• Nenhum resultado encontrado

A responsabilidade civil e o dano existencial em face das relações de trabalho

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A responsabilidade civil e o dano existencial em face das relações de trabalho"

Copied!
62
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ

ANA PAULA DA SILVA

A RESPONSABILIDADE CIVIL E O DANO EXISTENCIAL EM FACE DAS RELAÇÕES DE TRABALHO

Santa Rosa (RS) 2018

(2)

ANA PAULA DA SILVA

A RESPONSABILIDADE CIVIL E O DANO EXISTENCIAL EM FACE DAS RELAÇÕES DE TRABALHO

Projeto de pesquisa da monografia final do Curso de Graduação em Direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, apresentado como requisito parcial para a aprovação no componente curricular Metodologia da Pesquisa Jurídica. DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais

Orientador: MSc. Fernanda Serrer Scherer

Santa Rosa (RS) 2018

(3)

Acima de tudo, agradeço a Deus por mais esta realização.

Dedico esse trabalho à Izoldi Saueressig, minha mãe, a Paulo Vitor da Silva, meu irmão, a Régis Luís Witcak, meu noivo, pelo incentivo, apoio, confiança e toda a colaboração e paciência durante o desenvolvimento deste trabalho.

(4)

AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, por ter nos dado a vida, pois através dela conquisto sonhos e ideais, que em alguns momentos me parecem estar tão longe.

A minha mãe e ao meu irmão, que sempre me incentivaram para que realizasse o curso e não me deixaram desistir em nenhum momento, mesmo com as dificuldades que encontrei no decorrer do mesmo.

Ao meu noivo, quero agradecer de forma grandiosa e destacada, pois me incentivou a seguir em frente e me apoiou para que essa etapa de minha vida fosse conclusa.

A minha professora e orientadora Fernanda Serrer Scherer, por ter me ajudar no projeto, pela elaboração do mesmo e pelo tempo dedicado a mim, mostrando os caminhos para realização deste trabalho, iluminou de maneira especial meus pensamentos, levando-me a buscar mais conhecimentos.

A todas as pessoas que acreditaram na minha capacidade de concluir mais uma etapa de minha vida. Muito obrigada por tudo.

(5)

“Não tentes ser bem sucedido, tenta antes ser uma pessoa de valor.” Albert Einstein

(6)

RESUMO

O presente estudo analisa as várias facetas do elemento dano, centro da responsabilidade civil, dando ênfase na ocorrência do dano existencial em face das relações de trabalho. Busca-se compreender se é possível a reparação, tendo em vista que as configurações de tais indenizações não são somente oriundas da simples definição do dano moral. No primeiro capítulo foram abordados conceitos basilares acerca da responsabilidade civil, os elementos para sua configuração, perpassando pelas divisões teóricas entre responsabilidade patrimonial e extrapatrimonial. Foram abordadas, ainda algumas das diversas formas de danos identificadas doutrinariamente, como o moral, o reflexo e o existencial. Já no segundo capítulo foi dada maior ênfase ao dano existencial, tese que teve origem no Direito Italiano e que por meados dos anos 2000 foi introduzido no Direito Brasileiro. Esta inserção se deve, principalmente, ao princípio da dignidade da pessoa humana, e tem aplicação prática muito presente no âmbito de relações trabalhistas, em um cenário onde o trabalhador de bem possui cada vez mais obrigações para com suas atividades laborais, tendo cada vez menos liberdade para exercer seus direitos sociais, desrespeitados diante do intuito lucrativo do empregador, desrespeitando as limitações de seu empregado. Busca-se, ainda, demonstrar como a indenização proveniente do dano existencial vem sendo acaloradamente discutida pelos Tribunais Pátrios, tudo no intuito de dar um enfoque maior aos direitos que são atribuídos ao trabalhador.

Palavras-chave: Dano Existencial. Direito do Trabalho. Indenização. Responsabilidade Civil.

(7)

ABSTRACT

The present study analyzes the various facets of the damage element, center of civil responsibility, emphasizing the occurrence of existential damage in the face of working relatioship. The porpouse is try to understand if reparation are possible, since the configurations of such indemnifications are not only resulting to the simple definition of moral damages. In the first chapter, were addressed the basic concepts of civil responsability the elements for its configuration, and the theoretical divisions between patrimonial and non-balance sheet responsability . Some of the various means of damage identified doctrinally, such as morality, reflexion and existential, were also discussed. In the second chapter, more emphasis was given to existential damage, a thesis that have been originated in Italian Law and which was introduced in the Brazilian Law by the mid-2000s. This insertion is mainly cause to the principle of the human dignity, and has a practical application in thework relationship, in a scenario where the hard –working and honest has more and more obligations to his work activities, having less and less freedom to exercise their social rights, disregarded by the employer's profit intention, disrespecting the limitations of their employee. It also seeks to demonstrate how indemnification from existential damage has been heatedly discussed by the patriotrics Courts, all in order to give a increased focus to the rights that are assigned to the worker.

Keyword: Existential Damages. Labor of Law. Compensation. Civil responsability.

(8)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

1. TEORIA GERAL DA RESPONSABILIDADE CIVIL E O RECONHECIMENTO DO DANO DE NATUREZA MORAL ... 12

1.1 A Responsabilidade Civil ... 12

1.2 Classificação da Responsabilidade Civil ... 19

1.3 Elemento da Responsabilidade Civil: O Dano ... 25

1.3.1 Dano moral e extrapatrimonial ... 26

1.3.2 Danos anexos e reflexos ... 29

1.4 Teoria da Chance Perdida ... 30

2. RESPONSABILIDADE CIVIL APLICADA AO DIREITO DO TRABALHO E O DANO EXISTENCIAL ... 33

2.1 Responsabilidade Civil no Acidente De Trabalho ... 33

2.1.1 Doenças ocupacionais ... 35

2.1.2 Assédio moral ... 36

2.1.3 Análise jurisprudencial ... 38

2.2 Responsabilidade Civil no Dano Existencial ... 40

2.2.1 Origem e conceito ... 41

2.2.2 Distinções entre Dano Moral, Dano Existencial e Perda de uma Chance ... ... 44

2.2.3 Elementos específicos: projeto de vida e vida de relações ... 47

2.3. Danos Existenciais nas Relações De Trabalho ... 49

(9)

CONCLUSÃO ... 55

(10)

INTRODUÇÃO

A Constituição Federal de 1988, ao tratar dos direitos sociais que nela são consolidados, deu ênfase ao princípio da dignidade da pessoa humana e tratou de forma particularizada os valores sociais e princípios básicos que norteiam as relações de trabalho. Nesses, pôs a livre iniciativa como fundamento essencial. A preocupação com a eficácia dos direitos trabalhistas já vinha sendo motivo de reflexão por doutrinadores e estudiosos.

O reconhecimento do dano existencial no âmbito trabalhista é recente, necessitando de um estudo mais detalhado e aprofundado sobre o tema, especialmente na questão da responsabilização do empregador por abusos de direito, para que assim possam ser garantidos os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.

O objetivo desse trabalho é conceituar o dano existencial, diferenciando-o das demais espécies de danos, e analisar a ocorrência do dano existencial nas relações de trabalho, bem como a concessão de uma possível indenização.

Ainda mais se levarmos em conta as necessidades da sociedade capitalista que vivemos que transforma o trabalhador em uma “peça” necessária para a produção. Tal contingência está cada vez mais impondo regras que visam à proteção do empregado, visando o seu bem-estar.

Mesmo assim, as jornadas de trabalho, em muitas situações, estão cada vez mais longas e desgastantes, e acabam contrariando os preceitos da

(11)

Constituição e da Consolidação das Leis Trabalhistas. Assim, acabam alienando o trabalhador e prejudicando suas relações pessoais, familiares, sua saúde, bem como causam a frustação de seus projetos de vida.

Portando, utilizando-se do método de pesquisa dedutivo, a partir de pesquisas doutrinárias e jurisprudenciais, visa-se o estudo de uma possibilidade de indenização por dano existencial ao trabalhador que se sentiu, de alguma forma, lesado e/ou perdeu de vista seus direitos fundamentais em razão de abusos do empregador.

