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ESTRUTURA E PROCESSO. Paisagens da História.

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ESTRUTURA E PROCESSO

PAISAGENS HISTÓRICAS SE DIFERENCIAM das paisagens cartográficas

em um importante aspecto: elas nos são fisicamente inacessíveis. Qualquer pessoa que esteja elaborando um mapa de uma região remota da Terra pode visitá-la ou ao menos fotografá-la. Porém, os historiadores não podem fazer o mesmoy "Nenhum egiptólogo viu Ramsés", assinalou Marc Bloch, em

The Historians Crafi.

"Nenhum especialista nas guerras napoleônicas ouviu o som de um canhão em Austerlitz." Os historiadores "estão na mesma si-tuação espinhosa de um advogado criminalista que se esforça para reconstruir um crime que ele não presenciou; ou um físico que confinado ao leito em virtude de uma gripe toma conhecimento de seus experimentos por meio dos relatórios de seu técnico do laboratório". O historiador "nunca chega antes de a experiência ser concluída. Mas, em circunstâncias favoráveis, ela deixa atrás de si certos resíduos, os quais os historiadores podem ver com seus pró-prios olhos".1

'Se o tempo e o espaço oferecem o

campo

no qual a história acon-tece, cabem à estrutura e ao processo prover o

mecanismo.

Por meio das estruturas que sobrevivem no presente - os "certos resíduos"

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mencionados por Bloch - reconstruímos processos inacessíveis para nós em razão de terem acontecido no passado. "Um fato histórico é uma inferência de relíquias", observou o sociólogo John Goldthorpe.2

Estas podem incluir ossos e excrementos, ferramentas e armas, ou documentos depositados em arquivos; mas em cada caso foram sem-pre processos que os produziram. Só podemos conhecê-los pelas estru-turas que eles deixaram para trás.

Uma boa maneira de visualizar essa análise é considerar os cor-tes feitos em encostas de morros para dar passagem às estradas. Os geólogos os adoram porque eles expõem declives, dobras e estratos desiguais, ou seja, estruturas pelas quais eles podem deduzir pro-cessos ocorridos há milhões ou mesmo bilhões de anos. Eles são, como notou John McPhee, "janelas para o mundo como ele era em outros tempos".3 Esses cortes não existiriam, no entanto, no

presente geológico, caso não tivessem sido feitos recentemente para construir canais, estradas de ferro e rodovias.Wara os geólo-gos, então, a distinção entre estrutura e processo corresponde à do presente, onde as estruturas existem, e passado, onde estão os pro-cessos que as produziram. Isso também se aplica aos historiadores? Essa é a questão que quero explorar aqui, e nada melhor do que iniciar a argumentação com o antigo debate se a história é ou não uma ciência.

I

"Quando eu era muito jovem", E. H. Carr comentou, em suas conferências sobre Trevelyan, proferidas em Cambridge, em 1961, "fiquei muito impressionado ao saber que, apesar das aparências, a baleia não é um peixe. Atualmente, esses questionamentos sobre classificações me impressionam menos; e não me preocupa muito a menção de que a história não é uma ciência."3 Caso se queira

des-construir essa afirmação, poderíamos lhe conferir diversos significa-dos. Primeiro, a história é realmente uma ciência. Segundo, ela não

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Cortes transversais na encosta da estrada de Sideling Hill, 1-68, na região oeste de Maryland (cortesia do Maryland Geological Survey;

fotografia de Paul Breeding).

o é. Terceiro, que Carr tinha o hábito de pôr de lado as ambigüida-des, tal como os garçons que serviam as mesas dos professores, em Oxford e Cambridge, tinham ao varrer as migalhas.6

inclino-me a pensar, no entanto - e as palestras de Carr indicam isso - que essa questão não pode ser tão facilmente descartada, visto que a ciência tem uma qualidade que a distingue de quaisquer outros métodos de pesquisa: ela mostrou-se mais capaz de obter consenso na comprovação de resultados entre culturas de diferentes línguas, e entre observadores extremamente diversos. A estrutura da molécula do DNA é a mesma para pesquisadores na Suíça, Cin-gapura ou Sri Lanka. As asas das aeronaves suportam cargas simila-res, não importa se as companhias aéreas em que elas operam são empresas estatais ou de iniciativa privada. Astrônomos de credos diversos como o cristianismo, o islamismo ou o budismo têm pouca dificuldade de chegar a um acordo sobre a causa dos eclipses ou do movimento das galáxias^

