Resumo
A reportagem multimídia Urânio em Caetité pretende ser uma investigação do fenômeno nuclear dentro da realidade de Caetité, município localizado no sertão baiano. Para tanto não partiremos de uma opinião a respeito da validade ou não do Programa Nuclear Brasileiro em princípio, mas o analisaremos em perspectiva histórica na medida em que ajude a explicar a exploração de Urânio pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e toda a complexidade do problema em Caetité. A principal motivação para o presente trabalho são as denúncias de contaminação de água feitas por órgão do estado e pela Greenpeace e a polêmica que se seguiu, com muitas informações contraditórias sendo veiculadas em diversos meios de imprensa. O perigo da verticalização das informações em uma atividade de risco como é a exploração de Urânio e de discursos bem produzidos e de difícil acesso à população de maioria analfabeta (IBGE, 2001) do referido município é tão grande quanto os riscos de que contaminações constantes atravessem os limites da mina em Caetité, atingindo a população local e, é possível, alcançando a bacia do Rio de Contas.
Palavras-Chaves: Jornalismo Ambiental, Jornalismo Investigativo, Contaminação por Urânio, Webjornalismo.
1 Apresentação
Nossa aproximação com o jornalismo ambiental se deu em momentos distintos. Chagas quando cursou, em 2009.1, a disciplina “Atualidades”, ministrada pela professora Simone Bortoliero, pode travar conhecimento com pesquisadores e jornalistas que tinham como objeto de trabalho o jornalismo ambiental. Além disso, a preocupação com o tema meio ambiente sempre esteve presente entre suas preferências de leitura.
Boaventura, por sua vez, aproximou-se do tema a partir dos relatos que ouvia de Chagas na época em que este cursava a disciplina. A partir de então, passamos a estudar as relações do meio ambiente com outras áreas de interesse, como a social e a política. Nesse mesmo semestre, já éramos parceiros de trabalho na disciplina Temas Especiais em Telejornalismo, para a qual produzimos duas matérias de vídeo sobre a re-habitação do Pelourinho e sobre a nova estrutura das residências universitárias da UFBA.
No segundo semestre do ano anterior, já havíamos trabalhado juntos na disciplina Oficina de Jornalismo Digital, ministrada pelo professor André Holanda, na qual pudemos exercitar juntos a prática de Jornalismo Investigativo, a partir de uma denúncia de irregularidade na gestão do Museu de Arte Moderna. Nesta experiência, inclusive, discutimos a importância da apuração de informações que muitas vezes camuflam os interesses das fontes.
Além disso, produzir para a Lupa Digital, revista da internet produzida por alunos da FACOM, nos permitiu maior proximidade com a linguagem da web. A velocidade, a possibilidade de utilizar muitas mídias, o acesso, os baixos custos, a questão da memória e do hipertexto fez com que considerássemos este suporte como o adequado para a realização do nosso projeto. Nisso, auxiliou-nos os conhecimentos passados por André Lemos na disciplina Comunicação e Tecnologia, dando-nos ferramentas teóricas para que pensássemos o nosso produto.
Em 2009, as primeiras denúncias de contaminação da água de Caetité (Ba) por Urânio começaram a ser publicadas pelo jornal A Tarde. Na medida que outras denúncias apareciam, fomos nos aprofundando no tema. Naturalmente, o tema foi escolhido por nós. Isto, após refletirmos, sobre a possibilidade de implantação de termelétricas em Ilhéus, tema que decidimos não aprofundar dado o fato de que a informação encontrava-se somente no campo das possibilidades, sem nada concreto.
Muitos aspectos envolvidos no tema nos interessavam. O primeiro diz respeito a como deveríamos percebê-lo. Era um problema ambiental que nos forçava a incluir o homem no conceito de meio ambiente. A essa altura já havíamos percebido que os meios de comunicação não observaram isso em toda sua dimensão. A abordagem dispensada ao tema era apenas a contaminação da água ou não por urânio e sua causa, e na verdade, desconsiderava que este era, principalmente, um problema que atingia o ser humano. Raramente sentimos que os meios de comunicação tivessem a preocupação sobre como as notícias que veiculavam iria repercutir para e sobre a comunidade local.
Na primeira semana de Junho de 2010, quando chegamos em Caetité, encontramos uma população repleta de dúvidas e alarmada com o tom trágico das matérias. Muitos informaram que não conseguiam mais vender seus produtos pelo medo da contaminação que preocupava o consumidor. Outros afirmavam que não recebiam mais ninguém em casa, por que os visitantes não queriam experimentar o seu café, hábito bem característico da hospitalidade sertaneja. Assustou perceber isso inclusive na área urbana de Caetité, que é abastecida pela Embasa e que, por tanto, não corre nenhum risco de contaminação.
Isso nos fez perceber algo que já tínhamos lido, que sabíamos em tese, mas que não havíamos tido uma experiência tão marcante, de perceber o quanto a temática ambiental se entrelaça com o próprio ser humano, com a economia, com a ciência, com a cultura e com a política.
2 Justificativa
Em 26 de abril de 1986, a explosão em um dos reatores de uma Usina Nuclear na Ucrânia, 20 km da cidade de Chernobyl, causou a maior contaminação por material radioativo do mundo – e também a maior catástrofe ambiental conhecida. Nunca antes a humanidade havia pagado uma conta tão alta por um erro relacionado a uma tecnologia.
A partir de então uma crescente preocupação com o tema “Meio Ambiente” - considerando-se, aqui, “meio ambiente” como uma chancela genérica que inclui assuntos diversos como economia, saúde, política -, fez com que muitos meios de comunicação dispensassem espaços cada vez maiores para a cobertura de acidentes com dutos de óleos e gás, pesticidas, queimadas e outras catástrofes.
Entretanto a cobertura jornalística, restrita à cobertura de catástrofes, mostrou-se e mostra-se ineficiente em seu papel de “espaço público midiatizado”, descrito por Wolton (1995, p.186), principalmente por não haver, dentro do editorial meio ambiente, um acompanhamento consistente e especializado.
Esta situação é preocupante principalmente quando pensamos em atividades de riscos altíssimos como as ligada à exploração, beneficiamento e utilização do urânio e outros elementos radioativos para a produção de energia e na saúde. Vale lembrar que o histórico dos acidentes nesta área são de conseqüências em uma extensão em espaço e tempo que era, até o acidente de Chernobyl, desconhecidas pela humanidade.