(12)

1. TEORIA GERAL DA RESPONSABILIDADE CIVIL E O RECONHECIMENTO DO DANO DE NATUREZA MORAL

O conceito do dano moral vem passando por constantes atualizações no cenário jurídico. Os prejuízos extrapatrimoniais que são suportados pela vítima independem de prova material. Desse modo, percebe-se que a existência do direito à indenização por dano moral é evidente, mas as possibilidades para a caracterização do dano moral desafiam os operadores do direito.

Todavia, com base no direito positivo, garante-se ao sujeito a reparação civil decorrente da violação/lesão à direito de ordem subjetiva, seja de natureza patrimonial ou moral, nos termos do que vem capitulado no Código Civil Brasileiro.

Nesse sentido, experiências violadoras de direitos de natureza extrapatrimonial povoam tanto o direito comum, como outras áreas do direito, derivando, inclusive, das relações jurídicas de trabalho, objeto de estudo do presente trabalho de conclusão de curso.

Assim sendo, a proposta de trabalho investiga temas atuais ligados a aplicabilidade da teoria da responsabilidade civil nas relações de trabalho, com destaque para os danos existenciais nas relações de trabalho, os quais representam debates apurados a partir das discussões sobre as indenizações por dano moral decorrentes de acidentes de trabalho e por violação aos direitos personalíssimos dos empregados, sendo para tanto necessário uma preliminar investigação acerca da teoria geral da responsabilidade civil, bem como um estudo do dano de natureza extrapatrimonial, temas presentes nesse primeiro capítulo.

1.1 A Responsabilidade Civil

A responsabilidade civil é um tema muito pertinente na atualidade jurídica, tendo uma expansão muito ampla no direito moderno e vastos reflexos nas relações interpessoais e coletivas.

(13)

A ideia de responsabilidade, em um sentido geral, surge quando alguma pessoa faz algo que não se mostra correto dentro de determinado parâmetro e, de alguma forma, resta obrigado a reparar as consequências desse ato, tanto na esfera civil, moral ou patrimonial, ou esfera na penal.

Para uma conceituação de responsabilidade civil, podemos estabelecer, em síntese, a responsabilidade como a reparação a um prejuízo causado a outrem. Neste sentido, afirma Silvio Rodrigues (2003, p. 6) que “a responsabilidade civil é a obrigação que pode incumbir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam”.

A responsabilidade civil, conforme o entendimento de Maria Helena Diniz (2011, p. 50), define-se como sendo:

Aplicação de medidas que obriguem alguém a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros em razão de ato do próprio imputado, de pessoa por quem ele responde, ou de fato de coisa ou animal sob sua guarda, ou, ainda, de simples imposição legal.

Percebe-se que nesse entendimento a concepção de responsabilidade civil mostra-se bastante ampla, revelando-se, pois, um interesse primordial em reestabelecer o equilíbrio violado pelo fato danoso.

Salienta, que o dano poderá ter sido causado até mesmo por animais ou alguma outra coisa que esteja sob a guarda do agente, devendo esse ser responsabilizado da mesma forma pelos fatos que ocorrerem. Desse modo, complementa Diniz (2011, p. 21):

Na responsabilidade civil são a perda ou a diminuição verificadas no patrimônio do lesado ou o dano moral que geram a reação legal, movida pela ilicitude da ação do autor da lesão ou pelo risco. Isto é assim, porque a ideia de reparação é mais ampla do que a de ato ilícito, pois, se este cria o dever de indenizar, há casos de ressarcimento de prejuízo em que não se cogita da ilicitude da ação do agente.

A responsabilidade civil estabelece uma relação jurídica entre a pessoa que sofreu o dano e a pessoa que o causou, ou for responsável por quem ou o que

(14)

o causou. Desse modo, se busca deslocar o ônus do dano sofrido pelo lesado para a pessoa que, por tê-lo causado, deve, por lei ou por convenção, suportá-lo.

Nas palavras de Carlos Roberto Gonçalves (2003, p. 3), aquele que “pratica um ato, ou incorre numa omissão de que resulte dano, deve suportar as consequências do seu procedimento. Trata-se de uma regra elementar de equilíbrio social, na qual se resume, em verdade, o problema da responsabilidade.”

Ainda em relação à responsabilidade civil, Alexandre Agra Belmonte (2009, p. 508 - 509) estabelece a seguinte conceituação acerca do elemento “dano”:

Dano, para efeito de responsabilidade civil, é o prejuízo causado a bem jurídico de determinado sujeito do direito ou de coletividade, por ação ou omissão imputável a outrem. Diversamente da sanção penal, destinada a reparar lesões aos interesses da sociedade atingidos por comportamentos antijurídicos tipificados como crimes e contravenções, a reparação civil do dano cumpre o papel de reparação ou compensação das lesões patrimoniais e extrapatrimoniais injustas, causadas por conduta de terceiro a interesses individuais, homogêneos ou não, coletivos e difusos.

Pode se verificar que a responsabilidade civil é instituto ligado ao método de se reparar um dano, obrigação essa que, se não for mais passível de restabelecimento do status quo, irá se converter em indenização, ou seja, uma forma de compensação pecuniária, já que dano, como antes citado, refere-se à diminuição do patrimônio de alguém em virtude da conduta lesiva de terceiro.

Nessa linha também discorre Sílvio de Salvo Venosa (2011, p. 1) que “em princípio, toda atividade que acarreta prejuízo gera responsabilidade ou dever de indenizar”. Pela concepção do autor é possível perceber que toda e qualquer atividade que causar efeito danoso a outrem deve ser indenizada.

Veja-se o ensinamento de Pablo Stolze Gagliano (2004, p. 9, grifo nosso):

A noção jurídica de responsabilidade pressupõe a atividade danosa a alguém que, atuando a priori ilicitamente, viola uma norma jurídica preexistente (legal ou contratual), subordinando-se dessa forma, às consequências de seu ato (obrigação de reparar). Trazendo esse conceito para o âmbito do Direito Privado, e seguindo

(15)

essa mesma linha de raciocínio, diríamos que a responsabilidade civil deriva da agressão a um interesse eminentemente particular, sujeitando, assim, o infrator, ao pagamento de uma compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor in natura o estado anterior de coisas.

A responsabilidade civil possui três funções em específico, sendo elas a reparatória, a dissuasória e a punitiva e têm por principal objetivo compensar os danos sofridos pelo sujeito. Sem essa reparação, o sujeito ficará, de alguma forma, lesado.

A função reparatória trata dos chamados danos patrimoniais e tem, por sua vez, o objetivo de ser a mais completa forma de reparação do dano sofrido, eis que busca a restituição em sua integralidade. Ou seja, busca restabelecer o patrimônio da vítima àquela forma como se encontrava antes de sofrer o dano.

Já a função dissuasória da responsabilidade civil advém da ideia de prevenção, ou seja, que a reparação sirva também como uma medida de intimidação e desestímulo ao ofensor. Tal viés acaba por atingir todos os integrantes da coletividade, a fim de desestimulá-los quanto à prática de atos semelhantes.

No âmbito na função punitiva na responsabilidade civil, tem-se a conotação de abarcar, quando da mensuração das indenizações, um acréscimo, isso no intuito de que ao ofensor caibam as obrigações não apenas reparação ou compensação da vítima, mas também de ser paga uma quantia extra como título de punição.

Tal função tem por objeto, ainda, reforçar as sanções sob o intuito da responsabilidade civil, a fim de que o agente perceba que as consequências jurídicas da conduta ilícitas são superiores ao proveito que se teve pela prática da conduta.

Ainda quanto à função punitiva, mostra-se ela de suma importância na medida em que labora como pena civil, indo além do dano percebido pela vítima e do objetivo de recompor seu patrimônio. Tem, assim, base em um fundamento

(16)

nitidamente pedagógico, que busca desestimular o ofensor a práticas de condutas socialmente intoleráveis.