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Há, claro, outras maneiras de solucionar assuntos como esses. Pode-se, por exemplo, examinar as entranhas de um animal, ler a sorte nas folhas do chá, consultar o horóscopo, procurar um guia espiritual ou fazer pesquisas em sites de bate-papo na Internet. Certamente se obterão resultados, mas não muitas pessoas que con-cordem com a acuidade deles A . vantagem da ciência, John Ziman observou, é que ela provê "um consenso de opinião racional sobre um campo mais amplo possível".7

Claro que não podemos esperar que os métodos científicos tenham a mesma precisão, ou um amplo domínio consensual, ao estudar as relações humanas. A razão é óbvia: a consciência — talvez eu devesse dizer a intencionalidade - pode governar as leis que regem o comportamento das moléculas, o fluxo do ar ou os objetos celestes. As pessoas, lembrou uma vez o cientista político Stanley Hoffmann a seus colegas, não são "gases ou pistons".8 Entretanto,

não vejo por que essa dificuldade invalidaria a observação de Ziman, isto é, de que os historiadores deveriam tentar conseguir um consenso de opinião racional sobre um campo mais amplo pos-sível - mesmo que seja uma tarefa impospos-sível^

Não é preciso se aprofundar na obra de Carr para descobrir que, apesar da declaração sobre baleias e peixes, ele também pensava desse modo, assim como Marc Bloch. Ambos consideravam a ciência um modelo para historiadores, mas não em razão de estarem -ou, pelo menos, deveriam estar - tornando-se mais científicos. Essa opinião advinha mais do fato de que

eles viam os cientistas

tornando-se mais historicistas.

Com os progressos obtidos no século XIX no campo da geologia, por Charles Lyell, e no de biologia, por Charles Darwin, Carr assinalou: "A ciência não está mais envolvida com eventos estáticos ou atemporais, mas, sim, com um processo de mudança e desenvolvimento.Bloch argumentou de modo simi-lar, enfocando os desenvolvimentos do século XX:

A teoria cinética dos gases, a teoria mecânica de Einstein e a teoria quântica alteraram profundamente o conceito de ciência que, até muito recente, era

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aceito com unanimidade... Com toda certeza, eles substituíram o infinito pro-vável; quanto ao estritamente mensurável, mudaram a noção da eterna relativi-dade da mensurabilirelativi-dade... Por conseguinte, estamos mais bem preparados para admitir que uma disciplina acadêmica possa pretender ser alçada ao nível de uma ciência sem insistir em demonstrações euclidianas* ou leis imutáveis de repetição... Não nos sentimos mais obrigados a impor a cada matéria do conhecimento um padrão intelectual uniforme, adotado da ciência natural, pois mesmo neste campo o padrão cessou de ser totalmente aplicável, "j?

/Ao se descobrir que o que existe no presente nem sempre perdu-rou no passado, que objetos e organismos evoluem ao longo do tempo em vez de permanecer iguais, os cientistas começaram a

depreender estruturas dos

processor,

eles, em resumo, levaram a histó-ria à ciência^Em conseqüência dessa mudança de uma visão estáti-ca para uma visão evolutiva, Carr concluiu: "O historiador atual-mente tem uma desculpa para se sentir mais à vontade no mundo científico do que há cem anos."11

Carr escreveu essas palavras há quatro décadas. Elas ainda fazem sentido? Penso que sim, desde que se indique o

tipo

de ciência a que se refere.

II

"A chave para o consenso, no campo científico, é a

reprodutibilida-de: observações feitas sob condições equivalentes, não importa quem as formule, devem produzir resultados correspondentes bem próximos.12 Os matemáticos recalculam o número

piem

bilhões de

decimais totalmente confiantes de que o seu valor será o mesmo de há milhões de anos.13 Físicos e químicos são um pouco menos

con-fiáveis, pois embora os pesquisadores estejam sempre seguros sobre o que acontece em níveis subatômicos, eles não obtêm os mesmos resultados com as experiências laboratoriais em condições similares,

* Euclides de Alexandria (c. 325 a.C. - c. 265 a.C.) foi um dos mais proeminentes matemáticos da Antigüidade. Seu livro

The Elements,

uma compilação de conheci-mentos, tornou-se o centro do ensino da matemática durante 2.000 anos. (N. T.).