O assunto energia nuclear volta à pauta no Brasil, poucas décadas após o acidente de Goiânia, em ocasião da reativação do Programa Nuclear Brasileiro, que prevê o investimento em duas novas usinas no Nordeste além da construção do terceiro reator em Angra (Angra 3). Para suprir a necessidade de combustível de todos os projetos nucleares desenvolvidos pelo Programa Nuclear Brasileiro, há alguns anos, a empresa Indústrias Nucleares do Brasil (INB) explora urânio no Município de Caetité e Lagoa Real, ambos localizados no semi-árido baiano.
Esta exploração já foi tema de inúmeras denúncias, destacando-se a realizada pelo INGA e Greenpeace, que detectou uma quantidade imprópria de radiação em poços localizados no entorno das minas. Em meio às denuncias, como de surpresa, a ONU emite um parecer favorável à INB e à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Diante deste contexto, ficou clara a necessidade de se alinhar ao Jornalismo ambiental às praticas do Jornalismo Investigativo e buscar, no campo, uma reflexão que jogue alguma luz neste polêmico assunto que envolve muito investimento e riscos e responsabilidades imensas.
O presente trabalho busca entender de forma ampla o problema da exploração de urânio em Caetité através do depoimento de representantes de todas as partes envolvidas, colocando o Programa Nuclear Brasileiro, em perspectiva histórica.
Não podemos esquecer que o Programa Nuclear Brasileiro foi gestado em plena ditadura militar e que os instrumentos de controle civil do setor, ao que parece, ainda não foram perfeitamente amadurecidos, expondo populações e trabalhadores a um risco que é desconhecido pela sociedade civil em sua amplitude.
A intenção do Programa Nuclear Brasileiro de deter todo o ciclo do combustível nuclear (o isótopo 235) pode vir representar imenso perigo para o meio ambiente e, principalmente, para as instituições democráticas no Brasil, se não for feita a necessária transição do controle do setor nuclear das mãos dos militares para as mãos da sociedade civil. Tão graves quantos os acidentes que ocorreram, e que expuseram trabalhadores e população a contaminação do Urânio, é o fato de que a CNEN, nada menos que a maior acionária da INB, ser também a responsável de fiscalizar e regular a atividade da INB.
A reportagem Urânio em Caetité tem como objetivo adicional estender a problemática da exploração de urânio realizada pela INB em Caetité para temas que
ultrapassam a questão da contaminação. Para isto devemos entender de forma geral o problema e contextualizá-lo com as características particulares e gerais da região e como se deu a interação da região com a mineradora no nível trabalhista, econômico, hidrológico, social e político. Vale lembrar que Caetité é rica em recursos minerais, o que vem atraindo outras empresas do ramo, como a Bahia Mineração, que pretende explorar o minério de ferro da região.
Problemas com a distribuição de água e saneamento básico, urbanização crescente desorganizada, índices educacionais (dados IBGE) abaixo da média do estado, pressão imobiliária, levando a população mais pobre para os limites da cidade ou para a migração, sugerem que os questionamentos a cerca da herança que a atividade mineradora deixará para o município devem ser os mais amplos possíveis.
A escolha pelo suporte online se deu pelos baixos custos de publicação e pela possibilidade de convergência midiática, o que trouxe uma multiplicidade de registros que se adequava a proposta do trabalho.
3 Objetivos
3.1 Geral
Produzir uma web reportagem que apresente as várias vozes envolvidas nos impactos da Exploração de Urânio – população, sociedade civil organizada, ONGs, políticos, gestores públicos, especialistas e representantes do setor nuclear brasileiro. A coleta dessas vozes tem como objetivo situar de forma esclarecedora as causas e consequências destes impactos, procurando superar a estreita e fragmentada visão com que vem sendo abordados pelas inúmeras reportagens, com uma linguagem acessível.
3.2 Específicos
• Realizar um exercício de jornalismo ambiental investigativo;
• Contextualizar a Exploração de Urânio em Caetité;
• Chamar a atenção da sociedade para a questão da reativação do Programa Nuclear Brasileiro e da necessidade de se desenvolver o controle civil do Setor Nuclear;
• Alertar quanto a falta de transparência e a ambigüidade da fiscalização do setor nuclear;
• Esclarecer os reais impactos da exploração de Urânio, e dos problemas que a população de Caetité vem enfrentando após denúncias;
• Superar o discurso técnico da temática, tornando-o mais compreensível para a população em geral.
4 Urânio em Caetité
O município de Caetité localiza-se na região sul do semi-árido baiano, chamada Serra Geral. Terra de Anísio Teixeira, Prisco Viana, Waldick Soriano e Paulo Souto, a cidade já foi um pólo cultural do sertão baiano, hoje destacando-se pela indústria têxtil, pela produção de cerâmicas e por suas reservas minerais.
O comércio em sua área urbana é diversificado e desenvolvido, sobretudo pela presença da rodovia que corta a cidade e que dá acesso à rodovias federais que levam a Belo Horizonte, Brasília e Salvador. A plantação de milho, feijão e mandioca, assim como o gado leiteiro, predominam em sua zona rural.
Assim é Caetité nestes últimos 15 anos, antes e depois da vinda da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), subsidiária da CNEN e substituta da NUCLEBRÁS. A INB é uma estatal brasileira, criada em 1988, e que é responsável exclusiva pela extração e produção de combustível nuclear no Brasil. A matéria-prima desta mínero-indústria, o urânio, é um metal radioativo que, a depender do grau de enriquecimento, pode ser utilizado tanto em usinas nucleares como em bombas atômicas.
No final da década de 1970, com a retomada dos estudos de prospecção de reservas de urânio no País, a NUCLEBRÁS, vinculada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em parceria com a Companhia Brasileira de Pesquisa Mineral do Ministério de Minas e Energia, mapeou a região geológica do Cráton do São Francisco, onde detectou no município de Caetité (BA), a presença de jazidas uraníferas economicamente exploráveis.
A descoberta do núcleo da Província Uranífera de Lagoa Real, como é conhecida, e da jazida de Itataia, no Ceará, elevou o Brasil ao sétimo lugar no ranking mundial de países com maiores reservas de urânio.
Após o esgotamento da exploração de urânio economicamente rentável em Poços de Caldas (MG), a INB iniciou a construção da instalação nuclear URA Caetité, em 1998, iniciando a extração e beneficiamento primário do minério em 2000. A empresa gerou empregos na região, através da contratação de mão-de-obra não qualificada e terceirizada, já que seu quadro de técnicos é formado por servidores públicos.
Enquanto para outras partes do Brasil, a INB é uma das empresas que compõem o Programa Nuclear Brasileiro, para Caetité, ela é a empresa que extrai urânio, suspeita de contaminar a água, o solo, de colocar em risco o meio ambiente e a saúde de seus trabalhadores. Por outro lado, a INB traz dividendos para o município, patrocina os eventos municipais, reformou a Fundação Anísio Teixeira, enfim, a empresa provoca diversas opiniões e incertezas na população local.