Fábio Ulhoa Coelho (2005, p. 270), ao trabalhar a função da responsabilidade civil, assim ensina:

A principal função da responsabilidade civil é compensar os danos sofridos pelo sujeito ativo. Se forem eles exclusivamente patrimoniais, a indenização terá equivalência ao valor dos danos, e o credor não se enriquece com o pagamento. Se forem extrapatrimoniais, não há esta equivalência e o credor enriquece com o cumprimento da obrigação de indenizar.

A função da responsabilidade civil é compensar o credor oriundo desse vínculo obrigacional e, com isso, recompor os vínculos patrimoniais na mesma medida em que foram afetados, e aumentando o seu patrimônio, pois tem que ser compensada, também, a dor moral que o agente sofreu.

Os elementos da responsabilidade civil são de suma importância e podem ser identificados em qualquer relação obrigacional dessa natureza. Para a doutrina dominante, como por exemplo, Maria Helena Diniz (2011, p. 294 – 295), são três os elementos, ou pressupostos fundamentais: a conduta humana, o nexo de causalidade e o dano.

Cabe, nesse ponto, uma breve abordagem sobre tais assuntos, sendo que o elemento dano será melhor abordado no item 1.3, ênfase essa que é essencial para a conclusão deste trabalho.

A responsabilidade civil sempre pressupõe a conduta humana como comportamento positivo ou negativo que vem marcado pela voluntariedade. A conduta humana somente possui interesse para o âmbito jurídico se há grau de coincidência para quem o realiza, tendo assim, que existir a voluntariedade.

Nesse norte, o agir humano pode ser comissivo (positivo) ou omissivo (negativo). O primeiro é o cometimento de um ato que não poderia ser efetivado, já o segundo é a inobservância da obrigação de agir ou da prática de um ato que teria

(17)

que ser realizado. Normalmente a ação humana geradora de responsabilidade tem por regra geral o agir ilícito, mas há casos, por exceção, nos quais a licitude gera dever de ressarcimento, tendo por base atos previstos em lei.

Acerca desses temas discorre Diniz (2011, p. 53 - 54), com maestria:

a) Existência de uma ação, comissiva ou omissiva, qualificada juridicamente, isto é, que se apresenta como um ato ilícito ou lícito, pois ao lado da culpa, como fundamento da responsabilidade, temos o risco. A regra básica é que a obrigação de indenizar, pela prática de atos ilícitos, advém da culpa [...] Mas o dever de reparar pode deslocar-se para aquele que procede de acordo com a lei, hipótese em que se desvincula o ressarcimento do dano da ideia de culpa, deslocando a responsabilidade nela fundada para o risco [...] b) Ocorrência de um dano moral ou patrimonial causado à vítima por ato comissivo ou omissivo do agente ou de terceiro por quem o imputado responde, ou por um fato de animal ou coisa a ele vinculada. Não pode haver responsabilidade civil sem dano, que deve ser certo, a um bem ou interesse jurídico, sendo necessária a prova real e concreta dessa lesão [...]

Por sua vez, o elemento nexo de causalidade é indispensável em qualquer espécie de responsabilidade civil, sendo fundamental para a existência da obrigação de indenizar. A relação de causalidade é o enlace entre o ato lesivo e o prejuízo arcado pela vítima. Caso o dano constatado não seja gerado por conduta do agente, inexistirá a relação de causalidade. Pode haver responsabilidade sem perquirição de culpa, mas não pode haver responsabilidade sem nexo causal.

Diniz (2011, p. 54) afirma que deve existir o elemento que se denomina nexo de causalidade, pois se está diante dos pressupostos de ação e da ocorrência de um dano. Nas palavras da autora:

c) Nexo de causalidade entre o dano e a ação (fato gerador da responsabilidade), pois a responsabilidade civil não poderá existir sem o vínculo entre a ação e o dano. Se o lesado experimentar um dano, mas este não resultou da conduta do réu, o pedido de indenização será improcedente. Será necessária a inexistência de causa excludente de responsabilidade, como, p. ex., ausência de força maior, de caso fortuito ou de culpa exclusiva da vítima [...] cessando, então, a responsabilidade, porque esses fatos eliminam a culpabilidade ante a sua inevitabilidade.

(18)

Para que possa haver a responsabilização civil o agente provocador do dano deverá ter praticado, ou ter deixado de praticar, algum ato que, de uma forma ou de outra, tenha lesado outrem, sendo essa ação praticada pelo agente ou por uma terceira pessoa por qual seja responsável, a responsável pelo fato lesivo.

É o nexo de causalidade que vai atribuir à conduta do agente uma consequência ligada a sua ação. E essa conduta causadora de dano, material ou imaterial, gera uma consequente responsabilização e obrigação de reparação ou de indenização pelo efeito gravoso gerado.

Venosa (2011, p. 56) conceitua o nexo causal da seguinte forma:

O liame que une a conduta do agente ao dano. É por meio do exame da relação causal que concluimos quem foi o causador do dano. Trata-se de elemento indispensável. A responsabilidade objetiva dispensa a culpa, mas nunca dispensará o nexo causal. Se a vítima, que experimentou um dano, não identificar o nexo causal que leva o ato danoso ao responsável, não há como ser ressarcida.

Assim, não basta apenas que a vítima tenha sofrido o dano. É preciso que a lesão tenha surgido a partir do ato do ofensor para que ocorra a obrigação de compensar qualquer prejuízo. É necessário que exista uma relação de causa e efeito entre o agir omissivo ou comissivo e o dano verificado pelo ofendido de forma que o ato do ofensor seja constatado como a causa da lesão ocorrida.

O dano, como já alhures abordado, é a lesão ao interesse jurídico tutelado, material ou moral. Nas palavras de Daniele Ulguim Oliveira (2008, s.p.), “a conduta do agente para acarretar responsabilidade civil deve comprovadamente causar dano ou prejuízo a vítima. Sem o dano não há que se falar em responsabilidade civil, pois sem ele não há o que reparar”.

Oliveira (2008, s.p.), aborda o dano da seguinte forma:

O dano é o prejuízo resultante da lesão a um bem ou direito. É a perda ou redução do patrimônio material ou moral do lesado em decorrência da conduta do agente, gerando para o lesado o direito de ser ressarcido para que haja o retorno de sua situação ao estado

(19)

em que se encontrava antes do dano ou para que seja compensado caso não exista possibilidade de reparação.

Abordados os elementos que integram a responsabilidade civil segundo a doutrina dominante, necessário se faz a abordagem de algumas classificações mais expoentes, e que guardam relação com o presente trabalho.

1.2 Classificação da Responsabilidade Civil

Ao estudar cientificamente um objeto podem-se estabelecer várias formas diferentes de classificá-lo, com o propósito de conhecer melhor o objeto de estudo a partir de suas nuances próprias. Mas, todavia, apenas algumas formas de classificação da responsabilidade civil serão abordadas neste item, já que importantes ao tema abordado.

A ideia de responsabilidade civil relaciona-se à noção de não prejudicar o outro. A responsabilidade pode ser definida como a aplicação de medidas que obriguem alguém a reparar o dano causado a outrem em razão de sua ação ou omissão. (OLIVEIRA, Daniele Ulguim, 2008).

A apresentação e classificação da responsabilidade civil se da por diferentes enfoques, conforme a perspectiva que se analisa. As espécies que serão abordadas neste item serão a objetiva, a subjetiva, a por culpa presumida, direta e indireta, a contratual e a extracontratual.

Quando ao fundamento, a responsabilidade civil se subdivide em responsabilidade objetiva, que é uma responsabilidade que se funda na teoria do risco, baseando-se na atividade desenvolvida com habitualidade pelo causador do dano (OLIVEIRA, Daniele Ulguim, 2008), conforme o disposto no parágrafo único, do artigo 927, do Código Civil, in verbis:

Art. 927, § ú. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

(20)

Ainda, cabe salientar que a responsabilidade objetiva não possui necessidade de comprovação de culpa por parte do causador do dano, sendo necessária apenas a ocorrência do ato ilícito.