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fato que, provavelmente, sempre se repetirá. A comprovação nessas disciplinas realiza-se por meio da repetição dos processos atuais. O tempo e o espaço são comprimidos e manipulados; a história é, em si, um efeito reapresentado. Neste sentido, é óbvio, o método histó-rico jamais se aproximará do método científico/

ftorém,

nem todas as ciências têm esse desempenho. Nos

cam-pos da astronomia, geologia, paleontologia ou biologia evolucionis-ta, os fenômenos raramente se ajustam aos experimentos laborato-riais, e o tempo necessário para se obter resultados pode exceder ao tempo de vida de seu pesquisador.14 Essas disciplinas dependem de

experimentos reflexivos: seus praticantes refazem mentalmente - ou talvez agora em seus computadores - o que não foi possível ser manipulado nos testes com tubos de ensaio, centrífugas e microscó-pios de varredura eletrônica. Eles buscam evidências que indiquem quais desses exercícios mentais explicam com mais precisão suas observações físicas. A reprodutibilidade significa estabelecer um consenso no qual essa correspondência seja plausível/Os cientistas só conseguem refazer a história imaginando-a, mas eles devem se ater ao limite da lógica. Eles não podem atribuir o inexplicável à ação de duendes, bruxos, visitantes extraterrestres, e pensar que dessa forma irão persuadir seus pares da veracidade de suas desco-bertas.

Como, à parte esses experimentos reflexivos, os geólogos podem explicar o feto de que os estratos que só são depositados horizontal-mente não obstante acabam, com freqüência, inclinando-se ou mesmo projetando-se na vertical? Ou o granito que se introduz no calcário? Ou as conchas que são encontradas a milhões de metros no fundo, centenas de milhas do oceano mais próximo?16 Além

disso, como os biólogos dão sentido a órgãos sem funções aparen-tes: as nadadeiras atrofiadas das baleias, por exemplo, ou o polegar do panda, ou apêndice pós-anal dos seres humanos?17 Por que os

genes do homem diferem tão pouco dos das pulgas, minhocas, moscas, macacos e camundongos?18 Como os astrofísicos podem

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ilustrati-vos, as estruturas só sobreviveram onde os processos do passado puderam ser explicados: o soerguimento e os colapsos geológicos sofridos pelas placas tectônicas, por exemplo, ou a evolução das espécies resultante da seleção natural, ou o resíduo radioativo do

Big Bang.

As experiências laboratoriais dificilmente seriam suficientes para testar essas explanações. Darwin necessitou de uma escala de tempo que se estendeu a centenas de milhões de anos. Alfred Wegener visualizou uma Terra inteira, onde os continentes se reuniam e se separavam. Albert Einstein imaginou experimentos que excediam o tamanho não só de seu laboratório, mas da galá-xia. Todos esses revolucionários da ciência aliaram a imaginação à lógica para deduzir processos do passado a partir de estruturas do presente. Eles não fizeram nada tão excepcional porque a mesma coisa acontece todos os dias nos museus de história natural diante de um público infantil crítico. Afinal de contas, a reconstrução de dinossauros e outras criaturas pré-históricas é uma adaptação da carne imaginária com as ossaturas sobreviventes, ou ao menos de seus vestígios.19 E as crianças ficam, quase sempre, bem

impres-sionadas.

/ Ê neste ponto que os métodos dos historiadores e dos cientistas - pelo menos para aqueles em que a reprodutibilidade não pode ser realizada no laboratório - coincidem um pouco, pois os historiado-res também iniciam pesquisas com estruturas sobreviventes, sejam arquivos, artefatos ou mesmo memórias. A partir daí, eles depreen-dem os processos que as produziram. Assim como os geólogos e os paleontólogos, eles precisam admitir que muitas fontes do passado não subsistem, e que a maioria dos eventos do dia-a-dia nem mesmo geram arquivos que perdurarão. Como os biólogos e os astrofísicos, eles têm de lidar com provas ambíguas ou até mesmo contraditórias. E assim como todos os cientistas que trabalham fora dos laboratórios, os historiadores precisam usar a lógica e a imagi-nação para superar as dificuldades resultantes, e suas equivalências de experiências reflexivas

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iMesse sentido, creio que R. G. Collingwood estava correto quan-do insistiu na indissolubilidade quan-do passaquan-do da história presente: o presente é onde os experimentos reflexivos ocorrem.20 Isso não

sig-nifica, porém, que o passado não exista, pois sem ele nada haveria como experiência. Como ilustração para esse ponto, citarei dois exemplos muito diferentes de como historiadores usaram seus labo-ratórios mentais para reconstruir os processos passados de estruturas que perduraram.