Colocando à parte a validade ou não do Programa Nuclear Btasileiro, que é uma das discussões mais utilizadas contra as subsidiárias da CNEN, como a INB, a postura da estatal e alguns acontecimentos e pesquisas tem despertado reações contrárias à sua permanência no município, em nossa opinião, devido aos fatores detalhados abaixo.
Primeiro, a ocorrência de acidentes nucleares, como vazamentos de solventes orgânicos e concentrados de urânio. No primeiro ano de funcionamento da empresa, foi registrado um vazamento de 5 mil metros cúbicos, que corresponde a cinco milhões de litros de licor de urânio. Segundo técnicos do IBAMA e da Comissão Nacional de Energia Nuclear, órgãos federais responsáveis pela fiscalização da instalação nuclear, o material vazado não chegou a contaminar o lençol freático, porém o silêncio da INB frente ao acidente fez com que a empresa parasse por quase um ano.
Outros acidentes deste tipo aconteceram ao longo dos dez anos de funcionamento da INB. Devido a falhas operacionais, somente nos últimos doze meses, foram relatados três vazamentos, sendo o último no mês de maio. Além
destes, irregularidades como o não cumprimento de condicionantes para licença de operação aumentam as suspeitas quanto a postura, seriedade e transparência da empresa.
Segundo, denúncias de falhas em procedimentos de segurança do trabalho (radioproteção), que por vezes ocasiona em prejuízos à saúde dos trabalhadores da mina. Apesar de casos como o de Francisco Alcino, portador de leucemia e ex-funcionário da INB, demitido sem nenhuma garantia de assistência médica, a maior parte dos funcionários não se pronunciam quanto à rotina da mineradora por medo de desemprego. Esta precaução acaba sendo um obstáculo no próprio município para uma discussão que esclareça a real situação do trabalhador da mina, sobretudo os terceirizados.
Francisco Alcino, por exemplo, que sofre de grave doença motivada pela falta de atenção e pela indiferença da INB, teme exposição pública por medo de retaliação por meio da demora de recebimento de indenização que deverá ser paga pela empresa.
Terceiro, os impactos ambientais atribuídos à empresa. Após as denúncias de contaminação de água pelo Greepeace, em 2008, e as interdições de cinco poços pelo Instituto de Gestão da Água e Clima (INGÁ), fizeram recair sobre a empresa a suspeita de ser a causadora deste prejuízo ambiental.
Ainda que não haja um laudo que comprove a culpa da INB e ainda que exista a possibilidade da contaminação radioativa não ser gerada pela presença do urânio, os resultados da pesquisa e a maneira como a informação circulou nos veículos de comunicação só fizeram aumentar a desconfiança daqueles que não enxergam com bons olhos a presença da INB na cidade.
Por fim, a cultura do silêncio que permeia a Indústrias Nucleares do Brasil, a falta de comunicação da gestão municipal e dos órgãos fiscalizadores só contribui para o clima de incertezas que ainda paira sobre os moradores de Caetité.
5 Aspectos Teóricos
A base teórica e metodológica da web reportagem ancorou-se em três tipologias jornalísticas nas quais pretende inserir-se. São elas: o jornalismo ambiental, enquanto área temática e especialidade, o jornalismo investigativo, enquanto método, e o jornalismo digital, como suporte midiático e linguagem. Nas próximas linhas, detalharemos aspectos destas tipologias que foram considerados para o desenvolvimento deste projeto.
Jornalismo ambiental, de acordo com Bueno (2007, p. 35), é “o processo de captação, produção, edição e circulação de informações (conhecimentos, saberes, resultados de pesquisas, etc.) comprometidas com a temática ambiental e que se destinam a um público leigo, não especializado”. Partindo deste conceito faz-se fundamental, também, a adoção de uma definição de meio ambiente, termo que apesar de popular, ainda não está consolidado na literatura científica, variando entre campos especializados como os das ciências naturais e biológicas.
Para tanto, orientamo-nos na concepção também apresentada por Bueno, a qual consideramos adequada a uma perspectiva mais integral em qual buscamos orientar nosso trabalho. Bueno (2007, p.35) conceitua o meio ambiente como:
[...] o complexo de relações, condições e influências que permitem a criação e a sustentação da vida em todas as suas formas. Ele não se limita apenas ao chamado meio físico ou biológico (solo, clima, ar, flora, fauna, recursos hídricos, energia, nutrientes, etc.), mas inclui as interações sociais, a cultura e expressões/manifestações que garantem a sobrevivência da natureza humana (política, economia, etc.). (BUENO, 2007, p. 35)
Vale ressaltar que o jornalismo ambiental está inserido na especialidade do jornalismo científico. Bortoliero define jornalismo científico como:
a expressão do ato de comunicar através dos meios de comunicação de massa ou dos meios alternativos e especializados, os avanços e
retrocessos da ciência e tecnologia à maioria da população, podendo ser assunto relativo às pesquisas em andamento numa região ou país, um determinado conhecimento acumulado historicamente pela comunidade científica ou as recentes descobertas. (BORTOLIERO, 2009, p.2)
Podemos então, a partir das definições explicitadas acima, afirmar que o jornalismo ambiental tende a promover a interdisciplinaridade (enlaçando a questão ambiental a aspectos sociais, ecológicos, econômicos e políticos, sendo, portanto, uma especialidade que dialoga com diversas áreas do saber) e tende, considerando especialmente o contexto brasileiro, a ter a função de educar e de esclarecer o público (não especializado) ao qual se destina.
Tendo como base essas duas propriedades do jornalismo ambiental, ressaltamos a preocupação permanente de tê-las, neste trabalho, como dois dos princípios norteadores a serem seguidos.
Ramos (apud DIAZ, 2006, p. 82) corrobora a idéia de interdisciplinaridade na investigação ambiental, “uma vez que os modelos tradicionais de análise compartimentalizada em áreas distintas do conhecimento se mostraram insuficientes para a abordagem de problemas complexos que envolvem o ambiente”.
Para Ab'Saber (apud DIAZ, 2006, p.86), nos estudos de previsão de impactos, ou seja das consequências advindas da adoção/implantação de projetos científicos, é preciso que “as tarefas de previsão de impactos incluam todo um estoque de interdisciplinaridade, voltados para posturas culturais de interesse social e relevância para os cenários futuros”.
