DITATURA DA BELEZA: CONFLITOS DO PRÓPRIO EU
DICTATORSHIP OF BEAUTY: CONFLICTS OF THE SELF
Autores: ALBUQUERQUE, Amanda, Ferreira, [email protected][a], GUIMARÃES, Maria Célia, Martins, [email protected] [a], MACEDO, Sônia Beatriz Motta,[email protected][b].
RESUMO
Na contemporaneidade, a aparência tornou-se “rainha absoluta” e o corpo passou a ser um produto de destaque nos meios de comunicação, ocasionando um adoecimento físico e psíquico no indivíduo. O culto ao corpo e a busca pela “boa forma” é algo exclusivo da contemporaneidade? Teria a mídia à capacidade de influenciar os processos psíquicos dos indivíduos, ao impor-lhes uma “ditadura da beleza”? Se sim, quais as consequências para os indivíduos que se deixam sucumbir a essa ditadura? Os objetivos: investigar como a ditadura da beleza tem influenciado o funcionamento psíquico de mulheres, na contemporaneidade; verificar os principais conflitos psicológicos decorrentes dos padrões de beleza impostos pela sociedade; identificar o quanto esses padrões interferem na autoimagem e autoestima dessas mulheres. A pesquisa foi de caráter quantitativo, campo e bibliográfica, como instrumentos, um questionário sociodemográfico, um de Avaliação da Imagem Corporal (AGUIAR, 2014) A amostra foi composta por 30 mulheres, de 18 a 35 anos, de Uberlândia e Tupaciguara. Os resultados demonstraram que as mulheres possuem uma preocupação constante com sua aparência física, uma insatisfação com sua autoimagem, o que reflete negativamente na autoestima dessas mulheres. As principais preocupações foram em relação ao peso e à forma corporal e aos cabelos.
Palavras - Chaves: ditadura da beleza; autoestima; imagem corporal.
_______________________________________________________________ a] Graduandos em Psicologia pelo Centro Universitário do Triângulo – UNITRI
SUMMARY
In contemporary times, appearance has become "absolute queen" and the body has become a product of prominence in the media, causing a physical and psychological illness in the individual. Is the cult of the body and the search for "good form" something exclusive of contemporaneity? Would the media have the ability to influence individuals' psychic processes by imposing on them a "dictatorship of beauty"? If so, what are the consequences for individuals who allow themselves to succumb to this dictatorship? The objectives: to investigate how the dictatorship of beauty has influenced the psychic functioning of women, in contemporary times; to verify the main psychological conflicts resulting from the beauty standards imposed by society; to identify how these patterns interfere with women's self-image and self-esteem. The research was quantitative, field and bibliographical, as instruments, a sociodemographic questionnaire, a Body Image Evaluation (AGUIAR, 2014). The sample consisted of 30 women, from 18 to 35 years, from Uberlândia and Tupaciguara. The results showed that women have a constant preoccupation with their physical appearance, a dissatisfaction with their self-image, which negatively reflects the self-esteem of these women. The main concerns were regarding body weight and shape and hair.
1 - INTRODUÇÃO
Embora, com a expansão dos movimentos feministas, nas décadas de 1970 e 1980 a mulher tenha conquistado uma maior autonomia ainda se encontra aprisionada a determinados padrões sociais que lhes são impostos, e que na maioria das vezes são impossíveis de se praticar. Dentre esses, destaca-se a beleza física, corporal. De acordo com Fernandes 2006 apud Schmidtt; Oliveira; Galla, 2010, [s/p], “a busca pela beleza faz parte da história da humanidade; contudo, das últimas décadas do século XX até os dias atuais, o que temos visto é um exagero em relação ao “culto ao corpo”, praticado principalmente por mulheres e adolescentes”.
Nas sociedades contemporâneas, a globalização, ao mesmo tempo em que proporcionou aos indivíduos uma visão sobre a diversidade de culturas, alicerçou através de meios de comunicação padrões de perfeição de beleza. A cobrança de se “estar em forma” faz com que muitas mulheres com biótipos completamente opostos aos padrões pré-determinados não consigam se enquadrar dentro daqueles pré-estabelecidos, embora lutem para atingi-los. De acordo com Ribas e Caleiro (2012), é justamente esta luta que mantém o mercado da beleza, com seus procedimentos e produtos “milagrosos” que, também, colocam a saúde física e mental dessas mulheres em risco.
Tendo em vista o exposto, surgem-se algumas questões: O culto à beleza física e a busca pela “boa forma” corporal é algo exclusivo da contemporaneidade? Teria a mídia a capacidade de influenciar os processos psíquicos dos indivíduos, a ponto de ‘escravizá-los’ sob determinados aspectos, como, por exemplo, ao impor-lhes uma “ditadura da beleza”? Se sim, quais as consequências para os indivíduos que se deixam sucumbir a essa ditadura?
Essas questões suscitaram a ideia da elaboração deste trabalho de pesquisa que, tem por objetivos: (1) investigar como a denominada ditadura da beleza tem influenciado o funcionamento psíquico de mulheres, na sociedade contemporânea; (2) identificar quais os principais conflitos psicológicos decorrentes dos padrões de beleza impostos pela sociedade; e (3) identificar o quanto esses padrões interferem na autoimagem e da autoestima dessas mulheres.
Tendo em vista o aumento exacerbado do “culto ao corpo” e o adoecimento físico e psíquico daqueles que sucumbem aos ditames da ditadura da beleza, trabalhos que busquem refletir sobre o assunto tornam-se de fundamental importância, pois além de ampliar a compreensão sobre fenômeno, servem de referência para que profissionais de saúde possam aprimorar suas práticas clínicas melhorando assim o atendimento daqueles que sofrem por
terem se tornado escravos da própria beleza. A nível acadêmico, esta temática possibilita uma ampla gama de possibilidades de análise sobre questões que estão intrinsicamente relacionadas à denominada ditadura da beleza, pois, esta se trata de um constructo complexo, pois envolve aspectos individuais, sociais, culturais e históricos. A nível pessoal, este tipo de pesquisa contribui para uma compreensão crítica, acerca da influência das organizações, administradas pelas ideologias dominantes, nos processos de subjetivação dos indivíduos.
2 - REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Uma breve história sobre a beleza
A valorização da beleza humana corporal não é algo exclusivo da contemporaneidade. Segundo Schmidtt, Oliveira e Gallas (2010, [s/p]), “a beleza humana é algo que chama a atenção do homem desde o início dos tempos, o que pode ser observado na literatura, na pintura, na arte ou no próprio homem”, ou seja, beleza humana sempre foi cultuada, conforme as imposições de sua época.
Na Grécia antiga, a questão do belo e da beleza em si eram atributos qualificáveis exclusivamente masculinos. Foi somente após a ascensão de Atenas – ocorrida no século V a.c. – que os gregos passaram a ter uma percepção mais clara do “belo estético” (DOMINGUES, 2015).