'A Midwife's Tale,

de Laurel Thatcher Ulrich, conta a vida de Mar-cha Ballard, uma mulher de quem pouco saberíamos além de seu vilarejo no Maine, no século XVIII, se não fosse por uma única fonte sobrevivente: seu lacônico diário escrito, não para a posteri-dade, mas para registrar os pagamentos de seus serviços. Ulrich disseca esse arquivo fossilizado - negligenciado por muitos histo-riadores do sexo masculino - sob diversas formas: recuperando informações em outras fontes sobre a época e o local em que Ballard viveu; imaginando como Ballard deveria ter compreendido e procurado lidar com sua situação; e ao comparar as relações con-temporâneas de Ballard de gênero e família com as vivenciadas pelas mulheres hoje. Esse livro é um brilhante estudo de paleonto-logia histórica.21

O livro de Jared Diamond,

Armas, Germes e Aço,

ao contrário, trabalha a partir de uma circunstância contemporânea - a persis-tência da desigualdade social em todo o mundo - para tentar deter-minar sua origem. Ele examina diversas culturas atuais, algumas em estágio avançado, outras não. Ele traça sua história desde suas raízes pré-históricas quando todas as sociedades eram mais ou menos iguais, e depois utiliza-se de experimentos reflexivos para explicar sua trajetória ao longo do tempo. Suas conclusões são impressio-nantes: o eixo leste-oeste, como na Eurásia, permitiu movimentos aproximadamente na mesma latitude, facilitando, assim, o inter-câmbio de pessoas, economias, idéias — e não menos importante — dos germes que estabeleceram as imunidades. Um eixo norte-sul, como na África, Américas do Norte e do Sul, impediu esse

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movi-mento. Como resultado, em grande parte das placas tectônicas, os eurasiáticos passaram a governar o mundo.22'

'Seria difícil pensar em dois trabalhos históricos tão dessemelhan-tes em seu âmbito e escala. Mas, no entanto, seu método é basica-mente o mesmo: cada um deles começa com uma estrutura sobre-vivente — o diário de Ballard no caso de Ulrich, e a desigualdade global em Diamond; cada um busca, por meio de experimentos reflexivos, depreender os processos que originaram essas estruturas; cada um o faz observando a importância contemporânea dessas descobertas. Eles combinam lógica com imaginação. E ambos ganharam o Prêmio Pulitzer./

^Entretanto, romancistas, poetas e teatrólogos também não combinam lógica com imaginação? Eles fazem isso, é claro, mas de um modo diverso. Os artistas podem invocar seus temas da mais pura abstração. Os historiadores não podem fazer o mesmo: seus temas, obrigatoriamente, existiram. Os artistas podem coe-xistir no tempo com seus objetos, alterando-os ao seu bel-prazer. Os historiadores não têm essa liberdade: eles podem mudar as representações de seus objetos de estudo, mas não o tema em si. A imaginação do historiador deve ser "poderosa o suficiente para que sua narrativa produza efeito", escreveu Macaulay. "Ele precisa ainda controlá-la totalmente de modo a contentar-se com o material que encontrar, e refrear-se em suprir deficiências com seus próprios acréscimos."23 A imaginação no campo da história,

assim como nas ciências, precisa ser refreada e disciplinada pelas fontes: é isso que a distingue das artes e de outros métodos de representação da realidade/'

A história é, então, uma ciência? Fiz essa pergunta recentemente a um grupo de estudantes de pós-graduação de Yale e uma resposta de um deles fez todo o sentido para mim: é que deveríamos nos concentrar em determinar quais ciências são históricas.24 A

distin-ção se estabelecerá na divisória entre

capacidade real, de réplica

como padrão comprobatório - a reapresentação de experimentos labora-toriais - e capacidade

virtual de réplica

associada a experiências

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reflexivas. E o diferencial seria a acessibilidade

versus

inacessibilida-de inacessibilida-de processos.

III

Nenhum geólogo jamais penetrou no interior da superfície da Terra além de poucas milhas e, mesmo assim, eles relatam com autoconfiança o que provoca em suas profundezas o deslocamento dos continentes ou os terremotos. Nenhum paleontólogo jamais viu um dinossauro, porém eles reconstroem sua vida e morte de tal modo, que convencem seus colegas - sem mencionar as crian-ças pequenas — sobre o conhecimento do que falam. Os astrôno-mos nunca saíram da órbita terrestre, mas dessa limitada posição vantajosa eles mapeiam o universo. Com a exceção de uns poucos biólogos que rastrearam as formas mutantes dos bicos dos tenti-lhões em Galápagos, ninguém testemunhou o processo de seleção natural além do nível microscópico, e mesmo assim uma discipli-na inteira baseia-se nos parâmetros estabelecidos.25 Se todos esses

argumentos soam como o comentário de Marc Bloch sobre a ausência de testemunhas vivas na Batalha de Austerlitz, há uma boa razão para tal.

