.196) que AT&T passou a ser um dos maiores conglomerados de mídia do século passado. Segundo Tim Wu (2012.p.196) , por ser uma das empresas mais poderosas dos Estados Unidos, a AT&T chegou a submeter decisões do Estado e da justiça em seu favor. Para ilustrar, o autor conta o fato quando a empresa foi administradora do Laboratório Bell e financiou pesquisas que contribuíram para o governo americano. “Na verdade, a AT&T parecia tão essencial para a proteção do país que o Departamento de Defesa interveio com energia para evitar a divisão da empresa no processo antitruste de 1956, citando ‘dano a segurança nacional”. (WU, 2012, p.195)..

Referências

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