Durante o período da renascença, “o corpo feminino era farto, com seios grandes, ancas largas, o que, (...) representava a fertilidade. Os corpos gordos tinham sua beleza admirada e retratada, na época, em quadros e em ilustrações” (GARRINE, 2007, p. 2).
No século XVII, coexistiram os discursos que acreditavam na existência de uma beleza ideal e na valorização de uma beleza natural. Mas, “a ação sobre a beleza poderia então, mais do que antes, ser artificializada” (VIGARELLO, 2006, p.59 apud SCHMIDTT; OLIVEIRA; GALLA, 2010, [s/p]). A partir do século XIX, o padrão de beleza feminina começa a mudar: beleza e elegância passam a ser atributos apenas dos corpos mais delgados (OLIVEIRA; HUTZ, 2010).
No século XX, o padrão de beleza feminina começa a sofrer grandes modificações sob a ótica dos acontecimentos sociais, históricos, políticos e culturais ocorridos ao longo desse século. Na década de 1910, o corpo miúdo e roliço lembrava as bonecas de louça com seus grandes olhos esfumados de preto e bocas pintadas de vermelho em formato de pequenos corações. (GARRINI, 2007).
Na década de 1940, a sedução passa a ser atributo indispensável à beleza feminina através de corpos curvilíneo com grande influência dos cinemas, e a partir desse contexto observa-se o início da influência da mídia na determinação dos padrões de beleza. Já na década de 1950, Marilyn Monroe se destaca como marca da sensualidade feminina e de padrão de beleza, seu corpo torna-se símbolo de desejo e de “consumo” para as mulheres (GARRINI, 2007).
E a partir dos anos 60, inicia-se um processo de construção de uma imagem feminina esquálida, materializada nas manequins e modelos, que vêm assumindo antropometrias cada vez menores (OLIVEIRA; HULTZ, 2010, p. 577).
Nos anos de 1970, o corpo excessivamente magro das modelos passou a ditar a moda feminina e a ser objeto de apreciação e de desejo (GARRINI, 2007). No começo dos anos 80, o incremento da busca pela magreza já podia ser percebido com clareza (OLIVEIRA; HUTZ, 2010, p. 577).
Na década de 1990, as supermodelos se tornam efetivamente o “ideal de beleza”, com seus corpos surreais, aos quais estavam totalmente ligados à magreza. Foi neste período que os transtornos alimentares com causas relacionadas à busca pela beleza, que tem relação direta com a compulsão estética, chegam também a fazer parte da vida de pessoas comuns, que passam a ter essas modelos como referência de beleza (ULLMAN 2004, p. 96 apud GARRINI, 2007).
Ao final do século XX e início do século XXI o corpo passa a ser idolatrado, inicia-se uma busca pelo corpo perfeito, sendo o mesmo realizado de maneira obsessiva (CASTILHO, 2001 apud OLIVERIA; HUTZ, 2010). O preconceito contra a obesidade torna-se intenso, e a magreza passa a ser ligada à perfeição, à competência, ao autocontrole e à atratividade sexual (ANDRADE; BOSI, 2003).
Portanto, conforme pôde ser observado, ao longo da história, nas sociedades contemporâneas ocidentais, o corpo adquiriu várias nuances. Porém, no século XX, com o processo de globalização, esses corpos também se tornam “globalizados”, “universalizarem-se”, isto é passaram a ter como referência um padrão homogeneizante. A multiplicidade de possibilidades transformou-se em “modelo único”. Ter um corpo “perfeito”, “bem delineado”, “em boa forma” passou a representar a consagração da “vitória” do homem “sobre sua própria natureza”, “o domínio além do seu corpo”, “o controle do seu próprio destino” (GARRINI, 2007).
De acordo Andrade e Bosi (2003), o avanço da tecnologia da beleza, junto às estratégias da mídia, passou a modelar subjetividades e impulsionar a indústria da magreza. A
mídia, que encontrou no “corpo perfeito” o discurso ideal para vender seus produtos, acabou, também, por produzir uma mercantilização dos corpos.
2.2 Mercantilização dos corpos: a influência da mídia na determinação dos padrões de beleza
Muito se fala sobre a influência da mídia na determinação de padrões sociais, dentre eles, o padrão de beleza. Contudo, teria a mídia a capacidade de influenciar a constituição dos processos subjetivos dos indivíduos? Muitos filósofos e pesquisadores como frankfurtianos, Theódor W. Adorno e Herbert Marcuse, consideraram que a mídia, veiculada aos meios de comunicação de massas, é a principal responsável por um processo de assujeitamento dos indivíduos (CANIATO, 2008).
Valendo-se do alicerce teórico da psicanálise, para identificar os processos psíquicos envolvidos na internalização e sustentação da violência social, Adorno (1965 apud CANIATO, 2008) identificou o envolvimento de “tendências” subjetivas na manutenção da ordenação fascista na sociedade. Estas, de acordo com ele, são internalizadas de forma inconsciente e levam a uma homogeneização das subjetividades: pensar, agir ou ser diferente pode ser constrangedor ou, até mesmo, perigoso. De acordo com Adorno (1986a apud CANIATO, 2008) a indústria cultural cria a falsa ilusão de necessidades e, ao mesmo tempo, se propõe a satisfazê-las tornando-se, assim, o “princípio da realidade” para os indivíduos que, tomam os valores impostos pelas ideologias dominantes como seus – o que está relacionado ao processo de alienação provocado por essa indústria e pela mídia.
Toda esta visão adornoniana pode ser percebida na “ditadura da beleza”. Essa, por sua vez, trata-se de uma imposição autoritária de padrões pré-determinados, por parte das ideologias dominantes, promovida pela “indústria cultural da beleza” que introjetam de forma inconsciente, através principalmente da mídia, padrões sociais que passam a ser vistos como condições necessárias à existência, física e social – a não inclusão nesses padrões pode significar a “morte social” do indivíduo.
Portanto, pode-se concluir que as ideologias dominantes, por meio da mídia, influenciam fortemente a constituição subjetiva dos indivíduos, que passam a responder conforme os ditames de uma minoria que não poupa esforços para manter seu projeto de poder, que inclui o controle sobre os corpos. Em relação a esse poder exercido sobre os corpos, Michael Foucault (1979) ressalta que as classes dominantes, detentoras do “poder”, impõe sua ideologia através da imprensa, da mídia, da medicina e das “instituições totais” de
forma geral; e, ao mesmo tempo que determinam padrões e estimulam o consumo, exerce forte influência sobre os corpos, a ponto de controla-los indistintamente.