Ê que tanto a história como as ciências da evoluções praticam a observação à distância do fenômeno com o qual não podem intera-gir diretamente. Eles estão, metaforicamente, na posição do viajan-te de Friedrich no topo da montanha. Porém, eles não podem se limitar à contemplação da névoa e da bruma: eles precisam desco-brir como determinar o que jaz sob eles e representar sua descober-ta de forma convincente para aqueles a quem ela se destina.A. lógi-ca e a imaginação com certeza ajudam; mas existe, creio, uma

seqüência de procedimentos

especial a ser adotada para realizar essa tarefa//Dois exemplos bem diferentes de observação a distância, extraídos um da história recente, e o outro da pré-história, eluci-dam a questão.

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O primeiro, sem dúvida, é o caso mais famoso de sensoriamento remoto - a descoberta dos mísseis soviéticos de alcance e interme-diário em Cuba, em outubro de 1962. A história começou com a descoberta por um avião de fotorreconhecimento U-2, usado em espionagem, dos mísseis que o líder soviético Nikita Khrushchev e seus conselheiros aparentemente pensaram que poderiam instalar em sigilo na ilha, porque eles se confundiriam com as palmeiras.26

Isso foi um acontecimento inesperado, pois dificilmente alguém em Washington teria cogitado que a liderança do Kremlin se arris-caria tanto, ou que a avaliação de seus órgãos de inteligência - não só sobre a natureza da palmeira — se equivocasse tanto. Esperavam-se outras formas menos acintosas de ajuda militar e, por essa razão, os U-2 sobrevoavam a ilha de Cuba. Quando um deles detectou estruturas semelhantes às bases de mísseis na União Soviética — já conhecidas por vôos anteriores sobre o país - os fotoanalistas perce-beram instantaneamente o que fora fotografado, mesmo que não fosse esse o objetivo das missões dos U-2. Ao mencionar essa com-paração, eles convenceram o presidente Kennedy de que suas con-clusões faziam sentido, fato confirmado em missões subseqüentes.27

Podemos, no entanto, dividir esse episódio em três estágios: a reali-dade na terra, o que os especialistas fizeram dessa realireali-dade, e como eles conseguiram persuadir seus superiores da veracidade de sua descoberta.

t ) segundo caso refere-se aos paleontólogos, que também prati-cam uma espécie de sensoriamento remoto, baseado na análise de ossos, conchas e fósseis. A representação dessas criaturas que deixa-ram esses vestígios requer a combinação precisa da observação e da descrição desses materiais que restaram, com a habilidade de imagi-nar como deveria ser a vida há centenas de milhões de anos^Assim como na crise dos mísseis em Cuba, os indícios evidências recém-descobertos têm de ser comparados com os já existentes. Há mais questões envolvidas do que simplesmente a taxonomia, visto que os paleontólogos precisam persuadir seus colegas da plausibilidade de suas conclusões. Eles não podem limitar-se a

afirmar

que os

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allosau-rus

aleitavam seus bebês, ou que o

archaeopteryx é

o ancestral das aves atuais; é preciso também

convencer.

Isso requer ainda a harmo-nização de três coisas: o remanescente das fontes originais; o uso desse material que restou pelos paleontólogos; e o grau de persuasão de suas conclusões.2^

Em ambos os casos, a descoberta de estruturas leva à indução de processos. As fotografias de Cuba forçaram os funcionários do governo de Washington a diligências desesperadas para tentar determinar por que Khrushchev colocara os mísseis lá - um fato importante a ser conhecido antes de decidir as medidas para retirá-los. Fósseis que sugerem ninhos de dinossauros e até mesmo penas levaram os paleontólogos a reconsiderar seus conhecimentos sobre a origem das aves. Não quero estender-me nessa comparação: é um exagero, sem dúvida, relacionar exemplos tão diferentes de observa-ção a distância. No entanto, são precisamente essas diferenças em todos os aspectos que ressaltam a importância de seus procedimen-tos similares.