No que concerne à responsabilidade objetiva, Diniz (2011, p. 146) respalda que:

Responsabilidade objetiva, se fundada no risco, que explica essa responsabilidade no fato de haver agente causado prejuízo à vítima ou a seus bens [...]. É irrelevante a conduta culposa ou dolosa do causador do dano, uma vez que bastará a existência do nexo causal entre o prejuízo sofrido pela vítima e a ação do agente para que surja o dever de indenizar.

Da mesma forma, Gagliano e Pamplona Filho (2004, p. 15 - 16) ressaltam:

Há hipóteses, em que não é necessário sequer ser caracterizada a culpa. Nesses casos, estaremos diante do que se convencionou chamar de “responsabilidade civil objetiva”. Segundo tal espécie de responsabilidade, o dolo ou culpa na conduta do agente causador do dano é irrelevante juridicamente, haja vista que somente será necessária a existência do elo de causalidade entre o dano e a conduta do agente responsável para que surja o dever do indenizar. As teorias objetivistas da responsabilidade civil procuram encará-la como mera questão de reparação de danos, fundada diretamente no risco da atividade exercida pelo agente.

Com isso percebe-se que a responsabilidade objetiva não tem a necessidade da caracterização de culpa do agente. Como fica claro para os doutrinadores a cima citados, o fato da conduta do agente ser culposa ou dolosa é irrelevante para o meio jurídico. A obrigação de indenizar, como já abordado anteriormente, surge quando provada a existência do enlace de causa e feito entre o agir do ofensor e o prejuízo verificado.

No âmbito da responsabilidade subjetiva, a vítima precisa comprovar a culpa do agente na prática do ato ilícito, sendo essa culpa imprescindível para a responsabilização do infrator. Ou seja, havendo uma conduta ilícita e um dano, para se obter a indenização devida com base nessa teoria, precisa-se demonstrar a culpa do ofensor e o nexo causal entre o agir e o dano gerado.

(21)

Assim, ao caracterizar a responsabilidade subjetiva, Diniz (2011, p. 146) prega que essa “encontra sua justificativa na culpa ou dolo por ação ou omissão, lesiva a determinada pessoa [...] Desse modo, a prova da culpa do agente será necessária para que surja o dever de reparar”.

Complementando tais ensinamentos, Gagliano (2004, p. 14) leciona que “a responsabilidade civil subjetiva é a decorrente de dano causado em função de ato doloso ou culposo. Esta culpa, por ter natureza civil, se caracterizará quando o agente causador do dano atuar com negligência ou imprudência”.

No entendimento de Coelho (2005, p. 271), “a responsabilidade civil, quando subjetiva, cumpre também a função sancionada. A obrigação de indenizar representa a punição do sujeito passivo pela prática do ato ilícito”.

Na responsabilidade civil, entre suas classificações possíveis, está compreendida também a responsabilidade por culpa presumida, que corresponde à inversão do ônus da prova quanto à culpabilidade.

Para Rui Stoco, (2013, p. 210), a culpabilidade presumida representa:

“uma espécie de solução transacional ou escala intermediária, em que se considera não perder a culpa a condição de suporte da responsabilidade civil, embora aí já se deparem com indícios de sua degradação como elemento etiológico fundamental da reparação e aflorem fatores de consideração da vítima como centro da estrutura ressarcitória, para atender diretamente para as condições do lesado e a necessidade de ser indenizado.”

Sendo assim, a absorção da culpa presumida pelo sistema jurídico pátrio foi, inegavelmente, um avanço. Contudo, possui uma importância apenas moderada, eis que a maioria dos casos se resolve pelo emprego da teoria objetiva, e a única alteração que realmente foi efetiva refere-se ao caráter processual, na inversão do ônus da prova.

A doutrina da culpa presumida possui, na questão prática, um efeito próximo da teoria objetiva, ou seja, presume-se culpado o causador do dano até que

(22)

ele prove não ter agido de forma culposa. Mas, exatamente por se tratar de uma presunção relativa, pode-se suprir essa presunção por meio de prova em contrário.

Inúmeros juristas tratam a culpa presumida como se fosse a responsabilidade objetiva. Cabe salientar que a culpa presumida não afasta o sistema da responsabilidade subjetiva, cabendo discussão sobre o real provocador do prejuízo.

Percebe-se, em síntese, que a inversão do ônus da prova atribui ao réu, acusado de causar danos pelo seu agir, o ônus de provar que não agiu com culpa.

Outro modo de classificação da responsabilidade civil é pela responsabilidade civil direta, que é aquela onde o causador do dano deve ser o responsável por sua reparação. É aquela derivada de fato ocasionado diretamente pelo provocador da lesão, e pode ser chamada, também, de simples ou de fato próprio. (OLIVEIRA, Daniele Ulguim, 2008).

Diniz (2003, p. 120), afirma que: “a responsabilidade seria direta se proveniente da própria pessoa imputada, ou seja, o agente responde por ato próprio”.

No âmbito da classificação da responsabilidade civil como indireta, tem-se por conceito que é aquela onde o responsável pela reparação dano é pessoa distinta do causador direto da lesão. Nesse caso, a lesão é oriunda de ação de uma terceira pessoa, com a qual o encarregado da reparação possui vínculo preestabelecido de responsabilidade. Maria Helena Diniz (2003, p. 120) ensina que “a responsabilidade indireta “se promana de ato de terceiro, com o qual o agente tem vinculo legal de responsabilidade, de fato de animal e de coisas inanimadas sob sua guarda””.

Ainda, a responsabilidade civil indireta pode se dar por meio de fato ocasionado por terceira pessoa, em casos específicos onde o causador imediato do dano está sob as ordens do chamado, causador mediato.

(23)

A classificação da responsabilidade civil, ainda, pode se dar por sua origem, como responsabilidade civil contratual. Nessa, conforme o próprio nome já diz, a responsabilidade emana de um prévio acordo entre as partes envolvidas, vindo esses a se tornar o agente e a vítima.

Essa responsabilidade surge quando há o descumprimento total ou parcial do contrato por parte de um dos contratantes. Resulta, assim, de ilícito contratual correspondente a falta de adimplemento ou a mora no cumprimento da obrigação.

Para Sílvio Rodrigues, (2002, p. 09):

A responsabilidade contratual cria obrigação de indenizar para aquele que não cumpriu sua parte no contrato, ocasionando prejuízo a outra parte, pois “na hipótese de responsabilidade contratual, antes de a obrigação de indenizar emergir, existe, entre o inadimplente e seu contratante, um vínculo jurídico derivado da convenção”.

Segundo leciona Diniz, (2011, p. 263):

Sendo o principio da obrigatoriedade da convenção um dos princípios fundamentais do direito contratual, as estipulações feitas no contrato deverão ser fielmente cumpridas, sob pena de execução patrimonial contra o inadimplente. O ato negocial, por ser uma norma jurídica, constituindo lei entre as partes, é intangível, a menos que ambas as partes o rescindam voluntariamente ou haja a escusa por caso fortuito ou força maior (CC, art. 393, parágrafo único) [...]. As obrigações devem ser, portando cumpridas; o devedor está obrigado a efetuar a prestação devida de modo completo, no tempo e lugar determinados no negócio jurídico, assistindo ao credor o direito de exigir o seu cumprimento na forma convencionada. O adimplemento da obrigação é a regra e o inadimplemento, a exceção [...].

Define-se, por tudo acima exposto, a responsabilidade civil contratual como a consequência do inadimplemento de uma obrigação do devedor, em face do credor.

Cabe salientar que o dever de provar o que alega, na responsabilidade contratual, compete aprioristicamente ao devedor, sendo este quem deve provar o

(24)

adimplemento, a inexistência de sua culpa ou a presença de qualquer excludente da obrigação de indenizar.

A responsabilidade civil extracontratual, por sua vez, também é muito conhecida como responsabilidade aquiliana, compreende aquela onde o agente não possui vínculo contratual com a vítima, mas passa a possuir um vínculo legal quando, por alguma ação ou omissão, o agente, agindo com culpa ou dolo, cause danos à vítima.