Diante do exposto, é possível concluir que a mídia tem influenciado fortemente o funcionamento psíquico dos indivíduos, principalmente das mulheres que, devido a toda pressão e opressão históricas sofridas, acaba por sucumbir aos ditames das ideologias dominantes, que orquestram tais ações, tornando-as “escravas” de si mesmas, fazendo-as reféns de necessidades que geram um vazio que tentam suprir indistintamente através do consumo, sem, contudo, obter sucesso (OLIVEIRA; HUTZ, 2010).
2.3 Ditadura da beleza, autoimagem e a morte da auto estima
Na contemporaneidade, a cultura da “boa forma” e a beleza física passam a ser requisito de aceitação social, de não rejeição. A psicologia tem demonstrado que há uma enorme correlação entre imagem corporal e o âmbito emocional das pessoas e que a determinação de um padrão imposto, na maioria das vezes inatingível, pode afetar fortemente a percepção que os indivíduos têm de seu corpo, ou seja, sua autoimagem que, por sua vez, está intrinsecamente relacionada à autoestima.
De forma geral, pode-se dizer que a imagem corporal é uma percepção que integra os níveis físicos, emocional e mental, que estão intimamente relacionados com a esfera social sofrendo influência da mesma, de como vemos o outro e de como nos vemos tendo por base esse outro. Ou seja:
A experiência da imagem com o próprio corpo relaciona-se à experiência de terceiros com seus corpos. Desse modo, a compreensão da problemática ligada à imagem corporal na nossa sociedade exige a consideração, além das imagens corporais individuais, das inter-relações entre as imagens de várias pessoas (SCHILDER, 1977 apud SECCHI; CAMARGO; BERTOLDO, 2009, p. 229).
Segundo Secchi; Camargo e Bertoldo (2009, p. 229), “o conflito entre o corpo real e ideal, imposto pela mídia, estimula a busca de soluções, pelas mulheres, como dietas e cirurgias plásticas, muitas vezes prejudiciais à saúde física e mental”. Esse conflito tem levado a um aumento significativo de casos de distorção da imagem corporal, que tem como consequência o desenvolvimento de diversos transtornos psicológicos, dentre os quais se destacam os transtornos alimentares, como a bulimia nervosa e a anorexia nervosa, que estão intimamente relacionadas a esta busca desenfreada pela beleza.
De acordo com a Associação Americana de Psicologia (APA, 2000), na distorção da imagem corporal o indivíduo percebe sua imagem real de forma distorcida. A distorção da imagem corporal é dos principais sintomas dos transtornos alimentares relacionados à busca pela beleza [magreza].
A insatisfação generalizada de mulheres com seu corpo têm sido documentados tanto em estudos realizado no Brasil como no exterior. O aumento das cirurgias plásticas é um bom exemplo dessa crescente insatisfação e da busca dessas mulheres para conseguir atingir um padrão “ideal” – no sentido de idealizado.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas (2013), o número de procedimentos cirúrgicos mais que dobrou, entre adolescentes de 14 a 18 anos, em quatro anos (2008 a 2012): saltou de 37.740 procedimentos em 2008 para 91.100 em 2012 (141% a mais). Em adultos o número de intervenções cresceu 38,6%, saindo de 591.260 para 819.900 procedimentos durante esse mesmo período.
Ressalta-se que a autoimagem é um dos fatores determinantes do autoconceito, ou seja, “da ideia que temos do nosso complexo e multifacetado eu” (RODRIGUES, ASSMAR, JABLONSKI, 2012, p. 99). Deve-se considerar que tal qual a autoimagem, o autoconceito é formado em grande parte, em decorrência de fatores interpessoais e sociais.
O autoconceito está relacionado à autoimagem, que por sua vez está relacionada à autoestima que, de acordo com Rodrigues, Assmar e Jablonsi (2012, p. 98), pode ser entendida como “o afeto (processo afetivo) que o indivíduo desenvolve em relação ao seu autoconceito (processo cognitivo)”. Ou seja, a autoestima é uma espécie de avaliação – que pode ser positiva ou negativa – realizada pelo indivíduo do seu autoconceito.
Enfim, pode-se dizer que a insatisfação com a imagem corporal culmina na produção de um autoconceito negativo do indivíduo em relação ao seu corpo, à sua forma, ou à sua aparência, o que afeta drasticamente a autoestima. Esse fato tem levado milhares de mulheres aos consultórios médicos e psicológicos, todos os anos, ao redor do mundo. E é justamente a angústia gerada por essa situação que tem levado essas mulheres a desenvolverem diversos tipos de transtornos, sendo os principais: os depressivos; os de ansiedade; e os alimentares, dentre os quais se destacam a bulimia nervosa e a anorexia nervosa – que, pela sua gravidade e relação com a busca pela beleza estética serão abordados a seguir.
2.4 A ditadura da beleza e o desenvolvimento de transtornos alimentares
A busca pela beleza, pelo corpo “perfeito”, tornou-se uma obsessão para muitas pessoas – principalmente para mulheres e adolescentes. Como consequência, uma série de
doenças relacionadas à busca por esse corpo idealizado começou a ser disseminada na população; sendo que, as mais comuns, são pertencentes ao grupo dos denominados transtornos alimentares, dentre as quais se destacam a anorexia nervosa e a bulimia nervosa.
Os transtornos alimentares são caracterizados por uma perturbação persistente na alimentação ou no comportamento relacionado à alimentação que resulta no consumo ou na absorção alterada de alimentos e que compromete significativamente a saúde física ou o funcionamento psicossocial (APA, 2014, p. 329).
O número de pessoas acometidas por transtornos alimentares tem crescido vertiginosamente, sendo a bulimia nervosa e a anorexia nervosa as que apresentam as maiores taxas de crescimento. Estima-se que a prevalência dessas duas doenças quase que dobrou a partir das duas últimas décadas do século XX (MORGAN; VECCHIATTI; NEGRÃO, 2002 apud OLIVERIA; HUTZ, 2010).
De acordo Oliveira e Hutz (2010, p. 580), “95% dos casos de bulimia nervosa e anorexia nervosa ocorrem em mulheres”. Para esses autores, a hipótese mais aceita para a maior incidência dessas patologias no sexo feminino está relacionada à pressão social histórica sofrida pelas mulheres.
Tendo em vista que, a anorexia nervosa e a bulimia nervosa são os dois transtornos que mais estão relacionadas à busca pela beleza, pelo “corpo perfeito”, e que fazem das mulheres, a maior parte de suas vítimas, a seguir, serão expostas algumas considerações gerais sobre essas psicopatologias.
2.4.1 Anorexia nervosa: aspectos gerais e relação com a distorção da autoimagem
A anorexia nervosa caracteriza-se por uma busca desenfreada pela magreza do corpo motivada por distorções da imagem corporal. No CID-10 (OMS, 2007) a distorção da imagem é considerada uma sintomatologia específica da anorexia nervosa. O pavor de engordar leva o sujeito a desenvolver ideias intrusivas sobre a imposição de um baixo limiar de peso a si mesmo (MUGARTE, RIBEIRO; FREITAS, 2012, [s/p]).