No jornalismo ambiental, uma das formas em que se pode abarcar tal complexidade de informações é através da busca por todas as fontes envolvidas. Diaz (2006, .86), ao afirmar a multiplicidade de fontes como dos pressupostos jornalísticos, destaca que no jornalismo ambiental e científico, ela “assume proporções globais e uma função vital para a real compreensão dos fatos, sendo
extremamente importante para a precisa dimensão dos riscos possíveis ao planeta de determinada atividade humana”.
Para muitos autores, o potencial educacional e esclarecedor do jornalismo ambiental (que não se pretende substitutivo à educação formal) é uma das suas peculiaridades mais significativas. Caldas (2003, p.217) define a educação ambiental como uma das peças-chave para a conscientização social da necessidade de preservação ambiental, enquanto Leite (2005, p.02) a coloca na condição de desafio para a qualificação do debate e controle social sobre os temas científicos e ambientais, tendo o jornalista a tarefa de “fornecer informação compreensível, qualificada e contextualizada”.
Utilizando-se do exemplo da aprovação de alimentos transgênicos no Brasil, Leite (2005, p.03) considera que há três patamares de ignorância pública, a serem enfrentados pelo jornalismo científico, as quais também estendemos ao jornalismo ambiental. São eles:
“A ignorância de base – É preciso um esforço considerável para esclarecer mesmo os conceitos mais basilares, principiando com células, cromossomos, mitose e meiose etc., pois eles são ignorados até mesmo entre intelectuais;
A ignorância sobre o que está acontecendo – A pesquisa genética está entre os campos mais produtivos da ciência, hoje, com publicação copiosa de trabalhos. É fundamental acompanhá-los e cobri-los, jornalisticamente, o que equivale a dizer: com critério, hierarquizando e noticiando com destaque somente o que de fato for importante;
A ignorância das implicações – Investigar e expor as consequências éticas, jurídicas, sociais e políticas das biotecnologias - do monopólio da produção de sementes à patente de seres vivos, da nova eugenia à discriminação genética no emprego e por seguradoras. É talvez a mais complexa de resolver, pois dela padecem inclusive jornalistas. (LEITE, 2005, p. 3)
Scharf (2004, p.51), em termos gerais, atribui tal realidade em parte a uma deficiência do próprio meio jornalístico, que “por tradição ou preconceito, […] trata a questão ambiental como algo superficial, espetacular, que atrai pelo que tem de belo ou destrutivo, e não por seu impacto concreto: político, econômico ou social”.
afirmou Leite, o jornalista atinja o objetivo de levar o público à reflexão, o que por sua vez, possibilitará o exercício da cidadania. Calvo Hernando (apud Diaz, 2006, p.90) sintetiza a importância da educação ambiental:
“Os meios informativos podem contribuir para familiarizar o aluno e também seus pais com as grandes questões que acontecem hoje com o desenvolvimento científico e tecnológico, tanto em suas conseqüências positivas como nos riscos e perigos que todos conhecemos, como a deterioração do meio ambiente, a destruição da camada de ozônio, o uso perverso da energia nuclear, a química ou a eletrônica e outros muitos que não se conhecem bem, mas que já podem estar entre nós”. (Calvo Hernando: 2004, p.90)
Marcondes (2008), ao traçar o perfil do jornalista que atua na área ambiental, considera que este profissional deva estar habilitado a “realizar reportagens e investigações que precisam de muito preparo técnico e capacidade de inter-relacionar fatos e dados, de forma a dar ao público as informações necessárias para que a sociedade, as empresas ou o poder público atue”.
Na elaboração do plano de ação deste trabalho, fomos orientados pela professora Simone Bortoliero, a, assim como ressalta Marcondes (2008), buscarmos preparo técnico para lidar com as diferentes nuanças que envolvem o tema escolhido. Assim, seguindo a orientação da docente, buscamos nos princípios do jornalismo investigativo, os métodos de apuração e seleção de fontes e informações para este trabalho.
Doig (2006, p.156) define o jornalismo investigativo como “aquele que vai além de uma simples reação a eventos, aprofunda-se para descobrir porque eles aconteceram. Fazer uma boa reportagem investigativa demanda tempo, é dispendioso e, às vezes, perigoso. No entanto, pode revelar problemas à população e frequentemente provoca mudanças para melhor”.
Baseados nesta concepção norteamos o desenvolvimento do trabalho, no qual buscamos esmiuçar e expor todas as informações as quais tivemos acesso, não somente no que tange à exploração de urânio em Caetité e os impactos ambientais, mas correlacionando suas causas e consequências, assim como os
interesses diversos das fontes associadas ou impactadas ao/pelo tema, construindo a partir de fragmentos, uma visão global.
Para Fortes (2005, p.13), jornalismo investigativo é mais uma marca que conceito, se seguirmos pela lógica de que toda a atividade jornalística deva ser intrinsecamente investigativa. No entanto, esta redundância é reflexo daquilo que Bucci, citado por Fortes (2005, p.13), justifica a partir de “uma imposição da burocracia e de muitas das máfias nacionais que colocaram sobre o direito de informação uma cortina de fumaça — maligna e maliciosa — capaz de barrar o direito de saber de todo cidadão”.
Vale destacar que, entre outros fatores, a independência do jornalista em relação às fontes de informação é um dos indicadores da qualidade de seu trabalho investigativo. “Ser independente da fonte é um desafio clássico e já bastante conhecido. Trata-se de não permitir que a proximidade necessária entre o repórter e sua fonte se transforme na cooptação do repórter pela fonte (...)”, afirma Bucci (apud Fortes, 2005, p.14). Eis outra preocupação que, para o desenvolvimento deste trabalho, nos fez deliberar por financiá-lo com recursos próprios.
Por fim, investigando aquilo que destaca o jornalismo investigativo entre as demais práticas jornalísticas, chegamos à observação de Fortes, que aposta nas circunstâncias enquanto diferencial desta modalidade. Ele classifica estas em fases que resumidamente são:
“Pesquisa minuciosa de cada nuança dos fatos feita com os olhos críticos que deve ter todo bom repórter […].
Paciência e concentração, porque uma boa investigação é demorada e, normalmente, recheada de documentos, dados, estatísticas, legislações e códigos de onde se tira o extrato necessário para a notícia […].
Insistência e perseverança, seja a partir de informações fragmentadas, seja a partir da própria intuição […].” (FORTES, 2005, p.30)
As fases elencadas por Fortes (2005, p.30), grosso modo, nos serviu como parâmetros de trabalho de apuração, a fim de exercitar ao máximo a nossa habilidade investigativa.
