2. RESPONSABILIDADE CIVIL APLICADA AO DIREITO DO TRABALHO E O
2.3. Danos Existenciais nas Relações De Trabalho
2.3.1 Dano existencial na casuística brasileira
No judiciário brasileiro, a discussão acerca da configuração do dano existencial não é novidade, havendo julgados de quase dez anos atrás nos quais a matéria já estava em pauta.
Na seara trabalhista, até os dias atuais, entende-se o dano existencial como subespécie de dano moral. E, em razão disso, há jurisprudência pacífica no sentido de que a ocorrência do dano existencial deve ser provada por quem alega tê-lo sofrido. Nesse sentido, seguem algumas ementas:
HONORÁRIOS ASSISTENCIAIS. Preenchidos os requisitos previstos no art. 14 da Lei nº 5.584/70, que regula a concessão do benefício da assistência judiciária na Justiça do Trabalho, é devido o pagamento de honorários assistenciais. Recurso ordinário da reclamada improvido, no aspecto. DANOS EXISTENCIAIS. REALIZAÇÃO DE JORNADAS DE TRABALHO EXCESSIVAS. NÃO CONFIGURAÇÃO. A realização de jornadas de trabalho excessivas, por si só, não são aptas a configurar dano existencial indenizável. Recurso ordinário do reclamante improvido, no tópico. INTERVALOS ENTRE JORNADAS. A exemplo do que ocorre com a não concessão correta do intervalo previsto no art. 71 da CLT, o empregado faz jus a receber como hora extra o período não usufruído referente ao intervalo previsto no art. 66 da CLT, independentemente do trabalho realizado e já remunerado pela reclamada, pela aplicação analógica do § 4º do art. 71 da CLT, não havendo falar em mera infração administrativa nem em bis in idem. Recurso ordinário da reclamada improvido, no item. (Recurso Ordinário Nº 0001188- 73.2011.5.04.0012. Décima Primeira Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Relator Desembargador: Flávia Lorena Pacheco. Julgado em: 14/03/2013).
INDENIZAÇÃO POR DANOS EXISTENCIAIS. JORNADA DE TRABALHO EXCESSIVA. Embora inafastáveis os transtornos havidos na vida do reclamante em razão da extensa jornada de trabalho a que submetido, entendo que tal circunstância, por si só, não tem o condão de violar seus direitos de personalidade, não ensejando à percepção de reparação por danos existenciais. Absolvição que se impõe. (Recurso Ordinário Nº 0001181- 45.2011.5.04.0121. Quarta Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Relator Juiz Convocado: João Batista de Matos Danda. Julgado em: 30/10/2013).
INDENIZAÇÃO POR DANO EXISTENCIAL. PRESTAÇÃO DE HORAS EXTRAS. A realização de extensa jornada pelo empregado não configura, por si só, o dano existencial, o qual depende de prova. Caso em que o autor não se desonerou do ônus que lhe competia de demonstrar suas alegações no sentido de que o fato de ter laborado em jornada extraordinária tenha ofendido sua dignidade, ou que tenha ensejado prejuízo para as suas relações interpessoais. (Recurso Ordinário Nº 0000325-79.2011.5.04.0251. Quinta Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Relator Desembargador: Clóvis Fernando Schuch Santos. Julgado em: 03/04/2014).
A linha de decisões acima exposta culminou na aprovação, pelo Pleno do Tribunal Regional do Trabalho da Quarta Região, da “Tese Jurídica Prevalente nº 2”, que prega: “Não configura dano existencial, passível de indenização, por si só, a prática de jornadas de trabalho excessivas”. Tal tese vem sendo regularmente utilizada como fundamento em decisões acerca do assunto, como se constata do seguinte:
EMENTA DANO EXISTENCIAL. NÃO CONFIGURAÇÃO. INDENIZAÇÃO INDEVIDA. O trabalho em extensas jornadas não é bastante a ensejar a indenização por dano existencial, sendo devida, tão somente, a reparação patrimonial, consubstanciada no pagamento das horas extras realizadas. Aplicação da Tese Jurídica Prevalecente nº 02 deste Tribunal. (Recurso Ordinário Nº 0021071- 83.2016.5.04.0641. Sexta Turma. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, Relator Desembargador: Fernando Luiz de Moura Cassal. Julgado em: 16/06/2017).
Assim, pode-se concluir que, apesar de ser amplamente aceita a existência do chamado dano existencial no cenário jurídico brasileiro, a sua configuração e comprovação é extremamente difícil na parte prática, o que se deve, especialmente, a dificuldade de provas acerca dos fatos alegados.