Brunch (1962 apud ABREU; CANGELI FILHO, 2004, p. 178), nos anos 1960 e 1970, foi o primeiro autor a mencionar a distorção da imagem corporal vista como um distúrbio da paciente com anorexia nervosa na percepção de seu corpo. Segundo Bruch (1962 apud MUGARTE; RIBEIRO; FRETIAS, 2012) “há sinais de falhas severas na personalidade
associadas a distorções da imagem corporal”.
Um dos três critérios utilizado para o diagnóstico de anorexia nervosa constantes no DSM-5 (APA, 2014) refere-se justamente à questão da distorção da imagem corporal vivenciada pelos portadores desse tipo de transtorno (critério C)1. Conforme destacam Alves e
cols. (2008):
Na anorexia nervosa, o distúrbio da imagem corporal é um sintoma nuclear manifestado por intenso medo de ganhar peso e supervalorização da forma corporal na autoavaliação. Ocorre também a superestimação do tamanho do corpo como um todo ou de suas partes. Ambos os quadros geram uma insatisfação com a imagem corporal mentalmente construída (ALVES et al., 2008, p. 504).
Os outros dois critérios constantes no DSM-5 para o diagnóstico de anorexia nervosa dizem respeito à restrição alimentar/calórica (critério A)2, comumente realizada pelos
portadores deste transtornos; e ao medo excessivo de engordar (critério B)3, vivenciado por
esses indivíduos (APA, 2014, p. 339).
O DSM-5 subdivide a anorexia nervosa em dois subtipos: restritiva, quando a busca pela perda de peso é realizada essencialmente por meio de dieta, jejum e/ou exercícios físicos em excesso; e purgativa, onde o indivíduo possui episódios (esporádicos) de compulsão alimentar e subsequentemente busca métodos purgativos (ex.: uso de laxantes, diuréticos e vômito autoinduzido) para eliminar o alimento ingerido (APA, 2014).
Em relação ao prognóstico, de acordo com o DSM-5 (APA, 2014, p. 342), a anorexia nervosa está associada a três fatores: (a) temperamentais: “indivíduos que desenvolvem transtornos de ansiedade ou exibem traços obsessivos na infância estão em risco maior de desenvolver anorexia nervosa”; (b) ambientais: “a prevalência de anorexia nervosa corrobora sua associação com culturas e contextos que valorizam a magreza; e (c) genéticas: gêmeos monozigóticos apresentam maiores taxas de concordância para anorexia do que gêmeos dizigóticos.
Algumas comorbidades podem estar associadas à anorexia nervosa, como, por exemplo os transtornos bipolar, depressivos e os de ansiedade de forma geral.O DSM-5, ainda
______
1 Critério C: “Perturbação no modo como o próprio peso ou a forma corporal são vivenciados, influência
indevida do peso ou da forma corporal na autoavaliação ou ausência persistente de reconhecimento da gravidade do baixo peso corporal atual”. (APA, 2014, p. 338)
2 Critério A: “Restrição da ingesta calórica em relação às necessidades, levando a um peso corporal
significativamente baixo no contexto de idade, gênero, trajetória do desenvolvimento e saúde física”. (APA, 2014, p. 338)
3Critério B: “Medo intenso de ganhar peso ou de engordar, ou comportamento persistente que interfere no ganho
chama a atenção para o fato de que o risco de suicídio em anoréxicos é elevado quando comparado ao número de casos ocorridos na população de forma geral. Segundo esse manual, de cada 100.000 indivíduos anoréxicos 12 morrem, por ano.
De acordo com Assumpção e Cabral (2002, p. 29) “a prevalência de comportamentos alimentares anormais que sinalizam risco de anorexia nervosa, oscilam entre 4,9% e 25%, variando de acordo com grupo étnico, idade, atividade ocupacional e grau de urbanização dos indivíduos”.
Pessoas que vivem em grandes centros urbanos têm maiores facilidades de acesso aos meios de comunicação de massa que; por sua vez, conforme visto, exerce forte influência sobre os indivíduos, principalmente mulheres e adolescentes ao adoecimento e a morte.
2.4.2 Bulimia Nervosa: aspectos gerais e relação com a distorção da autoimagem
A bulimia, tal qual a anorexia, também está relacionada ao medo obsessivo do indivíduo de ganhar peso. Contudo, aquela se diferencia desta pelo fato de seus portadores apresentarem episódios recorrentes de compulsão alimentar seguida da necessidade [não orgânica] de eliminação do alimento ingerido. Esses dois comportamentos – (critério A)4
compulsão alimentar e (critério B)5 comportamentos compensatórios inapropriados, também
denominados comportamentos purgativos (ex.: estimulação do vômito e uso de diuréticos e laxantes), correspondem, respectivamente, aos dois primeiros critérios diagnósticos contidos no DSM-5 (APA, 2010) para a identificação da bulimia nervosa.
Outro critério utilizado pelo DSM-5 para o diagnóstico da anorexia nervosa (critério C)6 diz respeito à frequência de comportamentos inapropriados cometidos pelo indivíduo ao
longo do tempo. Para que o indivíduo receba um diagnóstico de bulimia nervosa, esse deve ______
4 Critério A: “Episódios recorrentes de compulsão alimentar. Um episódio de compulsão alimentar é
caracterizado pelos seguintes aspectos: (1) Ingestão, em um período de tempo determinado (p. ex., dentro de cada período de duas horas), de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria dos indivíduos consumiria no mesmo período sob circunstâncias semelhantes. (2) Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio (p. ex., sentimento de não conseguir parar de comer ou controlar o que e o quanto se está ingerindo)” (APA, 2014, p. 345).
5Critério B: “Comportamentos compensatórios inapropriados recorrentes a fim de impedir o ganho de peso,
como vômitos autoinduzidos; uso indevido de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos; jejum; ou exercício em excesso” (APA, 2014, p. 345).
6Critério C: “A compulsão alimentar e os comportamentos compensatórios inapropriados ocorrem, em média, no
mínimo uma vez por semana durante três meses”. (APA, 2014, p. 345)
7Critério D: “A autoavaliação é indevidamente influenciada pela forma e pelo peso corporais”. (APA, 2014, p.
apresentar comportamento purgativo numa frequência de, no mínimo, uma vez por semana durante os últimos três meses (APA, 2010).
Assim como na anorexia nervosa, as pessoas que apresentam quadro de bulimia nervosa possuem uma autoavaliação fortemente influenciada por aspectos ligados à forma e ao peso corporal (critério D)7.
O último critério de diagnóstico para a bulimia nervosa é de exclusão (critério E)8: “A
perturbação não ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa” (APA, 2014, p. 345). Para que uma pessoa seja diagnosticada com bulimia nervosa deve-se descartar a existência de um quadro de anorexia nervosa.