Entre os formatos midiáticos para publicação do trabalho que desenvolvemos, decidimos pelo suporte online, devido às potencialidades que o jornalismo digital agrega. Descartamos a idéia de que o webjornalismo vem para superar os formatos tradicionais, assim como Palacios (2003, p.16), compreendemos que este discurso “pouco contribui para o avanço do conhecimento e, portanto, para a maximização dos potenciais das Novas Tecnologias […].”
O que nos fez optar pelo webjornalismo foi justamente por possuir potenciais, já existentes em outras mídias, como a hipertextualidade, a multimidialidade, a interatividade e a memória. Antes de nos deter a estas características, vale colocar aqui as diferenças entre jornalismo digital e webjornalismo.
Seguindo a proposta sistematizada por Mielniczuk (2003, p.43), que se baseia tanto na instância da produção quanto da disseminação do conteúdo jornalístico, temos que jornalismo digital “implica na possibilidade da manipulação conjunta de dados digitalizados de diferentes naturezas: texto, som e imagem”, enquanto que webjornalismo “refere-se a uma parte específica da internet, que disponibiliza interfaces gráficas de uma forma bastante amigável”.
Adotamos então, ambas as terminologias, já que não são excludentes. Jornalismo digital, que justifica o processo de coleta e registro de dados (gravador de áudio, câmera fotográfica e de vídeo digitais e aparelho celular com recursos de registro de áudio, vídeo e imagem), assim como a linguagem em que a informação estará disponível , e webjornalismo, pela configuração gráfica e de acesso do suporte midiático de publicação do trabalho.
Retomando as potencialidades, a hipertextualidade é o que permite a interconexão dos textos. Palacios e Mielniczuk (2001, p.14) consideram que o hipertexto permite:
[...] a coexistência de textos, sons e imagens, tendo como elemento inovador a possibilidade de interconexão quase instantânea através de links, não só entre partes de um mesmo texto, mas entre textos fisicamente dispersos, localizados em diferentes suportes e arquivos integrantes da teia
de informação constituída pela Web [...] (PALACIOS, MIELNICZUK, 2001, p.14)
A multimidialidade, por sua vez, segundo Palacios (2003, p.18), refere-se “à convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato jornalístico”, enquanto que a interatividade é possibilidade do leitor interagir com a própria publicação, através do hipertexto, e com outras pessoas (autores e outros público).
Inicialmente hospedado num site desenvolvido em linguagem HTML, o trabalho Urânio em Caetité foi redirecionado para o formato de blog. Tal mudança foi motivada pelos recursos interativos disponibilizados por este formato de publicação online, como o RSS e a seção de comentários. A plataforma escolhida foi a Wordpress, sobretudo pela possibilidade de reconfiguração do layout da página (CSS) e de criação de novas páginas, que permitem adequar o formato às necessidades de apresentação do conteúdo.
De acordo com Primo (2007, p.02), o blog é o tipo de publicação que se insere na geração Web 2.0, que, por sua vez, “caracteriza-se por potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para a interação entre os participantes do processo”.
Assim, o autor considera que publicações baseadas na Web 2.0 redirecionam a ênfase do material publicado para a participação. Lemos (2004), ao tratar da ciber-socialidade, considera que a as novas tecnologias de comunicação baseiam atualmente uma emergente sociedade de comunicação, menos individual e mais coletiva, caracterizada pelas agregações eletrônicas.
A estas agregações, pode-se dizer que são as tecnologias e recursos da Web 2.0, essencialmente interativos (não somente na técnica, como no conteúdo) que, entre outras coisas, potencializam as trocas de saberes, sejam científicos, ideológicos ou afetivos, podendo resultar naquilo que foi conceituado por Levy (1994, p.28) como inteligência coletiva.
Logo, a adoção de plataformas como o Youtube (vídeo) e o Flickr (imagens), aliadas aos recursos interativos disponíveis no blog Wordpress (seção de comentários, RSS) potencializarão a interação do público leitor do Urânio em Caetité, assim como suas características multimidiáticas.
A memória ou base de dados é uma característica que justifica outro fator que influenciou na decisão pela opção pelo jornalismo digital: o custo. Palacios (2003, p.25) afirma que a acumulação de informações é mais viável técnica e economicamente na web que em outras mídias.
Ainda de acordo com o autor, na web, “dissolvem-se os limites de espaço e/ou tempo que o jornalista tem a seu dispor para a disponibilização do material noticioso”. Barbosa (2007, p.08), conceituando o jornalismo digital em base de dados, define-o como uma modalidade jornalística capaz de reconfigurar os processos de criação, apuração, disponibilização e circulação do conteúdo jornalístico produzido para a web.
Desta forma, tais aspectos do webjornalismo, especialmente a memória, influenciou na escolha deste formato midiático. Pretende-se no trabalho que desenvolvemos, a aplicação destas características.
Aliando os conceitos e aspectos acima considerados sobre jornalismo ambiental, jornalismo investigativo e webjornalismo/jornalismo digital, buscamos, com a orientação da professora Simone Bortoliero, abordar a relação do município de Caetité com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), empresa de economia mista e controlada pelo Ministério de Minas e Energia, através do Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEN), enfocando a comunidade caetiteense nesta relação, assim como os impactos e benefícios recebidos por ela.
6 Aspectos Metodológicos
Neste item, apresentaremos como executamos as etapas de produção de conteúdo e de construção do suporte gráfico (site) para publicação do trabalho, conforme detalhadas nos parágrafos abaixo.
As etapas de produção de conteúdo foram pesquisa bibliográfica, elaboração das pautas, pesquisa e contato com as fontes, produção do roteiro de entrevistas em Caetité e em Salvador, coleta e apuração de informações, redefinição das pautas, definição dos formatos de narrativa jornalística, produção das reportagens, edição das imagens para ensaio fotográfico, edição de textos e vídeos, produção de roteiro de animações gráficas como suporte ao conteúdo das reportagens.
As fases de construção do suporte midiático foram: definição do layout, escolha da plataforma de hospedagem, definição dos recursos interativos e multimídias, alimentação da página.
6.1 Pesquisa Temática
A pesquisa sobre o tema iniciou-se no segundo semestre de 2009, a partir da definição de que desenvolveríamos um trabalho dentro da área de jornalismo ambiental no estado da Bahia. O objeto de estudo a ser pensado foi a possibilidade da instalação de uma usina termelétrica no município de Eunapólis, autorizado pelo Ministério de Minas e Energia no começo de 2008.
No entanto, em novembro de 2009, quando foi veiculada a notícia de que o estado da Bahia havia entrado na concorrência para a implantação de duas usinas nucleares, já programadas pelo Ministério de Minas e energia para a região Nordeste, redirecionamos o objeto de estudo para esta informação.