Conforme relata Diniz, (2002, p. 10):

A Lex Aquilia "veio a cristalizar a ideia de reparação pecuniária do dano, impondo que o patrimônio do lesante suportasse os ônus da reparação, em razão do valor da res, esboçando-se a noção de culpa como fundamento da responsabilidade, de tal sorte que o agente se isentaria de qualquer responsabilidade se tivesse procedido sem culpa. Passou-se a atribuir o dano à conduta culposa do agente. A Lex Aquilia de damno estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual, criando uma forma pecuniária de indenização do prejuízo, com base no estabelecimento de seu valor".

O Direito Civil pátrio, no âmbito das relações particulares, sempre priorizou a teoria subjetiva da culpa em detrimento da teoria objetiva.

Conforme Pamplona e Stolze, (2005, p. 84):

A diferença entra estas é que na contratual a responsabilidade decorre de um descumprimento de obrigação estabelecida contratualmente, em que um dos contratantes causa um dano ao outro, dano este originário do inadimplemento de uma obrigação antes estabelecida no contrato.

Todavia, pode-se verificar que a única diferença entre a responsabilidade civil contratual e extracontratual se encontra na circunstância de a contratual existir em virtude de um acordo de vontades preexistente e vinculante entre os envolvidos. A extracontratual, por sua vez, surge a partir de um descumprimento de um dever legal estabelecido genericamente para a coletividade.

(25)

1.3 Elemento da Responsabilidade Civil: O Dano

A responsabilidade civil tem por objetivo, genericamente, a reparação do prejuízo causado por ato indevidamente praticado por um agente, que tenha gerado ao ofendido a diminuição de seu bem jurídico.

Caso não se configure dano, não há que se falar, em princípio, em reparação, pois a obrigação reparatória só existe quando houver prejuízo a algum bem juridicamente tutelado, seja esse bem material ou imaterial.

Diniz, (2003, p. 112), preleciona sobre o dano definindo-o como: “lesão (diminuição ou destruição) que, devido a certo evento, sofre uma pessoa, contra sua vontade, em vontade, em qualquer bem ou interesse jurídico, patrimonial ou moral”.

Caso não tenha ocorrido o dano na esfera jurídica da vítima, não há hipótese alguma de se ter verificada a responsabilidade civil, ao contrario do que ocorre, por exemplo, na esfera penal. Na esfera civil, o dano sempre será elemento essencial na eclosão de responsabilização. Nesse contexto, não há responsabilidade civil por tentativa, mesmo que tenha ocorrido de forma dolosa.

Para Agostinho Alvim, (1972, p. 180):

Hipóteses tais como de juros de mora, cláusula penal e arras não pressupõem dano, estando mais ligadas à idéia de penalidade do que de ressarcimento de um dano, daí estarem fora do âmbito da responsabilidade civil. Ocorre que todas essas situações são tratadas pela legislação como „danos presumidos‟ – CC, arts. 404, §ú; 416, §ú; e 419, respectivamente –, mostrando o cuidado do legislador em manter a distinção apontada acima entre o caráter punitivo da sanção penal e o caráter reparatório da sanção civil.

O dano é o resultado da lesão ocorrida a um bem ou a um direito, ou seja, a perda e/ou diminuição do patrimônio, seja material ou moral, em decorrência do agir do agente. A parte lesada tem o direito legal de ser ressarcida ou de ver reparado o dano.

(26)

Para o dano ser indenizável ele deve ser “atual e certo” (OLIVEIRA 2008 apud VENOSA, 2003, p. 28), não se mostrando possível o ressarcimento de danos hipotéticos. Caso não haja dano concreto ou algum interesse da vítima violado, moral ou patrimonial, não indenização. Bem analisado, sequer haverá relação, eis que essa se materializa pela ocorrência do dano, com o efetivo prejuízo arcado pela vítima.

Sendo assim, para que se concretize a responsabilidade civil, deve-se comprovar a efetividade do dano, e que o mesmo tenha sido praticado injustamente pelo agente. A certeza da ocorrência do dano deve ser veraz, isso para que nenhuma pessoa seja responsabilizada por algum dano incerto ou algum suposto dano.

1.3.1 Dano moral e extrapatrimonial

Como pode-se extrair dos ensinamentos acima abordados, pode-se dizer que o dano moral é uma ofensa a integridade física ou mental de uma pessoa. O dano é caracterizado, como visto, quando a vítima se sente prejudicada nos seus direitos inerentes à personalidade.

O dano causado pela conduta ilícita do agente pode atingir o íntimo da pessoa lesada, ou pode atingir a valoração pessoal da vítima no meio em que ela vive. A relação entre o dano moral e a valoração deste dano é feita por uma quantificação deste dano, a qual é variável no tempo e no espaço. Para Humberto Theodoro Júnior (2001, p. 1):

No convívio social, o homem conquista bens e valores que formam o acervo tutelado pela ordem jurídica. Alguns deles se referem ao patrimônio e outros à própria personalidade humana, como atributos essenciais e indisponíveis da pessoa. É direito seu, portanto, manter livre de ataques ou moléstias de outrem os bens que constituem seu patrimônio, assim como preservar a incolumidade de sua personalidade.

Quando Theodoro fala em patrimônio, remete à ideia de danos referentes ao poder econômico, ao dano material. Contudo, esses danos podem ser

(27)

inegavelmente imateriais, sem valor econômico mensurável, mas com a mesma garantia e com a mesma proteção jurídica.

O patrimônio imaterial está ligado à individualidade da pessoa, a direitos como a intimidade, a imagem e a honra da ser, e, ao serem desrespeitados, causam danos nas esferas internas e valorativas do ser.

E sobre a relação de distinção entre o patrimônio jurídico tutelado e a natureza do dano a que ele incide, ressalta Diniz (2011, p. 108):

O caráter patrimonial ou moral do dano não advém da natureza do direito subjetivo danificado, mas dos efeitos da lesão jurídica, pois do prejuízo causado a um bem jurídico econômico pode resultar perda de ordem moral, e da ofensa a um bem jurídico extrapatrimonial pode originar dano material. Realmente, poderá até mesmo suceder que, da violação de determinado direito, resultem ao mesmo tempo lesões de natureza moral e patrimonial. Eis por que o dano moral suscita o problema de sua identificação, uma vez que, em regra, se entrelaça a um prejuízo material, decorrente do mesmo evento lesivo.

Desse modo, na esfera do dano ao patrimônio imaterial estão os danos subjetivos, que poderão lesar tanto o interesse patrimonial, mormente quando maculam a imagem, quanto o extrapatrimonial.

Para Teodoro Junior, (2001, p. 2) “são danos morais os ocorridos na esfera da subjetividade, ou no pleno valorativo da pessoa na sociedade, alçando os aspectos mais íntimos da personalidade humana”. Na mesma esteira de raciocínio, também defendendo a linha da subjetividade na caracterização do dano mora, leciona o professor Sílvio Venosa (2011, p. 49):

Dano moral é o prejuízo que afeta a ânimo psíquico, moral e intelectual da vítima. Sua atuação é dentro dos direitos da personalidade. Nesse campo, o prejuízo transita pelo imponderável, daí porque aumentam as dificuldades de se estabelecer a justa recompensa pelo dano. Em muitas situações, cuida-se de indenizar o inefável. Não é também qualquer dissabor comezinho da vida que pode acarretar a indenização.

O direito de reparação civil do dano moral sofrido pelo individuo lesado é visto de forma individualizada, distinta, mesmo que dentro de uma relação muitas

(28)

vezes semelhante. Melhor explicando, face a subjetividade de cada indivíduo, o que pode ser considerado dano moral para uma pessoa pode não ser considerado dano moral para outra.

O dano extrapatrimonial amplia a abrangência da lei para todo e qualquer dano que não seja de natureza patrimonial. Muitos doutrinadores, contudo, restringem o termo dano extrapatrimonial somente às violações aos direitos da personalidade.