Muitas vezes, os fatos dependem de prova negativa, impossível de ser produzida, ou depende de depoimento de testemunhas, as quais normalmente não são encontradas fora do âmbito familiar (as pessoas que podem confirmar o sofrimento gerado pela jornada de trabalho excessivo são os parentes próximos, que no máximo seriam inquiridas como informantes, tendo valor relativo o seu depoimento).
Ainda, imbuído no contexto do dano existencial, surge o conceito de dumping social, que nada mais é do que a responsabilização das empresas diante das reclamações trabalhistas que envolvam violações extremas aos direitos dos empregados.
A ideia dessa responsabilização surge das inúmeras reclamações trabalhistas advindas das longas e desumanas jornadas de trabalho que os empregadores impõe aos seus empregados, tudo com o objetivo de aumentar a produção da empresa e reduzir custos de produção.
Dumping social, portanto, é o reiterado descumprimento dos direitos trabalhistas, prática tão grave que é capaz de gerar dano à sociedade, constituindo evidente ato ilícito.
Conforme o que dispõe José Roberto Namura, (2015, s.p.):
Em reclamações trabalhistas em que forem constatados atos reiterados que violem os direitos dos trabalhadores, como por exemplo, salários atrasados, ausência de pagamento de verbas trabalhistas, horas extras em excesso e sem anotação do cartão de ponto, poderão ser classificados como prática do "dumping social". E, em face desta prática, os Julgadores entendem que a empresa deverá responder, financeiramente, por este dano social.
O montante que a empresa deverá pagar referente à condenação por dumping social é arbitrado pelo magistrado, que analisa os fatos, as normas e os valores envolvidos na pratica do reclamado.
Portanto, verifica-se que, na maioria das vezes, apesar de reconhecer a possibilidade de existir uma área de afetação do dano existencial, os julgamentos apontam uma insuficiência probatória acerca do prejuízo que a parte alegou, pelo que, até então, o que se tem é a maciça improcedência dos pedidos de reparação pelos danos ao projeto de vida e à vida de relações.
CONCLUSÃO
A pesquisa sobre o dano existencial em face das relações de trabalho foi relevante, pois nos dias atuais, vê-se, cada vez mais, um movimento de mitigação dos direitos trabalhistas por parte dos empregadores, que estão positivados não só na Constituição Federal, mas também na Consolidação das Leis Trabalhistas.
Com o intuito de lucro dos empregadores mais evidenciado em face do meio capitalista instalado, esses passam a requer, de seus empregados, longas jornadas de trabalho, em locais de trabalho muitas vezes inapropriados para a realização das atividades, gerando condições verdadeiramente indignas. Essas condições de labor acabam acarretando inúmeras consequências aos empregados, que na maioria das vezes tem de se dedicar integralmente ao trabalho.
A teoria do dano existencial nas relações tuteladas pelo direito do trabalho veio para possibilitar ao trabalhador a indenização pelas perdas sofridas, eis que se verificam, em muitos casos, prejuízos nas relações familiares e sociais, ou até mesmo o insucesso na realização de sonhos e projetos de vida.
Desse modo, percebe-se que o dano existencial foi uma grande evolução no direito brasileiro, tendo partido de um conceito próprio, não confundindo com as demais espécies de danos, o que possibilita a sua cumulação com reparações de prejuízos causados nas esferas patrimoniais e extrapatrimoniais distintas.
A indenização do dano existencial no âmbito trabalhista não busca a compensação de situações corriqueiras, como a prestação de horas extraordinárias,
pois estas já são estipuladas pela Legislação Trabalhista. Busca-se a indenização pelas consequências geradas pelo desrespeito aos direitos sociais do trabalhador, como a perda e/ou limitação do projeto de vida e da vida de relação. Trata-se, portanto, de uma indenização aos prejuízos comprovados à vida do indivíduo, que fora atingida pelo abuso no âmbito laboral.
No trabalho em tela foram analisadas a origem, as diferenças e semelhanças entre as demais espécies de danos, as causas da ocorrência do dano existencial e a sua aplicação no ordenamento jurídico brasileiro, buscando evidenciar as questões que são relativas ao dano existencial, tanto na responsabilidade civil como na seara trabalhista.
Em suma, mesmo possível, conclui-se que a indenização pelos danos existenciais ainda é rara, especialmente pela dificuldade probatória acerca dos prejuízos palpáveis ao projeto de vida e à vida de relações do trabalhador, ponto que certamente deverá ser melhor explorado futuramente.
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