O último critério de diagnóstico para a bulimia nervosa é de exclusão (critério E)8: “A
perturbação não ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa” (APA, 2014, p. 345). Para que uma pessoa seja diagnosticada com bulimia nervosa deve-se descartar a existência de um quadro de anorexia nervosa.
A bulimia nervosa distingue-se da anorexia nervosa do tipo purgativa, pelo fato de que naquela, a compulsão alimentar é constante e, nesta, esporádica (APA, 2014). Na bulimia nervosa há uma preocupação persistente em comer e um desejo irresistível pela comida (MUGARTE; RIBEIRO; FREITAS, 2012, p. 3), o que, na maioria das vezes, não ocorre na anorexia.
De acordo com o DSM-V, para que um indivíduo seja diagnosticado com bulimia nervosa, é necessário se enquadrar em todos os cinco critérios apresentados.
Quanto às comorbidades, as mais frequentemente apresentadas por pacientes bulímicos são os transtornos depressivos, bipolar, de humor, de ansiedade e de personalidade – sendo o transtorno e personalidade borderline o mais frequente. Ainda de acordo com o DSM-V (2014) o risco de autoextermínio por pessoas que sofrem de bulimia nervosa é alto.
Em relação ao prognóstico, fatores como preocupação com o peso, baixa autoestima, sintoma depressivos, transtornos de ansiedade social e transtornos de ansiedade excessiva na infância estão associados a um risco maior de desenvolvimento de bulimia. Outro fator observado é que crianças vítimas de abuso sexual também possuem maior predisposição para desenvolver a bulimia nervosa. (APA, 2014).
A bulimia nervosa apresenta um risco significativamente maior de mortalidade(por todas as causas e por suicídio) comparado a outros transtornos psíquicos. Estima-se que
______
345).
aproximadamente 2% das pessoas que desenvolvem bulimia nervosa morrem, por década (APA, 2014).
Esses dados demonstram o quão grave e o quadro e o quanto sofrem aqueles que padecem de bulimia nervosa ou de anorexia nervosa, e o quanto os profissionais da saúde – principalmente os da saúde mental – devem estar preparados para as demandas advindas desse problema; devendo este compreender, contudo, que estes transtornos estão intimamente relacionados à ditadura da beleza.
3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO
Das 30 mulheres que compuseram a amostra, 6 (20%) eram de Tupaciguara e 24 (80%) de Uberlândia. As idades das entrevistadas variaram de 18 a 35 anos (M = 21, 17 anos; DP: 5,66 anos). Dessas, 33,3% declararam ser casadas e 66,7% solteiras.
Em relação à prática de atividade física, 83,33% das entrevistadas disseram praticar algum tipo de atividade, pelo menos uma vez por semana; 16,67% responderam que não possuem esse hábito. Das que praticam algum tipo de atividades físicas, 64% declaram fazê-lo uma vez por semana; 12%, duas vezes por semana; 8%, três vezes por semana; e 16%, quatro vezes por semana, ou mais O aumento significativo do número de academias no Brasil associado aos resultados de pesquisas, cujos dados demonstram que o principal motivo que leva as mulheres a praticarem uma atividade física é o desejo de modificarem o corpo [desejo este que muitas das vezes vem ‘travestido’ no discurso de ‘cuidado com a saúde’], pode ser um referencial importante de demonstração do quando as mulheres, na atualidade, estão preocupadas com a beleza.
Em relação à questão sobre itens de beleza (ou a ela relacionados): 02 (6,67%) das entrevistadas disseram que possuíam esteira ergométrica; 02 (6,67%) que possuíam bicicleta ergométrica; e 04 (13,33%), que possuíam balança para peso corporal; 19 (63,33%) disseram que tinham prancha para alisar cabelo e 29 (96,67%) que tinham secador; 09 (30,00%) relataram que possuíam espelho de aumento facial e 05 (16,67%), que possuíam aparelho massageador; 29 (96,67%) declararam que possuíam adornos, como brincos, colares, pulseiras etc.; e todas relataram que tinham algum tipo de maquiagem. Ainda dentro desta questão, 29 (96,67%) declararam que possuíam cremes corporais e 13 (43,33%) cremes facial anti-idade. Todas as entrevistadas possuíam algum tipo de produto de beleza.
Conforme se pode observar, os itens de beleza ou a ela relacionados mais frequentes nas casas das mulheres são: em primeiro lugar as maquiagens com (100,0%); em segundo, os
adornos, os cremes corporais e os secadores de cabelo (96,67%); em terceiro, as pranchas para alisar cabelos (63,33%); em quatro, os cremes anti-idades (43,33%); e subsequentemente, vêm os aparelhos de massagem (16,67%), as balanças (13,33), as esteiras ergométricas (3,33%) e as bicicletas ergométricas (3,33%). O percentual inferior nesses dois últimos casos pode estar relacionado ao preço desses produtos no mercado, que não chega a ser acessível à maioria da população.
Chama a atenção o fato de 43,33% das entrevistadas, mesmo pertencendo ao grupo denominado “adultos-jovem”, fazerem uso de cremes facial anti-idade – cremes que são vendidos sob a promessa de prevenir e/ou retardar o envelhecimento e devolver a jovialidade à face. Isso demonstra o quanto cada vez mais cedo as mulheres estão preocupadas com o envelhecimento do corpo. Sob este aspecto, o “corpo velho”, na contemporaneidade, é visto como um corpo destituído de beleza.
Para Garrini (2007), Oliveira e Hutz (2010) e Schmidtt, Oliveira e Galla (2010), dentre outros estudiosos do assunto, o incentivo dessa busca pela “eterna juventude” é fomentada principalmente pela mídia que, ao mesmo tempo, que promove exaustivamente a supervalorização do corpo jovem, magro, “sarado”, veicula através do marketing os meios possíveis para se atingir esse “ideal”, como cirurgias plásticas, procedimentos estéticos, cremes anti-idades, maquiagens etc.
Em relação às maquiagens – item possuído por 100% da amostra –, essas são itens constantes de beleza encontrados em todas as culturas. Contudo, conforme destacam
Vigarello (2006), citado por Araújo e Meneses (2009) destacam que, entre os séculos XVII e XV, as mulheres utilizam a maquiagem com intuito de esconder as “imperfeições” de seu rosto. Contudo nessa época [e até o início dos anos de 1990], essa prática, também, estava relacionada a questões morais. Em resposta à crítica sobre a artificialidade que a maquiagem produzia no rosto, a indústria de cosméticos passou a associa-la não mais apenas ao embelezamento, mas, também, à ideia de proteção e revitalização da pele (ARAUJO; MENESES, 2009).