A posição de Maria Celina Bodin, (2003, p. 157 - 158), referente ao dano extrapatrimonial é a seguinte:

"Assim, no momento atual, doutrina e jurisprudência dominantes têm como adquirido que o dano moral é aquele que, independentemente de prejuízo material, fere direitos personalíssimos, isto é, todo e qualquer atributo que individualiza cada pessoa, tal como a liberdade, a honra, a atividade profissional, a reputação, as manifestações culturais e intelectuais, entre outros. O dano é ainda considerado moral quando os efeitos da ação, embora não repercutam na órbita de seu patrimônio material, originam angústia, dor, sofrimento, tristeza ou humilhação à vítima, trazendo-lhe sensações e emoções negativas".

Pode se extrair daí que uma das principais características do dano extrapatrimonial é a impossibilidade de efetuar uma avaliação objetiva do dano, já que não há como mensurar o valor individual que cada um atribui ao bem protegido.

Sérgio Filho Cavalieri, (2005, p. 100), define esse dano como:

Violação do direito à dignidade, estando desvinculado do aspecto psíquico da vítima, de modo que a "dor, vexame, sofrimento e humilhação" são apenas reflexos do dano moral sofrido que podem ou não ocorrer, e não o dano em si, no que nos parece extremamente preciso.

Assim sendo, percebe-se que o dano extrapatrimonial se configura quando a lesão atingir diretamente o bem de ordem moral, sendo esse um bem como a vida, integridade psíquica ou física.

(29)

Segundo Oliveira (2008), o dano extrapatrimonial será indiretamente ligado à vítima quando essa experimentar um dano material que a atinja não por seu valor pecuniário, mas sim por um valor sentimental que seja superior ao valor monetário da coisa. “Nesse caso, a reparação tem por objetivo a diminuição do sofrimento psicológico e a consternação da vítima.” (OLIVEIRA, Daniele Ulguim, 2008).

1.3.2 Danos anexos e reflexos

O dano anexo/reflexo ocorre quando a ofensa é dirigida a uma pessoa, mas quem acaba sentindo os efeitos de tal ofensa é um terceiro, sendo esta a vítima indireta.

Pressuposto importante dessa espécie de dano é a existência de um vínculo jurídico entre a vítima direta e a vítima chamada indireta desse dano.

Um exemplo muito comum de dano reflexo, também conhecido como dano em ricochete, configura-se quando há a morte de uma pessoa em um acidente automobilístico. No caso, considerando que a vítima fatal tinha filho, esse acaba por sofrer um grande abalo psicológico em razão do dano causado diretamente na pessoa do pai.

Para melhor conceituar o dano moral reflexo, traz-se um conceito jurisprudencial desenvolvido por Sebastião de Oliveira, Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, em julgado daquela Corte Trabalhista:

“Dano moral indireto, reflexo ou, em ricochete, é aquele que, sem decorrer direta e imediatamente de certo fato danoso, com este guarda um vínculo de necessariedade, de modo a manter o nexo de causalidade entre a conduta ilícita e o prejuízo. Ainda que sejam distintos os direitos da vítima imediata e da vítima mediata, a causa indireta do prejuízo está intensamente associada à causa direta, tornando perfeitamente viável a pretensão indenizatória.”

Há casos evidentes em que as vítimas ditas indiretas sofrem lesões, danos, por vias reflexas aos danos causados em ou a terceiros, abrindo, assim, a

(30)

possibilidade dessas vítimas pleitearem a reparação por danos morais, que se dará por ricochete, ou seja, de forma indireta.

Cabe ressaltar que as indenizações por dano moral reflexo são referentes especificamente a lesões aos direito da personalidade, não tendo necessidade de prova acerca da sua ocorrência. A dor, a tristeza, a angústia, entre outros sentimentos são apenas consequências do dano sofrido pela vítima direta.

1.4 Teoria da chance perdida

A teoria da chance perdida, nos moldes do que pensa Silvia Renata Segatto Santos Nascimento, (2013, s.p.), é mais uma forma ampliativa do campo de atuação da responsabilidade civil. Essa teoria dá origem a uma nova visão de dano passível de indenização que independente de um resultado final.

Explica a autora que esse dano surge da ação ou da omissão de um agente que venha a privar outrem da oportunidade de chegar a um resultado, sendo responsabilizado por seu ato ainda que o evento futuro não seja item de certeza.

A teoria da chance perdida é um instituto de difícil constatação prática. Normalmente o dano se origina a partir de uma oportunidade perdida, estando ligada a uma probabilidade, situação essa que possivelmente aconteceria se a conduta do agente violador não existisse.

Com isso, vem a se aproximar dos chamados danos eventuais, os quais, por sua vez, face a sua imprevisibilidade, são danos que não são passíveis de indenização. (CHAMONE, Marcelo Azevedo, 2008, apud PESSOA, Jorge,1999, p. 386).

Contudo, a perda de uma chance também se aproxima muito do lucro cessante, onde o autor terá que provar que sem a existência do ato danoso o resultado pretendido ou imaginado teria se consumado, ou seja, ocorreria a chance que acabou sendo perdida.

(31)

Quando há a configuração da teoria da chance perdida, o autor do dano é responsabilizado por ter privado uma terceira pessoa de ter uma oportunidade de um resultado útil, ou também somente pelo fato de ter privado esta pessoa a evitar um prejuízo. (MORYA, Márcio, 2015). Não há responsabilização por ter causado um prejuízo direto e imediato à vítima, portanto.

É de suma importância respaldar que, na teoria da perda de uma chance concreta, pode ser configurado prejuízo ao próprio patrimônio da vítima, assim como aos atributos de sua personalidade. (TARTUCE, Flávio, 2012, p. 470).

Todavia, na maioria das decisões oriundas dos Tribunais brasileiros, a perda de uma chance não é abordada dessa forma. Normalmente as decisões que citam a teoria da perda de uma chance negam a indenização. Nesse sentido é o entendimento do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS MATERIAIS E MORAIS. ALEGAÇÃO DE NEGLIGÊNCIA E IMPERICIA DE ADVOGADO, QUE SERIA RESPONSÁVEL PELA REVELIA E INTERPOSIÇÃO INTEMPESTIVA DE APELAÇÃO. PROVA QUE SÓ PERMITE CONCLUIR PELA CULPA DO PROFISSIONAL NA ÚLTIMA HIPÓTESE. PERDA DE UMA CHANCE. POSSIBILIDADE DE INDENIZAÇÃO. NECESSIDADE, PORÉM, DA SERIEDADE E VIABILIDADE DA CHANCE PERDIDA. CIRCUNSTÂNCIAS NÃO PRESENTES NA ESPÉCIE. ACOLHIMENTO DO PEDIDO APENAS PARA CONDENAÇÃO DO PROFISSIONAL AO RESSARCIMENTO DOS HONORÁRIOS PAGOS PELOS AUTORES E PREPARO DO RECURSO INTEMPESTIVO. APELO EM PARTE PROVIDO. (Apelação Cível Nº 70005635750, Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Carlos Alberto Álvaro de Oliveira, Julgado em: 17/09/2003).

Cabe ainda salientar que mesmo que não haja um dano certo e determinado, existe um prejuízo para a vítima que é decorrente da expectativa que ela possuía em conseguir um benefício ou ate mesmo evitar um prejuízo. Para que ocorra a possibilidade de reparação civil das chances eventualmente perdidas, elas devem ser enquadradas como se fossem danos.

Para Sérgio Savi, (2006, p. 03), a indenização de perda da chance é aquela em que “não se busca o ressarcimento pela vantagem perdida, mas sim pela

(32)

perda da oportunidade de conquistar aquela vantagem ou evitar um prejuízo, totalmente desvinculada do resultado final, no caso, o provimento jurisdicional”.

Glenda Gonçalves Gondim, (2005, p. 23), discorre a respeito da teoria da chance perdida asseverando que:

“é preciso insistir também no fato de que, a perda da oportunidade de ganho ou de evitar um prejuízo sob o aspecto do dano material, imprescindível que a chance seja séria e real, excluindo-se as meras expectativas e possibilidades hipotéticas”.

Pode-se, perceber que não é a reparação do dano que se quer, mas sim a reparação da chance perdida, não admitindo assim, as expectativas improváveis ou até mesmo incertas, que são desamparadas pelo Direito Brasileiro.