Agora retornaremos à minha metáfora sobre cartografia mencio-nada no capítulo anterior,yOs especialistas em elaboração de mapas

também passam por três estágios processuais de conectar realidade, representação e persuasão. Eles representam realidades que não podem ser reproduzidas com fidelidade absoluta, e não seria esse o objetivo do trabalho: um mapa realmente preciso de Oxford seria um clone exato de Oxford e não entraria com facilidade em mochi-las e valises. Os mapas variam de escala e conteúdo, de acordo com suas finalidades. Um mapa-múndi tem um objetivo diferente para quem quer identificar ciclovias ou depósitos de lixo. Os mapas também não estão livres de idéias pré-concebidas. Há sempre uma razão prévia que pesa na decisão do que será representado.2/

'Avaliamos os mapas de acordo com a sua utilidade: o desenho é legível? A representação é verossímil? O mapa estende nossa percep-ção para além do que somos capazes de gerir, desempenhando, assim, a tarefa de deslocar-nos do local onde estamos para outro? Assim como com a reconstrução de dinossauros e a construção da

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história, há de novo a realidade a ser representada, a representação em si mesma, e sua recepção pelos usuários.

/'Construir um bom... mapa", Jane Azevedo, uma das mais inte-ressantes teóricas sobre elaboração de mapas, sublinhou,

requer mais do que um conjunto de dados e um mecanismo para deter-minar sua autenticidade para representá-lo. De acordo com os objetivos de sua utilização, deve haver uma teoria sobre a escolha do material a ser representado no mapa em função de''sua finalidade,^ grau de precisão e ^seu formato. Quando houver múltiplos interesses, as considerações devem contemplar as prioridades, pois nem sempre é possível representar tudo com igual acuidade.

/h relação entre dados, formas de representação e interesses a ser observados na representação não é, contudo, hierárquica: é como ela demonstrou "uma laçada que se repete".

O mapa é o resultado tanto de dados quanto de teoria. Seleciona-se infor-mação em função da teoria. O mapa e a teoria podem ser modificados levando em consideração os dados. Por fim, o próprio mapa pode vir a modificar a teoria. Todos os níveis hierárquicos estão sujeitos à alteração ao interagir com os outros níveis.30^

Gosto desse conceito de "laçada que se repete" porque ele não privilegia os métodos de pesquisa indutivos nem dedutivos.31 O

sensoriamento remoto de processos por meio de estruturas sobrevi-ventes - tanto na história como na ciência - funciona de modo similar. //O início de uma pesquisa pela estrutura, como todos os historiadores e cientistas evolucionistas devem fazer, é uma ação dedutiva: a tarefa consiste em depreender o processo que a produ-ziu. Mas dificilmente esse trabalho seria realizado sem repetidas ações indutivas: deve-se examinar a prova, perceber seu conteúdo, e encontrar formas para representá-la. Porém, encontrar essas formas nos remete ao nível dedutivo, pois é preciso deduzi-las em função

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dos interesses daqueles para quem a representação está sendo feita. Faz pouco sentido, então, tentar alinhar rigorosamente estrutura e processo à dedução e indução. Em vez disso, deve-se aplicar ambas as técnicas nos objetos de sua pesquisa, adaptando-as umas às outras de acordo com a tarefa a ser executada.32/^

Uma maneira fácil de refletir sobre essa questão é imaginar-se como um alfaiate. As roupas permitem que as pessoas apareçam em público: os alfaiates são os intermediários entre a sociedade e os cor-pos nus.33 Porém, a menos que esteja trabalhando, por exemplo,

para Mao Tsé-tung, você não gostaria de vestir todos os seus clientes exatamente da mesma forma. Procuraria se adaptar a suas variadas formas e tamanhos. Provavelmente, refletiria suas preferências em tecidos, estilos e enfeites. Nesse sentido, estaria

representando-os

para um mundo no qual eles gostariam de ser vistos com suas próprias características. Mas, desde que você tenha uma reputação profissio-nal a manter, estará também representando a si mesmo: não vestiria seus clientes hoje em dia com calça boca-de-sino ou ternos de poliés-ter. Você pode até mesmo tentar mudar um pouco as tendências da moda para imprimir um estilo seu que concorra com outros. Mais uma vez, a "adaptação" deverá se estender a três níveis: o corpo a ser vestido, o desenho da roupa e o mundo da moda que poderá adotar, rejeitar ou ignorar os resultados.