Em relação à questão contida no questionário socioeconômico submetido às participantes deste estudo, “Com qual frequência você vai ao salão, ao mês?” – aqui considerado como um indicador de preocupação com a aparência estética: 12 (40,00%) entrevistadas responderam que frequentam esses espaços “uma vez ao mês”; 07 (23,33%), que fazem uso de serviços de salões de beleza “duas vezes ao mês”; 03 (10,00%), disseram que vão a salões de beleza “três vezes ao mês”; e outras 03 (10,00%), disseram frequentar
esses espaços “quatro vezes ao mês ou mais”. Cinco (16,67%) participantes disseram não frequentar salões dentro do período especificado.
Embora a prática de frequentar salões de beleza seja antiga, foi nas últimas décadas que este mercado começou a crescer significativamente assim como os demais segmentos da “indústria da beleza”. De acordo com levantamento realizado pelo SEBRAE (2014), a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo IBGE, atualmente, o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor do mundo em produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, ficando apenas atrás do Japão e dos EUA. O crescimento exacerbado desse segmento do mercado reflete o quanto a preocupação com a imagem corporal é um fato inquestionável, na atualidade.
Conforme observado, das 30 participantes, 83,33% relataram que frequentam salões de beleza mais de uma vez ao mês, o que pode ser interpretado como uma demonstração da preocupação dessas mulheres com sua aparência física. Embora 16,67% tenham declarado não ir a salões dentro do período especificado, todas têm maquiagens e secadores de cabelos de uso pessoal; e 3 10% delas possuem pranchas para alisar os cabelos, o que serve de indício de que, mesmo não frequentando esses espaços com uma frequência pré-determinada [talvez por questões financeiras] essas mulheres também possuem preocupações relacionadas à beleza; e, por isso, possuem recursos pessoais para sua manutenção.
O número de mulheres que possuem secadores (96,67%) e pranchas (63,33%) chama a atenção para outro fato importante: cabelos lisos é o padrão de beleza capilar. Isso, de forma indireta demonstra o preconceito velado que a sociedade contemporânea tem contra os negros e contra tudo aquilo que lhes possa ser peculiar. Esse fato reflete os resquícios da nossa história em que, sempre, o negro ocupou uma posição de inferioridade em relação ao branco. Na determinação de um padrão de beleza ideal, obviamente não poderia ser diferente: características típicas da raça negra jamais seriam consideradas padrões de beleza. Por isso, hoje, o “padrão de beleza”, além de ser magro, deve ser branco e ter cabelos lisos.
Em relação à questão contida no questionário sociodemográfico referente à família: “Como é a qualidade de vida da sua família?” – avaliada em uma escala do tipo Likert de 5 pontos18, 01 (3,33%) das participantes declarou ser ruim; 10 (33,33%) declararam que ser
regular; 11 (36,67%) responderam que é boa; e 8 (26,67%), que era muito boa. Nenhuma participante declarou que a qualidade devida de sua família é muito ruim.
Embora essa questão não tenha relevância, a priori, para os objetivos propostos nesse estudo, é importante ressaltar que a família exerce uma grande influência sobre a autoimagem, o autoconceito e a autoestima dos indivíduos. A família e a principal referência para o
indivíduo nos primeiros anos de vida, sendo a primeira a influenciar na constituição da subjetividade do sujeito.
Quanto ao segundo instrumento utilizado neste estudo, o IAIC – cujo principal objetivo é avaliar o nível de satisfação das participantes com sua imagem corporal e a relação desta com a autoestima (AGUIAR, 2014) , as frequências relativas e percentuais das respostas emitidas pelas participantes demonstraram que 33,33% delas consideram-se feias (item A); 33,33% consideram-se estranhas (item C); 66,67% disseram sentirem-se inferiores aos outros por possuírem sobrepeso ou serem magras demais (Item E); 30,00% disseram não gostar da aparência do próprio corpo (item F); 40% relataram ter partes do seu corpo que não gostam (item G); 33,33% declararam que para ser feliz acredita ser necessário estar dentro dos padrões de beleza estabelecidos pela mídia (item H); 36,67% disseram não gostar de se apresentarem nuas ou com roupas de banho ou íntima diante de outras pessoas (item I); 10,00% declararam que não se sentem elegantes e isso é motivo de infelicidade (item J); 10,00% disseram sentirem-se insatisfeitas com sua altura (item K); 6,67% relataram que se sentem mais feias que as outras pessoas (item L); 16,67% declararam não gostar dos seus cabelos (item M); 13,33% não se veem atraente fisicamente (item N); 33,33% disseram que não serão felizes enquanto não fizerem cirurgia plástica para “corrigir” o corpo (item O); e 33,33% declararam que só serão felizes quando tiver um corpo musculoso. Apenas os item B (“Sou feia e por isso não serei amada por ninguém.) e C (“Sou esquisita ou estranha fisicamente e por isso não serei amada por ninguém.”), que relacionam beleza e expectativas afetivas/amorosas, que obtiveram respostas negativas (“não”) por parte de todas as participantes. Ressalta-se que um dos principais motivos da busca da beleza relaciona-se à busca por um parceiro afetivo. Esses dados demonstram que todas as mulheres se sentem incomodadas com alguma parte do seu corpo. No Brasil, o culto exacerbado ao corpo intensificou-se de maneira definitiva a partir dos anos de 1990.
De acordo com Malysse (2002), por meio de um diálogo incessante entre o que veem [na mídia] e o que são, os indivíduos insatisfeitos com sua aparência são cordialmente convidados a considerar seu corpo defeituoso. Mesmo gozando de perfeita saúde, seu corpo não é perfeito e “deve ser corrigido” por numerosos rituais de autotransformação, sempre seguindo os conselhos das imagens-normas veiculadas pela mídia. (...) Elas constituem o estereótipo ideal da aparência física em uma cultura de massa ao banalizar a noção de metamorfose, de uma transformação corporal normal, de uma simples manutenção do corpo: “Mude seu corpo, mude sua vida” ou “Você pode ter um corpo perfeito”.
Conforme pode ser observado na tabela 5, os itens que tiveram maior frequência de respostas positivas (“sim”) foram: (F) “Não gosto do meu corpo.” (30,00%); (G) Tem muitas partes do meu corpo que eu não gosto (40,00%); (I) “Odeio que vejam meu corpo nu ou que me vejam quando estou de sunga, biquíni ou roupa íntima” (36,67%); (M) Não gosto do meu cabelo (16,67%).
Embora não tenha sido a maioria das mulheres que declaram possuir essas insatisfações, esses dados nos permite predizer que as questões relacionadas a esses itens são os principais motivos de descontentamento desse grupo de mulheres com sua aparência física.
Em relação ao item F, especificamente, é natural que algumas pessoas se sintam desconfortáveis estando nuas, ou com roupas íntimas ou de banho perto de outras por outros motivos que não, necessariamente, vergonha do próprio corpo. Muitas entrevistadas que marcaram essa questão não demonstrou ter maiores problemas com seu corpo, o que nos leva a pensar que este fato esteja relacionado a questões pessoais relacionadas a questões morais. Ressalta-se que, em determinados períodos da história, o corpo feminino era motivo de vergonha pelo simples fato de ser feminino desde o seu nascimento. Outrora, esse corpo também foi associado ao pecado da luxúria. Portanto, escondê-lo era uma questão moral.