A chance a ser indenizada deve se referir a algo que muito provavelmente iria ocorrer, mas com a concretização do ato danoso, restou frustrada. Assim, requer-se a reparação apenas das oportunidades palpáveis de ganho, ou ainda, de se evitar um prejuízo, excluindo dessa teoria à mera possibilidade eventual. Já, quando se trata da perda de um ganho futuro e certo, possui-se um lucro cessante.

Portanto, a teoria da perda de uma chance auxilia na obtenção de uma reparação quando há frustrações nas oportunidades perdidas, sendo de suma importância destacar que para a análise dos casos sob dita tese, o dever de reparar o dano deverá caracterizado somente após uma análise criteriosa do caso que está em tela, considerando assim, principalmente a razoabilidade e a probabilidade da ocorrência do resultado que a vítima busca para afirmar a perda da chance.

Abordados, dessa forma, os aspectos fundamentais acerca da responsabilidade civil, resta autorizada uma análise mais detida acerca da sua aplicabilidade nas relações de trabalho, mormente sobre o aspecto do dano existencial, teoria que encontra-se em pauta perante os tribunais pátrios, o que se fará no capítulo seguinte.

(33)

2. RESPONSABILIDADE CIVIL APLICADA AO DIREITO DO TRABALHO E O DANO EXISTENCIAL

Dentre as relações interpessoais especificamente regradas na nossa Constituição Federal analítica, mereceu, pelo constituinte, uma atenção especial a relação de trabalho.

Acredita-se que essa atenção se deve ao inegável poder econômico que o empregador exerce sobre o empregado, de forma que esse, o empregado, mostra-se o elo frágil da relação.

Assim, evidente a necessidade de uma proteção maior à parte hipossuficiente, sendo que tanto a Lei Maior do país, como as leis extravagantes trazem regras protetivas aos trabalhadores, as quais serão analisadas em pontos específicos, importantes aos fins colimados nesse trabalho.

2.1 Responsabilidade civil no acidente de trabalho

De acordo com o que leciona Fernanda Mano Affonso (2013, s.p.), o empregador é responsável civilmente pela segurança daqueles que compões sua equipe de trabalho. O empregador possui inúmeras responsabilidades sobre o empregado, como zelar por suas condições de trabalho. A manutenção do ambiente laboral fica por conta do empregador, pois a saúde do trabalhador vem sendo alvo de incontáveis campanhas e ações positivas, tudo em busca de condições adequadas ao desenvolvimento salutar do labor.

Consoante o que dispõe o artigo 7º, inciso XXVIII, da Constituição Federal, 1988, é direito fundamentar do empregado o “seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa”.

Assim, quando ocorrer um acidente de trabalho o empregado terá sempre o amparo da Previdência Social, pois assegura os empregados o gozo do direito ao benefício de auxílio-doença, caso fique incapacitado, conforme dispõe o artigo 59,

(34)

da Lei 8.213/1.991, e de auxílio-acidente, caso tenha diminuição de capacidade laboral, consoante o artigo 86 da referida Lei.

Esses benefícios são obrigatórios e independem de um agir culposo ou doloso do empregador no fato danoso que tenha ocorrido. Contudo, o deferimento desse benefício não exclui a responsabilidade civil que poderá eventualmente surgir.

Já no que tange a esfera indenizatória, que é devida pelo empregador ao empregado quando ocorre acidente de trabalho no âmbito laboral, tem-se que ela não é devida automaticamente. Segundo dispõe a própria Constituição, o dever de indenizar somente cabe quando for constatado que o empregador agiu com dolo ou culpa. Caso um desses dois requisitos não seja constatado, o empregador não será obrigado a ressarcir o trabalhador.

A responsabilidade civil leva em conta o nexo de causalidade que há entre o acidente de trabalho e o resultado do dano sofrido pelo trabalhador.

O artigo 19, da Lei 8.213, de 24 de Julho de 1991, que dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências, conceitua o acidente típico de trabalho da seguinte forma:

Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

Assim, percebesse que o artigo citado acima define o acidente de trabalho como o evento bem definido no tempo e no espaço, que provem do exercício do trabalho, e que termina por provocar alguma lesão corporal, funcional ou que cause morte, perda ou redução da capacidade laboral.

Contudo, não é somente o típico acidente que traz responsabilidades ao empregador, havendo outros casos em que o dever ressarcitório aflora ao empregado, como se verá.

(35)

2.1.1 Doenças ocupacionais

As doenças ocupacionais ou doenças profissionais são derivadas do trabalho e causam o afastamento de milhares de trabalhadores de suas funções laborais. A doença ocupacional sempre estará relacionada ao tipo de atividade que o trabalhador exerce, da atividade mais simples a mais complexa.

E, quando o assunto é doença relacionada ao trabalho, é de suma importância à conceituação trabalhada no art. 20, I, da Lei de Benefícios da Previdência Social (Lei nº 8.213 de 24 de Julho de 1991), in verbis: “Art. 20, I. Doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social.

Qualquer tipo de doença ocupacional pode ser adquirida por meio da exposição do trabalhador a diversos tipos de agentes nocivos a saúde, como os agentes radioativos, biológicos, químicos e físicos.

Porém, as causas mais comuns de doenças ocupacionais são físicas, como o desempenho de tarefas com movimentos repetitivos, de onde advém a LER, exercícios de atividades que demandem esforço demasiado, posições antiergonômicas, que podem ocasionar diversos problemas em articulações, problemas de coluna, entre tantos outros.

Referente a doenças ocupacionais ou profissionais, respalda Antônio Lopes Monteiro e Roberto Fleury de Souza Bertagni, (2000, p. 15):

As doenças profissionais, conhecidas ainda com o nome de “idiopatias”, “ergopatias”, “tecnopatias” ou “doenças profissionais típicas”, são produzidas ou desencadeadas pelo exercício profissional peculiar de determinada atividade, ou seja, são doenças que decorrem necessariamente do exercício de uma profissão. Por isso, prescindem de comprovação de nexo de causalidade com o trabalho, porquanto há uma relação de sua tipicidade, presumindo-se, por lei, que decorrem de determinado trabalho. Tais doenças são ocasionadas por microtraumas que cotidianamente agridem e vulneram as defesas orgânicas e que, por efeito cumulativo, terminam por vencê-las, deflagrando o processo mórbido.

(36)

Com isso, percebe-se que a doença ocupacional é desencadeada em virtude do exercício da função do trabalhador em uma determinada área de atuação, estando diretamente ligada à profissão.

Diferentemente, acerca da doença ocupacional, pode-se falar em doença do trabalho, que não está atrelada diretamente a atividade desempenhada pelo trabalhador, mas sim o local onde o empregado é obrigado a realizar seu labor, caso da surdez, decorrente do ruído do ambiente, o câncer, que tende a acometer trabalhadores de minas, refinarias de níquel, eis que estão expostos a elementos radioativos, entre muitas outras.

Todas essas situações de agravos sofridos pelos empregados, além da proteção específica levada a feito pelo Governo através da Seguridade Social, também são fatos geradores de responsabilidade civil por parte do empregador, que, como visto, possui o dever de zelar pela integridade do seu funcionário.

2.1.2 Assédio moral

O assédio moral deriva da à exposição de uma pessoa a situações constrangedoras e humilhantes, que devem ocorrer repetidas vezes e por um tempo prolongado, durante a jornada de trabalho ou no exercício da atividade laboral.

Tal modalidade de assédio pode ser divido em assédio descendente, assédio ascendente e assédio horizontal, cada um com usas especificações e peculiaridades.