Em janeiro, a veiculação da informação de que o INGÁ havia proibido o consumo da água proveniente de três poços na zona rural de Caetité, nos fez
reavaliar mais uma vez nosso objeto de estudo. Até então, tínhamos acumulado pesquisas sobre energia e meio ambiente (iniciadas quando da definição de se estudar sobre usinas termelétricas), sobre a questão nuclear no Brasil, mas percebemos que investigar apenas a possibilidade da implantação de duas usinas nucleares na Bahia não nos permitiria diversidade de informações, dados e fontes para a construção de uma webreportagem multimídia, sobretudo pelo fato de este ano ser um ano eleitoral, onde comumente as instâncias de governo optam por não discutir temas mais polêmicos.
Fizemos então a última redefinição temática, a partir da qual iniciou-se uma pesquisa bibliográfica mais específica ao tema deste trabalho. Buscamos compreender, inicialmente, a história da questão nuclear no Brasil, a história da descoberta das jazidas de urânio em Caetité, como foi feita a implantação da unidade mínero-industrial de urânio da INB em Caetité (URA Caetité), quais as destinações do produto industrializado em Caetité a partir do urânio, quais outras aplicações deste minério, assim como sobre informações referentes ao município de Caetité, como seu contexto social, econômico, hidrogeológico e histórico.
Por fim, delimitamos como objeto de estudo deste trabalho, as relações e efeitos das atividades mínero-industriais e institucionais da INB no município de Caetité.
6.2 Pesquisa Bibliográfica
A princípio, tivemos certa dificuldade em localizar nas bibliotecas públicas de Salvador, alguma informação que explicasse melhor sobre a questão nuclear no Brasil. Percebemos logo que esta dificuldade se justifica no fato da Bahia ainda não ter um centro ou grupo de pesquisa que se aprofunde neste tema. Numa busca presencial de material bibliográfico, tivemos êxito nas pesquisas realizadas no Instituto de Geociências da UFBA e no setor de documentação da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM).
No acervo do Instituto de Geociências, localizamos as teses “Província Uranífera de Lagoa Real, Bahia” (MIRANDA, VEIGA; 2008) e “Comparação de Metodologia Analítica para Determinação de Urânio em amostras de águas naturais coletadas em Caetité, Bahia” (COSTA, 2001). Já no setor de documentação da CBPM, encontramos o “Projeto Caetité” (SOUZA, 1984), o “Projeto Lagoa Real (ANDRADE, 1983) e o “Projeto Lagoa Real: mapeamento geológico” (COSTA, 1985). Estas obras, entre outras pesquisadas, nos auxiliaram, apesar de estar numa linguagem técnica, a compreender os aspectos hidrogeológicos da região de Caetité/Lagoa Real.
Concomitantemente, mapeamos os principais centros e grupos de pesquisa no Brasil e realizamos pesquisa online, de onde conseguimos a maior parte das referências bibliográficas que nos possibilitaram preparo técnico para elaboração das pautas.
Artigos, legislações e notícias encontrados em sites institucionais como os da Eletronuclear, da Comissão Nacional de Energia Nuclear, da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), da Agência Internacional de Energia Atômica das Nações Unidas (IEA/ONU), do Ministério de Minas e Energia (MME), da Rádio Educadora Santana de Caetité, da Prefeitura Municipal de Caetité, do Greenpeace, do Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia (INGÁ), da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) e do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), da sistema de bibliotecas da UFBA, das seções de publicações do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online (GJOL/UFBA), da Scielo, além de sites noticiosos como o A Tarde On Line, o Correio 24 Horas, o Comciência e o Ecodebate, entre outros, foram algumas fontes bibliográficas deste trabalho.
6.3 Definição de Pautas
Ao analisar as notícias, relatórios e denúncias sobre a contaminação radioativa nas águas dos poços de Caetité, compreendemos que a preocupação
com a contaminação também servia e ainda serve como pretexto para uma outra discussão mais política, cujo centro do conflito é a presença de uma instalação nuclear no município.
A denúncia de contaminação de água apresentada pelo Greenpeace em outubro de 2008 parece ter sido o ponto de partida para que este debate se tornasse público nos meios de comunicação e conseqüentemente na sociedade civil e nas instâncias políticas municipal e estadual.
Associam-se a isto, os impactos sofridos pelas comunidades próximas à unidade produtora de urânio, como abalos nas estruturas das casas e escassez de água, problema antes existente no município e que, segundo os moradores, foi agravado após o início das atividades da Indústrias Nucleares do Brasil (INB).
Diante deste quadro, definimos como objetivo geral, compreender os impactos das atividades da INB no município e suas consequências no contexto social, econômico, político, ambiental e epidemiológico, buscando responder à seguinte pergunta: quais os benefícios e prejuízos trazidos pela INB para o município de Caetité?
Em cima disto, organizamos três subáreas temáticas, a fim de facilitar o entendimento do público leitor, assim como a definição das pautas. A primeira subárea foca o urânio e o contexto nuclear brasileiro (descrição do minério, pesquisas científicas desenvolvidas utilizando o urânio, suas aplicações científicas e industriais, o controle de extração e comércio do urânio no Brasil, suas implicações farmacológicas e toxicológicas no ser humano e nos ecossistemas naturais). A segunda, delimita o município de Caetité e seus perfis socioeconômico, hidrogeológico, epidemiológico, histórico-cultural e de seu ecossistema. Por fim, o terceiro trata das impressões, discussões e desdobramentos da presença da INB no município (contaminação ambiental, controle social das ações da INB no município, licenciamentos ambientais, riscos à saúde coletiva, sobretudo do trabalhador, relacionamento da INB com os poderes municipal, estadual e federal e com os
órgãos de controle sanitário, ambiental e nuclear destas esferas de governo, relacionamento da INB com a sociedade civil organizada etc.).
6.4 Seleção das Fontes
No decorrer dos estudos sobre o tema, começamos a buscar as pessoas que poderiam nos servir como fontes de informações e opiniões. Dividimos as tarefas de busca e localização destes contatos, classificando-os inicialmente como fontes oficiais (governo, prefeitura, órgãos de controle e fiscalização, etc), fontes de oposição à INB e fontes impactadas positiva ou negativamente pela presença da INB (comerciantes, lavradores, funcionários, estudantes, etc.).
Através de contato com Renata Lourenço, conseguimos os contatos da Pastoral do Meio Ambiente de Caetité, esta que é a principal organização civil de Caetité a fazer oposição à presença da INB no município. Além delas, Renata Lourenço forneceu também os contatos da secretária da INB, Karla Neves, e da representante do Movimento Paulo Jackson, a jornalista Zoraide Vilas Boas.