No caso das entrevistadas P10 e P11, por exemplo, este foi o único item que recebeu resposta afirmativa. Ou seja, embora essas mulheres tenham alegado não gostar que outras pessoas as vejam nuas ou com roupas de banho ou íntimas, parecem não se sentirem insatisfeitas com seu corpo, isto é, não o veem como um problema, ou motivo de vergonha pela sua forma ou aparência; tendo em vista que, para todas as demais questões suas respostas foram “não”. Porém, é fato que algumas pessoas não gostem de se apresentarem nuas ou com roupas íntimas ou e banho perante outras pessoas por sentirem vergonha de seus corpos.
No intuito de se ampliar a análise deste estudo, foi realizada uma avaliação do conjunto de respostas de cada participante aos itens do IAIC . Ressalta-se que às respostas positivas (“sim”) atribuiu-se o valor 1 (um) e às negativas (“não”), zero. Como os itens são formados de afirmações consideradas negativas acerca de aspectos relacionados à autoimagem e ao autoconceito do indivíduo, o somatório das frequências de respostas afirmativas, tendo como base o índice 8 (oito), serviram para indicar o grau de satisfação/insatisfação dessas mulheres em relação à sua aparência física: índices superiores a 8 foram considerados indicadores de baixa satisfação com a imagem corporal; e inferiores a esse valor, de alta satisfação.
Conforme pode ser observado na tabela 06, apenas duas (6,67%) das participantes, a P8 e a P15, obtiverão pontuação 8 e 9 pontos, respectivamente – o que caracteriza uma baixa satisfação com sua imagem corporal.
A participante E8 respondeu afirmativamente aos seguintes itens: E (“Tenho sobrepeso ou sou magra demais e por isso sou inferior aos outros. Logo nunca serei amada.”); F (“Não gosto do meu corpo.”); G (“Tem muitas partes do meu corpo que não gosto.”); H (“Acho que para ser feliz tenho que estar no padrão de beleza estabelecido pela mídia.”); I (“Odeio que vejam meu corpo nu ou me vejam quando estou de sunga, biquíni ou roupa íntima.”); M (“Não gosto do meu cabelo (...).”); O (“Só serei feliz quando fizer cirurgia plástica.”); e P (“Só serei feliz quando tiver muitos músculos”.). Ressalta-se que a entrevistada possui 19 anos.
A participante P15, que foi a que mais demonstrou insatisfação com sua imagem corporal, respondeu afirmativamente os itens: A (“Sou feia.”); C (“Sou esquisita ou estranha fisicamente”); F (“Não gosto do meu corpo.”); G (“Tem muitas partes do meu corpo que não gosto.”); I (“Odeio que vejam meu corpo nu ou me vejam quando estou de sunga, biquíni ou roupa íntima.”); J (“Não sou elegante e isso me deixa infeliz.”); K (“Não me sinto bem com a altura que tenho.”); L (“Considero-me mais feio que os outros e isso me incomoda muito.”); N (“Não sou atraente fisicamente e isso me incomoda muito.”). A entrevistada possui 18 anos.
Foram destacadas as idades dessas participantes tendo em vista que, chama-nos a atenção o fato dessas serem as mais jovens do grupo amostral.
De acordo com Levisky (1998 apud MUGARTE; RIBEIRO; FREITAS, 2004), é natural a existência de antagonismo vivenciado pelos jovens diante das mudanças corporais e psíquicas naturais desta fase do desenvolvimento. Contudo, devido às pressões do mundo contemporâneo, essas mudanças têm sido vivenciadas com maior angústia. Hoje, a insatisfação com a imagem corporal é um dos principais fatores que tem levado mulheres, principalmente as mais jovens, a buscarem recursos estéticos e práticas alternativas que, por vezes, lhes custam à vida. De acordo com Garfinkel e Garner (1982) e Holden (1990), citados por Abreu e Gangelli Filho (2004), a baixa autoestima assim como a distorção da imagem corporal são os principais componentes que reforçam a busca por um padrão de beleza tido como ideal.
Em relação ao item A, considerar-se “feia” já faz parte de um autoconceito formado pelo indivíduo acerca de sua autoimagem. O indivíduo que diz ou pensa, “sou feio”, é aquele que quando se olha no espelho se diz: “Eu não gosto do que vejo”. O “ver” e o “não gostar” envolve percepção de imagem e sentimento, respectivamente. O que demonstra – tal qual
proposto por Rodrigues, Assmar e Jablonski (2012), Autoimagem é um dos aspectos relevantes para formação do autoconceito, da ideia que temos do nosso complexo e multifacetado eu; que, por sua vez, está intimamente relacionada à autoestima – entendida aqui como, o afeto que o indivíduo desenvolve em relação ao seu autoconceito.
Portanto, pode-se concluir que indivíduos que se consideram feios, como no caso da participante P15, possuem uma baixa autoestima, pois avalia seu autoconceito de forma negativa, pautando-se numa autoimagem real que está aquém do que considera desejável, de uma imagem “ideal” [idealizada].
O item C do IAIC, “Sou esquisita, estranha fisicamente”, também está relacionado à “apercepção” que o indivíduo tem de sua imagem corporal, ou seja, de sua autoimagem. Sob este aspecto, cabe destacar que a autoimagem é fortemente influenciada por aspectos exteriores, incluindo-se aí a comparação social. Esse mecanismo de comparação pode ser evidenciado no item (L), “Considero-me mais feio que os outros e isso me incomoda muito” – também respondido afirmativamente pela participante P15. Ou seja, observa-se implicitamente que o “outro” é utilizado enquanto parâmetro para definição desta imagem promulgada pelo ‘eu’.
No caso da P15 a insatisfação com a imagem está relacionada à imagem total (item F) e parcial (itens G e M). Em uma perspectiva guestáltica poder-se-ia inferir que a percepção negativa das partes influencia a percepção do todo.
Em relação ao item ‘J’, ressalta-se que se trata de uma questão que visa identificar não aspectos relacionados à autopercepção da beleza física, mas do comportamento em si. Sob essa questão, cabe ressaltar que com a instituição da “família burguesa”, a partir dos séculos XVII e XVIII, o ideal de beleza passou a ser associado a algumas formas de comportamento. Para Foucault (1978 apud GAMA, 2011) esse fato está associado à estrutura de controle estabelecida pelas ideologias dominantes: é necessário um corpo “dócil” que se comporte docilmente, pois este é o corpo ideal, o corpo obediente, sob o que é possível exercer o controle.