Acho essas metáforas úteis para explicar o método de trabalho dos historiadores, pois, assim como os paleontólogos, cartografes e os alfaiates, procuramos um "ajuste" adequado através de três níveis distintos de atividade. Ao pesquisar um evento ou uma série deles, começamos com o material disponível - em geral arquivos, o equi-valente para nós a ossos, corpos ou terrenos. Interpretamos os documentos segundo nossos enfoques: é neste ponto que a imagi-nação, e até mesmo a dramatização, está envolvida. Por fim, o pro-duto deverá ser apresentado a uma platéia e, neste momento, mui-tas coisas podem acontecer. O público interessado pode aprová-lo, porque confirma suas idéias pré-concebidas. Mas pode desaprová-lo, caso não corresponda às expectativas. Ou, então - o que os

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paleontólogos, alfaiates, cartografes, bem como os historiadores esperam - o produto pode provocar em algumas pessoas a revisão de seus próprios conceitos, fazendo emergir uma nova base para um julgamento crítico, talvez mesmo uma nova visão da realidade.^1

IV

Há alguns anos, pedi ao grande historiador William H. McNeill para explicar seu método de escrever história para um grupo de cientistas sociais, físicos e biólogos que participavam de uma confe-rência que eu havia organizado. A princípio ele resistiu à idéia, argumentando que não possuía um método específico. Ao ser pres-sionado, ele o descreveu como segue:

Fiquei curioso com um problema e comecei a estudá-lo. A leitura levou-me a redefini-lo. Essa redefinição alterou o direcionalevou-mento do levou-meu mate-rial de leitura. Por sua vez, isso redimensionou o problema, levando poste-riormente a uma outra linha de pesquisa. Avancei para trás e para frente, até que os elementos se ajustaram e, depois, escrevi sobre o tema e enviei o texto para o editor.

A apresentação de McNeill suscitou manifestações de decepção entre os economistas, sociólogos e cientistas políticos presentes. "Isso não é um método", muitos deles exclamaram. "Não é parci-monioso, não distingue variáveis independentes e dependentes, confunde indução e dedução." Mas, neste momento, uma voz grave se ouviu do fundo do salão. "Sim, ele é um método", retru-cou. "Isso é exatamente o que nós físicos fazemos!"34

A] sua comprovação de um modelo teórico fazendo apelo ao experimento não é um processo mecânico", escreveu John Ziman. "Depende do julgamento especializado dos físicos, que têm de decidir por si mesmos se há um

ajuste adequado

entre teoria e expe-rimento, dadas as incertezas das informações e as inevitáveis

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ideali-zações da análise matemática. A habilidade para fazer esses julga-mentos resulta da experiência."35 Mas se essa proposição estiver

correta - se a ciência não privilegia a indução nem a dedução, se ela confia a tal ponto em intuição e julgamento, se na análise final suas descobertas não se dissociam das características de quem as desco-briu - então, nossa visão estereotipada do método científico, que nega tudo isso, precisará ser revista./'Os cientistas... não pensam em linha reta", Edward O. Wilson sublinhou. "Eles elaboram con-ceitos, provas, relevâncias, conexões e análises à medida que prosse-guem a pesquisa, examinando-os meticulosamente em fragmentos e sem uma ordem específica... Talvez só autobiografias isentas de dissimulação, ainda raras ou não existentes, possam revelar como os cientistas encontraram o caminho para uma conclusão publicá-vel."36 Em resumo, eles pensam como William H. McNeill.

Essas novidades podem incomodar alguns cientistas sociais, mas deixaremos essa discussão para o próximo capítulo. Gostaria de enfocar aqui o procedimento específico comum ao raciocínio histó-rico e científico como McNeill, Ziman e Wilson o compreendiam: é nossa primeira idéia, depreendida da cartografia, de

adaptar fatos

ou eventos diversos uns aos outros.

/Existe uma denominação antiga que define esse processo e que está voltando à moda: conciliação. Origina-se do filósofo da ciência de Oxford, William Whewell, que no século XIX a empregou para descrever "coincidências inesperadas de resultados inferidos de par-tes distanpar-tes de [um] tema".37^Wilson reviveu recentemente o

ter-mo para questionar "se na reunião de disciplinas, os especialistas podem em algum momento obter um acordo sobre um conjunto comum de princípios abstratos e a prova comprobatória". É signifi-cativo, creio, que ele posicione a história no centro dessas discipli-nas, assinalando que "nunca é demais afirmar que a ação humana é histórica, e que a história é uma revelação de eventos únicos". Pois:

Nada de fundamental separa o curso da história da humanidade do curso da história dos fenômenos físicos, seja nas estrelas ou na diversidade

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orgâ-nica. A astronomia, a geologia e a biologia evolucionista são exemplos de disciplinas históricas primárias, relacionadas por consonância às demais ciências naturais... Se milhões de histórias de humanóides podem ser ras-treadas em dez milhões de planetas similares à Terra, e, do estudo compa-rado dessas histórias, testes empíricos e princípios evoluem, [então] a his-toriografia - a explanação de tendências históricas - já seria uma ciência natural.38

Infelizmente, Wilson não se aprofunda mais no desenvolvimen-to da conexão, por meio da conciliação, entre as ciências históricas, por um lado, e as ciências naturais, por outro. Penso, no entanto, se o conceito de Whewell de "coincidências inesperadas", ou talvez o mais proveitoso de "adaptação um a outro", não possa ser o ponto 'de partida para mais pesquisas.