Através de busca no site da Prefeitura Municipal de Caetité, estabelecemos contato com o prefeito de Caetité, José Barreiras, e com o secretário Municipal de Meio Ambiente de Caetité, Antônio Portella.
Todos os contatos acima listados, exceto Zoraide Vilas Boas, são do município de Caetité e, através destes, conseguimos chegar a outras fontes nesta cidade, como o prefeito José Barreiras, o líder da Comissão Pastoral do Meio Ambiente e diretor da Rádio Educadora Santana, padre Oswaldino Barbosa, o gerente de produção da INB, Sr. Hilton Mantovani Lima, o secretário municipal de Recursos Hídricos de Caetité, Sr. Nilo Joaquim, a coordenadora do Núcleo de História da Secretaria Municipal de Educação de Caetité, Sra. Fernanda Menezes, a representante da 24ª DIRES (SESAB), Sra. Eliete, a representante da 24ª DIREC (SE CULT), Sra. Margareth Souza, o representante da Diretoria da Comissão Nacional de Energia Nuclear em Caetité, Valter Ribeiro, entre outros como
moradores e comerciantes.
Em Salvador, estabelecemos contato e buscamos informações com a Companhia Baiana sobre Pesquisa Mineral, com a coordenadora de monitoramento de qualidade de água e hidrogeologia do INGÁ, Josane Vale, com a coordenadora de Vigilância Ambiental da SESAB, Sra. Helca Martinez, com a diretora do Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador da SESAB, e conselheira do Conselho Estadual de Proteção ao Meio Ambiente, Sra. Letícia Nobre.
6.5 Apuração de Informações
Após pesquisa bibliográfica e realização de entrevistas, analisamos as informações coletadas e pudemos verificar que:
6.5.1. Quanto ao acesso às informações:
• Exceto os membros da Comissão Pastoral do Meio Ambiente, os profissionais da INB, o gerente da Diretoria da Comissão Nacional de Energia Nuclear e os representantes da gestão municipal, a maior parte dos entrevistados demonstraram não compreender com clareza e não conseguir acompanhar as discussões sobre os impactos das atividades da INB no município;
• Exceto os membros da Comissão Pastoral do Meio Ambiente, os representantes da INB, o gerente da Diretoria da Comissão Nacional de Energia Nuclear e os representantes da gestão municipal, os entrevistados não sabem claramente a quais os órgãos competem atender as reivindicações da população, como acesso a informações, a água de qualidade etc.;
• Entre o total de entrevistados da população residente na zona urbana do município, muitos não compreendem claramente as dificuldades enfrentadas
pela população dos povoados rurais;
• É difícil o acesso a relatórios, levantamentos e estudos oficiais de licenciamento ambiental, de monitoramento de radioproteção da saúde do trabalhador e meio ambiente ou de informações sobre acidentes operacionais ocorridos na INB. Na internet, entre os estudos acima citados, só conseguimos o acesso aos relatórios do INGÁ.
6.5.2. Quanto à relação da URA-Caetité (INB) e da CNEN no município
• O diálogo da INB e da CNEN com a população do município é restrito quando se trata de esclarecer sobre informações como sinistros na unidade operacional, riscos ambientais etc.;
• Com a prefeitura, não foram observados conflitos ou divergências de interesse. Vale ressaltar aqui que o atual prefeito de Caetité, José Barreiras, é funcionário da INB, licenciado para a gestão municipal;
• Não há uma unanimidade no município em relação ao apoio ou não à presença da estatal, variando, principalmente, de acordo com a ideologia, com o acesso à informações ou à pessoas prejudicadas/beneficiadas pelas atividades da mineradora.
6.5.3. Quanto à postura da Gestão Municipal
• A prefeitura não tem a rotina de encaminhar à população, as notificações e queixas que recebe sobre a as atividades da INB;
• Na mesma medida, não está disponibilizado ao certo quanto é e como é feita a aplicação dos tributos pagos pela mineradora;
• Não é clara a relação da INB e da prefeitura quanto à realização de convênios ou de doações da empresa para a gestão municipal
• Não foi verificada iniciativa por parte da prefeitura para a adoção de políticas de educação ambiental, sobretudo nas escolas públicas;
• Os representantes da gestão municipal não demonstram saber com exatidão os problemas enfrentados pela comunidade rural de Caetité, como irregularidades no serviço de distribuição de água ou os abalos nas estruturas físicas das residências de Gameleira.
6.5.4. Quanto à postura dos cidadãos que se opõem à presença da INB
• Este segmento da população tem uma representatividade mais organizada em torno da Comissão Pastoral do Meio Ambiente da Igreja Católica de Sant'Ana;
• Verifica-se o apoio do Greenpeace e do Movimento Paulo Jackson à Comissão Pastoral do Meio Ambiente de Caetité e à outras pessoas contrárias à presença da INB, principalmente quanto ao acesso esclarecimento a informações mais técnicas;
• Os principais motivos para a não aceitação da empresa são a contaminação do meio ambiente, os prejuízos à saúde e ao patrimônio e a falta de transparência da INB.
• Apesar de acreditarem nos impactos ambientais e irregularidades da INB, este segmento da população não dispõe de provas que acusem a ligação da INB com a contaminação da água ou outro impacto ambiental no município que constitua ameaça à espécie humana.
6.5.5. Quanto à postura dos órgãos licenciadores e fiscalizadores
• Entre os funcionários dos órgãos licenciadores e fiscalizadores entrevistados (CESAT, DIVIAM, CNEN e INGÁ), não foram observados posicionamentos contrários à presença da mineradora na região;
• Quanto à pesquisa realizada pelo Greenpeace em 2008, os funcionários dos órgãos acima citados consideram-na inconclusiva quanto a culpabilidade da INB, não obstante a importância que o relatório teve em alertar para o perigo do consumo de água contaminada;
• Nenhuma informação foi dada como definitiva pelos órgãos quanto aos casos de vazamento e contaminação, pois aguardam o relatório da CNEN, ainda não divulgado.
6.6 Definição dos Formatos
Antes da produção das reportagens, foi necessária a definição dos formatos de publicação do conteúdo. Pensando em oferecer uma variedade multimídia, o conteúdo foi estruturado prioritariamente no formato de texto, com a complementação em outras mídias, como imagem e vídeo.
Com este intuito, buscamos, a partir da utilização de câmera fotográfica, de aparelho celular e de gravador de áudio, registrar todas as informações coletadas em mais de um tipo de recurso midiático. Para o qual, contamos com o auxílio da produtora cultural Flávia Moraes na captação audiovisual de entrevistas através de câmera fotográfica, que complementou o registro de vídeo feito também com câmera de aparelho celular.