Em seu artigo online, Sônia A. C. Mascaro Nascimento, (2004, s.p.), trata o assédio moral no ambiente de trabalho da seguinte forma:

O assédio moral é concebido como uma forma de "terror psicológico" praticado pela empresa ou pelos colegas, que também é definido como "qualquer conduta imprópria que se manifeste especialmente através de comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos capazes de causar ofensa à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, de colocar seu emprego em perigo ou de degradar o clima de trabalho"

(37)

Como já referido alhures, existem diferentes tipos de assédio, que serão abordados de acordo com o que prega Luciana Santos Trindade Capelari (2009). O assédio descendente, tipo mais comum, se dá de forma vertical, de cima para baixo, quando há certa hierarquia entre o assediador e o assediado. Nesse caso, predominam as condutas negativas, antiéticas e desumanas, que perduram no tempo, podendo partir de um ou mais chefes em relação a um ou mais subordinados, deixando a vítima em uma situação delicada em relação ao ambiente de trabalho.

Nessas situações, o principal objetivo é a desestabilização do trabalhador, fazendo com que ele cada vez produza menos, sempre com a impressão de que os objetivos não estão sendo alcançados, até mesmo quando eles já foram ultrapassados.

Tais ações sob empregado tornam-se insustentáveis para a permanência deste em seu local de trabalho, podendo causar inúmeros danos psicológicos e até mesmo danos físicos, como efeitos externalizados em razão do estresse causado pelo assédio.

Caracterizam assédio moral ações como xingamentos perante os demais colegas de trabalho, negar folgas efetivamente devidas, prolongar jornadas de trabalho quando os demais funcionários são dispensados, exigir metas inatingíveis somente em cima de um mesmo funcionário, entre inúmeras outras.

Há também o assédio ascendente, que é um tipo mais raro de assédio. Ele também se dá de forma vertical, mas de baixo para cima, ou seja, quando o empregado ou um grupo de empregados pratica contra o(s) chefe(s), já que somente um subordinado dificilmente iria conseguir desestabilizar um superior.

O assédio ascendente pode ocorrer em casos onde o funcionário possui uma ambição excessiva na empresa, querendo alçar o lugar do superior hierárquico. Outro exemplo palpável seria quando um funcionário, supostamente menos qualificado que os demais, assume o cargo de chefia através de uma promoção na

(38)

empresa. Tal fato pode causar revolta entre os demais colegas de trabalho, que passam a importuná-lo.

Por fim, ainda temos o assédio horizontal, praticado por colegas no mesmo nível hierárquico, sem que exista qualquer tipo de relação de subordinação entre eles. Este assédio é comum quando os colegas de trabalho buscam o mesmo objetivo, uma recompensa por serviços prestados, uma promoção, um cargo de chefia. Ocorre até mesmo por questões pessoais, como intolerância política, discriminação por credo, classe social, cor, dentre outros.

Contudo, pontua-se que na maioria das vezes esse tipo de assédio é interpretado pelo empregador não como algo ruim, que vá atrapalhar a produtividade ou a lucratividade dos negócios, mas sim de uma forma benéfica, ou seja, veem como um estímulo ao crescimento pessoal, profissional e, consequentemente, de produtividade. (CAPELARI, Luciana Santos Trindade, 2009).

Contudo, vale relembrar que a empresa é totalmente responsável pelos fatos ocorridos no âmbito do local de trabalho, na medida em que, se há assédio, é porque a empresa está sendo desidiosa em relação aos seus funcionários.

2.1.3 Análise jurisprudencial

Ante a imensa variedade de relações no âmbito das relações trabalhistas, é fácil identificar, no âmbito da Justiça do Trabalho, decisões que buscam compor litígios onde ocorreram situações como as acima tratadas.

Acidentes típicos de trabalho são situações recorrentes, mormente em setores primários, indústrias metalúrgicas, entre outras, como se percebe do seguinte julgado:

RECURSO ORDINÁRIO DO AUTOR. ACIDENTE DO TRABALHO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS (SALÁRIOS DO

PERÍODO DE AFASTAMENTO DO TRABALHO).

RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO EMPREGADOR. ACIDENTE DE TRÂNSITO. RISCO DA ATIVIDADE. FATO DE TERCEIRO AFASTADO. Os danos decorrentes de acidente de

(39)

trânsito vivenciado em decorrência da execução do contrato de trabalho de atividade de risco (motoboy) ensejam o reconhecimento da responsabilidade civil objetiva do empregador, bem como a reparação pecuniária, na forma de indenização por danos materiais nos limites do pedido. Não constitui fato de terceiro o sinistro (acidente com motocicleta) ocorrente durante a atividade de entregador de medicamentos desempenhada em favor do empregador. (Recurso Ordinário Nº 0020294-74.2014.5.04.0025. Segunda Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Relator Desembargador: Marcelo Jose Ferlin D´Ambroso. Julgado em: 03/02/2016).

Percebe-se, facilmente, que a teoria encampada nessa decisão é a da responsabilidade objetiva do empregador, que deve responder pelos danos causados/sofridos pelos empregados, justamente em razão de serem eles, os empregadores, que respondem pelo risco da atividade.

Já em se cuidando de doenças ocupacionais, legalmente equiparadas ao acidente de trabalho, o tratamento jurisprudencial é o mesmo despendido aos casos de acidente típico. Nesse sentido:

DOENÇA OCUPACIONAL EQUIPARADA A ACIDENTE DO TRABALHO. CONCAUSA. O empregador está obrigado a indenizar o empregado quando ficar provada a existência de lesão (dano) e o nexo de causalidade entre esta e as atividades exercidas pelo empregado, ainda que indiretamente, na proporção de sua participação para o evento danoso. (Recurso Ordinário Nº 0021156-91.2015.5.04.0451. Terceira Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, Relator Desembargador: Clovis Fernando Schuch Santos. Julgado em: 15/03/2018.).

Além dessas situações, também o assédio moral é facilmente identificado na Justiça do trabalho como motivo de indenizações, in verbis:

INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. ASSÉDIO MORAL. Evidenciada a conduta abusiva - omissiva ou comissiva; repetida ou sistematizada - que atente contra a dignidade ou integridade psíquica, ou mesmo física do trabalhador, caracterizado está o assédio moral, sendo devido, então, o pagamento de indenização por dano moral. (Recurso Ordinário Nº 0020071-96.2016.5.04.0334. Terceira Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, Relator Desembargador: Clovis Fernando Schuch Santos. Julgado em: 31/05/2017).

(40)

Por essa decisão, pode-se extrair que é rigorosamente sopesada a prova produzida nos autos acerca das alegações de assédio moral, a fim de que sejam deferidas indenizações aos trabalhadores. Mesmo no sistema protetivo ao trabalhador, claramente evidenciado na Justiça do trabalho, precisa-se se provar a conduta repetida ou sistematizada do assediador a fim de que seja concedido o direto à reparação dos danos psíquicos ou à dignidade, sofridos pelo empregado.

2.2 Responsabilidade civil no dano existencial

A responsabilidade civil é um dever jurídico sucessivo, que surge por meio da quebra de um dever jurídico que existia anteriormente, seja por meio de um contrato, ou pelo dever geral da segurança ou até mesmo o dever de não lesar ninguém.

Desse modo, esclarece-se que a pessoa que causar um dano a alguém, agindo de uma forma ou até mesmo deixando de agir, deve arcar com as consequências e/ou responder pelos prejuízos causados, independentemente se anteriormente já havia uma relação preexistente ou não com a vítima, tendo assim, o dever de reparação do dano causado a outrem.

Desse modo, a responsabilidade civil no âmbito do dano existencial consiste em um dano extrapatrimonial ou imaterial, não repercutindo, assim, sobre o patrimônio do individuo, mas sim sobre a sua própria existência, dificultando o individuo de retomar as atividades ou até mesmo suas relações de âmbito familiar.

Conforme publicado em temáticas jurídicas online, por Fernanda Leite Bião e Hindemberg Alves Frota, (2011, s.p.):

O dano existencial constitui espécie de dano imaterial ou não material que acarreta à vítima, de modo parcial ou total, a impossibilidade de executar, dar prosseguimento ou reconstruir o seu projeto de vida (na dimensão familiar, afetivo-sexual, intelectual, artística, científica, desportiva, educacional ou profissional, dentre outras) e a dificuldade de retomar sua vida de relação (de âmbito público ou privado, sobretudo na seara da convivência familiar, profissional ou social).

Referências

Documentos relacionados