A altura (item K), também aparece como outro fator de insatisfação relacionado à aparência física, contudo, esta é uma preocupação mais relacionada ao gênero masculino. No caso da amostra em questão, além da participante P15, outras duas (P18 e P19), também relataram não se sentirem satisfeitas com suas respectivas alturas. Foi a partir da década 1980 que não só a magreza, mas também a questão da altura [de ser mais alta] aparecem como um fator relacionado à beleza feminina (OLIVEIRA; HUTZ, 2010). Mesmo período em que as
top-models das passarelas do mundo do modo se consolidaram efetivamente como referência de beleza sob todos os aspectos.
O item “O”, também marcado positivamente (“sim”) pela participante P15, associa “felicidade” e “padrão de beleza” [“Só serei feliz na vida quando fizer plástica para corrigir meu corpo”.], e o item “H”, também respondido afirmativamente por essa participante, associa “felicidade”, “padrão de beleza” e “mídia”. Na atualidade, beleza está associada a sucesso (afetivo, profissional e social) e este, por sua vez, está associado à felicidade. Para ser feliz é preciso ter sucesso e para se ter sucesso – para se incluir socialmente, realizar-se amorosamente e destacar-se profissionalmente – é preciso “ter beleza”, é preciso de um corpo que esteja dentro de determinados padrões. E para isso vale tudo, jejuns, atividades físicas em excesso, procedimentos estéticos, intervenções cirúrgicas etc..
De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas (SBCP, 2013), o número de procedimentos cirúrgicos estéticos aumentou 141%, entre em adolescentes de 14 a 18 anos, em quatro anos (2008 a 2012). Nesse caso, não se trata de uma busca por uma aparência mais jovem, como acontece com as mulheres de maior idade, mas, exclusivamente, para se manter dentro de um padrão de beleza tido como ideal. A busca incessante por esse padrão, na maioria das vezes inatingível, tem levado inúmeros adolescentes a desenvolverem transtornos a ele relacionados.
Esses dados demonstram o quanto, cada vez mais jovens, as mulheres têm sucumbido à ditadura da beleza. A felicidade passa a estar associada ao corpo. Para ser feliz é preciso tem um corpo “belo” como àqueles “fabricados” pela mídia, como confirmado pela resposta da participante P15 ao item “H” [“Acho que para ser feliz tenho que estar no padrão de beleza estabelecido pela mídia”.].
Essas pressões da pós-modernidade relacionadas à estética corporal, em se estar dentro do “padrão”, tem levado jovens a correrem riscos precocemente – seja pela ingestão de medicamentos para emagrecer, seja através de dietas extremas, seja através de cirurgias plásticas etc. Conforme destaca Schmidtt, Oliveira e Galla (2010, [s/p]), “as mulheres ignoram a dor em função da vaidade. Ao longo dos tempos, escravizaram o corpo de acordo com padrões de beleza”.
Cinquenta por centos (50%) das mulheres (P2, P3, P4, P5, P6, P7, P9, P14, P17, P20, P21, P23, P27, P29, P30) que compuseram a amostra deste estudo responderam “não” a todos os itens; o que, a priori, demonstra que essas mulheres parecem estar satisfeitas com sua imagem corporal. Contudo, as questões do questionário sociodemográfico relacionadas à beleza – discutidas anteriormente – demonstram que essas mulheres estão sim preocupadas
em se manterem dentro de um padrão de beleza, pois frequentam salões de beleza, possuem itens de beleza diversos e praticam atividade física.
4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
O culto ao corpo, à “boa forma”, à beleza física corporal, é algo inquestionável na atualidade; ele existe. Contudo, não é algo exclusivo da contemporaneidade, diferentemente de sua exacerbação. Hoje, esse culto ao corpo tomou proporções descomedidas, fazendo com que muitos indivíduos se tornassem “escravos” de padrões de beleza pré-determinados socialmente. A preocupação com o peso sem dúvidas é o fator que mais assombra as mulheres na atualidade, vê na magreza um ideal de beleza a ser atingido. Não conseguir se adequar a esses padrões faz com que as mulheres sintam-se ainda mais pressionadas.
Fica claro que os padrões pré-determinados socialmente, fomentados pela indústria da beleza e pela mídia, interferem fortemente na autoimagem e na autoestima dos indivíduos. Quanto mais insatisfeitas com sua imagem corporal, menor é sua autoestima. Ou seja, a insatisfação esta intimamente relacionada à baixa autoestima à incapacidade de ser feliz.
Nesses casos, há um forte comprometimento da autoestima, que é rebaixada. Portanto, é de fundamental importância que os indivíduos procurem compreender as artimanhas da “indústria cultural da beleza” tendo em mente que, o corpo é apenas uma parte desse complexo e multifacetado ‘eu’, que compõe cada indivíduo; para, assim, poder reelaborar seu autoconceito, respeitando suas respectivas individualidades e características pessoais. A reelaboração deste autoconceito implica no resgate da autoestima. Ressalta-se que todas as interações sociais são essenciais para a elaboração da construção do self. Porém, o desequilíbrio entre autoimagem e autoconceito pode afetar as relações interpessoais dos indivíduos.
Vale destacar que pessoas com autoestima elevada se aceitam mais e se enxergam melhor; gostam de si e não se comparam com ninguém; estão de bem consigo mesmas e entendem que não há beleza sem saúde; compreendem que perfeição não existe; reconhecem a real beleza, e a veem como algo individual, não associado a padrões nem reduzido a características físicas. O verdadeiro conceito de beleza deve visar destruir essa ligação com o “padrão” e recuperar a essência da beleza, ampla, individual, adequada a todas as formas, medidas, idades e etnias e profundamente coesa à autoestima e à saúde, trazendo de volta a popularização e a socialização da beleza, postulando a “beleza de cada um”.
mais diversos aspectos a ela relacionados, devem e precisam ser desenvolvidos; pois, a cada dia, mais e mais pessoas tem se tornado vítimas dessa ditadura que causa dor, sofrimento, que exclui, aliena e rouba a subjetividade de milhares de mulheres ao redor do mundo. A nível social é necessário que se desenvolvam trabalhos que resinifiquem os valores contemporâneos. A educação deve ser a porta de entrada para inserção desses tipos de trabalhos. É necessário que crianças e jovens, desde cedo, compreendam que a constituição humana está para além da constituição corporal externa, que o corpo é apenas parte de um ‘eu’ muito maior – que envolve sentimentos, sensações, percepções, pensamentos, afetos, relações etc.
Tendo em vista todo o exposto, vale ressaltar que este estudo nos possibilitou refletir sobre diversas questões; contudo, a mais significativa é a compreensão do significado de “verdadeira beleza”. Essa está para além daquilo que é posto e imposto como padrão, pois ela encontra-se na diversidade, nas possibilidades de ser e de existir no mundo e na liberdade de ser quem se é verdadeiramente.
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