/Isso reside em grande parte no poder da metáfora. Muito do que já mencionei baseia-se na premissa que fazer história é "como" outras coisas: fiz analogias com a pintura, cartografia e até mesmo com a alfaiataria, além da matemática, astronomia, geologia, pa-leontologia e biologia evolucionista. Essas analogias não foram fei-tas com o intuito de afirmar que a história pode ou deve

imitar

essas disciplinas: com certeza a visão de Wilson de dez milhões de humanóides é muito ambiciosa. Mas creio que, ao

comparar

seu trabalho com o de outros campos do saber, os historiadores podem realizar muitas coisas profícuas. (

/Primeiro, eles justificariam melhor sua existência. Os historiado-res deveriam ser tão competentes quanto os praticantes de outras disciplinas na defesa de seus métodos - mas não são. Já em 1942, Bloch manifestara-se sobre esse problema com uma sombria refle-xão:

Com certeza, em um mundo posicionado no limiar da química do átomo, que só agora começa a sondar o mistério do espaço interestelar, nesse nosso pobre mundo que, embora justamente orgulhoso de sua ciên-cia, gerou tão pouca felicidade para si mesmo, as minúcias tediosas da

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eru-dição histórica, facilmente capazes de consumir toda uma vida, merece-riam uma condenação pelo absurdo desperdício de energia, que beira a criminalidade, acabando meramente por revestir uma de nossas digressões com uma fina camada de verdade. Ou todas as mentes capazes de um emprego melhor de suas capacidades devem ser dissuadidas de praticar história, ou a história precisa provar sua legitimidade como uma forma de conhecimento.39

Carr foi ainda mais contundente em 1961: "Os historiadores que aparentam hoje prescindir da filosofia da história estão só ten-tando, de maneira vã e deliberada, como membros de uma colônia de nudistas, recrear o Jardim do Éden em seu jardim no subúr-bio."40 A inocência metodológica conduz à vulnerabilidade

meto-dológica. As comparações dariam aos historiadores mais embasa-mento em seus trabalhos.//'

Segundo, as comparações poderiam esclarecer as formas de inte-ração com outras disciplinas. As similaridades temáticas não neces-sariamente implicam similaridades metodológicas, uma questão que Bloch e Carr tentam formular ao enfatizar a compatibilidade entre os métodos dos historiadores e os dos cientistas naturais. O problema é que as ciências sociais, nas quais os modelos estáticos são ainda valorizados e a evolução é quase sempre vista como um incômodo confuso, podem não ser o campo ideal para os historia-dores buscarem as analogias que os ajudariam em suas definições.

*Por fim, essas comparações podem dar alento à nossa autocon-fiança. Os historiadores com muita freqüência se retraem embara-çados quando cientistas sociais os reprovam por não usar equações, gráficos, matrizes e outros métodos formais de exposição para representar o passado. Somos advertidos pelo nosso comportamen-to "não-científico", quando subvertemos as generalizações, resisti-mos a ordenar causas e rejeitaresisti-mos o uso de jargões específicos. Podemos, no entanto, responder com a pergunta: o que os zoolo-gistas e os botânicos fazem quando procuram espécies distintas? Ou: como um astrônomo determina as causas que deram origem

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ao sistema solar, ou a posição da Terra dentro dele? Ou: por que tantos cientistas "exatos" escrevem tão melhor do que a maioria dos cientistas sociais - e têm tantos leitores?41 As respostas podem não

satisfazer nossos críticos. Mas certamente dão um bom impulso à nossa moral.'

O próximo capítulo enfoca o que separa o pensamento histórico do sociocientífico: o paradoxo de que, apesar das similaridades do nosso tema, existem muitas diferenças no modo de pensar dos his-toriadores e dos cientistas sociais. Isso gira, em grande parte, em torno da questão sobre se será possível existir algo como uma verda-deira variável independente.

Referências

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