Visando o público não especializado, definimos também a produção de vídeos educativos, a fim de esclarecer sobre conceitos e procedimentos mais
específicos como a aplicação do urânio, os riscos inerentes à manipulação deste minério, seja em escala industrial ou in natura, os passos para licenciamento ambiental, e um pequeno passo a passo sobre o que e a quem compete a prestação de informações técnicas.
6.7 Produção de Reportagens
As reportagens produzidas para este trabalho, tomaram por princípios gerais uma visão integrada de meio ambiente e o direito cidadão de acesso à informações que digam respeito à manutenção da sua e da qualidade de vida da comunidade em que se insere.
Imparcialidade e pluralidade de vozes foram princípios que, também, buscamos seguir para a produção das reportagens e, sempre que nos foi possível, seguimos também o critério de atualidade.
Sobre o que é o urânio, buscamos contextualizar esta riqueza natural do município, enfocando a sua importância estratégica para o Brasil e para o mundo, enquanto que a empresa mineradora foi abordada a partir de sua transparência para a comunidade de Caetité. Temas que consideramos relevantes para o esclarecimento da comunidade local, como a saúde coletiva e dos trabalhadores da INB, contaminação da água e os impactos nos povoados rurais e na economia local, foram abordados de forma mais detalhada.
6.8 Definição do Layout, Recursos Multimídias e Plataforma
Para disponibilização do conteúdo, decidiu-se a instalação do site na plataforma wordpress, específica para construção de blogs, ferramenta colaborativa de publicação de conteúdo e gratuita.
Anteriormente, tínhamos adquirido, através do serviço Registro.br, o domínio
hospedar a página no servidor da cooperativa Colivre e da dificuldade de configuração de recursos em linguagem HTML no servidor da UOL, construímos o blog http://uranioemcaetite.wordpress.com.
Para a reconstrução do blog na plataforma Wordpress, foi privilegiada a visibilidade dos textos, conforme orientação da professora Cristiane Porto. Desta forma, na primeira página do site, foram colocados links para todas os textos, assim como os parágrafos iniciais de cada e imagem relacionada ao tema, a fim de incentivar o interesse do leitor pelos textos.
A ordem dos textos na primeira página foi pensada com o intuito de oferecer hierarquia crescente de profundidade do tema, privilegiando o leitor leigo. Sabe-se que aqueles que já apresentam familiaridade maior com o tema, não apresentarão dificuldade em localizar o texto que possa condizer com seu grau de conhecimento.
Os links do menu localizado na parte superior da página, abaixo do cabeçalho, correspondem aos tipos de formatos midiáticos que foram utilizados para construir o blog (vídeo e imagem). Além deles, há informações sobre os autores e objetivo do blog.
Para publicação de imagens foi escolhida a plataforma Flickr e para publicação de vídeos, foi construído um canal no Youtube. As plataformas acima citadas foram escolhidas pela sua popularidade e por serem facilmente utilizadas pelo leitor.
Entre os widgets selecionados (componentes de interface gráfica oferecidos aos usuários de blogs) foram incluídos um bloco de texto, onde foi descrito brevemente o blog e seu objetivo, um lista com os posts mais acessados, uma ferramenta de busca, além de link para Twitter e RSS. Estes widgets foram escolhidos por possibilitarem a atualização do leitor quanto a novas publicações que vierem a acontecer na página, assim como a localizá-lo quanto aos assuntos mais lidos e debatidos, o que também facilitará aos autores identificar os assuntos que
7 Considerações Finais
Finalizadas as etapas de produção deste trabalho de conclusão de curso, pudemos compreender ainda mais o quanto é fundamental o preparo técnico do profissional jornalista para saber lidar com as mais variadas consequências que uma informação pode ter. Em outras palavras, reafirmamos o entendimento sobre a responsabilidade do jornalista diante dos fatos a que se propõe apurar e veicular.
O aprimoramento desta habilidade, pelo que podemos notar neste e em outros trabalhos que fizemos, em parceria ou individualmente, requer do profissional, entre outras coisas, a sensibilidade de saber enxergar a partir das mais variadas perspectivas, através do olhar das fontes, sem que para isso se desfaça de seu lugar de analista dos fatos e dos discursos gerados a partir deles.
Assim, tivemos que refletir os interesses e convicções do padre Osvaldino Barbosa, de Hilton Mantovani, de Elenilde Cardoso, do prefeito José Barreiras, do Greenpeace, dos moradores da Gameleira, do geólogo Walter Brito, sem no entanto, se deixar absorver por seus discursos, mas cuidando para não ouví-los com ideias pré-concebidas.
Enxergar o contexto em que os fatos e as fontes estão inseridos, facilita nos trabalhos de investigação jornalística, assim como, o domínio da dinâmica política, social, cultural, histórica, econômica, científica, ambiental, entre outros tantos mais aspectos que sejas necessários considerar para uma rico e profundo trabalho de investigação.
Percebemos que se fossemos à campo sem entender a importância que a água tem para a região, sem dominar minimamente a legislação que rege o setor nuclear brasileiro, as competências das gestões municipais, estaduais e federais nas áreas de saúde e meio ambiente, não nos seria permitido o acúmulo de informações que pudemos coletar em uma semana de permanência no município.
Ainda que pese contra nós o fato de trabalharmos com um tema amplamente divulgado na mídia, notamos o quanto foi também trabalhoso ter que desconstruir um discurso que nos foi apresentado pelos meios de comunicação e que em muitos aspectos não condizia com a realidade que encontramos no município.
Entendemos também que essa busca incessante por informações, contudo, deve ser amparada pela ética, ou seja, com honestidade, dentro das normas legais, respeitando e preservando as fontes e o público. Noticiar apenas pela pressa para o furo de reportagem, sem uma boa apuração e sem avaliar os riscos e prejuízos que a informação pode gerar às fontes e ao seu público, pode se converter numa postura irresponsável, danosa e, consequentemente, na perda de credibilidade do profissional.
Não temos como mensurar a receptividade deste trabalho pela comunidade de Caetité, assim como pelas fontes e pelo público como um todo, mas esperamos sim, que este produto venha a contribuir como fonte de esclarecimento e como uma provocação que leve os atores envolvidos – comunidade, INB, sociedade civil organizada, órgãos fiscalizadores, imprensa -, a refletirem mais e mais sobre a importância do meio ambiente e dos direitos humanos antes em detrimento dos interesses econômicos e políticos.
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